TEÓFILO BRAGA
António Sardinha
Bandeira de livre-pensadores semianalfabetos, eis o rasto que fica de Teófilo Braga!
- António Sardinha
- António Sardinha
RESUMO
Teófilo Braga foi uma figura muito ativa na cultura portuguesa, mas o valor da sua obra não corresponde à quantidade de livros publicados. Era reconhecido pelo seu radicalismo político e sectarismo, o que gerou controvérsia e críticas, inclusive pela falta de rigor nas fontes utilizadas. O descrédito intelectual de Teófilo Braga tornou-se comum, sendo alvo de críticas de autores como Sílvio Romero e Ricardo Jorge. Apesar de se considerar discípulo de Augusto Comte, Braga distorceu o Positivismo e adotou uma postura hostil à Igreja e à Monarquia, fundamentais para a compreensão da história portuguesa. Procurou introduzir na história de Portugal uma visão revolucionária, defendendo o “povo” como agente central, em oposição às ideias de Alexandre Herculano. Teófilo Braga acabou por se isolar, sendo pouco lido e seguido, inclusive pelos seus alunos na Faculdade de Letras de Lisboa. Apesar das muitas falhas e erratas na sua obra, vítima das superstições racionalistas do seu tempo, tinha potencial para ser um grande nome da cultura portuguesa.
TEÓFILO BRAGA
A morte de Teófilo Braga merece algumas considerações. Se o valor da sua obra estivesse na proporção da sua bibliografia, sem dúvida que o falecimento de Teófilo Braga teria deixado em Portugal um vácuo profundo – um vazio irreparável. Ninguém nega a Teófilo Braga a sua atividade, sua incessante labuta. Mas a vida passou-a deitando areia para o mar, numa faina igual ao castigo mitológico das Danaides. Ninguém lhe lia já hoje meia-dúzia de páginas. Os que, porventura, lhas lessem, careciam logo de se acautelar, não só contra o sectarismo violento de Teófilo Braga, mas ainda contra a sua pouca fidelidade às fontes e aos documentos de que se servia.
Se Teófilo Braga, pelo seu radicalismo faccioso e arcaico, não fosse um símbolo, decerto que baixaria à sepultura no meio da mais completa indiferença. É duro escrever-se assim de um morto, com as suas cinzas ainda quentes. Mas a justiça manda que, sem entrarmos na apreciação do homem, sejamos inexoráveis com o escritor! De resto, o descrédito intelectual de Teófilo passara já à categoria de lugar-comum. O brasileiro Sílvio Romero depenara-lhe implacavelmente a suposta plumagem científica num livro que ninguém em Portugal desconhece. O prof. Ricardo Jorge deixou-o a escorrer sangue numa brochura divulgadíssima. E, solicitando-lhe uma revista alemã, cujo nome neste momento me não ocorre, um estudo sintético sobre a literatura portuguesa, só lho publicou, depois de revisto e joeirado por D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos. Quero eu dizer com isto que Teófilo Braga era um imbecil ou um simples grafómano? Fora de mim semelhante ideia!
Sem dispor de qualidades mentais brilhantes, Teófilo Braga, pela natureza dos estudos a que se dedicou entre nós primeiro do que ninguém, estava destinado pelas circunstâncias a ser o nosso Menéndez Pelayo. Mas a Teófilo Braga deformava-o, estruturalmente, um furioso e dogmático jacobinismo. Inverteu, por completo, a visão da nossa história, tomando posições de hostilidade sistemática contra a Igreja e contra a Realeza, as duas grandes disciplinas sociais que geraram e tornaram possível a gloriosa pátria portuguesa. Nada, pois, mais antinacional do que a obra de Teófilo Braga!
Intitulando-se discípulo de Augusto Comte, até a própria essência do Positivismo corrompeu. Claro que a filosofia de Comte não nos interessa a nós, os que olhamos para mais alto e para bem mais longe. Ela é um dos aspetos da depressão insanável dos espíritos a que o agnosticismo e o relativismo podem levar. Contudo, nos ensinamentos críticos de Comte há princípios que contribuíram eficazmente para a reconstrução autoritária em que se empenha o pensamento contemporâneo. Charles Maurras, o teórico aclamadíssimo da Monarquia, é um descendente confesso de Comte, e não se ignoram as repulsas ásperas que a Comte arrancaram a Revolução Francesa, o Liberalismo, o mito da Soberania Popular e os abusos financeiros do que Comte chamava a «Bancocracia».
