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​NOS ÁTRIOS DA CIDADE-NOVA

António Sardinha
​Ao erguer-se sobre o Calvário o lenho deicida, não foi debalde que, voltando as costas para a renegada Jerusalém, Jesus fixou o seu divino rosto na direção do ponto misterioso em que o sol descai e desaparece, por fim. Desde então nunca mais seria certa a invocação dos gnósticos: Ex Oriente lux! Do Ocidente a luz resplandeceria, por cima dos continentes selváticos e dos oceanos virgens

​
- António Sardinha

RESUMO
O texto analisa a aproximação política entre Espanha e Itália, impulsionada pelos líderes Miguel Primo de Rivera e Benito Mussolini, destacando a influência de ambos na redefinição do papel dos seus países no Mediterrâneo e na Europa. Acredita que é possível um ressurgimento de valores cristãos, o que viria reforçar o impacto dessa aliança nas dinâmicas internacionais e na restauração do prestígio histórico destas nações. Não aconteceu. No ano seguinte, em 1925, Mussolini publicou as primeiras leis que conduziram à criação do Estado Fascista, denunciado pelo papa Pio XI como uma "estatolatria pagã".




​NOS ÁTRIOS DA CIDADE-NOVA ​
Não seria difícil, a um espírito interessado na marcha dos vários problemas europeus, prever, se não adivinhar, a aproximação hispano-italiana. Para que ela se efetuasse só faltava que em Espanha se constituísse dentro das esferas superiores do Estado a mesma visão clara e decisiva que ao Estado em Itália levara a energia heróica de Mussolini. Sem irredutibilidade de conciliação difícil, antes, como países mediterrâneos, naturalmente conduzidos a uma ação paralela e concorde, a Itália e a Espanha tendiam, pelas leis tanto da história como da geografia, a um entendimento que só a fraqueza governativa no interior e a ausência de visão ampla no exterior até agora tinham impedido.

O ascenso ao poder, inesperado e feliz, do general Primo de Rivera facilitou à nação irmã a entrada naquele caminho, em que já a Itália ingressara pela mão resoluta de Mussolini. Não bastava, na verdade, para povos possuidores de uma tão grande repercussão mundial, obter-se, como mira exclusiva das inquietações patrióticas, a ordem nas ruas, a liberdade perante as urnas e o equilíbrio das finanças! Para mais longe se devia olhar, para além, e muito para além, da miopia burguesa dos ministérios saídos das constituições românticas do século findo. Conjugadas depressa por um abraço fraternal, tão pronto no Estado houve memória e consciência, faculdades que a paranóia liberalista exclui por completo, a Itália e a Espanha entenderam desde logo que o perfeito exercício das suas respetivas soberanias políticas era intimamente condicionado pela influência, maior ou menor, em que as visse projetadas na parte ocidental do Mediterrâneo.
Apressa-se a imprensa, inspirada pelos gabinetes de Madrid e de Roma, a declarar que não existem propósitos agressivos, nem da Espanha nem da Itália, na sua já ressoante aproximação, para com a França ou para com a Inglaterra, tão diretamente instaladas no desfruto do velho mar da cultura clássica. Piamente acreditamos que não existem propósitos agressivos. O que existem – e honra seja feita a Mussolini e a Primo de Rivera! – são intuitos defensivos. E isto porque, prosseguindo no seu irredentismo, a Itália é hoje, mais do que nunca, uma potência em posição francamente contrária à posição assumida no Mediterrâneo pelo imperialismo francês e pelo navalismo britânico. Ao seu lado, com a França apanhando-lhe o melhor quinhão de Marrocos, onde reside sem dúvida uma das bases militares e económicas da independência da Península, e a Inglaterra impedindo-lhe, num caso de extrema necessidade, pela retenção de Gibraltar, a junção das duas frações da sua esquadra (Ferrol e Cartagena), a Espanha, sem o concurso solidário da Itália, não sairia jamais, debaixo do ponto de vista internacional, da subalternidade humilhante em que se sepultou a partir de Vestfália, principalmente. Sem o apoio da Espanha, também à Itália não se tornava possível enfrentar as forças adversas à lógica e legítima expansão do seu nacionalismo, depois que a guerra última desfizera as hábeis combinações de Crispi – o futuro dirá se as mais conducentes à finalidade superior da raça italiana, descontada, claro, a hipótese da aliança com a Espanha então inverosímil, sobretudo após o insucesso do Rei Amadeu.

