ESTUDOS PORTUGUESES
  • PORTugAL
    • 1129 - Palavra-Sinal "Portugal"
    • Pola : lei : e : pola : grei
    • Cruz da Ordem de Cristo
  • Democracia
    • Oligarquia e Corrupção
    • Outra Democracia
    • Município
  • Integralismo Lusitano
    • Os Mestres >
      • Santo Isidoro de Sevilha, c. 560-636
      • São Tomás de Aquino, 1224-1274
      • Francisco Suárez, 1548-1617
      • João Pinto Ribeiro, 1590-1649
      • Francisco Velasco de Gouveia, 1580-1659
      • Visconde de Santarém, 1791-1856
      • Almeida Garrett, 1799-1854
      • Alexandre Herculano, 1810-1877
      • Martins Sarmento, 1833-1899
      • Joaquim Nery Delgado, 1835-1908
      • Alberto Sampaio, 1841-1908
      • Eça de Queirós, 1845-1900
      • Joaquim Pedro de Oliveira Martins, 1845-1894
      • Ferreira Deusdado, 1858-1918
      • Ramalho Ortigão, 1836-1915 >
        • 1910 - Carta a Teófilo Braga, em 16 de Outubro
        • 1914 - Carta de um velho a um novo
      • Moniz Barreto, 1863-1896 >
        • 1892 - Oliveira Martins - Estudo de Psicologia, 2ª edição
      • Rocha Peixoto, 1866-1909
      • António Lino Neto, 1873-1934
    • Publicações aconselhadas, 1914-16
    • Integralismo Lusitano - Periódicos e Editoras
    • Afonso Lopes Vieira, 1878-1946 >
      • 1918 - O Encoberto (Poema)
      • 1922 - Em demanda do Graal
      • 1935 - Éclogas de agora
      • Quatro Cantares
    • Adriano Xavier Cordeiro , 1880-1919
    • Hipólito Raposo, 1885-1953
    • Luís de Almeida Braga, 1886-1970
    • António Sardinha, 1887-1925 >
      • SUPER FLUMINA BABYLONIS
      • No dia de Camões
      • 1916 - A Teoria da Nobreza
      • 1924 - A Teoria das Cortes Gerais >
        • 0. Preâmbulo
        • I. A origem e a natureza da realeza tradicional portuguesa
        • II. O caráter orgânico e democrático da monarquia medieval portuguesa
        • III. A formação das instituições representativas e o papel das Cortes
        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
        • VIII. O Absolutismo, o Pombalismo e a Reação Tradicionalista
        • IX. A Legitimidade Dinástica e Institucional na História Portuguesa
        • X. O Papel das Cortes na Monarquia Nova e a Representação dos Corpos Sociais
        • XI. Crise do Estado, Crítica ao Individualismo e Perspectivas de Renovação
      • 1924 - A Aliança Peninsular - Antecedentes e Possibilidades >
        • Assentando posições (conversa preliminar)
        • A unidade hispânica
        • O selo da raça
        • Genealogia de uma Ideia
        • A Pátria Portuguesa
        • Sebastianismo e Quixotismo
        • O lenço de Verónica [in "A Aliança Peninsular"]
        • Pecados velhos [in "A Aliança Peninsular"]
        • Quinas de Portugal [in "A Aliança Peninsular"]
        • Errata necessária [in "A Aliança Peninsular"]
        • A "lenda negra" [In "A Aliança Peninsular"]
        • Cabeça de Europa [in "A Aliança Peninsular"]
        • Estaremos decadentes? [in "A Aliança Peninsular"]
        • Se ainda é tempo! [in "Aliança Peninsular"]
        • "Mare nostrum"
      • Poesia
      • JUXTA CRUCEM
      • A Festa do Trabalho
      • A Rainha Santa
      • O Direito de Revolta
      • Pátria e Monarquia
      • O Sul contra o Norte
      • As quatro onças de oiro
      • Aljubarrota
      • Nun' Álvares
      • Santo António
      • Alcácer-Quibir
      • D. João IV
      • Os Jesuítas e as Letras
      • A "Lenda Negra" [ acerca dos Jesuítas ]
      • Ciência e Democracia
      • A tomada da Bastilha
      • A Monarquia de Julho
      • A retirada para o Brasil
      • Natal
      • O génio peninsular
      • O 'oitavo sacramento'
      • El-Rei D. Miguel
      • A 'Vila-Francada' [ 1823 ]
      • Évora-Monte [ 1834 ]
      • Um romântico esquecido [António Ribeiro Saraiva]
      • 24 de Julho
      • Com João Coutinho
      • 31 de Janeiro
      • Conde de Monsaraz
      • D. João V
      • O espírito universitário [ espírito jurídico ]
      • O problema da vinculação
      • Mouzinho da Silveira
      • A energia nacional
      • A voz dos bispos
      • O 'filósofo' Leonardo
      • Consanguinidade e degenerescência
      • Sobre uma campa
      • O velho Teófilo
    • Alberto Monsaraz, 1889-1959
    • Domingos de Gusmão Araújo, 1889-1959
    • Francisco Rolão Preto, 1893-1977
    • José Pequito Rebelo, 1893-1983
    • Joaquim Mendes Guerra, 1893-1953
    • Fernando Amado, 1899-1968
    • Carlos Proença de Figueiredo, 1901-1990
    • Luís Pastor de Macedo, 1901-1971
    • Leão Ramos Ascensão, 1903-1980
    • António Jacinto Ferreira, 1906-1995
    • José de Campos e Sousa, 1907-1980
    • Guilherme de Faria, 1907-1929
    • Manuel de Bettencourt e Galvão, 1908
    • Mário Saraiva, 1910-1998
    • Afonso Botelho, 1919-1996
    • Henrique Barrilaro Ruas, 1921-2003
    • Gonçalo Ribeiro Telles, 1922-2020
    • Rivera Martins de Carvalho, 1926-1964
    • Teresa Martins de Carvalho, 1928-2017
  • Quem somos
  • Actualizações
  • PORTugAL
