O lenço de Verónica
António Sardinha
RESUMO
António Sardinha explica a singularidade de Portugal na Península Ibérica pelas diferenças geográficas, climáticas e culturais em relação à Espanha. Analisando o caráter nacional português, evidenciado na literatura e na história, discute as tentativas históricas de união política entre os dois países, concluindo que a prosperidade reside na valorização da autonomia e na cooperação respeitosa, sem fusões artificiais.
O lenço da Verónica: Reflexões sobre a Identidade e Relações Peninsulares
- Distinção Geográfica e Climática de Portugal. Tanto no domínio espiritual como no físico, revela-se de forma marcante a singularidade de Portugal. Autores como Fischer e Kohl, citados por Machado e Costa em "A terra portuguesa", consideram Portugal uma região claramente distinta de Espanha, cuja posição geográfica lhe confere uma atmosfera semelhante à da Holanda na Península Ibérica. Outros geógrafos, com uma visão mais precisa da localização relativa dos dois países, definem Portugal como o plano inclinado ocidental da península, profundamente marcado pela exposição ao Atlântico e à influência do Gulf Stream, fatores que lhe conferem características climáticas muito próprias. Para Reclus, a Península Ibérica constitui um todo geográfico, indivisível na sua essência, sendo composta pelas mesmas origens e história geológica, e formada por uma arquitetura de planaltos e montanhas, além de uma rede de rios e ribeiras. Ainda assim, Machado e Costa sublinha que a interdependência entre geologia e geografia obriga a considerar os fenómenos geológicos na análise da unidade peninsular. Assim, Portugal surge como a orla ocidental da península, distinguida pela influência atlântica, evidenciada pela humidade e pela qualidade da luz, o que cria uma clara diferença em relação às regiões vizinhas de Espanha, a ponto de viajantes sentirem uma mudança quase milagrosa ao cruzar a fronteira.
- A Alma Lusa e o Caráter Peninsular. Essa gradação mais suave e menos intensa da luz portuguesa reflete-se nos elementos naturais e psicológicos, traduzindo a essência da nacionalidade lusitana. Apesar de eventuais hesitações nas opiniões de Machado e Costa, é notável como o seu testemunho de geógrafo se alinha com as observações de Moniz Barreto, notável crítico literário, que afirma que o papel dos povos peninsulares na História é o Heroísmo e a Fé. Segundo Barreto, o génio peninsular caracteriza-se pela energia da vontade, grandeza de carácter, honra militar, capacidade de querer e afirmar, dedicação e uma nobre tendência de transformar o mundo segundo o próprio ideal. A ausência de imaginação penetrante é compensada por uma paixão concentrada, seriedade trágica e simplicidade de pensamento que se manifestam na vida e na literatura, dando origem a uma conceção singular da existência, onde a religião, a política e o espírito de aventura predominam sobre a capacidade prática. Assim, a história de Portugal e Espanha é, como o lenço da Verónica, a efígie sangrenta e simbólica da alma peninsular.
- O Génio Português e a Literatura Nacional. Moniz Barreto salienta que, embora a diferenciação constitucional entre o génio português e o espanhol não seja evidente, um olhar atento revela traços secundários que conferem à literatura portuguesa uma identidade própria: maior capacidade de compreensão, sensibilidade delicada, caráter mais nobre e menos vigoroso, mais razão e menos vontade, heróis mais humanos e uma propensão para a saudade e a tristeza. Estes elementos manifestam-se num lirismo profundo, num teatro mais atento à pintura de caracteres e numa epopeia centrada na grandeza heróica, embora moldada pela nobreza exclusivamente portuguesa. Mesmo que tais características não constituam um génio totalmente distinto, conferem à literatura nacional um caráter peculiar e potencial para futura influência cultural sobre os povos peninsulares.
- Os Alicerces da Identidade Nacional. Apesar do pessimismo de Moniz Barreto, que via no acaso a razão da existência do povo português, a realidade histórica e geográfica fornece abundantes fundamentos para a autonomia nacional. Portugal possui uma raça e um território nitidamente marcados, e embora as suas particularidades físicas e os atributos morais do génio lusitano o distingam vigorosamente, não são suficientes para uma separação absoluta do resto da Península. A história comum de portugueses e castelhanos nos sacrifícios pela civilização reforça a ideia de que a trajetória dos dois povos é, como o lenço da Verónica, a marca dolorosa da alma comum.
