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Pecados Velhos

António Sardinha

RESUMO
Pecados Velhos: O Iberismo e a Monarquia Portuguesa no Século XIX
​

Análise das aspirações de fusão peninsular e o papel dos monarcas portugueses
Introdução. António Sardinha analisa em profundidade o envolvimento de Portugal e Espanha nas correntes revolucionárias e liberais do século XIX, com especial foco nas tentativas de unificação peninsular sob uma única coroa. São analisadas as motivações, os movimentos políticos e as figuras históricas que marcaram este período, evidenciando as consequências dessas aspirações para a identidade nacional portuguesa.

A Origem do Iberismo e o Liberalismo na Península. Destaca que o liberalismo, desde os seus primórdios, esteve associado à dominação francesa e à concepção da "harmonia-ibérica". Esta ideia, impulsionada por interesses  maçónico, procurava unir Portugal e Espanha sob uma república federal, representando um sonho antigo de uma Ibéria unificada. Exemplos históricos mostram que agentes da Maçonaria facilitaram movimentos revolucionários, como a entrada de Junot em Lisboa e conspirações que visavam derrubar a monarquia portuguesa em colaboração com espanhóis.

Conspirações e Tentativas de Unificação. Diversas conspirações ao longo do século XIX tentaram transformar a Península Ibérica numa federação de repúblicas independentes, com Portugal e Espanha divididos em várias regiões. O apoio financeiro e político espanhol aos revolucionários portugueses, mencionado em relatos da época, reforça a tese da persistente ameaça ao modelo monárquico tradicional. A bandeira verde e vermelha da República Portuguesa é aqui apresentada como símbolo da utopia subversiva do iberismo, surgida nas sombras dos clubes maçónicos.

A Reação dos Monarcas e das Elites Portuguesas. O texto sublinha o desconforto dos nacionalistas portugueses perante a aproximação entre o regime republicano de Lisboa e o governo monárquico espanhol, especialmente quando figuras como Afonso Costa são agraciadas por Madrid. Há o receio de que a Espanha, ao adotar uma postura tolerante, estivesse a enfraquecer Portugal, tal como Bismarck fez com a França ao facilitar a república. O liberalismo, abraçado pela monarquia portuguesa, é apontado como fator de decadência institucional, impossibilitando o regresso de uma realeza autêntica. A restauração da consciência nacional e o regresso às virtudes ancestrais são defendidos como caminhos para redimir Portugal e reconstruir a pátria sobre bases morais sólidas.

O Papel das Dinastias e dos Projetos Matrimoniais. As tentativas de união peninsular não se limitaram à via revolucionária, mas incluíram projetos de casamentos reais, como entre Isabel II de Espanha e D. Pedro V de Portugal. Contudo, esses arranjos partiam dos setores mais progressistas e avançados, visando a unificação por meios temporários e políticos, em vez de perpetuar antigas alianças dinásticas. D. Pedro V, embora não se opusesse abertamente a essas ideias, é retratado como um príncipe influenciado pelo pensamento maçónico, mais filósofo do que estadista, cuja relevância política foi limitada pela sua morte precoce.

Império versus Realeza: Diferenças Fundamentais. A análise distingue claramente o conceito de império, centralizador e burocrático, do modelo de realeza, considerado uma instituição complementar e estabilizadora da sociedade. O império é visto como reação à anarquia, mas incapaz de atacar suas causas profundas, enquanto a realeza emerge como resultado de um processo histórico e natural, preservando a identidade nacional mesmo em tempos de domínio estrangeiro, como ocorreu no período dos Filipes.

O Fracasso do Iberismo Político e o Legado das Sociedades Secretas. Apesar das várias tentativas e projetos de fusão peninsular, tanto por via revolucionária quanto dinástica, o iberismo não se concretizou como realidade política. Os reis portugueses, sobretudo D. Luís, afastaram-se das ideias fusionistas, resgatando a independência nacional. Já em Espanha, a rejeição da proposta de criação de um Estado ibérico pelo general Prim demonstra o desinteresse dos governos em levar adiante o projeto. O iberismo permaneceu, assim, como ideia marginal nas penumbras das sociedades secretas, sem força para se impor como solução política.