    • 1129 - Palavra-Sinal "Portugal"
    • Pola : lei : e : pola : grei
    • Cruz da Ordem de Cristo
  • Democracia
    • Oligarquia e Corrupção
    • Outra Democracia
    • Município
  • Integralismo Lusitano
    • Os Mestres >
      • Santo Isidoro de Sevilha, c. 560-636
      • São Tomás de Aquino, 1224-1274
      • Francisco Suárez, 1548-1617
      • João Pinto Ribeiro, 1590-1649
      • Francisco Velasco de Gouveia, 1580-1659
      • Visconde de Santarém, 1791-1856
      • Almeida Garrett, 1799-1854
      • Alexandre Herculano, 1810-1877
      • Martins Sarmento, 1833-1899
      • Joaquim Nery Delgado, 1835-1908
      • Alberto Sampaio, 1841-1908
      • Eça de Queirós, 1845-1900
      • Joaquim Pedro de Oliveira Martins, 1845-1894
      • Ferreira Deusdado, 1858-1918
      • Ramalho Ortigão, 1836-1915 >
        • 1910 - Carta a Teófilo Braga, em 16 de Outubro
        • 1914 - Carta de um velho a um novo
      • Moniz Barreto, 1863-1896 >
        • 1892 - Oliveira Martins - Estudo de Psicologia, 2ª edição
      • Rocha Peixoto, 1866-1909
      • António Lino Neto, 1873-1934
    • Publicações aconselhadas, 1914-16
    • Integralismo Lusitano - Periódicos e Editoras
    • Afonso Lopes Vieira, 1878-1946 >
      • 1918 - O Encoberto (Poema)
      • 1922 - Em demanda do Graal
      • 1935 - Éclogas de agora
      • Quatro Cantares
    • Adriano Xavier Cordeiro , 1880-1919
    • Hipólito Raposo, 1885-1953
    • Luís de Almeida Braga, 1886-1970
    • António Sardinha, 1887-1925 >
      • SUPER FLUMINA BABYLONIS
      • No dia de Camões
      • 1916 - A Teoria da Nobreza
      • 1924 - A Teoria das Cortes Gerais >
        • 0. Preâmbulo
        • I. A origem e a natureza da realeza tradicional portuguesa
        • II. O caráter orgânico e democrático da monarquia medieval portuguesa
        • III. A formação das instituições representativas e o papel das Cortes
        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
        • VIII. O Absolutismo, o Pombalismo e a Reação Tradicionalista
        • IX. A Legitimidade Dinástica e Institucional na História Portuguesa
        • X. O Papel das Cortes na Monarquia Nova e a Representação dos Corpos Sociais
        • XI. Crise do Estado, Crítica ao Individualismo e Perspectivas de Renovação
      • 1924 - A Aliança Peninsular - Antecedentes e Possibilidades >
        • Assentando posições (conversa preliminar)
        • A unidade hispânica
        • O selo da raça
        • Genealogia de uma Ideia
        • A Pátria Portuguesa
        • Sebastianismo e Quixotismo
        • O lenço de Verónica [in "A Aliança Peninsular"]
        • Pecados velhos [in "A Aliança Peninsular"]
        • Quinas de Portugal [in "A Aliança Peninsular"]
        • Errata necessária [in "A Aliança Peninsular"]
        • A "lenda negra" [In "A Aliança Peninsular"]
        • Cabeça de Europa [in "A Aliança Peninsular"]
        • Estaremos decadentes? [in "A Aliança Peninsular"]
        • Se ainda é tempo! [in "Aliança Peninsular"]
        • "Mare nostrum"
      • Poesia
      • JUXTA CRUCEM
      • A Festa do Trabalho
      • A Rainha Santa
      • O Direito de Revolta
      • Pátria e Monarquia
      • O Sul contra o Norte
      • As quatro onças de oiro
      • Aljubarrota
      • Nun' Álvares
      • Santo António
      • Alcácer-Quibir
      • D. João IV
      • Os Jesuítas e as Letras
      • A "Lenda Negra" [ acerca dos Jesuítas ]
      • Ciência e Democracia
      • A tomada da Bastilha
      • A Monarquia de Julho
      • A retirada para o Brasil
      • Natal
      • O génio peninsular
      • O 'oitavo sacramento'
      • El-Rei D. Miguel
      • A 'Vila-Francada' [ 1823 ]
      • Évora-Monte [ 1834 ]
      • Um romântico esquecido [António Ribeiro Saraiva]
      • 24 de Julho
      • Com João Coutinho
      • 31 de Janeiro
      • Conde de Monsaraz
      • D. João V
      • O espírito universitário [ espírito jurídico ]
      • O problema da vinculação
      • Mouzinho da Silveira
      • A energia nacional
      • A voz dos bispos
      • O 'filósofo' Leonardo
      • Consanguinidade e degenerescência
      • Sobre uma campa
      • O velho Teófilo
    • Alberto Monsaraz, 1889-1959
    • Domingos de Gusmão Araújo, 1889-1959
    • Francisco Rolão Preto, 1893-1977
    • José Pequito Rebelo, 1893-1983
    • Joaquim Mendes Guerra, 1893-1953
    • Fernando Amado, 1899-1968
    • Carlos Proença de Figueiredo, 1901-1990
    • Luís Pastor de Macedo, 1901-1971
    • Leão Ramos Ascensão, 1903-1980
    • António Jacinto Ferreira, 1906-1995
    • José de Campos e Sousa, 1907-1980
    • Guilherme de Faria, 1907-1929
    • Manuel de Bettencourt e Galvão, 1908
    • Mário Saraiva, 1910-1998
    • Afonso Botelho, 1919-1996
    • Henrique Barrilaro Ruas, 1921-2003
    • Gonçalo Ribeiro Telles, 1922-2020
    • Rivera Martins de Carvalho, 1926-1964
    • Teresa Martins de Carvalho, 1928-2017
  • Quem somos
  • Actualizações
Search by typing & pressing enter

