ESTUDOS PORTUGUESES
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        • I. A origem e a natureza da realeza tradicional portuguesa
        • II. O caráter orgânico e democrático da monarquia medieval portuguesa
        • III. A formação das instituições representativas e o papel das Cortes
        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
        • VIII. O Absolutismo, o Pombalismo e a Reação Tradicionalista
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Errata necessária

António Sardinha

RESUMO
O Lirismo Português e o Desafio da Desnacionalização: Reflexões Históricas e Culturais. 
​
​
Análise da influência do lirismo nacional e do francesismo na identidade portuguesa.
  • Introdução. António Sardinha apresenta uma análise crítica acerca da influência francesa em Portugal, abordando episódios históricos, culturais e filosóficos que evidenciam tanto o contributo português para a Europa como os riscos da desnacionalização causados pelo fascínio excessivo pelo estrangeiro. Propõe uma reflexão sobre o valor do lirismo português e alerta para a necessidade de reafirmar a identidade nacional perante ameaças externas.
  • O Pessimismo de Cánovas del Castillo e a Visão sobre a Península Ibérica. O texto inicia-se com uma referência ao pessimismo de Cánovas del Castillo sobre o futuro da Península Ibérica, manifestado na sua Historia de la Decadencia de España. Cánovas lamenta a perda da grandeza espanhola e sugere que a união pacífica com Portugal poderia restaurar a força continental da região, ao passo que a influência francesa representa uma ameaça de divisão e dominação. O autor salienta que, para os portugueses, a promessa de integração da Galiza seria apenas mais um motivo de divisão, colocando ambos os países sob domínio francês.
  • Relações Históricas entre Portugal, França e Espanha. Discute a relação conflituosa entre Portugal e França ao longo da história, destacando episódios como as invasões napoleónicas, a aliança francesa com o Império Otomano contra a hegemonia cristã, e a atuação francesa nas costas do Brasil e nos mares, frequentemente em confronto com interesses portugueses. Apesar de episódios pontuais de cooperação, como o apoio de Richelieu em 1640, o autor sublinha que tal ajuda foi limitada e que os interesses franceses nunca coincidiram plenamente com os portugueses.
  • O Francesismo e a Desnacionalização Portuguesa. Argumenta que o francesismo, entendido como fascínio e imitação acrítica da cultura francesa, foi responsável por uma profunda desnacionalização da sociedade portuguesa. Cita Eça de Queiroz, que reconhece ter sido vítima desse processo, e descreve como a influência francesa permeou a literatura, o teatro, a educação e até o quotidiano português, levando ao abandono das tradições nacionais em favor de modelos estrangeiros.
  • O Lirismo Português: Força e Distinção Nacional. Contrapondo o espírito crítico francês ao lirismo português, António Sardinha destaca que a imaginação e a contemplação são traços distintivos da cultura nacional. Portugal, segundo Eça de Queiroz, é simbolizado pelo rouxinol nostálgico e poético, enquanto a França é representada pelo galo petulante e racional. O texto sublinha que o lirismo é a força madre da cultura portuguesa, fonte das maiores criações épicas, como a obra de Camões.
  • Contributos Portugueses para a Cultura e Filosofia Francesas. É apresentada uma revisão dos contributos portugueses para o florescimento intelectual francês, mencionando figuras como André de Gouveia e Pedro Hispano, que exerceram influência nas universidades europeias e na filosofia. O autor relembra o impacto dos Commentarii Collegii Conimbrensis no pensamento europeu, inclusive em Descartes, e a presença do sentimento português na literatura epistolar francesa, como nas Cartas da Freira, que se tornaram referência de sensibilidade na Corte de Luís XIV.
  • Consequências do Francesismo e Apelo à Revalorização Nacional. O texto conclui que Portugal sofreu, tanto política quanto literariamente, as consequências da desnacionalização provocada pelo francesismo. Apesar de já ter dado à França valiosos contributos em cultura, pensamento e sensibilidade, o autor defende a necessidade de restaurar o significado preciso das preferências nacionais, combater o francesismo e reivindicar plenamente os direitos portugueses, especialmente em relação a Marrocos, reconhecido como parte do desenvolvimento histórico do país.
  • Considerações Finais. António Sardinha apela à revalorização do património e da identidade nacionais, defendendo que não existe paralelismo entre Portugal e França, e que a história portuguesa, marcada por ofensas e mutilações, exige uma resposta firme e consciente. A preservação da memória histórica e o reconhecimento dos legítimos direitos portugueses são apresentados como fundamentais para o futuro da nação.
​