Acontece ainda que os sérios problemas da Tunísia, pelo que respeita à Itália, e da preponderância numérica da população espanhola em Orão, no que toca à nação vizinha, obrigam a pensar num choque violento, mais ou menos distante, mas inevitável – choque para que ambos os países, unidos hoje por uma súbita e iluminada compreensão dos seus destinos históricos, preparam de antemão a vitória, concertando-se prudentemente para as eventualidades futuras.

Mas no tema dominante da aproximação hispano-italiana, selada pela visita dos Reis-Católicos à Roma dos loureiros solenes, acima das razões circunscritas de qualquer comentário de jornalismo quotidiano, um facto sobrepuja e se contorna – e é ele o como que consórcio místico (consinta-se a expressão) das duas afirmações contrarrevolucionárias até ao momento atual verificadas na Europa Ocidental. «Sois o apóstolo da campanha dirigida contra a obra de dissolução e de anarquia que se estava iniciando na Europa» – eis como Primo de Rivera saúda Mussolini. Eis, por sua vez, como o doge do Fascismo responde a Primo de Rivera: «Quando recebemos notícias do vosso movimento, pensámos logo que, embora fosse diverso o método, o objetivo podia considerar-se idêntico: libertar as forças vitais do país da tirania nefasta de doutrinas políticas antiquadas.» E, rápido, acentuando bem o que o Fascismo tem de próprio – de italiano – e o que tem de humano e de universal, Mussolini acrescentou: «O fascismo é um fenómeno tipicamente italiano, mas alguns dos seus fundamentos são universais, porque muitas provas sofreram e sofrem as degenerescências dos sistemas democráticos e liberais. O amor à disciplina, o culto da beleza, a força, o valor, a responsabilidade, o desprezo ao lugar-comum, o gosto das realidades, o amor ao povo sem adulações: estes pontos basilares da revolução fascista podem servir também para os demais países.»

Servem, efetivamente – e sem se entrar em extensas enunciações doutrinárias, justificam pelo facto a campanha intelectual que, em França, Maurras chefia, e em Portugal, desde 1914, o Integralismo comanda. O que faltava, porém, às situações criadas na Europa Meridional pela intervenção intrépida de Mussolini e de Primo de Rivera era esse sentimento de solidariedade que torna a estabilização do seu triunfo um acontecimento mais que nacional – porque é europeu. Falido sem remédio o tipo de Estado que a Revolução Francesa engendrou e a que Napoleão conferiu atributos jurídicos, duas experiências se opõem hoje no combalido tablado político do nosso pobre continente: a experiência de Lenine e a experiência de Mussolini, repetida com energia pela espada gentil do marquês de Estella. Isto é, ao maximalismo oriental – espectro gelado da Ásia avançando à conquista das sociedades cristãs do Ocidente – responde, firme e a tempo, o maximalismo do mundo ocidental. Não dirá agora Oswald Spengler que o ocidente entrou em decadência irremediável.

