Se ainda é tempo!
António Sardinha
RESUMO
António Sardinha analisa a complexa situação política e histórica de Marrocos e o seu impacto direto na autonomia da Península Ibérica, destacando as rivalidades entre França, Espanha e Portugal. Argumenta que a presença de potências estrangeiras inamistosas no Norte de África representa um perigo para a independência peninsular, advogando a necessidade da aliança entre Espanha e Portugal para proteger interesses comuns e reforçar o poder naval como garantia de futuro e prestígio internacional.
Marrocos, Península Ibérica e o Futuro Peninsular: Lições e Perspectivas
- Introdução. António Sardinha examina a relevância estratégica de Marrocos para a Península Ibérica, destacando a ligação entre fatores geográficos, históricos e políticos que moldam o presente e futuro de Portugal e Espanha. Com a presença de potências estrangeiras não amistosas no norte de África haverá uma ameaça direta à autonomia e ao equilíbrio peninsular, sendo o reforço do poder naval e a cooperação luso-espanhola imperativos centrais.
- O Valor Geopolítico da Península Ibérica. A Península Ibérica, situada entre o Atlântico e o Mediterrâneo, tem uma posição estratégica que historicamente lhe conferiu protagonismo marítimo e comercial. A conjugação do fator geográfico com o elemento humano é vista como uma oportunidade para transformar um presente difícil num futuro de maior prosperidade. Essa transformação depende de profundas reformas intelectuais e políticas em ambos os países, com destaque para a necessidade de reorganizar o poder naval como instrumento de defesa e de projeção internacional.
- A Perda de Gibraltar e a Questão de Marrocos. A perda de Gibraltar é identificada como um episódio crítico porque privou a Espanha do controlo de uma passagem estratégica, dificultando a ligação entre o Atlântico e o Mediterrâneo. Se existir uma aliança sólida com Portugal, a presença espanhola em Ceuta pode ser um possível contrapeso. Bem mais grave foi a instalação da França em Marrocos, alterando o equilíbrio regional e colocando em risco as comunicações e a segurança de toda a Península. Sardinha destaca a negligência dos governos espanhóis e portugueses perante o avanço francês, sublinhando que tal desatenção teve profundas consequências económicas e políticas, com reflexos na agricultura, exportações e autonomia peninsular.
- Consequências Económicas e Políticas da Dominação Francesa. A presença francesa em Marrocos é vista como uma ameaça à economia de Espanha, com impacto direto nas exportações de produtos agrícolas e, em última instância, no equilíbrio social espanhol. Sardinha cita pensadores e políticos espanhóis que anteciparam a crise, sublinhando que o desinteresse pelo destino de Marrocos foi um erro estratégico. O domínio francês, ao criar dificuldades de comunicação entre a Península e as Canárias, tornou a defesa do território espanhol mais onerosa e complexa.
- O Papel de Portugal e o Significado Histórico de Marrocos. Portugal, apesar de ter perdido influência direta em Marrocos desde a evacuação de Mazagão, não deveria ignorar a questão marroquina, pois o seu destino está intrinsecamente ligado ao da Península. Para Portugal, o interesse em Marrocos representa uma oportunidade de recuperar prestígio atlântico e de reafirmar a sua vocação ultramarina. As riquezas naturais e a posição estratégica do sultanato justificariam uma participação ativa portuguesa, consolidando laços históricos e respondendo às ameaças externas.
- Erros Políticos e Estratégicos Peninsulares. Sardinha crítica a condução da política de Espanha e de Portugal. Em Espanha, a incapacidade de transformar a derrota colonial de 1898 numa política de compensação em África levou à perda de oportunidades em Marrocos. Apenas algumas vozes isoladas, à esquerda e no tradicionalismo, reconheceram a gravidade da situação. Em Portugal, a apatia e a falta de visão estratégica agravaram o problema, com os governos mais preocupados com os interesses imediatos do que com a integridade nacional.
- A Rivalidade Franco-Espanhola e o Perigo para a Península. A rivalidade entre a França e a Espanha em Marrocos é pormenorizada com base em testemunhos como o de André Fribourg, que alerta para o perigo representado pela forte presença espanhola na Argélia e para os esforços franceses de assimilação populacional. Sardinha põe em evidência que a França vê o protetorado espanhol no Rif como um obstáculo à sua hegemonia e que, caso a Espanha não consiga consolidar a sua posição, a tendência será para o desaparecimento do seu domínio, com consequências potencialmente conflituosas.
- As Dificuldades da Ação Espanhola em Marrocos. A Espanha enfrenta enormes dificuldades no seu protetorado, especialmente por atuar em regiões tradicionalmente insubmissas ao sultão marroquino, ao contrário da França, que ficou com zonas mais pacificadas. Isso obriga a Espanha a um esforço militar constante, dificultando a sua consolidação e tornando a sua posição mais frágil. Os franceses, por sua vez, tendem a desvalorizar o esforço espanhol e a enaltecer as suas próprias conquistas, muitas delas edificadas sobre vestígios do antigo domínio português.
- Implicações para Portugal e a Península. A análise de Sardinha conclui que a permanência de uma potência alheia às aspirações peninsulares em Marrocos representa um perigo não só para a Espanha, mas também para Portugal, que ficaria subordinado a interesses externos e vulnerável a conflitos regionais. O fortalecimento do poder naval e a cooperação hispano-portuguesa são apresentados como condições essenciais para garantir a independência e o prestígio internacional das duas nações.
- Identidade Peninsular e Relação com os Povos do Norte de África. António Sardinha defende a existência de afinidades étnicas e culturais profundas entre os povos peninsulares e os berberes do norte de África, sublinhando que a diferença reside sobretudo em fatores morais e históricos, nomeadamente a influência do Cristianismo. Estudar e integrar o berbere é compreender as raízes da própria nacionalidade peninsular, legitimando assim uma intervenção futura que vise a elevação sociocultural desses povos.
- Conclusão: Marrocos como Questão Vital Peninsular. A questão de Marrocos está intrinsecamente ligada à sobrevivência e autonomia da Península Ibérica. A presença de uma potência estrangeira inamistosa em território estratégico como Marrocos representa uma ameaça direta à independência política, económica e militar de Espanha e de Portugal. Só uma política de cooperação entre Espanha e Portugal, aliada à reorganização do poder naval, permitirá às duas nações garantir o seu lugar no cenário internacional, preservando o legado histórico e respondendo aos desafios do futuro.
Se ainda é tempo!
Aliam-se na Península, como examinámos, o factor geográfico e o factor humano, para que o futuro nos seja mais propício de que a actualidade dolorosa que atravessamos. A raça está incólume e a posição da Península à boca de dois mares não se modificou ainda. O que importa, para valorização de tão importantes elementos, é que se opere quanto antes, tanto em Portugal, como em Espanha, a necessária reforma intelectual, atrás da qual virá a reforma política indispensável. O principal objectivo dessa reforma política nos dois países irmãos, desde que as mazelas internas se hajam cauterizado, deve dirigir-se à reorganização do Poder Naval. Começámos nós o presente estudo por analisar a íntima ligação da preponderância antiga da Península com as suas possibilidades marítimas. Se, na verdade, é o rumo do Atlântico, como mare nostrum, o rumo que inspira as nossas aspirações de grandeza, como procurar-lhes realização, sem ser por intermédio do navalismo? Separada quase da Europa pela barreira fiel dos Pirenéus, dada a extensão das suas costas, a Península ou dominará no mar, ou será dominada por quem possuír o senhorio das Águas. A sua desejada aproximação com a América-Hispânica mais lhe impõe a obrigação de assegurar os meios de que carece para que se torne uma força sensível sobre a face do globo. No seu livro célebre sobre a influência do Poder Naval na história, o não menos célebre almirante norte-americano A.T. Mahan observa-nos significativamente[1]: «Se não fosse a perda de Gibraltar, a situação de Espanha seria análoga à de Inglaterra; com costas para o Atlântico e para o Mediterrâneo, tendo a Cádiz sobre o primeiro e Cartagena sobre o segundo, estaria nas suas mãos todo o comércio dos países do Levante que passa junto do seu litoral, e ainda o que se exercesse pelo cabo da Boa-Esperança não passaria muito longe deles; mas Gibraltar não só lhe tirou o domínio do Estreito, como levantou um obstáculo à fácil união das duas divisões da sua frota.»
Comparando à de Inglaterra a situação de Espanha, o almirante Mahan fê-lo para salientar as qualidades quase insulares da nossa Península. Não lhas diminuiria, porém, a perda de Gibraltar, desde que do outro lado do Estreito a Espanha conserva Seuta – ponto militar mais vantajoso que ‘el Peñón’ fronteiro, se a aliança com Portugal permitisse às duas nações peninsulares a unidade indispensável à sua defesa e preponderância. Ninguém pensa – elucide-se – em imperialismos dementados, em fumos insensatos de dilatação ou conquista. Mas no crescer, cada vez mais violento, dos diversos egoísmos internacionais, a Península carece de se garantir contra as ameaças que a envolvem na sua própria integridade e merecer assim de Deus a consecução dos altos destinos para que um dia a chamou!