​ERRATA NECESSÁRIA


Só aos seus antecedentes radicais, numa época de permanente perturbação mental, se deve atribuir o conceito que subsistiria sempre em Cánovas del Castillo acerca do futuro da Península. Pèssimista, ou, pelo menos, scéptico em face do porvir, é cheio de visível amargura que Cánovas escrevera na sua Historia de la Decadencia de España: «Con la España Austriaca pereció la verdadera, la antigua, la grande España de los Reyes Católicos, no quedando más que el odio que a causa de lo pasado nos han profesado hasta ahora unánimemente los extranjeros... España puede ser todavía uma gran nación continental uniéndose pacífica y legalmente con Portugal su hermano, comprando o conquistando a Gibraltar tarde o temprano, y extendiéndose por la vecina costa de África. Pero también puede quedar reducida a nulidad vergonzosa, ejecutándose en todo o en parte el funesto pensamiento que era traer al Ebro la frontera francesa, y dando a Portugal la Galicia, repartir la Península entre dos Coronas casi iguales en poderío.»

Tanto nas palavras de Cánovas, como no facto já mencionado da vinda a Madrid de M. de Kérantry, é conveniente que os portugueses aprendam o que, em verdade, se pode agradecer à França. Inútil é iludir-nos com a promessa da incorporação da Galiza! Era mais um motivo de divisão na Península, agora com a França no Ebro, dominando-nos inteiramente a nós, peninsulares. Seríamos assim uma zona da sua influência. Claro que a hipótese é cada vez menos provável. Mas, recordando-a, não vem fora de propósito este comentário, porque sofremos precisamente em Portugal as consequências da nossa intervenção na Guerra, a favor de uma causa a que por todas as razões nos devíamos manter alheios. Se ao longo da nossa história ha nacionalidades em conflito permanente com o que representa a mais bela essência de génio português, é a França, irrecusavelmente, uma delas. Nas costas do Brasil, ou nos encontros do alto-mar, com Villegagnon ou com João Ango, são franceses que abordam, como piratas, as nossas conquistas e as nossas carregações, sem haverem contribuído em nada para o poema eterno das Descobertas. Quando, ao lado de Espanha, no século XVI, salvávamos a hegemonia europeia, ameaçada de morte pelo Turco, a Espanha, detendo-lhe o avanço através da Europa-Central, nós, ferindo-o nas costas com a nossa acção militar na Índia, não hesita a França em se aliar ao inimigo secular da civilização cristã, a ponto de Camões não conter a sua justa indignação e de a vazar em acentos de bronze nas imorredoiras estrofes dos Lusíadas: «Pois de ti, Galo indigno, que direi? / Que o nome Cristianíssimo quiseste, / Não para defendê-lo, nem guardá-lo, / Mas para ser contra ele, e derribá-lo?»
É certo que Richelieu nos auxilia em 1640. Mas com a sua morte, quem seguir, na ascensão de Mazarino ao poder, as longas teias diplomáticas em que esse auxílio se retraiu, de maneira a ficar quase em palavras apenas, não alardeará grandes sentimentos de gratidão para com a França. Há um livro que se deve folhear, porque representa um guia seguro para que nós, sobre factos insofismáveis, firmemos definitivamente o nosso juízo. Intitula-se Estudo histórico das relações diplomáticas e políticas entre a França e Portugal desde a constituição da monarquia portuguesa até à queda de Napoleão Bonaparte,[1] e é seu autor B.L. de Moraes Leite Velho, advogado que foi no Rio de Janeiro. Suponho que nada mais se precisa para que, suficientemente elucidados, a nossa opinião a tal respeito seja uma só.