Ora o pacto de Roma – porque de um pacto tácito entre os dois ditadores se deve capitular o seu significativo encontro – marca o introito da Era-Nova, da Era ansiada por quantos, no alastrar das babilónias modernas, metalizadas até à medula, temiam ver sumir-se para sempre o sorriso divino da Civilização. Portadoras no seu passado de um conceito de existência que só se efetivou pela universalidade, desde a Roma dos Césares até à difusão do Catolicismo como causa própria, a Itália e a Espanha reúnem-se, por um milagre imprevisto da história, na aspiração crepitante de um mesmo anelo ecuménico: o fim da Revolução. Compreende-se assim que no seu laconismo avisado o Times comente: «Ao reunir-se o marquês de Estella com o senhor Mussolini reúnem-se dois homens que estão realizando uma experiência política interessantíssima.» Mas muito mais que os indícios favoráveis dos homens, são os sinais evidentes da complacência de Deus!
Não aproveitara à Itália a vitória de há cinco anos, cada vez rolando mais no declive inglório para onde a farsa liberalista a empurrava. Surgiu Mussolini, e verificou-se que a alma centenária da nação se mantinha incorrupta. Outro tanto sucedia com a Espanha, incapacitada de utilizar os benefícios que uma neutralidade casual, durante a guerra, lhe proporcionara com ampla mão generosa. Atrás do apelo de Primo de Rivera, o espírito público acorda – e tão intensamente que a Espanha, sem política externa, hesitando ao sabor dos ventos internacionais, se transforma de súbito em potência mediterrânica concretizando os seus desígnios com singela e nobre decisão. Meditem no caso os Povos e os Reis!
​
Mas não é só a Itália que se levanta, não é só a Espanha que desperta! Levanta-se com ambas, desperta com as duas, o conceito perdido da Cristandade. Desde Quinhentos que um monarca católico não pisava os mosaicos de São-Pedro com a tocante fidelidade do monarca espanhol. E, por uma impressionante coincidência, se o Papado politicamente se submergia em Vestfália nos desastres que então arrancaram à Espanha o que lhe restava do seu predomínio na Europa, é com a Espanha ressuscitando para inéditas e esplendorosas rotas, em que cintila o sentido ancestral da Cruzada, que o Papado regressa ao seu papel de medianeiro das pátrias e de admoestador dos governantes. Essa espécie de interdição moral que até agora impossibilitava um chefe de Estado católico de ajoelhar como filho diante do Vigário de Cristo, tributo rendido aos falsos ídolos do Regalismo e da Enciclopédia, morreu definitivamente – não é senão um espectro risível, afundando-se na sombra. Coube ao Rei de Espanha desbaratá-lo de vez. E se o reino de São Fernando se cobre assim de loiros imarcescíveis, pertence-lhe também a glória de ter ajudado o Quirinal a encurtar a distância que o separa do Vaticano...
 

*
Ajoelhados, pois, nos átrios da Cidade-Nova, bendigamos a Deus por havermos nascido na singular época de renascimento, a que, entre tumultos de catástrofe, assistimos na Europa! A vil judaização das sociedades ocidentais, por meio das doutrinas económicas do Liberalismo, atinge o seu derradeiro estrebucho, no esboroar do edifício burguês, a que Lenine deitou fogo, encarnando a justiça cega das forças naturais desencadeadas. Mas o Ocidente, com o seu claro sorriso, decide-se ao triunfo, e como um príncipe dormido dos velhos contos, irrompendo pela selva escura em que jazia prisioneiro, desembruxa-a galhardamente dos mitos ignóbeis que a povoaram. Ao erguer-se sobre o Calvário o lenho deicida, não foi debalde que, voltando as costas para a renegada Jerusalém, Jesus fixou o seu divino rosto na direção do ponto misterioso em que o sol descai e desaparece, por fim. Desde então nunca mais seria certa a invocação dos gnósticos: Ex Oriente lux! Do Ocidente a luz resplandeceria, por cima dos continentes selváticos e dos oceanos virgens. Um crepúsculo veio, pesado e longo. Ei-lo vencido, porém. As nascentes rebentam em Roma, com os loureiros florescendo debaixo do sinal augustíssimo da Cruz. São os pórticos da Cidade-Nova que se escancaram à procissão dos séculos futuros. Louvemos o nome do Senhor para que ele nos faça dignos de vivermos este advento de maravilhosa anunciação!
            
1924.
 

In A Prol do Comum, 1934.
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  • 1913 - António Sardinha - EX ORIENTE LUX​​
  • 1922-07 - António Sardinha, A Ordem-Nova
  • 1923 - António Sardinha - Mais longe ainda!
​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
Fotografia

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