Madre-Hispânia
António Sardinha
já desde os concílios de Toledo submetíamos à disciplina suprema do Espírito a força bruta, enunciando o célebre aforismo, recolhido por Santo Isidoro nas suas Etimologias, «Rex eris recte facias: si non facias, non eris»...
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A filosofia da Escola, a filosofia do Ser, a filosofia da objectividade, a filosofia que, bafejada pela excelsa penetração de Santo Tomás, nos ensina a distinção entre pessoa e indivíduo, sem a qual a acção histórica dos povos peninsulares é difícil – senão impossível – de interpretar e deslindar.
A filosofia da Escola, a filosofia do Ser, a filosofia da objectividade, a filosofia que, bafejada pela excelsa penetração de Santo Tomás, nos ensina a distinção entre pessoa e indivíduo, sem a qual a acção histórica dos povos peninsulares é difícil – senão impossível – de interpretar e deslindar.
...há uma "política‟ nos Lusíadas, os Lusíadas são, et nunc et semper, a pedra mais firme de Portugal como nação, a mais firme coluna da lareira nacional dos portugueses.
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... Hispânia-Madre é a concepção em que o pensamento de Camões encontra a sua repercussão universalista do génio da pátria.
- António Sardinha
RESUMO
Neste discurso pronunciado em Badajoz, em 12 de outubro de 1924, António Sardinha mergulha na importância histórica da Península Ibérica — em especial Portugal e a Estremadura espanhola — na epopeia das Descobertas e na criação de novas nações. Iniciado com a lembrança da chegada de Colombo à América, destaca-se o papel dos estremenhos e portugueses como protagonistas de uma aventura civilizacional sem precedentes. É sublinhado o laço indissolúvel entre Estremadura e Portugal na expansão ultramarina, lembrando nomes como Pizarro, Cortés e Vasco Núñez de Balboa, e destacando o vigor com que povos interiores, longe do mar, se lançaram à conquista dos oceanos e à formação do Novo Mundo.
António Sardinha faz uma análise profunda da identidade peninsular, resgatando a visão de Menéndez Pelayo sobre o dualismo de raízes galegas e estremenhas presente em Gil Vicente e, por extensão, na alma portuguesa. Este dualismo, entre a paixão lírica e a firmeza combativa, forjou tanto a capacidade de amar (poesia, saudade) quanto a de empreender e conquistar (expansão, heroísmo). Portugal e Castela, sempre coexistiram numa unidade fundada na diversidade e na complementaridade, cada qual cumprindo missões distintas: Portugal, lançando-se ao mar e à evangelização do mundo; Castela, defendendo o continente europeu das ameaças externas.
Rejeitando visões simplistas de decadência peninsular, Sardinha defende que a verdadeira crise não é dos povos hispânicos, mas da própria Europa, desde que esta se afastou do ideal cristão e do humanismo espiritual que a Península soube encarnar. Assinala que o espírito hispânico se baseia numa noção de “pessoa” (em oposição ao individualismo moderno), capaz de criar nacionalidades e civilizações, e não apenas colónias. A obra civilizadora dos povos ibéricos, diz, deve-se ao seu universalismo, à fusão entre fé cristã e génio peninsular, à defesa da liberdade fundada na autonomia moral da pessoa e não em liberalismos vazios.
Ao longo deste discurso, são evocadas personalidades históricas e literárias (de Camões a Ganivet, de Frei João de Santo Tomás a Oliveira Martins), citações e juízos de estrangeiros sobre o papel ímpar da Península na formação do mundo moderno, e episódios que ilustram a permanência do génio hispânico, mesmo nos momentos de crise. Sardinha critica os preconceitos que fizeram de Portugal e Espanha meras caricaturas arcaicas aos olhos da Europa industrializada, lembrando que foi dos seus esforços que surgiram mais de vinte nações, e que só os hispânicos souberam expandir um ideal civilizacional fundado no espírito.
