ESTUDOS PORTUGUESES
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        • II. O caráter orgânico e democrático da monarquia medieval portuguesa
        • III. A formação das instituições representativas e o papel das Cortes
        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
        • VIII. O Absolutismo, o Pombalismo e a Reação Tradicionalista
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A unidade Hispânica

RESUMO
A Unidade Hispânica: O ponto de partida das Ideias de António Sardinha em A Aliança Peninsular
António Sardinha analisa a importância estratégica do poder naval da Península Ibérica, destacando os planos de Filipe II ao tentar manter a supremacia marítima contra a Inglaterra com a Invencível Armada. A sua narrativa questiona interpretações simplistas da história portuguesa e espanhola, destacando que os projetos militares e alianças, como o casamento de Filipe II com Maria Tudor, tinham raízes em necessidades políticas e comerciais profundas. O fracasso da Armada marcou o início do declínio da influência peninsular nos mares, sugerindo que a restauração dessa força dependeria de uma nova união estratégica entre Portugal e Espanha.

  • Introdução. A análise de António Sardinha sobre a unidade hispânica assenta numa reflexão histórica, cultural e política, centrando-se na importância do poder naval ibérico e nas relações entre Portugal e Espanha. O autor não se limita a narrar eventos, mas interpreta o significado mais amplo das colaborações e rivalidades peninsulares, sugerindo que o futuro da Península depende da restauração de uma aliança estratégica baseada na sua herança comum.
  • O Significado Universal das Descobertas e o Eixo Civilizacional. Sardinha inicia salientando que a relevância das Descobertas ultrapassa a mera expansão geográfica. O seu verdadeiro impacto reside na transferência do eixo da civilização do Mediterrâneo para o Atlântico, transformação conduzida por um povo de navegadores que, limitado territorialmente, encontrou nos mares o suporte da sua soberania. Este deslocamento marcou o início da Idade Moderna, cuja matriz está profundamente ligada à vocação marítima portuguesa.
  • A Importância do Poder Naval e a Soberania Peninsular. Sardinha sublinha que, ontem como hoje, é pelo mar que Portugal encontra a chave do seu ressurgimento nacional. Mais do que hegemonia, o poder naval é visto como condição para a independência e defesa da Península, abrangendo tanto Portugal quanto Espanha. Sardinha defende que os dois países partilham interesses, aspirações e um património histórico comum, especialmente visível na epopeia da Reconquista e nas múltiplas ações conjuntas ao longo da história.
  • A Consciência Hispânica e o Biliguismo Literário. A unidade hispânica não se resume à política e à guerra; ela manifesta-se também nas letras e nas artes. O bilinguismo literário, caracterizado por D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos, expressa-se pelo uso partilhado do castelhano e do galego-português na literatura épica e lírica. Sardinha ilustra esta simbiose com exemplos de autores e obras que transitaram entre as duas culturas, como Camões, Sá de Miranda e Jorge de Montemor, tanto quanto o teatro do século de ouro espanhol que celebra temas portugueses.
  • As Alianças Matrimoniais e a Unidade Peninsular. A política matrimonial entre as casas reais de Portugal e Castela serviu como mecanismo de harmonização e aproximação, mesmo frente a rivalidades dinásticas. Sardinha exemplifica com diversas figuras femininas portuguesas que marcaram a história castelhana, destacando o papel das rainhas como agentes de civilização, cultura e paz. Episódios como o encontro entre Santa Teresa de Portugal e D. Berengária de Castela ilustram a influência decisiva do parentesco e do espírito cristão na resolução de conflitos.
  • A Influência Portuguesa na Dinastia dos Áustrias. Sardinha detém-se na análise genealógica para demonstrar a preponderância do sangue português na formação da dinastia dos Áustrias espanhóis, especialmente em Filipe II. Esta ascendência não só é física, mas também psicológica, manifestando-se em traços culturais como a saudade, partilhada entre portugueses e espanhóis. O vestígio português perdurou na corte espanhola, influenciando modas, costumes e a própria literatura.
  • Reciprocidade e Cooperação entre Portugal e Espanha. Sardinha salienta a reciprocidade de destinos das duas nações, evidenciada em momentos de glória e de infortúnio, como a catástrofe de Alcácer-Quibir. Apesar de divergências ocasionais, prevalece uma lei histórica de cooperação espontânea, mantida por laços de sangue e interesses comuns. Alianças militares e políticas, como a repressão da pirataria berberisca e o apoio mútuo em guerras, relembram a necessidade de colaboração constante.
  • O Projeto da União Peninsular e o Papel de Portugal. A tentativa de António Vieira de consolidar uma união peninsular, através do casamento entre D. Teodósio e D. Maria Teresa de Áustria, revela a consciência de que a estabilidade do poder na Península dependia do equilíbrio entre as soberanias. O jesuíta defendia Lisboa como capital, reconhecendo o papel vital do poder naval e da posição atlântica portuguesa. Contudo, Sardinha observa que uma fusão política não seria exequível devido às diferenças estruturais e geográficas internas, e que a verdadeira lição é a necessidade de uma aliança bilateral sem subalternização.
  • O Fim da Hegemonia Peninsular nos Mares. A análise dos planos de Filipe II para a Invencível Armada evidencia que o objetivo principal era a manutenção da supremacia naval frente ao crescimento do poderio inglês. O fracasso da Armada, devido a fatores naturais e humanos, marcou o início do declínio da influência marítima ibérica. Sardinha ressalta que, mesmo com contributos portugueses significativos, a Península não conseguiu recuperar o seu papel central nos mares sem uma colaboração efetiva entre Portugal e Espanha.
  • Conclusão: O Futuro da Unidade Hispânica. António Sardinha encerra a sua reflexão defendendo que o ressurgimento da Península como potência mundial depende de uma nova aliança estratégica, baseada no respeito mútuo das soberanias e na partilha dos desígnios históricos comuns. O poder naval é visto como condição fundamental para o prestígio e independência peninsular, e a história mostra que a cooperação, mais do que a fusão, é o caminho para ambos os povos ibéricos encontrarem o seu destino comum.​

Fotografia
D. Leonor de Mascarenhas - Coleção particular do Marquês de Vega Inclán





