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        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
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A "Lenda Negra"

António Sardinha

RESUMO
António Sardinha analisa a importância histórica do Hispanismo e da Península Ibérica na formação da civilização europeia e americana, destacando o papel central de Portugal e Espanha na difusão do Cristianismo, da cultura e de valores espirituais. Argumenta que a unidade peninsular foi essencial para o desenvolvimento de uma civilização baseada no espírito e que o seu enfraquecimento resultou na ascensão de modelos individualistas e capitalistas. Defende a necessidade de superar a “lenda negra” e valorizar a colaboração e fraternidade entre portugueses e espanhóis como fundamento de uma identidade e missão histórica comum.
A ‘lenda negra’ e a Construção da Identidade Hispânica
​

Reflexões sobre a Unidade Peninsular, a ‘Lenda Negra’ e o Papel Civilizacional de Portugal e Espanha
A ‘lenda negra’ e as suas origens. António Sardinha discute a propagação da ‘lenda negra’ contra a Espanha, salientando como este fenómeno, de origem sobretudo francês, serviu para denegrir a imagem da Península Ibérica, especialmente após a sua perda de protagonismo no século XVII. Esta lenda, construída por filósofos e escritores franceses do Iluminismo, como Voltaire e Montesquieu, retratava a Espanha como uma nação supersticiosa, intolerante e retrógrada, desvalorizando injustamente a sua contribuição para a civilização europeia. O ambiente intelectual francês da época, hostil à Igreja Católica, acabou por gerar dois estereótipos: a Espanha sinistra dos Autos-de-Fé e a Espanha pitoresca das guitarras e pandeiretas. O mais grave, segundo Sardinha, foi a adoção destes preconceitos por próprios espanhóis liberais, levando à autofalsificação da sua identidade.
O papel civilizacional da Espanha segundo Altamira. Rafael Altamira resume de forma sistemática as principais contribuições da Espanha para a história universal, entre elas: a conservação da cultura clássica após a queda de Roma; a assimilação e difusão do saber árabe e judaico na Idade Média; a defesa da Europa contra o avanço muçulmano e turco; a colonização e civilização das Américas e Oceania; avanços em cartografia e navegação; os estudos pioneiros em filologia e sociologia dos povos indígenas; o exemplo de sentimento de independência; reconhecimento dos direitos humanos dos povos colonizados; uma literatura realista e teatro de referência; e o espírito generoso, honrado, liberal e hospitaleiro do povo espanhol. Mesmo sem considerar o impacto dos pensadores jurídicos e teológicos espanhóis do século XVI e XVII, Altamira assinala o valor indiscutível da civilização espanhola na formação do património comum da Humanidade.
A dimensão hispânica da civilização peninsular. António Sardinha sublinha que essa civilização tida como ‘espanhola’ é, na verdade, ‘hispânica’, de natureza peninsular, abrangendo igualmente Portugal. O esquecimento da solidariedade entre portugueses e espanhóis coincide, segundo o texto, com momentos de maior decadência das duas nações. Camões e outros autores clássicos são invocados para ilustrar uma noção de ‘Espanha’ que transcende as fronteiras nacionais e políticas, representando uma unidade cultural e histórica da Península Ibérica. Almeida Garrett, por sua vez, reforça esta ideia ao explicar que, durante séculos, todos os habitantes da Península eram genericamente chamados ‘hespanhoes’.
O génio peninsular: Castela e Portugal. O texto apresenta a complementaridade entre Castela (militante e dominadora, com o seu ‘Quixotismo’) e Portugal (persuasivo e comunitário, expressando-se pela Esperança e pelo mito do Encoberto) como duas faces do mesmo génio peninsular. Esta configuração permitiu à Península adaptar-se ao Cristianismo, sendo a fé cristã apresentada como uma camada essencial e natural do espírito hispânico. Sardinha argumenta que o conceito de ‘Latinidade’ está intrinsecamente ligado aos valores cristãos e ao contributo hispânico, sendo a Península responsável por alimentar Roma de generais, políticos, poetas e imperadores durante o apogeu do Império Romano.
A herança peninsular na Roménia e a espiritualidade hispânica. Um episódio ilustra a marca deixada pelo génio hispânico na Roménia, especialmente através do termo ‘dor’, aproximado do conceito português de ‘saudade’. Esta herança sentimental e espiritual revela-se como uma das características fundamentais dos povos peninsulares, destinados, segundo o autor, a criar nacionalidades e semear civilização, em estreita ligação com o Cristianismo.
O papel da Península na defesa e difusão do Cristianismo. O texto destaca o papel da Península como bastião do Cristianismo, tanto na resistência à expansão islâmica como na difusão do saber clássico e religioso pela Europa. A colaboração entre cristãos, judeus e muçulmanos na conservação e transmissão do conhecimento é apontada como fundamental para o avanço intelectual da Europa Medieval. As cruzadas peninsulares são apresentadas como expressão máxima da vocação apostólica da região.
Portugal, Castela e a expansão ultramarina. Na época dos Descobrimentos, Portugal desloca o eixo civilizacional para o Atlântico, enquanto Castela mantém a hegemonia da Cristandade na Europa. O texto aponta para a unidade peninsular celebrada em “Os Lusíadas” de Camões, considerando a epopeia como o ‘testamento de Espanha’, onde a civilização hispânica se manifesta tanto na vertente portuguesa quanto na castelhana.
A fragmentação peninsular e a crise da hegemonia hispânica. A fragmentação da unidade peninsular, causada pelo surgimento do individualismo social e político após a Reforma e agravada pela Renascença, levou ao divórcio e isolamento entre Portugal e Espanha. Este afastamento resultou na perda da hegemonia hispânica e na ascensão de modelos individualistas e capitalistas, em contraponto ao ideal cristão e espiritual peninsular.
O legado do Hispanismo e o combate à ‘lenda negra’. Sardinha defende que a verdadeira missão civilizadora da Península foi espiritualizar a sociedade, tornando-se o Hispanismo o fermento da civilização moderna pelo seu amor ao Absoluto. A substituição deste modelo pelo individualismo capitalista empurrou a Europa para uma crise profunda, sendo a difusão da ‘lenda negra’ parte do combate sistemático ao ideal cristão hispânico.
A necessidade de reconciliação e valorização da fraternidade peninsular. Sardinha termina apelando à superação da ‘lenda negra’ como condição para a ressurreição histórica de Portugal e Espanha. Defende o reconhecimento mútuo do papel de cada nação no património comum, valorizando a colaboração e a fraternidade entre portugueses e espanhóis como base de uma missão histórica que se estende aos dois lados do Atlântico. Só assim se poderá restaurar a verdadeira identidade e vocação peninsular, fundamentadas na espiritualidade e na solidariedade.