YOUR CART

A Pátria Portuguesa

António Sardinha

RESUMO
António Sardinha analisa a influência da estrutura rural e do espírito comunitário dos povos do noroeste da Península Ibérica na formação do lirismo galego-português, destacando o papel das freguesias e mancomunidades agrícolas na organização social e na diferenciação cultural dos portugueses.  A persistência de costumes antigos e a resistência local face às invasões são fatores que sustentam a individualidade histórica e justificam a separação política entre Portugal e Espanha, para além de ambições ou acasos históricos.
A Pátria Portuguesa: Fundamentos Geográficos e Culturais da Individualidade Nacional
  • Introdução. António Sardinha apresenta uma análise da formação e da individualidade da pátria portuguesa, explorando tanto os fatores geográficos quanto os culturais que sustentam a separação política entre Portugal e Espanha. A seguir, desenvolvem-se as anotações destacadas no texto, articulando-as em uma exposição estruturada dos principais argumentos e evidências.
  • O Território Lusitano como Reduto Peninsular. Autores espanhóis, especialmente geógrafos e militares, reconhecem Portugal como um "reduto" ou "cidadela" da Península Ibérica, devido ao seu território áspero e de difícil acesso. Esta configuração natural oferece condições defensivas que foram decisivas para a formação do reino português e para a sua capacidade de resistir a invasões estrangeiras. O Compendio de Geografía Universal, aprovado oficialmente em Espanha, destaca que, apesar de parecer inexplicável à primeira vista a separação política entre Espanha e Portugal, um exame mais atento revela que essa divisão resulta de fatores geográficos e históricos profundos, e não apenas de caprichos dinásticos ou populares.
  • Individualidade Geográfica e Origem do Reino de Portugal. Durante a Reconquista, a individualidade do território português foi marcada por dois elementos principais: a llanura litoral ao sul do Minho, que facilitou comunicações internas, e o maciço de Trás-os-Montes, que serviu como barreira natural contra investidas castelhanas. Essa configuração permitiu o desenvolvimento de um reino autónomo, com uma reconquista independente da de Castela. As dificuldades de comunicação entre os dois reinos ibéricos, acentuadas pelo terreno acidentado e pelos profundos vales dos rios, consolidaram a separação política e cultural entre Portugal e Espanha, perpetuada ao longo dos séculos, mesmo diante de tentativas de anexação.
  • A Fronteira Natural e o Clima. A cordilheira hercínica traçou, desde tempos geológicos, os limites de Portugal. Essa linha demarca também a influência climática do Atlântico, com grandes chuvas que caracterizam a vertente ocidental da Península, onde a nacionalidade portuguesa se desenvolveu e consolidou.
  • Diversidade Étnica e Persistência de Costumes. O texto destaca a existência, no Ocidente da Península, de uma família cultural distinta da que habitava o Centro e o Levante. Apiano Alexandrino já apontava as diferenças entre Lusitanos e Celtiberos, cuja união nunca se concretizou, mesmo diante de ameaças externas. Essa diversidade manifesta-se na persistência de costumes e instituições rurais, que sobreviveram às inúmeras invasões históricas. A resistência local e o apego à terra foram decisivos para a manutenção da identidade portuguesa, refletindo-se tanto na estrutura social quanto na produção literária, especialmente no lirismo dos Cancioneiros galaico-portugueses.
  • Estrutura Rural e Organização Comunitária. Alberto Sampaio, na sua obra sobre as vilas do norte de Portugal, evidencia a ascendência das antigas comunidades agrícolas na formação das freguesias rurais, que mais tarde originaram os concelhos. Diferente do modelo castelhano, que se desenvolve sob a proteção dos castelos, o município português tem raízes em formas sociais agrárias, anteriores ao feudalismo. A organização comunitária, baseada nas mancomunidades agrícolas, foi fundamental para a coesão social e para a resistência às invasões, garantindo a continuidade dos costumes e da vida rural.
  • O Lirismo como Expressão da Identidade Portuguesa. O lirismo, característico da poesia galego-portuguesa, é visto como reflexo da vida de pequenos agricultores, dispersos em casarios e com centros de reunião em santuários e romarias. Esse sentimento lírico, fortemente vinculado ao amor pela terra e à vida comunitária, distingue o povo português dos demais habitantes da Península. Menéndez Pelayo identifica nesse lirismo uma idiossincrasia própria, que se manifesta em instituições e aspirações distintas das encontradas no restante da Espanha, e que está relacionada ao fundo étnico-cultural do noroeste peninsular.
  • A Resistência às Invasões e a Autonomia Local. António Sardinha relembra episódios de resistência local às invasões muçulmanas, destacando cidades como Coimbra e Santarém, que mantiveram autonomia e evitaram a repartição de terras. Essa resistência é atribuída à estrutura social local, que permaneceu intacta mesmo durante a dominação estrangeira, e que foi determinante para o movimento de reconquista. Gómez Moreno observa que a arte visigótica persiste nas citânias romano-célticas da região portuguesa, simbolizando a continuidade da atividade indígena e da identidade local.
  • Homogeneidade Histórica e Particularismo Português. A homogeneidade histórica da sociedade do noroeste peninsular, formada em condições semelhantes durante a alta Idade Média e pouco influenciada pela dominação sarracena, garantiu a preservação de costumes e instituições ancestrais. Essa continuidade histórica explica a individualidade portuguesa, que, embora próxima das populações hispânicas, nunca se confundiu totalmente com elas.
  • Conclusão. António Sardinha conclui que os elementos apresentados demonstram que a separação política entre Portugal e Espanha tem raízes profundas, alicerçadas em fatores geográficos, étnicos e culturais. A estrutura rural, o lirismo, a resistência local e a persistência de costumes antigos são fundamentais para compreender a individualidade histórica da pátria portuguesa, que não se explica apenas por ambições dinásticas ou acasos, mas por uma trajetória própria e diferenciada dentro da Península Ibérica.






​A Pátria Portuguesa


Os geógrafos espanhóis são os primeiros a declará-lo, sobretudo, os geógrafos militares. Na sua obra El terreno, los hombres y las armas en la guerra, o general Quijano y Arroquia classifica de ‘reduto’ ou ‘cidadela’ da Península a extenza zona natural constituida por «el áspero y poco menos que agreste territorio lusitano»,[1] sublinhando-lhe assim significativamente a alta importância militar. Igual critério vimos reaparecer sobre o poder defensivo de Portugal em outros trabalhos da especialidade, tais como a Geografía histórico-militar de España y Portugal, do general Gómez de Arteche,[2] e a Guerra de la anexión en Portugal durante el reinado de Don Felipe II,[3] do também general D. Julián Suárez Inclán. Mas muito mais expressiva do que esses testemunhos de valor insuspeito é a tese sustentada no Compendio de geografía universal, dos irmãos Izquierdo y Croselles, oficiais de artilharia ambos. Ouçamos o que se diz no referido Compendio[4] aprovado por Real-Orden de 30 de Junho de 1916, como texto oficial para o exame de admissão às Academias militares.