Mais grave que a perda de Gibraltar, de fácil correcção enquanto se possua Seuta, foi, indubitavelmente, a instalação da França em Marrocos. Pondera a tal respeito um esclarecido publicista espanhol: «El enemigo se nos ha metido en casa y hemos quedado a su merced. Dueña España de la costa marroquí desde el Estrecho al Sáhara, y dominando además el Estrecho entre Tarifa y Algeciras por un lado y Ceuta por otro, la comunicación entre la Península y la costa fronteriza de Canárias quedaba asegurada. Desde Ceuta o Arzila podría hacerse por tierra. Por mar, desde Cádiz a Canárias, la costa ofrecería a cualquier barco una serie de puertos de refugio o de depósitos de carbón, viveres y municiones. Hoy una escuadra que vaya de Cádiz a Canárias, tiene que pasar delante de una serie de bases de operaciones de los franceses. En tiempo de guerra, la Península y Canárias se encontrarán prácticamente incomunicadas. Todo lo cual significa que la simples defensa del territorio español exigirá ahora más fortificaciones, y por lo tanto mucho más dinero que antes.»[2]
Compreende-se de este modo que a questão de Marrocos seja hoje para a Espanha uma questão vital que nos abrange também a nós, portugueses, porque envolve toda a Península! De negro se carrega o horizonte, quando olhamos a cabeceira de África e vemos ondular nela o pavilhão francês! Se outros motivos não existissem para um franco e apertado entendimento entre Portugal e Espanha, Marrocos só por si bastava para o ditar ao interesse comum das duas pátrias. Se provoca espanto a inconsciência com que os governos espanhóis abandonaram à penetração da França uma zona tão directamente presa ao pleno exercício da soberania do seu país, não nos espanta menos o alheamento de Portugal em problema de tão evidente magnitude! Eis uma acusação bem séria, cuja responsabilidade toca principalmente à monarquia caída em 1910! Arrastando-nos depois à carnificina inútil da guerra, a república agravou o mal herdado, não procurando com o nosso sacrifício reivindicar ao menos Tânger para Portugal.[3] Instalada assim em Marrocos, por culpa de erros que são conjuntamente de portugueses e de espanhóis, a presença da França ali constitui não só um perigo para a independência da Península, da Espanha, sobretudo, mas um grave pesadelo para a nossa própria autonomia. Oiçamos o depoimento de Emilio H. del Villar no seu citado livro Bases para la Política Exterior de España. «Marruecos – diz – es un país dispuesto naturalmente para las mismas producciones que España, y para algunas de ellas mejor dispuesto aún. Por eso, el día en que Marruecos francés duplique e triplique la competencia que nos hace Argelia, la exportación de nuestros vinos, de nuestros aceites, de nuestra naranja, de nuestra almendra y de nuestro corcho, encontrando una mayor oferta, disminuirá en cantidade o en precio; y el día que disminuya la exportación de estes productos españoles, la horrible crisis agrícola, con todos los males y desbordamiento que traiga aparejados, hará comprender en España cuan equivocadamente se ha estado predicando al pueblo que los asuntos de Marruecos no debían interesarnos, y que de lo que debíamos ocuparnos exclusivamente era de cuidar nuestra casa en vez de mirar la ajena.»
Mede-se bem a que consequências desastrosas pode levar para a Península a permanência do pavilhão francês em Marrocos! A ruína da economia de Espanha, desencadeando no país vizinho uma catástrofe talvez sem remédio, repercutir-se-ia prontamente entre nós, certificando-nos então, pelo peso da desgraça, que somos mais irmãos, portugueses e espanhóis, do que, na realidade, julgamos. Sem insistir em pormenores e dados que encheriam um volume grossíssimo, abrangeu-se já decerto com que espírito profético Moniz Barreto monologava há mais de trinta anos, ao prevenir-nos de que «seria mais um capítulo a ajuntar à crónica lamentável da decadência peninsular, se essa região marroquina, aberta à acção dos dois povos cristãos pela espada de D. João I e dos conquistadores de Ceuta, ilustrada pela valentia dos fronteiros de África, dourada pela fama robusta de D. Afonso V e pela glória nascente de D. João II, consagrada pelo apostolado de Raimundo Lulio, pelo martírio do Infante Santo, pelo sangue de D. Sebastião, venha a cair, como Túnes, arrancada por nós aos bárbaros, nas mãos daqueles que no século XVI se ligavam aos inimigos da cultura europeia em proveito das suas conveniências políticas e dos seus interesses comerciais no Levante». O desastre consumou-se. E consumou-se, com o assentimento suicida de Espanha e a apatia execrável de Portugal. Caíram os dois países nesse abominável pecado, a que Dante chama viltà – o pecado de quantos vivem sem glória nem infâmia, em contínua demissão da sua própria personalidade.
Se, evacuada Mazagão por ordem do Marquês de Pombal, a nós, portugueses, nos faltavam motivos para uma reivindicação directa em Marrocos, desde que no xadrez da diplomacia a partilha do vizinho sultanato se colocou como pomo a disputar-se, de maneira nenhuma, em bom patriotismo, era lícito o repudiarmos os direitos históricos que lá possuíamos como primeiros dominadores. É certo que, debaixo do ponto de vista colonizador, com grave prejuízo para as nossas duas Áfricas se desviaria para o litoral marroquino a massa humana que a metrópole necessita de exportar, a fim de manter plenamente a sua soberania ultramarina. No entanto, se Portugal alimenta a esperança de reconstituir o seu perdido prestígio atlântico, não lhe poderia ser indiferente o rumo que à questão de Marrocos se imprimisse. De resto, as riquezas inexploradas do sultanato norte-africano representariam, na parte que justamente reclamássemos para nós, uma como que recapitulação da antiga escola de energia – ontem energia guerreira, amanhã energia produtora – que Marrocos durante quase três séculos significou para a nossa pátria. A efectivação do grande sonho quatrocentista, ressuscitado depois por D. Sebastião, do ‘Algarve de Além-mar’, impunha-se à consciência da nação, se os governos de Portugal, no declinar ignóbil da monarquia liberalista – da realeza bastarda da Carta, dispusessem de outra finalidade, que não fosse a de uma maioria segura no Parlamento e de uma cadeira de mandarim no Terreiro do Paço. O próprio rei D. Carlos, com o seu talento notável de homem de Estado, não prestou à questão de Marrocos a atenção que ela lhe exigia. E é uma página de vergonha, sem dúvida, pelo papel que desempenhámos, a presença da nossa delegação diplomática em Algeciras.
Se os males próprios se consolam rememorando os males alheios, bem peor se nos apresenta, em todo o caso, a acção da Espanha na condução de um problema fundamental, como o de Marrocos. Recentemente saída da derrota de 1898, em que para sempre se lhe desfez o pouco que lhe ficara do seu opulento património colonial, os seus políticos, as suas classes dirigentes, não viram que no norte de África encontrariam a compensação de tão grande desastre, se a maleabilidade, a prudência e o estudo os inspirassem, se, acima da ‘flutuação de doutrinas’, em que nos fala Moniz Barreto, pairasse a ideia do interesse-comum da colectividade e a aspiração de nobremente o servir e consolidar. Não resumiremos aqui as desgraças sucessivas em que, para Espanha, se traduz a sua intervenção na disputa do sultanato magrebino. As reflexões que transcrevemos de D. Emilio H. del Villar acusam-nos bem a amplitude dos erros cometidos. Esses erros abatem-se inexoravelmente sobre o futuro da Península, nas suas duplas consequências políticas e económicas. Tirando algumas vozes isoladas da ‘esquerda’ – a do mencionado D. Emilio H. del Villar, por exemplo –, apenas no ‘tradicionalismo’, apenas no reduzido grupo dos amigos de Vázquez de Mella, o problema se encarou com a gravidade através da qual precisava de ser encarado. Conquanto não aceitámos muitas das suas conclusões, porque na questão de Marrocos, como peninsular, entendo-me com voto e opinião, o livro de D. Gabriel Maura, La cuestión de Marruecos desde el punto de vista español,[4] ajuda-nos também a esclarecer, sobremaneira, o assunto. Quanto à maioria, ou a indiferença, ou a hostilidade. Quando da sangrenta derrota do Verão de 1921, o coro dos jornais avançados para que se abandonasse Marrocos provocava repugnância em quem sofresse consigo a paixão trágica que Espanha estava sofrendo na sua dignidade e na carne da sua carne! Já antes, referindo-se à atitude dos partidos radicais perante a questão de Marrocos, Emilo H. del Villar comentava: «Es absolutamente ilógico que los partidos obreros y socialistas españoles se hayan declarado tan obstinadamente contra la acción de España em Marruecos. Sus campañas antiafricanistas han redundado en beneficio del colonismo francés. Y sabido es que donde en Marruecos se encuentram la acción española y la francesa, como ocurre em Tánger, la francesa está representada principalmente por el capital y la española por el trabajo; y nada es más antisocialista que combatir los interesses del trabajo y apoyar los del capital.»
Afere-se, pela transcrição da conta em que se reputa para o grosso público – para o público inflamado das agitações partidárias –, o problema momentoso de Marrocos. Sucede isto em Espanha, enquanto do outro lado dos Pirenéus a visão de Marrocos se revela para os franceses como uma das bases mais sólidas de prosperidade e ressurgimento do seu país. De posse da Algéria e alargando-se na Tunísia, a França procura ganhar tanto quanto possível a hegemonia do Mediterrâneo Ocidental. O seu assento no noroeste africano serve-lhe no Atlântico de apoio às posições por ela assumidas além do Estreito. Se a zona francesa em Marrocos separa e dificulta a comunicação de Espanha com o Rio-do-Oiro e as Canárias, a zona espanhola, entalada entre esta e a Algéria, tenderia um dia a desaparecer, se os franceses tivessem – não têm! –, matéria populacional para a colonização. Meditando em tudo o que se expõe, apreende-se perfeitamente que a entrada da França em Marrocos prepara, debaixo de todos os aspectos, a sufocação ou, pelo menos, o atrofiamento da Espanha. Da situação criada, a Espanha, se acordar a tempo, só sairá violentamente. A própria França se encarrega de lhe preparar a oportunidade. Escutemos André Fribourg, deputado e membro do Conselho Superior das Colónias. «Jusqu’ici, les tentatives de colonisation de que nos voisins n’ont abouti qu’à de désastres et il ne semble pas qu’elles soient près de réussir», declara ele no seu opúsculo L’Afrique latine,[5] desenvolvendo a expressiva rubrica «Danger pour l’Afrique du Nord de la zone de la influence espagnole du Rif». «Mais on voit immédiatement quel danger présenterait pour nous l’existence d’un territoire espagnol de ce côté-ci de la mer, à proximité d’une règion où les citoyens espagnols sont si nombreux. Ce serait un obstacle extrêmement sérieux a la francisation, à l’absorption des colons venus de la peninsule, comme l’existence d’une enclave italienne au Nord de la Tunisie empêcherait l’assimilation des émigrants originaires de Sicile ou du continent. Si les efforts – acentua André Fribourg – du gouvernement de Madrid aboutissaient dans le Rif, si, certains le souhaitent, il pouvait installer de nombreux Espagnols dan une zone d’influence pacifiée, un danger certain menacerait l’Algérie de l’Ouest. Nous n’en sommes d’ailleurs pas encore là, mais nous devons prendre, dès maintenant, nos précautions, nous appliquer avec la même volonté que les Américains chez eux à nationaliser les naturalisés et savoir qu’il ne ssuffit pas de décider qu’un individu est Français, soit par décrét, soit en vertu de la loi de 1889 qui naturalise tous les fils d’étrangers nés sur notre territoire, pour qu’il le soit effectivement.»