Em suma, António Sardinha evidencia que as aspirações iberistas do século XIX, embora fortemente impulsionadas por correntes revolucionárias, progressistas e maçónicas, encontraram resistência decisiva nos monarcas portugueses e na falta de empenho das autoridades espanholas. A fusão peninsular, oriunda das revoluções europeias, acabou por se tornar uma ilusão frustrada, sobrevivendo apenas nos círculos restritos das sociedades secretas, enquanto Portugal reafirmava a necessidade de restaurar o seu espírito nacional e tradicional.
​



​Pecados Velhos

​Mas é necessário esclarecer, detalhando mais, o grande crime do Liberalismo na Península. Logo nos seus alvores cúmplice da dominação francesa, à sua inventiva se deve a fórmula hipócrita da ‘harmonia-ibérica’, em que se encarnou, para a ideologia revolucionária de um século inteiro, o sonho sempre acariciado de uma Ibéria unificada.

«A solidariedade cosmopolita dos princípios da revolução – escrevo algures, se é permitido citar-me – não é do tempo presente com Lloyd George discursando aos Aliados e a Inglaterra declarando, sem que ninguém lho pregunte, que nada teve com os acontecimentos de Espanha. Vem de atrás e muito de atrás. Por essa solidariedade a nossa Maçonaria facilitou a entrada de Junot em Lisboa, mandando mensageiros a Napoleão e dispondo-se a entregar-lhe com a Dinastia o único penhor da independência da Pátria. A mesma solidariedade, jurada sobre as insígnias triangulares ou debaixo do olho simbólico do Supremo Arquitecto do Universo, obriga Gomes Freire, traidor desde que espontaneamente se dedicou à fortuna de Bonaparte, a preparar a queda da Monarquia em 1817, de acordo com conspiradores espanhóis, a cuja testa se encontrava o general Cabanes.»[1]

"Tal é a genealogia da famosa ‘harmonia-ibérica’, que, no fundo, não é mais que a república federal da Ibéria – continuo na minha transcrição – anunciada para depois da insurreição, agora malograda em Espanha, pelo doutor Luís Simarro no convento maçónico realizado em Paris a 2 de Julho passado. Prometeu-se aí que, a triunfarem os revoltosos, a bandeira verde e vermelha seria imediatamente reconhecida como bandeira da Ibéria. Não se tratava senão da execução testamentária de Gomes Freire. Procuraram já efectivá-la os homens de 1820."

"De facto, é um maçon, D. José Pando, ministro de Espanha em Portugal, quem coadjuva então e acoberta as cabalas dos conjurados. Conta-se até que, dois meses antes, chegara ao Porto o coronel espanhol Barreros com o fim de promover uma revolução em Portugal, prometendo para isso auxílios do governo de Madrid. Parece que Fernandes Tomás não aceitou as propostas de Barreros. No entanto, ao rebentar o movimento do Porto, um corpo do exército espanhol avizinhou-se da nossa fronteira de Trás-os-Montes."

"O mais interessante é que os jornais da época afirmaram (Diário do Governo, do Rio de Janeiro, de 22 de Abril de 1823) que Manuel Fernandes Tomás recebera de D. José Pando «cinco milhões de reales para levar a cabo a revolução, pondo-se depois em prática o plano traçado na Sociedade dos Regeneradores do Género Humano, fundada em Cádiz à roda de 1812."

Consistia semelhante plano numa confederação ibérica, em que Portugal e Espanha se repartiriam em nove repúblicas independentes da maneira seguinte: Bética-ulterior, Bética-citerior, Galega, Navarra, Asturiana, Lusitânia-ulterior e Lusitânia-citerior, «com a declaração expressa de que os Algarves pertenceriam à Bética-citerior». Inspira-se singularmente, como vêem, no programa político dos Regeneradores do Género Humano o programa daqueles tantos que há umas dezenas de anos se foram de jantar até Badajoz, o mesmo espírito que anima o livro do senhor Magalhães Lima, La fedération ibérique. Convém não o esquecer, muito menos desde que vivemos em Maçonaria e que o ‘minuto de amor’ nos visitou recentemente "na perfídia disfarçada de uma grã-cruz de Carlos III".

No trecho que recorto para aqui de um artigo, já velho de quatro anos, condensam-se as linhas principais da conspiração persistente que, de fronteira a fronteira, intenta, vai para mais de um século, derribar a ordem tradicional. Estalara nessa altura em Espanha a greve revolucionária de 1917, e pelas indicações recebidas de amigos nossos de Paris sabia-se de antemão em Portugal que um mês antes – a 2 de Julho, no convento maçónico realizado em França, o doutor Luís Simarro dera conta do andamento dos trabalhos revolucionários da Maçonaria em Espanha, prometendo para breve a república aos Ir... ali reunidos. Do relato secreto desse congresso constava igualmente que, vencedora em Espanha a república, a bandeira arvorada seria a bandeira verde-e-vermelha da república portuguesa, cujas côres sinistras significam a utopia subversiva da unificação ibérica.