​A 'LENDA NEGRA'

Сom esta triste manifestação do ‘francesismo’, em Portugal, tocamos numa das causas principais do decaimento espiritual da Península no mundo. Não só Portugal se sacrificou a uma falsa miragem europeia, centralizada em Paris, tendo o seu esforço civilizador como nulo. Tanto, ou mais do que nós, a Espanha abandonou-se-lhe por completo, a ponto de ainda hoje Salaverría denunciar no que ele chama a ‘superstição da Europa’ o mal gravíssimo de que adoecem as inteligências e as sensibilidades no seu país. Constituiria, efectivamente, um longo e elucidativo estudo aquele que dedicássemos ao simples inventário das circunstâncias que, a seguir ao seu eclipse no século XVII, arrancaram à vizinha Espanha o primado que durante mais de cem anos exercera na política e na cultura do nosso continente. Identificada em absoluto com a razão fundamental da Europa, que era a razão católica, ao alastrar-se o incêndio individualista soprado pelo vento da Reforma, a Espanha filipina viu-se isolada e esgotada, depois que entraram a vencer na vida dos Estados e na consciência dos cidadãos os fermentos de rebeldia disseminados por Lutero – o ‘homem-alemão’, o destruidor da ordem natural e tradicional, tão custosamente levantada dentre as agonias criadoras da Idade Média.
​
Sempre que o medito, toda a imensa alma patética da Espanha se materializa para mim nesse formidável quadro do Greco, Enterro do Conde de Orgaz. Ao clarão vacilante dos círios, embebido nas realidades quotidianas da Cidade-de-Deus, é bem o espírito espanhol, militante, apostólico e incompreendido, quem recebe ali as homenagens últimas de uma idade do mundo que vai terminar. Quixote, no seu infinito drama, torna-se assim a expressão macerada da Espanha que defendeu a Latinidade das alterações bárbaras do Protestantismo e do açoite inexorável do Turco. Caricatura truculenta e arcaica para os que não sentem dentro de si a chama inspiradora da Cruzada, não tardará, pois, que a Espanha role para o limbo obscuro dos detritos da história e que, em pleno carnaval naturalista do século XVIII, os filósofos da França superficial e gárrula a cubram de vitupérios dasapiedados. «Con la irreligiosidad de los filósofos uníase un odio y un menosprecio singulares a España, en que veían ellos el pueblo de la Inquisición, de las supersticiones, de la intolerancia y de la escolástica, como nos llamó Voltaire repetidas veces, procurando pintarnos, a tenor de esa tendencia, de la manera más antipática y repulsiva» – escreve Salcedo Ruiz.[1] «En el Ensayo sobre las costumbres dice que en España “las práticas devotas ocupan el lugar de los quehaceres para los ciudadanos que nada tienem que hacer”, y, según él, todas las españolas están claustradas, contemplando por la reja a sus amantes que tocan la guitarra al pie de la ventana. El sesudo Montesquieu tampoco concibe al español sino tocando la guitarra junto a una ventana y larga sandeces tan hueras como que en España la primera condición para ser galante es no tener miedo a los constipados, sin duda por haber de pasar tanto tiempo al aire libre rasgando las guitarras; dice que somos en primer lugar devotos y en seguida envidiosos, adictos a la superstición, y que no leemos más que novelas y libros de escolásticos. En este ambiente fue escrita la Enciclopedia, y no es de maravillar que Masson de Morvillers, en el artículo “España”, fulminase contra nuestra patria aquella tremenda simpleza tan repetida después: que en diez siglos había sido completamente inútil a Europa y a la cultura universal.»