António Sardinha aponta para a necessidade de restaurar a consciência do “hispanismo” — uma MISSÃO ESPIRITUAL E CULTURAL, acima de acordos materiais ou alianças políticas —, destacando que a aproximação entre Portugal e Espanha deve assentar no respeito pela diferença e na valorização do que os une. Propõe um regresso ao DUALISMO CRIATIVO DO SÉCULO XVI, à política de Os Lusíadas [Luís de Camões], em que o patriotismo nacional era engrandecido pelo universalismo peninsular. Ao concluir, evoca os desafios do presente, defendendo que só pela primazia do espírito, pela solidariedade, pelo compromisso com causas universais e pela renovação interior, se pode encontrar resposta à crise da civilização ocidental. A “Festa da Raça” torna-se, então, símbolo não de nostalgia, mas de um apelo à ação, à responsabilidade partilhada, à construção de pontes e ao resgate dos valores fundadores do génio peninsular.
Em suma, António Sardinha celebra a herança cultural, espiritual e civilizacional de Portugal e Espanha, convidando a um novo protagonismo, consciente e inspirado, no concerto das nações e no rumo do destino humano.
António Sardinha faz uma análise profunda da identidade peninsular, resgatando a visão de Menéndez Pelayo sobre o dualismo de raízes galegas e estremenhas presente em Gil Vicente e, por extensão, na alma portuguesa. Este dualismo, entre a paixão lírica e a firmeza combativa, forjou tanto a capacidade de amar (poesia, saudade) quanto a de empreender e conquistar (expansão, heroísmo). Portugal e Castela, sempre coexistiram numa unidade fundada na diversidade e na complementaridade, cada qual cumprindo missões distintas: Portugal, lançando-se ao mar e à evangelização do mundo; Castela, defendendo o continente europeu das ameaças externas.
Rejeitando visões simplistas de decadência peninsular, Sardinha defende que a verdadeira crise não é dos povos hispânicos, mas da própria Europa, desde que esta se afastou do ideal cristão e do humanismo espiritual que a Península soube encarnar. Assinala que o espírito hispânico se baseia numa noção de “pessoa” (em oposição ao individualismo moderno), capaz de criar nacionalidades e civilizações, e não apenas colónias. A obra civilizadora dos povos ibéricos, diz, deve-se ao seu universalismo, à fusão entre fé cristã e génio peninsular, à defesa da liberdade fundada na autonomia moral da pessoa e não em liberalismos vazios.
Ao longo deste discurso, são evocadas personalidades históricas e literárias (de Camões a Ganivet, de Frei João de Santo Tomás a Oliveira Martins), citações e juízos de estrangeiros sobre o papel ímpar da Península na formação do mundo moderno, e episódios que ilustram a permanência do génio hispânico, mesmo nos momentos de crise. Sardinha critica os preconceitos que fizeram de Portugal e Espanha meras caricaturas arcaicas aos olhos da Europa industrializada, lembrando que foi dos seus esforços que surgiram mais de vinte nações, e que só os hispânicos souberam expandir um ideal civilizacional fundado no espírito.
António Sardinha aponta para a necessidade de restaurar a consciência do “hispanismo” — uma MISSÃO ESPIRITUAL E CULTURAL, acima de acordos materiais ou alianças políticas —, destacando que a aproximação entre Portugal e Espanha deve assentar no respeito pela diferença e na valorização do que os une. Propõe um regresso ao DUALISMO CRIATIVO DO SÉCULO XVI, à política de Os Lusíadas [Luís de Camões], em que o patriotismo nacional era engrandecido pelo universalismo peninsular. Ao concluir, evoca os desafios do presente, defendendo que só pela primazia do espírito, pela solidariedade, pelo compromisso com causas universais e pela renovação interior, se pode encontrar resposta à crise da civilização ocidental. A “Festa da Raça” torna-se, então, símbolo não de nostalgia, mas de um apelo à ação, à responsabilidade partilhada, à construção de pontes e ao resgate dos valores fundadores do génio peninsular.