- Tentativas de União Ibérica: Entre o Sonho e a Realidade. O texto relata episódios históricos em que príncipes portugueses foram cogitados para o trono espanhol, nomeadamente D. Luís e D. Pedro, ilustrando as tentativas de união política entre Portugal e Espanha. Destaca-se a recusa de D. Luís em aceitar a coroa espanhola, reafirmando o seu compromisso com Portugal, e evidenciando a preferência nacional pela autonomia. Projetos de unitarismo ibérico, acalentados por setores políticos e associações secretas, nunca passaram da intenção, sendo invariavelmente travados por circunstâncias históricas, interesses nacionais e pela resistência dos próprios protagonistas.
- O Valor da Aliança e do Respeito Mútuo. As tentativas de fusão política, mesmo quando bem-intencionadas, revelaram-se irrealizáveis e, muitas vezes, prejudiciais. A experiência histórica demonstra que apenas a aliança pacífica, baseada no respeito mútuo e na aceitação da individualidade de cada nação, pode garantir prosperidade e entendimento. Ganivet já advertia que a verdadeira ciência política reside em aceitar a realidade histórica e trabalhar pela unidade intelectual e sentimental, em vez de forçar a unificação política. A desconfiança mútua, nascida de rivalidades históricas, não pode ser ignorada, sendo necessário reconhecer que tanto Portugal como Espanha contribuíram para o distanciamento peninsular.
- Conclusão: Uma Identidade Partilhada, Um Futuro de Cooperação. A lição que a história oferece é clara: as tentativas de união política ibérica resultaram em desilusões e conflitos. O caminho sensato está na valorização da individualidade nacional e no fortalecimento dos laços de cooperação, reconhecendo que, separados, portugueses e espanhóis podem construir juntos uma Península mais forte, sem perder a sua identidade. Ignorar as diferenças ou insistir em fusões artificiais apenas perpetua o ciclo de rivalidades e desencontros, tornando a história da Península, como o lenço da Verónica, a imagem dolorosa de um destino partilhado, mas nunca plenamente unido.
O lenço de Verónica
Reflecte-se desta forma no domínio do espiritual o que no campo das características físicas imprime fisionomia à Península. «Os trabalhos de Fischer e Kohl – anota a tal respeito, na sua monografia A terra portuguesa,[1] o sr. Machado e Costa – supõem o país uma região perfeitamente distinta de Espanha, trazendo-lhes a sua situação geográfica a impressão de uma Holanda da Península Ibérica; outros geógrafos, porém, com uma noção mais precisa da posição relativa de ambos os países, consideram Portugal, a bem dizer, o plano inclinado ocidental da península a que a exposição de uma larga porção da sua superfície aos ventos oceânicos e a influência do Gulf Stream imprimem caracteres climáticos próprios. Segundo Reclus, a Península Ibérica deve ser considerada um todo geográfico, em que a separação em dois estados distintos, justificada, sem a menor dúvida, por um grande número de contrastes, não impede que o orgainsmo europeu hispano-lusitano seja um membro indivisível; considera-o este geógrafo uma só e mesma terra, com as mesmas origens e história geológica, formando um todo completo pela sua arquitectura de planaltos e montanhas e bem assim pela rede circulatória de ribeiras e rios.» No entanto... No entanto, o autor do estudo A terra portuguesa acrescenta logo, sem demora: «A estreita ligação da geologia e da geografia e a mútua dependência destas ciências, não permite que na resolução do problema da unidade geográfica se possa abstrair da consideração dos fenómenos geológicos que intervieram na formação do sólo português; o estudo da sua evolução corográfica, em especial, leva-nos naturalmente a seguir as ideias de Reclus, acabadas de expor, com as ligeiras modificações que as precedem. O território português representa, pois, a larga orla ocidental da península, a que a influência do Atlântico imprime caracteres fisiográficos verdadeiramente distintivos; a maior percentagem de humidade na atmosfera produz uma diferença tão acentuada no brilho do ar e do céu de Portugal em relação às províncias espanholas vizinhas que alguns viajantes têm tido na fronteira portuguesa a impressão de o aspecto da região mudar como por milagre.»