E Salcedo Ruiz conclui: «No hay que alegar que Masson de Morvillers fuese un escritor obscuro en Francia; no lo era la Enciclopedia en que soltó esa paparrucha con beneplácito de los dioses mayores del filosofismo y de la literatura, y no hizo otra cosa sino repetir, como fiel discípulo o sectario, lo que enseñaban aquellos maestros. Era, según decimos, el ambiente, desconocido antes en la literatura francesa, y que por odio a la Iglesia Católica nos odiaba y menospreciaba a la vez. Así nacían juntamente “la leyenda de la España negra” y “la leyenda de la España de guitarra y pandereta”, siendo la primera motivo para execrarnos y la segunda para reirse de nosotros. Lo peor del caso fue que los españoles, a quien sedujo el movimiento enciclopedista, adoptaron también la tendencia antiespañola, comenzando de este modo las generaciones de liberales españoles enemigos de España, y los que siguieron tales rumbos aceptaron, como una verdad demonstrada, la España de la guitarra que llevaba dentro de si la España de los toros, de los manolos y de los chulos. Por sugestión extranjera, acabamos autofalsificándonos.»

Eis perfeitamente condensada a genealogia da longa calúnia que entenebrece a Espanha e lhe rouba a irradição com que durante períodos de alta e desinteressada cultura iluminou e ennobreceu a Europa. Bipartida no aspecto trágico e no aspecto burlesco, essa ‘lenda negra’ que à Espanha picaresca das pandeiretas e dos toureiros alia a Espanha sinistra dos Autos-de-Fé e dos Filipes, tem, como se vê, uma origem sobretudo francesa. Não bastara que Francisco I se aproximasse do Turco com grave ameaça para a Civilização! Não bastara ainda que, em ódio à Espanha e à sua política eminentemente cristã, a França de Luís XIV destruísse em Vestfália a sociedade-internacional, baseada no velho e sempre humano consórcio da Fé e do Império, substituindo-a pelo princípio anárquico do ‘equilíbrio-europeu’, gerador remoto do Tratado de Versailles e da actual ‘balcanização’ da Europa! Pela pena mercenária e esverdinhada de M. Masson rematava agora, em pleno bazar ideológico do Enciclopedismo, que, através da arrastada procissão de dez séculos, a humanidade, o mundo, nada deviam à Espanha! E, no entanto, mal se haviam extinguido os resplendores da intensa supremacia intelectual e literária que a Espanha exercera com os seus teólogos, com os seus dramaturgos, com os seus pintores, na mesma França que tão incansável se revelava na difamação!

Evidentemente que não nos cabe instruir o processo da mentira sistemática que transformou a Espanha num mixto de hediondês e de jocosidade – espécie de bobo com entranhas de Nero, amando os espectáculos estridentes em que Moloch se reverencia entre farfalhar de guisos e chamas supliciatórias subindo. Contudo, ao nosso propósito de abrir roteiros a uma nova compreensão do ideal hispanista não é indiferente que deixemos, pelo menos, apontada mais uma necessária e inadiável errata. Ninguém melhor, para a formular, do que um francês, francês especializado em largos trabalhos de erudição espanholista. «A nação que barrou o caminho aos árabes – observa Morel-Fatio, porque de Morel-Fatio se trata[2] –, que salvou a cristandade em Lepanto; que descobriu um mundo novo e levou até ele a nossa civilização; que formou e organizou a bela infantaria que só pudemos vencer, imitando-a na sua constituição; que criou em arte uma pintura, cheia do realismo mais poderoso; na teologia, um misticismo que elevou as almas a uma altura prodigiosa; nas letras, uma novela social, o Quixote, cujo alcance filosófico iguala, se não supera, o encanto da invenção e do estilo; a nação que soube dar ao sentimento da honra a sua expressão mais requintada e altiva, merece, fora de toda a dúvida, que se considere no devido apreço e que se intente estudá-la seriamente, sem entusiasmos tontos nem injustas prevenções.»

