Cabeça de Europa
António Sardinha
RESUMO
Cabeça de Europa: Aliança Peninsular e Destino Hispânico
- Introdução. Este capítulo explora a relação histórica, geopolítica e cultural entre Portugal e Espanha, abordando o conceito de “unidade hispânica” e o papel singular da Península Ibérica como elo entre continentes e civilizações. Aqui se discute a necessidade de superação de rivalidades históricas para estabelecer uma aliança efetiva, tanto no plano material quanto no espiritual, capaz de restaurar a grandeza perdida dos povos ibéricos e de seus descendentes no mundo.
- Interesse Peninsular e Civilização. A unidade hispânica não é propriedade exclusiva de Portugal ou de Espanha. O chamado “interesse peninsular” manifestou-se historicamente na defesa e expansão de um tipo superior de civilização, desenvolvido e difundido por ambos os povos. Durante a Reconquista, portugueses e castelhanos colocaram de lado disputas internas para enfrentar a ameaça externa do islamismo, interesse da Península e também da ordem europeia. Essa direção civilizacional, equivocadamente chamada de “latina”, foi na essência uma obra hispânica.
- Papel Geográfico e Histórico da Península. A predestinação da Península Ibérica é atribuída à sua excepcional posição geográfica, servindo de ponte entre a Europa, África e, futuramente, a América. Sardinha cita o geólogo Hernández-Pacheco para descrever a singularidade dessa localização e a sua importância estratégica, desde a Antiguidade até à Era dos Descobrimentos, quando a Península se projectou como “terraço da Europa”. A posição intermediária intensifica a sua vocação de ligação entre mundos e culturas.
- A Aliança Peninsular: Condições e Desafios. António Sardinha volta a recorrer ao pensamento de Moniz Barreto para defender que a prosperidade das nações peninsulares coincide historicamente com períodos de aliança, enquanto a decadência acompanha o desentendimento e o isolamento. A política de aliança, especialmente a seguida pela Casa de Avis, é vista como resposta lógica aos problemas históricos e atuais. Barreto argumentou que a neutralidade é uma ilusão sem garantias sólidas e que a aliança entre Portugal e Espanha será o único expediente viável para resguardar interesses comuns, especialmente em face de ameaças externas e de um instável contexto internacional.
- Vantagens e Limites da Aliança. Para ser efetiva, a aliança precisa ser vantajosa para ambos os lados. É analisado o ambiente moral e político, destacando simpatias genuínas, mas também a necessidade de uma política realista guiada por interesses concretos. Espanha busca defender a sua integridade territorial e manter o statu quo em Marrocos, e vê na aliança com Portugal uma garantia de segurança ocidental e acréscimo de força militar, sem o ónus de alianças mais dispendiosas. Apesar das forças conjuntas não serem suficientes para intervir de modo decisivo na Europa, serão relevantes para garantir a autonomia peninsular.
- Obstáculos Internos e a Questão do Patriotismo. A decadência das duas nações é atribuída à dispersão de vontades, à ausência de um princípio unificador e à influência negativa de modelos políticos estrangeiros. Sardinha sublinha que apenas um patriotismo enraizado nas lições do passado e voltado para um projeto comum poderá restaurar a estabilidade e o protagonismo da Península. A preparação do patriotismo, tanto português quanto espanhol, é vista como condição fundamental para uma aproximação sincera e duradoura.
- Supernacionalismo e Papel Global. O patriotismo peninsular deve evoluir para um “supernacionalismo”, abrangendo também as demais nações de origem ibérica, sobretudo na América. Sardinha cita Sílvio Romero para realçar o papel dos hispano-portugueses na formação de novas pátrias e contrasta esse modelo com o colonialismo britânico. Defende que a união das famílias hispânicas, tanto na Europa quanto na América, é essencial para enfrentar desafios globais e garantir a sobrevivência e a influência das suas culturas e línguas.
- O Perigo da Desunião. Um artigo do The San Francisco Examiner, citado por Rafael Altamira, exemplifica a percepção externa do potencial, mas também da fragilidade, dos povos hispano-portugueses. O texto salienta que a desunião e as lutas fratricidas têm impedido o florescimento pleno das nações hispano-americanas. O episódio simbólico de Agatão Tinoco, narrado por Ángel Ganivet, ilustra a tragédia da diáspora hispânica e a necessidade de reconexão com as raízes e o espírito coletivo.
- Restauração da Alma Peninsular. A restauração da Península Ibérica como “cabeça da Europa” passa pela redescoberta das diretrizes fundamentais do génio peninsular e pelo rompimento com os fetiches políticos importados, que desviaram Portugal e Espanha dos seus destinos históricos. O texto propõe que a clareza e a renovação comecem internamente, para depois se projetarem em uma aliança espiritual e política no mundo.
- Conclusão. António Sardinha defende que a superação da decadência peninsular deve ocorrer por meio da restauração de um espírito de aliança transnacional hispânica. Apenas uma estreita colaboração entre os povos de civilização hispânica - entre os povos de língua e cultura portuguesa e espanhola - fundada em valores históricos e culturais comuns, poderá garantir o seu renascimento e relevância global no novo século. Se assim for, a Península poderá novamente ser, como sonhou Camões, não apenas a “cabeça da Europa”, mas a sua salvadora.
Cabeça de Europa
Provado como fica que há uma unidade hispânica e que existe, consequentemente, um interesse peninsular, já se sabe que semelhante interesse não é nem pertença exclusiva de Portugal, nem de Espanha propriamente dita. Resulta, evidentemente, da soma natural e concorde dos interesses vários das duas gloriosas pátrias da Península. Em que se concretiza, porém, o interesse peninsular? Concretiza-se, sobretudo – insistimos – salvaguarda do tipo superior de civilização, criado e difundido tanto por Castela, como por Portugal. O ‘interesse peninsular’ leva, durante a Reconquista, castelhanos e portugueses a suspenderem as suas lutas de limites e de desenvolvimento, para de frente encararem o islamismo nas Navas de Tolosa e no Salado. O ‘interesse da Península’, perante um inimigo que a ameaça escravizar, é aí, não só o interesse conjunto de Castela e Portugal, mas um interesse maior e mais sagrado – o interesse da ordem europeia. Assim, o tipo de civilização que as duas pátrias da Península salvaram da subversão e que derramaram depois pelo mundo, é na sua essência o que equivocadamente se designa por ‘civilização latina’.
Trata-se de uma como que predestinação que a Península já trazia consigo, desde o mais recuado dos tempos. Devia-a à sua excepcional posição geográfica – situação tão rara e tão privilegiada, que entendemos reproduzir os termos com que no-la descreve um autorizado sábio espanhol. Eis como se expressa a tal respeito o eminente geólogo D. Eduardo Hernández-Pacheco no seu Discurso de admisión à Real Academia de Ciencias Exactas, Fisicas y Naturales[1]: «La Península ibérica ocupa en el extremo del conjunto peninsular europeo una situación avanzada hacia el Oeste y hacia el Sur, de tal modo que constituye el término de enlace entre Europa y el Continente africano, de cuyos caracteres fisiográficos participa en gran parte, de tal modo que, mientras por el Noroeste, el borde cantábrico y la cordillera pirenaica y en cierta zona de su prolongación por las montañas catalanas, su fisiologia es claramente europea, la mayor parte coincide com los caracteres norte-africanos occidentales, ofreciendo el tipo intermedio o mediterráneo la ancha zona levantina que asciende hacia las mesetas centrales.»
«Por otra parte – acrescenta o mencionado autor, es la tierra más avanzada hacia el Oeste del actual Continente europeo, siendo la más cercana a América, situación central y privilegiada, que contribuye a explicar en el pasado geológico el carácter de sus faunas de mamiferos terciarios, com analogias con las americanas, como algunos descubrimientos recientes van poniendo en evidencia, pudiendose suponer que nuestro país fue en aquellas remotas épocas lugar de origen, y cientro de dispersión de ciertas especies, tales como algunas antecesoras de los equidos actuales, através de las entonces existentes tierras atlánticas.» E Hernández-Pacheco prossegue: «Esta especial situación geográfica nos explica también porqué en reciente época histórica ejerciera España el dominio del mundo, y los pueblos ibéricos, españoles y portugueses, extendiesen su influjo hacia América y hacia África, avanzando sus navegantes por el ignoto y oscuro Atlántico hacia nuevas tierras, o, remontando la inhospitalaria costa africana, doblaron el Cabo de las Tormentas y, proa al desconocido, se extendieron por todos los mares y por toda la redondez de la tierra.»
Lançada conjuntamente sobre o Mediterrâneo e sobre o Atlântico, a Península participou em outras eras dos benefícios do mar antigo das civilizações, como participa hoje da hegemonia atlântica, cada vez mais acentuada, da Idade Moderna. Compreende-se sem dificuldade como através da Península se transmitissem à restante Europa as velhas formas culturais, comunicadas do Oriente. A importância da Península assinala-se logo no alvor dos tempos proto-históricos, e a partir de então a violência com que a disputam na Antiguidade os povos predominantes ensina-nos bem o valor que já se lhe atribuía. Mais tarde, pela Península se estadeiam, com maior ou menor sucesso, os vários imperialismos, conscientes ou instintivos, que aspiram ao senhorio universal do Orbe. Se a posição imcomparável da Península lhe atrai com os piores flagelos um turbilhão interminável de invasões, abre-lhe por isso mesmo as mais belas perspectivas do futuro. Enquanto os roteiros da civilização se concentram no Mediterrâneo, ninguém é mais favorecido por eles de que a Península. Deslocam-nos para o Atlântico as Descobertas – e a Península, terraço da Europa, onde, segundo o Épico, «a terra acaba e o mar começa», vê desdobrar-se-lhe diante um horizonte sem fim, carregado das melhores promessas. A sua qualidade de terra intermediária intensifica-se e aumenta de alcance. E olhando agora às nações moças do Novo-Mundo, podemos, na verdade, afirmar que a hora presente, como nenhuma outra, é ‘a hora da Península’!
Efectivamente, na preponderância já definida dos países americanos, o Atlântico vai tornar-se na vida social do planeta num mar interior – no lago doméstico da civilização, tal como outrora o Mediterrâneo. O fruto dos Descobrimentos amadurece enfim! Preparemo-nos, portanto, para receber a alta dignidade em que Deus nos investe como ponto de ligação entre a Europa e a América – e preparemo-nos, como é imperioso que nos preparemos, rasgando sem reservas nem intenções condicionadas, o caminho da aliança peninsular!
«A vida é, de facto, uma criação constante», observa algures Claude Bernard. «Em cada gérmen vivo há uma ideia criadora que se desenvolve e manifesta por meio da organização. Em toda a sua duração o ser vivo permanece debaixo da influência dessa força vital criadora, e a morte sobrevêm quando já não pode dar-lhe realização.» Qual seja na existência da Península a ideia-criadora que presidiu à sua genese e engrandecimento é já de sobejo conhecida por nós.
Pretendeu ela organizar-se na sua forma natural – a da colaboração solidária das duas nacionalidades peninsulares. Não lho consentiu um falso conceito da realidade, inspirando condutas extremas ou erróneas, já com a miragem perniciosa do unitarismo, já com a prática suicida do isolamento e da desconfiança sistemática. Se, conforme a aguda reflexão de Moniz Barreto, «o período da aliança espanhola coincide com a época de maior prosperidade e de plena expansão do génio português», não é também menos certo que a decadência das duas nações peninsulares corresponde ao desentendimento que logrou separá-las em atitudes hostis. Com exclusão das experiências já arredadas pelo seu total insucesso, é a política da Casa de Avis – é a política da aliança a política que, sem constrangimento e com perfeita lógica, se deduz das lições do passado e apertadamente se cinge aos problemas da actualidade.
Mas em que condições? As condições enunciadas no magnífico estudo de Moniz Barreto, por nós citado tantas vezes e que está aguardando que o arranquem, para uma mais vasta publicidade, das colunas adormecidas da Revista de Portugal. Oiçamo-lo nas suas sensatíssimas considerações:
«Conquanto a situação geográfica de Portugal, aponta ele, seja diferente da dos pequenos países encravados entre as grandes potências adversas do continente, conquanto não estejamos como a Suíça, a Roménia ou a Bélgica, na passagem das hostes que se precipitam ao encontro umas das outras com as armas na mão, é, porém, certo que a privilegiada situação do nosso litoral sobre o Atlântico e à entrada do Mediterrâneo, e a importância do porto de Lisboa como base de operações marítimas nas águas ocidentais da Europa, impede que a nossa attitude seja indiferente às potências empenhadas numa guerra que será em grande parte naval. A neutralidade é uma ilusão quando não é garantida, ou pelo isolamento geográfico, ou pelo desenvolvimento de forças imponentes. E os diplomatas que vissem na inacção um meio de fugir às responsabilidades, poderiam ser rudemente desenganados pela contingência das complicações imprevistas.»