Pois é, exactamente, nessa gradação mais esbatida, ou menos intensa, da luz do nosso céu, que se traduz, desde os elementos naturais aos psicológicos, toda a razão de ser da nacionalidade lusitana. Se há tibieza por vezes nas opiniões intermédias do autor de A terra portuguesa, elas ficaram já de antemão rectificadas. O que é interessante agora é verificar-se como o seu depoimento de geógrafo se ajusta singelamente, pelo que toca aos factores intelectuais e morais, com o depoimento de um crítico ilustre – o malogrado Moniz Barreto, no seu magnífico estudo A literatura portuguesa.[2]
«A nós peninsulares a fundação que nos coube na Historia é o Heroísmo e a Fé» – escreve Moniz Barreto. «Destituídos de imaginação penetrante e do dom da vasta compreensão, desprovidos de larga simpatia e de curiosidade infatigável, primamos pela energia da vontade e pela grandeza do carácter. O fundo desse carácter é a honra militar. A capacidade de afirmar e querer, de obedecer e dedicar-se, uma tendência singularmente nobre de transformar o mundo à imagem do nosso ideal, uma generosa impaciência de perfeição, o desdém da beleza plástica e das delicadezas aristocráticas, um pensamento simples como um acto, a paixão concentrada e a seriedade trágica, eis outros traços do génio peninsular. Este génio produz uma singular concepção da Vida, que se manifesta por uma religião realista e violenta, por uma política absoluta e insensata, pela preponderância do génio da aventura e ausência de capacidade prática; que põe o amor no casamento, o ideal na acção, a beleza no valor moral; que inspira os maiores prodígios de energia no mundo moderno, e faz que a nossa história seja, como o lenço da Verónica, a sangrenta efígie da nossa alma. Importado para a Literatura, esse génio produz um lirismo robusto e monótono, um teatro destituído de análise de caracteres, mas animado pelas ideias da honra e da morte, sátiras de um sarcasmo violento, romances em que a acção absorve a análise e que são a pintura da realidade crua e feia, e a maior das modernas epopeias.»
» Mas para produzi-la foi preciso a intervenção do génio português – prossegue Moniz Barreto. Do corpo das populações ibéricas, dominadas e unificadas pelo génio castelhano, destaca-se pela influência acidental de influências históricas uma estreita faixa da orla marítima. Esta estreita faixa se constitui em nação independente e durante cem anos exerce um papel culminante na história moderna. Em sincronismo necessário com esta explosão de vida activa, desabrocha uma breve mas esplêndida floração literária. Se estudarmos os documentos que a constituem, e completarmos esse estudo pelo exame das produções que datam da renascença romântica, nada acharemos neles que distinga constitucionalmente o nosso génio do das populações ibéricas constituidas numa nação espanhola, como nada encontramos que geográfica e etnicamente fundamente a autonomia da nossa vida política. Mas um exame mais atento descobrirá certas qualidades secundárias que, dando uma fisionomia peculiar ao nosso espírito, se reflectem na nossa literatura: uma maior capacidade de compreender e assimilar, uma menor energia de afirmação e crença, uma sensibilidade mais delicada e profunda, um carácter menos vigoroso e mais nobre, mais razão e menos vontade, heróis mais humanos e mulheres mais mulheres, alguma coisa de saudoso e vago, de grave e triste, entranhas mais húmidas e o dom das lágrimas. Estes traços manifestam-se na nossa literatura por um lirismo profundo e sentido, expressão de uma alma amorosa e meiga; por um teatro capaz de pintar caracteres e espelhar a vida; por uma ainda que tardia floração de romances em que a análise do coração não é anulada em proveito da acção, e finalmente por uma criação épica em que a grandeza heróica do génio peninsular é vazada em moldes de uma nobreza essencialmente nossa. Se esses traços não são bastantes para constituir um génio áparte, são contudo suficientes para dar à nossa literatura um carácter peculiar, e para nos assegurar num futuro próximo uma intervenção salutífera na marcha da cultura dos povos peninsulares.»