Depois de considerarem Portugal como um prolongamento das diversas regiões que o geógrafo e o viajante encontram em Espanha, eis o que os irmãos Izquierdo y Croselles escrevem com uma imparcialidade notabilíssima:

«A primera vista resulta, pues, inexplicable la separación política de España y Portugal. Solamente un examen más detenido nos convence de que hechos de tal importancia no se producen al azar ni son dependientes de la voluntad o caprichos de un rey ni de un pueblo.
» Durante la Reconquista – prosseguem os senhores Izquierdo y Croselles – ningún trabajo cuesta comprender la nacionalidad portuguesa, ya que entonces la península estaba dividida en pequeños reinos. La individualidad geográfica del reino portugués estaba bien determinada por dos hechos:
» 1.º Por empezar al Sur del Miño, allí donde la llanura litoral se desarolla sin obstáculos y donde no existen ríos ni promontorios que dificulten las comunicaciones entre los diferentes puntos de la costa, como ocurre en Galicia; y
» 2.º Porque el gran macizo de Trás-os-Montes, intrincado y difícil de atravesar, cubrió como un escudo las ricas tierras del bajo Duero y del condado de Portugal de las acometidas castellanas.
» Al amparo de estas favorables condiciones geográficas, pudo formarse el naciente reino e ir ganando terreno a los moros en su reconquista, independiente de la castellana. Conforme se va hacia el Sur, las montañas disminuyem, pero las comunicaciones entre los dos reinos síguen estando dificultadas por lo árido y quebrado del terreno y por los profundos ‘cañones’ de los afluyentes del Tajo y Guadiana que van, generalmente, paralelos a la frontera.
» Cuando la unión de los reinos de Castilla y Aragón y la conquista de Granada hubo dado a España su unidad política, la vida activa del mundo de la Edad Media se concentraba en el Mediterráneo, y, seguramente, si Portugal hubiese estado en el lado opuesto de la península, en el sitio que ocupan las regiones de Levante, su independencia hubiese desaparecido por constituir un obstáculo para las libres comunicaciones de Castilla con el Mediterráneo.
» Pero vuelto hacia el Atlántico, en nada estorbaba las actividades castellanas, dirigidas entonces hacia el Sur, hacia Italia o hacia Flandes.
» Cuando se produjo el descubrimiento de América, Portugal volvió definitivamente su atención hacia el Atlántico. Los navegantes lusitanos desarrollaran una enorme suma de energía y en intrépidas aventuras (Bartolomé Díaz, Vasco de Gama, Albuquerque) dieron a Portugal un imperio maravilloso, aunque de vida efímera. La rivalidad de los marinos y descubridores de las dos naciones ibéricas, la semejanza de productos de unas y otras tierras, la dificultad de comunicaciones entre ambos reinos y la despoblación y la ruina de las Extremaduras, selló entonces para muchos siglos la separación política de España y Portugal, que la breve y desdichada anexión de Felipe II no hizo sino grabar de un modo definitivo.»


E em nota o Compendio de Geografía Universal acrescenta elucidativamente: «Si se observa el mapa de densidad de población, se nota que a las regiones muy pobladas del litoral siguen las despobladas de Beira, Alentejo y Extremadura, pudiendo compararse en este punto la situación de España y Portugal con la de Suecia y Noruega, cuya frontera está constituida por zonas despobladas.»

Nem sempre transpõem a fronteira para Portugal palavras tão desassombradas como as que gostosamente acabamos de transcrever. Nota-se dentro delas uma perfeita teoria física da nacionalidade portuguesa e, destinadas como são a conformar a inteligência dos modernos oficiais do exército espanhol, constituem a mais eloquente prova de que a Espanha não nutre intenções reservadas acerca dos destinos de Portugal. De resto, a opinião dos senhores Izquierdo y Crozelles é uma opinião corrente em Espanha em mais de uma publicação oficial. «Los recodos del Duero, los desfiladeros que tiene que pasar el Tajo al entrar en Portugal y la curva del Guadiana – depõe agora o engenheiro D. Antonio García del Real – son debidos a la existencia de macizos inclinados de NE. à SO. que constituyen la frontera natural del vacino reino. Tales obstáculos cerrarom por el O. toda la parte central de la Península entre la cordillera Cantábrica y la Bética y, conteniendo las aguas, dieron lugar en la época terciaria a la formación de los lagos de ambas Castillas... Las asperezas que constituyeron las orillas occidentales de aquellos lagos, y que hoy impiden que los ríos Duero y Tajo sean navegables fuera de Portugal, son las defensas naturales de una fuerte frontera, que sólo desaparece entre el Alentejo y la Extremadura española por Badajoz y cuyo carácter explica la desmembración del suelo de la Península.»[5]

Vê-se como a acidentada linha da cordilheira hercínica traçou do fundo das noites geológicas os futuros limites geográficos de Portugal.[6] Corresponde a esses limites a divisória extrema onde se detém a influência climatérica do Atlântico na Península, nitidamente marcada pelas grandes chuvas que, segundo Elisée Reclus, os ventos do oeste espalham por sobre a vertente ocidental, ao longo da qual a nacionalidade portuguesa se enquadra. Pois neste meio natural, tão fortemente individualizado, uma raça se desenvolveu e habitou, dispondo de características próprias. Já Menéndez Pelayo se debatia na necessidade de recorrer a uma «oculta afinidad de orígenes étnicos» para explicar o motivo porque a ‘matéria de Bretanha’ encontraria uma ‘segunda pátria’ no noroeste peninsular, de modo a desprertar «el germen de la inspiración indígena que sobre aquel tronco, que parecía ya carcomido y seco, hizo brotar la prolífica vegetación del Amadis de Gaula, primer tipo de la novela idealista española».[7] E Menéndez Pelayo justifica-se: «Si no se admite la persistencia de este primitivo fondo, no sólo quedan sin explicación notables costumbres, creencias y supersticiones vivas aún, y casos de atavismo tan singulares como el renacimiento del mesianismo de Artús en el rey Don Sebastián, sino que resulta enigmático el proceso de la literatura caballeresca, que tan profundamente arraigó allí, que conquistó sin esfuerzo las imaginaciones como si estuviesen preparadas para recibirla y que fue imitada con tanta originalidad a la vuelta de algunas generaciones.»

Confirmando a intuição de Menéndez Pelayo, temos que reconhecer, realmente, a existência no Ocidente da Península de uma família étnica, um pouco, senão bastante, diversificada da que residia no Centro e no Levante. Não nos demoraremos a deslindar complicados novelos genealógicos. Basta consignar que já Apiano Alexandrino, historiador das Guerras Ibéricas, se faz eco das divergências existentes entre Lusitanos e Celtiberos que, estando todos em luta contra Roma, não foi nunca possível obter a sua união.[8] Dispondo de uma alta erudição clássica, dificilmente haverá quem se socorra com tanta segurança das fontes histórico-geográficas do conhecimento da Península na Antiguidade como o ilustre professor da universidade de Erlangen, dr. Adolfo Schulten, sabio explorador das ruinas de Numância. Pois no seu recente estudo sobre Viriato, o dr. Adolfo Schulten aí alude, como factor de significação na vida social e militar da Península, ao que ele chama a ‘obstinação ibérica’.[9] A ‘obstinação ibérica’, traduzindo de Lusitanos para Celtiberos, apesar do seu próximo parentesco, uma diferença que os séculos perpetuaram, decerto se radicava em causas mais fundas de que uma simples rivalidade de vizinhança, então bem fácil de explicar pelo apertado cantonalismo em que se confinavam, em relação umas às outras, as diversas tribos peninsulares.

