O selo da Raça
António Sardinha
RESUMO
O lirismo é a marca distintiva da identidade nacional portuguesa.
Influência Recíproca e Unidade Peninsular. A análise de Sardinha acerca da unidade peninsular, tem aqui como ponto de partida um estudo de Moniz Barreto intitulado «A situação geral da Europa e a política exterior de Portugal». Enaltecendo a aliança histórica entre Portugal e Espanha, Barreto argumentou que, após os conflitos de Aljubarrota e Toro, as relações entre os dois países evoluíram para um estágio de cooperação diplomática, representado por dinastias e casamentos reais, e pela partilha da hegemonia no Mediterrâneo Ocidental e nos oceanos. A influência mútua é vista como um elemento central para o auge cultural e político dos povos peninsulares, e a consciência dessa força própria permitiu uma convivência sem receios ou desconfianças.
Paralelismo Cultural e “Bilinguismo Literário”. Apoiando-se em Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Sardinha entende que o “bilinguismo literário” reflete um paralelismo social e cultural profundo entre Portugal e Espanha. A história portuguesa do século XVI está repleta de ecos castelhanos, mas a história de Castela também exalta Portugal. A presença de símbolos portugueses em vários monumentos e cidades espanholas, demonstra a troca e o respeito mútuo, sendo o património português reconhecido e celebrado em território espanhol.
Intercâmbio Intelectual e Académico. O texto apresenta vários exemplos de intercâmbio intelectual, como a actuação de Aires Barbosa em Espanha e de Luís Vives em Portugal. Essas trocas não se limitam à literatura, mas abrangem também o campo do pensamento, como se observa na influência dos escolásticos espanhóis e portugueses sobre temas como a origem do poder e o direito à revolta, com Frei Serafim de Freitas sendo um exemplo notável desse diálogo.
A Influência Portuguesa no Teatro e na Literatura Espanhola. Durante o chamado “domínio filipino”, o “portuguesismo” deixou a sua marca no teatro espanhol do Século de Ouro. Autores como Tirso de Molina, Lope de Vega e Calderón de la Barca dedicaram obras e personagens à temática portuguesa, muitas vezes reconhecendo qualidades afetivas e morais associadas ao ethos luso. O lirismo português é apontado como traço distintivo, um “tierno de corazón” que se contrapõe à austeridade castelhana.
A Importância do Lirismo Português. O lirismo nacional é apresentado como a essência do ethos português, diferenciando-o claramente do restante da Península. Sardinha sublinha que essa sensibilidade influenciou toda a literatura sentimental europeia, desde o Amadis de Gaula e Menina e Moça até a Diana de Jorge de Montemor. Menéndez Pelayo reconhece essa tradição, atribuindo-lhe um sentimentalismo peculiar, quase pré-romântico, que se propagou para outras literaturas, como a francesa, influenciando obras e autores notáveis.
Salvaguarda da Identidade Nacional e Resistência à Absorção. Mesmo nos momentos de maior risco de assimilação, como durante a monarquia dualista dos Áustrias, Portugal manteve a sua política, literatura e tradição cultural próprias. O texto destaca que a absorção plena nunca foi possível devido à singularidade do temperamento afetivo português, que se manifestava tanto no lirismo quanto na autonomia intelectual e política.
Contribuição Portuguesa nas Artes Visuais e Dinastia Artística. A influência de Portugal também se estendeu à pintura castelhana, especialmente através de Afonso Sanches Coelho, que estabeleceu o modelo do retrato de corte e influenciou a escola de Madrid. Sanches Coelho, de origem portuguesa, foi reconhecido como “o pintor oficial” dos Habsburgos, e sua linhagem artística perdurou por gerações, mostrando que o intercâmbio cultural não se limitou à literatura, mas também se fez sentir nas artes visuais.
Unidade e Diversidade Cultural Peninsular. António Sardinha conclui sublinhando que a História de Portugal não pode ser dissociada da História Geral da Península Ibérica. A influência mútua entre Portugal e Espanha, em diversos campos, consolidou uma unidade cultural peninsular, mas onde cada nação manteve as suas características únicas, sendo o lirismo uma das marcas mais profundas e persistentes da identidade portuguesa.
Paralelismo Cultural e “Bilinguismo Literário”. Apoiando-se em Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Sardinha entende que o “bilinguismo literário” reflete um paralelismo social e cultural profundo entre Portugal e Espanha. A história portuguesa do século XVI está repleta de ecos castelhanos, mas a história de Castela também exalta Portugal. A presença de símbolos portugueses em vários monumentos e cidades espanholas, demonstra a troca e o respeito mútuo, sendo o património português reconhecido e celebrado em território espanhol.
Intercâmbio Intelectual e Académico. O texto apresenta vários exemplos de intercâmbio intelectual, como a actuação de Aires Barbosa em Espanha e de Luís Vives em Portugal. Essas trocas não se limitam à literatura, mas abrangem também o campo do pensamento, como se observa na influência dos escolásticos espanhóis e portugueses sobre temas como a origem do poder e o direito à revolta, com Frei Serafim de Freitas sendo um exemplo notável desse diálogo.
A Influência Portuguesa no Teatro e na Literatura Espanhola. Durante o chamado “domínio filipino”, o “portuguesismo” deixou a sua marca no teatro espanhol do Século de Ouro. Autores como Tirso de Molina, Lope de Vega e Calderón de la Barca dedicaram obras e personagens à temática portuguesa, muitas vezes reconhecendo qualidades afetivas e morais associadas ao ethos luso. O lirismo português é apontado como traço distintivo, um “tierno de corazón” que se contrapõe à austeridade castelhana.
A Importância do Lirismo Português. O lirismo nacional é apresentado como a essência do ethos português, diferenciando-o claramente do restante da Península. Sardinha sublinha que essa sensibilidade influenciou toda a literatura sentimental europeia, desde o Amadis de Gaula e Menina e Moça até a Diana de Jorge de Montemor. Menéndez Pelayo reconhece essa tradição, atribuindo-lhe um sentimentalismo peculiar, quase pré-romântico, que se propagou para outras literaturas, como a francesa, influenciando obras e autores notáveis.
Salvaguarda da Identidade Nacional e Resistência à Absorção. Mesmo nos momentos de maior risco de assimilação, como durante a monarquia dualista dos Áustrias, Portugal manteve a sua política, literatura e tradição cultural próprias. O texto destaca que a absorção plena nunca foi possível devido à singularidade do temperamento afetivo português, que se manifestava tanto no lirismo quanto na autonomia intelectual e política.
Contribuição Portuguesa nas Artes Visuais e Dinastia Artística. A influência de Portugal também se estendeu à pintura castelhana, especialmente através de Afonso Sanches Coelho, que estabeleceu o modelo do retrato de corte e influenciou a escola de Madrid. Sanches Coelho, de origem portuguesa, foi reconhecido como “o pintor oficial” dos Habsburgos, e sua linhagem artística perdurou por gerações, mostrando que o intercâmbio cultural não se limitou à literatura, mas também se fez sentir nas artes visuais.
Unidade e Diversidade Cultural Peninsular. António Sardinha conclui sublinhando que a História de Portugal não pode ser dissociada da História Geral da Península Ibérica. A influência mútua entre Portugal e Espanha, em diversos campos, consolidou uma unidade cultural peninsular, mas onde cada nação manteve as suas características únicas, sendo o lirismo uma das marcas mais profundas e persistentes da identidade portuguesa.