Filho de uma época dolorosa de transição, Moniz Barreto, embora dotado de excepcionais faculdades construtivas, não pôde fugir ao nefasto criticismo que tolda desastradamente a bela obra de Oliveira Martins. Aceitando a falsa teoria do Acaso, que para Oliveira Martins significava a única dinâmica geradora da nossa existência de povo livre, Moniz Barreto aceitava-lhe igualmente as conclusões erradas. Não há já para nós perigo algum no que nas suas palavras se leia de menos exacto. Possuímos – ao contrário de que o seu pessimismo o supunha – abundantes alicerces geográficos e étnicos, para que não subsistamos apenas por concessão graciosa ou fortuita do acaso. O próprio Moniz Barreto se via compelido a confessá-lo, destacando para a psicologia portuguesa aquela gradação de tintas, aquela mesma transparência cromática, em que a humidade do Oceano emoldurou Portugal desde o fundo dos séculos.
Somos senhores de uma raça fortemente marcada, somos senhores de um território nitidamente individualizado. O que sucede é que nem as particularidades físicas da pátria portuguesa, nem os atributos morais do génio lusitano – conquanto nos distingam com tão sobrado vigor – nos conseguem separar do resto da Península, impedindo que a nossa história – a história comum de portugueses e castelhanos nos seus sacrifícios pela civilização – «seja, como o lenço da Verónica, a sangrenta efígie da nossa alma!»
Mas se esse concurso de circunstâncias várias nos distinguem, sem nos separar – ninguém pense também em ignorá-lo – sonhando com um unitarismo aberrativo e artificial – tal como o arquitectou o delírio iberista de um ou outro ideólogo truculento – que, julgando servir a glória da sua pátria, não tem feito senão aumentar o velho amontoado de erros políticos, cujas consequências estão bem à vista, consinta-se-me o desabafo! – na desgraçada situação subalterna da Península.
Bem reconheço quanto o assunto é melindroso. Mas, na verdade, torna-se imprescindível abordá-lo de frente para que me possa pronunciar com mais autoridade e para que a minha voz encontre em Portugal aquele eco favorável que tanto ambiciono para ela. Prefiro, contudo, ver-me substituído em tão delicada questão por quem oferece maiores garantias de imparcialidade e ânimo sereno. «No, señores, ¡la culpa no hay que buscarla fuera!» – já dizia, haverá cinco anos, em conferência pública, o ilustre catedrático senhor D. Eloy Bullón y Fernández: «somos nosotros, portugueses y españoles, y más los españoles que los portugueses, los que tenemos la responsabilidad de que el estado de las relaciones entre ambos pueblos no sea el que debería ser.»[3] E depois de se referir, não sem motivo justificado, ao interesse que «en algunos momentos ha habido por parte de las oligarquías políticas de Portugal en mantener recelos o desvíos contra España, a pretexto de que aquí se pensava em absorciones o conquistas», o senhor Bullón y Fernández não hesita em declarar com louvável sinceridade que «lejos de eso, no han faltado algunas veces, del lado de aquí, de España, proyectos poco meditados, publicaciones, discursos no muy prudentes que en lugar de contribuir a estrechar las relaciones entre ambos pueblos, han servido, bien a pesar de la excelente intención de sus autores, para envenenar las relaciones de ambos los países».
Não perdendo o nosso tempo com publicações de menor categoria, um maior conhecimento da vida espanhola elucida-nos a nós, portugueses, suficientemente sobre a significação social e intelectual de certos nomes que de este lado da raia nos surgem como porta-bandeiras de uma tendência iberista que na realidade não existe em Espanha, desejo aludir às reflexões que o insucesso dos conspiradores de 1648 mereceu a Cánovas del Castillo. Não nos esquecemos ainda quais elas foram. «Si alguna vez Portugal y Castilla con Aragón – pondera o eminente estadista da Restauração na sua Historia de la decadencia de España – se juntaren de nuevo, y para siempre, realizando las miras de la Providencia que hizo tales pueblos hermanos, sería de esa manera, viniendo una dinastía portuguesa a sentarse en el trono español.» Uma experiência se tentou realmente nesse sentido (e, sem dúvida, Cánovas del Castillo não o ignoraria), quando, depois da abdicação