Tais são os termos exactos do problema. Deduz-se, embora sumariamente, das sensatas reflexões de Morel-Fatio que há uma civilização espanhola e que essa civilização abriu na história um rego fundo e inextinguível. Para caracterizá-la, cedamos o lugar ao autorizado publicista D. Rafael Altamira. «Con todas estas reservas, cuyo desarrollo necessitaría mucho espacio», pondera o douto escritor, «cabe formular la interpetración y juicio de la civilización española en sí y en su relación con la del mundo.[3] Aquí no haremos, segun va ya dicho, más que apuntar algunos de los servicios realizados por España y en virtud de los cuales, en el acervo común de ideas, producciones, costumbres y sentimientos que constituyen el patrimonio útil de la Humanidad, el nombre español tiene un sitio, imborrable e insustituible en su peculiar modalidad». E Altamira prossegue: «Los servicios a que me refiero son:
​
» 1.º España ha recogido, a la caída del imperio romano, la cultura clássica, y ha contribuido eficazmente a mantener su tradición en Europa durante algunos siglos; San Isidoro; la Lex romana visigothorum.
» 2.° Ha recogido y difundido en la Edad Media la cultura antiqua que los musulmanes se asimilaron y la que estos y los judios produjeron en diferentes órdenes de la ciencia y de la literatnra: Toledo, Afonso X.
» 3.º Ha contribuido notablelmente à salvar à Europa del peligro musulmán y turco: «la Reconquista; luchas en Hungria, en ei Mediterráneo e en África.
» 4.° Ha colonizado y civilizado casi toda América y parte da Oceania, y le corresponde una parte considerable en los descobrimientos geográficos que han completado el conocimiento de la tierra, con sus consecuencias extraordinarias en orden a las ciencias naturales y físicas y al aprovechamiento de nuevos productos.
» 5.º Ha impulsionado el desarrollo de la cartografia y de las ciencias aplicadas a la navegación, difundiendo sus obras de esta especie en otros países, que lo aprovecharon.
» 6.º Ha puesto las bases con los trabajos de sus crónicas y viajeros en América y Oceania, de la filogia y la sociologia de los pueblos indigenas del Nuevo Mundo, y ha iniciado, com Hervas, los estudios de lingüística comparada.
» 7.º Ha dado al mundo el ejemplo de un sentimiento inquebrantable de independencia concurso a la obra de las nacionalidades modernas.
» 8.° Ha reconocido, como nadie, el derecho humano que corresponde a los llamados ‘pueblos inferiores’, de quienes son las leyes de Indias el más alto ejemplo de legislación amparadora y tutelar.
» 9.º Ha creado uma literatura realista y un teatro modelo de su espécie, así como un alto ideal literario (Don Quijote), hecho ‘humano’ por reconocimento de todos los pueblos y de todas las épocas; así como un realismo pictórico y, en general, plástico, que será siempre educador de los artistas: Velázquez, nuestra escultura indígena.
» 10.º Las cualidades generosas, caballerescas, románticas, en el bueno sentido de la palabra, liberales y hospitalarias de su espíritu, sobrias y honradas de sus costumbres, significan una corrección viva, siempre saludable, del espíritu egoista, mezquino, utilitario, a que con demasiada frecuencia arrastran las necessidades materiales de la vida y de la codicia de los hombres.»
«Prescindo – acrescenta em nota D. Rafael Altamira – de lo que significaron (y todavia signifícan) en el orden de las ciencias jurídicas, filosóficas y teólogicas nuestros escritores del siglo XVI y XVII, para que no se diga que resuelvo de una vez cuestión que todavía se discute. Pero debo decir que la discusión no existe ya más que para una parte de esas disciplinas. Así, ya reconoce todo el mundo el valor de muchos de nuestros jurisconsultos (Vitoria, Suárez, Márquez, Soto, etcétera), precursores de Grocio, en cuanto al Derecho internacional, y de varias teorías modernas de filosofía jurídica. Lo mesmo podría decirse de otros asuntos de filosofía general.
»[4]

Em apertado esquema condensa o professor Altamira as linhas substanciais da civilização espanhola. Fica suficientemente salientado o alcance ignóbil da ‘lenda negra’ que deprime a Espanha e a leviandade sectária com que o enciclopedista Masson escarnecia todo o seu passado de evangelização e cultura. Mas para que a corrigenda se complete, impõe-se-nos aditar que essa civilização tida e apresentada como ‘espanhola’, é menos ‘espanhola’ que ‘hispânica’. De formação exclusivamente peninsular, ela não pertence unicamente ao aglomerado de povos e de antigas soberanias que se concretizaram na Espanha actual. Portugal possui nela o seu quinhão, e ainda aqui, na maneira como as duas pátrias irmãs se desconhecem e hostilizam, se verifica o efeito mais desastrado e funesto da ‘lenda negra’!

Com a sua profunda clarividência histórica, embora quase sempre pervertida por uma errada formação filosófica, Oliveira Martins já acentuava bem a unidade dessa civilização, que ele chamou ‘ibérica’, sacrificando aos mitos intelectuais do seu tempo. Chamemos-lhe nós ‘hispânica’, recolhendo de Camões o sentido superior que à palavra ‘hispanismo’ se deve conferir. Não se trata, declarêmo-lo com nitidez, da grosseira superstição política, traduzida no Iberismo revolucionário e maçónico do século findo. Para o pensamento de Camões, e segundo a tradição clássica, a Espanha representava somente um apelativo de natureza geográfica. De este modo, e conforme ainda Camões, a Espanha «Com nações diferentes se engrandece, / Cercadas com as ondas do Oceano, / Todas de tal nobreza, e tal valor, / Que qualquer delas cuida, que é melhor».

São essas nações: «... o Tarragonês, que se fez claro, / Sujeitando Parténope inquieta; / O Navarro; as Astúrias, que reparo / Já foram contra a gente Mahometa». E mais: «... o Galego cauto, e o grande, e raro Castelhano, a quem fez o seu Planeta Restituidor de Espanha, e senhor dela, / Bétis, Leão, Granada, com Castela».