O selo da Raça
Obra, sobretudo, de uma diligente e amorável ação feminina, ninguém talvez definiu melhor a unidade hispânica do que Moniz Barreto, um dos mais belos e desditosos espíritos da nossa terra. Na Revista de Portugal, de que foi diretor Eça de Queiroz, publicou Moniz Barreto um sensacional estudo, em seguida ao Ultimatum de 1890. Intitula-se ele «A situação geral da Europa e a política exterior de Portugal». E embora corressem mais de trinta anos sobre a sua publicação,[1] o trabalho de Moniz Barreto reveste-se na hora presente, para quem o releia, de uma profunda e irrefutável actualidade. Encara-se ali o problema da aliança peninsular com a mais brava decisão de inteligência. Assim o vamos provar com as palavras do próprio Moniz Barreto: «Mas Portugal está interessado não só em viver em paz com Espanha, mas ainda em travar com ela relações de amizade e aliança. Depois que em Aljubarrota e em Toro os portugueses e os castelhanos afirmaram reciprocamente a sua independência contra mútuas tentativas de invasão, iniciou-se na Península um período de inteligências diplomáticas que dura um século e corresponde em Portugal aos reinados de D. João II, D. Manuel, D. João III, D. Sebastião, e em Espanha aos reinados de Fernando e Isabel, de Carlos V e de Filipe II. Durante este período, que é o de maior prosperidade e grandeza dos povos peninsulares, a consciência da força própria suprime desconfianças e temores e a identidade de aspirações e sentimentos cimenta as bases de uma aliança em que compartilhamos com a Espanha a hegemonia no Mediterrâneo Ocidental e nos dois Oceanos. É este pensamento que inspira os casamentos dinásticos e se traduz por auxílios militares, que conduz um infante de Portugal à barra de Tunes, que faz combater os cavaleiros espanhóis em Alcácer-Quibir, que, encontrando intérpretes nos grandes poetas da península, enche de elogios magníficos do génio espanhol a epopeia das glórias portuguesas, que dicta a Herrera a lamentação à morte do Rei Desejado, que em pleno reinado de Filipe IV leva o maior vulto do teatro nacional espanhol a coroar com a auréola da poesia a memória do Infante Santo. E é um facto que se presta a reflexões que o período da aliança espanhola coincida com a época de maior prosperidade e de plena expansão do génio português.»
Constitui o depoimento de Moniz Barreto uma síntese brilhante de quanto, ao longo de este trabalho, ficou já afirmado. Vivem, porém, tão ancorados na psicologia dominante os preconceitos que, de parte a parte, impossibilitam uma desanuviada e incondicional aproximação hispano-portuguesa, que nunca me parece demais insistir num tema como aquele que a pena de Moniz Barreto condensou tão brilhantemente. Por isso volto a recordar a circunstância deveras impressionante de ter a Casa de Avis transmitido aos Áustrias espanhóis a sua hereditariedade tanto física como moral. Selo admirável da nossa Raça, em tudo ele se manifesta, demonstrando-nos como coincide, na verdade, com essa época, o período da expansão plena do génio português. O ‘bilinguismo literário’, tão justamente denominado por D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos, não é mais do que um dos muitos aspetos do íntimo paralelismo social e cultural que ligou então entre si as duas pátrias hispânicas.
Realmente, se a história de Portugal na centúria de Quinhentos vibra cheia de ressonâncias castelhanas, a história de Castela, por sua vez, é um eco constante, repetindo com orgulho o nome glorioso de Portugal. Ainda agora, por toda a banda, por onde quer que o viajante peregrine, o escudo sagrado das Quinas se destaca para o nosso olhar surpreendido de entre a mole serena das igrejas e dos palácios que riscam de traços nobres a paisagem pensativa do centro da Península. Em Segóvia, por exemplo, a cruz floreteada de Avis insculpe-se magnificamente no cadeirado soberbo do coro da Catedral. Guarda-se igualmente em Segóvia o precioso pontifical do bispo D. Vasco com as armas portuguesas avultando no esplendor heráldico das bordaduras sumptuosas. A Segóvia pertence também uma outra maravilha de arte, o Cristo de Lozoya, obra do imaginário Manuel Pereira. Autor do formidável São Bruno da Cartuja de Miraflores, quase ninguém em Portugal conhece a existência[2] desse seu filho ilustre, que é uma das mais extraordinárias expressões do génio plástico da Península. A barreira que nos separa, por motivos hoje irracionais, leva-nos a nós, portugueses, a repelir criminosamente bastantes florões do património augustíssimo da nossa Raça e da nossa História.
Ora o que sucede em Segóvia, sucede por toda a Espanha, desde Granada custodiando o corpo de São João de Deus – decor Hispaniae: Institutor Ordinis, proles Lusitaniae ad Granatæ nobilis celebre depositum... como se canta no ofício da sua festa de Confessor – até Fuenterrabia, de sentinela já à terra francesa, mas com as Cinco-Quinas e os Sete-Castelos ocupando orgulhosamente o coração do escudo filipino. De sul a norte, sempre um retalho de Portugal, sempre uma reminiscência da ‘pátria minha amada’ – no dizer inolvidável do Épico! Significará isso, porventura, uma subalternização de Portugal ao espírito militante e unitarista do centro da Península? Não, de modo nenhum! Moniz Barreto já acentuava bem que «a consciência da força própria suprime desconfianças e temores». É o que se comprova sem dificuldade se nos lembrarmos de que, na constante permuta intelectual das duas nacionalidades hispânicas, Aires Barbosa, um português,[3] presidia ao desenvolvimento dos estudos clássicos em Espanha,[4] enquanto o espanhol Luis Vives dedicava a D. João III o seu tratado De disciplinis, antecedido de um caloroso elogio aos serviços prestados por Portugal à cultura humana. Do mesmo modo, se um Brocense recebia em terra portuguesa a sua primeira formação mental, Garcia de Orta – o nosso grande naturalista – era em Alcalá, na universidade de Cisneros, que preparava o seu espírito e sentia abrir-se à curiosidade científica que o notabilizou depois.
Não nos esqueçamos também de que na sua cátedra de Évora é que o jesuíta Luís de Molina sustentaria a sua longa e apaixonada polémica, de que o Condenado por desconfiado devia ser a seguir a imorredoira expressão literária.[5]
Embora granadino de nascimento, por seu lado em Coimbra regeria cadeira Francisco Suárez, o Doctor eximius, tornando a veneranda fundação de D. Dinis um dos mais esclarecidos luminares do pensamento europeu daquele tempo. E como falamos em Francisco Suárez, vem-me naturalmente à ideia observar a singular circunstância de só ter aproveitado a Portugal, para justificação doutrinária do nosso ato revolucionário de 1640, a agitada contenda jurídico-teológica que os escolásticos espanhóis do século XVI ao século seguinte, inspirando-se em São Tomás, sustentaram porfiadamente sobre a origem do Poder e o direito da Revolta, contra as preferências absolutistas dos doutores protestantes. Aproximadamente nessa data um português, Frei Serafim de Freitas, frade mercedário, estribado na noção ecuménica da Respublica Christiana, refutaria a conhecida obra de Grócio, Mare liberum, como o seu tratado De justo imperio Lusitanorum asiatico.
Professou Frei Serafim de Freitas Direito Canónico na Universidade de Valladolid, e não há muito que um seu biógrafo e tradutor, ressuscitando-o para os aplausos da posteridade, escrevia dele que o seu trabalho é incomparavelmente superior ao de Grócio «em método e em doutrina».[6] E o Visconde de Santarém, numa curiosa nota que nos legou sobre o De justo imperio Lusitanorum asiatico, resumia assim as suas impressões: «O autor, dotado de pasmosa erudição, trata a questão da liberdade de navegar, e da proíbição, e do Dominium maris, com uma independência tal, que sustenta, apesar de servir a côrte de Hespanha, que então dominava a Portugal: Batavi in Indiam non navigarunt nisi postquam Phillipus primus succedit in Lusitania.» Acrescenta o Visconde de Santarém: «Este livro é uma grande defeza contra os detractores que acusam os portugueses da sua administração colonial», frisando ao mesmo tempo que ele constitui «um fortíssimo manifesto contra Castela e que mostra bem como a revolução de 1640 se preparou muitos anos antes». Não escapou por isso ao Visconde de Santarém «a circunstância de o governo espanhol consentir na impressão desta obra, e tanto mais que o autor era lente de Cânones na Universidade de Valladolid».[7]
Mas, se o Visconde de Santarém rebuscasse um pouco nas suas abundantes reminiscências de erudito, talvez se não surpreendesse tanto com a liberdade concedida à pena e ao livro de Frei Serafim de Freitas. Precisamente, durante o ‘domínio filipino’ – que eu prefiro chamar com mais exatidão ‘monarquia dualista dos Áustrias’ – é que o portuguesismo se afirmara na vida social espanhola de maneira tal que o teatro castelhano do Século de Oiro está cheio de Portugal e de motivos portugueses. Em Tirso de Molina, então, a nossa pátria quase representa o único tema inspirador das suas obras. Ainda mesmo naquelas peças de carácter mais humano e universal, como El Burlador de Sevilla, o lusofilismo de Tirso, como se diria hoje, é transparente de intenção e de carinho para connosco.