Não é que eu deseje com isto cultivar chauvinismos irritantes. Entendo, porém, que é necessário corrigir as preferências internacionais que, apesar das lições do presente e do passado, continuam a dominar na inteligência e na sensibilidade de muita gente que presume de culta. Mal se contaram ainda cem anos, desde os latrocínios e dos massacres das três invasões napoleónicas. Os nossos monumentos foram mutilados, pilhadas as nossas igrejas, fuziladas em massa populações inteiras. Nada existe nas nossas lutas com a Espanha que se compare à página negra a que me refiro. Esteve então em maior perigo a nossa independência do que esteve no reinado dos Filipes. No entanto, nada hoje recorda ou celebra o heroísmo dos guerrilheiros do princípio do século findo, gastando-se toda a saliva da farta oratória nacional em reeditar anualmente pelo Primeiro de Dezembro os velhos lugares-comuns da sua indignação arcaica e teatral contra a Espanha, nossa irmã nos destinos superiores da Península e colaboradora na obra imortal de civilização que soubemos ligar ao mundo.

Creio que neste singular esquecimento do que valeu em esforço e em resistência admirável a parte que a nossa raça tomou na Guerra-Peninsular anda alguma coisa de conspiração maçónica – de propósito muito bem delineado e conduzido, no sentido evidente de amortecer as justas iras do espírito patriótico para com a França, de onde nos viera com semelhante flagelo o flagelo peor do romantismo revolucionário. Exactamente por ser a França a pátria das ideias desorganizadoras que nos saltearam perfidamente, trazidas pelas mochilas dos soldados de Napoleão, é que em Portugal o liberalismo dos pastoreadores do pensamento colectivo, com o obscurecer o sulco de ruína e mortalidade deixado pelos franceses entre nós, se empenhou com rara pertinácia em nos apresentar a França como um país modelo, irradiando por todo o universo um facho de luz redentora.

Ora nós, em Portugal, carecemos de restituir a tudo o seu significado preciso. Pois que as nossas preferências pela França se tornam num elemento dissolvente para a restauração da unidade-moral da Península, temos que as dominar e combater sem tréguas. Já vimos como a França, aliada com o Turco, arrancou a Camões uma apóstrofe candente. Já vimos também como, sem participar dos perigos que sofremos na descoberta do Mar, se nos atravessou depois no caminho, pirateando-nos atrevidamente. Mas a mais repugnante de todas as suas piratárias foi a embusteirice erudita com que pretendeu mais tarde adornar-se para os favores da posteridade, procurando antecipar-se ao nosso avanço pelas costas de África com a conhecida fábula dos marinheiros de Dieppe, que o Visconde de Santarém pulverizou notabilissimamente. Vem de seguida a restauração da nossa soberania política no século XVII. Nas suas maquinações, contra a hegemonia europeia da casa de Áustria. Richelieu anima de longe os conjurados que elevam ao trono o Duque de Bragança. Praticamente, porém, em bem poucos se concretizaram as suas promessas, porque a Rechelieu o que importava não era a nossa emancipação, mas sim o que nós poderíamos incomodar a Espanha, enquanto andasse em guerra com a França.

Morreu Richelieu em Dezembro de 1642. E se não ficamos abandonados à nossa sorte na paz de Vestfália, foi porque a França se não desembaraçou da Espanha tanto como quisera. O rosário de traições e de enganos continua, por isso, arrastando-se disfarçadamente. Sobrevém um intermezzo lírico com a embaixada do Cavalheiro de Jant. Mas, malograda a sua missão junto da côrte de Lisboa, para honra e glória do nosso caluniado D. João IV, Mazarino decide-se sem demoras pela reconciliação com a Espanha. As conversações preliminares desenvolvem-se com lentidão excessiva. Entretanto, Turenne ganha a batalha das Dunas e nós derrotamos D. Luís de Haro nas linhas de Elvas. O governo da Regência (já D. João VI tinha falecido) publica um manifesto enérgico, «no qual dizia, alto e bom som, que das ligas feitas e propostas com a França nenhuma vantagem tinha tirado, o que lhe devia servia de lição, porque durante dezassete anos tinha ficado ao desamparo e no descuido de procurar auxílios noutra parte, devendo lembrar à França que se ele e a Espanha reunissem contra ela os exércitos que tinham na guerra, com que se hostilizavam reciprocamente, não era difícil prever os resultados».[2] Mas nada consegue evitar que a paz conhecida por ‘paz dos Pirenéus’ se firme em 7 de Novembro de 1659.