Talvez contribuissem bastante para a vitória das instituições monárquicas em Espanha, ao estalar a referida greve, os documentos que espontaneamente foram facilitados a Dato, Presidente de Conselho naquele Agosto de 1917. Por eles o ilustre estadista tomaria conhecimento de toda a rede em que a Maçonaria envolvia a Espanha, acontecendo até, por impressionante casualidade, que nas suas mãos se encontrava uma cópia dos mesmos documentos, quando em Março de 1921 o assassinato o colheu miseravelmente.

Conscientes, pelo exposto, os elementos nacionalistas de Portugal de quanto a república representava de perigo permanente para a Realeza espanhola, receberam necessariamente com desgosto a notícia da prova de apreço concedida a Afonso Costa por Sua Magestade Católica, ao agraciá-lo com a grã-cruz de Carlos III. Esboçava-se a essa data uma espécie de idílio entre a democracia regida de Lisboa e o governo monárquico de Espanha. Nada influiria mais desastradamente no ânimo dos portugueses do que a atitude benévola de Madrid perante o regime que nos desorganizava e ia matando a pouco e pouco. Recioso de que a Espanha usasse para connosco da fórmula que Bismarck aplicou à França, facilitando-lhe a república para que melhor se enfraquecesse, compreende-se a razão que me assistia, ao aludir ao ‘minuto de amor’ que nos acabara de visitar «na perfídia disfarçada de uma grã-cruz de Carlos III». Tanto mais que não havia muito tempo ainda que, num livro desgraçado, um tal senhor D. Juan del Nido y Segalerva não hesitara em declarar alto e bom som: «Nosotros no debemos ayudar ni la Monarquía ni la República; pero en todo o caso, más debemos ayudar la República que la Restauración monárquica.» E porquê? Porque «la política sensata aconseja la más absoluta abstención y esperar el desenvolvimento de la república portuguesa», acrescentando depois o publicista que «sobre esa Dinastía (a de Bragança) pesa la responsabilidad de haber deshecho en tiempo de Felipe IV la obra de Felipe II, y si fuere restaurada renacerían con ella todos los obstáculos que desde 1640 vinieron impidiendo la Unión Ibérica».[2]

Felizmente, as perseguições republicanas, atirando para Espanha com bastantes portugueses, não tardaram em restituir aos factos as suas verdadeiras proporções. O espírito da Espanha oficial a nosso respeito não nos admite, em bôa fé, a mais leve sombra de dúvida. Certas atitudes dos seus governos para com a república de Lisboa inspiram-se até numa nobílissima isenção. Não a hostilizando como sua inimiga natural que é – e a polícia espanhola não o ignora por certo! –, a monarquia de Afonso XIII quer assim demonstrar à Portugal que lhe deixa total liberdade para resolver por si próprio as suas questões internas. Como monárquico que sou, aplaudo inteiramente essa conduta. E o meu desejo é que, por sua vez, os espanhóis, em face de tantos e tão sucessivos fracassos restauracionistas em Portugal, não tomem como descrédito de uma Causa o que não é senão a falência de um Princípio!

Efectivamente, o que tornou possível a república entre nós foi o príncipio liberal que a monarquia portuguesa, abastardando-se, nem de longe teve escrúpulo em desposar. O príncipio liberal que não permite mais a restauração de uma realeza que, entregue aos desvarios dos partidos, caminhou de ânimo contente e leve para o seu suicídio. O que importa antes de tudo é despertar em Portugal a consciência adormecida da Nação e levá-la a aceitar deliberadamente a solução orgânica da Monarquia – mas da verdadeira Monarquia, da tradicional. No olvido das nossas virtudes ancestrais, impõe-se-nos uma como que segunda fundação da pátria – pelo menos, no seu superior conceito moral. Desnaturámonos, incaracterizámo-nos. Há que volver, portanto, às origens imortais da Raça e redimir-nos pelos poderes ocultos da nossa história. Sebastianismo? E porque não? A acção, para ser fecunda, carece sempre de ser conduzida por uma labareda de fé alta e imarcessível. Assim se apresenta para a mocidade lusitana o problema trágico dos nossos destinos. Assim, de coração erguido, andamos a preparar a jornada heróica em que se há-de alcançar, pela constância da vontade e pelo fervor da inteligência, a redenção da terra querida que, em herança sagrada, recebemos dos nossos Maiores.