Conhece-se a descrição de Lisboa com que nos enobrece Tirso no Burlador: «Es Lisboa una octava maravilla.» Pois nas Quinas de Portugal, escritas às vésperas da Restauração, Tirso de Molina dramatizaria com D. Afonso Henriques, Egas Moniz e São Geraldo a instituição do reino de Portugal. Aí nos surge o milagre de Ourique, já com a mesma mística com que actuaria tão poderosamente no ânimo dos nossos homens de Seiscentos. E Cristo Senhor Nosso que no campo da batalha entrega a D. Afonso Henriques o estandarte da nova nacionalidade com as palavras seguintes: «Las armas que a Lusitania / otorga mi amor propício, / em cinco escudos celestes / han de ser mis llagas cinco; / en forma de cruz se pongan, / y con ellas, en distinto / campo, los treinta dineros / con que el pueblo fementido / me compró al avaro ingrato, / que después, en otro siglo, / un escudo con el Algarbe, / se orlará con sus castillos.»
E, ao confiar ao monarca o pendão do Reino nascente, Jesus confirma-lhe essas armas, rematando do alto da Cruz, rodeado de Anjos: «Yo te las doy de mi mano, / Yo con mi sangre te animo, / Yo tu estandarte enarbolo. / Yo victorioso te afirmo. / Alfonso!, al arma!, debela / a un tiempo a alarbes y vicios. / Reinarás en la Lusitania, / Y eterno después conmigo!»
Escrevia-se e representava-se isto nos tablados de Madrid em 1638, exactamente na hora em que o centralismo opressivo do Conde-Duque ia restituir outra vez a Portugal os seus direitos imortais de terra livre. Em que atmosfera, na verdade, o nome de Portugal se aprendia e pronunciava!
Bem mais castelhanista que Tirso, aparecem, no entanto, os mesmos sentimentos por Portugal em Calderón de la Barca, que também às vésperas da Restauração, tomando para protagonista do seu Príncipe-Constante o Infante Santo, empregaria a nossa própria língua para nos reconhecer num verso inolvidável a nossa eterna condição de portugueses. A cena passa-se nas praias de Tânger, quando da ‘infeliz jornada’. Dois mouros dão com Brito deitado por terra. É interessante observar que no teatro espanhol do grande Século, sempre que o assunto seja português, é quase inevitável um ‘Brito’, fazendo o jocoso da peça. Ora o ‘Brito’ de O Príncipe-Constante, depois de fingir de morto, não se contêm na sua disfarçada imobilidade e... e Calderón que nos conte o resto!
Moro 1.° – Cristiano muerto es este.
Moro 2.° – Porque no causen peste,
Echad al mar los muertos.
Brito – En dejando los cascos bien abiertos
A tajos y reveses
(Levántase, y acuchíllalos.)
Que ainda mortos somos portugueses.[8]
A homenagem que Calderón de la Barca assim nos prestava, marca bem o íntimo parentesco, a evidente familiaridade, com que Portugal era estimado na lareira de Castela, mesmo quando uma tarja negra se empenhava em partir em duas metades inimigas a história gloriosa da Península. Constituiria um desfile curiosíssimo a simples enumeração das lendas e personagens portuguesas que ilustram o teatro espanhol, desde Lope de Vega, Calderón e Tirso de Molina a Vélez de Guevara, a Agustín Moreto, a João de Matos Fragoso – este, português de nascimento, apesar de a sua obra ser toda castelhana.[9]
O traço principal que salienta nesses autores o carácter português é o do enternecimento e do amor. Na sua Dorotea, Lope de Vega, por boca de D. Fernando – uma das figuras – declara significativamente: «Tengo los ojos niños y portuguesa el alma; pero creed que quien no nace tierno de corazón, bien puede ser poeta, pero no será dulce.» Transparece no singular testemunho de Lope de Vega a completa consciência que havia da parte do génio castelhano para com a divisória moral que a nós, os portugueses, nos distinguia inconfundivelmente adentro da unidade cultural e ética da Península. É sobretudo numa ideia afetiva da existência que consiste semelhante diferença. Encontramo-nos de este modo em face do problema do Lirismo, como sendo a linha madre do nosso ethos – a mais invencível de todas as razões da nossa profunda vida nacional.
*
Levar-nos-ia muito longe o exame da questão. Não deixarei, porém, de lembrar que, se o génio castelhano influiu na literatura europeia, através das suas formidáveis criações teatrais e novelescas, nós não deixamos de influir menos, gerando uma forma típica de sensibilidade que vem desde o Amadis de Gaula – cuja origem galaico-lusitana[10] o insigne Menéndez Pelayo reconhecia – e é depois continuada pela Menina e Moça de Bernardim Ribeiro. Com rara acuidade crítica observaria Menéndez Pelayo a propósito da Diana de Jorge de Montemor: «La Diana ha influido en la literatura moderna más que ninguna otra novela pastoril, más que la misma Arcadia de Sannazaro, más que Dafnis y Cloé, que no tuvo verdadero imitador hasta Bernardin de Saint-Pierre.» Não me é possível traçar aqui a genealogia da Diana de Jorge de Montemor. Mas, à parte as tendências e as modas literárias que a particularizam, entronca directamente na Menina e Moça de Bernardim Ribeiro, «novela sui generis, llena de subjectivismo romántico, en que el escenario es pastoril, aunque la maior parte de las aventuras son caballerescas».[11] Por seu turno e por essa original combinação do pastoril e do cavalheiresco, a penetração do Amadis na Menina e Moça é de demonstração facílima. Ora no Amadis, ainda segundo Menéndez Pelayo, domina «un idealismo sentimental que tiene de gallego o portugués mucho más que de castellano: la acción flota en una especie de atmósfera lírica que en los siglos XII y XIV sólo existía allí».[12]
Criou o Amadis um novo tipo erótico bem diferente do idealismo platónico e petrarquista, «que es otra quimera mucho más sutil, nacida de doctrinas filosóficas sobre el bien y la hermosura», acentua ainda Menéndez Pelayo. Ao contrário, no Amadis o amor «implica no sólo el reconicimento de la belleza sensible, sino el deseo de poseerla». Acontece também que, no Amadis, Oriana – o eterno feminino – «es personaje tanto o más importante que Amadis».[13] E Menéndez Pelayo entende que «lo más grave y lo que hizo sospechoso desde luego a los moralistas el Amadis con su innumerable progenie fue la falsa idealización de la mujer, convertida en ídolo deleznable de un culto sacrílego o imposible, la extravagante esclavitud amorosa, cierta efeminación que está el ambiente del libro, a pesar de su castidad relativa».[14]
Porque no Amadis «hay todavía mucho de enervante y muelle que contrasta con la férrea austeridad de las gestas castellanas»[15] é que Menéndez Pelayo, sem conhecer a monografia de António Tomás Pires[16] que fixou definitivamente o quadro cronológico da vida de João de Lobeira, se decide sem hesitações pela origem galaico-lusitana da festejada novela. Menéndez Palayo reconhecia assim no Amadis a natureza excepcional do nosso apaixonado temperamento lírico, embora, numa dureza de generalização, o considerasse como um excesso quase feminil de sensibilidade. Pois do Amadis transitou para a Menina e moça o mesmo conceito de amor, que torna a novela de Bernardim Ribeiro em nada devedora a Sannazaro, decalcador de Vergílio e Teócrito, porque Bernardim, «hijo de la Edad Media... combina el ideal caballeresco con el pastoril», resultando daí, por influência poderosa do lirismo estrutural da nossa raça, «una ternura muy poco viril, un sentimentalismo algo enfermizo, pero que llega a ser encantador por lo temprano y solitario de su aparición, un pre-romanticismo patético y sincero»...[17]
Rectificaremos de passagem a Menéndez Pelayo pelo que respeita à conta de menos virilidade em que aprecia o nosso lirismo ingénito, recordando que desse fundo lírico da Raça é que saíu o mito assombroso do Encoberto, eucaristia admirável da esperança. E, fixando-nos na felicíssima designação de ‘pré-romantismo’ com que qualifica a sentimentalidade inconfundível de Bernardim, vejamos aí a nota ancestral que, recebida do Amadis, se transmitiu depois, através da Diana de Jorge de Montemor, à literatura europeia, particularmente à francesa.