Em suma, António Sardinha celebra a herança cultural, espiritual e civilizacional de Portugal e Espanha, convidando a um novo protagonismo, consciente e inspirado, no concerto das nações e no rumo do destino humano.
MADRE-HISPÂNIA
Foi pelas duas horas da manhã do dia 12 de outubro do ano da Graça de 1492 que, a bordo da nau Pinta, uma voz gritou inesperadamente ¡Tierra! A América estava descoberta, a geografia do mundo transformada e enriquecida, e, com a entrada desse novo continente no concerto da civilização, quem sabe se garantidas as melhores possibilidades de um futuro ainda por definir?!
Nada mais agradável ao meu espírito do que falar da descoberta da América em pleno coração da terra estremenha! Dos navegadores aos conquistadores, Estremadura foi a grande mãe de que se nutriu insaciavelmente a gesta admirável do descobrimento e da colonização da América. Eis um laço – laço indissolúvel – que prende de perto a história ultramarina de Portugal ao maior capítulo da história de Estremadura. Daqui partiu Pizarro, daqui partiu Cortés, daqui partiu Vasco Núñez de Balboa, daqui partiram os Alvarados. E hoje que as investigações e a erudição nos vão esmiuçando pormenor a pormenor, trabalho árduo, o zelo incansável – tanta fome sofrida, tanto sangue derramado! – de que resultou na sua pluralidade harmoniosa a América, indevidamente chamada "latina", nós sentimos, nós compreendemos quanto era natural e espontâneo, às vésperas da Península encontrar o seu cantor máximo em Camões, a associação do génio estremenho e do génio português! Como detalhe expressivo, não quero deixar de lembrar a memória daqueles fidalgos de Elvas – Pegados e Vasconcelos – companheiros de Hernando de Soto, outro estremenho, na empresa acidentada e cavalheiresca da Florida.
Sempre que se fala das glórias da Península, o nome de Menéndez Pelayo, o grande mestre, acode tutelarmente a encaminhar-nos e a amparar-nos. Pois Menéndez Pelayo (e diante da sua egrégia sombra me curvo, reverente, eu que lhe devo a visão sintética da unidade cultural, em que inconfundível, mas também inseparavelmente, Portugal e Espanha se integram e completam!), pois Menéndez Pelayo, discorrendo de Gil Vicente e da flama inquieta que lhe sacode a sátira, oferece-nos algures um penetrante juízo, entre os muitos em que abundava a sua rara acuidade crítica. Para Menéndez Pelayo, Gil Vicente «tenía en su lira todas las cuerdas del alma portuguesa, pero sobre los rasgos del gallego melancólico y soledoso predominan en su acentuada fisionomía los del duro lusitano, del extremeño seco y cetrino, raza de los Albuquerques y Pizarros, que tan fieramente estampó su huella en las pagodas indostánicas y en los templos de los hijos del Sol». Evidentemente, minhas senhoras e meus senhores, que não vos venho cansar com a exposição de longas teorias, ainda que oportunas, em face do acontecimento que celebramos. Mas impõe-se-nos assinalar e, mais que assinalar, salientar a circunstância de haver sido Estremadura, uma região ou país do interior, quem entre as várias províncias de que se entretecia a coroa católica de Castela se atirou com heróica febre à aventura dos mares e à cristianização do Novo-Mundo, em que parecia ressuscitar, saído dos fundos misteriosos do Oceano, o prestígio fabuloso da Atlântida submersa. Envolta Castela nas guerras continentais, de que em boa parte derivou a salvação da Europa – então devastada pela dissidência religiosa e com a ameaça do Turco oprimindo-a sufocadoramente –, ocorre de pronto perguntar porque preferiram a sedução do incerto e do ignoto, trocando o trato familiar do arado pelo difícil trato marítimo, a que nasciam e se criavam estranhos, às lutas em campo aberto, debaixo das bandeiras do Imperador, as levas e levas de estremenhos que, desbordando da sua pequena pátria rural, foram depois, na perturbação enervante da selva americana, semente bendita, alicerce vivo e fecundo de vinte fecundas e vivas nacionalidades. A interrogação é legítima e há logicamente que aceitá-la. Aceitêmo-la, porém, sem recorrer às explicações artificiosas e infantis de um Unamuno, quando atribui ao «Amor do risco» (espécie de paixão animal e inferior que poderia conduzir às galés, da mesma maneira que conduzia às esplanadas da fama) o impulso colectivo que em Estremadura atirou, como uma só pessoa, vibrando numa única aspiração, para as terras moças do Poente – para as maravilhosas Índias Ocidentais – fidalgos e frades, labregos e letrados, até crianças e mulheres, trasladando na sua mudança o grão do celeiro e o cortejo ruidoso dos animais domésticos.