Não perfilhamos por isso os erros que facilitaram o período de desagregação em que hoje Portugal parece perdido. Eis o motivo do nosso combate ao Liberalismo, cujo processo Oliveira Martins instruíu definitivamente no seu Portugal contemporâneo. Não só lhe devemos – a essa aclimatação indigna dos erros nefastos de 89, a ruína das instituições que fizeram grande Portugal, mas também o insucesso de tantas e tantas tentativas libertadoras de 1910 para cá. Como que interpretando o sentir daquela juventude que jurou levantar Portugal ao grau de respeitabilidade e prestígio que já desfrutou, oxalá as minhas palavras se revistam da simplicidade quente das afirmações indiscutíveis, para que não se confunda nunca a ânsia nobre dos que em Portugal se esforçam e trabalham por erguer de novo o trono de D. Afonso Henriques com quantas aventuras transpõem às vezes a linha da raia no noticiário do jornalismo quotidiano e que em Espanha, causando já o cepticismo dos mais indulgentes, parecerão seguramente capítulos arrancados à novela célebre do Padre Coloma!

Mas nós acentuávamos a íntima cumplicidade da Revolução na Península com as várias espécies de Iberismo que, durante o século findo, de quando em quando nos vinham bater à porta. Já vimos que a bandeira verde-evermelha da República-Portuguesa é a bandeira improvisada à sombra dos clubs maçónicos para insígnia de uma Ibéria emancipada e una. Já vimos igualmente o paralelismo que estreita entre si o avanço liberalista nos dois povos peninsulares. O dedo da Maçonaria – não riamos, meus senhores! – evidencia-se bem patente. Tão patente, que, para no-lo documentar, nos basta a nota dirigida por Silvestre Pinheiro Ferreira, nosso ministro dos Estrangeiros, ao governo inglês em 1 de Dezembro de 1821, porque se receava em Lisboa que o gabinete de Londres sufocasse o nosso revolucionarismo nascente, em harmonia com os compromissos tomados pela Santa-Aliança. Ei-la nos seus principais lineamentos:

«Que se o Governo inglês anuir às pretensões dos Aliados do Norte e se não se opuser a elas, formal, positiva, e muito publicamente lhe fará sentir... que a consequência deste abandono da nossa antiga aliada será formar entre os dois povos da Península uma união que não podendo ter firmeza senão pela fusão de ambos em uma só Nação, debaixo de uma só constituição, e um só governo, resultará infalivelmente malograrem-se todos os esforços dos séculos passados feitos com o fim de se evitar aquela união; ao que acresce, que não podendo-se verificar este fenómeno político sem se preceder da abolição de uma das Dinastias Reinantes, e talvez de ambas, para ceder o lugar a um novo governo, porventura conduziria este fatal desfecho o tomarem os dois congressos o partido de que a História nos oferece mais do que um exemplo, de se ir chamar para o Chefe do Poder Executivo, personagem de alguma das Dinastias da Europa que, desposando de este modo os interesses da Península, trouxesse em seu apoio uma força efectiva...»

Expedia-se isto com D. João VI no trono e já de regresso a Lisboa, onde desembarcara a 4 de Julho de 1821.[3] Na referência expressa aos ‘dois congressos’, revela-se claro o entendimento que a tal respeito existia entre os revolucionários de Lisboa e o mundo maçónico de Espanha. Não passava então Fernando VII de um farrapo a toda a hora enxovalhado e cuspido pelo populacho mais ínfimo. No volume de Fernández de los Ríos, já atrás mencionado, Mi misión em Portugal, encontramos uma pequena indicação que ajudará a esclarecer essa infamíssima trama.
Alude Fernández de los Ríos a «un libro en pasta de 333 hojas, señalado en el número 88, que se encuentra entre los Papeles reservados en el archivo del palacio de Madrid», como contendo a prova das ambições de Fernando VII ao domínio de Portugal.[4] E mais adiante, em outra passagem do seu curioso relato, Fernández de los Ríos entrega-nos a chave do enigma. «En 1820 – diz –, había quien hacía llegar la idea de la unión a Fernando VII, entre cuyos papeles reservados, los hay, como hemos dicho, que revelan sus propósitos en este asunto.»