O excerto reproduzido denuncia ao mesmo tempo uma ameaça e um alarme. Uma ameaça, no sentido de se impedir, por parte da França, tanto quanto possível a estabilização da Espanha no Rif. Um alarme, porque as ambições do imperialismo francês no norte da África lutam com a forte preponderância populacional dos espanhóis na Algéria, especialmente no département de Oran, da mesma maneira que na Tunísia os assusta o predomínio invencível do elemento italiano. Sobre o perigo espanhol em Oran, ou seja, no noroeste algeriano, eis como se pronuncia André Fribourg, cuja qualidade de membro do Conseil Supérieur des Colonies convém não olvidar: «Dans le département d’Oran, les Français d’origine étaient 93.979 em 1911, les Espagnols 91.712, les étrangers naturalisés Français, en immense majorité Espagnols, 92.386, et les Israélites naturalisés Français 20.173; si bien qu’on pouvait dire que, pour un Français d’origine, en comptait deux Espagnols, dont un naturalisé Français». E André Fribourg acrescenta: «Fait plus grave: les Espagnols étaient groupés dans certaines régions au point d’y avoir une majorité écrasante. Si l’on trouvait 23.770 Français d’origine à Oran, contre 27.835 Espagnols et 33.783 naturalisés...» De onde, sobressaltado, o autor transcrito aconselhar por meio da Escola e da Caserna a unificação da população europeia da Algéria «en une même race méditerranéenne française», surgindo, porém, em relação ao futuro, uma causa de graves apreensões: o protectorado espanhol no Rif. O que se pensa em França acerca desse protectorado e das suas presumíveis consequências, já o sabemos pela sinceridade do deputado André Fribourg.
Considerando os frutos de acção de Espanha, André Fribourg manifesta-se-nos nos termos seguintes, de toda a importância para o nosso esclarecimento: «Dans leur zone, nos voisins ont fait d’immenses efforts. Ils y ont sacrifié les hommes par dizaines de milliers et les pesetas par milliards. Malgré leur courage, leur endurance, ils ont été rejetés a la côte, et leur echec aurait pu avoir pour nous-mêmes de graves conséquences. Il n’en a rien été, jusqu’ici, heureusement, mais on est en droit de se demander ce que serait la situation des Espagnols dans leur zone, si nous n’avions pas dejá pacifié quelques 300.000 kilomètres carrés du protectorat?» E adiciona imediatamente, não ocultando a ideia fixa do seu espírito: «La zone d’influence espagnole n’a pas plus de chance de devenir et de demeurer espagnole à travers les siècles futurs, que la zone de France soumise a la Grande Bretagne pendant la guerre de Cents Ans n’avait chance de demeurer anglaise. On peut imposer aujourd’hui un régime spécial à Tanger, comme, jadis, un régime anglais à Calais. L’un durera certainement moins longtemps que l’autre. Ily a des fatalités historiques auxquelles on n’échappe pas.»
Analisemos agora as afirmações do deputado André Fribourg. Antes de tudo, têm o valor de corroborar quanto se deixou escrito sobre o perigo quase mortal que, tanto para Espanha como para a restante Península, representa a instalação da França no noroeste marroquino. Latente, o conflito já se sente, já se apalpa. A sua eclosão inevitável virá cedo ou tarde, conforme o ritmo dos acontecimentos. Porque há «fatalidades históricas a que não se escapa»; desde que o erro se cometeu, o dilema está nitidamente posto: «ou o total abandono dos direitos peninsulares em Marrocos, ou então a guerra».
Na insuficiência crescente da sua natalidade, dificilmente a França poderá combater pelos recursos pacíficos a constante infiltração colonial espanhola. Contará por isso com a anarquia governativa em que a Espanha se debate, sem uma ideia certa que a conduza através dos meandros complicadíssimos da questão marroquina, dificultando-lhe conjuntamente a penetração no Rif, pelas surdas mas constantes instigações aos indígenas, a quem decerto não faltarão nem munições nem armamento. Um momento soará, pois, em que a Espanha, cansada de insucessos sobre insucessos, se resolverá ao abandono do Rif, debaixo da pressão da opinião pública, se antes, declarada internacionalmente incapaz de civilizar e pacificar a zona que lhe foi distribuída no retalhado sultanato magrebino, não vir a França ocupar-lhe o lugar, como mais apta e mais idónea. Assim subtilmente no-lo sugere André Fribourg, quando pondera a ineficácia da acção espanhola no Rif, conparando-a com a excelência da pacificação e administração francesa.
À primeira vista o argumento é de peso e abalará seguramente, pelo simples exame dos factos, as inteligências menos prevenidas. A obra do general Lyautey é um alto exemplo de tacto governativo e de incontestáveis realizações. Não nos entreguemos, em todo o caso, aos ditames únicos do entusiasmo! A França domina hoje aquela parte de Marrocos secularmente desbravada pela irradiação europeia. Embora os franceses o esqueçam sistematicamente, se é que o não tentam apagar, à raiz da sua ocupação encontram-se os sedimentos fortes da conquista portuguesa, que, se não penetrou muito fundo, abriu, no entanto, sulcos inapagáveis. Da boca do próprio sultão destronado Muley Haffid, tive eu a alegria de escutar que, cem léguas da costa para o interior, os vestígios que se encontram da passagem de antigos dominadores, pontes, calçadas, fortalezas, ou são romanos, ou são portugueses. Do mesmo sultão ouvi também que os franceses picam invariavelmente os brasões ou lápides que atestam a ocupação de Portugal. Será uma falsa acusação de um inimigo declarado da França? Talvez. Contudo, a forma como se portam para connosco bastantes publicistas franceses que a Marrocos dedicam os labores da sua pena, leva-nos a admitir que presumivelmente se não trata de uma calúnia. Basta abrir o grosso volume de Victor Piquet, Les civilizations de l’Afrique du Nord,[6] para nos capacitarmos do sectarismo dos franceses em semelhante capítulo. Num livro compacto, de perto de 400 páginas, nem uma página completa se nos chega a consagrar, essa mesma difícil de se descobrir, porque no índice aparece englobada na designação geral de «les chrétiens en Berbérie».
Mas por muito que a França procure apagar os sinais no nosso domínio, é sem dúvida sobre eles que a sua obra colonizadora assenta. De resto, para a compreensão perfeita do problema marroquino, é conveniente acentuar que, ao inverso do que ordinariamente se supõe, Marrocos (ou Magreb el Aksá, ‘país do extremo ocidente’) não constitui uma unidade social e política, sujeita unicamente à suzerania do sultão. Assim, toda essa extensa e misteriosa região é dividida pelos próprios funcionários do império em dois longos países – B’lad en Magsén, e Blad es-Siba, sendo o primeiro a parte propriamente governamental, isto é, a que paga tributos ao sultão e lhe reconhece obediência, enquanto que a outra parte, sempre rebelde e insubmissa, denominada por isso ‘país do roubo’, não abdica nunca da sua autonomia, sendo muito mais dilatada que a parte governamental.[7] Esta disporá de quatro milhões de habitantes para uma superfície de 200.000 quilómetros quadrados, dispondo o ‘país do roubo’ de sete ou oito milhões de habitantes para uma superfície de 600.000 quilómetros quadrados.
Do país governamental coube à Espanha apenas a planície do baixo Lucus, ocupada pela tribo árabe de Jolot, e uma fracção do Tili, ao passo que no ‘país do roubo’ a sua acção se deve estender por toda a Yebala, maciço montanhoso, povoada de gente brava e irrequieta. De sorte que a Espanha se acha numa situação inferior à da França, porque precisa de actuar numa zona onde nunca foi efectiva nem reconhecida a soberania do sultão, acrescendo ainda que, aceitando o protectorado na Yebala, a Espanha restringiu o seu direito de conquista, pois teve como legítima a autoridade imperial do Xerife numa região a que ela não se estendia. Não admira, por isso, que, além das dificuldades que o exercício do seu mandato lhe acarreta, a sua situação seja inferior à da França, que guardou para si o que já se achava submetido ao poder central do Império e em condições, portanto, de lhe aceitar mais facilmente a tutela. São, por consequência, jactanciosos os louvores dos franceses ao seu esforço em Marrocos, quando tendenciosamente o comparam com o dos espanhóis. Para os espanhóis, a índole indomável das tríbus abrangidas pelo seu protectorado obriga-os a uma tensão militar, que a França não conhece nas cidades da costa e entre as populações arabizadas do B’lad en Magsén.[8]
Afigura-se-me de quanto se deixa dito o que há de irritante e de depressivo no juízo que os franceses se formam acerca do protectorado espanhol em Marrocos. Para eles, esse protectorado desaparecerá pela força própria das circunstâncias, porque, senão, a França o faria desaparecer, constituindo como constitui um perigo para o domínio francês na Argélia. A previsão da guerra é aqui evidente. E o conflito só não estalará se a Espanha, acumulando erros sobre erros, se demitir dos mais elementares dos seus direitos à existência. A sua política de expansão é a política do cardeal Cisneros – é a política do norte de África. Se as aspirações de D. João de Áustria não houvessem tropeçado nas lentidões contralistas de Filipe II, a Tunísia tornar-se-ia num reino cristão e a Espanha teria assim assegurada a sua influência no Mediterrâneo ocidental. A perda de Gibraltar dificultou-lhe a passagem do Estreito, e o desastre quase se transformou em catástrofe ao transigir com a entrada da França em Marrocos.
A tal respeito é natural que a sua neutralidade na Guerra houvesse sido um acto de falsa prudência. Ángel Ganivet exclama algures que «en presencia de la ruina espiritual de España, hay que ponerse una piedra en el sitio donde está el corazón, y hay que arrojar aunque sea un millón de españoles a los lobos, si no querermos arrojarnos todos a los puercos». Eis a situação em que a Espanha se debate perante o problema de Marrocos! A audácia com que se apossou de Larache e de Arzila, procurando uma compensação no B’lad en Magsén, podia servir-lhe de estímulo para muito mais na hora indecisa em que os cavaleiros do Apocalise se estadeavam por sobre o continente europeu. Hoje, com a França já firmada em Marrocos, graças ao governo do general Lyautey, a oportunidade perdeu-se. Voltará, porém, cedo ou tarde, quando a França se sinta constrangida, pela pressão da Itália na Tunísia, a solucionar de vez as suas dificuldades no norte da África. Ora até certo ponto os interesses da Espanha são paralelos aos interesses da Itália, tanto pelo que toca ao norte da África, propriamente, como pelo que se prende com o domínio da parte ocidental do Mediterrâneo. Se para Espanha e Portugal se traduziram sempre em funestos resultados os equívocos seculares que impedem a colaboração estreita das duas nações irmãs, não é menos funesto, para a grandeza das duas Penínsulas – a Itálica e a Hispânica – o desentendimento em que se mantêm. Na enunciação das suas reivindicações mais queridas, o paralelismo entre a Espanha e a Itália possui o vigor das coisas imediatas.[9] Objectivos externos em que divirjam ou em que se contraditem, não existem para ambas, existindo, pelo contrário, uma completa identidade de tendências e de fins naquilo que representa a natural expansão da sua curva histórica. Creio firmemente que o problema de Marrocos, vital para o futuro da Espanha – futuro tanto económico como político – conduzirá ao acordo com a Itália, empenhada como a Espanha em se refazer de mutilações antigas – a da Córsega, por exemplo. De onde se verifica que à Espanha não faltarão ocasiões para corrigir os efeitos do atentado que, para a sua independência, significa a hegemonia crescente da França em Marrocos. Exige-lho, como garantia, a integridade sagrada do seu território.