Se durante o formidável período de Quinhentos é seguro e nítido o paralelismo social e político de Portugal e Castela; se é segura e nítida em todas as manifestações a simultaneidade consciente dos dois Estados peninsulares, concordemos que Estremadura acompanha, mais que nenhuma outra parte dos reinos de Carlos V, o ritmo em que Portugal – o Portugal rústico do cajado e da
charrua – se transfere, de cruz aberta nas armaduras, para o convés das naus da Descoberta. Porquê? Carecemos de recuar bem longe, de subir ao segredo remoto das Origens, de auscultar as nascentes míticas, as tradições poéticas do antigo solo da Hispânia-Madre. Não se enganava Menéndez Pelayo, ao deslindar na crueza faceira de Gil Vicente dois elementos componentes – o que o mestre ilustre classificava de galego, e o que reputava como estremenho. Efectivamente, a expressão histórica em que o génio português se concretizou e imortalizou resulta dos dois elementos: do elemento lírico, apaixonado, saudoso, para sempre individualizado nos Cancioneiros galaico-lusitanos; e do elemento pertinaz, combativo, de agarrada resistência local, mas dotado de conjunta capacidade expansiva – ou imperialista – que nos ensina como Portugal é – contraditoriamente, a terra da poesia do amor e um ninho inesgotável de "heróis" – no sentido carlyliano da palavra. Do consórcio do velho fundo galaico com o velho fundo vetónico nascemos nós, como "povo", nascemos nós, como "alma". A "lusitanidade", como tipo psíquico personalizado no decurso de uma existência secular por uma literatura bem marcada e autónoma e por uma acção universal, que ninguém ousará contestar, não traduziu, não traduz, senão a justa fusão dessas duas modalidades que, ao penetrarem-se, se ampliaram e remodelaram, incessantemente, até provocarem o aparecimento, em meio físico adequado, daquilo que constituiu a essência generatriz de Portugal como nação.
Não nos diminuía em nada, por isso mesmo, Menéndez Pelayo ao surpreender em Gil Vicente – nos dois «Autos a El-Rey» – a afloração dos dois elementos, o galaico e o vetónico, com a supremacia do segundo, determinando a feição cortante, a irreverência implacável do patriarca do teatro peninsular. Irrefutavelmente, aí reside a dinâmica do nacionalismo português que, se na vertente ocidental da Península achou moldura que o ajeitou e desenvolveu, na índole sensível e branda do galego, seu irmão, e na rijeza bíblica – digamos assim – do estremenho, seu parente carnal, contempla ainda agora as partes desgarradas de um todo, de que a Lusitânia de Viriato, prolongada aos portugueses da Reconquista e aos mareantes de Nuno Gonçalves, representa o núcleo colectivo elevado ao grau consciente de nacionalidade.
As afinidades do português com o estremenho, apresentadas por Menéndez Pelayo na obra de Gil Vicente, aparecem-nos igualmente apontadas pelo alemão Adolfo Schulten no seu recentíssimo estudo sobre Viriato. Referindo-se ao incomparável caudilho, observa o ilustre arqueólogo, poderoso exumador de Numância a jamais vencida: «Também em épocas posteriores os montes lusitanos produziram grandes generais: dos Vetões da Estremadura deriva toda a série de férreos conquistadores, a cuja frente se contam Pizarro e Cortês.»