É indubitável que Turenne nos demonstrou sempre disposições favoráveis e, graças à sua intervenção pessoal, se obteve a vinda de Schomberg com algumas centenas de aventureiros e de mercenários. Contudo, metade da campanha estava ganha e para as vitórias seguintes não seria indiferente o apoio que negociámos em Inglaterra, com Carlos II já restaurado. Nas condições apertadas em que nos íamos achar, com o peso da Espanha voltado contra nós, não houve remédio senão ceder Tânger e Bombaim, não viessemos a sossobrar num naufrágio ainda maior. 
Observa Leite Velho no seu trabalho já citado: «Estranhas vicissitudes da história – diz H. Martin –, Mazarino, Luís XIV e Turenne aliando a Inglaterra com Portugal, chamando-a ao estreito de Gibraltar! Viu curto o grande historiador, porque não viu Bombaim e não quis ver que à traição da França se deva o início da grandeza marítima, e da influência política da Inglaterra...»[3]Efectivamente, desde essa data, a integridade territorial da Península começou a sofrer a acção nefasta de factores que não tardariam a contribuir para a sua rápida decadência. A unidade hispânica, sofria um golpe mortal e, como consequência lógica, a França instala-se hoje na melhor porção de Marrocos, ao passo que a Inglaterra guarda consigo as chaves do Mediterrâneo Ocidental.

Mais longe nos estenderíamos nas nossas considerações, se não se encontrasse já sobejamente demonstrado quanto há de insensato na tendência de nos inclinarmos mais para a França do que para a Espanha.

Enfermamos de um francesismo abominável. Dele deriva a avariose das nossas ideias, dele deriva a epilepsia macabra em que hoje Portugal se debate. E como nos paga a França? Oferecendo, por exemplo, à Espanha, por intermédio de M. de Kératry, a possibilidade da unificação ibérica, evidentemente pelos meios violentos, embora insubsistentes, da conquista.

Repeliu o governo de Prim com desdenhosa nobreza tão inqualificável proposta. Não saìria ela nunca do capítulo das promessas. Traduz, contudo, um conceito humilhante, que Portugal parece ter olvidado. Não me demorarei eu a relembrar-lho. O que lhe recordo é a transparente marca maçónica do nosso inexplicável ‘francesismo’. Podem bem aplicar-se à nossa situação presente aqueles versos do século XVII, satirizando a côrte de D. Maria Francisca de Saboya: «Enfermo do mal francês / Há anos está Portugal; / E não sára deste mal, / Porque o curam ao revês. / Deus lhe acuda desta vez! / Porque este reino coitado / De sorte está galicado, / Que é dificultosa a cura. / E assim está na sepultura / Vivo, mas quase enterrado. / ... / Ah, mísero Portugal, / Como temo de te ver! / Pois podendo renascer / Te vejo quase mortal. / Se queres sarar deste mal, / Lança este gálico fora! / Verás que assim se melhora / Por meio desta virtude / A tua antiga saúde, / Se a tens perdida agora.»[4]

E o aspecto mais grave de tão baixa superstição é a impossibilidade em que ela nos deixa de olhar com olhos de ver a solução do problema peninsular. De certo modo, Marrocos, nas suas relações com a Península e ainda por direitos de incontestável prioridade histórica, é para nós ‘terra-irridenta’. Alheados inteiramente da questão marroquina, a obsessão suicida dos portugueses vai até ao ponto de achar melhor que Tânger fique para a França do que para a Espanha, desde que, por culpa nossa, não pode ficar para nós. Quando se perdeu por completo a consciência dos grandes objectivos nacionais, não é para estranhar que a própria ideia da nacionalidade se dissolva na incomensurável anarquia mental e política em que Portugal parece pulverizar-se irremediavelmente!

Nesta crise moral do pensamento nacionalista português, abrangemos nós um índice bem claro de quanto actuou em nós, como agente corrosivo, o francesismo racionalista e romântico dos nossos ideólogos de há século e meio. Nas suas Últimas páginas, Eça de Queiroz, arrependido com a maior sinceridade do muito que contribuíra para o agravamento do mal, deixou-nos num capítulo admirável o testamento da sua inteligência e da sua sensibilidade. Intitula-se ele, expressivamente, «O Francesismo», e, por entre cintilações de graça nolvidável, o incomparável mestre de A correspondência de Fradique Mendes e de A ilustre casa de Ramiresconfessa-nos o seu pecado, cheio da maior compunção patriótíca.