Em face dos Lusíadas e para a consciência alta de Quinhentos, vemos, pois, como a Espanha concretizava cultural e geograficamente um conceito supernacionalista que tinha os seus limites nos limites da própria Península. Reproduzindo posteriormente o sentido camoneano da unidade hispânica, Almeida Garrett recordaria nos princípios do Romantismo, e em nota ao seu Camões: «Nem uma só vez se achará em nossos escritores a palavra ‘hespanhol’ designando exclusivamente o habitante da Península não português. Enquanto Castela esteve separada de Aragão, e já muito depois de unida a Leão, etc., nós e as outras nações das Hespanhas, Aragoneses, Granadiz, Castelhanos, Portugueses e todos, éramos por estranhos e domésticos comummente chamados ‘hespanhoes’; assim como ainda hoje chamamos ‘alemão’ indistintamente ao Prussiano, Saxónio, Hanoveriano, Austríaco! Assim como o Napolitano e o Milanês, o Veneziano e o Piemontês indiscriminadamente recebem o nome de ‘italianos’. A fatal perda da nossa independência política depois da batalha de Alcácer-Quibir deu o título de ‘reis das Hespanhas’ aos de Castela e Aragão, que o conservaram ainda depois da gloriosa restauração de 1640. Mas ‘Hespanhoes’ somos, e de ‘Hespanhoes’ nos devemos prezar todos os que habitamos esta península.»[5]
Percebe-se, sem que se exija maior rectificação, que, apesar do seu apurado nacionalismo, Almeida Garrett confundia ‘espanhol’, com ‘hispânico’, derivadamente, ‘hispanismo’, com ‘espanholismo’. À parte, porém, esta diferença essencial, o sentimento da unidade peninsular aparecia-lhe a ele, já no crepúsculo dos grandes motivos que tão de perto haviam enlaçado as duas pátrias da Península, na mesma elevada compreensão com que Camões os celebrara e cantara. Se considerarmos bem, o esquecimento da solidariedade que na vida e desenvolvimento da civilização hispânica nos pertence a nós, portugueses, coincide significativamente com os períodos mais baixos e mais ignominiosos da nossa decadência. Não representa isto, de maneira alguma, afronta ou ofensa para o nosso brio de povo livre. Meditando com demora e espírito independente de preconceitos na função que desempenhamos dentro do quadro social e cultural da Península, constata-se sem custo que o ‘génio peninsular’ ou ‘hispânico’, é constituído por duas faces ou aspectos, respectivamente encarnados por Castela e por Portugal. Militante e dominador, Castela – e, com Castela, o Quixotismo – interpreta-lhe o conceito imperialista da existência. Mas, simultaneamente persuasivo e comunitário, Portugal, na sua íntima compleição lírica, serve-lhe de boca expansiva, sobretudo através da religião instintiva da Esperança, de que o mito do Encoberto é a revelação máxima.

Amando assim o Absoluto – ‘sede insensata do Absoluto’ lhe chamava no seu criticismo esterilizante a pena céptica de Moniz Barreto –, não é difícil perceber como o ‘génio hispânico’, se ajustou sem constrangimento às verdades do Cristianismo. Santo Agostinho já observava que os povos ibéricos puderam alcançar por eles próprios a contemplação e a posse de Deus-Uno e Omnipotente.[6] E, seu discípulo, foi um hispânico, Paulo Orósio, quem achou, primeiro, por intermédio da concepção cristã da Redenção, o sentido da História-Universal. Infere-se daqui limpidamente como o Cristianismo é na alma das gentes hispânicas alguma coisa do próprio, como que uma estratificação racial. Erra-se, portanto, na ideia que se costuma atribuir vulgarmente à designação ‘Latinidade’. A ‘Latinidade’, nos seus componentes, é unicamente a soma do influxo religioso e moral do Cristianismo, ligada à máxima germinação das virtudes nativas dos povos hispânicos. Basta, para demonstrá-lo, fixar-nos em que depois de Augusto; e encerrado o ciclo de oiro do prestígio de Roma, são as Espanhas, é a Península que alimenta de generais, de políticos, de poetas, de filósofos e até de imperadores a cidade augusta das sete-colinas. Registemos, em prova, nomes como os de Séneca, de Lucano, de Marcial, de Columela, de Quintiliano, de Trajano e de Teodosio. Me peritus discet Iber – ponderaria mestre Horácio, capitulando o Ibero de ‘douto’, no remanso deleitado do seu horto em quietação.

Possibilidades fortíssimas essas que em plena romanização afloraram com tamanho vigor, o Cristianismo as afinaria mais tarde, multiplicando-as a um grau insusceptível de comparação. Não é, no entanto, indiferente acrescentar que o ‘hispânico’, não ascendia a tal esplendor unicamente pela graça e pelo esplendor de Roma – da Roma dos Césares. Metido na sua autoctonia, fechado ainda no aro estreito da sua sociabilidade rudimentar, ele dava-nos em Viriato o tipo imorredoiro do caudilho nacionalista – como que o irmão mais velho dos heróis fundadores das modernas nacionalidades. O que Roma fez ao ‘hispânico’, foi desbastá-lo, foi incorporá-lo na universalidade dos valores humanos. Mas enquanto Roma, como administradora geral da humanidade, lhe coordena e capitaliza apenas o património, o ‘hispânico’, atirado para a Dácia por Trajano, deixa ali, no meio de uma feira contraditória de raças, o sinal inapagável da sua origem. Assim, no alvorecer da adolescência peninsular, mal sacramentados ainda pela fé de Cristo, nós lançávamos os alicerces da actual Roménia – da Roménia, espécie de filha natural, nascida fora do matrimónio, numa aventura da primeira mocidade!