A pena de Moniz Barreto acende-se por vezes em chispas proféticas! Prevendo a quase trinta anos de distância muitas das consequências da Guerra-Europeia, apressa-se ele a acentuar que, «se a nossa neutralidade continental, bem que insuficientemente garantida, não está contudo directamente ameaçada, a ponto de justificar temores pela nossa autonomia, a nossa integridade colonial é um problema grave e que requer solução urgente». Não se verificou, no desenlaçar da grande contenda, a hipótese encarada por Moniz Barreto em relação ao património ultramarino português. Mas todas as preocupações são poucas, se atentarmos nos desígnios bem manifestos da União Sul-Africana, no tocante a Moçambique. Acresce que a maneira como entramos na guerra e como depois nos vimos abandonados em Versailles, se encarrega de actualizar por si própria, com um sublinhado espantoso e trágico, as justas apreensões de Moniz Barreto.
«Ora contra esta eventualidade (a eventualidade de Portugal ser expoliado no desfecho furioso dos furiosos egoísmos internacionais) a aliança espanhola é o único expediente exequível e é uma garantia suficiente. Conquanto os recursos de que dispõem as duas nações peninsulares não sejam por ora comparáveis aos das grandes das potências europeias, eles são porém bastantes para assegurar o respeito dos nossos direitos, sobretudo se reflectirmos na repugnância extrema da Inglaterra por acções de onde possam resultar conflitos. E se se atende a que no derradeiro conflito a Inglaterra não apoiou senão contrafeita as espoliações dos seus colonos do Cabo, conquanto folgasse com os resultados, é licito esperar que a Liga peninsular nem mesmo precise de desembainhar a espada para impor silêncio às ambições desonestas dos flibusteiros da África austral.»
«Para que uma aliança entre duas potências – avança Moniz Barreto – seja exequível, é preciso que ambas estejam interessadas na sua manutenção e que não haja desproporção entre os interesses que lhes aconselham a comunidade de acção. Para que a aliança peninsular se possa tornar um facto, não basta que nos convenha, é preciso que os espanhóis encontrem nela vantagens que os recompensem dos sacrifícios a que porventura ela haja de os arrastar.»
E discorrendo acerca do ambiente moral em que essa aliança se produziria, o cronista da Revista de Portugal reconhece com desassombrada sinceridade: «É certo que existe em Espanha uma forte corrente de simpatia e fraternal amizade em nosso favor. É certo que essa simpatia é um sentimento antigo, arraigado, capaz de inspirar acções, nomeadamente nos meios em que a sensibilidade prepondera sobre a razão, como o povo, a mocidade, os partidos extremos. É certo que por ocasião do último conflito com a Inglaterra tivemos disso provas frisantes.[2] As duas imprensas que mais calorosamente tomaram a nossa defesa foram a francesa e a espanhola.»
» Mas saltava aos olhos a diferença dos sentimentos que as inspiravam. Os artigos dos jornais franceses eram ditados de um lado por essa rectidão gaulesa que se exerce sempre que a paixão a não perturba, do outro por uma violenta animosidade contra a Inglaterra ocupadora do Egipto; mas via-se que, no fundo, os seus autores interessavam-se pelos portugueses tanto como pelos chilenos. Nos artigos dos jornais espanhóis via-se, ao lado da indignação que inspira o abuso da Força, o ressentimento de um insulto feito a gentes do próprio sangue. A unanimidade da opinião espanhola só foi igualada pelo seu desinteresse, e a surpresa da imprensa inglesa em frente da atitude da imprensa espanhola explica-se, dada a ausência de dissentimentos políticos entre as duas nações e dada a calculada amabilidade que afecta nas suas relações com Espanha, a Inglaterra interessada em combater a hegemonia francesa no Mediterrâneo.»
E Moniz Barreto prossegue: isto é exacto. «Mas é também certo que aos diplomatas que têm a seu cargo gerir os interesses externos de uma potência assiste a obrigação de se determinarem por considerações de ordem positiva e, subordinando os motivos de sentimento aos de natureza racional, dirigirem-se pelos ditames de uma política essencialmente realista. Ora sucede que neste caso, por uma dessas coincidências que são a expressão das necessidades mais íntimas da historia, o sentimento está de acordo com a razão», adita Moniz Barreto. A inteligência com Portugal não só vai de harmonia com os instintos do povo espanhol, mas satisfaz às exigências da política espanhola.
Como? E Moniz Barreto responde: «O programa dessa política obedece a duas considerações de ordem superior: a defesa da integridade territorial no continente e a manutenção do statu quo em Marrocos. Esse programa consiste numa neutralidade armada, servida por uma diplomacia vigilante, e conservando plena liberdade de acção para utilizar as forças disponíveis em proveito dos direitos ameaçados». Detalha agora com espantosa acuidade Moniz Barreto: «No que toca à defesa da integridade nacional no continente, não padece dúvida que a natureza da fronteira oriental e a conhecida energia e constância do patriotismo espanhol constituem – garantias sérias a favor do respeito da neutralidade espanhola por parte das potências empenhadas num conflito europeu. Mas quem tiver meditado as lições da história e tirar delas o ensinamento que delas resulta, a saber, que os direitos não valem se não são garantidos pela força, que nos tempos modernos como nos antigos é a violência quem decide em última instância, esse não achará demasiadas todas as precauções destinadas a pôr a sua pátria ao abrigo de um golpe de mão, tendente a arrastá-la na órbita de influências estranhas. E quem completar essa lição geral pelo exame da história particular da Espanha nos últimos duzentos e cinquenta anos, quem tiver observado como durante a sua longa decadência ela foi não somente espoliada no seu império colonial, atacada na sua segurança peninsular, mas ainda obrigada a alianças desastrosas, transformada em campo de batalha de ambições alheias, explorada e lograda pelos seus mesmos amigos, esse aprenderá quão pouco se deve contar com a lealdade e desinteresse das nações estrangeiras, mesmo daquelas que lançam aos quatro ventos o pregão da própria generosidade e se proclamam confessores e mártires da causa da civilização europeia.»
Verdadeira teoria da aliança peninsular, continuemos escutando Moniz Barreto no seu admirável estudo. «A questão marroquina prende-se de tal modo com a questão da intégridade nacional espanhola, que não é mais que um dos aspectos desta. Um ilustre historiador inglês pôde afirmar ser uma lei da história que as populações da península dominem ou sejam dominadas pelos que estanceiam na região africana que lhes fica fronteira. Com efeito, se por algum lado Espanha é vulnerável, não é pelo Oriente defendida pela muralha prienaica, mas pelo sul, aberto às arremetidas do litoral africano, desvantagem agravada pela existência de uma grande posição militar estrangeira sobre o Estreito e em terra espanhola. É por isso que uma diplomacia patriótica tem de vigiar ciosamente as tentativas de ingerência no império marroquino, da parte de potências europeias, nomeadamente daquela que tem já largos interesses criados na região berberesca, e que não faz mistérios das suas vistas sobre todo o noroeste africano. E procedendo de este modo, Espanha segue as tradições da sua gloriosa história. Seria mais um capítulo a ajuntar à crónica lamentável da decadência peninsular, se essa região marroquina aberta à acção dos dois povos cristãos pela espada de D. João I e dos conquistadores de Seuta, ilustrada pela valentia dos fronteiros de África, dourada pela fama robusta de D. Afonso V e pela glória nascente de D. João II, consagrada pelo apostolado de Raimundo Lulio, pelo martírio do Infante Santo, pelo sangue de D. Sebastião, venha a cair, como Túnes, arrancada por nós aos bárbaros, nas mãos daqueles que no século XVI se ligavam aos inimigos da cultura europeia, em proveito das suas conveniências políticas e dos seus interesses comerciais no Levante.
» Para impedir isto, é preciso que Espanha disponha de forças que possam pesar na balança europeia» – aduz Moniz Barreto. «Mas para consegui-lo, não é necessario que desenvolva recursos iguais aos das grandes potencias europeias, porque o seu programa é um programa de conservação. Quando uma nação não aspira a conquistas nem a desforras, quando ela não está interessada na denunciação dos tratados existentes, quando tudo o que ela deseja é a manutenção do statu quo, essa nação pode dispensar-se de um alarde de armamentos igual ao que serve rancores ou cobiças; e o orçamento das suas ambições pode ser reduzido ao mínimo.»
Mas é preciso que esse mínimo exista – observa o publicista. «Supor que a inacção é o proceder mais prudente, representa um grave erro. Quem tiver estudado a história da Europa nos ultimos trinta anos, sabe que, ao mesmo tempo que as condições do equilíbrio aumentaram, os problenias constitucionais da diplomacia europeia se têm definido e caminham para uma solução que ninguém pode garantir que seja pacífica. Entre esses problemas constitucionais conta-se aquilo a que se pode chamar desde já a Questão do Ocidente. A incapacidade, a um tempo social e étnica, dos muçulmanos do Maghreb para se constituirem num grande estado viável e progressivo, envolve na extremidade ocidental do Mediterâaneo consequências análogas às que condições análogas do império otomano determinam na extremidade oriental. A questão dos Estreitos reproduz-se na ponta oposta do velho mar em que se elaborou a cultura europeia, e atrai a atenção de todos os que têm interesses presos à situação das passagens marítimas. E entre essas, a Espanha, para quem a questão do Estreito é não só de liberdade comercial, mas de segurança nacional, não pode ser a última a se precaver.»
E aqui Moniz Barreto ataca o ponto central do problema. «A inteligência com Portugal representa para Espanha a segurança da sua fronteira ocidental, a aquisição de um extenso litoral como base de operações navais no Atlântico, e um acréscimo de forças militares pela addição do contingente português. Espanha pode encontrar alianças mais poderosas que a aliança portuguesa, mas nenhuma que custe menos caro, que a comprometa menos, e que mais se coadune com o seu programa de neutralidade vigilante e decidida a fazer respeitar os seus direitos. E comquanto as forças somadas das duas nações peninsulares sejam diminutas para intervir de um modo decisivo nas contendas europeias, elas são, contudo, assaz consideráveis para fazer pagar por um preço razoável a benevolência da península, sobretudo se se faz entrar em calculo a facilidade de defesa que lhe confere a sua situação geográfica, e a grandeza dos recursos que se esconde sob o manto agitado da anarquia política.»
«Combater essa anarquia – agrega o escritor – será finalmente o derradeiro e mais grave resultado de uma corajosa acção exterior. Quando se considera a desastrosa situação da fazenda portuguesa e a embaraçada situação da fazenda espanhola, e quando se reflecte que ela não é mais que a expressão da desordem política que paralisa as energias dos dois povos peninsulares, pode parecer uma utopia de espíritos ambiciosos e quiméricos redigir programas que comportam audacia e riscos a nações mais precisadas de reconstituir as suas forças económicas no repouso da vida vegetativa. Mas aqueles que têm meditado sobre os paradoxos profundos que constituem a natureza humana, sabem que em questões de ordem política a audacia é muitas vezes prudencia consumada, e que mais fácil obter o excessivo que o bastante. Com efeito, nenhuma razão exterior ao estado é moral das sociedades determina a lamentável decadência de um povo cheio de talento e dispondo de um país rico, como é o povo português, nem exclui do grupo das grandes potências e mantem na mediocridade uma nação notável pela extensão e situação do solo, e ilustre pelo génio dos seus filhos, como é a gloriosa nação espanhola. Nenhuma outra causa se pode assinar a este deplorável facto, além da ausência de um princípio superior que unifique as vontades dispersas e crie no meio da flutuação das doutrinas e dos interesses um ponto de apoio para a acção governativa. Essa dispersão das vontades e esta flutuação das doutrinas, próprias de uma época individualista e crítica, é-nos comum com todos os países situados na metade ocidental da Europa. Para combater os seus resultados, a única estrada a seguir é apelar para os sentimentos que estabelecem um laço de conexão entre energias aliás opostas. O sentimento patriótico, com a sua mistura proporcionada de paixão animal e simpatia geral, e o perpétuo estímulo da rivalidade com as nações estrangeiras, é porventura hoje o único móvel colectivo de que pode usar um estadista creador, como é ainda um dos termos mais profundos que pode explorar a invenção artistica. É à persistência e à energia deste sentimento que a Alemanha deve a manutenção da sua unidade contra os antecedentes separatistas e as discordâncias religiosas e políticas. É a ela que a Itália deve a sua pacificação sob a dinastia de Sabóia, a despeito das tradições republicanas da sua velha historia e da energia do partido revolucionário que tão grande papel desempenhou na obra da sua ressurreição. É ainda a solidariedade em frente do estrangeiro que mantém reunidos esse agregado heterogéneo de raças e línguas que é a monarquia austro-hungara, e impede que role disperso esse colar de reinos que tem por fio o Danúbio. É para esse sentimento que apelam os estadistas franceses sedentos de equilibrio entre a oposição dos elementos reaccionários e as arremetidas do radicalismo intransigente. E se alguma coisa pode retirar as duas nações peninsulares do marasmo da indiferença e do círculo vicioso da intriga política, é a lembrança do seu glorioso passado e o pensamento da missão histórica que têm a desempenhar no concerto das nações europeias e na marcha da civilização universal.»