Na verdade, se considerarmos que a Península foi passeada por inumeráveis invasões, para o Occidente – extremo inóspito e desamparado – seriam empurradas aquelas gentes mais antigas, quase autóctones, que não puderam resistir à conquista e não quiseram fundir-se com os novos senhores. Ou sejam Ligures, Celtas ou Iberos – para o caso a designação pouco importa[10] –, eis o tronco de onde os Lusitanos derivaram. Representando assim na Península, com um substracto menos assimilável, uma etnia mais agarrada à terra, compreende-se desde já a arreigada índole agrária dessa grei, que, vivendo agremiada em estreitas mancomunidades agrícolas, bem cedo assentou os alicerces do futuro Portugal.

À íntima estrutura rural do habitante da vertente ocidental da Península concederia, pois, Menéndez Pelayo um papel decisivo na génese do lirismo admirável dos Cancioneiros galaico-lusitanos. Relacionando as primitivas líricas peninsulares com um discreto e familiar sentido bucólico que no Centro da Península não se conhecia, Menéndez Pelayo notava com rara acuidade crítica que «el ideal que reflejan es el que corresponde a un pueblo de pequeños agricultores, dispersos en caseríos y que tienen por principal centro de reunión santuarios y romerías».[11] Aqui nos encontramos novamente com o Lirismo – diferencial eterna do Lusitano dentro da universalidade peninsular. Porque reflecte, segundo Menéndez Pelayo, o ideal de um pequeno povo de lavradores, ainda, conforme Menéndez Pelayo, nas condições de vida desse pequeno povo se nos descobre bem transparente o fundo étnico para que o eminente crítico apelava, buscando explicação ao terreno fácil que a ‘matéria de Bretanha’ acharia, para se aclimatar, no noroeste da Península, que foi, afinal, a célula de onde irradiou a força constituidora da nacionalidade portuguesa.

Na sua monumental monografia As vilas do Norte de Portugal,[12] Alberto Sampaio determina superiormente a persistência da antiga e primitiva raça dos nossos castros e citânias através da persistência do seu profundo agrarismo. Assim o Município – pondo de parte a sua pretensa importação romana, nasce no território que viria a ser Portugal dessa espécie de ‘comuna sem carta’ – na frase feliz de Alberto Sampaio –, que era a freguesia rural. Ora a freguesia rural não era mais que o reconhecimento, para os efeitos religiosos, do tipo fundamental das nossas mancomunidades agrícolas que, já em grau maior de desenvolvimento, deram ao depois o Concelho. A origem do Município, ou Concelho, na faxa geográfica que hoje corresponde a Portugal, é, pois, bem distinta da génese do ayuntamiento castelhano. O ayuntamiento surge sempre à sombra do castelo, com o avanço lento da Reconquista pela extensão desoladora dos páramos do centro da Península. Compreende-se de este modo que a poesia popular seja aí a poesia heróica – seja aí a Gesta. Aferrado à terra, defendendo-se pelo seu enraízamento do tropel das invasões que iam e vinham, a raça do ocidente peninsular, quando a Reconquista chegou, achava-se já secularmente presa ao chão natal, por mercê de uma especial tendência agrária que cedo se expressou em instituições inolvidáveis, dando lugar a formas sociais, anteriores em tudo às que o renascimento neogótico acabou por impor mais ou menos ao resto da Península.

Do ruralismo congénito do Lusitano derivaria, por isso, o sentimento lírico que enobrece a mais remota poesia peninsular e que, manifestando por sua vez uma idiossincrasia inconfundível, em que prevalecia com o amor da Mulher o amor da Natureza, nos obriga a concluir com Menéndez Pelayo que, realmente, habitaria por aqui uma grei, portadora de costumes e aspirações que não se irmanavam com as dos outros habitantes da Península. O tema é largo e apaixonaria até a pena mais rebelde a assuntos da índole do presente.

Lembrando, simplesmente, que o problema do lirismo galaico-lusitano não é alheio, pela sua concepção comunitária da vida, ao regime conjugal que em Espanha o fuero del Baylío e em Portugal o chamado ‘costume do Reino’ consagraram desde tempos imemoriais, assinalarei ainda em favor da opinião que expondo a circunstância da ‘freguesia’, tanto em Portugal como na Galiza, ser o primeiro grau da hierarquia administrativa, ao passo que na quase totalidade da Espanha achamos logo o ayuntamiento como base da administração local.

Porque dimana de um entranhado sentido das coisas da terra, apesar do seu tom elegíaco e scismador, não exclui o Lirismo a virilidade e a decisão que tornam possíveis os grandes actos, tanto na existência dos povos, como na dos indivíduos. Se, pelo exposto, o Lirismo é característica indelével do velho tronco lusitano, não nos esqueçamos também de que ele define espiritualmente a autoctonia de uma raça, que, se não gerou a Gesta, gerou Artur e D. Sebastião. Já Suetónio, a propósito de Galba, nos fala daquela sibila de Clúnia – fatidica puella – que prometia à sua tribo oprimida um salvador no futuro.[13] Eis mais uma prova de como a crença num herói redentor é o índice do fundo étnico – céltico ou lígure, não importa! – para que Menéndez Pelayo recorria. Confirma-me simultaneamente na afirmação já feita de que o Lusitano provinha de uma humanidade mais antiga na ocupação da Península. Atirado para o Ocidente, talvez que o Lusitano se prenda àquela primeira unidade populacional que, um pouco em toda a parte, aqui e além, os eruditos surpreendem na Península debaixo dos sedimentos deixados pela sobreposição das invasões, passando e repassando. Assim no-lo sugere, pelo menos, a profecia da fatidica puella a que se refere Suétonio e que é mais um subsídio a registar por quem haja de descobrir com um golpe feliz de génio a verdadeira chave de tanto enigma entrelaçado.