«Yo tengo para mi que la línea estratégica de ciudades y fortalezas que poseemos al otro lado del Estrecho, desde Ceuta a las Chafarinas, nos es tan necesaria, hoy por hoy, y forma parte tan integrante de nuestro territorio, como la línea estratégica de fortalezas que se extiende por la cuenca del Ebro, desde Montjuich hasta Pamplona.» Assim se exprimia vai para quarenta anos D. Joaquín Costa, o aragonês insigne, não obstante entender que era preciso fechar a sete chaves o sepulcro do Cid. Efectivamente, é por Marrocos, segundo as lições da história, que a Espanha está sujeita a uma arremetida. Nessa conformidade, já se assinalaram bem as consequências nefastas para o seu futuro, se Marrocos se tornar o poiso definitivo de uma nação estrangeira. A Espanha, buscando, por todos os meios possíveis, regressar à política de Cisneros, não o faz por meios ambiciosos de imperialismo – fá-lo, executando aquele ‘programa de conservação’ de que nos fala Moniz Barreto. Sem que assegure primeiro a sua dupla posição de terra mediterrânea e de terra atlântica, a Espanha acha-se incapacitada de entrar a sério na realização da política do Atlântico – mare nostrum. Nota algures um publicista espanhol que o século presente «pone en el tablero de juego a Gibraltar y a Panamá», acrescentando «que el Mediterráneo es un escenario muy pequeño para las tragedias futuras». Este é o aspecto primacial da questão e em torno do qual as atenções esclarecidas carecem de se concentrar. Depois, convém não esquecer que, se a política marroquina da Espanha é uma política de defesa em relação à Península, é igualmente uma política de regeneração, se a considerarmos debaixo do ponto de vista exclusivamente marroquino. Tende a provar-se cada vez mais a íntima afinidade étnica de hispânicos e de berberes. É a velha tese de D. Joaquín Costa, retomada pelo catedrático Antón y Fernández e ultimamente fortalecida pelo eminente arqueólogo alemão, dr. Adolfo Schulten. Discorrendo dos Yebalas, escreve Constancio Bernaldo de Quirós: «... los Yebalas son poco extraños para nosotros. Hermanos suyos somos los iberos, hijos ambos de una vieja raza líbica que desde las edades de la piedra se extendió por ambas costas del Mediterráneo occidental y que se conserva en su mayor pureza, separada por la solución de continuidad del Estrecho, en las montañas del Atlas y en las altas mesetas castellanas». E o autor citado adita: «El alemán Schulten, desenterrador de Numancia, la celtibera, acaso es el último que ha echo notar el parecido de ambos pueblos, em su precioso estudio sobre los campesinos de tierra de Soria. Por donde el castellano, el aragonés y aún el andaluz, viajando per las tierras berberistas, y encontrando a diario la clave de las instituciones, de los costumbres y aún de las palabras de la madre patria, son com el lejano descendiente que regressa a la vieja casa solariega, abandonada y olvidada durante largas generaciones, recibiendo en ella la explicación de sus estructuras y hábitos más íntimos.»
Por aqui se infere que, no exercício de um legítimo direito espiritual, à Espanha cabe trazer a uma sociabilidade mais elevada o berbere seu vizinho e seu parente de além-Estreito. A diferença que existe entre os povos da Península e as indomáveis tribos do norte de África é uma diferença de ordem moral e histórica – benefício recebido do Cristianismo. De facto, entre os berberes, podemos surpreender a origem e o processo ou formação dos nossos quadros institucionais mais característicos. É à sua yemáa, ou assembleia conciliar, que nós devemos ir buscar a genealogia dos municípios peninsulares, e não ao alastramento da colonização romana. Enganam-se os que reputam o berbere como sinónimo de uma raça inferior! O berbere, pelo contrário possui agilidade de entendimento, a sua família é de constituição patriarcal e monogâmica, e revelam-se nele todas as qualidades fundamentais de um grande povo, desde o amor cego à independência até à estreita coesão do vínculo familiar. Trata-se, pois, de um caso de estagnação social, derivado, sobretudo, da frágil infiltração do Cristianismo entre eles. Isso nos obriga a nós, peninsulares, a encará-los como parte no nosso todo, justificando-se inteiramente qualquer intervenção que, no futuro, a Espanha, com Portugal ao lado, desenvolva em Marrocos, a fim de acordar para a comunidade da nossa civilização esse ramo desgarrado da velha árvore líbio-ibérica. Nós, portugueses, então, como saídos do tronco lusitano, temos especiais motivos para nos interessarmos pelo destino do berbere. Estudá-lo nos seus costumes e tradições é estudar a gestação da nossa nacionalidade no período preliminar, a que a figura de Viriato preside. Recordam-nos uma actualização de Estrabão no capítulo consagrado à Lusitânia. Viveiro inesgotável de energias, não são menos nossos que os tantos milhões de hispano-americanos, em que, na outra margem do Oceano, a nossa esperança se depõe! Inscrevamos o berbere no livro das nossas linhagens, e que o nosso esforço consiga um dia trazê-lo ao desfrute do quinhão que no património comum lhe pertence!
E parece-nos suficientemente demonstrado quanto o problema de Marrocos se agarra, por todas as suas raízes, ao problema peninsular. Garantia inalienável da independência política e económica da Espanha, é, reflexamente, também condição de equilíbrio e de desafogo para o nosso Portugal Se a instalação na cabeceira de África de uma potência alheia às aspirações da Península representa um perigo sério para a Espanha, não o representa menos para Portugal, que necessariamente se enfeudaria ao poder que terminasse por enfraquecer e fragmentar o país irmão, se é que um outro poder, inimigo do primeiro, não procurasse combatê-lo sobre o nosso território, reduzindo-nos assim a uma subalternização deprimente. Como a grandeza da pátria não consiste apenas no arranjo orçamental e na valorização da moeda, Marrocos guarda para nós as mesmas possibilidades de reconstituíção militar e naval, a que o nosso futuro está inquebrantavelmente hipotecado. D. Joaquín Costa dizia no seu tempo: «Lo que a España interesa, lo que España necesita, no es sojuzgar el Magreb, no es llevar sus armas hasta el Atlas; lo que a España interesa es que el Magreb no sea jamás una colonia europea; es que al otro lado del Estrecho se constituya una nación viril, independiente y culta, aliada natural de España, unida a nosotros por los vínculos del interés común, como lo está por los vínculos de la vecindad y de la historia...» E porquê? Porque «la transformación de Marruecos en colonia francesa o en colonia británica llevaría consigo, como consecuencia necesaria, la expulsión de España de aquella costa, lo mismo que de la costa occidental, o sea, de Santa Cruz de Mar Pequeña; seguiríase a eso la pérdida de las Baleares y de las Canarias; y así, estrechada España entre dos Inglaterras o entre dos Francias, en bloqueo permanente sus costas mediterráneas, no tardaríamos en ver atacada su independencia en el corazón mismo de su metrópole».
Esta a sorte de Espanha, e não seria outra a sorte de Portugal. Compreende-se, por isso, como Marrocos se prende de perto à autonomia da Península. Inútil, desta forma, sonharmos em efectivar aquele simples ‘programa de conservação’, em que insiste Moniz Barreto, se a questão do norte de África se agravar, ou permanecer, pelo menos, no pé em que se encontra. Daqui a importância que reveste para o meu nacionalismo alarmado a questão marroquina. Se a Espanha é por enquanto a mais directamente afectada, não tardará que nós o sejamos, e bem duramente, num futuro já próximo. De resto, Portugal, com a sua natural inclinação para o Brasil, unicamente se libertará do marasmo suicida em que adormeceu, atirando-se de alma e coração para a política entrevista por el-rei D. João IV. Conhecem-se as declarações do tão caluniado fundador da dinastia de Bragança. Na sua audiência célebre ao Chevalier de Jant, confessava o monarca que, «se possuísse só o Brasil com o reino de Angola, as praças de África, os Açores e Cabo-Verde, e juntos estes Estados com Portugal, não trocaria a sua condição pela de nenhum outro Príncipe da Europa». Ora aqui se nos apresenta com uma nítida visão o caminho do Portugal-Maior! Adicionam-se-lhe agora as afinidades de toda a espécie que nos aconselham a aliança com a Espanha e, resultantemente, com as pátrias hispano-americanas, a quem ela deu o ser. É um bloco político formidável, a quem inspiram, não motivos de agressão ou cupidez imperialista, mas os dictames da própria e comum vitalidade.
De modo diverso, acabaremos por viver como ilotas nas duas margens do Oceano que nós sulcámos e desvendámos, indignos até dos títulos de glória que o passado nos confere! Para tanto, no Poder Naval reside a base da nossa supremacia vindoira. Sem Poder Naval, a Península acha-se totalmente indefesa. Organizá-lo é percorrer as primeiras jornadas da nossa emancipação internacional e cumprir ao mesmo tempo as indicações que a geografia não cessa nunca de repetir. Entre essas indicações, Marrocos figura em lugar de destaque. É o nosso lado vulnerável – é o nosso indispensável ponto de apoio. Marrocos em mãos alheias, equivale a demitir-nos de quanto o dia de amanhã nos promete, em nome da obra civilizadora que Portugal e Espanha realizaram desinteressadamente no mundo. Se o Poder Naval é para a Península sinónimo de preponderância e prestígio, Marrocos é a chave do nosso indispensável navalismo. Meditemos bem em tão grave problema, e que a aliança de Portugal com a Espanha tenha por imediato e enérgico objectivo corrigir, nos termos ainda possíveis, a desgraçada situação que no norte de África deixámos criar![10]
[1] Influencia del poder naval en la historia. 1660-1783, por A.T. Mahan, tradução espanhola dos tenentes de navio Cervera y Jácome e Sobrini y Argulos, Ferrol, 1901.