Largo comento se nos impunha nesta altura, ouvida e ponderada a extraordinária previsão de Moniz Barreto. Antecipado assombroso, nada há que modificar no que de geral e essencial o seu excepcional espírito nos aconselha. O ritmo desordenado dos acontecimentos confere até um vigoroso sublinhado a quanto de profético palpitava na agudeza, por vezes crua, da sua penetração. Assim, a instalação da França em Marrocos, adicionando mais um lamentável capítulo à crónica da decadência peninsular, veio encher de dolorosa confirmação as preocupações já longínquas de Moniz Barreto. Atingindo, por outro lado, o ponto extremo da sua decomposição, o regímen parlamentar, saído do romantismo político, com as suas quadrilhas de devoristas e de submedíocres insaciáveis, arvorou na Península a anarquia governativa em fórmula permanente do Estado, quer se trate de Portugal debaixo do gorro frígio, quer se trate da católica Espanha, com um monarca por graça de Deus e da Constituíção. A rampa ignominiosa por onde as duas nacionalidades irmãs se deixam arrastar, enredadas nos tentáculos de uma execrável firma de plutocratas e arrivistas, reveste-se de tintas negras de tragédia, se considerarmos a inconsciência dos governos e a apatia da consciência colectiva. Portugal, ao menos, reage já contra os mitos ignóbeis que o exploram e escravizam. Há aqui o que não há em Espanha: uma ‘direita’ (chamemos-lhe assim) intelectual. Nada mais inverosímil no seu arcaísmo ideológico do que, de um modo genérico, a mentalidade espanhola! Vive-se ali na fermentação revolucionária, que nós conhecemos em Portugal há cinquenta para sessenta anos, com Antero de Quental por chefe supremo. E, para pior, nem de longe se desenha com o carácter positivo de uma doutrina a intensa demolição do Liberalismo, que os próprios fundibulários das Conferências do Casino iniciaram entre nós, tocados pelo verbo forte de Proudhon.
O que sucede em Espanha nos domínios da sua vida interior, sucede igualmente pelo que respeita aos horisontes da sua vida exterior. A questão de Marrocos, patenteando bem manifestamente, num rosário de desastres sucessivos, a total ausência de um critério seguro por parte do Estado espanhol em face de tão magno assunto, demonstra-nos a fraqueza, a debilidade congénita de um regime – o regime individualista da Revolução Francesa, para restituir a Espanha ao lugar a que as suas seivas e virtudes magníficas naturalmente aspiram. Padece-se no país vizinho, conquanto seja nominalmente uma ‘monarquia’, da mesma ausência de autoridade e finalidade nos governos de que padece o nosso agitado e democrático Portugal.
De modo que as razões invocadas por Moniz Barreto em 91 – logo depois do Ultimatum – subsistem, poderosas como nunca, pelo cortejo incessante de desgraças e humilhações em que o prestígio da Península se afunda cada vez mais. Só a restauração do sentimento perdido da ‘unidade hispânica’ evitará que a catástrofe final se consuma e que tanto Espanha como Portugal, solidários no suicídio comum, rolem sem epitafio para as criptas anónimas da história! Na preparação do futuro, à Inteligência compete a obra inicial. Enferma a Espanha do mal que Salaverría definiu com acerto ‘superstição da Europa’. O desprezo de um Unamuno, ou de um Ortega y Gasset, pelas linhas estruturais do génio castelhano, representa, em personagens que se reputam de cultos, uma demissão completa de autonomia mental. Títeres da larga feira das ideias, cultivam o aplauso das plebes do pensamento, assumindo posições de dúvida metódica que, perante o rumo do espírito contemporâneo, bastam só por si para caracterizarem quem as usa, como forçados deploraveis das coisas nobres do Entendimento. E, no entanto, ostentam-se como professores de anti-espanholismo, não lhes faltando ambiente – não lhes faltando auditório! O pessimismo heróico de Ángel Ganivet e, sobretudo, a formidável labareda nacionalista de Menéndez Pelayo, não encontraram sucessores que de tão salutares incitamentos extraíssem uma teoria de salvação pública. Eis onde buscar a raiz fundamental do desarranjo que a Espanha sofre, como nação, nas suas categorias intelectuais e sentimentais. Espelha-se na desordem do Estado a desordem ainda mais revolta das almas e das vontades. Daí o assistirmos em Espanha a uma incrível preponderância dos sofismas e das ficções que já passaram de moda em toda a Europa que estuda e que age, esforçando-se por apor à mentira torpe do 89 uma errata necessária e inadiável. Porque em Portugal tocámos mais de perto o fundo da taça com que a Democracia empeçonhou as instituições sociais e políticas dos dois povos peninsulares, nós possuímos hoje uma percepção dos destinos da Península que dificilmente se topa em Espanha, entontecida por aquela ‘flutuação de doutrinas’, de que já nos falava Moniz Barreto. Minoria que sejamos, cumpre-nos talvez o começo de um empreendimento, que decerto não procura vazar-se em realizações imediatas sem que se forme e tome consistência primeiro um movimento paralelo e concorde que fortifique as duas pátrias internamente, libertando-as da oligarquia infamante dos banqueiros e dos profissionais da política.
A preparação do patriotismo, tanto espanhol como português, é, desta maneira, condição basilar para que se entre sem vacilações no caminho da aproximação e, consequentemente, da aliança entre Portugal e Espanha. Não o patriotismo romântico e verbalista, bandeira de todas as clientelas, máscara de todos os desígnios, ainda os mais inconfessáveis! Mas o patriotismo que se nutre das lições do Passado, encarado como uma experiência e como uma disciplina, fora de cujo concurso não há para os agregados humanos nem estabilidade nem continuidade aproveitável.
Semeadores portugueses e espanhóis do mesmo tipo de civilização, o seu patriotismo amplia-se e completa-se numa espécie de supernacionalismo, de que participam igualmente as demais nações que da Península tiram a sua origem. Valorizar a sua posição no mundo, corrigirem-se dos erros políticos que nos enfraquecem e desautorizam no concerto das potências, eis o programa que se impõe a Portugal e Espanha, para que não desmereçam das atenções crescentes em que os seus filhos da América não se cansam de envolver o nome sagrado da Península. Compreende-se, pois, que, sobre tudo, há a difundir um estado de espírito que liberte na Península as mentalidades dirigentes dos inconcebíveis fetiches políticos a que não se envergonham de sacrificar ainda. Vítimas do sofisma democrático, como acentuámos, não são outras as causas do isolamento aviltante em que a Espanha se encontra na Europa, nem da dolorosa subalternização internacional que Portugal padece. A chamada ‘decadência dos povos peninsulares’ não existe como motivo que explique o seu declive, longo crepúsculo. O que existe é um divórcio absoluto entre as directrizes fundamentais do génio peninsular e a noção vigente de Estado – o seu que, em vez de as servir, coordenar e engrandecer, se empenha, por uma degenerescência sem qualificação, em abastardá-las e deprimi-las.
Mas basta que os conceitos negativistas, através dos quais se aprecia a história das duas pátrias da Península, se substituam pelo sentido exacto da sua admirável alma criadora! Vivemos prisioneiros das nossas próprias mãos, numa obsessão suicida que nos torna indignos da missão espiritual que outrora realizamos e para que o futuro nos está convocando a cada hora. «En sentir general – escreve algures o General Guijano y Arroquía,[3] convergindo antecipadamente para a opinião já citada de Hernández-Pacheco –, sólo España y Portugal, por sus precedentes e índole especial de raza, pueden llegar a ser el verdadero lazo de unión entre Europa, América y África, y esto si en vez de verse sistematicamente contrariadas en sus ideales, se les ayuda, por el contrario, a realizarlos en provecho de la humanidad entera.» Iludia-se numa convicção simpática o autor de El terreno, los hombres y las armas en la guerra, supondo que alguém nos houvesse de ajudar – a espanhóis e a portugueses – na consecução dos nossos altos destinos históricos. Do nosso esforço, e só do nosso esforço, terá que sair o impulso que nos restitua ao lugar que outros nos usurparam e que tranquilamente desfrutam, com o nosso assentimento tácito, pelo menos. Laço de união da Europa com a África e com a América, a Península dispõe assim das condições exigidas para o alevantamento do seu prestígio e dos seus legítimos direitos, desde que se emancipe dos estrangeirismos, tanto políticos como intelectuais, que a volvem numa colónia miserável de quanto de mau vegeta para lá dos Pirenéus. Com a agudeza do seu penetrante cirurgismo salvador, já observava Ángel Ganivet no belíssimo Idearium español: «Una restauración de la vida entera de España no puede tener otro punto de arranque que la concentración de todas nuestras energias dentro de nuestro territorio. Hay que cerrar con cerrojos, llaves y candados todas las puertas por donde el espíritu español se escapó de España para derramarse por los cuatro puntos del horizonte, y por donde hoy espera que hade venir la salvación; y en cada una de essas puertas no pondremos un rótulo dantesco que diga: Lasciate ogni speranza, sino este otro más consolador, más humano, imitado de San Agustín: Noli foras ire; in interiore Hispaniae habitat veritas.»
Enunciava Ángel Ganivet o primeiro mandamento do nacionalismo espanhol. Inteiramente o perfilhamos, não só em relação à Espanha propriamente, mas também em relação a Portugal, em relação à Península toda. Antes de empresas mais largas e maiores, dentro de nós temos que buscar a claridade que nos falta, o estímulo que não cultivamos! Isso obriga-nos a remodelar-nos de cima para baixo, aspando da nossa fisionomia social as instituições importadas que no-la vilipendiam e tatuam. Como projecção universal do nosso nacionalismo, virá. depois o nosso supernacionalismo. Qual seja esse supernacionalismo sabemo-lo nós já. Mas convém que o oiçamos definir por um escolhido espírito brasileiro.
Ensina-nos Sílvio Romero, na conferência O elemento português no Brasil, pronunciada em Maio de 1902 no Gabinete Português de Leitura: «Quatro foram as nações europeias que, na época do Renascimento, se atiraram à faina dos descobrimentos e colonização dos continentes longínquos e exóticos, e há nisso uma certa simetria, sob mais de um aspecto interessante: dois povos católicos e latinos e dois povos teutónicos e protestantes; dois, um latino e outro teutónico, foram felizes, quero dizer, conseguiram criar pátrias novas, novas nacionalidades e foram: a gente hispânica, permitindo vós que sob tal designação compreenda as duas nações peninsulares – Portugal e Espanha – e os ingleses; dois outros, um latino e um teutónico, não conseguiram, até hoje, fundar nacionalidades, pátrias novas, e foram os franceses e os holandeses». E Sílvio Romero esclarece: «Dest’arte, os portugueses e hespanhóis formaram o Brasil, o Chile, o México, a Argentina, o Peru, as repúblicas latino-americanas, em suma; os ingleses, os Estados-Unidos, o Canadá, a Austrália, o Cabo, independentes por completo aqueles, quase independentes estes; ao passo que a França e a Holanda, na Argélia, na Cochinchina, no Congo, em Java, em Sumatra, não têm passado de feitorias mais ou menos prósperas, nuns pontos, mais ou menos atrasadas, noutros.»[4]
Discordamos de Sílvio Romero quando ele considera a Inglaterra como fundadora de novas pátrias. Não só a Inglaterra se lançou à faina do mar depois e muito depois de portugueses e espanhóis haverem dissipado os pavores do Oceano, como as suas fundações coloniais não são mais que simples transplantações da metrópole, sem elaboração, ou assimilação de factores estranhos pré-existentes. Ninguém ignora a caça inexorável ao indígena que nos Estados-Unidos caracterizou o período colonial, prolongando-se sem rebuço pela vida da já independente república norte-americana.[5] Graças à protecção da Coroa, influenciada beneficamente pelas sugestões cristãs dos missionários, o indígena viu-se tratado de modo diverso nas regiões ocupadas por portugueses e espanhóis. Daí o orgulharmo-nos com justo devanecimento de havermos trazido a uma sociabilidade superior os povos com que nos defrontámos nas terras por nós descobertas e abordadas, enquanto sucedia o inverso com os colonos, saídos da Grã-Bretanha – esses quakers do século XVIII, imbuidos de um judaismo novo, em que a Bíblia alternava com a mais dura sede utilitarista.