É suficiente a claridade que semelhantes detalhes nos fornecem sobre a extensão da conjura revolucionária em que se andava decidindo da autonomia das duas pátrias livres da Península. Fernando VII – coitado! – não era mais que um pretexto, como palpavelmente se infere da nota de Silvestre Pinheiro Ferreira e da coacção em que o monarca espanhol jazia. Mas Fernández de los Ríos fornece-nos ainda elementos que será bom recordar. «En 1818 – escreve –, siendo secretario de la embajada en Londres don Joaquim Francisco Campuzano, trataba con el embajador portugués y aún con el ministro Canning de la probabilidad de la unión. En 1829, don Álvaro Flórez Estrada, don Francisco Díaz Morales, don Juan Rumi y don Andrés Borrego se dirigieron a Don Pedro II (sic) emperador del Brasil, para tratar con él la cuestión de la unidad peninsular.» Reinava ainda Fernando VII – acrescente-se. Como é que de motu-próprio anos antes aspiraria ao domínio de Portugal, quando era a sua coroa a que ofereciam agora ao filho renegado do nosso D. João VI?

Começamos assim a perceber a aparição do banqueiro espanhol Mendizábal – judeu e maçon – junto de D. Pedro. D. Pedro, ao abdicar no Brasil, pensava realmente em reinar na Península, mediante o destronamento de D. Miguel, seu irmão, e de Fernando VII, seu tio e cunhado. Não arrefeceu o projecto, nem com a morte de D. Pedro, nem com a aclamação de D. Isabel II. Mendizábal não desistia do seu propósito, e as inteligências que sobre o assunto existiam entre ele e D. Pedro continuaram a existir com o primeiro marido de D. Maria II, o príncipe Augusto de Leuchtemberg. Mas com o falecimento do príncipe Augusto descaiu um pouco o plano, em que as responsabilidades pertencem tanto aos liberais espanhóis, como aos liberais portugueses. Contudo, o Iberismo traduzia de tal maneira na Península um objectivo maçónico-revolucionário, que em 1848, ao proclamar-se em França a segunda república, mais de quatrocentos emigrados de ambas as nacionalidades «recorrieron las calles de París – conta Fernández de los Ríos –, aclamando la unión peninsular, precedidos de una bandera con los emblemas de la Iberia». Seria já a bandeira verde-e-vermelha?

Pouco antes, a opinião em Espanha agitara-se fortemente a favor do casamento de Isabel II com o nosso D. Pedro V, então ainda príncipe herdeiro, e da infanta Luísa Fernanda com o Duque do Porto, mais tarde D. Luís I. Não é de mais salientar que estes arranjos de ‘harmonia-ibérica’, bem longe de se entenderem como sendo a continuação do velho intuito dinástico que, de parte a parte, tanto em Espanha como em Portugal, procurara sempre corrigir os respectivos antagonismos pela virtude humaníssima das relações de família, partiam agora dos elementos ‘avançados’, dos ‘progressistas’, que na Política espanhola corporizavam fortemente a ideia niveladora e subversiva de uma Ibéria unificada. Pretendiam assim obter, por uma transigência temporária com a Monarquia, o que já antes tinham tentado obter pelo processo mais directo e mais sumário da revolução.

Desvaneceram-se, porém, as possibilidades que nesse duplo projecto de matrimónios reais depunham os inflamados condutores da incipiente democracia peninsular. Mas o nome de D. Pedro V não se sumiu inteiramente da lembrança dos mais exaltados anti-bourbonistas. A intenção denunciava-se, transparente, buscando-se para a unificação da Península a cumplicidade da dinastia portuguesa, que desempenharia aqui a função desempenhada em Itália pela casa de Sabóia. «A princípios de 1854 – informa o pormenorizado Fernández de los Ríos – circulaba un papel debido a un aprovechado joven, el señor Cánovas del Castillo, cuyo entusiasmo ibérico le llevó a arrostrar el perigro de imprimir un recuerdo histórico, demonstrando que ninguna dinastía de las cuatro que había habido en España había pasado nunca de seis reyes, terminando con profetizar la caída de Doña Isabel y la proclamación lisa y llana de Don Pedro V como medio de realizar la unión.»
Chama Fernández de los Ríos, com lacerante ironia, ‘aprovechado joven’ a Cánovas del Castillo que, realmente, surgira nas arenas da política, ostentando o mais desembaraçado radicalismo. Sem talvez imaginar que, expulsos os Bourbons, ele se tornaria o eixo vigoroso da sua restauração, Cánovas participou com Fernández de los Ríos dos motins e pronunciamentos de 1854, saindo da sua pena o Manifesto de Manzanares, lançado à nação por O’Donnell. A que ponto subia o calor jacobino de Cánovas vêmo-lo nós claramente nas afirmações que lhe atribui Fernández de los Ríos. Arrependido depois, era frequente Cánovas observar que «un hombre de bien no puede haber tomado parte más que en una revolución, y esto por no saber lo que era».[5]