O selo estampado pelo génio hispânico no coração da terra balcânica ficou impresso de tal maneira que numa interessantíssima conferência, pronunciada em Paris pela poetisa romena Adrio Val,[7] nós deparamos com a passagem seguinte: «Mais toutes nos doinas,[8] gaies ou tristés, desesperées ou joyeuses, sont des chansons de Dor... Dor... le mot le plus romain qui soit au monde, celui qui nous embrasse tous, qui naît avec chacun de nous, qui ne meurt avec aucun.» E Adrio Val explica-se: «‘Dor’, l’expression même de notre pays et de nobre âme... ‘dor’, parole intraduisible qui ne se comprend pas, qui se sent seulement et dont je n’ai trouvé le presque equivalent que dans la langue de nos frères portugais – la saudade.»[9]

Desta forma, antecedendo-se a si própria, a queixa magoada dos nossos Cancioneiros («Dor, cela veut dire nostalgie, désir, douleur, joie de souvenir, tristesse d’être loin, mélancolie inconnue qu’on porte en soi dès l’enfance, et cela veut dire la fièvre héroïque d’aller combattre l’ennemi de la terre roumaine...», esclarece ainda Adrio Val), de este modo, insisto, a queixa magoada dos nossos Cancioneiros, dos Cancioneiros galaico-lusitanos, floria à borda dos Cárpatos, no desterro perpétuo das solidões balcânicas. Evoca Adrio Val na sua conferência o encontro casual de Helena Vacaresco, durante uma noite gelada de Inverno, com um velho morrendo de frio: «Mme. Vacaresco entendit avec stupeur que le vieux murmurait sans cesse les mêmes et les mêmes paroles:

»“Père Trajan, père Trajan, pourquoi nous as-tu amenés ici?...” Entendez-vous ce cri à moitié inconscient du vieux, glacé par l’âpre hiver, ce cri vivant, adressé deux mille ans plus tard à l’Empereur Trajan, maître de Rome, qui, le premier, emmena dans ces terres lointaines des colons romains?...” “Père Trajan, père Trajan, pourquoi nous as-tu amenés ici?...” Oh! la poignante nostalgie du pauvre vieux, comenta a poetisa, qui n’avait jamais vu le soleit de la Méditerranée... mais qui le portait tout entier dans son coeur usé!...»

Não era o sol do Mediterrâneo que o pobre velho guardava no seu coração desfeito! Guardava, mais belo e mais inolvidável, o perfume emotivo que desabrochou na ‘dor’ e que não é senão a ânsia alada da borbulhante poesia lusitana. Saudemos nesse velho, increpando Trajano, debaixo da neve e do vento, a quase dois mil anos de distância, de o haver atirado, como guarda da Latinidade, para uma riba estranha e inóspita, saudemos nesse velho a persistência do génio hispânico que já, no alvorecer das suas cintilações, se mostrava tão vivaz e apaixonado! Ao mesmo tempo, no cunho especial que imprime à Roménia uma personalidade que nada encobre ou assimila, seja-nos agradável contemplar a qualidade madre dos povos peninsulares. Destinou-nos Deus para criadores de nacionalidades, para semeadores de civilização. Por isso, o Cristianismo se casou tão apertadamente com a nossa profunda vocação apostólica.

Não legou Roma ao mundo mais que colónias, e delas só a Roménia, engendrada pela colaboração hispânica, perdura hoje no xadrez balcânico como célula latina. Também as nações contemporâneas se não condecoram, como se condecoram Portugal e Espanha, com esse colar das vinte e tantas pátrias americanas, em que são faladas, como suas, as duas gloriosas línguas peninsulares. Do outro lado do Atlântico se manifesta claramente como da aliança do Cristianismo com o Hispanismo dimana ainda agora a única forma possível de Latinidade. «Civilizar é espiritualizar» – repara algures Jacques Maritain. E o que espiritualiza a sociedade, o que torna fecunda a lei do Espírito, senão o Cristianismo? Porque se identificou inteiramente com as suas doutrinas e com os seus princípios de salvação, o Hispanismo foi o fermento civilizador da Idade Moderna, exactamente por virtude do seu amor ao Absoluto, que nos negrores da proto-história da Península levava já os seus naturais a entrever a verdade de um só Deus Criador.

Com o avanço da fé de Cristo, a Península assume o papel de seu baluarte – de seu maior gonfaloneiro. Ligada como está ao Cristianismo a sorte da Europa, é na Península, sobretudo, por influência dos concílios de Toledo, que a barbaria germânica se adoça e latiniza. No espraiar da maré islamita, a Península lhe sofre e lhe detêm o choque avassalador. Entretanto, aproveitada pelos doutores árabes a ciência eclesiástica do Oriente, restos da velha sabedoria clássica –, a Península a transmite à Europa, sedenta de novas luzes. Já Isidoro – o santo arcebispo de Sevilha, redigira uma como que enciclopédia de todos os conhecimentos possuídos pelo estudo e pela indústria do homem. Agora, no desenrolar da Idade Média, os filósofos e pensadores árabes da Península ocidentalizam-se, graças à penetração salutar de Aristóteles. Os materiais que transmitem à síntese de Santo Tomás são importantíssimos, porque ninguém já duvida dos subsídios fornecidos pelas escolas arábigas da Península ao labor intelectual do grande ‘Doutor-Angélico’.