Feita, porém, a rectificação, é evidente no restante que, a par das nacionalidades provindas da Madre-Hispânia, só se nos deparam nações ou quase nações, derivadas da acção persistente da Inglaterra. As reflexões de Sílvio Romero, para quem portugueses e espanhóis são igualmente ‘hispanos’, traduzem os justos receios do eminente publicista e professor perante o crescimento populacional e económico dos Estados-Unidos. Já então se desenhavam as ambições imperialistas que explodiram com a Grande-Guerra. Sílvio Romero, apelando para a aliança do Brasil com Portugal, exclama: «Só assim, quando estamos a assistir à difusão do elemento anglo-saxónico por todos os continentes, do elemento eslavo por toda a Europa oriental e por toda a Ásia do norte e do centro, e do elemento francês nessa última parte do mundo e pelo coração adentro da África; só assim, quando até o Japão se aparelha para as peripécias do futuro e é de esperar que a China venha a fazer o mesmo; só assim, só pela união, que se manterá no porvir longínquo a formosa língua de Vieira e de Herculano.» Em pouco alteraram os factos o desenho das apreensões de Sílvio Romero! Mais do que nunca, com o braseiro faùlhante que é a Europa e com o alongar das ambições incontidas do Japão e dos Estados-Unidos, o ilhote constituído pela raça lusitana, na sua dupla face portuguesa e brasílica, se acha envolto de ameaças sinistras. Ainda aqui se nos impõe com clara lição a necessidade da aproximação das duas famílias hispânicas, ramificadas por mais de um continente e dotadas de um poder expansivo, difícil de se igualar. De sorte que, nas necessidades da nossa defesa – da defesa de Portugal e do Brasil, se nos apresenta uma das mais fortes justificações da constituíção do grande bloco hispano-americano. Conveniências análogas o recomendam às nacionalidades de procedência castelhana. Singularmente no-lo demonstra um artigo publicado pelo importantíssimo jornal da Califórnia, The San Francisco Examiner. Segundo D. Rafael Altamira, de cujo livro España y el programa americanista recolhemos o expressivo informe, esse artigo, intitulado «Os sete competidores», reproduz a tese chamada dos ‘sete perigos’ de Herbert Quick no seu On Board the Good Ship Earth. Mas resumamos a doutrina do articulista.
Diz ele aproximadamente: «Uma nação como a nossa é um grande negócio. O seu fim principal consiste em triunfar, tratar bem aos seus empregados, isto é, aos cidadãos que trabalham; em desenvolver no interior a economia e a produtividade; em estudar e preparar a conquista da hegemonia na concorrência exterior.» E discorre sobre este tema: «Quando termine a guerra, com a Europa praticamente falida e os Estados-Unidos em quase iguais condições... será precisa toda a inteligência dos homens trabaİhadores da nossa terra e especialmente toda a competência legislativa que a nação possa suscitar para serviço próprio.» Surgem para o articulista os obstáculos com que os Estados Unidos terão que se bater – e então aparecem os ‘sete competidores’, que são por sua ordem os seguintes: muçulmanos, hispanoportugueses, russos, índios, negros, amarelos e ‘brancos’. Comenta Altamira: «Es de suponer que con esta clasificación el articulista no pretende arrojar del grupo de las razas blancas (o, como se decía antes, indoeuropeas) a los españoles y a los portugueses, mejor dicho, a los hispanoportugueses de América. De todos modos, la separación es curiosa.»
Ocupa-se o articulista em seguida do ‘perigo’ que, pela concorrência, resultante da facilidade da produção e do menor custo de mão de obra, representa para os Estados-Unidos essa onda inimiga – ou seja emigrante, ou seja indígena da América, tenha ele a cor que tiver, ou branca, ou negra, ou amarela. Fazemos nossas as palavras de Altamira ao declarar que «no nos importa ahora recoger lo que dice de los musulmanes, de los rusos, de los indios, de los negros, y de los amarillos; pero, sí, y mucho, lo que escribe acerca de los americanos no yankis y de eses blancos de quienes los separa». Eis textualmente; conforme a versão de Altamira, a parte relativa aos ‘hispano-portugueses’.
«Os homens de sangue espanhol e português desfrutam connosco o domínio do hemisferio ocidental. A sua antipatia para connosco fundamenta-se em algumas razões que são justas e em outras que não o são. Os hispano-portugueses possuem a totalidade de este continente ocidental, desde o Rio Grande ao Polo Sul, exceptuada a nossa pequena faixa de Panamá – a faixa civilizada, se com modéstia se pode dizê-lo (sic). Possuem, portanto, nove milhões de milhas quadradas de terra americana... É provável que possuam igualmente, pelo menos, três quartas partes da riqueza do hemisfério ocidental, na maior parte por explorar.» E o articulista enumera as inconveniências de semelhantes competidores: «As prodigiosas condições de que dispõem para a luta as raças hispano-portuguesas por nenhuma outra são igualadas. Temos desprezado louca e desdenhosamente este facto nos Estados-Unidos. A fecundidade da raça é enorme, e isso desempenha um papel importante na questão da competência nacional. No entanto, se os Estados-Unidos querem assegurar-se com sensata precaução, como cumpre a um homem de negócios, não devem preocupar-se em demasia com a competencia hispano-portuguesa. São, na verdade, excelentes lutadores, mas a sua energia empregam-na a combater-se a si próprios. Se, por exemplo, Nova-Jersey tivesse cada dois anos uma guerra com Conneticut, nem Nova-Jersey, nem Conneticut, poderiam causar ao Illinois dano que se visse.
» A sua extraordinária natalidade – pondera o articulista – encheria os nove milhões de milhas quadradas, atemorizando-nos seriamente, se de cada cem crianças, nascidas entre os infelizes, ignorantes e supersticiosos (Altamira sublinha este mimo de adjectivação) hispano-portugueses não morressem cincoenta, e em muitos pontos, 70 %. Com pais que se matam uns aos outros e com as semidesfalecidas, boçais e desgraçadas mães que vêem como lhes desaparecem os filhos, de nada mais carecemos senão de uma boa esquadra e de senso comum para dominar tais concorrentes.» E passando adiante, o articulista confessa com irreprimido alarme: «O grande perigo ‘branco’, está dentro de nós, na nossa casa. É o perigo da arrogância nacional e de uma louca indiferença. O perigo existe na competência estranha: na maravilhosa capacidade da Alemanha, na consistência e astúcia diplomática da Inglaterra e no intenso patriotismo da França... Para prevalecer contra o mundo exterior, necessitamos de protecção, de muita protecção durante larguíssimos anos. Assim mesmo não lograremos o nosso quinhão no mundo dos negócios, enquanto não aprendamos a criticar-nos devidamente e a vencer o grande perigo branco: a arrogância nacional e o amor próprio.» Define, pois, o articulista por ‘perigo branco’ a extravagância americana, e a sua debilidade «para vencer a competência estrangeira».
Haverá sem dúvida exagero nas afirmações do articulista do San Francisco Examiner – sobretudo no seu pessimismo em relação às possibilidades orgânicas dos Estados-Unidos. No que não exagera, é no juízo que forma da desagregação mortal em que se debatem na América os povos hispano-portugueses e na consequente demissão de predomínio e prosperidade, em que de hora para hora decaem com as suas lutas fratricidas. Reflectem-se lá longe – na outra margem do Oceano, os espectáculos vergonhosos das antigas metrópoles. Nós que tornámos possível esse belo florescimento de pátrias, perdemos a idealidade tradicional – e com ela a primitiva força criadora! Não só por Espanha, não só por Portugal, é imperioso que nos devolvamos às direcções fundamentais do nosso génio. Exigem-no-lo as nossas responsabilidades para com as nações a quem démos o ser e perante a civilização que heróicamente soubemos gerar!
Pensando em tal, ocorre-nos à memória certo episódio que Ángel Ganivet nos conta no seu Idearium español. Cônsul em Antuérpia, chamam-no de uma vez ao hospital. Já na agonia, um pobre anónimo suplicava a sua assistência. Era um colono, chegado do Congo, quase às portas da morte, com a febre devorando-o implacavelmente. Cedamos o lugar a Ganivet: «Ahora mismo estoy viendo a aquel hombre infelicisimo, que más que un ser humano parecia un esqueleto pintado de ocre, incorporado trabajosamente en su pobre lecho y librando su ultimo combate contra la muerte... Yo no soy español, me dijo; pero aqui no me entienden, y al oirme hablar español han creido que era à usted à quien yo deseaba hablar. – Pero si usted no es español, le contesté, lo parece y no tiene por qué apurar-se. – Yo soy de centro America, señor: de Managua, y mi família era portuguesa; me llamo Agatón Tinoco. Entonces, interrumpí yo, es usted españolpor tres veces. Voy a sentarme con usted un rato; y vamos à fumarnos un cigarro como buenos amigos. Ymientras tanto, usted me dira qué es lo que desea. – Yo nada, señor: no me falta nada para lo poco que me queda para vivir; sólo quería hablar con quien me entendiera, porque hace ya tiempo que no tengo ni con quien hablar.» E começa nesta altura o ponto agudo da tragédia de Agatão Tinoco, com tanto de humana como de simbólica!
«Yo soy muy desgraciado, señor, como no hay otro hombre en el mundo. Si yo le contara à usted mi vida, veria usted que no le engaño. Me basta verle a usted, amigo Tinoco, para quedar convencido de que no dice más que la verdad; pero cuénteme usted con entera confianza todos sus infortunios, como si me conociera de toda su vida. Y aquí el pobre Agatón Tinoco me refirió largamente – esclarece Ganivet – sus aventuras y sus desventuras; su infortunio conyugal que le obligó a huir de su casa, porque “aunque pobre, era hombre de honor”; sus trabajos en el canal de Panamá hasta que sobrevino la paranza de las obras, y, por último, su venida en calidad de colono al Estado libre congolés, donde había rematado su azarosa existencia con el desenlace vulgar y trágico que se aproxima y que llegó aquella misma noche». Ganivet condói-se. E tocado de súbita inspiração, é, à cabeceira do agonizante, uma voz repleta das sonoridades de toda a epopeia hispânica.
«Amigo Tinoco, le dije yo, después de escuchar su relación, es usted el hombre más grande que he conocido hasta el día; posee usted un mérito que sólo está al alcance de los hombres verdaderamente grandes: el de haber trabajado en silencio; el de poder abandonar la vida con la satisfacción de no haber recibido el premio que merecían sus trabajos. Si usted se examina ahora por dentro y compara toda la obra de su vida con la recompensa que se ha granjeado, fíjese usted en que su única recompensa ha sido una escasa nutrición, y a lo último el lecho de un hospital, donde ni siquiera hablar puede; mientras que su obra ha sido nobilísima, puesto que no sólo ha trabajado para vivir, sino que ha acudido como soldado de fila a prestar su concurso a empresas gigantescas, en las que otro había de recoger el provecho y la gloria. Y eso que usted ha hecho revela que el temple de su alma es fortísimo, que lleva usted en sus venas sangre de una raza de luchadores y de triunfadores, prostrada hoy y humillada por propias culpas, entre las cuales no es la menor la falta de espíritu fraternal, la desunión que nos lleva a ser joguete de poderes extraños y a que muchos como usted anden rodando por el mundo, trabajando como obscuros peones cuando pudieran ser amos con holgura. Piense usted en todo esto, y sentirá una llamarada de orgullo, de íntimo y santo orgullo, que le alumbrará con luz muy hermosa los últimos momentos de su vida, porque le hará ver cuán indigno es el mundo de que hombres como usted, tan honrados, tan buenos, tan infelices, ayuden a fertilizarlo con el sudor de sus frontes y a sostenerlo con el esfuerzo de sus brazos.»
Morreu por fim Agatão Tinoco, transfigurado no sentido imortal da sua raça, que Ganivet soube inspiradamente comunicar-lhe. Todo o patético imenso do seu caso resume o patético imenso da situação dos povos hispânicos sobre a face do globo. Além, na América, o yankee avança enredando nos seus tentáculos o florescer de tanta seiva com direito a um desenvolvimento autónomo. Na Europa reproduzimos – Portugal e Espanha –, aquele aspecto de retalhada angústia que Moniz Barreto fixou numa imagem inolvidável, ao comparar-nos, dalgum modo, ao lenço da Verónica. Não se perderam, porém, os gérmens da antiga grandeza! Senhora de uma posição inegualável que lhe entrega a chave do Mediterrâneo, ao mesmo tempo que a lança como um terraço sobre as águas sempre moças do Atlântico, a Península pode voltar ainda a ser a ‘a cabeça da Europa’, como Camões a definiu. Novas forças lhe sorriem do outro lado do Oceano. Carecem essas forças de idealidade e de directriz. A nós, peninsulares, nos cabe formular-lhas, devolvendo-nos ao espírito obliterado da nossa história.
Possuímos hoje, na ruína das convenções políticas e sociais engendradas pelo individualismo do século findo, o segredo de um ressurgimento que se encontra na concepção absoluta da Vida, tão galhardamente disseminada por nós – os hispânicos, através de mares misteriosos e de terras desconhecidas. Verdadeiramente, estruturalmente, se há uma latinidade, nós é que lhe imprimimos consistência duradoira, descontada a parte que lhe vem – e importante parte! – do Catolicismo. Com o seu parecer insuspeito, comenta num artigo de L’Opinion Albert Thibaudet[6]: «Dans ce qu’on apelle l’idée latine il y a évidemment une bonne part de nuée oratoire et de verbalisme. Ni du point de vue de la civilization, ni du point de vue des interêts, les peuples qui s’étendent de la mer Noire à l’océan Pacifique ne réprésentent une solidarité de fait, et, pour prendre l’exemple le plus proche, nous avons beaucoup plus de liens de tous genres, et surtout intellectuels et literaires, avec les Anglais qu’avec les Espagnols. Mais il n’en est pas moins vrai que l’analogie relative des langues constitue, entre des peuples, un lien qui, comme tous les liens, doit être vérifié, entretenu, utilisé dans un sens d’amitié humaine. On a dit que le XX siècle serait le siècle de l’Amérique du Sud. C’est peut-être exagéré. Mais enfin il est probable qu’une grande civilization de langue latine viendra un jour équilibrer lá la grande civilization anglo-saxonne de l’Amérique septentrionale. Si l’Europe entre en décadence et si l’Amérique est appellée à recueillir en partie sa succession, le problème du latinisme pourra prendre une belle ampleur; la solidarité des langues latines, qui n’est aujourd’hui qu’une realité philologique, pourra devenir ce qu’est, dans le nord de l’Europe, sur champ plus restreint, la solidarité des langues germaniques, une réalité de culture.»