​A unidade hispânica


A grande significação universal das Descobertas não consiste só em se terem rasgado à actividade humana novos continentes e novos oceanos. Consiste, sobretudo, na circunstância de se haver deslocado do Mediterrâneo para o Atlântico o eixo da civilização. Por esse facto único, assombrosamente transfigurador da face da Terra, a Idade Moderna é filha de um pequeno povo de navegadores que, não lhe sendo fácil desenvolver-se pela expansão territorial, se viu obrigado a procurar no império das Águas o principal apoio da sua soberania militar e política.
​
Hoje como ontem, é no caminho do Mar que se encontra a chave do ressurgimento de Portugal. Hoje mais do que nunca, é no Poder Naval que reside a base, não direi já da hegemonia, mas, pelo menos, da independência e da defesa da Península. Quando falo da Península, falo necessariamente tanto de Portugal como de Espanha. Os mesmos interesses nos ligam – ligam-nos as mesmas aspirações. É património comum das duas pátrias peninsulares o que se nos depara de mais belo e de mais alto nas páginas de toda a história. Só espanhóis e portugueses souberam verdadeiramente colonizar, elevando as raças inferiores à participação de uma sociabilidade maior, repassada dos preceitos da fé cristã. Não ignoro que uma vasta conspiração de silêncio e de calúnia obscurece porfiadamente o nosso admirável esforço civilizador. Mas, sem dúvida, as suas piores consequências reflectem-se na indiferença criminosa que a portugueses e espanhóis os torna quase adversários irreconciliáveis. E, no entanto, uma sagrada irmandade nos prende – irmandade que, sem subirmos ao mistério criador das origens, se evidenciou e fortaleceu ao longo da epopeia formidável da Reconquista, quer nas Navas de Tolosa, quer no Salado. Por portugueses e espanhóis repartiu a bula de um Papa o mundo que estivesse por descobrir. No Mediterrâneo nos achamos ao lado uns dos outros, refreando os piratas que infestavam o lago da Cultura Antiga. E se olharmos para mais perto de nós – para há pouco mais de cem anos, já com bastantes cicatrizes a separarem-nos, o que é que nós presenciaremos ainda? Presenciaremos ainda espanhóis e portugueses, abraçados numa desforra heróica e tremenda, levar até à derrota mortal os exércitos prestigiosos de Napoleão!

E não se restringe apenas aos fastos da Guerra essa estreita e indisputável afinidade de portugueses e espanhóis. As Letras e as Artes acusam-na simultaneamente com vigor e brilho. Camões é clássico da língua castelhana, como o é Sá de Miranda, como o é Jorge de Montemor, como o é D. Francisco Manuel de Melo. Em troca, o nome de Portugal resplandece em todo o teatro do século de oiro com El Príncipe Constante, de Calderón de la Barca, com El Vergonzoso en palacio, de Tirso de Molina, com Reinar después de morir, de Vélez de Guevara. É que existiu uma consciência hispânica, tão bem definida no que respeita propriamente à poesia peninsular pela pena de D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos, quando com raro acerto lhe chama ‘bilinguismo literário’.

Exprimia-se esse bilinguismo literário, segundo a ilustre senhora, no curiosíssimo fenómeno de que «até fins do século XV a linguagem épica era para todos – espanhóis, galegos, portugueses e catalães – a castelhana (e facultativamente continuou a sê-lo nos séculos XVI e XVII), como a linguagem lírica fôra até 1350 a galego-portuguesa para portugueses, galegos e espanhóis (e mesmo para alguns trovadores limosinos) e continuou a sê-lo facultativamente até 1450. De onde resulta que romances escritos em castelhano nem por isso são necessariamente obra de castelhanos, continua D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos. E torna-se provável que o povo que burilou jóias tão finas como «En el mes era de abril» e «Gritando va el caballero» (e contribuíu de 1450 em diante para o Cancioneiro e Parnaso lírico com uma infinidade de composições valiosas, enriquecendo também o pecúlio da nação vizinha com novelas de cavalaria, novelas pastoris, comédias, obras históricas, etc.) colaboraria igualmente na parte anónima do romanceiro e antes disso na refundição jogralesca das gestas épicas».[1]

Nascido de condições impossíveis de se examinarem agora, o ‘bilinguismo-literário’, tão bem caracterizado por D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos, seria magnificamente personificado por Gil Vicente – epónimo glorioso da gloriosa dramaturgia castelhana, que, na rusticidade encantadora do seu encantador primitivismo, é na literatura da Península o equivalente lírico desse assombroso Nuno Gonçalves, de cujo pincel genial o senhor Beruete faz descender toda a pintura tida como genuinamente espanhola, ao considerar que «de cuantos primitivos peninsulares se conocen, es Nuno Gonçalves aquel en que se encuentran tan solo definidas y marcadas las caracteristicas de las grandes escuelas de nuestra Península».[2] Pois estes dois nomes – o de Gil Vicente e o de Nuno Gonçalves – me bastam a mim para que se autorize na minha evocação essa «despierta y feliz edad en que el sentimiento de la unidad hispánica dominaba la política y el arte de un al otro lado de la Península».[3] Porque o sentimento da unidade hispânica, acentuemo-lo desde já, não é a utopia aberrativa do Iberismo, negando a Portugal, como doutrina absorcionista, os direitos eternos da sua independência. É antes a confirmação da parte que aos portugueses pertence, como nação autónoma, dentro da história imortal da Península.
Se em Aljubarrota se consolidou definitivamente a separação política de Portugal e Castela (de modo nenhum a admitia o testamento de el-rei D. Fernando),[4] é igualmente certo que ninguém como a Casa de Avis sentiu a necessidade de uma aproximação política entre as duas nacionalidades, não se furtando nunca a orientar nesse sentido as suas preferências em matéria internacional.

Éramos então nós, os portugueses, poderosíssimos no mundo. E não pouco contribuiria para o alargamento da nossa influência e do nosso prestígio a reciprocidade concorde que nas suas relações se empenharam em manter desde certa hora em diante Portugal e Castela. O processo empregado foi, principalmente, o das alianças matrimoniais. «Les relations de parenté, d’alliance et de cousinage entre des maisons que simbolisent d’autre part d’éminentes rivalités d’intérêts nationaux, représentaient un degré de civilization et d’humanité qui est en partie abandonné...», escreve algures Charles Maurras. «C’était la fleur de leur pays d’origine que les reines portaient aux pays de leurs époux: les moeurs, les langues, les arts, les sciences, les lettres, la poésie... et il en resultait comme un aspect nouveau, moral, spirituel, de ce que la diplomatie appelait l’équilibre de nobre Europe, au temps où il existait encore une Europe», termina Maurras melancolicamente.[5]

Eis aqui o que sucedia entre Portugal e Castela. Sucedia desde sempre, desde a constituição do Estado-Português. Exactamente porque os antagonismos nacionais e dinásticos se chocavam a cada instante com extraordinária violência, é que a política humaníssima dos matrimónios-reais conseguia obter a harmonia necessária aos destinos superiores da Península, realizando uma constante correcção de ordem espiritual, que bem cedo se traduziu em benefícios ainda hoje difíceis de se olvidarem. Sobretudo, pelas razões sumariadas por Charles Maurras, ao salientar a influência que as rainhas significaram sempre a favor do país da sua naturalidade, que é houve uma unidade hispânica – é que a unidade hispânica se tornou possível!