Ora, na estreita irmandade do estremenho com o português, ramos concordes da mesma árvore genealógica, e nas imposições longínquas de um comum atavismo, é que nós necessitamos de buscar a atracção irresistível que as empresas ultramarinas acenderam em Estremadura por vales e serras, por cidades e vilares. Decerto que o exemplo próximo de Portugal contribuíra fortemente para esse como que levantamento em massa. Decerto! Mas o contágio, ou não se daria, ou passaria rápido como um golpe de vento, se mais profundamente não existisse, na sub-consciência das populações, uma especial disposição para o receber e propagar. Eis porque festejando o 12 de Outubro, Portugal e Estremadura se entrelaçam de uma forma particular na comemoração de uma data que é como que a epígrafe, ou talvez o pórtico, das idades modernas do Mundo.
Com a entrada da América na comunidade da civilização ocidental, pura essência do Cristianismo – que é imperioso reanimar, para desmentirmos a Oswald Spengler e à sua teoria de catástrofe! –, a tendência pronunciadamente universalista da Hispânia-Madre atingia a sua máxima verificação. Facilmente se percebe que, celebrando tão extraordinário acontecimento, não é a "raça" num exclusivo e absurdo sentido étnico que celebramos, aqui, mas a "raça" no sentido de "raiz", "antecedentes, e logo no sentido de no sentido de "cultura" e de "civilização". No sentido de "cultura" e de "civilização" (e não nos perderemos a esmiuçar os ilusórios antagonismos que entre "cultura" e "civilização" os mais famosos pan-germanistas contemporâneos se entretêm a engendrar para total intoxicação filosófica do pobre Ocidente!), no sentido de "cultura" e "civilização", a "Festa da Raça" – festa de Portugal e Espanha, congraçados no seu ideal supremo de povos colonizadores e evangelizadores, é a festa do nosso génio – é a festa do Génio Peninsular! E o que é o Génio Peninsular, na sua superior unidade espiritual, senão o fruto admirável de um admirável dualismo – o dualismo que, na vida da Hispânia-Madre, Portugal e Castela vigorosamente vinculam e perpetuam?
Enganam-se, e enganam-se numa cegueira lamentável, os que, olhando apenas à lição superficial das aparências, confundem "unidade" com "unitarismo". É "una", sem dúvida, a Península, mas a sua "unidade" alimenta-se da sua "diversidade". Se as "diversidades" de que se compõe conseguem introduzir matizes apreciáveis no conjunto político do que hoje entendemos como "Estado", ou "nação espanhola", e matizes de natureza psicológica, que são os mais inapagáveis! como negar, numa aberrante abstração, o que, desde a adolescência dos tempos, a geografia e a história se combinaram em diferenciar e manter: a personalidade própria, independente, de Portugal?! Com o seu autorizado convívio nos textos clássicos, referentes à etnogenia peninsular, o arqueólogo Adolfo Schulten fala-nos do sentimento instintivo, designando-o por "obstinação ibérica", que nas suas lutas contra Roma impedia já os Lusitanos de se ligarem duradoiramente aos Celtiberos.
Não venho a este lugar, minhas senhoras e meus senhores, desfiar brumosas genealogias de Portugal como pátria livre. Mas exatamente porque acredito na unidade do Génio Peninsular, exatamente porque me considero filho da grande Madre-Hispânia, é que reputo dever meu distinguir bem que "unidade" não quer exprimir unitarismo e que, sendo "unidade" de ordem estritamente espiritual, nada melhor a serve de que o dualismo em que historicamente a Península acabou por se estabilizar!