Por tão expressivo depoimento, vê-se que, afinal, despojado de todo o seu velho aparato retórico, o ‘latinismo’, se alcança identificação, é o ‘hispanismo’ quem lha oferece. Compreende-se assim que um Maurice Barrés, dirigindo-se a Charles Maurras, afirme sem reticências: «Je croix comme vous à l’utilité d’orienter une partie des imaginations françaises vers l’Espagne, vers notre voisine et vers ces immenses Amériques qui parlent les langues de la péninsule ibérique». Não sei se notaram: «ces immenses Amériques qui parlent les langues de la péninsule ibérique». Ao enunciar a sua fórmula de aproximação franco-americana, Maurice Barrés considera Portugal e Espanha em igualdade de circunstâncias.
Em presença, portanto, dos caminhos que o futuro nos rasga, cumpramos o conselho de Ganivet, cirurgião heróico, à Espanha, sua mãe: intensifiquemo-nos dentro de nós mesmos, para que em toda a sua latitude a alma ancestral se restaure! Unidos depois os dois nacionalismos – o nacionalismo português e o nacionalismo espanhol, que eles se completem no supernacionalismo de uma grande aliança espiritual e política que sirva de moldura ao espelho azulino do Atlântico. Curada da gafa ideológica que nos perverteu, a Península será na Europa, não só a sua cabeça, mas a sua salvadora. E então pela primeira vez, na algidez do túmulo, Agatão Tinoco dormirá descansado!
[1] Madrid, 1922, pp. 20-21.
[2] Ver, por exemplo, o interessante opúsculo de [Manuel] Castaños y Montijano [1852-1929], Estudio Geoestratégico de Portugal en el supuesto de una agresión por la costa (Toledo, 1890), onde a hipótese encarada é a de que «la agresión partiría de la Gran Bretaña y sería dirigida a la costa occidental de nuestra Península». E Castaños y Montijano justifica-se: «Digo de nuestra Península, porque en tal situación España no habría de permanecer impasible ante la desgracia de una Nación que por su historia tiene el derecho de reclamar su auxílio; que la ha acompañado siempre en sus glorias de allende y aquende el Atlántico, en sus prosperidades, en sus desgracias y hasta en sus discordias intestinas, con comunidad de origen y actualmente comunidad de miras.» Significativo, pois não?
[3] El terreno, los hombres y las armas en la guerra, Madrid, 1892, p. 143.
[4] Discursos, Porto, Livraria Chardon, 1904.
[5] O Conde de Ficquelmont, no seu estudo Lord Palmerston, l’Angleterre et le continent, já em 1852 afirmava o nosso ponto de vista.
[6] Referência de La Revue Française, n.º 23, décimo-oitavo ano.
Trata-se de uma como que predestinação que a Península já trazia consigo, desde o mais recuado dos tempos. Devia-a à sua excepcional posição geográfica – situação tão rara e tão privilegiada, que entendemos reproduzir os termos com que no-la descreve um autorizado sábio espanhol. Eis como se expressa a tal respeito o eminente geólogo D. Eduardo Hernández-Pacheco no seu Discurso de admisión à Real Academia de Ciencias Exactas, Fisicas y Naturales[1]: «La Península ibérica ocupa en el extremo del conjunto peninsular europeo una situación avanzada hacia el Oeste y hacia el Sur, de tal modo que constituye el término de enlace entre Europa y el Continente africano, de cuyos caracteres fisiográficos participa en gran parte, de tal modo que, mientras por el Noroeste, el borde cantábrico y la cordillera pirenaica y en cierta zona de su prolongación por las montañas catalanas, su fisiologia es claramente europea, la mayor parte coincide com los caracteres norte-africanos occidentales, ofreciendo el tipo intermedio o mediterráneo la ancha zona levantina que asciende hacia las mesetas centrales.»
«Por otra parte – acrescenta o mencionado autor, es la tierra más avanzada hacia el Oeste del actual Continente europeo, siendo la más cercana a América, situación central y privilegiada, que contribuye a explicar en el pasado geológico el carácter de sus faunas de mamiferos terciarios, com analogias con las americanas, como algunos descubrimientos recientes van poniendo en evidencia, pudiendose suponer que nuestro país fue en aquellas remotas épocas lugar de origen, y cientro de dispersión de ciertas especies, tales como algunas antecesoras de los equidos actuales, através de las entonces existentes tierras atlánticas.» E Hernández-Pacheco prossegue: «Esta especial situación geográfica nos explica también porqué en reciente época histórica ejerciera España el dominio del mundo, y los pueblos ibéricos, españoles y portugueses, extendiesen su influjo hacia América y hacia África, avanzando sus navegantes por el ignoto y oscuro Atlántico hacia nuevas tierras, o, remontando la inhospitalaria costa africana, doblaron el Cabo de las Tormentas y, proa al desconocido, se extendieron por todos los mares y por toda la redondez de la tierra.»
Lançada conjuntamente sobre o Mediterrâneo e sobre o Atlântico, a Península participou em outras eras dos benefícios do mar antigo das civilizações, como participa hoje da hegemonia atlântica, cada vez mais acentuada, da Idade Moderna. Compreende-se sem dificuldade como através da Península se transmitissem à restante Europa as velhas formas culturais, comunicadas do Oriente. A importância da Península assinala-se logo no alvor dos tempos proto-históricos, e a partir de então a violência com que a disputam na Antiguidade os povos predominantes ensina-nos bem o valor que já se lhe atribuía. Mais tarde, pela Península se estadeiam, com maior ou menor sucesso, os vários imperialismos, conscientes ou instintivos, que aspiram ao senhorio universal do Orbe. Se a posição imcomparável da Península lhe atrai com os piores flagelos um turbilhão interminável de invasões, abre-lhe por isso mesmo as mais belas perspectivas do futuro. Enquanto os roteiros da civilização se concentram no Mediterrâneo, ninguém é mais favorecido por eles de que a Península. Deslocam-nos para o Atlântico as Descobertas – e a Península, terraço da Europa, onde, segundo o Épico, «a terra acaba e o mar começa», vê desdobrar-se-lhe diante um horizonte sem fim, carregado das melhores promessas. A sua qualidade de terra intermediária intensifica-se e aumenta de alcance. E olhando agora às nações moças do Novo-Mundo, podemos, na verdade, afirmar que a hora presente, como nenhuma outra, é ‘a hora da Península’!
Efectivamente, na preponderância já definida dos países americanos, o Atlântico vai tornar-se na vida social do planeta num mar interior – no lago doméstico da civilização, tal como outrora o Mediterrâneo. O fruto dos Descobrimentos amadurece enfim! Preparemo-nos, portanto, para receber a alta dignidade em que Deus nos investe como ponto de ligação entre a Europa e a América – e preparemo-nos, como é imperioso que nos preparemos, rasgando sem reservas nem intenções condicionadas, o caminho da aliança peninsular!
«A vida é, de facto, uma criação constante», observa algures Claude Bernard. «Em cada gérmen vivo há uma ideia criadora que se desenvolve e manifesta por meio da organização. Em toda a sua duração o ser vivo permanece debaixo da influência dessa força vital criadora, e a morte sobrevêm quando já não pode dar-lhe realização.» Qual seja na existência da Península a ideia-criadora que presidiu à sua genese e engrandecimento é já de sobejo conhecida por nós.
Pretendeu ela organizar-se na sua forma natural – a da colaboração solidária das duas nacionalidades peninsulares. Não lho consentiu um falso conceito da realidade, inspirando condutas extremas ou erróneas, já com a miragem perniciosa do unitarismo, já com a prática suicida do isolamento e da desconfiança sistemática. Se, conforme a aguda reflexão de Moniz Barreto, «o período da aliança espanhola coincide com a época de maior prosperidade e de plena expansão do génio português», não é também menos certo que a decadência das duas nações peninsulares corresponde ao desentendimento que logrou separá-las em atitudes hostis. Com exclusão das experiências já arredadas pelo seu total insucesso, é a política da Casa de Avis – é a política da aliança a política que, sem constrangimento e com perfeita lógica, se deduz das lições do passado e apertadamente se cinge aos problemas da actualidade.
Mas em que condições? As condições enunciadas no magnífico estudo de Moniz Barreto, por nós citado tantas vezes e que está aguardando que o arranquem, para uma mais vasta publicidade, das colunas adormecidas da Revista de Portugal. Oiçamo-lo nas suas sensatíssimas considerações:
«Conquanto a situação geográfica de Portugal, aponta ele, seja diferente da dos pequenos países encravados entre as grandes potências adversas do continente, conquanto não estejamos como a Suíça, a Roménia ou a Bélgica, na passagem das hostes que se precipitam ao encontro umas das outras com as armas na mão, é, porém, certo que a privilegiada situação do nosso litoral sobre o Atlântico e à entrada do Mediterrâneo, e a importância do porto de Lisboa como base de operações marítimas nas águas ocidentais da Europa, impede que a nossa attitude seja indiferente às potências empenhadas numa guerra que será em grande parte naval. A neutralidade é uma ilusão quando não é garantida, ou pelo isolamento geográfico, ou pelo desenvolvimento de forças imponentes. E os diplomatas que vissem na inacção um meio de fugir às responsabilidades, poderiam ser rudemente desenganados pela contingência das complicações imprevistas.»
A pena de Moniz Barreto acende-se por vezes em chispas proféticas! Prevendo a quase trinta anos de distância muitas das consequências da Guerra-Europeia, apressa-se ele a acentuar que, «se a nossa neutralidade continental, bem que insuficientemente garantida, não está contudo directamente ameaçada, a ponto de justificar temores pela nossa autonomia, a nossa integridade colonial é um problema grave e que requer solução urgente». Não se verificou, no desenlaçar da grande contenda, a hipótese encarada por Moniz Barreto em relação ao património ultramarino português. Mas todas as preocupações são poucas, se atentarmos nos desígnios bem manifestos da União Sul-Africana, no tocante a Moçambique. Acresce que a maneira como entramos na guerra e como depois nos vimos abandonados em Versailles, se encarrega de actualizar por si própria, com um sublinhado espantoso e trágico, as justas apreensões de Moniz Barreto.
«Ora contra esta eventualidade (a eventualidade de Portugal ser expoliado no desfecho furioso dos furiosos egoísmos internacionais) a aliança espanhola é o único expediente exequível e é uma garantia suficiente. Conquanto os recursos de que dispõem as duas nações peninsulares não sejam por ora comparáveis aos das grandes das potências europeias, eles são porém bastantes para assegurar o respeito dos nossos direitos, sobretudo se reflectirmos na repugnância extrema da Inglaterra por acções de onde possam resultar conflitos. E se se atende a que no derradeiro conflito a Inglaterra não apoiou senão contrafeita as espoliações dos seus colonos do Cabo, conquanto folgasse com os resultados, é licito esperar que a Liga peninsular nem mesmo precise de desembainhar a espada para impor silêncio às ambições desonestas dos flibusteiros da África austral.»
«Para que uma aliança entre duas potências – avança Moniz Barreto – seja exequível, é preciso que ambas estejam interessadas na sua manutenção e que não haja desproporção entre os interesses que lhes aconselham a comunidade de acção. Para que a aliança peninsular se possa tornar um facto, não basta que nos convenha, é preciso que os espanhóis encontrem nela vantagens que os recompensem dos sacrifícios a que porventura ela haja de os arrastar.»
E discorrendo acerca do ambiente moral em que essa aliança se produziria, o cronista da Revista de Portugal reconhece com desassombrada sinceridade: «É certo que existe em Espanha uma forte corrente de simpatia e fraternal amizade em nosso favor. É certo que essa simpatia é um sentimento antigo, arraigado, capaz de inspirar acções, nomeadamente nos meios em que a sensibilidade prepondera sobre a razão, como o povo, a mocidade, os partidos extremos. É certo que por ocasião do último conflito com a Inglaterra tivemos disso provas frisantes.[2] As duas imprensas que mais calorosamente tomaram a nossa defesa foram a francesa e a espanhola.»
» Mas saltava aos olhos a diferença dos sentimentos que as inspiravam. Os artigos dos jornais franceses eram ditados de um lado por essa rectidão gaulesa que se exerce sempre que a paixão a não perturba, do outro por uma violenta animosidade contra a Inglaterra ocupadora do Egipto; mas via-se que, no fundo, os seus autores interessavam-se pelos portugueses tanto como pelos chilenos. Nos artigos dos jornais espanhóis via-se, ao lado da indignação que inspira o abuso da Força, o ressentimento de um insulto feito a gentes do próprio sangue. A unanimidade da opinião espanhola só foi igualada pelo seu desinteresse, e a surpresa da imprensa inglesa em frente da atitude da imprensa espanhola explica-se, dada a ausência de dissentimentos políticos entre as duas nações e dada a calculada amabilidade que afecta nas suas relações com Espanha, a Inglaterra interessada em combater a hegemonia francesa no Mediterrâneo.»