[2] Emilio H. del Villar, Bases para la Política Exterior de España. África y el Estrecho, Barcelona, 1918, pp. 28-29.
[3] Julgamos não cometer uma indiscrição trazendo para público que em 1918 João de Almeida, nosso heróico africanista, lembrou ao presidente Sidónio Pais a necessidade de se pôr em Tânger o objectivo principal da nossa cooperação na guerra. Sidónio quase que lhe pediu pelo amor de Deus que não falasse em tal. Mesmo os melhores, são o que se vê.
[4] Madrid, 1905.
[5] Paris, Librairie Plon, 1922.
[6] Paris, Armand Colin, 1921.
[7] Vid. o interessantíssimo volume Yebala y el bajo Lucus, Madrid, 1914, publicado pela Real Sociedade Española de Historia Natural, depois de uma expedição científica à zona espanhola de Marrocos. Sobretudo, para o nosso ponto de vista, é de subido alcance o capítulo «Etnografia», de Constancio Bernaldo de Quirós.
[8] Aconselha-se a leitura do livro El protectorado francés en Marruecos y sus enseñanzas para la acción española, Madrid, 1915, por Manuel González Hontoria, ministro de Estado no gabinete presidido por Maura em 1919. Ainda que se coloque como observador num campo de simples objectividade, González Hontoria acentua bem que ao protectorado francês corresponde o Marrocos «donde había extranjeros y donde el Sultán tenía autoridad», «siendo... en su mayor parte llano, fértil y accesible». Por isso González Hontoria, insiste – e insiste justamente – em que «el protectorado francés en Marruecos recae sobre cosa relativamente homogénea y compacta». E González Hontoria escreve: «Hay grandes diferencias, naturalmente, entre tríbus árabes y tríbus bereberes y entre el antiguo belad-el-mejz-n y el b-lad-es-siba, hasta que hace un año se ocupó Taza, faltaba el contacto material entre el Marruecos occidental y el Marruecos oriental. Pero la diversidad y separación no son comparables con las que median entre la zona española del septentrión (del Muluya al Tucus) y la del mediodía (del Drá hasta el paralelo 270). En el septentrión mismo, por optimista que se sea, hay que prever un plazo, relativamente largo, para que se establezca el contacto entre la región de Tetuán y la de Larache, y uno, mucho mayor, para que, pacificada toda la comarca, lleguen a ser contiguos los mandos militares de Tetuán y de Melilla.» Neste ligeiro extracto adivinha-se bem o que há de empavonado nos elogios que os franceses se fazem sobre a sua obra de Marrocos. É digna de louvor, incontestavelmente, mas nem de longe tiveram de combater as dificuldades com que os espanhóis ainda hoje se defrontam!
[9] Escritas estas páginas muito antes do advento de Primo de Rivera, a viagem a Roma dos Reis de Espanha dá-lhes uma extraordinária confirmação.
[10] É de toda a justiça lembrar um nome, hoje totalmente esquecido, que há mais de 40 anos prestava já ao problema de Marrocos as atentações do seu patriotismo alarmado. Refiro-me ao oficial da Armada – e professor da Escola Naval – Carlos Testa, no seu tempo versadíssimo em questões de política internacional. No opúculo A política internacional e... o tratado de Lourenço Marques, Lisboa, 1881, prevendo a partilha que o destino reservava para o império magrebino, Carlos Testa afirmava então, numa notável clarividência, que «Portugal, sob o ponto de vista histórico, geográfico e político, deveria e poderia preparar-se para estar no caso de aspirar à competência a que seus títulos possam dar-lhe direito». Volvidos tempos, em 1888, em outro opúculo – Portugal e Marrocos perante a história e a política europeia – Carlos Testa tornou a insistir no mesmo tema. Recordá-lo é provar que não sustentamos uma simples opinião pessoal, mas antes uma reivindicação patriótica, com os seus antecedentes bem marcados.
Comparando à de Inglaterra a situação de Espanha, o almirante Mahan fê-lo para salientar as qualidades quase insulares da nossa Península. Não lhas diminuiria, porém, a perda de Gibraltar, desde que do outro lado do Estreito a Espanha conserva Seuta – ponto militar mais vantajoso que ‘el Peñón’ fronteiro, se a aliança com Portugal permitisse às duas nações peninsulares a unidade indispensável à sua defesa e preponderância. Ninguém pensa – elucide-se – em imperialismos dementados, em fumos insensatos de dilatação ou conquista. Mas no crescer, cada vez mais violento, dos diversos egoísmos internacionais, a Península carece de se garantir contra as ameaças que a envolvem na sua própria integridade e merecer assim de Deus a consecução dos altos destinos para que um dia a chamou!
Mais grave que a perda de Gibraltar, de fácil correcção enquanto se possua Seuta, foi, indubitavelmente, a instalação da França em Marrocos. Pondera a tal respeito um esclarecido publicista espanhol: «El enemigo se nos ha metido en casa y hemos quedado a su merced. Dueña España de la costa marroquí desde el Estrecho al Sáhara, y dominando además el Estrecho entre Tarifa y Algeciras por un lado y Ceuta por otro, la comunicación entre la Península y la costa fronteriza de Canárias quedaba asegurada. Desde Ceuta o Arzila podría hacerse por tierra. Por mar, desde Cádiz a Canárias, la costa ofrecería a cualquier barco una serie de puertos de refugio o de depósitos de carbón, viveres y municiones. Hoy una escuadra que vaya de Cádiz a Canárias, tiene que pasar delante de una serie de bases de operaciones de los franceses. En tiempo de guerra, la Península y Canárias se encontrarán prácticamente incomunicadas. Todo lo cual significa que la simples defensa del territorio español exigirá ahora más fortificaciones, y por lo tanto mucho más dinero que antes.»[2]
Compreende-se de este modo que a questão de Marrocos seja hoje para a Espanha uma questão vital que nos abrange também a nós, portugueses, porque envolve toda a Península! De negro se carrega o horizonte, quando olhamos a cabeceira de África e vemos ondular nela o pavilhão francês! Se outros motivos não existissem para um franco e apertado entendimento entre Portugal e Espanha, Marrocos só por si bastava para o ditar ao interesse comum das duas pátrias. Se provoca espanto a inconsciência com que os governos espanhóis abandonaram à penetração da França uma zona tão directamente presa ao pleno exercício da soberania do seu país, não nos espanta menos o alheamento de Portugal em problema de tão evidente magnitude! Eis uma acusação bem séria, cuja responsabilidade toca principalmente à monarquia caída em 1910! Arrastando-nos depois à carnificina inútil da guerra, a república agravou o mal herdado, não procurando com o nosso sacrifício reivindicar ao menos Tânger para Portugal.[3] Instalada assim em Marrocos, por culpa de erros que são conjuntamente de portugueses e de espanhóis, a presença da França ali constitui não só um perigo para a independência da Península, da Espanha, sobretudo, mas um grave pesadelo para a nossa própria autonomia. Oiçamos o depoimento de Emilio H. del Villar no seu citado livro Bases para la Política Exterior de España. «Marruecos – diz – es un país dispuesto naturalmente para las mismas producciones que España, y para algunas de ellas mejor dispuesto aún. Por eso, el día en que Marruecos francés duplique e triplique la competencia que nos hace Argelia, la exportación de nuestros vinos, de nuestros aceites, de nuestra naranja, de nuestra almendra y de nuestro corcho, encontrando una mayor oferta, disminuirá en cantidade o en precio; y el día que disminuya la exportación de estes productos españoles, la horrible crisis agrícola, con todos los males y desbordamiento que traiga aparejados, hará comprender en España cuan equivocadamente se ha estado predicando al pueblo que los asuntos de Marruecos no debían interesarnos, y que de lo que debíamos ocuparnos exclusivamente era de cuidar nuestra casa en vez de mirar la ajena.»
Mede-se bem a que consequências desastrosas pode levar para a Península a permanência do pavilhão francês em Marrocos! A ruína da economia de Espanha, desencadeando no país vizinho uma catástrofe talvez sem remédio, repercutir-se-ia prontamente entre nós, certificando-nos então, pelo peso da desgraça, que somos mais irmãos, portugueses e espanhóis, do que, na realidade, julgamos. Sem insistir em pormenores e dados que encheriam um volume grossíssimo, abrangeu-se já decerto com que espírito profético Moniz Barreto monologava há mais de trinta anos, ao prevenir-nos de que «seria mais um capítulo a ajuntar à crónica lamentável da decadência peninsular, se essa região marroquina, aberta à acção dos dois povos cristãos pela espada de D. João I e dos conquistadores de Ceuta, ilustrada pela valentia dos fronteiros de África, dourada pela fama robusta de D. Afonso V e pela glória nascente de D. João II, consagrada pelo apostolado de Raimundo Lulio, pelo martírio do Infante Santo, pelo sangue de D. Sebastião, venha a cair, como Túnes, arrancada por nós aos bárbaros, nas mãos daqueles que no século XVI se ligavam aos inimigos da cultura europeia em proveito das suas conveniências políticas e dos seus interesses comerciais no Levante». O desastre consumou-se. E consumou-se, com o assentimento suicida de Espanha e a apatia execrável de Portugal. Caíram os dois países nesse abominável pecado, a que Dante chama viltà – o pecado de quantos vivem sem glória nem infâmia, em contínua demissão da sua própria personalidade.