Dualismo de soberanias, dualismo de Estados. Mas semelhante dualismo não passaria nunca de um artifício, que a corrigenda inexorável dos anos haveria já desfeito, se não correspondesse a uma realidade maior, se não tirasse a sua razão de ser de outras razões mais recuadas e mais profundas. Não nos embrenharemos por uma selva escura de hipóteses a inquirir de onde viriam essas razões, se unicamente de uma influência de meio físico (ninguém ignora o papel do Atlântico na diversificação portuguesa dentro da Península), ou também se de misturas ou sobrevivências humanas, que porventura prevalecessem irredutíveis no ocidente peninsular. O que sublinho é a circunstância de Castela tender espontaneamente para a poesia heróica, para a gesta sonora e altissonante, enquanto Portugal vazava as inquietações do seu coração ardente na poesia do amor. Recordemo-nos do que o marquês de Santillana escrevia ao Condestável de Portugal: «... no ha mucho tiempo cualesquier decidores y trovadores de estas partes, ahora fueren castellanos, andaluces o de la Extremadura, todas sus obras componían en lengua gallega o
portuguesa». Recordemo-nos ainda de que Menéndez Pelayo, ao inclinar-se para a naturalidade galaico-lusitana do Amadis, ao mesmo tempo que o tratava de algo llorón, via-se obrigado a confessar que, apesar de a gravidade peninsular imprimir ao Amadis um ar sério e casto, ar que se não descobre nos seus modelos e arranjos franceses, palpita na afamada novela «mucho de enervante y muelle que contrasta con la férrea austeridad de las gestas castellanas». Achamo-nos em presença de uma evidente idiossincrasia – permita-se o emprego da feia palavra! – de que bem cedo as restantes Espanhas – como Camões diria! – formaram perfeito juízo, arvorando-o até à dignidade de provérbio.
Proverbial se tornou, indubitavelmente, em toda a Península a fina amorosidade portuguesa. López de Vega dedicou-lhe um dos seus mais aplaudidos epigramas e, rendido a uma evidência que seguramente o chocava, não hesitou em colocar na boca de um dos seus personagens, o "Don Fernando" da Dorotea, aquela inolvidável passagem, tão doce de repetir para nós, os de Portugal: «Tengo los ojos niños y portuguesa el alma». Conceito corrente durante o período filipino, o período áureo da vossa literatura, minhas senhoras e meus senhores, esse conceito da amorosidade lusitana, magnificamente o documentou o jesuíta Álvaro de Cienfuegos, ao declarar a propósito da morte da imperatriz Isabel, que «las demonstraciones del Emperador en esta desgracia fueron iguales a la pérdida, llorando tanto tiempo, y con tanta alma, que se conocía bien que con el trato de la Emperatriz se le había pegado toda la ternura portuguesa».
Mas a "ternura portuguesa" não acusa demissão de vontade, ausência de carácter empreendedor e construtivo. A data que nos congrega hoje aqui demonstra-no-lo belamente nas suas esplendorosas consequências. Essa extraordinária aptidão emocional do tronco luso, vestida em tipos literários como o Amadis e a Diana, gerou – temos de proclamá-lo! – a concepção do "amor" por que o Ocidente se rege, desde o "amor" base da família e da espécie, até aos desvios da atormentada psicose romântica. Fronteira moral de Portugal em relação a Castela, é um dos sinais porque se manifesta na sua dupla face o Génio Peninsular. A outra face – é a face da Epopeia, é a face da Gesta, do género sonoro e viril que, prosificado mais tarde, encherá as ressonâncias calderonianas do vosso teatro e iniciará com os vossos pícaros, e sobretudo, com as andanças sublimes do pobre senhor Alonso Quijano o romance realista – o romance analítico moderno.