E Moniz Barreto prossegue: isto é exacto. «Mas é também certo que aos diplomatas que têm a seu cargo gerir os interesses externos de uma potência assiste a obrigação de se determinarem por considerações de ordem positiva e, subordinando os motivos de sentimento aos de natureza racional, dirigirem-se pelos ditames de uma política essencialmente realista. Ora sucede que neste caso, por uma dessas coincidências que são a expressão das necessidades mais íntimas da historia, o sentimento está de acordo com a razão», adita Moniz Barreto. A inteligência com Portugal não só vai de harmonia com os instintos do povo espanhol, mas satisfaz às exigências da política espanhola.
Como? E Moniz Barreto responde: «O programa dessa política obedece a duas considerações de ordem superior: a defesa da integridade territorial no continente e a manutenção do statu quo em Marrocos. Esse programa consiste numa neutralidade armada, servida por uma diplomacia vigilante, e conservando plena liberdade de acção para utilizar as forças disponíveis em proveito dos direitos ameaçados». Detalha agora com espantosa acuidade Moniz Barreto: «No que toca à defesa da integridade nacional no continente, não padece dúvida que a natureza da fronteira oriental e a conhecida energia e constância do patriotismo espanhol constituem – garantias sérias a favor do respeito da neutralidade espanhola por parte das potências empenhadas num conflito europeu. Mas quem tiver meditado as lições da história e tirar delas o ensinamento que delas resulta, a saber, que os direitos não valem se não são garantidos pela força, que nos tempos modernos como nos antigos é a violência quem decide em última instância, esse não achará demasiadas todas as precauções destinadas a pôr a sua pátria ao abrigo de um golpe de mão, tendente a arrastá-la na órbita de influências estranhas. E quem completar essa lição geral pelo exame da história particular da Espanha nos últimos duzentos e cinquenta anos, quem tiver observado como durante a sua longa decadência ela foi não somente espoliada no seu império colonial, atacada na sua segurança peninsular, mas ainda obrigada a alianças desastrosas, transformada em campo de batalha de ambições alheias, explorada e lograda pelos seus mesmos amigos, esse aprenderá quão pouco se deve contar com a lealdade e desinteresse das nações estrangeiras, mesmo daquelas que lançam aos quatro ventos o pregão da própria generosidade e se proclamam confessores e mártires da causa da civilização europeia.»
Verdadeira teoria da aliança peninsular, continuemos escutando Moniz Barreto no seu admirável estudo. «A questão marroquina prende-se de tal modo com a questão da intégridade nacional espanhola, que não é mais que um dos aspectos desta. Um ilustre historiador inglês pôde afirmar ser uma lei da história que as populações da península dominem ou sejam dominadas pelos que estanceiam na região africana que lhes fica fronteira. Com efeito, se por algum lado Espanha é vulnerável, não é pelo Oriente defendida pela muralha prienaica, mas pelo sul, aberto às arremetidas do litoral africano, desvantagem agravada pela existência de uma grande posição militar estrangeira sobre o Estreito e em terra espanhola. É por isso que uma diplomacia patriótica tem de vigiar ciosamente as tentativas de ingerência no império marroquino, da parte de potências europeias, nomeadamente daquela que tem já largos interesses criados na região berberesca, e que não faz mistérios das suas vistas sobre todo o noroeste africano. E procedendo de este modo, Espanha segue as tradições da sua gloriosa história. Seria mais um capítulo a ajuntar à crónica lamentável da decadência peninsular, se essa região marroquina aberta à acção dos dois povos cristãos pela espada de D. João I e dos conquistadores de Seuta, ilustrada pela valentia dos fronteiros de África, dourada pela fama robusta de D. Afonso V e pela glória nascente de D. João II, consagrada pelo apostolado de Raimundo Lulio, pelo martírio do Infante Santo, pelo sangue de D. Sebastião, venha a cair, como Túnes, arrancada por nós aos bárbaros, nas mãos daqueles que no século XVI se ligavam aos inimigos da cultura europeia, em proveito das suas conveniências políticas e dos seus interesses comerciais no Levante.
» Para impedir isto, é preciso que Espanha disponha de forças que possam pesar na balança europeia» – aduz Moniz Barreto. «Mas para consegui-lo, não é necessario que desenvolva recursos iguais aos das grandes potencias europeias, porque o seu programa é um programa de conservação. Quando uma nação não aspira a conquistas nem a desforras, quando ela não está interessada na denunciação dos tratados existentes, quando tudo o que ela deseja é a manutenção do statu quo, essa nação pode dispensar-se de um alarde de armamentos igual ao que serve rancores ou cobiças; e o orçamento das suas ambições pode ser reduzido ao mínimo.»
Mas é preciso que esse mínimo exista – observa o publicista. «Supor que a inacção é o proceder mais prudente, representa um grave erro. Quem tiver estudado a história da Europa nos ultimos trinta anos, sabe que, ao mesmo tempo que as condições do equilíbrio aumentaram, os problenias constitucionais da diplomacia europeia se têm definido e caminham para uma solução que ninguém pode garantir que seja pacífica. Entre esses problemas constitucionais conta-se aquilo a que se pode chamar desde já a Questão do Ocidente. A incapacidade, a um tempo social e étnica, dos muçulmanos do Maghreb para se constituirem num grande estado viável e progressivo, envolve na extremidade ocidental do Mediterâaneo consequências análogas às que condições análogas do império otomano determinam na extremidade oriental. A questão dos Estreitos reproduz-se na ponta oposta do velho mar em que se elaborou a cultura europeia, e atrai a atenção de todos os que têm interesses presos à situação das passagens marítimas. E entre essas, a Espanha, para quem a questão do Estreito é não só de liberdade comercial, mas de segurança nacional, não pode ser a última a se precaver.»
E aqui Moniz Barreto ataca o ponto central do problema. «A inteligência com Portugal representa para Espanha a segurança da sua fronteira ocidental, a aquisição de um extenso litoral como base de operações navais no Atlântico, e um acréscimo de forças militares pela addição do contingente português. Espanha pode encontrar alianças mais poderosas que a aliança portuguesa, mas nenhuma que custe menos caro, que a comprometa menos, e que mais se coadune com o seu programa de neutralidade vigilante e decidida a fazer respeitar os seus direitos. E comquanto as forças somadas das duas nações peninsulares sejam diminutas para intervir de um modo decisivo nas contendas europeias, elas são, contudo, assaz consideráveis para fazer pagar por um preço razoável a benevolência da península, sobretudo se se faz entrar em calculo a facilidade de defesa que lhe confere a sua situação geográfica, e a grandeza dos recursos que se esconde sob o manto agitado da anarquia política.»
«Combater essa anarquia – agrega o escritor – será finalmente o derradeiro e mais grave resultado de uma corajosa acção exterior. Quando se considera a desastrosa situação da fazenda portuguesa e a embaraçada situação da fazenda espanhola, e quando se reflecte que ela não é mais que a expressão da desordem política que paralisa as energias dos dois povos peninsulares, pode parecer uma utopia de espíritos ambiciosos e quiméricos redigir programas que comportam audacia e riscos a nações mais precisadas de reconstituir as suas forças económicas no repouso da vida vegetativa. Mas aqueles que têm meditado sobre os paradoxos profundos que constituem a natureza humana, sabem que em questões de ordem política a audacia é muitas vezes prudencia consumada, e que mais fácil obter o excessivo que o bastante. Com efeito, nenhuma razão exterior ao estado é moral das sociedades determina a lamentável decadência de um povo cheio de talento e dispondo de um país rico, como é o povo português, nem exclui do grupo das grandes potências e mantem na mediocridade uma nação notável pela extensão e situação do solo, e ilustre pelo génio dos seus filhos, como é a gloriosa nação espanhola. Nenhuma outra causa se pode assinar a este deplorável facto, além da ausência de um princípio superior que unifique as vontades dispersas e crie no meio da flutuação das doutrinas e dos interesses um ponto de apoio para a acção governativa. Essa dispersão das vontades e esta flutuação das doutrinas, próprias de uma época individualista e crítica, é-nos comum com todos os países situados na metade ocidental da Europa. Para combater os seus resultados, a única estrada a seguir é apelar para os sentimentos que estabelecem um laço de conexão entre energias aliás opostas. O sentimento patriótico, com a sua mistura proporcionada de paixão animal e simpatia geral, e o perpétuo estímulo da rivalidade com as nações estrangeiras, é porventura hoje o único móvel colectivo de que pode usar um estadista creador, como é ainda um dos termos mais profundos que pode explorar a invenção artistica. É à persistência e à energia deste sentimento que a Alemanha deve a manutenção da sua unidade contra os antecedentes separatistas e as discordâncias religiosas e políticas. É a ela que a Itália deve a sua pacificação sob a dinastia de Sabóia, a despeito das tradições republicanas da sua velha historia e da energia do partido revolucionário que tão grande papel desempenhou na obra da sua ressurreição. É ainda a solidariedade em frente do estrangeiro que mantém reunidos esse agregado heterogéneo de raças e línguas que é a monarquia austro-hungara, e impede que role disperso esse colar de reinos que tem por fio o Danúbio. É para esse sentimento que apelam os estadistas franceses sedentos de equilibrio entre a oposição dos elementos reaccionários e as arremetidas do radicalismo intransigente. E se alguma coisa pode retirar as duas nações peninsulares do marasmo da indiferença e do círculo vicioso da intriga política, é a lembrança do seu glorioso passado e o pensamento da missão histórica que têm a desempenhar no concerto das nações europeias e na marcha da civilização universal.»
Largo comento se nos impunha nesta altura, ouvida e ponderada a extraordinária previsão de Moniz Barreto. Antecipado assombroso, nada há que modificar no que de geral e essencial o seu excepcional espírito nos aconselha. O ritmo desordenado dos acontecimentos confere até um vigoroso sublinhado a quanto de profético palpitava na agudeza, por vezes crua, da sua penetração. Assim, a instalação da França em Marrocos, adicionando mais um lamentável capítulo à crónica da decadência peninsular, veio encher de dolorosa confirmação as preocupações já longínquas de Moniz Barreto. Atingindo, por outro lado, o ponto extremo da sua decomposição, o regímen parlamentar, saído do romantismo político, com as suas quadrilhas de devoristas e de submedíocres insaciáveis, arvorou na Península a anarquia governativa em fórmula permanente do Estado, quer se trate de Portugal debaixo do gorro frígio, quer se trate da católica Espanha, com um monarca por graça de Deus e da Constituíção. A rampa ignominiosa por onde as duas nacionalidades irmãs se deixam arrastar, enredadas nos tentáculos de uma execrável firma de plutocratas e arrivistas, reveste-se de tintas negras de tragédia, se considerarmos a inconsciência dos governos e a apatia da consciência colectiva. Portugal, ao menos, reage já contra os mitos ignóbeis que o exploram e escravizam. Há aqui o que não há em Espanha: uma ‘direita’ (chamemos-lhe assim) intelectual. Nada mais inverosímil no seu arcaísmo ideológico do que, de um modo genérico, a mentalidade espanhola! Vive-se ali na fermentação revolucionária, que nós conhecemos em Portugal há cinquenta para sessenta anos, com Antero de Quental por chefe supremo. E, para pior, nem de longe se desenha com o carácter positivo de uma doutrina a intensa demolição do Liberalismo, que os próprios fundibulários das Conferências do Casino iniciaram entre nós, tocados pelo verbo forte de Proudhon.
O que sucede em Espanha nos domínios da sua vida interior, sucede igualmente pelo que respeita aos horisontes da sua vida exterior. A questão de Marrocos, patenteando bem manifestamente, num rosário de desastres sucessivos, a total ausência de um critério seguro por parte do Estado espanhol em face de tão magno assunto, demonstra-nos a fraqueza, a debilidade congénita de um regime – o regime individualista da Revolução Francesa, para restituir a Espanha ao lugar a que as suas seivas e virtudes magníficas naturalmente aspiram. Padece-se no país vizinho, conquanto seja nominalmente uma ‘monarquia’, da mesma ausência de autoridade e finalidade nos governos de que padece o nosso agitado e democrático Portugal.