«Em lugar de ser culpado da nossa desnacionalização – escreve –, eu fui uma das obras melancólicas dela. Apenas nasci, apenas dei os primeiros passos, ainda com sapatinhos de crochet, eu comecei a respirar a França... Depois ensinaram-me a ler, e o Estado, que certamente tinha interesse em que eu soubesse ler, e que, por meio das suas Repartições Públicas, estudara prudentemente o livro que melhor me convinha, como lição moral e como lição patriótica, meteu-me nas mãos um volume, traduzido do francês e chamado Simão de Nântua... Depois, comecei a subir o duro calvário dos preparatórios: e desde logo, a coisa importante para o Estado foi que eu soubesse francês... Ora naturalmente até aqui, simples estudante, eu do vasto mundo só vira, só me interessara aquele detalhe que mais se relaciona com o estudante – o compêndio. E só encontrava, só respirava o francês.»

Encontrou-o Eça na literatura, encontrou-o no teatro, na sociedade, até nos limites burocráticos da sua carreira burocratíssima. «Se nesta capital do Reino, resumo de toda a vida portuguesa – observa o romancista referindo-se a Lisboa –, um patriota quisesse aplaudir uma comédia de Garrett, ou comer um arroz de forno, ou comprar uma vara de briche – não podia.» E acrescenta, entre doloroso e irónico: «Nem nos palcos, nem nos armazéns, nem nas cozinhas, em parte alguma restava nada de Portugal. Só havia arremedos baratos da França.»

«Enquanto à Política propriamente portuguesa – prossegue Eça –, escuso de dizer que nenhum de nós verdadeiramente sabia se o regime que nos governava era a Constituição ou o Absolutismo. De tais detalhes portugueses não curavam os filhos de Danton. Enquanto às divisões parlamentares de Regeneradores, Históricos, Reformistas, nem sequer as suspeitavamos, nós que conhecíamos as menores nuances da oposião francesa, e distinguíamos as pequenas subtilezas de opinião que devidiam Jules Favre e Gambetta, Picard e Jules Simon.» E o escritor insiste: «Mas para que hei-de continuar? Não quero escrever uma página de memórias. Apenas mostrar, tipicamente, como eu, toda a minha geração (exceptuando espíritos superiores, como Antero de Quental ou Oliveira Martins) nos tínhamos tornado fatalmente franceses no meio de uma sociedade que se afrancesava e que, por toda a parte, desde as criações do Estado até ao gosto dos indivíduos, rompera com a tradição nacional, despindo-se de todo o traje português, para se cobrir, pensando, legislando, escrevendo, ensinando, vivendo, e cozinhando, de trapos vindos de França.»

Alarga-se Eça de Queiroz, num humorismo sempre amargurado, em que o amor pela gleba natal transparece com a maior diafaneidade, a despeito do monóculo implacável do romancista.
«O pai de um amigo meu, em 1836 ou 1848 – é ele quem no-lo conta – num odio repentino a tudo o que lhe lembrava o velho Portugal, foi-se à sua mobília antiga, de pau-preto torneado e de assentos de couro lavrado, e num só dia vendeu, queimou, sepultou em sótãos, dispersou todas essas formas vetustas, que lhe vinham do passado; depois correu a um estofador da esquina, e comprou ao acaso, num lote, uma mobília francesa. O que este homem fez, todo o Portugal o fez. Num rompimento desesperado com o velho regime, tudo quebrou, tudo estragou, tudo vendeu. Achou-se de repente nu; e como não tinha já o carácter, a força, o génio, para de si mesmo tirar nova civilização feita ao seu feitio e ao seu corpo, embrulhou-se à pressa numa civilização já feita, comprada num armazém, que lhe fica mal e lhe não serve nas mangas.»