É-me doce a mim, no meu demorado desterro, recordar o sulco luminoso que em Castela deixaram tantas e tantas princesas da minha raça! Refere-se Charles Maurras ao «grau de civilização e humanidade» que as relações de parentesco introduziam outrora na vida agitada dos povos. Verdadeiramente, que alto grau de civilização e humanidade se desprende da entrevista célebre de Valença do Minho[6] entre Santa Teresa de Portugal e D. Berengária de Castela! Uma guerra fratricida se evitou pelo simples poder do Espírito, encarnado ali em duas mulheres piedosas que, esposas divorciadas do mesmo monarca, possuíam fundos motivos para nem de longe se quererem avistar. Mas foi mais forte a fé militante daquele tempo, dando às consciências uma regra imperiosa de conduta social, que actualmente não se pratica nem tão pouco se conhece.

Graças a Santa Teresa de Portugal, Leão se uniu a Castela sem que o sangue corresse, sem que ‘las espadas loberas’ tivessem de prevalecer sobre ‘las fablas de dueñas’.[7] E para a minha emoção recolhida, com essa figura semi-desfeita de monja coroada e santificada, inicia-se uma teoria amorável de fantasmas que sobre a terra do exílio me aparecem às vezes diante da lâmpada do estudo, a alentar as minhas longas vigílias de expatriado. É Santa Mafalda, rainha como a primeira e tão esquecida como ela, menina e moça que bem depressa trocou a grinalda de noiva pelo véu de esposa do Senhor. Segue-se-lhe a «formosíssima Maria» do episódio célebre de Camões, que trouxe a Alfonso Onzeno o socorro de Afonso IV de Portugal.

Passeando a sua nevrose inquieta entre Arévalo e Madrigal, destaca-se agora da procissão enevoada a mãe da grande Isabel, Isabel também, que infiltrou na árvore débil e carcomida dos Transtamaras o sangue viçoso da Casa de Avis. Porque, sem recorrer a uma hereditariedade tão magnificamente dotada como era a hereditariedade dos «altos Infantes», Isabel-a-Católica apresenta-se-nos inexplicável, filha de um abúlico como Juan II e irmã de Enrique IV, igualmente incapaz do menor assomo de vontade. De certo modo assim o pensaria o Padre Flórez, ao esboçar-lhe o epitáfio nas Memórias de las Reinas Católicas: «di que sabemos los padres; pero no de quién heredó la heroicidad del ánimo».[8]

Mas eu não quero passar adiante sem arrancar ainda dos limbos da história duas princesinhas quase ignoradas que se adornaram com os florões da coroa de Castela. É uma, D. Constança, mulher de Fernando IV, el Emplazado; e a outra é D. Beatriz, casada com D. Juan I, o desventurado vencido de Aljubarrota. Filha de Santa Isabel, D. Constança constitui o penhor da paz negociada por D. Maria de Molina com el-rei D. Dinis. Morta em plena juventude, do seu ventre sairia o herói do Salado e toda a sua vida respira a sombra de tragédia que se alonga sobre o fim shakespeareano de seu marido. Sem esposo, sem trono e sem pátria, não é menos elegíaca a existência de D. Beatriz, que, esmagada debaixo do nome de Leonor Teles, sua mãe, não mereceu de nenhum escritor português a caridade erudita de a ressuscitar um pouco para a lembrança comovida dos seus compatriotas. E, no entanto, nada mais doce na sua penumbra discreta do que essa sombra de rainha que não se sabe bem onde está enterrada e de quem uma cronista escreveu: «perseveró en una ejemplar viudez: pues siendo moza y pretendida por diversos Príncipes, no quiso admitir segundo tálamo, dejando a la posteridad la memorable sentencia de que las mujeres como ella bien nacidas, y de buenas costumbres, no deben conocer dos maridos».[9]

Regressando, porém, ao fio dos tempos, e sem nos determos no estouvamento amoroso que deu o ser à ‘Beltraneja’ – entre nós, ‘Excelente Senhora’ –, eis que, atrás de Isabel-a-Católica, outra Isabel se destaca, envolta numa singular auréola de formosura. E a companheira querida de Carlos V, é a Imperatriz, cuja beleza suave e pensativa Ticiano fixou numa tela admirável, que ainda hoje nos impressiona quando visitamos o Museu do Prado. Levou a Imperatriz por sua morte aos caminhos da Santidade o gentil Marquês de Lombay, que em breve foi São Francisco de Borja. E Carlos V deplorou-a tão profundamente que o Cardeal Cienfuegos conta algures a esse respeito: «Las demostraciones del Emperador en esta desgracia fueron iguales a la pérdida, llorando tanto tiempo, y con tanta alma, que se conocía bien que con el trato de la Imperatriz, se le había pegado toda la ternura portuguesa.»[10] Mas não é apenas uma alma cheia de discreto perfume a alma de Isabel de Portugal, a quem Pizarro enviou do Peru, como despojo de guerra, um lindo ramo de esmeraldas com as palavras seguintes: «Y pues ellas mismas llevan consigo la esperanza, mande V.M. refrescar la que me queda, mandándome en que le sirva de particular, porque con esta memoria me tendré por pagado de lo que he servido.»[11]Reinando no coração dos Santos e dos Heróis, a Imperatriz governou sabiamente a Espanha[12] durante as longas ausências de Carlos V. E gerada do enlace de D. Manuel I com D. Maria de Castela, de Isabel de Portugal nasceu Filipe II que, unindo-se por seu turno à infanta D. Maria, sua prima, filha do nosso D. João III, daria lugar pelo seu casamento a episódios de amor romântico, bem longe de os suspeitarmos em tão concentrado carácter.[13]

