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        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
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Carta para Perto [Estremoz]

António Sardinha

Meu prezado amigo: 

Algumas palavras minhas? Mas que poderão elas dizer, senão o louvor da sua bem-amada Estremoz, nobre vila de pedras claras, que é também, para a minha emoção de poeta, um alto e sugestivo trecho do grande poema ainda por escrever, da província em que ambos nascemos para Deus e para os homens?

Airosa e ameada, na sua dupla feição de écloga e de epopeia, Estremoz, desdobrando a casaria calva ao longo do seu morro enérgico, recorda-me sempre uma dessas virgens alegóricas, vestidas de couraça, mas com uma roca na mão, em que o simbolismo dos Antigos exprimia rigorosamente a necessária aliança da prudência com a diligência. É assim, pelo menos, que eu gosto de personalizá-la nas minhas meditações de isolado que pensa e contempla, procurando inalteravelmente no sinal das coisas visíveis o resplendor, embora distante, das coisas invisíveis, as únicas profundas, as únicas verdadeiras.

Não tema, porém, o meu prezado amigo que eu vá romper aqui numa homilia! O que não devo, por breve que seja – e sê-lo-ei? –, é deixar de lhe agradecer a gentileza com que quis o meu nome ligado ao seu, no pequeno hino que Estremoz lhe arrancou ao entusiasmo, bem para aplaudir, de filho devoto e encantado. O esmorecimento do «patriotismo local» é, fora de dúvida, uma das causas do eclipse tão doloroso, como prolongado, do outro patriotismo – do patriotismo nacional. Quem não ama, quem não estima, como uma querida visão doméstica, o burgo em que abriu os olhos ao mundo, as torres caiadas da sua paróquia, o cemitério em que repousam as raízes do seu sangue e da sua alma, a fonte das bucólicas mansas do entardecer, as ruínas de um convento com ninhos de cegonha no musgoso mirante, não pode, através das imagens que a infância nos deposita inapagavelmente na sensibilidade, elevar-se à compreensão superior da nação a que pertence – da raça em que se entronca. Se a família é a célula fundamental da sociedade, o município é a segurança firme da pátria. Não há sociedade sem famílias, como não há nacionalidade sem municípios. Ora o que são hoje os nossos sonâmbulos concelhos, extinto o espírito que os animava, vacilante, senão morto, o velho «patriotismo local»?

Entendo eu que só o sentimento consciente da sua tradição os ressuscitará como unidades colectivas. Qual o caminho? Porque não se ensina, por exemplo, a história de Portugal às criancinhas das primeiras letras, partindo da história da sua própria terra?

Em Portugal não existe recanto, por sumido e anónimo, que não possua, ou um foral delido nos seus selos pendentes, ou uma atalaia com figueiras bravas abraçando-a, ou uma fonte bojuda, de nicho e inscrição ao meio do arco-real, um detalhe, enfim, que sirva de ponto de apoio para uma evocação inteligente do passado, para uma lição humana daquilo que lá vai, mas que é a essência permanente do nosso ser.

A história, praticada sobre o real, sobre o imediato, daria à curiosidade infantil a ideia fácil – tão fácil como salutar! – de que habita, mais que nos livros, dentro de nós. E que curso admirável de história Estremoz não nos suscitaria!

Não só de história militar, com as suas muralhas pardas de assédio, com a sua fisionomia denteada de praça-de-armas, com o campo do Ameixial repetindo, aos ecos adormecidos, os adormecidos clamores da batalha de Seiscentos. Não só da história social com os seus procuradores em cortes, manifestando, na inteireza da dignidade cristã, o desassombro de uma liberdade que a liberdade das maiúsculas retóricas desconhece. Mas igualmente de história íntima; da história interior – expressêmo-nos assim – da que pinta os caracteres e dramatiza as paixões, com a morte da Rainha-Santa, assistida na agonia por uma «Dama Branca» de vitral, ou com os derradeiros paroxismos daquele gago e folião que foi D. Pedro I, o «Rey-Bailador», raro elemento de tragédia que por ter escapado a Shakespeare, não é menos shakspeareano, por isso!

Mas não carecíamos de recorrer a tanto – ao apinhado tão severo, como grácil da sua Estremoz – para que a evidência eterna de Portugal tomasse linhas de carne, perante nossos olhos.
​
Mais familiarmente, sobretudo, agora que reina Agosto, bastava-nos conversar um pouco com os seus pucarinhos – com os púcaros de barro que encheram de glória Estremoz. Não cultivo o paradoxo, meu caro Honório Cardoso, você sabe-o melhor do que eu – se lhe asseverar que contar a vida e feitos dos púcaros de Estremoz é resumir um período – e dos mais brilhantes! – da civilização peninsular. Concordemos que, desde um pucarinho empedrado ao saial franciscano da Rainha-Santa, o humilde pode ser na obra da criação o que mais rescenda aos aromas do Espírito, o que mais perto ande dos sorrisos inefáveis de Deus!

