Esta Elvas...
António Sardinha
Elvas é uma cidade marcada pela sua história, arquitetura militar e ambiente melancólico. Sardinha evoca sentimentos profundos e reflecte sobre o tempo e a eternidade. Explora as sensações e memórias que Elvas lhe desperta, misturando elementos históricos, literários e pessoais, e destaca o contraste entre a fortaleza imponente e a delicadeza dos jardins e paisagens envolventes. A narrativa termina com uma nota nostálgica, sublinhando o exílio emocional do autor e a ligação íntima à cidade, que permanece como símbolo de resistência e mistério ao longo das gerações.
ESTA ELVAS...
Com os seus baluartes, as suas torres, os seus eirados e o seu aqueduto, Elvas é para o caminheiro que passa um apelo súbito às energias mais fundas da nossa sensibilidade. Qualquer dos grandes peregrinos literários de quem herdámos o veneno romântico do amor ao que se foi para nunca mais – Chateaubriand ou Barrès – bem poderiam ter-se sentado à sombra das suas muralhas e ouvir, de coração encostado a elas, a marcha compassada do tempo, marcando o ritmo da eternidade. Em cada pedra borbulha aqui uma nascente heróica – uma estrofe solta de epopeia, a que a bênção serena das igrejas comunica a doce tranquilidade da tristeza cristã. Verdadeiro sanatório para almas isoladas e insatisfeitas, Elvas tanto nos fala e prende à hora pérfida do crepúsculo, como levantada em glória entre halalis raivosos de cigarras, por um céu inclemente de Julho.
Frequento-lhe às tardes a desesperança melancólica dos muros desertos, e é num círculo voejante de fantasmas que, sonâmbulo, divago, sempre que me abandono às vozes secretas que crescem dos fossos, que ascendem da terra, que se exalam, como ais de moribundos, dos fortins ao desmantelo.
Tem o seu ar de mesa de sacrifício, a boa sentinela fronteiriça, erguendo-se, denteada, de um chão argiloso e enrugado – chão de cem batalhas, campo largo de holocaustos, ainda agora inapagados e gritantes. Mas, como um convento brando de freirinhas, para que em tudo Elvas repouse na dignidade das antigas necrópoles, as oliveiras cercam-na prateadas e reverentes, enchendo-lhe a paisagem – adusta paisagem só para profetas e soldados! – de um inesperado perfume feminino.
Eu não contarei desta Elvas exilada dentro de si própria, dentro do colar cerrado dos seus baluartes, os longos diálogos em que nós ambos – Elvas, a das torres cismadoras e aguerridas, e eu, pobre pequeno Barbey de província – entretemos as demoradas ansiedades do nosso interminável desterro! Nunca os meus lábios carnais se abrirão para que sejam dos outros as revelações que Elvas me confia, ou amortalhada na nupcialidade enregelante do luar de Inverno, ou reverberando as alucinações de fogo canicular.
Mas não me furtarei a denunciar o encanto de certo jardinzinho esquecido, que Elvas traz ao regaço com um carinho cioso, jardinzinho de buxos agonizantes e marmóreas urnas versalhescas, onde Beckford conversou com o abade Correia da Serra, que parece ter conhecido a presença de Lord Byron à sua passagem para Espanha. No sussurro da fonte lastimosa, no trato cortesão das laranjeiras, com montanhas azulinas na distância, na rusticidade dos banquinhos de idílio confidencial, que admirável fundo de leque, em que os meus olhos se deliciam, sonhando com açafatas, leves como asas sonhando com uma «cabra-cega» dourada, fútil, palaciana! Depressa, porém, a fantasia se esvai – depressa se esvai esse rebanho fluidíssimo de Watteau! E na noite que desce – na penumbra que improvisa caprichosos motivos de indecisão e de assombro, Elvas, com a Cruz e a Espada, proclama bem alto a sua genealogia de cidadela infranqueável, que venceu o combate dos séculos e, por sobre a seara ceifada das gerações, desafia ainda agora a face vítrea da morte.
Abismo-me com fortaleza na treva que avança. O aqueduto, exausto de uma galopada que dura há centenas de anos, aquieta-se no escuro como a carcaça inconcebível de um monstro das primeiras idades. Só os sinos, riscando a passagem das horas, acordam nos ecos suspensos a ressonância dos grandes momentos extintos – rebates de assédio, embaixadas entrando, o senhor bispo do «Hissope» chorando convulso, a Câmara que se ostenta, de vara na mão, atrás de São Jorge emplumado e encouraçado. Esta Elvas!... Esta Elvas!... Como um cemitério que se agita, cobrindo-se de uma população repentina e variada, que infindável maré ondulante de espectros, que estranha poeira de sortilégio, animando-se de um vigor comunicativo!
Há vultos familiares – vultos que se assinalam à minha pupila extática por um traço de humana afinidade – de espiritual parentesco. Eis João de Lobeira, o rico mercador, alinhando a história enternecida de Amadis, cavaleiro perfeito, que, se não fraquejava em frente de gigantes e dragões, desmaiava de amor ao avistar Oriana, sua senhora. Aquele de murça e lento gesto canónico é o bom Aires Varela, que nos pôs Homero deambulando pelos arvoredos de Elvas e aqui colocou os fabulosos Campos-Elísios das beatitudes da Antiguidade. Depois, buscando ervas e estampando flores, surge Garcia da Orta, amigo de Camões e douto como os que o eram.
Esta Elvas!... Esta Elvas!...
A noite morre, o dia rompe, outra noite vem, outro dia morre – e Elvas, igual à essência eterna da Vida, com os seus baluartes, o seu aqueduto, as suas igrejas e os seus eirados, continua sendo um apelo súbito às forças que dormitam dentro da nossa sensibilidade. Só os homens não entendem a calada linguagem da fortaleza, saída da mesma forja de que saiu, veemente e nobre, a raça de que nós hoje somos os vis bastardos. Perpétuo exílio, incompreendido desterro! Sinto-lhe eu toda a dor sem nome, todo o peso enigmático e fatídico.
Esta Elvas!... Esta Elvas!... E refugio-me no tal jardinzinho versalhesco e discreto, com serranias azulinas a distância. Aflui-me então do coração à boca, como uma bebida amarga, uma velha canção francesa. E como um responso rezado a mim próprio, as urnas de mármore e os banquinhos de idílio confidencial soluçam mansamente comigo:
« Nous n’irons plus au bois,
Les lauriers sont coupés !»
Setembro, 1924.
In De Vita et Moribus, 1931.
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