Também Comte se inclinava diante do papel civilizador da Igreja, aplaudindo a ação temporal do Pontificado durante a Idade Média, e não escusava os seus elogios de reverente admiração à Companhia de Jesus, chegando mesmo a propor aos Jesuítas uma aliança, em face dos perigos que já então ameaçavam a civilização ocidental.
Recebendo de Comte o que de pior havia na sua doutrina, Teófilo Braga transmitiu-lhe a sua avariose política. Mesmo dentro deste aspeto, Teófilo Braga exerceu os seus processos inevitáveis de desordenador das ideias dos outros. Por mal? Seguramente que não! Teófilo Braga sofria, decerto, de qualquer obliquidade cerebral que, por desgraça, feriu de esterilidade toda a sua existência longa de trabalhador. Tipo perfeito do «sábio» que esquematiza as suas paixões, para as definir depois como conceitos, a obra de Teófilo ascende a mais de cem volumes. Que se aproveitou dela? Nem os materiais carreados – que os carreou afanosamente! – porque é mister indispensável, para quem os utilize, verificar-lhes a autenticidade e a procedência.
Some-se, assim, em pleno desamor dos que em Portugal se esforçam por volver às nascentes históricas da lusitanidade, quem como Teófilo Braga se apresentou na feira das letras defendendo, contra as opiniões de Alexandre Herculano, a anterioridade em Portugal da Nação ao Estado, ou seja a absoluta identidade dos «portugaleses» da Reconquista com os lusitanos de Viriato. Mas o lusitanismo de Teófilo Braga, além de documentado em fantasiosos alicerces, levava consigo o propósito de introduzir, na nossa história, como gérmen ativo da pátria portuguesa, o preconceito «povo», no seu significado democrático e revolucionário. A nossa história tornava-se deste modo para Teófilo uma como que prefiguração da república. Daí o ódio melodramático aos Reis, as suas diatribes incessantes à Igreja, a sua defesa acalorada dos Judeus, o seu apego a quanto, moral e socialmente, constituísse um agente dissociativo da forte unidade católica e monárquica em Portugal.
Como representante de uma tão deplorável mentalidade, Teófilo Braga foi o «último». São outros hoje os rumos que na sua quase unanimidade norteiam os pensadores e intelectuais do meu país. Professor da Faculdade de Letras de Lisboa, Teófilo Braga sentiu, decerto, o isolamento que o rodeava, o ermo em que o abandonavam os seus próprios alunos. Bandeira de livres-pensadores semianalfabetos, eis o rasto que fica de Teófilo Braga! As erratas à sua obra seriam, sem exagero, pouco menos volumosas do que ela. E, no entanto, morreu «alguém». Alguém que foi vítima das superstições racionalistas do seu tempo, mas que tinha talvez nascido, se o seu critério fosse mais alto, para erguer à glória de Portugal um monumento tão imperecível como o que Menéndez Pelayo ergueu à glória de Espanha!
1924.
Se Teófilo Braga, pelo seu radicalismo faccioso e arcaico, não fosse um símbolo, decerto que baixaria à sepultura no meio da mais completa indiferença. É duro escrever-se assim de um morto, com as suas cinzas ainda quentes. Mas a justiça manda que, sem entrarmos na apreciação do homem, sejamos inexoráveis com o escritor! De resto, o descrédito intelectual de Teófilo passara já à categoria de lugar-comum. O brasileiro Sílvio Romero depenara-lhe implacavelmente a suposta plumagem científica num livro que ninguém em Portugal desconhece. O prof. Ricardo Jorge deixou-o a escorrer sangue numa brochura divulgadíssima. E, solicitando-lhe uma revista alemã, cujo nome neste momento me não ocorre, um estudo sintético sobre a literatura portuguesa, só lho publicou, depois de revisto e joeirado por D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos. Quero eu dizer com isto que Teófilo Braga era um imbecil ou um simples grafómano? Fora de mim semelhante ideia!