Como há que defender pela espada as barreiras da Civilização, os cavaleiros e monarcas peninsulares aproveitam o concurso dos judeus e maometanos submetidos, entregando-lhes a conservação, a cópia e até mesmo o comento dos manuscritos salvos nos escombros fumegantes de tanta e tanta catástrofe sobreposta. A cruzada ilumina-nos então inflamadamente e, para se ganharem as indulgências respectivas, não é necessário ir à Terra-Santa, basta que se venha à Península combater o Moiro, inimigo da Cristandade e, portanto, da Civilização. Compreende-se, pois, porque no desenlace da pugna que se travou nas Navas de Tolosa Inocêncio III concentrasse toda a sua nobre e crepitante ansiedade. Compreende-se também porque, ao acolher nos átrios do seu palácio de Avinhão os despojos do Salado que Juan Martínez de Leyva lhe levava da parte de Alfonso-Onzeno, Bento XII os saísse a receber, entoando, jubiloso, o Vexilla Regis.
Em cruzada continuamos – portugueses, castelhanos e aragoneses – ao empreendermos, para além das águas, as rotas da nossa segunda expansão. Sobretudo, a Castela e a Portugal pertenceria a dilatação da Fé e do Império, na definição inspirada de Camões. Portugal, portador da vocação marítima da Península, desloca para o Atlântico o eixo da Civilização, até aí confinado no Mediterrâneo. Castela mantém na Europa a hegemonia da Cristandade, batendo o Turco sobre a terra e sobre o mar, e reduzindo aos limites da desordem alemã o alastramento da rebelião luterana. Depois, enquanto na epopeia ultramarina nós rasgávamos ao nosso continente horizontes e caminhos imprevistos, em Trento os teólogos espanhóis garantiam a liberdade do espírito humano, esfarrapando triunfantemente as influências da terrível doutrina calvinista da Predestinação. Atinge-se bem nesta altura porque, num rasgo de genial percepção, Oliveira Martins chamasse aos Lusíadas o ‘testamento de Espanha’. Realmente, nas estrofes do poema imortal, palpita, como em nenhuma parte, essa unidade da civilização peninsular, que, por ser tanto castelhana como portuguesa, é por isso mesmo hispânica.

Partiu-se, fragmentou-se, quando, no altear de ideologias adversas, o individualismo social e político, saído da Reforma e agravado com o naturalismo da Renascença, levou Portugal e Espanha ao divórcio e isolamento recíprocos, em seguida ao rompimento do século XVII. Tornadas adversárias irreconciliáveis, as duas pátrias da Península, porque se quebrara o sábio paralelismo em que ambas tinham vivido durante a centúria de Quinhentos, a hegemonia do Hispanismo desapareceu da face da Europa, na hora em que a ideia da Cristandade se desfazia totalmente em Vestfália, dando lugar à anarquia e à preponderância do mais poderoso nas relações internacionais dos Estados. Nem tudo se perdia, porém! Espanha (antes Castela, guardando a lição da política camoneana!) comunicava à cultura europeia no Don Quixote um compêndio vivo de sugestões literárias e filosóficas. Nós, universalizada pela Diana, de Jorge de Montemor, a nossa inconfundível sensibilidade lírica, ditávamos à Europa um cánon de soberano sentimentalismo, de que se alimentará depois todo o doirado século de Versailles, e com ele Jean-Jacques Rousseau, a própria Revolução-Francesa. Assim, comquanto abastardada nos requintes naturais da sua emoção, uma das duas faces do génio peninsular preside ao desenvolvimento da concepção romântica da Vida; a outra, através do eterno patético do Quixotismo, vê derivar dela, igualmente por via espúria, todos os absurdos subjectivismos intelectuais e morais, que reconhecem em Kant o seu pontífice supremo.

Espanhóis e portugueses, completando com o seu concurso espontâneo e amigo a síntese superior do Hispanismo, possuíam da existência o conceito que Calderón de la Barca exprimiu em versos inolvidáveis no Alcalde de Zalamea: «Al Rey la hacienda y la vida / Se ha de dar; pero el honor / Es patrimonio del alma, / Y el alma solo es de Dios»...

Não é custoso de entender como, pequena minoria que eram, conseguissem impor à Europa uma lei – a lei do Espírito – e atirar ainda para lá do Oceano com sementes, que florescem agora magnificamente no despertar da América maravilhosa e moça. Da lei servida e dilatada por espanhóis e portugueses em pleno festim da Renascença, deriva o pouco que se mantêm de sólido e de fecundo nas nacionalides modernas. Defendida e aumentada pelos dois povos peninsulares, a civilização – e civilizar é espiritualizar, não o esqueçamos! –, corrompe-se, vicia-se, quando a noção social e religiosa do indivíduo é substituída, no crescer da Enciclopédia, pela noção individualista da sociedade. Desenham-se então os começos da economia chamada ‘liberal’, engendradora do Capitalismo. Qual a sua génese, qual a sua formação? São conhecidas as afinidades do Puritanismo com o desenvolvimento das tendências capitalistas. Ora publicistas, como o professor Werner Sombart,[10] chegam à conclusão que todos os elementos do Puritanismo que facilitaram a vitória do Capitalismo pertencem à religião judaica, principalmente à sua prática e interpretação talmúdica.

O tema é interessante e amplo de mais para que se cotejem aqui devidamente as duas noções de sociedade em conflito – a noção hispânica, nutrindo-se do seu amor ao Absoluto, e a noção capitalista ou democrática, não pensando senão em dominar o relativo e materializando as mais altas e nobres aspirações do homem.