Ressente-se, é certo, a Diana do convencionalismo da sua época. Mas, sem dúvida, as transparentes qualidades líricas do seu autor contribuíram para lhe ganhar a notoriedade que faltou por completo a outras obras do género.
Não se ignora a sugestão da Diana na Astrée – a novela célebre de Honoré d’Urfé. Foi a Astrée em França «o prototipo nunca igualado de todas as novelas sentimentais do século XVII e o oráculo do gosto cortesão desde o tempo de Enrique IV até Luís XVI». Ultimamente os trabalhos de filosofia histórico-social de Ernest Seillière,[18] sublinhando a impressão que da leitura da Astrée ficou em Jean-Jacques Rousseau, atribuem ao sentimentalismo introduzido na psicologia francesa pela novela de Jorge de Montemor, por intermédio do autor do Émile e da Nouvelle Héloïse, a causa remota em França, não só do Romantismo, mas da própria Revolução. Realmente, entre o falso naturalismo de Jean-Jacques e o lirismo inato do lusitano, há uma relação de parentesco próximo, embora espúrio. No entanto, categoria bastarda em França, se engendrou, como expressão social, a mentira ignóbil da ‘Bondade Natural’, em Portugal, dentro do ruralismo fundamental da grei moradora nas ribeiras do Atlântico, traduziu-se na criação suprema do Encoberto, salvador do seu povo oprimido.
Aqui está como a idiossincrasia portuguesa, consubstanciada numa forma sua, a da novela sentimental, accionou profundamente na vida moral e intelectual da Europa, ao lado do génio castelhano, que, pelo teatro e pelos seus tipos novelescos inolvidáveis, determinaria igualmente no mundo europeu uma corrente de gosto – castelhana ou espanhola, como melhor se entenda. Dentro da unidade da civilização peninsular fica bem manifesta a linha própria a cada um dos dois ethos hispânicos. Era a consciência – insisto – dessa diferença que levava Tirso de Molina, nas Quinas de Portugal, a dramatizar a nossa tradição nacionalista do milagre de Ourique e Lope de Vega, depois de pôr na boca de um dos seus personagens que tinha «los ojos niños y portuguesa el alma», a exclamar com outro que dois favores devia a Deus – «o não ser idiota, nem haver nascido castelhano».[19]
Tal se nos revela a persistência do elemento lusista mesmo dentro da dupla-monarquia dos Áustrias. Não nos admiremos, pois, que na sua cátedra de Valladolid Frei Serafim de Freitas sustentasse em pleno domínio filipino as teses que sustentou no seu De justo imperio Lusitanorum asiatico. A salvaguarda da nossa individualidade devia-se, principalmente, ao temperamento afectivo do português. Se o Lirismo correspondia socialmente às formas rurais do nosso profundo espírito municipalista, correspondia, por outro lado, na sua imediata expressão pessoal, ao «tierno de corazón» do ‘D. Fernando’ de Lope de Vega. Pela ternura do coração nos impusemos na hora em que a nossa dissolução como pátria autónoma esteve mais perto de consumar-se. A nota especial que o Lirismo nos comunica é, deste modo, tão estranha ao que constitui a essência da restante alma peninsular, que nós já vimos como o próprio Menéndez Pelayo dificilmente a interpretou, ao classificá-la de enervante e pouco viril! Não obstante, com aquela alta e justiceira atenção que as coisas de Portugal sempre lhe mereceram, Menéndez Pelayo não hesitaria em confessar que, mesmo nas obras de portugueses escritas em castelhano, se a língua é estrangeira, o espírito é nacional. Tornam-se assim evidentes os motivos por que nunca, por parte do Estado filipino, a nossa absorção seria possível. Quando nos incorporámos na monarquia dualista dos Áustrias, levámos connosco uma política, a do Mar, uma literatura, com o seu expoente máximo em Camões, e uma tradição de cultura, sem o concurso da qual nunca a Península criaria a civilização que criou. E, até nesse momento em que nos diríamos mais em risco de perder a nossa personalidade histórica, ela se afirmou com traços tão indeléveis que nós já apreciamos o rasto que pôde deixar nas letras espanholas da época – a maior da história literária de Espanha.
Não foram de menos importância os elementos nacionais que Portugal comunicou à pintura castelhana durante o período aziago – para ambas as pátrias – do governo dos Filipes. Retratista verdadeiramente notável, Afonso Sanches Coelho com o seu retrato da imperatriz Isabel tinha fixado na arte peninsular o modelo do retrato da côrte mais em voga.[20] Quem era Sanches Coelho? Perguntar quem era Sanches Coelho é verificar mais uma vez a grande, a irrefutável influência de Portugal dentro da admirável obra cultural e política que designaremos por ‘unidade hispânica’.
Da naturalidade de Sanches Coelho já se não duvida. O que é ainda incerta é a data da sua saída para Castela. Supõe-se que iria recomendado ao imperador por D. Catarina de Áustria, sua irmã e esposa do nosso D. João III. Tido como espanhol durante alguns séculos, em consequência de lhe haverem castelhanizado o nome e os apelidos, Afonso Sanches Coelho é, nada mais, nada menos, do que «l’admirable portraitiste qui, sorti d’un milieu portugais, deviendra le fondateur de l’école de Madrid et le peintre officiel des cours de Charles-Quint e de Philippe II».[21] Casado com Luísa Reynalte, também de procedência portuguesa e autora de umas Memórias, hoje perdidas, sobre a vida e morte da imperatriz Isabel, a quem servira,[22] Sanches Coelho fundou uma gloriosa dinastia de artistas que, através de Pantoja de la Cruz, seu próximo parente, dura tanto como a dinastia dos Áustrias, dos quais, na frase definitiva de M. Roblot-Delondre, fôra «le peintre officiel». Efectua-se com Sanches Coelho a penetração decisiva da pintura portuguesa no quadro geral da pintura espanhola, que estava ainda subalternizada à imitação servil dos modelos estrangeiros, quando em Portugal «et sur la frontière de Vieille Castille une admirable pléiade de peintres avait su réaliser, dès le XV siècle, un type d’art très personnel».[23] Esse type d’art très personnel cindir-se-á depois em diversas tendências. Mas «l’école essentiellement portugaise perpetuera son type avec un peintre né en Espagne, Carreño de Miranda; celle évoluera rapidement et aboutira a Velázquez, peintre d’origine portugaise».[24]
Em que consistiria, porém, inicialmente, a ‘escola portuguesa’? Problema interessantíssimo, não nos é possível encará-lo aqui com a atenção merecida. «Occupés du réalisme, les peintres portugais réproduisent la figure humaine tel qu’ils la voient... Le prototype de toutes ces figures, par leur aspect général, est evidentement emprunté a Jean van Eick, mais les procédés de ce maître se sont modifiés en Portugal, grâce a l’influence, de la lumière sur la figure.»[25] E Mme. Roblot-Delondre continua observando: «Bref, au commencement du XVI siècle, nous assistons à une interpenetration des écoles néerlandaises et portugaises qui nous permettra de comprendre, vers le milieu du siècle, la similitude entre les portraits de deux peintres officiels de la Cour des Habsbourgs: le Hollandais Antonio Moro et l’Hispano-Portugais Sanches Coelho.»[26] A parte que em semelhante interpenetração pertence ao elemento português, a autora do precioso trabalho Portraits d’Infantes agudamente a salienta e destaca. «Si Moro traduit la nature elle-même avec le puissant réalisme des peintres du Nord et, dans le modélé des chairs, s’il reste très supérieur à ses modèles péninsulaires, l’artiste n’est que leur simple imitateur, quant aux proportions qu’il donne a la figure par rapport au cadre. Cette justesse des proportions est la qualité dominante des portraits hispano-portugais.»[27]
Amigos e companheiros de trabalho, Antonio Moro e Sanches Coelho influenciaram-se reciprocamente: «C’est sous leur double influence que se créera cette école de cour qui subsistera à Madrid aussi longtemps qu’y régneront des princes de la famille de Charles-Quint. Mais l’influence de Coelho y deviendra préponderante.»[28]
Assim, por uma misteriosa imposição do destino, nós estamos vendo que, da mesma maneira que a dinastia de Avis imprimira as suas particularidades fisionómicas aos Áustrias espanhóis, em cujas veias corria mais sangue português que castelhano, também seriam pintores de formação portuguesa quem os havia de fixar para a posteridade, notabilizando uma escola de pintura – descendentes em linha directa do incomparável Nuno Gonçalves, que já imortalizara com o seu pincel alguns dos mais ilustres príncipes daquela ilustre dinastia. Singular circunstância, na verdade, que se presta a largas reflexões e que bem claramente nos ensina como se mutila a história de Portugal, se teimarmos em a considerar como separada da história restante da Península!