O mais interessante, porém, é conhecer-se que em Portugal os políticos do Constitucionalismo não se mostravam alheios a essas cabalas. Em 1854, «también el Diario Español sacaba a plaza el nombre de Don Pedro V para Rey de España, se formaba una liga hispano-lusitana, en la que figuraban personalidades muy notables y se aprobaba por las Cortes Constituyentes un proyecto de ley para la supresión de pasaportes en la frontera portuguesa».[6] Assevera-se até que O’Donnell com os seus companheiros de Vicálvaro não estavam alheios a entendimentos com Lisboa. E daí as declarações públicas de Cánovas, nos seus começos políticos: ‘Eminência-parda’ do general O’Donnell. Era a altura em que António Rodrigues Sampaio não sentia pejo em afirmar nas colunas de um jornal, a propósito da construção do primeiro caminho-de-ferro peninsular, que «se nos colocassem na alternativa de sermos miseráveis com a nossa independência, mas sem caminho de ferro, ou de sermos prósperos com ele, arriscando a autonomia, nós não hesitaríamos sequer um instante, preferindo antes a nossa prosperidade». Há nas palavras do panfletário de O Espectro alguma coisa de macabro, tal como o culto suicida de uma religião africana. Morresse a Pátria, mas os princípios que se salvassem! É este um depoimento, na verdade, que sintetiza uma época e classifica uma mentalidade!

Convém aditar ainda – porque é uma página da história a que estamos escrevendo –, que de modo nenhum D. Pedro V se mostrou avesso a tais combinações. Consagrou-se no sentimentalismo fácil da gente portuguesa a figura desse monarca que passou rápido, sem outro sulco que não fosse o da sua precoce viuvez e o da parte que tomou com coragem nas dores do seu povo, quando das terríveis epidemias que saltearam Portugal. É uma espécie de ‘rei-filósofo’, extraviado no século findo, pedantesco e melancólico, mas melancólico à maneira germânica, que o tornava um segundo Werther, coroado e póstumo. Inclinando-se nos hospitais para o catre dos doentes estertorisados, fazia-o à Kant, por ‘imperativo categórico’, em nome de sua razão geométrica que só conseguia encontrar ‘filantropismo’ onde devera existir ‘caridade’.

É necessário restituir D. Pedro V à sua exacta significação. Não é mais que um príncipe maçonizado na inteligência e na sensibilidade que a morte, levando-o prematuramente, roubou talvez, ou às linhas caricaturais de seu primo Pedro II do Brasil, ou ao burguesismo sem nome, apático e horizontal, de um novo Luís Filipe.[7]

Ainda que intencionais, creio, por isso, que não são exagerados os informes do representante em Lisboa da côrte de Madrid, Pastor Díaz, para o seu governo. Esforça-se Fernández de los Ríos por diminuir-lhe o efeito numa defesa de D. Pedro V que só, afinal, o compromete. Recebia o monarca em audiência particular a D. José de Salamanca – o célebre e opulento banqueiro. Empapado de ciência, como qualquer preceptor alemão, S.M., «queriendo lucirse o singularizarse», fez-se eco de «todas las vulgaridades más populacheras», depois de alardear o seu filosofismo de última categoria. Numa irreverência que apetece ressuscitar, Pastor Díaz notava nos seus comunicados secretos que «El-rey Don Pedro habla de ideas y de princípios, como su padre habla de cuadros de Rafael y Murillo».[8]