de Isabel II, a coroa de São Fernando andou de rastos pela Europa, a mendigar uma cabeça em quem assentar. Prim pusera os olhos em D. Fernando de Saxe-Coburgo Gotha, viúvo da nossa D. Maria II e pai do monarca então reinante em Portugal. Já em Dezembro de 1865 o nome de el-rei D. Luís se vira aclamado em Madrid, por ocasião de uma das muitas agitações políticas que antecederam a revolução de 1868. Ia nisso um evidente propósito de unitarismo ibérico – projecto acariciado desde o princípio do século pelas associações secretas peninsulares, a que não se mostraram estranhas em Portugal a conspiração de 1817, que levou à forca o general Gomes Freire, e a revolução do Porto, de 24 de Agosto de 1820, de que derivou em 1822 a nossa primeira Constituição. Mais tarde, pensou-se no casamento de Isabel II com D. Pedro V. Falhada mais essa tentativa, a ideia voltava a renascer com Prim e com as suas simpatias por D. Fernando de Saxe-Coburgo Gotha. O fim que se envolvia em semelhante preferência dinástica manifestava-se transparente. «Les progressistes ainsi que la fraction des démocrates qui ne se prononce pas pour la république, ont un idéal politique tout autre, qu’ils caressent depuis de longues années» – historia H. Léonardon no seu livro Prim.[4] «Ils rêvent de réunir sous un même sceptre le Portugal et l’Espagne, et déjà en decembre 1865, en acclamant bruyamment à Madrid le roi Dom Luiz, c’était en faveur de l’union ibérique qu’ils se manifestaient. La révolution faite, il semble que leur rêve va pouvoir se réaliser, soit qu’ils donnent la couronne d’Espagne a Dom Luiz ou qu’ils l’offrent à son père, le roi veuf de Portugal, Ferdinand de Cobourg. Dans le premier cas, c’est l’union immédiate; dans le second, elle est préparée et, par une transition naturelle, s’effectuera a la mort de Ferdinand.»
Daqui resultou a vinda a Portugal, em Janeiro de 1869, de Fernández de los Ríos como emissário de Prim junto de D. Fernando. Tudo nos conta Fernández de los Ríos no seu livro Mi misión en Portugal.[5] Conduzido pelo Marquês de Nisa e vencidas bastantes dificuldades, pôde o enviado de Prim falar a D. Fernando. Foi em Sintra, no castelo da Pena, junto de um «magnífico bosque de incomparables camelias».
Al cabo de un rato – conta Fernández de los Ríos –, apareció en lo alto de un sendero un hombre alto, de gallarda figura, vestido con un chaquetón y una especie de gregüescos de terciopelo verde, botas altas de campaña y sombrero negro de alas muy anchas, enteramente la silueta de un personaje de un lienzo de Van Dyck...» Fechado numa escusa polida, mas sistemática, D. Fernando desnorteou por completo o pobre emissário de Prim, sobretudo com o seu sorriso enigmático – «una sonrisa que no sabía yo como interpretar, si como señal de satisfacción o de ironía». Tranquilizou-o o Marquês de Nisa, dizendo-lhe «que era nerviosa y habitual en Don Fernando, cuando le preocupa algo fuertemente».
Assim, junto do bosque «de incomparables camelias», o trono de São Fernando foi oferecido a um outro Fernando, que, príncipe sibarita e céptico, bem longe estava de ser digno da herança gloriosa do seu glorioso homónimo. Não seguiremos aqui os emaranhados fios dessa aventura diplomática. A intriga seguiu, porém, os seus passos. E é ainda no livro de Fernández de los Ríos que nós poderemos ver como – fracassada a hipótese D. Fernando por oposição das Tulherias, onde a influência da imperatriz Eugénia se fazia sentir a favor do que mais tarde seria Alfonso XII, se pensou sem mais nem menos no nome de D. Luís.
«Se trata, en una palavra, de Don Luis, rey de Portugal, por medio de la reunión de los dos reinos, bajo el cetro único del representante de la casa de Braganza... España y Portugal reunidos bajo el mismo cetro en la monarquía de Don Luís, es decir, un país tan poblado, como la Francia, de los mas favorecidos por la naturaleza, con un litoral magnífico, uma posición excepcional, formarian un imenso e imponente reino con el cual había que contar.» Nestes termos se exprimia já um folheto publicado em Paris, no ano anterior de 1868, Dom Luís Roi d’Espagne et de Portugal, por um tal F. Van Veerseen. E o plano a executar consistia em manter a autonomia de Portugal e Espanha, conquanto a pessoa do rei fosse comum.