[1] Setembro de 1891, volume IV, pp. 81 a 104.
[2] Informa-me o meu amigo e ilustre poeta Marquês de Lozoya, a cuja casa pertence a admirável obra de Manuel Pereira – Pereyra, à castelhana – que o crítico de arte D. Juan Allende-Salazar prepara um largo e documentado estudo sobre tão grande artista. Dou esta boa notícia aos que em Portugal se interessam pelas coisas serenas da Inteligência e da Emoção. Manuel Pereira gozava do maior favor na côrte de Filipe IV e foi autor também de outros Cristos, como o Cristo del Olivar (igreja de Madrid), e do Cristo ajoelhado, dos Padres Dominicos da referida côrte.
[3] «Nebrija, auxiliado por Aires Barbosa, deu aos estudos humanistas o fervor e a organização definitiva que haviam de conservar no glorioso século XVI.» Menéndez Pelayo, citado por Teófilo Braga na sua História da literatura Portuguesa, II, Renascença, Porto, 1914.
[4] «Antonio de Nebrija era el príncipe de los latinistas españoles, como el português Arias Barbosa el patriarca de los helenisas, surgiendo em torno de estas figuras principales una verdadera legión de gramáticos entendidos en todas las linguas antiguas, y constructores de aquel magnifico monumento, ideado por Cisneros, que se llamó la Poliglota Complutense.» Ángel Salcedo Ruiz, La literatura española, tomo II, Madrid, 1920, pp. 24-25.
[5] Ramón Menéndez Pidal, Estudios literarios, Madrid, 1920, pp. 60ss.
[6] A. Guichon de Grandpont, comissário geral de Marinha, Freitas contra Grotius sur la question de la Liberté des Mers, Paris-Lille, 1882.
[7] Estudos de cartografia antiga (Autógrafos e notas dispersas), Lisboa, 1920, vol. II, pp. 224-225.
[8] Calderón de la Barca, Teatro, vol. I, Madrid, Calleja, 1920, p. 247.
[9] Ver, além dos estudos de Menéndez Pelayo sobre Lope de Vega, a conferência de Manuel de Sousa Pinto, Portugal e as portuguesas em Tirso de Molina.
[10] Orígenes de la novela, tomo I, pp. CLXXI.
[11] Menéndez Pelayo, ob. cit., tom. I, pp. CDXXXII-CDXXXIII.
[12] Ob. cit., p. CCXV.
[13] Ob. cit., p. CCXV.
[14] Obr. cit., pp. CCXXVI.
[15] Obr. cit., p. CCXXI.
[16] Vid. Estudos e notas elvenses, VII (Vasco de Lobeira), Elvas, 1905.
[17] Menéndez Pelayo, obr. cit., tom. I, p. CDXXXV.
[18] Les origines romantiques de la morale et de la politique. Romantiques, Paris, Renaissance du Livre, 1920.
[19] Citação de Teófilo Braga na sua História da literatura portuguesa, II. Renascença, em nota a p. 32. Não devemos também olvidar que Cervantes nos prestou a homenagem do seu espírito. Em Portugal compôs a Galatea, primeiro livro que publicou. É a Galatea uma novela pastoril, calcada na Diana de Jorge de Montemor e com muito de autobiográfica. Nela se nos mostra Cervantes completamente seduzido pela graça e pela ternura da alma portuguesa. Também em Los trabajos de Persiles y Segismunda, Cervantes se refere a Portugal com carinho.
[20] Louise Roblot-Delondre, Portraits d’Infantes, p. 74. Ver sobre este curioso problema de história de arte o que escrevem Sánchez-Cantón e Allende-Salazar a pp. 34-46 do estudo Retratos del Museu del Prado, Madrid, 1919.
[21] Obr. cit., pp. 48-49.
[22] Obr. cit., pp. 50-51.
[23] Obr. cit., p. 39.
[24] Obr. e pp. cit.
[25] Obr. cit., pp. 42-43.
[26] Obr. cit., p. 44.
[27] Obr. cit., p. 70.
[28] Obr. cit., 71-72.
Constitui o depoimento de Moniz Barreto uma síntese brilhante de quanto, ao longo de este trabalho, ficou já afirmado. Vivem, porém, tão ancorados na psicologia dominante os preconceitos que, de parte a parte, impossibilitam uma desanuviada e incondicional aproximação hispano-portuguesa, que nunca me parece demais insistir num tema como aquele que a pena de Moniz Barreto condensou tão brilhantemente. Por isso volto a recordar a circunstância deveras impressionante de ter a Casa de Avis transmitido aos Áustrias espanhóis a sua hereditariedade tanto física como moral. Selo admirável da nossa Raça, em tudo ele se manifesta, demonstrando-nos como coincide, na verdade, com essa época, o período da expansão plena do génio português. O ‘bilinguismo literário’, tão justamente denominado por D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos, não é mais do que um dos muitos aspetos do íntimo paralelismo social e cultural que ligou então entre si as duas pátrias hispânicas.
Realmente, se a história de Portugal na centúria de Quinhentos vibra cheia de ressonâncias castelhanas, a história de Castela, por sua vez, é um eco constante, repetindo com orgulho o nome glorioso de Portugal. Ainda agora, por toda a banda, por onde quer que o viajante peregrine, o escudo sagrado das Quinas se destaca para o nosso olhar surpreendido de entre a mole serena das igrejas e dos palácios que riscam de traços nobres a paisagem pensativa do centro da Península. Em Segóvia, por exemplo, a cruz floreteada de Avis insculpe-se magnificamente no cadeirado soberbo do coro da Catedral. Guarda-se igualmente em Segóvia o precioso pontifical do bispo D. Vasco com as armas portuguesas avultando no esplendor heráldico das bordaduras sumptuosas. A Segóvia pertence também uma outra maravilha de arte, o Cristo de Lozoya, obra do imaginário Manuel Pereira. Autor do formidável São Bruno da Cartuja de Miraflores, quase ninguém em Portugal conhece a existência[2] desse seu filho ilustre, que é uma das mais extraordinárias expressões do génio plástico da Península. A barreira que nos separa, por motivos hoje irracionais, leva-nos a nós, portugueses, a repelir criminosamente bastantes florões do património augustíssimo da nossa Raça e da nossa História.
Ora o que sucede em Segóvia, sucede por toda a Espanha, desde Granada custodiando o corpo de São João de Deus – decor Hispaniae: Institutor Ordinis, proles Lusitaniae ad Granatæ nobilis celebre depositum... como se canta no ofício da sua festa de Confessor – até Fuenterrabia, de sentinela já à terra francesa, mas com as Cinco-Quinas e os Sete-Castelos ocupando orgulhosamente o coração do escudo filipino. De sul a norte, sempre um retalho de Portugal, sempre uma reminiscência da ‘pátria minha amada’ – no dizer inolvidável do Épico! Significará isso, porventura, uma subalternização de Portugal ao espírito militante e unitarista do centro da Península? Não, de modo nenhum! Moniz Barreto já acentuava bem que «a consciência da força própria suprime desconfianças e temores». É o que se comprova sem dificuldade se nos lembrarmos de que, na constante permuta intelectual das duas nacionalidades hispânicas, Aires Barbosa, um português,[3] presidia ao desenvolvimento dos estudos clássicos em Espanha,[4] enquanto o espanhol Luis Vives dedicava a D. João III o seu tratado De disciplinis, antecedido de um caloroso elogio aos serviços prestados por Portugal à cultura humana. Do mesmo modo, se um Brocense recebia em terra portuguesa a sua primeira formação mental, Garcia de Orta – o nosso grande naturalista – era em Alcalá, na universidade de Cisneros, que preparava o seu espírito e sentia abrir-se à curiosidade científica que o notabilizou depois.