Pois, pensador régio, arejando-se com um intelectualismo de lugar-comum, não rejeitava D. Pedro V as solicitações que de Espanha chegavam diariamente até aos seus ouvidos. «Quando vivia o senhor D. Pedro V – descoseu-se de uma vez o Diário Popular, segundo transcrição de Fernández de los Ríos – toda a gente sabe que o senhor Fontes e outros dos chefes mais activos do partido regenerador queriam um império ibérico com aquele príncipe por imperador.» Não surtiram efeito os pretextos inventados. No entanto, a dinastia de Bragança, mais propriamente o ramo Coburgo-Gotha dessa dinastia, fiel serventuário da Revolução, chegou a inspirar verdadeiro receio à côrte de Madrid. Os motivos já ficaram apontados e são os que, na sua Historia de España (Resumem crítico), D. Ángel Salcedo Ruiz sucintamente nos expõe: «dentro del progresismo puro predominó la tendencia revolucionaria, la cual no se contentaba ya con un pronunciamiento por el estilo del de 1854, sino que aspiraba a una revolución que destronase a Isabel II como el único medio de hacer prevalecer el principio de la soberania nacional. En Inglaterra, decían no fue la Monarquía servidora de la nación hasta que, destronado Jacobo II, Guillermo y María recibieron la corona de manos del Parlamento; relacionando esta idea con el ejemplo contemporáneo de Italia y con la doctrina de las nacionalidades, que justificaba la unidad italiana, soñaban con el iberismo, forjándose la ilusión de que un rey Braganza elegido por unas cortes españolas realizaría fácilmente la unidade ibérica».[9]

Reconhece-se assim a coerência dos ‘progressistas’ espanhóis, depois da queda de Isabel II, ao tentarem seduzir D. Luís com a miragem traiçoeira de uma dupla coroa. E não nos desnorteie a ideia de que era o ‘império’ a sua fórmula de execução. O ‘império’, ou moldado no antigo tipo romano, ou nas modernas formas que o cesarismo nos oferece com Bonaparte ou com Bismarck, é sempre a consagração de um conceito materialista é simplesmente numérico do Poder. Ou se impõe pelas armas, pretorianamente, ou é o resultado inconsistente de uma inconsistente operação plebiscitária. A sua estrutura, mais teórica do que histórica, faz tábua-rasa das realidades sociais, tomando apenas o indivíduo por base e atrofiando até ao aniquilamento, por um regime de apertada concentração burocrática, os chamados ‘corpos’ intermédios do Estado, tais como os Municípios, as corporações, as Províncias, etc. Não sai, como a Realeza, de um processo de elaboração natural, em que o Estado se estabiliza hereditariamente num tipo fixo, que é na sociedade como que o fecho da abóbada de um edifício construído pedra a pedra, de baixo para cima. Eis porque alguém chamou à Realeza – e sensatamente! – ‘instituição complementária’. Vê-se, pois, com que profunda razão observava um publicista francês, Octave Tauxier, em relação ao seu país, que «l’Empire est une réaction contre l’anarchie, mais il n’est pas une réaction contre les causes de l’anarchie».

Constitui o ‘império’ mais uma forma de admistração, do que um sistema de governo. Corresponde assim, logicamente, ou a um período de conquista, ou a um estádio de organização rudimentar na vida de um povo, mal regressado ainda da barbaria original. No segundo caso, a Rússia; no primeiro caso, com tantos exemplos da história, o paradigma completo que é o Império Romano. Deu Napoleão mocidade a essa velha reminiscência clássica, criando o Estado-Moderno com todos os seus inúmeros tentáculos congestivos, de que Taine nos deixou a análise acabada e sem recurso. Porque preferiria Napoleão o Império aos quadros tradicionais da Realeza? Porque o Império, centralista e uniformizador, coadunava-se perfeitamente com o espírito unitário da Revolução.
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Não marchavam, portanto, em terreno falso os iberistas do século passado, quando, para atingirem a sua Ibéria-Una, a Ibéria da bandeira verde-e-vermelha da República-Portuguesa, procuravam também no Império o instrumento mais eficaz da ditadura revolucionária. Obtida pela compressão do Estado a fusão das duas nacionalidades, logo viria, seguramente, pelo impulso dos próprios acontecimentos, o desfecho sonhado da Península Nação-Única, primeiro passo para a Nação-Humanidade das falsas profecias do Enciclopedismo e do Socialismo. Nada mais exacto, por isso, do que as reflexões do poeta António Pereira da Cunha, que já em 1879 classificava o ‘princípio da fusão peninsular’, como sendo «no século actual, completamente oriundo da revolução europeia». Enunciado em Cádiz, «por um português,[10] em 1812 – esclarece –, desenvolvido em Londres, diplomaticamente, depois de nós perdermos o Brasil, recebeu, afinal, a sanção pública no manifesto bem claro, assinado por Kossuth, Ledru-Rollin e Mazzini».