Se, evacuada Mazagão por ordem do Marquês de Pombal, a nós, portugueses, nos faltavam motivos para uma reivindicação directa em Marrocos, desde que no xadrez da diplomacia a partilha do vizinho sultanato se colocou como pomo a disputar-se, de maneira nenhuma, em bom patriotismo, era lícito o repudiarmos os direitos históricos que lá possuíamos como primeiros dominadores. É certo que, debaixo do ponto de vista colonizador, com grave prejuízo para as nossas duas Áfricas se desviaria para o litoral marroquino a massa humana que a metrópole necessita de exportar, a fim de manter plenamente a sua soberania ultramarina. No entanto, se Portugal alimenta a esperança de reconstituir o seu perdido prestígio atlântico, não lhe poderia ser indiferente o rumo que à questão de Marrocos se imprimisse. De resto, as riquezas inexploradas do sultanato norte-africano representariam, na parte que justamente reclamássemos para nós, uma como que recapitulação da antiga escola de energia – ontem energia guerreira, amanhã energia produtora – que Marrocos durante quase três séculos significou para a nossa pátria. A efectivação do grande sonho quatrocentista, ressuscitado depois por D. Sebastião, do ‘Algarve de Além-mar’, impunha-se à consciência da nação, se os governos de Portugal, no declinar ignóbil da monarquia liberalista – da realeza bastarda da Carta, dispusessem de outra finalidade, que não fosse a de uma maioria segura no Parlamento e de uma cadeira de mandarim no Terreiro do Paço. O próprio rei D. Carlos, com o seu talento notável de homem de Estado, não prestou à questão de Marrocos a atenção que ela lhe exigia. E é uma página de vergonha, sem dúvida, pelo papel que desempenhámos, a presença da nossa delegação diplomática em Algeciras.
Se os males próprios se consolam rememorando os males alheios, bem peor se nos apresenta, em todo o caso, a acção da Espanha na condução de um problema fundamental, como o de Marrocos. Recentemente saída da derrota de 1898, em que para sempre se lhe desfez o pouco que lhe ficara do seu opulento património colonial, os seus políticos, as suas classes dirigentes, não viram que no norte de África encontrariam a compensação de tão grande desastre, se a maleabilidade, a prudência e o estudo os inspirassem, se, acima da ‘flutuação de doutrinas’, em que nos fala Moniz Barreto, pairasse a ideia do interesse-comum da colectividade e a aspiração de nobremente o servir e consolidar. Não resumiremos aqui as desgraças sucessivas em que, para Espanha, se traduz a sua intervenção na disputa do sultanato magrebino. As reflexões que transcrevemos de D. Emilio H. del Villar acusam-nos bem a amplitude dos erros cometidos. Esses erros abatem-se inexoravelmente sobre o futuro da Península, nas suas duplas consequências políticas e económicas. Tirando algumas vozes isoladas da ‘esquerda’ – a do mencionado D. Emilio H. del Villar, por exemplo –, apenas no ‘tradicionalismo’, apenas no reduzido grupo dos amigos de Vázquez de Mella, o problema se encarou com a gravidade através da qual precisava de ser encarado. Conquanto não aceitámos muitas das suas conclusões, porque na questão de Marrocos, como peninsular, entendo-me com voto e opinião, o livro de D. Gabriel Maura, La cuestión de Marruecos desde el punto de vista español,[4] ajuda-nos também a esclarecer, sobremaneira, o assunto. Quanto à maioria, ou a indiferença, ou a hostilidade. Quando da sangrenta derrota do Verão de 1921, o coro dos jornais avançados para que se abandonasse Marrocos provocava repugnância em quem sofresse consigo a paixão trágica que Espanha estava sofrendo na sua dignidade e na carne da sua carne! Já antes, referindo-se à atitude dos partidos radicais perante a questão de Marrocos, Emilo H. del Villar comentava: «Es absolutamente ilógico que los partidos obreros y socialistas españoles se hayan declarado tan obstinadamente contra la acción de España em Marruecos. Sus campañas antiafricanistas han redundado en beneficio del colonismo francés. Y sabido es que donde en Marruecos se encuentram la acción española y la francesa, como ocurre em Tánger, la francesa está representada principalmente por el capital y la española por el trabajo; y nada es más antisocialista que combatir los interesses del trabajo y apoyar los del capital.»
Afere-se, pela transcrição da conta em que se reputa para o grosso público – para o público inflamado das agitações partidárias –, o problema momentoso de Marrocos. Sucede isto em Espanha, enquanto do outro lado dos Pirenéus a visão de Marrocos se revela para os franceses como uma das bases mais sólidas de prosperidade e ressurgimento do seu país. De posse da Algéria e alargando-se na Tunísia, a França procura ganhar tanto quanto possível a hegemonia do Mediterrâneo Ocidental. O seu assento no noroeste africano serve-lhe no Atlântico de apoio às posições por ela assumidas além do Estreito. Se a zona francesa em Marrocos separa e dificulta a comunicação de Espanha com o Rio-do-Oiro e as Canárias, a zona espanhola, entalada entre esta e a Algéria, tenderia um dia a desaparecer, se os franceses tivessem – não têm! –, matéria populacional para a colonização. Meditando em tudo o que se expõe, apreende-se perfeitamente que a entrada da França em Marrocos prepara, debaixo de todos os aspectos, a sufocação ou, pelo menos, o atrofiamento da Espanha. Da situação criada, a Espanha, se acordar a tempo, só sairá violentamente. A própria França se encarrega de lhe preparar a oportunidade. Escutemos André Fribourg, deputado e membro do Conselho Superior das Colónias. «Jusqu’ici, les tentatives de colonisation de que nos voisins n’ont abouti qu’à de désastres et il ne semble pas qu’elles soient près de réussir», declara ele no seu opúsculo L’Afrique latine,[5] desenvolvendo a expressiva rubrica «Danger pour l’Afrique du Nord de la zone de la influence espagnole du Rif». «Mais on voit immédiatement quel danger présenterait pour nous l’existence d’un territoire espagnol de ce côté-ci de la mer, à proximité d’une règion où les citoyens espagnols sont si nombreux. Ce serait un obstacle extrêmement sérieux a la francisation, à l’absorption des colons venus de la peninsule, comme l’existence d’une enclave italienne au Nord de la Tunisie empêcherait l’assimilation des émigrants originaires de Sicile ou du continent. Si les efforts – acentua André Fribourg – du gouvernement de Madrid aboutissaient dans le Rif, si, certains le souhaitent, il pouvait installer de nombreux Espagnols dan une zone d’influence pacifiée, un danger certain menacerait l’Algérie de l’Ouest. Nous n’en sommes d’ailleurs pas encore là, mais nous devons prendre, dès maintenant, nos précautions, nous appliquer avec la même volonté que les Américains chez eux à nationaliser les naturalisés et savoir qu’il ne ssuffit pas de décider qu’un individu est Français, soit par décrét, soit en vertu de la loi de 1889 qui naturalise tous les fils d’étrangers nés sur notre territoire, pour qu’il le soit effectivement.»
O excerto reproduzido denuncia ao mesmo tempo uma ameaça e um alarme. Uma ameaça, no sentido de se impedir, por parte da França, tanto quanto possível a estabilização da Espanha no Rif. Um alarme, porque as ambições do imperialismo francês no norte da África lutam com a forte preponderância populacional dos espanhóis na Algéria, especialmente no département de Oran, da mesma maneira que na Tunísia os assusta o predomínio invencível do elemento italiano. Sobre o perigo espanhol em Oran, ou seja, no noroeste algeriano, eis como se pronuncia André Fribourg, cuja qualidade de membro do Conseil Supérieur des Colonies convém não olvidar: «Dans le département d’Oran, les Français d’origine étaient 93.979 em 1911, les Espagnols 91.712, les étrangers naturalisés Français, en immense majorité Espagnols, 92.386, et les Israélites naturalisés Français 20.173; si bien qu’on pouvait dire que, pour un Français d’origine, en comptait deux Espagnols, dont un naturalisé Français». E André Fribourg acrescenta: «Fait plus grave: les Espagnols étaient groupés dans certaines régions au point d’y avoir une majorité écrasante. Si l’on trouvait 23.770 Français d’origine à Oran, contre 27.835 Espagnols et 33.783 naturalisés...» De onde, sobressaltado, o autor transcrito aconselhar por meio da Escola e da Caserna a unificação da população europeia da Algéria «en une même race méditerranéenne française», surgindo, porém, em relação ao futuro, uma causa de graves apreensões: o protectorado espanhol no Rif. O que se pensa em França acerca desse protectorado e das suas presumíveis consequências, já o sabemos pela sinceridade do deputado André Fribourg.
Considerando os frutos de acção de Espanha, André Fribourg manifesta-se-nos nos termos seguintes, de toda a importância para o nosso esclarecimento: «Dans leur zone, nos voisins ont fait d’immenses efforts. Ils y ont sacrifié les hommes par dizaines de milliers et les pesetas par milliards. Malgré leur courage, leur endurance, ils ont été rejetés a la côte, et leur echec aurait pu avoir pour nous-mêmes de graves conséquences. Il n’en a rien été, jusqu’ici, heureusement, mais on est en droit de se demander ce que serait la situation des Espagnols dans leur zone, si nous n’avions pas dejá pacifié quelques 300.000 kilomètres carrés du protectorat?» E adiciona imediatamente, não ocultando a ideia fixa do seu espírito: «La zone d’influence espagnole n’a pas plus de chance de devenir et de demeurer espagnole à travers les siècles futurs, que la zone de France soumise a la Grande Bretagne pendant la guerre de Cents Ans n’avait chance de demeurer anglaise. On peut imposer aujourd’hui un régime spécial à Tanger, comme, jadis, un régime anglais à Calais. L’un durera certainement moins longtemps que l’autre. Ily a des fatalités historiques auxquelles on n’échappe pas.»
Analisemos agora as afirmações do deputado André Fribourg. Antes de tudo, têm o valor de corroborar quanto se deixou escrito sobre o perigo quase mortal que, tanto para Espanha como para a restante Península, representa a instalação da França no noroeste marroquino. Latente, o conflito já se sente, já se apalpa. A sua eclosão inevitável virá cedo ou tarde, conforme o ritmo dos acontecimentos. Porque há «fatalidades históricas a que não se escapa»; desde que o erro se cometeu, o dilema está nitidamente posto: «ou o total abandono dos direitos peninsulares em Marrocos, ou então a guerra».
Na insuficiência crescente da sua natalidade, dificilmente a França poderá combater pelos recursos pacíficos a constante infiltração colonial espanhola. Contará por isso com a anarquia governativa em que a Espanha se debate, sem uma ideia certa que a conduza através dos meandros complicadíssimos da questão marroquina, dificultando-lhe conjuntamente a penetração no Rif, pelas surdas mas constantes instigações aos indígenas, a quem decerto não faltarão nem munições nem armamento. Um momento soará, pois, em que a Espanha, cansada de insucessos sobre insucessos, se resolverá ao abandono do Rif, debaixo da pressão da opinião pública, se antes, declarada internacionalmente incapaz de civilizar e pacificar a zona que lhe foi distribuída no retalhado sultanato magrebino, não vir a França ocupar-lhe o lugar, como mais apta e mais idónea. Assim subtilmente no-lo sugere André Fribourg, quando pondera a ineficácia da acção espanhola no Rif, conparando-a com a excelência da pacificação e administração francesa.