Não nos esqueçamos também de que na sua cátedra de Évora é que o jesuíta Luís de Molina sustentaria a sua longa e apaixonada polémica, de que o Condenado por desconfiado devia ser a seguir a imorredoira expressão literária.[5]
Embora granadino de nascimento, por seu lado em Coimbra regeria cadeira Francisco Suárez, o Doctor eximius, tornando a veneranda fundação de D. Dinis um dos mais esclarecidos luminares do pensamento europeu daquele tempo. E como falamos em Francisco Suárez, vem-me naturalmente à ideia observar a singular circunstância de só ter aproveitado a Portugal, para justificação doutrinária do nosso ato revolucionário de 1640, a agitada contenda jurídico-teológica que os escolásticos espanhóis do século XVI ao século seguinte, inspirando-se em São Tomás, sustentaram porfiadamente sobre a origem do Poder e o direito da Revolta, contra as preferências absolutistas dos doutores protestantes. Aproximadamente nessa data um português, Frei Serafim de Freitas, frade mercedário, estribado na noção ecuménica da Respublica Christiana, refutaria a conhecida obra de Grócio, Mare liberum, como o seu tratado De justo imperio Lusitanorum asiatico.
Professou Frei Serafim de Freitas Direito Canónico na Universidade de Valladolid, e não há muito que um seu biógrafo e tradutor, ressuscitando-o para os aplausos da posteridade, escrevia dele que o seu trabalho é incomparavelmente superior ao de Grócio «em método e em doutrina».[6] E o Visconde de Santarém, numa curiosa nota que nos legou sobre o De justo imperio Lusitanorum asiatico, resumia assim as suas impressões: «O autor, dotado de pasmosa erudição, trata a questão da liberdade de navegar, e da proíbição, e do Dominium maris, com uma independência tal, que sustenta, apesar de servir a côrte de Hespanha, que então dominava a Portugal: Batavi in Indiam non navigarunt nisi postquam Phillipus primus succedit in Lusitania.» Acrescenta o Visconde de Santarém: «Este livro é uma grande defeza contra os detractores que acusam os portugueses da sua administração colonial», frisando ao mesmo tempo que ele constitui «um fortíssimo manifesto contra Castela e que mostra bem como a revolução de 1640 se preparou muitos anos antes». Não escapou por isso ao Visconde de Santarém «a circunstância de o governo espanhol consentir na impressão desta obra, e tanto mais que o autor era lente de Cânones na Universidade de Valladolid».[7]
Mas, se o Visconde de Santarém rebuscasse um pouco nas suas abundantes reminiscências de erudito, talvez se não surpreendesse tanto com a liberdade concedida à pena e ao livro de Frei Serafim de Freitas. Precisamente, durante o ‘domínio filipino’ – que eu prefiro chamar com mais exatidão ‘monarquia dualista dos Áustrias’ – é que o portuguesismo se afirmara na vida social espanhola de maneira tal que o teatro castelhano do Século de Oiro está cheio de Portugal e de motivos portugueses. Em Tirso de Molina, então, a nossa pátria quase representa o único tema inspirador das suas obras. Ainda mesmo naquelas peças de carácter mais humano e universal, como El Burlador de Sevilla, o lusofilismo de Tirso, como se diria hoje, é transparente de intenção e de carinho para connosco.
Conhece-se a descrição de Lisboa com que nos enobrece Tirso no Burlador: «Es Lisboa una octava maravilla.» Pois nas Quinas de Portugal, escritas às vésperas da Restauração, Tirso de Molina dramatizaria com D. Afonso Henriques, Egas Moniz e São Geraldo a instituição do reino de Portugal. Aí nos surge o milagre de Ourique, já com a mesma mística com que actuaria tão poderosamente no ânimo dos nossos homens de Seiscentos. E Cristo Senhor Nosso que no campo da batalha entrega a D. Afonso Henriques o estandarte da nova nacionalidade com as palavras seguintes: «Las armas que a Lusitania / otorga mi amor propício, / em cinco escudos celestes / han de ser mis llagas cinco; / en forma de cruz se pongan, / y con ellas, en distinto / campo, los treinta dineros / con que el pueblo fementido / me compró al avaro ingrato, / que después, en otro siglo, / un escudo con el Algarbe, / se orlará con sus castillos.»
E, ao confiar ao monarca o pendão do Reino nascente, Jesus confirma-lhe essas armas, rematando do alto da Cruz, rodeado de Anjos: «Yo te las doy de mi mano, / Yo con mi sangre te animo, / Yo tu estandarte enarbolo. / Yo victorioso te afirmo. / Alfonso!, al arma!, debela / a un tiempo a alarbes y vicios. / Reinarás en la Lusitania, / Y eterno después conmigo!»
Escrevia-se e representava-se isto nos tablados de Madrid em 1638, exactamente na hora em que o centralismo opressivo do Conde-Duque ia restituir outra vez a Portugal os seus direitos imortais de terra livre. Em que atmosfera, na verdade, o nome de Portugal se aprendia e pronunciava!
Bem mais castelhanista que Tirso, aparecem, no entanto, os mesmos sentimentos por Portugal em Calderón de la Barca, que também às vésperas da Restauração, tomando para protagonista do seu Príncipe-Constante o Infante Santo, empregaria a nossa própria língua para nos reconhecer num verso inolvidável a nossa eterna condição de portugueses. A cena passa-se nas praias de Tânger, quando da ‘infeliz jornada’. Dois mouros dão com Brito deitado por terra. É interessante observar que no teatro espanhol do grande Século, sempre que o assunto seja português, é quase inevitável um ‘Brito’, fazendo o jocoso da peça. Ora o ‘Brito’ de O Príncipe-Constante, depois de fingir de morto, não se contêm na sua disfarçada imobilidade e... e Calderón que nos conte o resto!
Moro 1.° – Cristiano muerto es este.
Moro 2.° – Porque no causen peste,
Echad al mar los muertos.
Brito – En dejando los cascos bien abiertos
A tajos y reveses
(Levántase, y acuchíllalos.)
Que ainda mortos somos portugueses.[8]
A homenagem que Calderón de la Barca assim nos prestava, marca bem o íntimo parentesco, a evidente familiaridade, com que Portugal era estimado na lareira de Castela, mesmo quando uma tarja negra se empenhava em partir em duas metades inimigas a história gloriosa da Península. Constituiria um desfile curiosíssimo a simples enumeração das lendas e personagens portuguesas que ilustram o teatro espanhol, desde Lope de Vega, Calderón e Tirso de Molina a Vélez de Guevara, a Agustín Moreto, a João de Matos Fragoso – este, português de nascimento, apesar de a sua obra ser toda castelhana.[9]
O traço principal que salienta nesses autores o carácter português é o do enternecimento e do amor. Na sua Dorotea, Lope de Vega, por boca de D. Fernando – uma das figuras – declara significativamente: «Tengo los ojos niños y portuguesa el alma; pero creed que quien no nace tierno de corazón, bien puede ser poeta, pero no será dulce.» Transparece no singular testemunho de Lope de Vega a completa consciência que havia da parte do génio castelhano para com a divisória moral que a nós, os portugueses, nos distinguia inconfundivelmente adentro da unidade cultural e ética da Península. É sobretudo numa ideia afetiva da existência que consiste semelhante diferença. Encontramo-nos de este modo em face do problema do Lirismo, como sendo a linha madre do nosso ethos – a mais invencível de todas as razões da nossa profunda vida nacional.