Sem dispor de qualidades mentais brilhantes, Teófilo Braga, pela natureza dos estudos a que se dedicou entre nós primeiro do que ninguém, estava destinado pelas circunstâncias a ser o nosso Menéndez Pelayo. Mas a Teófilo Braga deformava-o, estruturalmente, um furioso e dogmático jacobinismo. Inverteu, por completo, a visão da nossa história, tomando posições de hostilidade sistemática contra a Igreja e contra a Realeza, as duas grandes disciplinas sociais que geraram e tornaram possível a gloriosa pátria portuguesa. Nada, pois, mais antinacional do que a obra de Teófilo Braga!
Intitulando-se discípulo de Augusto Comte, até a própria essência do Positivismo corrompeu. Claro que a filosofia de Comte não nos interessa a nós, os que olhamos para mais alto e para bem mais longe. Ela é um dos aspetos da depressão insanável dos espíritos a que o agnosticismo e o relativismo podem levar. Contudo, nos ensinamentos críticos de Comte há princípios que contribuíram eficazmente para a reconstrução autoritária em que se empenha o pensamento contemporâneo. Charles Maurras, o teórico aclamadíssimo da Monarquia, é um descendente confesso de Comte, e não se ignoram as repulsas ásperas que a Comte arrancaram a Revolução Francesa, o Liberalismo, o mito da Soberania Popular e os abusos financeiros do que Comte chamava a «Bancocracia».
Também Comte se inclinava diante do papel civilizador da Igreja, aplaudindo a ação temporal do Pontificado durante a Idade Média, e não escusava os seus elogios de reverente admiração à Companhia de Jesus, chegando mesmo a propor aos Jesuítas uma aliança, em face dos perigos que já então ameaçavam a civilização ocidental.
Recebendo de Comte o que de pior havia na sua doutrina, Teófilo Braga transmitiu-lhe a sua avariose política. Mesmo dentro deste aspeto, Teófilo Braga exerceu os seus processos inevitáveis de desordenador das ideias dos outros. Por mal? Seguramente que não! Teófilo Braga sofria, decerto, de qualquer obliquidade cerebral que, por desgraça, feriu de esterilidade toda a sua existência longa de trabalhador. Tipo perfeito do «sábio» que esquematiza as suas paixões, para as definir depois como conceitos, a obra de Teófilo ascende a mais de cem volumes. Que se aproveitou dela? Nem os materiais carreados – que os carreou afanosamente! – porque é mister indispensável, para quem os utilize, verificar-lhes a autenticidade e a procedência.
Some-se, assim, em pleno desamor dos que em Portugal se esforçam por volver às nascentes históricas da lusitanidade, quem como Teófilo Braga se apresentou na feira das letras defendendo, contra as opiniões de Alexandre Herculano, a anterioridade em Portugal da Nação ao Estado, ou seja a absoluta identidade dos «portugaleses» da Reconquista com os lusitanos de Viriato. Mas o lusitanismo de Teófilo Braga, além de documentado em fantasiosos alicerces, levava consigo o propósito de introduzir, na nossa história, como gérmen ativo da pátria portuguesa, o preconceito «povo», no seu significado democrático e revolucionário. A nossa história tornava-se deste modo para Teófilo uma como que prefiguração da república. Daí o ódio melodramático aos Reis, as suas diatribes incessantes à Igreja, a sua defesa acalorada dos Judeus, o seu apego a quanto, moral e socialmente, constituísse um agente dissociativo da forte unidade católica e monárquica em Portugal.
Como representante de uma tão deplorável mentalidade, Teófilo Braga foi o «último». São outros hoje os rumos que na sua quase unanimidade norteiam os pensadores e intelectuais do meu país. Professor da Faculdade de Letras de Lisboa, Teófilo Braga sentiu, decerto, o isolamento que o rodeava, o ermo em que o abandonavam os seus próprios alunos. Bandeira de livres-pensadores semianalfabetos, eis o rasto que fica de Teófilo Braga! As erratas à sua obra seriam, sem exagero, pouco menos volumosas do que ela. E, no entanto, morreu «alguém». Alguém que foi vítima das superstições racionalistas do seu tempo, mas que tinha talvez nascido, se o seu critério fosse mais alto, para erguer à glória de Portugal um monumento tão imperecível como o que Menéndez Pelayo ergueu à glória de Espanha!
1924.
In A Prol do Comum, 1934.