À primeira vista o argumento é de peso e abalará seguramente, pelo simples exame dos factos, as inteligências menos prevenidas. A obra do general Lyautey é um alto exemplo de tacto governativo e de incontestáveis realizações. Não nos entreguemos, em todo o caso, aos ditames únicos do entusiasmo! A França domina hoje aquela parte de Marrocos secularmente desbravada pela irradiação europeia. Embora os franceses o esqueçam sistematicamente, se é que o não tentam apagar, à raiz da sua ocupação encontram-se os sedimentos fortes da conquista portuguesa, que, se não penetrou muito fundo, abriu, no entanto, sulcos inapagáveis. Da boca do próprio sultão destronado Muley Haffid, tive eu a alegria de escutar que, cem léguas da costa para o interior, os vestígios que se encontram da passagem de antigos dominadores, pontes, calçadas, fortalezas, ou são romanos, ou são portugueses. Do mesmo sultão ouvi também que os franceses picam invariavelmente os brasões ou lápides que atestam a ocupação de Portugal. Será uma falsa acusação de um inimigo declarado da França? Talvez. Contudo, a forma como se portam para connosco bastantes publicistas franceses que a Marrocos dedicam os labores da sua pena, leva-nos a admitir que presumivelmente se não trata de uma calúnia. Basta abrir o grosso volume de Victor Piquet, Les civilizations de l’Afrique du Nord,[6] para nos capacitarmos do sectarismo dos franceses em semelhante capítulo. Num livro compacto, de perto de 400 páginas, nem uma página completa se nos chega a consagrar, essa mesma difícil de se descobrir, porque no índice aparece englobada na designação geral de «les chrétiens en Berbérie».
Mas por muito que a França procure apagar os sinais no nosso domínio, é sem dúvida sobre eles que a sua obra colonizadora assenta. De resto, para a compreensão perfeita do problema marroquino, é conveniente acentuar que, ao inverso do que ordinariamente se supõe, Marrocos (ou Magreb el Aksá, ‘país do extremo ocidente’) não constitui uma unidade social e política, sujeita unicamente à suzerania do sultão. Assim, toda essa extensa e misteriosa região é dividida pelos próprios funcionários do império em dois longos países – B’lad en Magsén, e Blad es-Siba, sendo o primeiro a parte propriamente governamental, isto é, a que paga tributos ao sultão e lhe reconhece obediência, enquanto que a outra parte, sempre rebelde e insubmissa, denominada por isso ‘país do roubo’, não abdica nunca da sua autonomia, sendo muito mais dilatada que a parte governamental.[7] Esta disporá de quatro milhões de habitantes para uma superfície de 200.000 quilómetros quadrados, dispondo o ‘país do roubo’ de sete ou oito milhões de habitantes para uma superfície de 600.000 quilómetros quadrados.
Do país governamental coube à Espanha apenas a planície do baixo Lucus, ocupada pela tribo árabe de Jolot, e uma fracção do Tili, ao passo que no ‘país do roubo’ a sua acção se deve estender por toda a Yebala, maciço montanhoso, povoada de gente brava e irrequieta. De sorte que a Espanha se acha numa situação inferior à da França, porque precisa de actuar numa zona onde nunca foi efectiva nem reconhecida a soberania do sultão, acrescendo ainda que, aceitando o protectorado na Yebala, a Espanha restringiu o seu direito de conquista, pois teve como legítima a autoridade imperial do Xerife numa região a que ela não se estendia. Não admira, por isso, que, além das dificuldades que o exercício do seu mandato lhe acarreta, a sua situação seja inferior à da França, que guardou para si o que já se achava submetido ao poder central do Império e em condições, portanto, de lhe aceitar mais facilmente a tutela. São, por consequência, jactanciosos os louvores dos franceses ao seu esforço em Marrocos, quando tendenciosamente o comparam com o dos espanhóis. Para os espanhóis, a índole indomável das tríbus abrangidas pelo seu protectorado obriga-os a uma tensão militar, que a França não conhece nas cidades da costa e entre as populações arabizadas do B’lad en Magsén.[8]
Afigura-se-me de quanto se deixa dito o que há de irritante e de depressivo no juízo que os franceses se formam acerca do protectorado espanhol em Marrocos. Para eles, esse protectorado desaparecerá pela força própria das circunstâncias, porque, senão, a França o faria desaparecer, constituindo como constitui um perigo para o domínio francês na Argélia. A previsão da guerra é aqui evidente. E o conflito só não estalará se a Espanha, acumulando erros sobre erros, se demitir dos mais elementares dos seus direitos à existência. A sua política de expansão é a política do cardeal Cisneros – é a política do norte de África. Se as aspirações de D. João de Áustria não houvessem tropeçado nas lentidões contralistas de Filipe II, a Tunísia tornar-se-ia num reino cristão e a Espanha teria assim assegurada a sua influência no Mediterrâneo ocidental. A perda de Gibraltar dificultou-lhe a passagem do Estreito, e o desastre quase se transformou em catástrofe ao transigir com a entrada da França em Marrocos.
A tal respeito é natural que a sua neutralidade na Guerra houvesse sido um acto de falsa prudência. Ángel Ganivet exclama algures que «en presencia de la ruina espiritual de España, hay que ponerse una piedra en el sitio donde está el corazón, y hay que arrojar aunque sea un millón de españoles a los lobos, si no querermos arrojarnos todos a los puercos». Eis a situação em que a Espanha se debate perante o problema de Marrocos! A audácia com que se apossou de Larache e de Arzila, procurando uma compensação no B’lad en Magsén, podia servir-lhe de estímulo para muito mais na hora indecisa em que os cavaleiros do Apocalise se estadeavam por sobre o continente europeu. Hoje, com a França já firmada em Marrocos, graças ao governo do general Lyautey, a oportunidade perdeu-se. Voltará, porém, cedo ou tarde, quando a França se sinta constrangida, pela pressão da Itália na Tunísia, a solucionar de vez as suas dificuldades no norte da África. Ora até certo ponto os interesses da Espanha são paralelos aos interesses da Itália, tanto pelo que toca ao norte da África, propriamente, como pelo que se prende com o domínio da parte ocidental do Mediterrâneo. Se para Espanha e Portugal se traduziram sempre em funestos resultados os equívocos seculares que impedem a colaboração estreita das duas nações irmãs, não é menos funesto, para a grandeza das duas Penínsulas – a Itálica e a Hispânica – o desentendimento em que se mantêm. Na enunciação das suas reivindicações mais queridas, o paralelismo entre a Espanha e a Itália possui o vigor das coisas imediatas.[9] Objectivos externos em que divirjam ou em que se contraditem, não existem para ambas, existindo, pelo contrário, uma completa identidade de tendências e de fins naquilo que representa a natural expansão da sua curva histórica. Creio firmemente que o problema de Marrocos, vital para o futuro da Espanha – futuro tanto económico como político – conduzirá ao acordo com a Itália, empenhada como a Espanha em se refazer de mutilações antigas – a da Córsega, por exemplo. De onde se verifica que à Espanha não faltarão ocasiões para corrigir os efeitos do atentado que, para a sua independência, significa a hegemonia crescente da França em Marrocos. Exige-lho, como garantia, a integridade sagrada do seu território.
«Yo tengo para mi que la línea estratégica de ciudades y fortalezas que poseemos al otro lado del Estrecho, desde Ceuta a las Chafarinas, nos es tan necesaria, hoy por hoy, y forma parte tan integrante de nuestro territorio, como la línea estratégica de fortalezas que se extiende por la cuenca del Ebro, desde Montjuich hasta Pamplona.» Assim se exprimia vai para quarenta anos D. Joaquín Costa, o aragonês insigne, não obstante entender que era preciso fechar a sete chaves o sepulcro do Cid. Efectivamente, é por Marrocos, segundo as lições da história, que a Espanha está sujeita a uma arremetida. Nessa conformidade, já se assinalaram bem as consequências nefastas para o seu futuro, se Marrocos se tornar o poiso definitivo de uma nação estrangeira. A Espanha, buscando, por todos os meios possíveis, regressar à política de Cisneros, não o faz por meios ambiciosos de imperialismo – fá-lo, executando aquele ‘programa de conservação’ de que nos fala Moniz Barreto. Sem que assegure primeiro a sua dupla posição de terra mediterrânea e de terra atlântica, a Espanha acha-se incapacitada de entrar a sério na realização da política do Atlântico – mare nostrum. Nota algures um publicista espanhol que o século presente «pone en el tablero de juego a Gibraltar y a Panamá», acrescentando «que el Mediterráneo es un escenario muy pequeño para las tragedias futuras». Este é o aspecto primacial da questão e em torno do qual as atenções esclarecidas carecem de se concentrar. Depois, convém não esquecer que, se a política marroquina da Espanha é uma política de defesa em relação à Península, é igualmente uma política de regeneração, se a considerarmos debaixo do ponto de vista exclusivamente marroquino. Tende a provar-se cada vez mais a íntima afinidade étnica de hispânicos e de berberes. É a velha tese de D. Joaquín Costa, retomada pelo catedrático Antón y Fernández e ultimamente fortalecida pelo eminente arqueólogo alemão, dr. Adolfo Schulten. Discorrendo dos Yebalas, escreve Constancio Bernaldo de Quirós: «... los Yebalas son poco extraños para nosotros. Hermanos suyos somos los iberos, hijos ambos de una vieja raza líbica que desde las edades de la piedra se extendió por ambas costas del Mediterráneo occidental y que se conserva en su mayor pureza, separada por la solución de continuidad del Estrecho, en las montañas del Atlas y en las altas mesetas castellanas». E o autor citado adita: «El alemán Schulten, desenterrador de Numancia, la celtibera, acaso es el último que ha echo notar el parecido de ambos pueblos, em su precioso estudio sobre los campesinos de tierra de Soria. Por donde el castellano, el aragonés y aún el andaluz, viajando per las tierras berberistas, y encontrando a diario la clave de las instituciones, de los costumbres y aún de las palabras de la madre patria, son com el lejano descendiente que regressa a la vieja casa solariega, abandonada y olvidada durante largas generaciones, recibiendo en ella la explicación de sus estructuras y hábitos más íntimos.»