Não possuiu, pois, o descendente do Lusitano o espírito da Gesta pela mesma razão porque não necessitou do feudalismo para organizar-se. Achava-se organizado por virtude do seu forte instinto localista e graças à malha espessa das suas confrarias agrícolas. O elemento épico existia para ele no elemento mítico, que, despido do relativismo histórico em que a Gesta cresceu e se divulgou, remonta seguramente à idade sumida em que o progenitor do Lusitano – ou Celta, ou Ibero, ou Lígure – diante da aparição de um concorrente mais poderoso, se teve de confiar contra as ribeiras melancólicas do Oceano. A sua mudez dentro da poesia heróica da Reconquista não representa, portanto, nem uma consciência menos nítida do drama que se travava na Península, nem tão-pouco uma falta de qualidades guerreiras, que, pelo contrário, sempre manifestou, a despeito dos que vêem no Lirismo unicamente um testemunho de sensibilidade enervante e decaída.
É até curioso recordar que precisamente as populações da vertente ocidental da Península foram das menos submissas durante o domínio mussulmano. Assim no-lo diz o malogrado arabista espanhol D. Francisco Javier Simonet. Referindo-se ao reinado de Abderrahman I, escreve ele na sua bela Historia de los mozárabes de España: «En una de sus expediciones, se movió de Sevilla con su hueste para sosegar a los españoles de la parte occidental, que al parecer eran los más inquietos, y avassalló a los de Beja, Évora, Santarém, Lisboa y todo el Algarbe».[14] Socorre-se, principalmente, Simonet da chamada Crónica del Moro Rasis, cujo original se perdeu, mas de que há uma tradução a que anda ligado o nome del-rei D. Dinis. E logo acrescenta em nota: «Acaso esta expedición fue la que Abderrahman I llevó a cabo por los años de 763 a 764 contra cierto caudillo llamado Alalá ben Moguit, que sublevado en Beja con el apoyo de varias milicias árabes y de los siervos indígenas, puso a punto de ruina el nuevo Imperio.»

Como se vê, são já os primórdios de uma nacionalidade que se agitam. E repare-se que o fundamento de tais sublevações é exclusivamente local. Exclusivamente local se nos apresenta também, no ocidente da Península, a resistência oposta ao primeiro avanço das armas sarracenas. Enquanto a maioria das cidades se rende sem condições ao novo dominador, Coimbra e Santarém mantêm-se com governo autónomo e livram-se da repartição das suas terras entre as hostes vitoriosas.[15] Assim, para Gómez Moreno, na sua recente monografia Iglesias mozárabes,[16] Coimbra seria talvez, desta forma, «el foco más potente de mozarabismo en el país occidental». E um detalhe curiosíssimo nos comunica ainda Gómez Moreno, e é ele que os motivos ornamentais da nossa restrita arte visigótica (igreja de Balsemão) «en las Citanias romano-célticas de la región mismo portuguesa, representando así el arte indígena en persistente actividad».[17]
​
O que se infere de aqui, sobretudo, é a profunda exactidão de Alberto Sampaio ao escrever no seu já mencionado estudo, As vilas do norte de Portugal,[18] que «em toda esta região peninsular a sociedade da alta Idade Média formou-se em condições e tempo idênticos, quase ou sem o domínio sarraceno exercer influência directa sobre os seus homens; de estes, que continuaram entre si após curto intervalo em relações seguidas, quando no centro e sul imperavam os estrangeiros, partiu o movimento de reconquista, que devolveu a soberania aos naturais, passados muitos séculos de combates. Não tendo havido absorção de sangue e civilização dos invasores, conservavam-se portanto aí vivas as condições e costumes da sociedade anterior e o génio das populações antigas. É isto o que constitui a sua homogeneidade histórica».

Ainda que breves, são bastantes por si os elementos que produzimos para se verificar que à individualidade geográfica da pátria portuguesa, conforme ficou definida por autorizados depoimentos da ciência oficial espanhola, correspondia em toda a sua amplitude um fundo étnico, tipificado por diferenciais que, se o aproximavam das mais populações hispânicas, lhe imprimiam, todavia, um particularismo muito seu, que o não deixava, por outro lado, confundir-se inteiramente com elas. De onde o resultar bem nitidamente que a separação política de Portugal e Espanha tira as suas raízes de circunstâncias mais fortes que a ambição dos nossos príncipes, como pretendia Alexandre Herculano – ou que o simples capricho do deus Acaso, como queria Oliveira Martins num negativismo para lamentar em tão alto e claro espírito!


​
[1] Obr. cit., Madrid, 1892, p. 26.

[2] Madrid, edición de 1880.

[3] Madrid, 1897-1898.

[4] Granada, sem data.

[5] Reseña geográfica y estadística de España, publicada por la Dirección General del Instituto Geográfico y Estadístico (Ministerio de Instrucción Pública y Bellas Artes), tomo I, Madrid, 1912.

[6] «En la independencia de Portugal hay un elemento físico que pone de relieve por admirable manera la dirección de nuestros ríos y los accidentes de la región frontera. Para explicar la separación de las dos naciones, no basta considerar la política de la casa de Áustria, mentar Aljubarrota ni volver la vista a Alfonso VI, el de Toledo, y a sus deudos y auxiliares extranjeros; aquella desgracia nacional tiene un origen más remoto, se funda en fenómenos realizados cuando España estaba unida a Irlanda y a África, y por hundimientos y fracturas sucesivos iba determinándose la osatura de la parte occidental de la Península, antes de que la gran quiebra ibérica y la elevación del fondo de los antiguos mares interiores, con el desagüe de estos, engendraran las corrientes actuales hacia la conclusión del periodo mioceno.» Rafael Torres Campos, Estudios geográficos, Madrid, 1895, p. 363.

[7] Orígenes de la novela, tomo I, pp. CLXXI. A título de subsídio, e em concordância com a observação de Menéndez Pelayo, recordarei que Avieno na Ora-Maritima nos diz que «al principio todo el O. de la península era ligur y relata que la Ophiusa, tierra del promontorio Sacro, y hasta el golfo de Vizcaya, en tiempos tuvieron los mismos habitantes que la Oestrimnis o Bretanha, que no eran otros que los ligures...» (D. Antonio Ballesteros y Beretta, Historia de España y su influencia en la historia universal, tomo I, Barcelona, 1919, p. 126.) No Boletín de la Sociedad Española de Excursiones, correspondente ao último trimestre de 1921, publicou o dr. Bosch Gimpera um notável estudo sobre «Los Celtas y la Civilización céltica en la Península ibérica», onde o autor, conforme a lição de Schulten, dá os Celtas no ocidente da Península anteriores aos Lusitanos, classificados como Iberos. No meu trabalho em preparação Teoria da Nacionalidade (refundição de O valor da Raça) espero ocupar-me deste problema.

[8] Dr. Adolfo Schulten, Hispania (Geografía, etnología, historia), tradução dos doutores Bosch Gimpera e Artigas Ferrando, Barcelona, 1920.

[9] Vid. Boletín de la Biblioteca Menéndez Pelayo, ano II, números 3 a 6.