Venceu a segunda, atirando a Europa para a beira do abismo em que hoje se suspende, indecisa e quase destroçada. Daí a divulgação sistemática e apaixonada da ‘lenda negra’ contra a Espanha defensora de um conceito do mundo tão irredutivelmente oposto. Esse conceito é um conceito cristão. Mas nós, peninsulares, o imprimimos como ninguém nos nossos costumes e nas nossas instituições, fazendo dele o fundamento e a razão de ser do nosso imperialismo, que é o único imperialismo legítimo, porque é o único que se fundamenta em motivos espirituais e, portanto, civilizadores. Impõe-se, por isso, que, como prelúdio à nossa ressurreição nas cenas da história, a lenda negra, se desfaça por obra do nosso esforço – de um esforço inteligente de portugueses e espanhóis, efectuado com perfeita lealdade.

Sem dúvida, que um dos capítulos mais turvos e mais falsos da ‘lenda negra’, é o capítulo que respeita à separação dos dois povos tão chegados, tão irmãos. Nós sabemos já a parte que a portugueses cabe no património de cultura e glória que na transcrição de D. Rafael Altamira um pouco ciosa e injustamente se atribui só à Espanha, sinónimo de nacionalidade, e não da Península. Sabemos também o valor que é necessário dar ao apelativo ‘hispânico’, e o significado que dele se encontra em Camões. Desbravando desta forma o caminho das gerações futuras, contribuamos incessantemente para que – segundo os votos de Sánchez Moguel, «se reconozca al fin y al cabo que la historia de Portugal y la historia de España son inseparables, que una y otra se explican y completan recíprocamente, y que en esa historia común estarán siempre, con las venerandas memorias de nuestros padres, los sagrados títulos de fraternidad y concordia de sus hijos en ambos Continentes».[11]

 

[1] La Literatura española, resumen de historia crítica, tomo III, p. 67.

[2] Citação de Julián Juderías em La leyenda negra.

[3] España y el programa americanista, Madrid, Editorial-América, pp. 170ss.

[4] Não concordo com as afinidades que Altamira encontra entre a construção jurídica de Grócio e a dos insignes teólogos espanhóis. A do Grócio repousava sobre o individualismo dos Estados. Foi a que triunfou em Vestfália, mais ou menos, e destruiu a sociedade Internacional baseada na ideia de Cristandade. Contrariamente, os teólogos e tratadistas peninsulares, com o nosso Frei Serafim de Freitas à sua frente, reelaboraram num sentido orgânico os conceitos recebidos dos escolásticos da Idade Média. Nesses conceitos reside ainda agora a única possibilidade espiritual de um direito internacional firmado, para a sua aplicação e sanções, numa regra comum, tanto para os Estados como para os indivíduos. Tudo o mais são subjectivismos estéreis, senão insensatos e mortíferos.

[5] Canto III, nota D.

[6] De civitate Dei (Lib. III, cap. XIX).

[7] Poètes Roumains, conférence faite au Lyceum, le 26 Avril 1921, p. 16.

[8] «Les doinas: chansons! chansons qu’on murmure sans savoir pourquoi, qui s’éveillent en vous I avant votre pensée, avec votre âme même...» (Adrio Val).

[9] Comentando algumas trovas populares romenas que reproduz, observa Ramón de Basterra no seu livro recente La obra de Trajano: «Se nota la insistencia en usar la palabra dor, doru, dorul, intraducible y que no presenta equivalencia sino en el léxico de otro pueblo desventurado. Dor es saudade em portugués. Solo que el sentimiento rumano es más intenso, más corrosivo y, por decirlo así, ígneo. El lirismo rumano presenta con el lusitano surprendente parecido. En ambos romances se desmenuzan las emociones en diminutivos cariñosos, y se revela la misma infinita capacidad de sufrimiento en la cantiga (Basterra escreve cantinha por equívoco) del portugués y en el canticel del dacio. Separados de las bajas verdes de sus tierras, los dos sienten la misma angustiosa ausencia, que el uno llama saudade da menha (sic) terra y el otro doru de tara mea.» Madrid, Calpe, 1921, p. 181.

[10] Veja-se o livro de Henry Wickam Steed, tradução de Firmin Roz, La monarchie des Habsbourgs, Paris, 1917, a pp. 237ss. Leia-se também o livro de Georges Batault, Le problème juif, onde há um capítulo intitulado «Le Judaisme et le Puritanisme», suficientemente esclarecedor. Informa Georges Batault, a pp. 48-49 do citado volume: «L’économiste Max Weber s’était efforcé de mettre en lumière le rapport étroit qui unit le mouvement puritain au developpement du capitalisme moderne; c’est en reprenant cette étude et en la poussant plus à fond que M. Werner Sombart fut amené à démontrer que tous les éléments de la mentalité puritaine qui sont en relation avec les progrés de l’esprit capitaliste procé dent directement du judaïsme.» O livro de Werner Sombart intitula-se Die Juden und das Wirtschaftsleben.

[11] Sánchez Moguel, Reparaciones historicas. Estudios peninsulares, primeira série (e única publicada), Madrid, 1894, p. 130. 
​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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