Desfolharam-se, porém, as ilusões dos ‘progressistas’ espanhóis com o seu insucesso junto do nosso D. Fernando e sobretudo com a admirável resposta del-rei D. Luís. Resgatou D. Luís a cumplicidade evidente da sua dinastia com os fusionistas de Portugal e Espanha. Os compromissos assumidos durante a incerteza da vitória do Liberalismo na Península foram-se lentamente dissolvendo e olvidando. Quanto a nós, só uma interrogação séria subsiste acerca de D. Pedro V. Pelo que respeita à Espanha, é de justiça recordar que Prim, já em negociações com a Itália para o advento do Rei Amadeu, repeliu em toda a linha as proposições que Jules Favre fizera chegar até ele por intermédio de M. de Kératry.

O enviado de Jules Favre saíra, em balão, de Paris, cercada pelos exércitos alemães. Napoleão III rendera-se em Sedan, perante a revolução. O Terceiro-Império caíra, e o comité da Defesa-Nacional procurava resistir ainda. Nesse sentido foi mandado M. de Kératry a Madrid na esperança de obter um socorro de 60 a 80.000 homens. Entre outros oferecimentos, a França comprometia-se, em compensação, a facilitar à Espanha «ses bons offices pour aider à la constitution d’un État-ibérique». Prim repudiou, sorrindo-se, as proposições francesas, sem se deixar prender nas asas tentadoras da quimera iberista que o estrangeiro, à busca de carne para a guerra, baldadamente se empenhava em agitar. Decididamente, nas esferas governamentais, o Iberismo desaparecera como projecto de realização política. Mas continuaria aninhado nas penumbras sórdidas da Maçonaria peninsular, onde ainda agora não é difícil descobrir-lhe o rasto.

E os Reis – os nossos Reis? Não seria neles também um crime a sua ambição unitarista? Cuido responder com a diferença que já ficou estabelecida eutre o Império e a Realeza. A Realeza é uma instituição complementária, insistimos. Por isso nunca a nacionalidade se dissolveria – como não se dissolveu no tempo dos Filipes –, desde que ficasse de pé a sua estrutura social. É o que se verifica com D. Manuel I, foi o que se verificou com D. Fernando.



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[1] Vid. o artigo «Dia de São Bartolomeu», publicado no jornal A Monarquia, de 24 de Agosto de 1917. Será incluído no meu próximo volume, Ao ritmo da ampulheta. Crítica & doutrina. [aí publicado sob o título "1820"]

[2] La unión ibérica, Madrid, 1914, p. 364.

[3] Ver, entre outras publicações da época, o curiosíssimo folhetim Exposição resumida do que durante os dezoito meses que estive em Lisboa sofri à facção, e aos celerados que dominavam El-Rei (D. João VI), e o levaram à sepultura, por Heliodoro Jacinto de Araújo Carneiro, Paris, Oficina Tipográfica de Paul Renouard, 1826.

[4] Pág. 180, nota 3.

[5] Ángel Salcedo Ruiz, Historia de España, Resumen crítico, p. 131.

[6] Ángel Fernández de los Ríos, obr. cit., p. 201.

[7] O estudo recente do conselheiro Júlio de Vilhena, D. Pedro V e o seu reinado, publicado já depois de escritas estas linhas, projecta algumas luzes interessantes sobre o carácter político de D. Pedro V, principalmente sobre a noção moral que ele possuía acerca da sua missão de rei funcionário. Não invalida, porém, a definição wertheriana da sua psicologia, nem a ideia central da nossa apreciação a seu respeito. No capítulo então do Iberismo, subsistem completas as afirmações de Fernández de los Ríos.

[8] Fernández de los Ríos, obr. cit., pp. 201-203.

[9] Obr. cit., p. 766.

[10] Palmela.
[ negritos acrescentados ] 

1924 - António Sardinha - A Aliança Peninsular

Por gentil oferta de Isabel Rougier, inclui-se aqui um apontamento retirado do acervo de seu bisavô, Henrique de Paiva Couceiro, em que este regista uma passagem deste capítulo de A Aliança Peninsular:
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​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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