Tais foram as principais obreiras da unidade hispânica, na qual residiu o segredo da hegemonia mundial da Península durante a Era de Quinhentos. A sua acção – a acção constante e persuasiva das plantas reais de Portugal, assim trasladadas ao sólio dos monarcas espanhóis – completava-se eficazmente em duração e extensão pela acção não menos perseverante do numeroso séquito que das margens do Tejo as acompanhava – damas, fidalgos, tangedores, toda uma turba rumorosa de servidores da mais variada categoria. Nomearei num rápido apontamento, e sem sair do mundo feminino, D. Beatriz da Silva, precursora do culto da Imaculada e actualmente às portas da beatificação. Irmã do beato Amadeu, D. Beatriz da Silva passou a Castela na comitiva de D. Isabel de Portugal, mãe da grande Isabel, e a sua intensa vida moral inspirou a Tirso de Molina uma comédia conhecidíssima. No cortejo aberto por D. Beatriz da Silva avançam depois, embora com menos transparência, mas também num florido recorte, os perfis nobilíssimos de D. Isabel Freire, de D. Leonor de Castro e de D. Leonor de Mascarenhas. D. Isabel Freire é a ‘Elisa’ de Garcilaso de la Vega[14] – a Elisa que choraria amargamente na sua dor de lírico apaixonado:

«Do están aquellos claros ojos
que llevaban tras sí como colgada
mi alma doquier que ellos se volvían?
…
Aquesto todo ahora ya se encierra
por desventura mía
en la fría, desierta e dura tierra
.»[15]

Quanto a D. Leonor de Castro, da casa da Imperatriz Isabel, cabe-lhe a honra de haver desposado aquele que se chamaria São Francisco de Borja. Por sua vez, D. Leonor de Mascarenhas, comparada por Sá de Miranda a Vitória Colona, é uma das mais activas colaboradoras da Contra-Reforma em Espanha. A imperatriz Isabel confiou-lhe a educação do futuro Filipe II, que lhe entregaria mais tarde a do desgraçado príncipe D. Carlos. Sanches Coelho deixou-nos presumivelmente o retrato de D. Leonor de Mascarenhas,[16] que terminou os seus dias num convento da sua fundação. Amiga dedicada de Santo Inácio e da sua Ordem, então nascente, D. Leonor de Mascarenhas, que por uma hipótese sorridente teria prendido na juventude aos encantos do seu espírito e da sua beleza o galhardo D. Íñigo López de Recalde, com o seu alto prestígio ditou as direcções morais da côrte de Filipe e desembaraçou o caminho da Companhia de Jesus quando da sua introdução em Espanha.[17]

Compreende-se, com tão forte penetração e com ambiente tão propício, como em mais de um conflito entre Portugal e Castela as nossas princesas interviessem eficazmente, não cabendo apenas às senhoras da dinastia de Avis essa glória inolvidável. Já antes com Santa Teresa de Portugal e a «formosíssima Maria» nós sabemos quantas contendas peninsulares se abrandaram e solucionaram, unicamente pelo poder tocante do coração e do parentesco. Aragonesa de nascimento, Santa Isabel Rainha promoveria na entrevista de Fuente-Guinaldo com D. María de Molina», D. María la grande, «as pazes de Portugal com Castela. A tradição que vinha assim da primeira dinastia portuguesa não fizera outra coisa senão avigorar-se na dinastia imediata – na que entroncava em Aljubarrota, precisamente. Na verdade, com a dinastia de Avis é que se intensifica, como nunca, o acrisolamento dos laços sentimentais e culturais, por cuja virtude pacífica Portugal e Espanha mereceram de Deus a graça de criarem no mundo um tipo imperecedor de civilização. Não nos esqueçamos por isso da nossa infanta D. Brites, tia de Isabel-a-Católica e sogra do Príncipe-Perfeito, que, em seguida a Toro, aproxima e reconcilia os dois ramos divididos da família.

Tão íntima, tão estreita afinidade, vai até ao extremo de o elemento familiar português ser decisivo na composição fisionómica dos Áustrias espanhóis. Efectivamente, se apli carmos a Filipe II – o seu exemplar mais representativo as conhecidas leis de Galton sobre a hereditariedade, verificaremos que Filipe II, fisiologicamente, quase realizou um caso de puro e exclusivo lusitanismo. Na sua valiosa monografia Portraits d’infantes,[18] observa Mme. Louise Roblot-Delondre acerca de um crayon da infanta D. Maria de Portugal, guardado no Museu Condé em Chantilly, que D. Maria tinha «le masque allongé des princesses de la Maison d’Avis, type de race qui, allié au type impérial, deviendra celui de la plupart des infantes».[19] Ora o «tipo imperial», que outro não era senão o da casa de Áustria, trazia já na sua ancestralidade uma forte adição portuguesa. Carlos V, descendente do Mestre de Avis e do Santo Condestabre por sua avó Isabel-a-Católica, descendia também do nosso D. João I por Filipe-o-Belo, seu pai – este, por sua vez, neto paterno de uma portuguesa – a varonil imperatriz D. Leonor,[20] e bisneto materno da Duquesa de Borgonha, D. Isabel, única filha nascida do casamento do Mestre de Avis com D. Filipa de Lencastre.

Perdoem-me a impertinência genealógica! Mas creio demonstrar graficamente a elevada dosagem com que se operara a influência portuguesa até na própria estrutura familiar da dinastia que melhor personificou as aspirações da Espanha imortal. Já com D. Afonso VI, vencido em Toro por Isabel-a-Católica, se verificara uma coincidência notável. E é que descendia de D. João I de Castela, ele, o monarca português, no mesmo grau em que Isabel descendia do Mestre e do Condestabre, vencedores em Aljubarrota. Nada nos evidencia, como essa circunstância, os vínculos de apertada ligação que acolchetavam entre si os portadores do ceptro glorioso das duas gloriosas nacionalidades peninsulares. Em Filipe II então, engrossado muito mais o seu abundante atavismo português por via da Imperatriz sua mãe, à hereditariedade física juntava-se a hereditariedade psicológica. Assim não nos surpreende que o Áustria taciturno o rei que justamente Salaverría define como «un rey entero, sincero, que sintió el destino de España en toda su trágica grandeza»,[21] sofresse também o mal lusitaníssimo da saudade. Filipe mesmo no-lo confessa numa passagem preciosa da correspondência trocada com as infantas suas filhas, quando se foi a ser jurado nas côrtes de Tomar. «De lo que más soledad he tenido es del cantar de los ruiseñores, que hogaño no los he oído»,[22] desabafa Filipe enternecidamente.

Eis o bastante para se perceber quanto Portugal valia e pesava e apenas por obra e graça das suas princesas! – nas tendências mais fundas da sociedade castelhana durante aquele período de esplendor e podério para as duas metades da Península. Prova-o Mme. Roblot-Delondre no seu citado trabalho quando se refere às «modas portuguesas»,[23] que os retratistas da escola de Sanches Coelho nos mostram como predominando na côrte de Espanha até que chega Isabel de Valois com «les robes très amples et les grandes doubles manches formant manteau de cour». Mas em que consistiam as ‘modas portuguesas’? «Les modes portugaises – explica-nos a simpática autora do estudo iconográfico Portraits d’infantes – sont caractérisées par la simplicité des grandes lignes qui suivent de près la forme du corps, par l’emploi de velours de granade aux tonalités sombres et chaudes, enfin par une sobriété de bon goût – não olvidemos que fala a autoridade especial de uma senhora! – dans la distribution des puntas et des bijoux.»