«Os ministérios de cada uma das duas nações seriam independentes, excepto o da Guerra e o da Fazenda; o Rei residiria em Madrid, mas iria a Lisboa para presidir à abertura do Parlamento. Em suma, Espanha e Portugal chegariam a ser o que são hoje a Áustria e a Hungria.»[6]
Já se afirmava que el-rei D. Luís empenhara a sua palavra, aceitando as propostas que instantemente lhe dirigiam de Madrid. O ruído tornou-se tão grande que, em 26 de Setembro de 1869, o filho de D. Maria II entendeu ser seu dever soleníssimo desmentir os boatos que de dia para dia se avolumavam. Reproduzo a carta del-rei D. Luís como um documento digno de se recordar.[7] É como segue: «Meu querido Duque. Palácio de Mafra, 26 de Setembro de 1869. Constando-me que alguns jornais asseguram que, em virtude de combinações feitas anteriormente em Paris, eu vou abdicar em meu filho, debaixo da regência de meu augusto pai, a coroa de Portugal, para aceitar a de Espanha, e desejando que tão infundado rumor não tome incremento nem que se atribuam em assunto de tanta gravidade intenções que não existem no meu espírito, peço-lhe, meu querido Duque, que se faça desmentir semelhante notícia com a maior brevidade.
»Se a Providência tem reservados à minha pátria dias de dolorosa provação, espero, confiado no amor do país e na aliança sincera da liberdade com o trono, poder resistir a essas terríveis eventualidades. O meu posto de honra é ao lado da nação. Saberei cumprir os deveres que o amor às instituições e a lealdade da minha pátria me impõem. Português nasci, português quero morrer. Vosso afeiçoado, Luís.»
A atitude nobilíssima de el-rei D. Luís, querendo morrer português, como nascera, mostra-nos claramente que a promessa contida nas reflexões de Cánovas del Castillo, tendo atingido quase as portas da realidade, não conseguiu deslumbrar a vaidade do monarca lusitano. Já séculos atrás algo de semelhante sucedera com D. Afonso IV – o sogro de Alfonso-Onzeno e, como ele, também herói do Salado. Nas lutas que retalharam a monarquia castelhana durante o reinado de Pedro I, um bando irrequieto de nobres, revoltados contra o seu rei, ofereceu a coroa de Castela ao príncipe de Portugal, mais tarde igualmente Pedro I. À frente desse bando figurava a poderosa família dos Castros e o favorito D. João Afonso de Albuquerque – o do Ataúde. Declarando-lhe guerra D. Pedro I, o de Castela, «el antiguo favorito contestó a ella conveniéndose con los bastardos Don Enrique y Don Fradique para realizar un levantamiento que arrancase la corona a Don Pedro y la pusiese en cabeza de un hijo del rey de Portugal, nieto de Sancho IV; el cual, si aceptó en un principio, rechazó luego la candidatura por recomendación de su padre».[8]
Em tão singelas linhas se contém toda a chave do enigma histórico da morte de Inês de Castro que o lirismo inato da alma portuguesa poetizou com um aroma perturbante de lenda. Irmã de alguns dos principais comparsas da conjura, Inês de Castro, insigne aventureira, foi o instrumento empregado para atraír ao plano o nosso príncipe D. Pedro. Conta J.B. Sitges na sua curiosíssima monografia Las mujeres del rey D. Pedro,[9] ao aludir ao casamento do desgraçado monarca castelhano com D. Joana de Castro, que «mientras éste (D. Pedro) preparaba su boda, Don Enrique y Don Fradique se confederaban con Albuquerque y acordaban ofrecer la corona de Castilla al infante de Portugal, y los encargados de seducir al infante fueron precisamente Doña Inés de Castro y Don Álvar Pérez de Castro, los hermanos bastardos de Doña Juana».
A morte de D. Inês de Castro não foi, por isso, a consequência de um assassinato. D. Inês de Castro morreu executada, por crime de traição ao Estado. Sabiamente, D. Afonso IV previra os males que para a soberania e tranquilidade do seu reino representava o oferecimento dos conjurados castelhanos. Não hesitou no caminho a seguir, sacrificando os naturais impulsos do seu coração ao interesse supremo do seu povo. Outro tanto, embora em condições menos trágicas, ocorreu com D. Luís. Esquivando-se ao deslumbramento de uma coroa mais aparatosa, ainda que se sujeitasse com a sua recusa a ver o seu trono varrido pelo vento revolucionário que agitava a Espanha inteira – e eis o que queria dizer, com os ‘dias de dolorosa provação’ da sua carta ao Duque de Loulé – D. Luís, como D. Afonso IV, seu antepassado, salvava patrioticamente Portugal de uma guerra inevitável, se a união dos dois ceptros porventura se viesse a efectuar.