*
Levar-nos-ia muito longe o exame da questão. Não deixarei, porém, de lembrar que, se o génio castelhano influiu na literatura europeia, através das suas formidáveis criações teatrais e novelescas, nós não deixamos de influir menos, gerando uma forma típica de sensibilidade que vem desde o Amadis de Gaula – cuja origem galaico-lusitana[10] o insigne Menéndez Pelayo reconhecia – e é depois continuada pela Menina e Moça de Bernardim Ribeiro. Com rara acuidade crítica observaria Menéndez Pelayo a propósito da Diana de Jorge de Montemor: «La Diana ha influido en la literatura moderna más que ninguna otra novela pastoril, más que la misma Arcadia de Sannazaro, más que Dafnis y Cloé, que no tuvo verdadero imitador hasta Bernardin de Saint-Pierre.» Não me é possível traçar aqui a genealogia da Diana de Jorge de Montemor. Mas, à parte as tendências e as modas literárias que a particularizam, entronca directamente na Menina e Moça de Bernardim Ribeiro, «novela sui generis, llena de subjectivismo romántico, en que el escenario es pastoril, aunque la maior parte de las aventuras son caballerescas».[11] Por seu turno e por essa original combinação do pastoril e do cavalheiresco, a penetração do Amadis na Menina e Moça é de demonstração facílima. Ora no Amadis, ainda segundo Menéndez Pelayo, domina «un idealismo sentimental que tiene de gallego o portugués mucho más que de castellano: la acción flota en una especie de atmósfera lírica que en los siglos XII y XIV sólo existía allí».[12]
Criou o Amadis um novo tipo erótico bem diferente do idealismo platónico e petrarquista, «que es otra quimera mucho más sutil, nacida de doctrinas filosóficas sobre el bien y la hermosura», acentua ainda Menéndez Pelayo. Ao contrário, no Amadis o amor «implica no sólo el reconicimento de la belleza sensible, sino el deseo de poseerla». Acontece também que, no Amadis, Oriana – o eterno feminino – «es personaje tanto o más importante que Amadis».[13] E Menéndez Pelayo entende que «lo más grave y lo que hizo sospechoso desde luego a los moralistas el Amadis con su innumerable progenie fue la falsa idealización de la mujer, convertida en ídolo deleznable de un culto sacrílego o imposible, la extravagante esclavitud amorosa, cierta efeminación que está el ambiente del libro, a pesar de su castidad relativa».[14]
Porque no Amadis «hay todavía mucho de enervante y muelle que contrasta con la férrea austeridad de las gestas castellanas»[15] é que Menéndez Pelayo, sem conhecer a monografia de António Tomás Pires[16] que fixou definitivamente o quadro cronológico da vida de João de Lobeira, se decide sem hesitações pela origem galaico-lusitana da festejada novela. Menéndez Palayo reconhecia assim no Amadis a natureza excepcional do nosso apaixonado temperamento lírico, embora, numa dureza de generalização, o considerasse como um excesso quase feminil de sensibilidade. Pois do Amadis transitou para a Menina e moça o mesmo conceito de amor, que torna a novela de Bernardim Ribeiro em nada devedora a Sannazaro, decalcador de Vergílio e Teócrito, porque Bernardim, «hijo de la Edad Media... combina el ideal caballeresco con el pastoril», resultando daí, por influência poderosa do lirismo estrutural da nossa raça, «una ternura muy poco viril, un sentimentalismo algo enfermizo, pero que llega a ser encantador por lo temprano y solitario de su aparición, un pre-romanticismo patético y sincero»...[17]
Rectificaremos de passagem a Menéndez Pelayo pelo que respeita à conta de menos virilidade em que aprecia o nosso lirismo ingénito, recordando que desse fundo lírico da Raça é que saíu o mito assombroso do Encoberto, eucaristia admirável da esperança. E, fixando-nos na felicíssima designação de ‘pré-romantismo’ com que qualifica a sentimentalidade inconfundível de Bernardim, vejamos aí a nota ancestral que, recebida do Amadis, se transmitiu depois, através da Diana de Jorge de Montemor, à literatura europeia, particularmente à francesa.
Ressente-se, é certo, a Diana do convencionalismo da sua época. Mas, sem dúvida, as transparentes qualidades líricas do seu autor contribuíram para lhe ganhar a notoriedade que faltou por completo a outras obras do género.
Não se ignora a sugestão da Diana na Astrée – a novela célebre de Honoré d’Urfé. Foi a Astrée em França «o prototipo nunca igualado de todas as novelas sentimentais do século XVII e o oráculo do gosto cortesão desde o tempo de Enrique IV até Luís XVI». Ultimamente os trabalhos de filosofia histórico-social de Ernest Seillière,[18] sublinhando a impressão que da leitura da Astrée ficou em Jean-Jacques Rousseau, atribuem ao sentimentalismo introduzido na psicologia francesa pela novela de Jorge de Montemor, por intermédio do autor do Émile e da Nouvelle Héloïse, a causa remota em França, não só do Romantismo, mas da própria Revolução. Realmente, entre o falso naturalismo de Jean-Jacques e o lirismo inato do lusitano, há uma relação de parentesco próximo, embora espúrio. No entanto, categoria bastarda em França, se engendrou, como expressão social, a mentira ignóbil da ‘Bondade Natural’, em Portugal, dentro do ruralismo fundamental da grei moradora nas ribeiras do Atlântico, traduziu-se na criação suprema do Encoberto, salvador do seu povo oprimido.
Aqui está como a idiossincrasia portuguesa, consubstanciada numa forma sua, a da novela sentimental, accionou profundamente na vida moral e intelectual da Europa, ao lado do génio castelhano, que, pelo teatro e pelos seus tipos novelescos inolvidáveis, determinaria igualmente no mundo europeu uma corrente de gosto – castelhana ou espanhola, como melhor se entenda. Dentro da unidade da civilização peninsular fica bem manifesta a linha própria a cada um dos dois ethos hispânicos. Era a consciência – insisto – dessa diferença que levava Tirso de Molina, nas Quinas de Portugal, a dramatizar a nossa tradição nacionalista do milagre de Ourique e Lope de Vega, depois de pôr na boca de um dos seus personagens que tinha «los ojos niños y portuguesa el alma», a exclamar com outro que dois favores devia a Deus – «o não ser idiota, nem haver nascido castelhano».[19]
Tal se nos revela a persistência do elemento lusista mesmo dentro da dupla-monarquia dos Áustrias. Não nos admiremos, pois, que na sua cátedra de Valladolid Frei Serafim de Freitas sustentasse em pleno domínio filipino as teses que sustentou no seu De justo imperio Lusitanorum asiatico. A salvaguarda da nossa individualidade devia-se, principalmente, ao temperamento afectivo do português. Se o Lirismo correspondia socialmente às formas rurais do nosso profundo espírito municipalista, correspondia, por outro lado, na sua imediata expressão pessoal, ao «tierno de corazón» do ‘D. Fernando’ de Lope de Vega. Pela ternura do coração nos impusemos na hora em que a nossa dissolução como pátria autónoma esteve mais perto de consumar-se. A nota especial que o Lirismo nos comunica é, deste modo, tão estranha ao que constitui a essência da restante alma peninsular, que nós já vimos como o próprio Menéndez Pelayo dificilmente a interpretou, ao classificá-la de enervante e pouco viril! Não obstante, com aquela alta e justiceira atenção que as coisas de Portugal sempre lhe mereceram, Menéndez Pelayo não hesitaria em confessar que, mesmo nas obras de portugueses escritas em castelhano, se a língua é estrangeira, o espírito é nacional. Tornam-se assim evidentes os motivos por que nunca, por parte do Estado filipino, a nossa absorção seria possível. Quando nos incorporámos na monarquia dualista dos Áustrias, levámos connosco uma política, a do Mar, uma literatura, com o seu expoente máximo em Camões, e uma tradição de cultura, sem o concurso da qual nunca a Península criaria a civilização que criou. E, até nesse momento em que nos diríamos mais em risco de perder a nossa personalidade histórica, ela se afirmou com traços tão indeléveis que nós já apreciamos o rasto que pôde deixar nas letras espanholas da época – a maior da história literária de Espanha.
Não foram de menos importância os elementos nacionais que Portugal comunicou à pintura castelhana durante o período aziago – para ambas as pátrias – do governo dos Filipes. Retratista verdadeiramente notável, Afonso Sanches Coelho com o seu retrato da imperatriz Isabel tinha fixado na arte peninsular o modelo do retrato da côrte mais em voga.[20] Quem era Sanches Coelho? Perguntar quem era Sanches Coelho é verificar mais uma vez a grande, a irrefutável influência de Portugal dentro da admirável obra cultural e política que designaremos por ‘unidade hispânica’.