Eça de Queiroz torna-se verdadeiramente memorável na defesa que lhe merecem as virtudes cívicas da sua e nossa raça perante a onda nauseante do francesismo invasor: «Mas, pergunto eu, este collage com a França, é uma tendência fatal, necessária, de similitude, a que não possamos escapar, como a Dinamarca não pode escapar a imitar a Alemanha, e a Bélgica se não pode eximir a imitar a França? Não creio. O dinamarquês é um alemão desbotado. A Bélgica é uma edição barata da França. Mas não há similitude alguma de temperamento, de feitio moral, entre nós e a França. Nada mais diferente de um francês do que um português; nem eu compreendo que satisfação, que gozo possa achar o espírito português em se nutrir, em se banhar nas criações do espírito francês. A França é um país de inteligência; nós somos um país de imaginação. A literatura da França é essencialmente crítica: nós, por temperamento, amamos sobretudo a eloquência e a imagem. A literatura da França é, desde Rabelais até Hugo, social, activa, militante. A nossa, por tradição e instinto, é idílica e contemplativa. Não é só por uma fria imitação de Teócrito e dos bucólicos latinos que nós, desde Rodrigues Lobo até aos elegíacos da Arcádia, amamos a écloga pastoral: é porque nós somos realmente o povo que se compraz em estar quieto entre os choupais, a ver correr as águas meigas, pensando em coisas saudosas. Fomos à Índia, é verdade, mas quase três séculos são passados, e ainda estamos descansando, derreados, desse violento esforço, a que nos obrigaram alguns aventureiros que tinham pouco do fundo comum da nossa raça, e que, a julgar por Afonso de Albuquerque, deviam ser de origem fenícia, puros cartagineses, talvez da família dos Barcas. Enfim, o símbolo da França será eternamente o galo, o galo petulante e lustroso que canta claro, com uma limpidez de clarim, no fresco arrebol da manhã: e o nosso emblema é e será eternamente o rouxinol, que geme na espessura mal alumiada dos arvoredos, o rouxinol ‘amavioso e saudoso’ que faz chorar Bernardim.»

Dificilmente Eça de Queiroz se limparia do seu antigo pessimismo, mesmo num acto de fé nacionalista tão alto e tão crepitante como o que fica transcrito. Subsistiriam sempre no seu espírito alguns resíduos da negação primitiva, tanto mais que não era alheio às sugestões de Oliveira Martins e de Antero de Quental acerca das causas da nossa decadência. Não nos admiremos por isso que repute o nosso contemplativismo como um permanente estado de extasi sentimental, excluindo-nos de toda a capacidade activa, de toda a forma poderosa de acção. Enganava-se também o glorioso romancista, quando reputava estranhos ao fundo ancestral da raça os que nos levaram à Índia, por mercê do seu impulso heróico, e com D. Francisco de Almeida e Afonso de Albuquerque legaram ao mundo moderno os dois sistemas de ocupação ultramarina mais eficazes, respectivamente, o de feitoria, seguido pela Holanda, e o do império, desenvolvido e aperfeiçoado pela Inglaterra. Não passa, pois, de um lugar comum aliteratado a explicação de sobrevivência púnica que Eça de Queiroz apõe aos nossos descobridores e colonizadores. Começa logo que os Barcas eram mais líbios que fenícios, consequentemente aparentados bem de perto com a presumível árvore genealógica do lusitano antigo. E feita a rectificação necessária, não nos percamos agora em divagações que, embora interessantes, nos desviariam, contudo, do nosso alvo predominante.

Como o lirismo, apontado por Eça, constitui a nossa força madre, sabemo-lo nós já. E como do lirismo subimos às maiores criações épicas com exemplo máximo em Luís de Camões, não o duvidará ninguém. Reconhece-o, de resto, Eça de Queiroz, lembrando-se do mito do Encoberto. «A alma de um povo – anota ele – define-se bem a si mesma pelos heróis que ela escolhe para amar e para cercar de lenda. O grande rei para os franceses é e será sempre Francisco I, enorme, robusto, ligeiro, rindo alto, batendo-se valentemente ainda, radiante, gozando largamente a vida, poeta em certos momentos, artista por ostentação, e falador eterno... O nosso genuíno herói, e isto resume tudo, é o poético e pensativo D. Sebastião.»