Se em tão miúdos detalhes Portugal deixava de si vestígios inapagáveis, não é para admirar que o seu nome enchesse as mais belas páginas da literatura espanhola do século de oiro. Eram os últimos ecos do paralelismo social e político que florira tão alto no conceito da unidade superior da Península, a ponto de Camões exclamar no seu poema: «Eis aqui se descobre a nobre Hespanha, / Como cabeça ali da Europa toda».

Pelo mesmo sentimento Fernando de Herrera na sua «Canción por la pérdida del Rey Don Sebastián»[24] consideraria como um desastre peninsular a catástrofe de Alcácer-Quibir, onde, ao lado dos cavaleiros portugueses, tombaram bastantes soldados espanhóis. Assim é-nos grato para nós, portugueses, ouvi-lo invocar

«… los famosos,
los fuertes y belígeros varones
que conturbaron com furor la tierra,
que sacudieron reinos poderosos,
que domaron las hórridas naciones
…
com’ así se acabaron, y perdieron
tanto heróico valor en solo un día,
y lejos de su patria derribados,
no fueron justamente sepultados?»



*

Tamanha se revelava a reciprocidade das duas pátrias, identificadas, inclusivamente, na desgraça! Reciprocidade derivada de um largo passado comum, vai das Armas às Letras, vai da Política à Arte – insisto. Divergências momentâneas podem estalar aqui e além, como no caso de Fernando de Magalhães. Mas o embate dos interesses nacionais é sempre corrigido pela lei eterna do Sangue e da História, que nos faz encontrar, a cada passo, portugueses servindo debaixo das bandeiras de Castela e espanhóis servindo debaixo das bandeiras de Portugal. E a regra que domina nas relações entre os dois povos é desta forma a de uma cooperação com tanto de amigável como de espontânea.

Iniciada pela política matrimonial dos Reis-Católicos, essa cooperação amigável entre Portugal e Espanha traduz-se bem cedo, e proveitosamente, na repressão da pirataria berberisca, com a nossa ida à conquista de Tunes. Conta-se que Carlos V, em face do valor da esquadra comandada pelo infante D. Luís, não se contivera sem exclamar que, se fosse senhor de Lisboa, em pouco tempo o seria do mundo inteiro. O reconhecimento da importância de Portugal como factor imprescindível para que a Península, colocada entre dois mares, se defenda e imponha pelos meios que só o Poder Naval lhe oferece, está todo definido no desabafo do Imperador. Mais tarde o sentiria igualmente, embora em posição diversa, alguém que foi um dos maiores obreiros do Portugal Restaurado. Refiro-me ao Padre António Vieira – o célebre jesuíta, a cuja incansável actividade e alto génio político o fundador da dinastia de Bragança deveu em boa parte a sua consolidação no trono. Trata-se de um dos episódios mais mal interpretados da nossa longa luta com Filipe IV, quando do acto libertador de 1640. Apoiados externamente por Richelieu, Mazarino, seu sucessor, viria a abandonar-nos em 1659 na paz dos Pirenéus. Em guerra no Brasil com a Holanda, ameaçados de que a paz da Espanha com a França, já desenhada no horizonte, reduzisse Portugal a um estado quase insustentável de resistência, o Padre António Vieira mediu com um golpe de águia a situação e resolveu esconjurá-la, indo absolutamente ao encontro dela e aproveitando-a em quanto, por ventura, pudesse beneficiar a Portugal. Mas como? Negociando, nada mais, nada menos, do que o casamento do príncipe herdeiro de Portugal, D. Teodósio, morto depois prematuramente, com a princesa D. Maria Teresa de Áustria, a essa data (1650) única herdeira de Filipe IV.

Não me é fácil acompanhar aqui a marcha e o desfecho de uma tentativa tão curiosa, como obscurecida, da velha política peninsular. O que nos prova mais uma vez é que, se o Iberismo, como doutrina unitarista, é a cada passo desmentida pela Geografia e pela História, o Peninsularismo, na sua expressão de solidariedade afectuosa, é, exactamente, uma indicação constante da mesma Geografia e da mesma História. Assim nós vemos a todo o instante os dois países Portugal e Espanha, por mais desavindos que andem, regressarem pela força dos acontecimentos a um princípio de colaboração e entendimento, que antigos factores de divisão não deixam depois consumar-se em consequências duradoiras e fecundas.

Sabemos como em Portugal a Casa de Avis, interessada de perto na política matrimonial dos Reis-Católicos, preparara um raro momento de identidade de aspirações e glória dentro da vida social e cultural da Península. Ao inverso do que frequentemente se imagina, a Casa de Bragança não se empenhou menos em o alcançar, conduzida pelas razões já citadas da Geografia e da História que um dia – quem sabe se já bem próximo? – acabarão por se impor às inteligências mais obcecadas, ditando às duas pátrias hispânicas a verdadeira norma do seu destino comum e imortal. Demonstra-no-lo bem, logo a dez anos do feliz movimento revolucionário que nos emancipou do centralismo odioso do Conde-Duque, a atitude, ainda para tantos incompreensível, do Padre António Vieira. Muitos anos decorridos, escutá-lo-emos justificar-se no seu Sermão de acção de graças pelo nascimento do príncipe D. António, filho de D. Pedro II, em 1695. Diria então o famoso jesuíta:

«Agora me consintam os portugueses que lhes tire uma espinha da garganta. Porque estão notando a El-Rei (D. João IV) que quisesse neste contracto (o do casamento de D. Teodósio com D. Maria Teresa de Áustria, como referimos) desfazer o que tinha feito, e tornar a unir o que tinha desunido. Mas é porque até agora calei uma cláusula do projecto, sem a qual eu também não havia de aceitar a comissão.» A cláusula é que no tal caso a cabeça da monarquia havia de ser Lisboa; e deste modo se conseguia para o nosso partido a segurança, e para o governo da monarquia a emenda. O erro que tem causado muitos em Espanha, como ponderam os melhores políticos, é estar a côrte em Madrid. Por isso el-rei Filipe o segundo, quando veio e viu Lisboa, logo a sua prudencia determinou e prometeu passar a côrte para ela. E a esse fim se começou a edificar aquela parte do palácio a que chamam o Forte. Tendo Espanha tanta parte dos seus domínios no mar Mediterraneo, tanta no mar Setentrional, e tantas e tão vastas em todo o mar Oceano, havia de ter a côrte onde as ondas lhe batessem nos muros: e dependendo todo o manejo da monarquia da navegação de frotas e armadas, e dos ventos que se mudam por instantes,[25] que política podia haver mais alheia da razão, que tê-la cem léguas pela terra adentro, onde os navios só se vêem pintados e o mar só na água pouca e doce, que o Inverno empresta ao Mançanares?»[26]

Desculpem os madrilenos que me leiam a ironia do grande jesuíta à pobreza arrastada do seu rio natal! Não se assomem do outro lado da fronteira os meus compatriotas mais irritaveis, se no eco das minhas palavras chegar lá o eco das palavras do Padre António Vieira!