De modo que as razões invocadas por Moniz Barreto em 91 – logo depois do Ultimatum – subsistem, poderosas como nunca, pelo cortejo incessante de desgraças e humilhações em que o prestígio da Península se afunda cada vez mais. Só a restauração do sentimento perdido da ‘unidade hispânica’ evitará que a catástrofe final se consuma e que tanto Espanha como Portugal, solidários no suicídio comum, rolem sem epitafio para as criptas anónimas da história! Na preparação do futuro, à Inteligência compete a obra inicial. Enferma a Espanha do mal que Salaverría definiu com acerto ‘superstição da Europa’. O desprezo de um Unamuno, ou de um Ortega y Gasset, pelas linhas estruturais do génio castelhano, representa, em personagens que se reputam de cultos, uma demissão completa de autonomia mental. Títeres da larga feira das ideias, cultivam o aplauso das plebes do pensamento, assumindo posições de dúvida metódica que, perante o rumo do espírito contemporâneo, bastam só por si para caracterizarem quem as usa, como forçados deploraveis das coisas nobres do Entendimento. E, no entanto, ostentam-se como professores de anti-espanholismo, não lhes faltando ambiente – não lhes faltando auditório! O pessimismo heróico de Ángel Ganivet e, sobretudo, a formidável labareda nacionalista de Menéndez Pelayo, não encontraram sucessores que de tão salutares incitamentos extraíssem uma teoria de salvação pública. Eis onde buscar a raiz fundamental do desarranjo que a Espanha sofre, como nação, nas suas categorias intelectuais e sentimentais. Espelha-se na desordem do Estado a desordem ainda mais revolta das almas e das vontades. Daí o assistirmos em Espanha a uma incrível preponderância dos sofismas e das ficções que já passaram de moda em toda a Europa que estuda e que age, esforçando-se por apor à mentira torpe do 89 uma errata necessária e inadiável. Porque em Portugal tocámos mais de perto o fundo da taça com que a Democracia empeçonhou as instituições sociais e políticas dos dois povos peninsulares, nós possuímos hoje uma percepção dos destinos da Península que dificilmente se topa em Espanha, entontecida por aquela ‘flutuação de doutrinas’, de que já nos falava Moniz Barreto. Minoria que sejamos, cumpre-nos talvez o começo de um empreendimento, que decerto não procura vazar-se em realizações imediatas sem que se forme e tome consistência primeiro um movimento paralelo e concorde que fortifique as duas pátrias internamente, libertando-as da oligarquia infamante dos banqueiros e dos profissionais da política.
A preparação do patriotismo, tanto espanhol como português, é, desta maneira, condição basilar para que se entre sem vacilações no caminho da aproximação e, consequentemente, da aliança entre Portugal e Espanha. Não o patriotismo romântico e verbalista, bandeira de todas as clientelas, máscara de todos os desígnios, ainda os mais inconfessáveis! Mas o patriotismo que se nutre das lições do Passado, encarado como uma experiência e como uma disciplina, fora de cujo concurso não há para os agregados humanos nem estabilidade nem continuidade aproveitável.
Semeadores portugueses e espanhóis do mesmo tipo de civilização, o seu patriotismo amplia-se e completa-se numa espécie de supernacionalismo, de que participam igualmente as demais nações que da Península tiram a sua origem. Valorizar a sua posição no mundo, corrigirem-se dos erros políticos que nos enfraquecem e desautorizam no concerto das potências, eis o programa que se impõe a Portugal e Espanha, para que não desmereçam das atenções crescentes em que os seus filhos da América não se cansam de envolver o nome sagrado da Península. Compreende-se, pois, que, sobre tudo, há a difundir um estado de espírito que liberte na Península as mentalidades dirigentes dos inconcebíveis fetiches políticos a que não se envergonham de sacrificar ainda. Vítimas do sofisma democrático, como acentuámos, não são outras as causas do isolamento aviltante em que a Espanha se encontra na Europa, nem da dolorosa subalternização internacional que Portugal padece. A chamada ‘decadência dos povos peninsulares’ não existe como motivo que explique o seu declive, longo crepúsculo. O que existe é um divórcio absoluto entre as directrizes fundamentais do génio peninsular e a noção vigente de Estado – o seu que, em vez de as servir, coordenar e engrandecer, se empenha, por uma degenerescência sem qualificação, em abastardá-las e deprimi-las.
Mas basta que os conceitos negativistas, através dos quais se aprecia a história das duas pátrias da Península, se substituam pelo sentido exacto da sua admirável alma criadora! Vivemos prisioneiros das nossas próprias mãos, numa obsessão suicida que nos torna indignos da missão espiritual que outrora realizamos e para que o futuro nos está convocando a cada hora. «En sentir general – escreve algures o General Guijano y Arroquía,[3] convergindo antecipadamente para a opinião já citada de Hernández-Pacheco –, sólo España y Portugal, por sus precedentes e índole especial de raza, pueden llegar a ser el verdadero lazo de unión entre Europa, América y África, y esto si en vez de verse sistematicamente contrariadas en sus ideales, se les ayuda, por el contrario, a realizarlos en provecho de la humanidad entera.» Iludia-se numa convicção simpática o autor de El terreno, los hombres y las armas en la guerra, supondo que alguém nos houvesse de ajudar – a espanhóis e a portugueses – na consecução dos nossos altos destinos históricos. Do nosso esforço, e só do nosso esforço, terá que sair o impulso que nos restitua ao lugar que outros nos usurparam e que tranquilamente desfrutam, com o nosso assentimento tácito, pelo menos. Laço de união da Europa com a África e com a América, a Península dispõe assim das condições exigidas para o alevantamento do seu prestígio e dos seus legítimos direitos, desde que se emancipe dos estrangeirismos, tanto políticos como intelectuais, que a volvem numa colónia miserável de quanto de mau vegeta para lá dos Pirenéus. Com a agudeza do seu penetrante cirurgismo salvador, já observava Ángel Ganivet no belíssimo Idearium español: «Una restauración de la vida entera de España no puede tener otro punto de arranque que la concentración de todas nuestras energias dentro de nuestro territorio. Hay que cerrar con cerrojos, llaves y candados todas las puertas por donde el espíritu español se escapó de España para derramarse por los cuatro puntos del horizonte, y por donde hoy espera que hade venir la salvación; y en cada una de essas puertas no pondremos un rótulo dantesco que diga: Lasciate ogni speranza, sino este otro más consolador, más humano, imitado de San Agustín: Noli foras ire; in interiore Hispaniae habitat veritas.»
Enunciava Ángel Ganivet o primeiro mandamento do nacionalismo espanhol. Inteiramente o perfilhamos, não só em relação à Espanha propriamente, mas também em relação a Portugal, em relação à Península toda. Antes de empresas mais largas e maiores, dentro de nós temos que buscar a claridade que nos falta, o estímulo que não cultivamos! Isso obriga-nos a remodelar-nos de cima para baixo, aspando da nossa fisionomia social as instituições importadas que no-la vilipendiam e tatuam. Como projecção universal do nosso nacionalismo, virá. depois o nosso supernacionalismo. Qual seja esse supernacionalismo sabemo-lo nós já. Mas convém que o oiçamos definir por um escolhido espírito brasileiro.
Ensina-nos Sílvio Romero, na conferência O elemento português no Brasil, pronunciada em Maio de 1902 no Gabinete Português de Leitura: «Quatro foram as nações europeias que, na época do Renascimento, se atiraram à faina dos descobrimentos e colonização dos continentes longínquos e exóticos, e há nisso uma certa simetria, sob mais de um aspecto interessante: dois povos católicos e latinos e dois povos teutónicos e protestantes; dois, um latino e outro teutónico, foram felizes, quero dizer, conseguiram criar pátrias novas, novas nacionalidades e foram: a gente hispânica, permitindo vós que sob tal designação compreenda as duas nações peninsulares – Portugal e Espanha – e os ingleses; dois outros, um latino e um teutónico, não conseguiram, até hoje, fundar nacionalidades, pátrias novas, e foram os franceses e os holandeses». E Sílvio Romero esclarece: «Dest’arte, os portugueses e hespanhóis formaram o Brasil, o Chile, o México, a Argentina, o Peru, as repúblicas latino-americanas, em suma; os ingleses, os Estados-Unidos, o Canadá, a Austrália, o Cabo, independentes por completo aqueles, quase independentes estes; ao passo que a França e a Holanda, na Argélia, na Cochinchina, no Congo, em Java, em Sumatra, não têm passado de feitorias mais ou menos prósperas, nuns pontos, mais ou menos atrasadas, noutros.»[4]
Discordamos de Sílvio Romero quando ele considera a Inglaterra como fundadora de novas pátrias. Não só a Inglaterra se lançou à faina do mar depois e muito depois de portugueses e espanhóis haverem dissipado os pavores do Oceano, como as suas fundações coloniais não são mais que simples transplantações da metrópole, sem elaboração, ou assimilação de factores estranhos pré-existentes. Ninguém ignora a caça inexorável ao indígena que nos Estados-Unidos caracterizou o período colonial, prolongando-se sem rebuço pela vida da já independente república norte-americana.[5] Graças à protecção da Coroa, influenciada beneficamente pelas sugestões cristãs dos missionários, o indígena viu-se tratado de modo diverso nas regiões ocupadas por portugueses e espanhóis. Daí o orgulharmo-nos com justo devanecimento de havermos trazido a uma sociabilidade superior os povos com que nos defrontámos nas terras por nós descobertas e abordadas, enquanto sucedia o inverso com os colonos, saídos da Grã-Bretanha – esses quakers do século XVIII, imbuidos de um judaismo novo, em que a Bíblia alternava com a mais dura sede utilitarista.
Feita, porém, a rectificação, é evidente no restante que, a par das nacionalidades provindas da Madre-Hispânia, só se nos deparam nações ou quase nações, derivadas da acção persistente da Inglaterra. As reflexões de Sílvio Romero, para quem portugueses e espanhóis são igualmente ‘hispanos’, traduzem os justos receios do eminente publicista e professor perante o crescimento populacional e económico dos Estados-Unidos. Já então se desenhavam as ambições imperialistas que explodiram com a Grande-Guerra. Sílvio Romero, apelando para a aliança do Brasil com Portugal, exclama: «Só assim, quando estamos a assistir à difusão do elemento anglo-saxónico por todos os continentes, do elemento eslavo por toda a Europa oriental e por toda a Ásia do norte e do centro, e do elemento francês nessa última parte do mundo e pelo coração adentro da África; só assim, quando até o Japão se aparelha para as peripécias do futuro e é de esperar que a China venha a fazer o mesmo; só assim, só pela união, que se manterá no porvir longínquo a formosa língua de Vieira e de Herculano.» Em pouco alteraram os factos o desenho das apreensões de Sílvio Romero! Mais do que nunca, com o braseiro faùlhante que é a Europa e com o alongar das ambições incontidas do Japão e dos Estados-Unidos, o ilhote constituído pela raça lusitana, na sua dupla face portuguesa e brasílica, se acha envolto de ameaças sinistras. Ainda aqui se nos impõe com clara lição a necessidade da aproximação das duas famílias hispânicas, ramificadas por mais de um continente e dotadas de um poder expansivo, difícil de se igualar. De sorte que, nas necessidades da nossa defesa – da defesa de Portugal e do Brasil, se nos apresenta uma das mais fortes justificações da constituíção do grande bloco hispano-americano. Conveniências análogas o recomendam às nacionalidades de procedência castelhana. Singularmente no-lo demonstra um artigo publicado pelo importantíssimo jornal da Califórnia, The San Francisco Examiner. Segundo D. Rafael Altamira, de cujo livro España y el programa americanista recolhemos o expressivo informe, esse artigo, intitulado «Os sete competidores», reproduz a tese chamada dos ‘sete perigos’ de Herbert Quick no seu On Board the Good Ship Earth. Mas resumamos a doutrina do articulista.
Diz ele aproximadamente: «Uma nação como a nossa é um grande negócio. O seu fim principal consiste em triunfar, tratar bem aos seus empregados, isto é, aos cidadãos que trabalham; em desenvolver no interior a economia e a produtividade; em estudar e preparar a conquista da hegemonia na concorrência exterior.» E discorre sobre este tema: «Quando termine a guerra, com a Europa praticamente falida e os Estados-Unidos em quase iguais condições... será precisa toda a inteligência dos homens trabaİhadores da nossa terra e especialmente toda a competência legislativa que a nação possa suscitar para serviço próprio.» Surgem para o articulista os obstáculos com que os Estados Unidos terão que se bater – e então aparecem os ‘sete competidores’, que são por sua ordem os seguintes: muçulmanos, hispanoportugueses, russos, índios, negros, amarelos e ‘brancos’. Comenta Altamira: «Es de suponer que con esta clasificación el articulista no pretende arrojar del grupo de las razas blancas (o, como se decía antes, indoeuropeas) a los españoles y a los portugueses, mejor dicho, a los hispanoportugueses de América. De todos modos, la separación es curiosa.»
Ocupa-se o articulista em seguida do ‘perigo’ que, pela concorrência, resultante da facilidade da produção e do menor custo de mão de obra, representa para os Estados-Unidos essa onda inimiga – ou seja emigrante, ou seja indígena da América, tenha ele a cor que tiver, ou branca, ou negra, ou amarela. Fazemos nossas as palavras de Altamira ao declarar que «no nos importa ahora recoger lo que dice de los musulmanes, de los rusos, de los indios, de los negros, y de los amarillos; pero, sí, y mucho, lo que escribe acerca de los americanos no yankis y de eses blancos de quienes los separa». Eis textualmente; conforme a versão de Altamira, a parte relativa aos ‘hispano-portugueses’.