Não nos é possível acompanhar Eça de Queiroz no seu longo estudo. Mas nos recortes que dele trasladamos para aqui, assinala-se bem expressamente o protesto fundamentado de quem em Portugal, com toda a fulgurância do seu belo talento, mais usou e abusou do francesismo. O que devemos a essa peste é inútil recapitulá-lo, depois do depoimento brilhante de Eça de Queiroz.
Na verdade, tanto literariamente, como políticamente, padecemos hoje as consequências de uma mortal desnacionalização, cuja responsabilidade única provém do mais injustificável dos feticismos por quanta novidade nos costuma soprar o vento funesto dos Pirenéus. E lembrarmo-nos nós que já démos à França normas de cultura, de pensamento e de sensibilidade! Basta recordar a admirável dinastia professoral dos Gouveias, tios e sobrinhos, que, durante o século XVI, preceptoraram em Santa Bárbara (Paris) e no afamado colégio de Guyenne, em Bordéus, quase todo o florecimento humanista francês. Apesar da sua secura extrema, Montaigne não oculta a veneração intelectual que lhe merecia o nosso André de Gouveia.

Mas isto não é tudo. Se na Idade-Media fôra um português, o lisbonense Pedro Hispano, pontífice com o nome de João XXII, quem exercera uma das mais profundas influências nas universidades europeias com as suas Summulae logicales, os Commentarii Collegii Conimbrensis propagariam depois por toda a Europa o ensino filosófico professado na nossa tradicionalíssima Atenas, onde Aristóteles se lia e interpretava em grego. Viajando por Portugal, ainda rapaz, escreveria Menéndez Pelayo em data de 29 de Outubro de 1875: «Hombres en lo demás doctos y juiciosos, están llennos de preocupaciones respecto a la antigua filosofia, y sólo asi se explica el que tengan olvidadas por completo a los comentadores de la Escuela Conimbricense, y para nada tomen en cuenta el desarollo del Suarismo en Portugal que fue tan notable. Los libros más recientes vienen llenos de declamaciones contra la filosofia de los jesuítas, como si estuviésemos aún a la altura del siglo XVIII.»

Pois pelo renascimento actual do Tomismo, nós apreciamos devidamente quanto valeu o esforço dos velhos mestres conímbricenses, que a Menéndez Pelayo arrancavam palavras de homenagem e que com os seus Commentarii foram escutados e glosados por toda a Europa. Conquanto represente a corrente filosófica que os desterrou dos espíritos inexoravelmente, Descartes seguiu ainda as lições dos Commentarii collegii Conimbrensis, e com ele a França culta que nos primeiros quarteis do século xvi raciocinava e meditava.

Avalia-se já o sulco que abrimos com a nossa influência intelectual na vida francesa. Não influiríamos menos na sensibilidade! O caso das Cartas da Freira, que estou bem longe de atribuir à pobre Mariana Alcoforado, precisa de ser encarado e revisto à luz desse critério. Trata-se, à evidência, de uma composição literária, destinada a ganhar os favores da publicidade numa época em que a epistolografia andava no sabor corrente e em que o sentimentalismo português se acolhia em Paris, com os sucessos da Península durante a guerra da Restauração, como um tema favorito na Côrte e nos salões. No seu curioso volume Les portugais en France, Les Français en Portugal, justamente observa R. Francisque-Michel: «D’un autre côté, on semble avoir oublié que nous étions toujours à l’époque de notre litterature, que j’appellerais épistolaire, et où, chez nous, on parlait beaucoup du Portugal.»

Seja como for, ou da autoria de Soror Mariana, ou de simples fabrico editorial, as Cartas da Freira (Lettres d’une réligieuse portugaise) manifestam a penetração do nosso sentimento, com os exageros próprios do artifício em que se reproduzia, nas inclinações geométricas, rectilíneas, da França do grande século. «Tornou-se proverbial a locução ‘sensível como uma Portuguesa’.» E Madame de Sévigné, logo dois anos depois, escrevendo à sua filha, dizia: «Brancas escreveu-me uma carta tão expressivamente terna, que compensa todo o seu esquecimento passado. Fala-me no seu coração em todas as linhas. Se eu lhe respondesse no mesmo tom, a minha carta seria uma verdadeira portuguesa.»[5] Detrás das Cartas da Freira há alguma coisa de parecido com os Sonnets from the Portuguese, de Elisabeth Barrett Browning. Mas o caso importa demorado exame. E registando o testemunho de Madame de Sévigné, só agora nos preocupa documentar a impressão fundíssima da nossa índole apaixonada e branda nos contemporâneos de Luís XIV. Do Marquês de Cascais, enviado de D. João IV em Paris, conta-se nas Historiettes de Tallemant des Réaux: «C’estoit un vrai Portughez derretido...». E Corolandi notaria: «C’est du Portugal que nous sont venues toutes les façons de parler outrées. Les Portugais ne disent rien, quelque bas et quelque petit qu’il soit, qu’en des termes lumineux...»