Pois se falassem, o que não diriam os púcaros das feiras do nosso Alentejo, pondo a sua nota sanguínea na quermesse ruidosa das gentes que vão e vêm, entre pó e moscas, por um sol de abrasar Caim?

A ilustre D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos, com a sua festejada autoridade, conferiu-lhes carta de nobreza nos domínios da erudição. Púcaros como os de Estremoz, nenhuns outros em elegância e nas virtudes secretas de prantar a água fresquinha! Só por uma coisa – e na própria Estremoz! – eles se consideram vencidos. Já o bisbilhoteava no século XVI certo fâmulo do Arcebispo de Lisboa, voltando de acompanhar o seu senhor numa missão a Castela: «Nesta vila há muitas moças formosas e em boa quantidade; porque se os graes e púcaros são formosos, mais merecem as mulheres.»

Transitemos adiante, com discreto assentimento... E sempre em elogio do «púcaro», rememore-se o espanto polido do italiano Venturini, secretário do Cardeal Alexandrino, ao acentuar as vezes que el-rei D. Sebastião, num banquete em palácio, desprezando vinhos preciosos e preciosas ânforas, bebeu apenas água e por um púcaro feito de certo barro vermelho, subtilíssimo e luzidio, que chamam «barro d’Estremoz». Tornaram-se europeus os púcaros da sua boa e honrada vila, meu prezado amigo!

Eles figuravam nas távolas dos reis, nas credências dos bispos, nos enxovais das princesas, nos pincéis dos mestres mais afamados.

A corte de Madrid difundira-lhes procura por toda a Europa. Velázquez depôs num púcaro o centro do seu célebre quadro das Meninas! Já antes Filipe II mandava a Estremoz por bilhas e púcaros, com o fito de presentear, como se de um mimo suavíssimo se tratasse, as infantinhas suas filhas. No inventário da mãe de D. Sebastião aparecem os púcaros de Estremoz como peças de apreço.

Estiveram em Alcácer-Quibir com as violas e as esperanças em flor de uma juventude fremente. E tão companheiro o púcaro é de lides e labutas caseiras, que um autor de antanho, perdido de saudades pelos costumes de algum dia, melancolicamente monologava, pensando talvez no púcaro de Estremoz, que é o púcaro por excelência: «Idade de ouro e tempo santo quando a Rainha Dona Catarina assim era contínua no trabalhar que da secura que lhe causava o fiar, tinha sempre a par de si um púcaro com água em que molhava os dedos.»

Mas eu não me encontro ordenando uma monografia acerca dos púcaros de Estremoz – da sua linda Estremoz! Alarguei-me, reconheço. Alarguei-me, porém, para afugentar qualquer sorriso céptico, esboçado porventura sobre a minha afirmação de que contar a vida e feitos dos pucarinhos de Estremoz seria traçar um capítulo – e que brilhante capítulo! – da civilização peninsular. Não o ignora você, docemente inclinado para as aparições que povoam a hora das toadas, o silêncio heróico em que Estremoz se amortalha. Que a sua sementeira frutifique, e que, nas pisadas de Estremoz, cada pequenina pátria local do nosso mal-afortunado país tenha uma lâmpada acesa que a desperte e levante no que é a força invencível da sua alma, ao amor da sua história! Como uma abelha preparando afanosamente o seu favo, quem, sem ruídos nem desânimos, proceder como você procede, meu caro Honório Cardoso, cabe-lhe em completa justiça um lugar entre os verdadeiros conservadores da energia nacional. Para a frente, e com a galhardia de um moço em que se reproduz o aprumo da incomparável torre que lhe guarda os horizontes natais! Lembra-se daquele fidalgo da corte de D. João II, a quem, se lhe caiu o púcaro da mão, não lhe caiu nunca a espada? Pode também a você, meu estimável amigo, cair-lhe o púcaro da mão. Mas que não lhe caia nunca a pena que a tão simpáticos combates se dedica!

Tais são os votos do seu agradecido e atento.

S.C. Elvas, Quinta do Bispo, dia de São Luís, 1924.

Fotografia
"Velázquez depôs num púcaro o centro do seu célebre quadro das Meninas!" - LAS MENINAS (1656), por Diego Rodríguez de Silva y Velázquez (Sevilha, 1599 - Madrid, 1660). Museu do Prado, Madrid.


In De Vita et Moribus - Casos & Almas, 1931
​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
Fotografia

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