«Os homens de sangue espanhol e português desfrutam connosco o domínio do hemisferio ocidental. A sua antipatia para connosco fundamenta-se em algumas razões que são justas e em outras que não o são. Os hispano-portugueses possuem a totalidade de este continente ocidental, desde o Rio Grande ao Polo Sul, exceptuada a nossa pequena faixa de Panamá – a faixa civilizada, se com modéstia se pode dizê-lo (sic). Possuem, portanto, nove milhões de milhas quadradas de terra americana... É provável que possuam igualmente, pelo menos, três quartas partes da riqueza do hemisfério ocidental, na maior parte por explorar.» E o articulista enumera as inconveniências de semelhantes competidores: «As prodigiosas condições de que dispõem para a luta as raças hispano-portuguesas por nenhuma outra são igualadas. Temos desprezado louca e desdenhosamente este facto nos Estados-Unidos. A fecundidade da raça é enorme, e isso desempenha um papel importante na questão da competência nacional. No entanto, se os Estados-Unidos querem assegurar-se com sensata precaução, como cumpre a um homem de negócios, não devem preocupar-se em demasia com a competencia hispano-portuguesa. São, na verdade, excelentes lutadores, mas a sua energia empregam-na a combater-se a si próprios. Se, por exemplo, Nova-Jersey tivesse cada dois anos uma guerra com Conneticut, nem Nova-Jersey, nem Conneticut, poderiam causar ao Illinois dano que se visse.
» A sua extraordinária natalidade – pondera o articulista – encheria os nove milhões de milhas quadradas, atemorizando-nos seriamente, se de cada cem crianças, nascidas entre os infelizes, ignorantes e supersticiosos (Altamira sublinha este mimo de adjectivação) hispano-portugueses não morressem cincoenta, e em muitos pontos, 70 %. Com pais que se matam uns aos outros e com as semidesfalecidas, boçais e desgraçadas mães que vêem como lhes desaparecem os filhos, de nada mais carecemos senão de uma boa esquadra e de senso comum para dominar tais concorrentes.» E passando adiante, o articulista confessa com irreprimido alarme: «O grande perigo ‘branco’, está dentro de nós, na nossa casa. É o perigo da arrogância nacional e de uma louca indiferença. O perigo existe na competência estranha: na maravilhosa capacidade da Alemanha, na consistência e astúcia diplomática da Inglaterra e no intenso patriotismo da França... Para prevalecer contra o mundo exterior, necessitamos de protecção, de muita protecção durante larguíssimos anos. Assim mesmo não lograremos o nosso quinhão no mundo dos negócios, enquanto não aprendamos a criticar-nos devidamente e a vencer o grande perigo branco: a arrogância nacional e o amor próprio.» Define, pois, o articulista por ‘perigo branco’ a extravagância americana, e a sua debilidade «para vencer a competência estrangeira».
Haverá sem dúvida exagero nas afirmações do articulista do San Francisco Examiner – sobretudo no seu pessimismo em relação às possibilidades orgânicas dos Estados-Unidos. No que não exagera, é no juízo que forma da desagregação mortal em que se debatem na América os povos hispano-portugueses e na consequente demissão de predomínio e prosperidade, em que de hora para hora decaem com as suas lutas fratricidas. Reflectem-se lá longe – na outra margem do Oceano, os espectáculos vergonhosos das antigas metrópoles. Nós que tornámos possível esse belo florescimento de pátrias, perdemos a idealidade tradicional – e com ela a primitiva força criadora! Não só por Espanha, não só por Portugal, é imperioso que nos devolvamos às direcções fundamentais do nosso génio. Exigem-no-lo as nossas responsabilidades para com as nações a quem démos o ser e perante a civilização que heróicamente soubemos gerar!
Pensando em tal, ocorre-nos à memória certo episódio que Ángel Ganivet nos conta no seu Idearium español. Cônsul em Antuérpia, chamam-no de uma vez ao hospital. Já na agonia, um pobre anónimo suplicava a sua assistência. Era um colono, chegado do Congo, quase às portas da morte, com a febre devorando-o implacavelmente. Cedamos o lugar a Ganivet: «Ahora mismo estoy viendo a aquel hombre infelicisimo, que más que un ser humano parecia un esqueleto pintado de ocre, incorporado trabajosamente en su pobre lecho y librando su ultimo combate contra la muerte... Yo no soy español, me dijo; pero aqui no me entienden, y al oirme hablar español han creido que era à usted à quien yo deseaba hablar. – Pero si usted no es español, le contesté, lo parece y no tiene por qué apurar-se. – Yo soy de centro America, señor: de Managua, y mi família era portuguesa; me llamo Agatón Tinoco. Entonces, interrumpí yo, es usted españolpor tres veces. Voy a sentarme con usted un rato; y vamos à fumarnos un cigarro como buenos amigos. Ymientras tanto, usted me dira qué es lo que desea. – Yo nada, señor: no me falta nada para lo poco que me queda para vivir; sólo quería hablar con quien me entendiera, porque hace ya tiempo que no tengo ni con quien hablar.» E começa nesta altura o ponto agudo da tragédia de Agatão Tinoco, com tanto de humana como de simbólica!
«Yo soy muy desgraciado, señor, como no hay otro hombre en el mundo. Si yo le contara à usted mi vida, veria usted que no le engaño. Me basta verle a usted, amigo Tinoco, para quedar convencido de que no dice más que la verdad; pero cuénteme usted con entera confianza todos sus infortunios, como si me conociera de toda su vida. Y aquí el pobre Agatón Tinoco me refirió largamente – esclarece Ganivet – sus aventuras y sus desventuras; su infortunio conyugal que le obligó a huir de su casa, porque “aunque pobre, era hombre de honor”; sus trabajos en el canal de Panamá hasta que sobrevino la paranza de las obras, y, por último, su venida en calidad de colono al Estado libre congolés, donde había rematado su azarosa existencia con el desenlace vulgar y trágico que se aproxima y que llegó aquella misma noche». Ganivet condói-se. E tocado de súbita inspiração, é, à cabeceira do agonizante, uma voz repleta das sonoridades de toda a epopeia hispânica.
«Amigo Tinoco, le dije yo, después de escuchar su relación, es usted el hombre más grande que he conocido hasta el día; posee usted un mérito que sólo está al alcance de los hombres verdaderamente grandes: el de haber trabajado en silencio; el de poder abandonar la vida con la satisfacción de no haber recibido el premio que merecían sus trabajos. Si usted se examina ahora por dentro y compara toda la obra de su vida con la recompensa que se ha granjeado, fíjese usted en que su única recompensa ha sido una escasa nutrición, y a lo último el lecho de un hospital, donde ni siquiera hablar puede; mientras que su obra ha sido nobilísima, puesto que no sólo ha trabajado para vivir, sino que ha acudido como soldado de fila a prestar su concurso a empresas gigantescas, en las que otro había de recoger el provecho y la gloria. Y eso que usted ha hecho revela que el temple de su alma es fortísimo, que lleva usted en sus venas sangre de una raza de luchadores y de triunfadores, prostrada hoy y humillada por propias culpas, entre las cuales no es la menor la falta de espíritu fraternal, la desunión que nos lleva a ser joguete de poderes extraños y a que muchos como usted anden rodando por el mundo, trabajando como obscuros peones cuando pudieran ser amos con holgura. Piense usted en todo esto, y sentirá una llamarada de orgullo, de íntimo y santo orgullo, que le alumbrará con luz muy hermosa los últimos momentos de su vida, porque le hará ver cuán indigno es el mundo de que hombres como usted, tan honrados, tan buenos, tan infelices, ayuden a fertilizarlo con el sudor de sus frontes y a sostenerlo con el esfuerzo de sus brazos.»
Morreu por fim Agatão Tinoco, transfigurado no sentido imortal da sua raça, que Ganivet soube inspiradamente comunicar-lhe. Todo o patético imenso do seu caso resume o patético imenso da situação dos povos hispânicos sobre a face do globo. Além, na América, o yankee avança enredando nos seus tentáculos o florescer de tanta seiva com direito a um desenvolvimento autónomo. Na Europa reproduzimos – Portugal e Espanha –, aquele aspecto de retalhada angústia que Moniz Barreto fixou numa imagem inolvidável, ao comparar-nos, dalgum modo, ao lenço da Verónica. Não se perderam, porém, os gérmens da antiga grandeza! Senhora de uma posição inegualável que lhe entrega a chave do Mediterrâneo, ao mesmo tempo que a lança como um terraço sobre as águas sempre moças do Atlântico, a Península pode voltar ainda a ser a ‘a cabeça da Europa’, como Camões a definiu. Novas forças lhe sorriem do outro lado do Oceano. Carecem essas forças de idealidade e de directriz. A nós, peninsulares, nos cabe formular-lhas, devolvendo-nos ao espírito obliterado da nossa história.
Possuímos hoje, na ruína das convenções políticas e sociais engendradas pelo individualismo do século findo, o segredo de um ressurgimento que se encontra na concepção absoluta da Vida, tão galhardamente disseminada por nós – os hispânicos, através de mares misteriosos e de terras desconhecidas. Verdadeiramente, estruturalmente, se há uma latinidade, nós é que lhe imprimimos consistência duradoira, descontada a parte que lhe vem – e importante parte! – do Catolicismo. Com o seu parecer insuspeito, comenta num artigo de L’Opinion Albert Thibaudet[6]: «Dans ce qu’on apelle l’idée latine il y a évidemment une bonne part de nuée oratoire et de verbalisme. Ni du point de vue de la civilization, ni du point de vue des interêts, les peuples qui s’étendent de la mer Noire à l’océan Pacifique ne réprésentent une solidarité de fait, et, pour prendre l’exemple le plus proche, nous avons beaucoup plus de liens de tous genres, et surtout intellectuels et literaires, avec les Anglais qu’avec les Espagnols. Mais il n’en est pas moins vrai que l’analogie relative des langues constitue, entre des peuples, un lien qui, comme tous les liens, doit être vérifié, entretenu, utilisé dans un sens d’amitié humaine. On a dit que le XX siècle serait le siècle de l’Amérique du Sud. C’est peut-être exagéré. Mais enfin il est probable qu’une grande civilization de langue latine viendra un jour équilibrer lá la grande civilization anglo-saxonne de l’Amérique septentrionale. Si l’Europe entre en décadence et si l’Amérique est appellée à recueillir en partie sa succession, le problème du latinisme pourra prendre une belle ampleur; la solidarité des langues latines, qui n’est aujourd’hui qu’une realité philologique, pourra devenir ce qu’est, dans le nord de l’Europe, sur champ plus restreint, la solidarité des langues germaniques, une réalité de culture.»
Por tão expressivo depoimento, vê-se que, afinal, despojado de todo o seu velho aparato retórico, o ‘latinismo’, se alcança identificação, é o ‘hispanismo’ quem lha oferece. Compreende-se assim que um Maurice Barrés, dirigindo-se a Charles Maurras, afirme sem reticências: «Je croix comme vous à l’utilité d’orienter une partie des imaginations françaises vers l’Espagne, vers notre voisine et vers ces immenses Amériques qui parlent les langues de la péninsule ibérique». Não sei se notaram: «ces immenses Amériques qui parlent les langues de la péninsule ibérique». Ao enunciar a sua fórmula de aproximação franco-americana, Maurice Barrés considera Portugal e Espanha em igualdade de circunstâncias.
Em presença, portanto, dos caminhos que o futuro nos rasga, cumpramos o conselho de Ganivet, cirurgião heróico, à Espanha, sua mãe: intensifiquemo-nos dentro de nós mesmos, para que em toda a sua latitude a alma ancestral se restaure! Unidos depois os dois nacionalismos – o nacionalismo português e o nacionalismo espanhol, que eles se completem no supernacionalismo de uma grande aliança espiritual e política que sirva de moldura ao espelho azulino do Atlântico. Curada da gafa ideológica que nos perverteu, a Península será na Europa, não só a sua cabeça, mas a sua salvadora. E então pela primeira vez, na algidez do túmulo, Agatão Tinoco dormirá descansado!
[1] Madrid, 1922, pp. 20-21.
[2] Ver, por exemplo, o interessante opúsculo de [Manuel] Castaños y Montijano [1852-1929], Estudio Geoestratégico de Portugal en el supuesto de una agresión por la costa (Toledo, 1890), onde a hipótese encarada é a de que «la agresión partiría de la Gran Bretaña y sería dirigida a la costa occidental de nuestra Península». E Castaños y Montijano justifica-se: «Digo de nuestra Península, porque en tal situación España no habría de permanecer impasible ante la desgracia de una Nación que por su historia tiene el derecho de reclamar su auxílio; que la ha acompañado siempre en sus glorias de allende y aquende el Atlántico, en sus prosperidades, en sus desgracias y hasta en sus discordias intestinas, con comunidad de origen y actualmente comunidad de miras.» Significativo, pois não?
[3] El terreno, los hombres y las armas en la guerra, Madrid, 1892, p. 143.
[4] Discursos, Porto, Livraria Chardon, 1904.
[5] O Conde de Ficquelmont, no seu estudo Lord Palmerston, l’Angleterre et le continent, já em 1852 afirmava o nosso ponto de vista.
[6] Referência de La Revue Française, n.º 23, décimo-oitavo ano.
Relacionado