Não há, na verdade, nessa questão das relações peninsulares, como sistema fecundo e duradoiro, senão o recurso pacífico da aliança. Grandezas imperiais, sonhos unitaristas, tudo são quimeras nefastas que trazem consigo um mar infindo de desilusões e de desastres. Corajosamente o dizia já Ganivet: «No hay medio de jugar con la historia; los hechos no se repiten a capricho, ni se puede volver atrás para rectificar lo que ya salió imperfecto en su origen. La verdadera ciencia política no está en esos artificios: está en trabajar con perseverancia para que la realidad misma, aceptada íntegramente, dé en el porvenir, avanzando, no retrocediendo, la solución que parezca más lógica. Este es el único medio que tiene el hombre de influir provechosamente en el desarollo de los sucesos históricos: conociendo la realidad y sometiéndose a ella, no pretendiendo trastrocarla ni burlarla. La unidad ibérica no justifica nuevas divisiones territoriales, ni un cambio en la forma de gobierno, porque la causa de la separación no está en estos accidentes, sino en algo más hondo y que no conviene ocultar: en la antipatía histórica entre Castilla y Portugal, nacida acaso de la semejanza, del estrecho parecido de sus caracteres. La única política sensata, pues, será aplicarnos a destruir esa mala inteligencia, a fundar la unidad intelectual y sentimental ibérica; y para conseguirlo, para impedir que Portugal busque apoyos extraños y permanezca apartado de nosotros, hay que enterrar para siempre el manoseado tema de la unidad política y aceptar noblemente, sin reservas ni maquiavelismos necios, la separación como un hecho irreformable.»[10]
Tal é a verdadeira doutrina! A lição da história ensina-nos que, ao cabo de tantos séculos de tentativas recíprocas de entendimento e de aproximação, ainda agora estamos sem que um só passo se houvesse dado com proveito evidente. E tudo porquê? Tudo porque a sereia da ambição, segredando a sua estrofe pérfida ao ouvido dos monarcas e dos políticos, lhes interceptou a compreensão exacta de um problema tão simples, tão fácil de equacionar. A culpa, confessêmo-lo, tanto é de Espanha, como de Portugal. A desconfiança entre as duas pátrias, a criminosa indiferença, em que ambas se alheiam uma da outra, não vem nem de ontem, nem de anteontem. Porque é conveniente repeti-lo e acentuá-lo: é que, se existiu para Portugal um ‘perigo espanhol’, existiu também para Espanha um ‘perigo português’. Esse perigo continua existindo da parte de Portugal, não por Portugal, manifestamente, mas pelas possibilidades que as costas de Portugal, na hipótese de uma guerra, facilitam a um desembarque de forças inimigas da Espanha. Aqui está porque dentro da própria Península a Espanha não é senhora dos seus movimentos e porque há do seu lado toda a utilidade em atrair a si Portugal, afastando de uma vez para sempre a miragem aberrativa de uma unificação que nunca foi possível, nem nunca o será. De outro modo, retalhados e divididos, a história da Península jamais deixará de ser como o pano da Verónica, segundo a inolvidável imagem de Moniz Barreto, a estampa ensanguentada do nosso lento e irremediável suicídio!
[1] Lisboa, 1915.
[2] Revista de Portugal, vol. I, Porto, 1889.
[3] Obr. já cit., pp. 11-12.
[4] Paris, 1901, p. 135.
[5] Paris/Lisboa, sem data.
[6] F. de los Ríos, obr. cit., p. 258.
[7] Na impossibilidade de obter o original português, traduzo-a do livro de Fernández de los Ríos. A carta de el-rei D. Luís é dirigida ao Duque de Loulé.
[8] D. Rafael Altamira, Historia de España y de la civilizacion española, tomo I, p. 600. Madrid, 1918.
[9] Madrid, 1910, pp. 408-409.
[10] Idearium español, pp. 112-113.