Com uma visão profundíssima de homem de Estado, o ilustre jesuíta considerava bem que, sendo o Poder Naval («e dependendo todo o manejo da monarquia da navegação de frotas e armadas», declarara ele) a base do império filipino, o seu eixo se desviaria naturalmente para as ribeiras do Oceano, com Lisboa por capital e a herdeira do trono espanhol aliada matrimonialmente ao herdeiro do trono português.

E o pensamento do Padre António Vieira precisa-se em termos de inteira justificação nas Instruções diplomáticas, recebidas a tal respeito do próprio D. João IV. Pondera o monarca: «Pode parecer-lhes (aos negociadores) grande inconveniente ficarem o Príncipe e a Infanta os anos que Deus for servido dar-me de vida privados do título e governo de reis, e ficá-lo eu logrando. Será ainda mais duro de tragar a El-Rei de Castela e seus ministros; porém é tal o amor que tenho ao Príncipe, e tal a confiança que tenho do seu, e desejo tanto ver a meus vassalos o descanso da paz, que facilmente vencerei este inconveniente renunciando-lhe a coroa com tal condição que assim ele como a Infanta hão neste caso de viver no Reino, sem sair dele nem irem a Castela.»[27]

Por certo que não agradaria à política de Filipe IV a proposta da côrte de Lisboa. «A negociação pretendeu levar-se a efeito em Roma, com rasgada aquiescência, especialmente, do cardeal Lugo – «em tudo eminentíssimo», esclarece o Padre António Vieira. Mas o embaixador espanhol, que era o Duque do Infantado, opôs-se terminantemente, mesmo a quaisquer aproximações preambulares, intimando ao Geral da Companhia que mandasse sair de Roma o irrequieto filho de Santo Inácio, que tão alto punha os seus olhos, tendo apenas em vista o bem da sua pátria. Assim fracassou o projecto do matrimónio do príncipe D. Teodósio com D. Maria Teresa de Áustria, que estava longe de ser um baixo recurso oportunista de quem não pensasse senão em se subtrair habilidosamente a um lance apuradíssimo. Dotado de uma rara penetração política, o Padre António Vieira considerava bem que se a monarquia filipina não subsistiria intacta sem o concurso do Poder Naval, o Poder Naval não lhe seria possível sem Lisboa. Ora a capital em Lisboa... e eu juro que a todos os portugueses a ideia sorriria francamente!

Mas o Padre António Vieira enganava-se, supondo que uma transferência de capital de Madrid para Lisboa motivaria na Península o predomínio de Portugal. Sem dúvida que, seguindo a atracção irresistível dos litorais, Castela passaria a incorporar-se na influência da vertente atlântica da Península. Mas não resta dúvida também que o Aragão e a Catalunha se desviariam, por imposição das próprias leis geográficas, para um rumo abertamente oposto. Porque, relacionando os factos com as causas que os determinam e concatenam, teremos de reconhecer que a hegemonia de Castela na Península terminou com a batalha de Toro. Se o partido de D. Joana ali houvesse vencido, Castela andaria hoje unida a Portugal, abalando então connosco à conquista do império das Águas. Venceu o partido de Isabel e, no fim de contas, quem venceu foi o Aragão, que arrastou Castela consigo para os conflitos subsequentes da Itália e da Europa-Central. Iludia-se, pois, o glorioso jesuíta ao acreditar que Portugal se engrandecia, engrandecendo-se com a assimilação da monarquia espanhola. Ocorreria seguramente a Portugal o que ocorreu a Castela quando, fazendo idêntica experiência, tentou a nossa fusão. Um fermento de permanente discórdia não permitiria nunca às duas nacionalidades lograr o mais pequeno instante de sossego. Outra é, por conseguinte, a lição a tirar dos propósitos políticos do Padre António Vieira. Realmente, no Poder Naval reside a condição fundamental do prestígio da Península. Reside, no entanto, numa forma de acto bilateral em que nenhuma das duas soberanias em presença seja diminuída ou subalternizada. A essa condição insofismável nos conduzem os ensinamentos do Passado, mostrando-nos com firmeza que é onde devemos ir buscar a chave do nosso futuro – do futuro de ambos os povos peninsulares.

Não o definia bem a intuïção de Carlos V em Tunes, ao apetecer o porto de Lisboa para que se tornasse um dia possível o seu sonho de senhorio ecuménico. Não o definia bem, mas adivinhava-o. Adivinhá-lo-ia igualmente Filipe II, aparelhando contra Isabel de Inglaterra a Invencível-Armada. O poderio marítimo da Grã-Bretanha começava a levantar-se. Quis Filipe sufocá-lo no berço. Não lho consentiu o destino – não lho consentiu a fúria desencadeada dos elementos. E com o tremendo desastre sumiu-se num demorado crepúsculo a preponderância da Península sobre os dois mares, que Deus parece ter confiado à sua guarda.

Vítima de uma calúnia secular que só agora a crítica histórica começa a desfazer, a ‘lenda negra’ em que se envolve a personalidade de Filipe II desvirtua obstinadamente os intuitos que determinaram o Áustria, sempre reflectido e prudente, a atacar a Inglaterra dentro da sua própria casa. Ouçamos a este respeito um testemunho cheio de autoridade, por partir de alguém que não é pródigo em predileções espanholistas.