[10] Em abono desta opinião, que um dia espero desenvolver detalhadamente, ponderarei o seguinte: «Tanto pelo que se refere às instituições como ao idioma, o povo português aparenta-se mais de perto com os restos que por ventura subsistam na Península de uma raça mais antiga do que essa que, parando pelas regiões peninsulares do Centro, veio a constituir a massa fundamental da nação espanhola. Assim, no Derecho consuetudinario y economía popular de España, tomo I, capítulo IX, que começa a p. 204, a propósito do direito familiar no Alto-Aragão, escreve D. Joaquín Costa: «existe con caracteres casi idénticos en los dos extremos Oeste y Noreste de la Península y en una como isla del Norte (regiones lusitánica, aragonesa y cantábrica) y es desconocido en el resto; fenómeno curioso entre los más curiosos que registra la historia de las regiones peninsulares». O pacto de hermandad é a comunhão de bens do nosso regime nucpial, que no uso corrente é diverso do regime nupcial espanhol, mesmo nas regiões em que vigora sobre essa matéria o velho direito foral – exceptuadas, claro, as ragiões aragonesa e cantábrica (Vicedo, na província de Santander), em que prevalece, com mais ou menos variações, o sistema da comunhão de bens entre os cônjuges. Também em certa zona fronteiriça da província de Badajoz, com o nome de ‘Fuero de Baylío’, é observado, mas aí na integridade, o regime matrimonial português.

Pois a coincidir com tais sobrevivências institucionais ouçamos agora D. Ramón Menéndez Pidal respondendo na Real Academia Española em 15 de Maio de 1910 ao discurso de recepção do eminente arabista D. Francisco Codera: «Ahora bien, la lengua castellana difiere de los demás idiomas romances sus hermanos en perder la j o g latina inicial delante del e o i inacentuada, por ejemplo, en los vocablos enero, hiniesta, hinojo, helar, enebro, mientras los otros idiomas de la Península conservan la consonante latina, de acuerdo con el francés, italiano y demás idiomas romances, y así el portugués dice janeiro giesta, el leonés y aragonés genero geniesta, y el catalán janer, ginesta. Por donde vemos que el romance hablado en Andalucía, antes de la reconquista de esta región, convenía en este rasgo con el portugués, leonés, aragonés y catalán, y nо con el castellano». E mais adiante o senhor Menendéz Pidal insiste na sua ideia: «En fin, esta opinión que acabamos de exponer trae como consecuencia una sumaria teoría del estado prehistórico de los idiomas romances en la Península. Estos hallábanse hasta el siglo XI distribuídos en forma muy diversa de la que después estuvieron. En el mapa lingüístico de España desde el siglo XIII acá los dos extremos dialectales, es decir, el portugués y leonés al Occidente, y el catalán y aragonés al Oriente, están absolutamente aislados por el castellano, que entre uno y otro se dilata en una zona central ensanchada notablemente de Norte a Sur. Muy al contrario nos hemos de representar el mapa antiguo: esos dos extremos, no sólo se acercaban más por el Norte, sino que se unían en el Centro y el Sur, mediante el habla de las regiones de Toledo y Andalucía análoga a la de los extremos. Es decir, lo mismo la corte que las últimas provincias del reino visigodo hablaban una lengua bastante uniforme en sus rasgos principales, hecho que nos explica las chocantes semejanzas que enfrente del castellano encontramos hoy entre el portugués y el leonés de un lado, comparados al catalán y aragonés de otro. Sólo allá, al Norte del reino visigótico, se alimentaba latente una radical disidencia lingüística, en un rincón de la Cantabria, en la tierra encastillada y fuerte, que luego vino a ser foco de una disidencia política, proclamada y afirmada por rebeldes famosos como el gran conde Fernán González. Pero más tarde, en los siglos XI y XII, la expansión militar y social de ese pequeño rincón de España, el empuje que Castilla supo dar a la reconquista y a la literatura, propagó el dialecto castellano, antes insignificante, dilatándose por el Sur, de donde desalojó al empobrecido idioma de los mozárabes, rompiendo así el lazo de unión que antes existía entre los dos extremos oriental y occidental. He aquí porque hoy aparecen totalmente aislados, a pesar de sus chocantes semejanzas, el portugués y leonés del catalán y aragonés, dialectos extremos que antes se daban la mano por el intermedio de una serie de dialectos afines que se hablaban en Toledo y Andalucía».

Traz D. Ramón Menéndez Pidal até ao império de Toledo, aproximadamente, a unidade idiomática peninsular, embora reconheça que os dialectos extremos da Península «se daban la mano por el intermedio de una serie de dialectos afines que se hablaban en Toledo y Andalucía», o que importa dizer que já então essa unidade não existia no sentido absoluto. De maneira que o depoimento do insigne filólogo mais me ajuda a crer que o Lusitano correspondia a uma camada populacional da Península anterior ao Celtibérico, chamemos-lhe assim por facilidade de expressão, traduzindo de um para o outro aquela diferença que, debaixo do ponto de vista antropológico, já Fonseca Cardoso acentuava no 1.º número da Portugália, a p. 174, apreciando a dissertação Índices cefálicos dos portugueses do doutor Álvaro José da Silva Basto. Escrevia então Fonseca Cardoso: «Que Portugal é realmente o país que tem na sua população uma maior percentagem de elemento de cabeça alongada, o que é escassamente representado em Espanha e ainda menos em Italia; que a percentagem dos mesaticéfalos é máxima e sensivelmente igual nas duas nações da Península ibérica, ao passo que na Itália forma a quinta parte da sua população; que dos três povos latinos, o que apresenta menor percentagem do elemento braquicéfalo é o português; vem depois o espanhol em que esse elemento forma a quarta parte e o italiano que se distancia com os seus 3/4. O português é, enfim, mais dolicóide do que o espanhol, que sofreu maior absorção do elemento braquicéfalo. E é esta uma das distinções do descendente lusitano para com o celtibérico.»

Claro que, na divisória entre nacionalidades, eu não atribuo hoje a importância que em trabalhos anteriores atribuí ao facto antropológico, objectivamente considerado. A reflexão e o estudo inclinam-me cada vez mais a pensar com Olóriz que «la uniformidad del índice no significa siempre identidad de raza» e que «el conocer los índices no basta para dar por conocidos los pueblos, ni el que dos grupos humanos sean afines por la forma general de la cabeza significa que pertenezcan ambos a la misma raza ni coincidan en los demás caracteres anatómicos». Concludentemente, que a razão de minha tese não reside apenas numa maior dolicocefalia do descendente lusitano, em face do seu vizinho celtibero. O que enumero são factos avulsos, todos eles convergindo em favor da mesma suposição. Não deixarei por isso de apontar ainda a circunstância de corresponder mais ou menos ao mapa dialectal traçado por D. Ramón Menéndez Pidal o croquis que da distribuição do índice cefálico na Península nos oferece Aranzadi no seu trabalho De antropología de España (Barcelona, 1915), o qual não foge de assinalar «la extrema dolicocefalia de la mitad meridional portuguesa, tan bruscamente diferente del carácter de la Extremadura española», conquanto Aranzadi nos previna que «no tiene como base estadística más que una décima parte de casos, comparados con los de las provincias españolas».