Por aqui se infere que, no exercício de um legítimo direito espiritual, à Espanha cabe trazer a uma sociabilidade mais elevada o berbere seu vizinho e seu parente de além-Estreito. A diferença que existe entre os povos da Península e as indomáveis tribos do norte de África é uma diferença de ordem moral e histórica – benefício recebido do Cristianismo. De facto, entre os berberes, podemos surpreender a origem e o processo ou formação dos nossos quadros institucionais mais característicos. É à sua yemáa, ou assembleia conciliar, que nós devemos ir buscar a genealogia dos municípios peninsulares, e não ao alastramento da colonização romana. Enganam-se os que reputam o berbere como sinónimo de uma raça inferior! O berbere, pelo contrário possui agilidade de entendimento, a sua família é de constituição patriarcal e monogâmica, e revelam-se nele todas as qualidades fundamentais de um grande povo, desde o amor cego à independência até à estreita coesão do vínculo familiar. Trata-se, pois, de um caso de estagnação social, derivado, sobretudo, da frágil infiltração do Cristianismo entre eles. Isso nos obriga a nós, peninsulares, a encará-los como parte no nosso todo, justificando-se inteiramente qualquer intervenção que, no futuro, a Espanha, com Portugal ao lado, desenvolva em Marrocos, a fim de acordar para a comunidade da nossa civilização esse ramo desgarrado da velha árvore líbio-ibérica. Nós, portugueses, então, como saídos do tronco lusitano, temos especiais motivos para nos interessarmos pelo destino do berbere. Estudá-lo nos seus costumes e tradições é estudar a gestação da nossa nacionalidade no período preliminar, a que a figura de Viriato preside. Recordam-nos uma actualização de Estrabão no capítulo consagrado à Lusitânia. Viveiro inesgotável de energias, não são menos nossos que os tantos milhões de hispano-americanos, em que, na outra margem do Oceano, a nossa esperança se depõe! Inscrevamos o berbere no livro das nossas linhagens, e que o nosso esforço consiga um dia trazê-lo ao desfrute do quinhão que no património comum lhe pertence!
E parece-nos suficientemente demonstrado quanto o problema de Marrocos se agarra, por todas as suas raízes, ao problema peninsular. Garantia inalienável da independência política e económica da Espanha, é, reflexamente, também condição de equilíbrio e de desafogo para o nosso Portugal Se a instalação na cabeceira de África de uma potência alheia às aspirações da Península representa um perigo sério para a Espanha, não o representa menos para Portugal, que necessariamente se enfeudaria ao poder que terminasse por enfraquecer e fragmentar o país irmão, se é que um outro poder, inimigo do primeiro, não procurasse combatê-lo sobre o nosso território, reduzindo-nos assim a uma subalternização deprimente. Como a grandeza da pátria não consiste apenas no arranjo orçamental e na valorização da moeda, Marrocos guarda para nós as mesmas possibilidades de reconstituíção militar e naval, a que o nosso futuro está inquebrantavelmente hipotecado. D. Joaquín Costa dizia no seu tempo: «Lo que a España interesa, lo que España necesita, no es sojuzgar el Magreb, no es llevar sus armas hasta el Atlas; lo que a España interesa es que el Magreb no sea jamás una colonia europea; es que al otro lado del Estrecho se constituya una nación viril, independiente y culta, aliada natural de España, unida a nosotros por los vínculos del interés común, como lo está por los vínculos de la vecindad y de la historia...» E porquê? Porque «la transformación de Marruecos en colonia francesa o en colonia británica llevaría consigo, como consecuencia necesaria, la expulsión de España de aquella costa, lo mismo que de la costa occidental, o sea, de Santa Cruz de Mar Pequeña; seguiríase a eso la pérdida de las Baleares y de las Canarias; y así, estrechada España entre dos Inglaterras o entre dos Francias, en bloqueo permanente sus costas mediterráneas, no tardaríamos en ver atacada su independencia en el corazón mismo de su metrópole».
Esta a sorte de Espanha, e não seria outra a sorte de Portugal. Compreende-se, por isso, como Marrocos se prende de perto à autonomia da Península. Inútil, desta forma, sonharmos em efectivar aquele simples ‘programa de conservação’, em que insiste Moniz Barreto, se a questão do norte de África se agravar, ou permanecer, pelo menos, no pé em que se encontra. Daqui a importância que reveste para o meu nacionalismo alarmado a questão marroquina. Se a Espanha é por enquanto a mais directamente afectada, não tardará que nós o sejamos, e bem duramente, num futuro já próximo. De resto, Portugal, com a sua natural inclinação para o Brasil, unicamente se libertará do marasmo suicida em que adormeceu, atirando-se de alma e coração para a política entrevista por el-rei D. João IV. Conhecem-se as declarações do tão caluniado fundador da dinastia de Bragança. Na sua audiência célebre ao Chevalier de Jant, confessava o monarca que, «se possuísse só o Brasil com o reino de Angola, as praças de África, os Açores e Cabo-Verde, e juntos estes Estados com Portugal, não trocaria a sua condição pela de nenhum outro Príncipe da Europa». Ora aqui se nos apresenta com uma nítida visão o caminho do Portugal-Maior! Adicionam-se-lhe agora as afinidades de toda a espécie que nos aconselham a aliança com a Espanha e, resultantemente, com as pátrias hispano-americanas, a quem ela deu o ser. É um bloco político formidável, a quem inspiram, não motivos de agressão ou cupidez imperialista, mas os dictames da própria e comum vitalidade.
De modo diverso, acabaremos por viver como ilotas nas duas margens do Oceano que nós sulcámos e desvendámos, indignos até dos títulos de glória que o passado nos confere! Para tanto, no Poder Naval reside a base da nossa supremacia vindoira. Sem Poder Naval, a Península acha-se totalmente indefesa. Organizá-lo é percorrer as primeiras jornadas da nossa emancipação internacional e cumprir ao mesmo tempo as indicações que a geografia não cessa nunca de repetir. Entre essas indicações, Marrocos figura em lugar de destaque. É o nosso lado vulnerável – é o nosso indispensável ponto de apoio. Marrocos em mãos alheias, equivale a demitir-nos de quanto o dia de amanhã nos promete, em nome da obra civilizadora que Portugal e Espanha realizaram desinteressadamente no mundo. Se o Poder Naval é para a Península sinónimo de preponderância e prestígio, Marrocos é a chave do nosso indispensável navalismo. Meditemos bem em tão grave problema, e que a aliança de Portugal com a Espanha tenha por imediato e enérgico objectivo corrigir, nos termos ainda possíveis, a desgraçada situação que no norte de África deixámos criar![10]
[1] Influencia del poder naval en la historia. 1660-1783, por A.T. Mahan, tradução espanhola dos tenentes de navio Cervera y Jácome e Sobrini y Argulos, Ferrol, 1901.
[2] Emilio H. del Villar, Bases para la Política Exterior de España. África y el Estrecho, Barcelona, 1918, pp. 28-29.
[3] Julgamos não cometer uma indiscrição trazendo para público que em 1918 João de Almeida, nosso heróico africanista, lembrou ao presidente Sidónio Pais a necessidade de se pôr em Tânger o objectivo principal da nossa cooperação na guerra. Sidónio quase que lhe pediu pelo amor de Deus que não falasse em tal. Mesmo os melhores, são o que se vê.
[4] Madrid, 1905.
[5] Paris, Librairie Plon, 1922.
[6] Paris, Armand Colin, 1921.
[7] Vid. o interessantíssimo volume Yebala y el bajo Lucus, Madrid, 1914, publicado pela Real Sociedade Española de Historia Natural, depois de uma expedição científica à zona espanhola de Marrocos. Sobretudo, para o nosso ponto de vista, é de subido alcance o capítulo «Etnografia», de Constancio Bernaldo de Quirós.
[8] Aconselha-se a leitura do livro El protectorado francés en Marruecos y sus enseñanzas para la acción española, Madrid, 1915, por Manuel González Hontoria, ministro de Estado no gabinete presidido por Maura em 1919. Ainda que se coloque como observador num campo de simples objectividade, González Hontoria acentua bem que ao protectorado francês corresponde o Marrocos «donde había extranjeros y donde el Sultán tenía autoridad», «siendo... en su mayor parte llano, fértil y accesible». Por isso González Hontoria, insiste – e insiste justamente – em que «el protectorado francés en Marruecos recae sobre cosa relativamente homogénea y compacta». E González Hontoria escreve: «Hay grandes diferencias, naturalmente, entre tríbus árabes y tríbus bereberes y entre el antiguo belad-el-mejz-n y el b-lad-es-siba, hasta que hace un año se ocupó Taza, faltaba el contacto material entre el Marruecos occidental y el Marruecos oriental. Pero la diversidad y separación no son comparables con las que median entre la zona española del septentrión (del Muluya al Tucus) y la del mediodía (del Drá hasta el paralelo 270). En el septentrión mismo, por optimista que se sea, hay que prever un plazo, relativamente largo, para que se establezca el contacto entre la región de Tetuán y la de Larache, y uno, mucho mayor, para que, pacificada toda la comarca, lleguen a ser contiguos los mandos militares de Tetuán y de Melilla.» Neste ligeiro extracto adivinha-se bem o que há de empavonado nos elogios que os franceses se fazem sobre a sua obra de Marrocos. É digna de louvor, incontestavelmente, mas nem de longe tiveram de combater as dificuldades com que os espanhóis ainda hoje se defrontam!
[9] Escritas estas páginas muito antes do advento de Primo de Rivera, a viagem a Roma dos Reis de Espanha dá-lhes uma extraordinária confirmação.
[10] É de toda a justiça lembrar um nome, hoje totalmente esquecido, que há mais de 40 anos prestava já ao problema de Marrocos as atentações do seu patriotismo alarmado. Refiro-me ao oficial da Armada – e professor da Escola Naval – Carlos Testa, no seu tempo versadíssimo em questões de política internacional. No opúculo A política internacional e... o tratado de Lourenço Marques, Lisboa, 1881, prevendo a partilha que o destino reservava para o império magrebino, Carlos Testa afirmava então, numa notável clarividência, que «Portugal, sob o ponto de vista histórico, geográfico e político, deveria e poderia preparar-se para estar no caso de aspirar à competência a que seus títulos possam dar-lhe direito». Volvidos tempos, em 1888, em outro opúculo – Portugal e Marrocos perante a história e a política europeia – Carlos Testa tornou a insistir no mesmo tema. Recordá-lo é provar que não sustentamos uma simples opinião pessoal, mas antes uma reivindicação patriótica, com os seus antecedentes bem marcados.