«Toda a gente conhece a forma simplista como os fenómenos da história de Portugal são em geral entre nós apresentados e apreciados: D. João III passou a vida a olhar para as fogueiras da Inquisição; D. Sebastião, fanatisado pelos jesuítas, levou o país a Alcácer-Quibir; mais tarde D. João V viveu entre Odivelas e Mafra, e o país oscila entre a Inquisição e os jesuítas, e entre os jesuítas e a Inquisição, até que o Marquês de Pombal o livrou de tudo isso» – escreve algures, na sua monografia O ultramar português,[28]o conselheiro Aires de Ornelas. Mas a quem se dá hoje ao trabalho de estudar ou procurar estudar a história pátria custa-lhe a contentar-se com esta filosofia da história bebida na fonte insuspeita da Dedução Cronológica. Chega por exemplo à conclusão de que a política marroquina de D. Sebastião era não só a verdadeira e tradicional política portuguesa, mas até representava a reacção contra o abandono das praças de África iniciado no reinado anterior. Camões, um dos mais livres e esclarecidos espíritos da Renascença, uma das mais poderosas inteligências do seu tempo, o mais genuino representante da tradição nacional, defendeu, preconizou, impulsionou até, essa política em estrofes imortais. E não julgamos que ele fosse jesuíta ou inquisidor. Da mesma forma o projecto da conquista da Inglaterra, consubstanciado, por assim dizer, na Invencível Armada, é atribuído muitas vezes ao ‘fanatismo’ de Filipe II que assim queria convertê-la à viva força ao Catolicismo. Mas como esse projecto representa de facto a sequência natural da política espanhola em relação à Inglaterra, e como essa política tendia sobretudo a manter ileso o poder naval da Península, cabe aqui naturalmente expor, ainda que muito em resumo, o que ela era e o que tinha sido.»

E o conselheiro Aires de Ornelas continua: «A tradição nacional espanhola pedia a aliança com a Inglaterra, não só para contrabalançar aquela que de tempos imemoriais se estabelecera entre a Escócia e a França, mas ainda e sobretudo para evitar que os domínios flamengos de Casa de Borgonha caísssem sob o poder da França. Toda a política de Carlos V e a da casa de Áustria na Flandres está nisto. Para se perceber como este problema era vital para a Inglaterra, basta notar que, com a França senhora dos mares do Norte desde a Mancha até à Escócia, não havia para ela um momento de sossego; e da mesma forma, o principal mercado estrangeiro do comércio inglês, a Península hispânica, estaria igualmente à mercê do seu inimigo secular. E acrescentamos ainda que, para o comércio da Península, o nosso, especialmente desde a descoberta do caminho para a Índia, era de vital importancia ter livre o acesso do Mar do Norte e manter assim seguro o tráfego com as feitorias de Flandres.»

Ora para a política de Filipe a necessidade em que se baseava essa tendência da Espanha para com a Inglaterra não tinha de modo nenhum deixado de existir. O seu casamento com Maria Tudor significa bem o quanto preocupava a Filipe o prosseguimento de uma aliança entre as duas nações a ponto de se esquecer por completo o repúdio de Catarina de Aragão por Henrique VIII e mais tarde ser o próprio Filipe o primeiro a favorecer as pretenções de Isabel ao trono de Inglaterra. O que, seguramente, estava em desacordo com o tal ‘fanatismo’ de Filipe II, pois, como comenta ainda o conselheiro Aires de Ornelas, «se Isabel não subisse ao trono, a quem ele caberia era a Maria Stuart, a um tempo rainha da Escócia e casada com o herdeiro da Coroa de França».
É Isabel que rompe com Filipe, empreendendo um ataque sistemático ao poder naval espanhol, tão depressa sentiu a coroa segura. Os corsários ingleses salteiam os galeões castelhanos, carregados de oiro, e Drake deixa um rasto de ruína e sangue nos domínios americanos de Filipe. Os intentos de Isabel são já manifestos. Mas Filipe não se decide ainda, não vá prejudicar-se com algum movimento precipitado. «Na realidade, para um fanático que não pensava senão em converter a Rainha de Inglaterra era bastante condescendente e vagaroso!» «Foi só quando a necessidade da luta se tornou nele uma convicção – prossegue o autor de O ultramar português – que naturalmente se lembrou de buscar um aliado no sentimento religioso, unindo o mundo católico numa espécie de cruzada contra o crescente e ameaçador desenvolvimento do poder naval protestante.»

E Aires de Ornelas acrescenta: «Aí por 1586, o projecto de operações da Armada pode julgar-se completo: o Rei tinha então em seu poder o elaborado e volumoso estudo da sua organização e o subsequente plano de campanha, monumento admirável de conhecimentos técnicos e precisão militar devido ao génio do grande homem de guerra que foi o Marquês de Santa Cruz. E não só são curiosas as coincidências que apresenta com o que mais tarde formou o génio de Napoleão para a resolução do mesmo problema, mas ainda nos seus traços gerais podemos dizer que concordam por completo. Resumia-se em conduzir a Flandres uma armada formidável, embarcar aí o exército comandado por Alexandre Farnese, e, desembarcado este na costa de Inglaterra, marchar sobre Londres.»

No propósito em que nos empenhamos de demonstrar quanto para a vida e para a supremacia da Península o Poder Naval constitui um factor de capital importância, não é indiferente acompanhar de perto os planos de Filipe II no golpe dirigido por ele contra a Inglaterra. Veremos assim, para honra e glória do génio peninsular, apesar do desfecho trágico em que epilugaram tantos e tão dispendiosos preparativos, como Napoleão foi antecedido precisamente dois séculos no emprego dos mesmos meios pelos admiráveis colaboradores do filho de Carlos V. «A armada de Santa Cruz desempenharia no Canal da Mancha o papel que mais tarde Napoleão destinava à de Villeneuve: manter aí o poder naval enquanto se efectuasse a travessia do exército e a sua subsequente manobra sobre Londres. Mas a Napoleão faltou o porto de Lisboa, base natural de semelhante operação naval, e por isso teve de complicar o seu projecto com elaboradas manobras para fazer sair dos respectivos portos as esquadras que Villeneuve devia concentrar na sua mão, e a falta de uma tão perfeita e adequada base naval não foi das que menos contribuiram para o malogro dos planos imperiais. Não teve este senão o projecto de Filipe, mas a morte de Santa Cruz e a sua substituição pelo Duque de Medina-Sidónia, que nunca navegara, foi por certo bem mais prejudicial do que a morte de Latouche Tréville e a sua substituição pelo vencido de Trafalgar havia de vir a ser para Napoleão.»

Um destino funesto quis pôr ponto final no poderoso navalismo peninsular. Só Portugal se fizera representar na Invencível-Armada com dez galeões e duas galeras, levando 3.286 soldados, 1.712 marinheiros e 384 bocas de fogo. Tudo por lá ficou desfeito no mar do Norte, numa guerra sem tréguas com a fúria dos elementos e a perícia estremada da gente de Drake.
E a Península entrou a sumir-se no demorado eclipse que não terminou ainda e que só encantrará remate quando a aliança peninsular volte a restaurar o sentido perdido da antiga unidade hispânica.