Da naturalidade de Sanches Coelho já se não duvida. O que é ainda incerta é a data da sua saída para Castela. Supõe-se que iria recomendado ao imperador por D. Catarina de Áustria, sua irmã e esposa do nosso D. João III. Tido como espanhol durante alguns séculos, em consequência de lhe haverem castelhanizado o nome e os apelidos, Afonso Sanches Coelho é, nada mais, nada menos, do que «l’admirable portraitiste qui, sorti d’un milieu portugais, deviendra le fondateur de l’école de Madrid et le peintre officiel des cours de Charles-Quint e de Philippe II».[21] Casado com Luísa Reynalte, também de procedência portuguesa e autora de umas Memórias, hoje perdidas, sobre a vida e morte da imperatriz Isabel, a quem servira,[22] Sanches Coelho fundou uma gloriosa dinastia de artistas que, através de Pantoja de la Cruz, seu próximo parente, dura tanto como a dinastia dos Áustrias, dos quais, na frase definitiva de M. Roblot-Delondre, fôra «le peintre officiel». Efectua-se com Sanches Coelho a penetração decisiva da pintura portuguesa no quadro geral da pintura espanhola, que estava ainda subalternizada à imitação servil dos modelos estrangeiros, quando em Portugal «et sur la frontière de Vieille Castille une admirable pléiade de peintres avait su réaliser, dès le XV siècle, un type d’art très personnel».[23] Esse type d’art très personnel cindir-se-á depois em diversas tendências. Mas «l’école essentiellement portugaise perpetuera son type avec un peintre né en Espagne, Carreño de Miranda; celle évoluera rapidement et aboutira a Velázquez, peintre d’origine portugaise».[24]
Em que consistiria, porém, inicialmente, a ‘escola portuguesa’? Problema interessantíssimo, não nos é possível encará-lo aqui com a atenção merecida. «Occupés du réalisme, les peintres portugais réproduisent la figure humaine tel qu’ils la voient... Le prototype de toutes ces figures, par leur aspect général, est evidentement emprunté a Jean van Eick, mais les procédés de ce maître se sont modifiés en Portugal, grâce a l’influence, de la lumière sur la figure.»[25] E Mme. Roblot-Delondre continua observando: «Bref, au commencement du XVI siècle, nous assistons à une interpenetration des écoles néerlandaises et portugaises qui nous permettra de comprendre, vers le milieu du siècle, la similitude entre les portraits de deux peintres officiels de la Cour des Habsbourgs: le Hollandais Antonio Moro et l’Hispano-Portugais Sanches Coelho.»[26] A parte que em semelhante interpenetração pertence ao elemento português, a autora do precioso trabalho Portraits d’Infantes agudamente a salienta e destaca. «Si Moro traduit la nature elle-même avec le puissant réalisme des peintres du Nord et, dans le modélé des chairs, s’il reste très supérieur à ses modèles péninsulaires, l’artiste n’est que leur simple imitateur, quant aux proportions qu’il donne a la figure par rapport au cadre. Cette justesse des proportions est la qualité dominante des portraits hispano-portugais.»[27]
Amigos e companheiros de trabalho, Antonio Moro e Sanches Coelho influenciaram-se reciprocamente: «C’est sous leur double influence que se créera cette école de cour qui subsistera à Madrid aussi longtemps qu’y régneront des princes de la famille de Charles-Quint. Mais l’influence de Coelho y deviendra préponderante.»[28]
Assim, por uma misteriosa imposição do destino, nós estamos vendo que, da mesma maneira que a dinastia de Avis imprimira as suas particularidades fisionómicas aos Áustrias espanhóis, em cujas veias corria mais sangue português que castelhano, também seriam pintores de formação portuguesa quem os havia de fixar para a posteridade, notabilizando uma escola de pintura – descendentes em linha directa do incomparável Nuno Gonçalves, que já imortalizara com o seu pincel alguns dos mais ilustres príncipes daquela ilustre dinastia. Singular circunstância, na verdade, que se presta a largas reflexões e que bem claramente nos ensina como se mutila a história de Portugal, se teimarmos em a considerar como separada da história restante da Península!
[1] Setembro de 1891, volume IV, pp. 81 a 104.
[2] Informa-me o meu amigo e ilustre poeta Marquês de Lozoya, a cuja casa pertence a admirável obra de Manuel Pereira – Pereyra, à castelhana – que o crítico de arte D. Juan Allende-Salazar prepara um largo e documentado estudo sobre tão grande artista. Dou esta boa notícia aos que em Portugal se interessam pelas coisas serenas da Inteligência e da Emoção. Manuel Pereira gozava do maior favor na côrte de Filipe IV e foi autor também de outros Cristos, como o Cristo del Olivar (igreja de Madrid), e do Cristo ajoelhado, dos Padres Dominicos da referida côrte.
[3] «Nebrija, auxiliado por Aires Barbosa, deu aos estudos humanistas o fervor e a organização definitiva que haviam de conservar no glorioso século XVI.» Menéndez Pelayo, citado por Teófilo Braga na sua História da literatura Portuguesa, II, Renascença, Porto, 1914.
[4] «Antonio de Nebrija era el príncipe de los latinistas españoles, como el português Arias Barbosa el patriarca de los helenisas, surgiendo em torno de estas figuras principales una verdadera legión de gramáticos entendidos en todas las linguas antiguas, y constructores de aquel magnifico monumento, ideado por Cisneros, que se llamó la Poliglota Complutense.» Ángel Salcedo Ruiz, La literatura española, tomo II, Madrid, 1920, pp. 24-25.
[5] Ramón Menéndez Pidal, Estudios literarios, Madrid, 1920, pp. 60ss.
[6] A. Guichon de Grandpont, comissário geral de Marinha, Freitas contra Grotius sur la question de la Liberté des Mers, Paris-Lille, 1882.
[7] Estudos de cartografia antiga (Autógrafos e notas dispersas), Lisboa, 1920, vol. II, pp. 224-225.
[8] Calderón de la Barca, Teatro, vol. I, Madrid, Calleja, 1920, p. 247.
[9] Ver, além dos estudos de Menéndez Pelayo sobre Lope de Vega, a conferência de Manuel de Sousa Pinto, Portugal e as portuguesas em Tirso de Molina.
[10] Orígenes de la novela, tomo I, pp. CLXXI.
[11] Menéndez Pelayo, ob. cit., tom. I, pp. CDXXXII-CDXXXIII.
[12] Ob. cit., p. CCXV.
[13] Ob. cit., p. CCXV.
[14] Obr. cit., pp. CCXXVI.
[15] Obr. cit., p. CCXXI.
[16] Vid. Estudos e notas elvenses, VII (Vasco de Lobeira), Elvas, 1905.
[17] Menéndez Pelayo, obr. cit., tom. I, p. CDXXXV.
[18] Les origines romantiques de la morale et de la politique. Romantiques, Paris, Renaissance du Livre, 1920.
[19] Citação de Teófilo Braga na sua História da literatura portuguesa, II. Renascença, em nota a p. 32. Não devemos também olvidar que Cervantes nos prestou a homenagem do seu espírito. Em Portugal compôs a Galatea, primeiro livro que publicou. É a Galatea uma novela pastoril, calcada na Diana de Jorge de Montemor e com muito de autobiográfica. Nela se nos mostra Cervantes completamente seduzido pela graça e pela ternura da alma portuguesa. Também em Los trabajos de Persiles y Segismunda, Cervantes se refere a Portugal com carinho.
[20] Louise Roblot-Delondre, Portraits d’Infantes, p. 74. Ver sobre este curioso problema de história de arte o que escrevem Sánchez-Cantón e Allende-Salazar a pp. 34-46 do estudo Retratos del Museu del Prado, Madrid, 1919.
[21] Obr. cit., pp. 48-49.
[22] Obr. cit., pp. 50-51.
[23] Obr. cit., p. 39.
[24] Obr. e pp. cit.
[25] Obr. cit., pp. 42-43.
[26] Obr. cit., p. 44.
[27] Obr. cit., p. 70.
[28] Obr. cit., 71-72.
PRÓXIMO CAPÍTULO - GENEALOGIA DE UMA IDEIA