Ora a soma de todos estes factos avulsos enche-se da maior claridade, se recorrermos a Ernest Seillière no seu recente ensaio, Les origines romanesques de la Morale et de la Politique romantiques.[6] Estudando a passagem do misticismo passional ao misticismo social, aí se nos apresenta Rousseau, pai da Revolução, como discípulo do ‘romanesco’ francês que, antecedendo o ‘romântico’, encontra o seu tipo perfeito na Astrée de Honoré d’Urfé. No aspecto utópico da Astrée filia Ernest Seillière a sugestão da ‘bondade natural’ em Jean-Jacques. Descendente do lirismo da nossa raça, embora descendente bastarda, através da Diana de Jorge de Montemor, a Astrée significa mais um elemento a favor da presente ordem de ideias. O bucolismo convencional de Honoré d’Urfé não era mais que um decalque rebuscado e falso da nossa altíssima condição lírica. Vê-se perfeitamente em que termos Jean-Jacques Rousseau conceberia o mito da ‘bondade natural’: sofrendo a pressão de um entimenta-lismo, alheio de todo à estrutura psicológica do génio francês. O seu ‘coração sensível’ estava compreendido nos receios de Mme. de Sévigné, ao referir-se a Brancas. Por essa desorganização entusiástica da personalidade humana, desde que o lirismo, natural em nós, se tornava nos franceses afectação e sensiblerie, abria-se de par em par o caminho da Revolução. 

Quem nos diria a nós as culpas que havíamos de ter, embora involuntárias, no flagelo que se ia desencadear por sobre o mundo inteiro!

Talvez por isso a França, vingando-se, nos subalternizasse mais tarde com os venenos que soube extraír da emoção cristalina da boa alma lusitana! O que é indubitável é que somos em tudo suas vítimas: na política, na literatura, no gosto, no entendimento! Que a reacção se inicie por uma mais justa compreensão do que valemos como raça, e de quanto valem as criações colectivas do nosso povo! Nem ontem, nem hoje, ha paralelismo entre a França e Portugal. A nossa história sangra com ofensas e mutilações que é obrigação nossa não olvidar. E se as apreensões de Cánovas del Castillo em relação aos destinos da sua pátria se desvaneceram um pouco, não se desvaneceu – se é que não se agravou! – o perigo que elas importavam consigo. Evidentemente que já ninguém pensaria a sério em trazer até ao Ebro a linha da fronteira francesa, entregando como compensação – ou Portugal à Espanha, ou a Galiza a Portugal, conforme o negócio se fechasse, ou com Madrid, ou com Lisboa. No entanto, ocupada pela França a mais bela parte de Marrocos, se o imperialismo francês se vem a radicar e a desenvolver na cabeceira de África, uma grave ameaça se constitui ali para o futuro de toda a Península, que, colocada entre a França de África e a França da Europa, ficará reduzida a uma simples terra de passagem. Com inspirada razão declarava Vázquez de Mella, numa conferência recente em Burgos, que a guerra de Marrocos era para os espanhóis uma espécie de guerra da independência. E para os portugueses, permito-me acrescentar. Que nós nos convençamos dessa verdade iniludível e, gravando bem na memória as propostas infames de M. de Kératry ao general Prim, inscrevamos nas aspirações do Portugal-Maior a reivindicação plena dos direitos que nos pertencem no sultanato marroquino, regado pelo sangue generoso dos nossos antigos cavaleiros e tão de perto ligado ao nosso desenvolvimento que lhe chegamos a chamar o «Algarve de Além-Mar!»

 

[1] Lisboa, 1895.

[2] Leite Velho, obr. cit., p. 130.

[3] Obr. cit., p. 155. 

[4] R. Francisque-Michel, Les portugais en France, Les français au Portugal, Paris, 1882, pp. 243ss.

[5] Conde de Sabugosa, Gente d’algo.

[6] La Renaissance du livre, Paris, 1920.

1924 - António Sardinha - A Aliança Peninsular
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​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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