​
[1] Estudos sobre o Romanceiro peninsular (Cultura española, n.º 7, 1907). Não vem fora de propósito fixar aqui a conhecida passagem do Proémio do Marquês de Santillana ao Condestável de Portugal acerca das origens galaico-lusitanas da poesia lírica espanhola. «Y después hallaron este arte que mayor se llama y el arte común creó, en los reinos de Galicia y Portugal, donde no es de dudar que el ejercicio de estas ciencias más que en ningunas otras regiones ni provincias de España se acostumbró; en tanto grado que no ha mucho tiempo cualesquier decidores y trovadores de estas partes, ahora fuesen Castellanos, Andaluces, o de la Extremadura, todas sus obras componían en lengua gallega o portuguesa.» (Obras de D. Íñigo López de Mendoza, marqués de Santillana... compiladas por don José Amador de los Ríos, Madrid, 1852.)

[2] Discursos pronunciados no banquete oferecido ao académico espanhol Dr. D. Aureliano de Beruete y Moret, Lisboa, MCMXVI. O senhor Beruete y Moret, depois de afirmar que «Nuno Gonçalves no tiene antecedentes, ni se parece a nadie», acrescenta ainda que na personalidade do nosso pintor quatrocentista crê ver «un origen, una primera interpretación de un modo pictórico, de características, que son después las que tan grande hacen no ya solo el arte portugués, cosa que sería perfectamente explicable, sino el arte peninsular, el arte español».

[3] D. Ramón Menéndez Pidal, Discurso acerca de la primitiva poesia lírica española. Foi lido no Ateneo de Madrid em 29 de Novembro de 1919. Vide p. 78.

[4] Veja-se o tratado de Salvaterra de Magos, de 2 de Abril de 1383, D. António Caetano de Sousa, História geneológica da Casa Real, Provas, tomo I, p. 296. «Os incessantes esforços de D. Fernando para manter a integridade de Portugal manifestaram-se em todos os seus actos e sobre todos no célebre tratado de Salvaterra (1383), em que excluíu do trono sua própria filha e o rei de Castela, passando a corda ao filho que de estes nascesse, quando chegasse à maioridade. Como o rei estrangeiro tinha outro filho que reinaria em Castela, ficava assim assegurada a autonomia de Portugal». (Conde de Vila-Franca, D. João I e a aliança inglesa, p. 2, nota 2.)

[5] L’Action Française de 16 de Outubro de 1915. Citada por M. Waliez no seu livro La Belgique de demain et sa politique, Bruxelas e Paris, 1916.

[6] Não concordam os historiadores em qual Valencia seria. O cronista das Ordens Militares espanholas, Frei Francisco Rades y Andrade, opta por Valencia de D. Juan no antigo reino leonês. É essa também a opinião do meu ilustre amigo D. Antonio Ballesteros na sua belíssima Historia de España y su influencia en la historia universal, em publicação (Vid. tom. II, p. 273). Por seu lado, o Padre Luis Coloma no seu conto «Fablas de dueñas» localiza o encontro de Santa Teresa com D. Berengaria em Valência de Alcântara.

[7] Alusão ao episódio contado pelo Padre Luís Coloma, «Fablas de dueñas», no seu volume Historias varias. 

[8] Volume II, edição de 1761.

[9] Memorias de las Reinas Católicas, já citadas, tomo II, p. 697.

[10] Álvaro Cienfuegos, La vida del grande São Francisco de Borja, Madrid, 1717, lib. II, cap. VI, § 2, p. 55.

[11] Antonio Jaén, Retratos de mujeres (Monografías de historia y arte), Segovia, 1917. 

[12] Sobre a imperatriz Isabel veja-se a interessante monografia de D. Javier Vales Failde, cura de Palácio, auditor do tribunal da Rota e Reitor da Universidade Católica de Madrid, La imperatriz Isabel, Madrid, 1917. 

[13] Sobre D. Maria de Portugal, há um curioso artigo de Henrique Pacheco y de Leyva no Blanco y Negro de 30 de Novembro de 1919.

[14] D. Isabel Freire é também a Célia, de Sá de Miranda, que teve por ela uma paixão intensíssima – se é que não influíu antes no poeta o conceito platónico da Renascença, de que foi um exemplo perfeito a amizade de Miguel-Ângelo com Vitória Colona. Bernardim Ribeiro na sua Écloga alude ao amor de Sá de Miranda (Franco de Sandovir) por D. Isabel Freire (Célia), dizendo que «o desterraram por ela». Também D. Isabel Freire foi celebrada por Sá de Miranda na écloga «Célia», a que deu o nome.

[15] Garcilaso, Obras, écloga I, Madrid, Ediciones de La Lectura, 1911, pp. 18-19. 

[16] Atribui-se também a Frei Juan de la Miseria.

[17] Vid. Poesias de Sá de Miranda, edição de D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos, pp. 39-40 e 744-745. No Boletín de la Sociedade Española de Excursiones, ano XXVI de sua publicação, vem com o retrato de D. Leonor de Mascarenhas um curioso artigo do crítico de arte D. Javier Sánchez Cantón. Filipe II prezava tanto a D. Leonor de Mascarenhas que lhe entregou a educação do príncipe D. Carlos com as seguintes palavras: «Este niño no tiene madre, sedlo vos suya, como fuistéis mía.»

[18] Portraits d’infantes. XVI siècle (Étude iconographique), Paris e Bruxelas, Van Oest & Cie., 1913.

[19] Ob, cit., p. 27.

[20] Sobre tão admirável figura de mulher, honra da nossa raça, aconselhamos a leitura do excelente estudo de Luciano Cordeiro, Uma sobrinha do Infante imperatriz da Alemanha e rainha da Hungria, Lisboa, 1894.

[21] La afirmación española, Barcelona, 1917, p. 65.

[22] Gachard, Lettres de Philippe II à ses filles les infantes Isabelle et Catherine, écrites pendant son voyage en Portugal, Paris, 1884, p. 161.

[23] Ob. cit., p. 75.

[24] Fernando de Herrera, Poesías, edición y notas de Vicente García de Diego, Madrid, 1914, p. 80.

[25] O normando é meu.

[26] Transcrição do senhor J. Lúcio de Azevedo na sua História de António Vieira, tomo I, Lisboa, 1918.

[27] Transcritas também na obra citada do sr. J. Lúcio de Azevedo.

[28] Porto, Companhia Portuguesa Editora, 1919.

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