E não será difícil agora relacionar a questão do lirismo galaico-lusitano como atributo de uma raça mais antiga da Península com todos os dados, tanto institucionais como dialectais e antropológicos, aqui inventariados. Basta-nos recorrer simplesmente às revelações do senhor Ribera y Tarragó nos seus Discursos de admissão à Real Academia Española (Maio de 1912) e à Real Academia de la Historia (Junho de 1915) sobre a filiação da lírica andaluza durante o domínio islamita numa lírica peninsular anterior, que, não só pela concorrência de escravos cristãos do noroeste da Península aos mercados de Córdova, onde tinham especial apreço, mas ainda pelos metros e ritmos empregados, seria transparentemente a poesia popular galega – compreendida nesta expressão a poesia popular, tanto lusitana, como galiciana – de que derivaram, como fio de água corrente, os nossos Cancioneiros. Afirma, o senhor Ribera y Tarragó que «la clave misteriosa que explica el mecanismo de las formas poéticas de los varios sistemas líricos del mundo civilizado en la Edad Media está en la lírica andaluza, a que pertenece el Cancionero de Abencuzmán». A prioridade desse Cancioneiro sobre as primeiras manifestações da lírica provençal acha-se suficientemente comprovada. Comprova-se da mesma maneira, como fica dito, a inserção da poesia lírica de Abencuzmán num tipo de poesia popular em idioma-romance, mais natural de atribuir a galaicolusitanos do que a castelhanos ou aragoneses. De resto, «la lírica gallega, por confesión de romanistas, es una de las más arcaicas de Europa, la más antigua de España; Jeanroy confiesa que la lírica portuguesa es rebelde a la tentativa de adjudicarle origen francés, sobre todo las cantigas o cantares de amigo». E D. Julián Ribera y Tarragó remata expressivamente: «Dados tales antecedentes, yo creo que para explicar el origen de la lírica de Abencuzmán debe suponerse: o una lírica andaluza romanceada, anterior al siglo X, más antigua que la que aparece en los cancioneros portugueses, o una lírica gallega antiquísima, que la colonia gallega trajo a Andalucía, de donde procede la romanceada andaluza anterior a Abencuzmán».

Ora como a primeira hipótese se não verificou até hoje, a conclusão não pode ser senão uma, e é que só no noroeste peninsular se deve procurar o tronco da copada árvore lírica que veio a florir depois por toda a Europa. Tanto mais que – segundo nos ensina o senhor Ribera y Tarragó – «los monumentos de la lírica europea en lenguas vulgares, provenzal, alemana de los Minnesinger y la italiana (y aún los latinos de los Carmina burana, etc.), aparecen con posterioridad a la lírica vulgar de los musulmanes españoles».

Eis em traços gerais os fundamentos em que me baseio para aventurar a hipótese de que o povo português se aparenta com uma camada étnica mais velha na península do que essa de que derivou o Celtibero. Ligure, Ibero ou Celta? Não o sei, nem agora entraria a esmiuçar linhagens de raça, de todo excessivas dentro dos limites do presente estudo. Inclino-me, no entanto, a crer que o Lusitano denuncia os traços apontados por Sergi à raça mediterrânica e que a sua linhagem se incrusta no tronco líbio-ibérico da classificação conhecida ‘de Antón y Ferrández’.

[11] Orígenes de la novela, tom. I, pp. CDXV.

[12] Porto, Imprensa Moderna, 1903. Saíu primeiro na bela revista Portugália, de Rocha Peixoto e Ricardo Severo.

[13] Suetónio, Galba, IX. Vid. também Menéndez Pelayo, Historia de los heterodoxos españoles, tomo I, Madrid, 1911, p. 369. Segue a passagem de Suetónio: «Et confirmabatur quum secundissimis auspiciis et ominibus, tum virginis honestae vaticinatione; tanto magis, quod eadem illa carmina sacerdos Jovis Cluniae ex penetrali, somnio monitus, eruerat, ante ducentos annos similiter a fatidica puella pronunciata. Quorum carminum sententia erat, oriturum quandoque ex Hispania Príncipem dominumque rerum». Oiçamos agora o insigne Martins Sarmento no seu formidável trabalho Os Argonautas (Subsídios para a história antiga do Occidente), em nota a pp. 273-274: «Para completar a sua obra, não seria estranho que os druidas semeassem a promessa de um libertador. Não há notícias deste messianismo na Gália; mas vamos encontrá-lo na Hespanha, na Cantábria, onde menos se esperava. Quando Galba subiu ao trono, viu-se nele o libertador do mundo, profetizado dois séculos antes por uma virgem cantábrica (Suetónio, Galba, IX); mas, dois séculos antes de Galba, a Hespanha era ainda independente. O noroeste da Hespanha foi talvez o refúgio de muitos Lígures da Gália e da Inglaterra.» É de algum destes países que vem o misterioso messianismo dos cântabros? Obcecado pela miragem erudita do Ligurismo, Martins Sarmento ia pedir lá fora a explicação de factos passados na Península. Sabe-se pelo testemunho de Estrabão que Lusitanos, Calaicos, Astures e Cântabros se aparentavam estreitamente nos costumes e nas instituições. De que mais se precisa, para que fique documentado suficientemente o nosso ponto de vista?

[14] Madrid, 1897-1903, p. 250.

[15] Simonet, obr. cit., p. 51. Presume Simonet que o motivo dessa isenção por parte dos vencedores fosse a conversão ao islamismo das populações de Santarém e Coimbra. Mas, em semelhante caso, como se compreende que Coimbra constituísse no ocidente da Península o mais poderoso foco de moçarabismo e que nas suas imediações subsistisse como centro de religião e cultura o mosteiro de Lorvão?

[16] Iglesias mozárabes. Arte española de los siglos IX a XI, Madrid, 1919, p. 98.

[17] Obr. e pp. cit.

[18] Obr. cit., p. 153, nota A.

PRÓXIMO CAPÍTULO - SEBASTIANISMO E QUIXOTISMO

​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
Fotografia

​www.estudosportugueses.com​

​2011-2025
​
[sugestões, correções e contributos: [email protected]]