Não se confina, porém, nos domínios excelsos do espiritual, minhas senhoras e meus senhores, o dualismo peninsular! Transitando para as grandes exteriorizações coletivas da história, é fácil descobrir lhe o rasto no papel que Deus conferiu a Castela, entregando-lhe a política continental do Mediterrâneo e da Europa Central – a cruzada da Terra – enquanto, com as Descobertas e com a alvorada de novos mundos, confiava a Portugal a cruzada do Mar. Não arriscarei uma hipérbole impertinente, se considerar o que existe de medular na civilização ocidental – exceptuado, claro, o impulso criador que lhe veio do Cristianismo – como essencialmente filho do génio peninsular ou hispânico. Mas a sua unidade, a unidade do génio hispânico, não reside na secura dogmática de uma fórmula inteiriça e geométrica. Nasce, ao contrário, de uma tocante pluralidade de aspectos e matizes, que Portugal e Castela, como partes predominantes, nele introduzem, enriquecendo-os de realce humano e de vitalidade incomparável.
Assim o teriam, por certo, sentido os varões máximos de Quinhentos, os varões da Descoberta e da Colonização. Uma das mais agudas, embora das mais esquecidas inteligências de Portugal, o malogrado Moniz Barreto, tracejou as linhas gerais dessa particular fisionomia do Génio Peninsular – o seu indiscutível dualismo. E, possuidor, como poucos, da chave da psicologia hispânica, bem alto proclamava, numa hora em que reinavam soberanamente em Portugal os mais abstrusos preconceitos anti-espanhóis, que o período de maior esplendor, tanto para Portugal como para Castela, coincide com o do sincero e voluntariamente procurado paralelismo de Quinhentos.
Acentuo voluntariamente procurado porque talvez como nunca, entre súbditos de Portugal e súbditos de Castela, os motivos de discórdia e de desavença se contassem tão numerosos. Bastava para nos incendiar numa luta fratricida a disputa das Terras maravilhosas, em que soldados de ambas as pátrias e missionários de ambas as línguas implantavam com o prestígio da Península o
lábaro resgatador de Cristo. Mas – lição inolvidável! – um Papa dividira por portugueses e castelhanos (recuso-me a pronunciar o apelativo "espanhol", porque só mais tarde, da segunda metade do século XVII em diante, se restringiu aos naturais da monarquia unificada pelos Reis-Católicos) o orbe que ainda estivesse por descobrir. E, minhas senhoras, e meus senhores, não era um artificio jurídico, nem uma argúcia diplomática – pronta evasiva de momento, depressa condenada ao limbo das coisas estéreis, das soluções convencionais e inúteis.
Não! O sentimento, que inspirou a bula de Alexandre VI – um valenciano –, esse sentimento correspondia ao sentimento da unidade da Península em que se abrasavam, por cima das suas fronteiras nacionalistas, os habitantes da Espanha gloriosa, adiantada-mor da Europa e sua salvadora em tanta dolorosa emergência!
Havia então um "patriotismo peninsular" – patriotismo que não excluía o outro patriotismo: o das diferentes pátrias, de que a Península se compunha. Provas? Sei lá de prova mais expressiva de que o testemunho de Gil Vicente que, numa das suas invenções teatrais mais aparatosas, põe no mar picado da tormenta as sereias cantando em castelhano os louvores de Portugal:
«Recuérdate, Portugal,
Cuanto Dios te tiene honrado;
Dióte las tierras del sol
Por comercio a tu mandado;
Los jardines de la tierra
Tienes bien señoreado,
Los pomares de Oriente
Te dan su fruto preciado,
Sus paraísos terrenales
Cerraste con su condado.
Loa al que te dio la llave
De lo mejor que ha criado;
Todas las islas ignotas
A ti solo ha revelado.»
Pois se, como vimos, o patriotismo peninsular não excluía ou minguava o patriotismo nacional de portugueses ou de castelhanos, justo é declarar-se também que para a sua manutenção contribuía o zelo infatigável, o diligente cuidado dos monarcas peninsulares.
D. Manuel I de Portugal – eis um exemplo de pleno valor demonstrativo! – recusou a coroa de Castela que os comuneiros revoltados lhe ofereceram. Porquê? Porque nos dois reinos da Península palpitava, clara e vigorosa, a consciência de que, acima dos interesses centrífugos e divisionistas em que por vezes se degladiavam e diminuíam, pairava o interesse superior da Península – interesse que, por ser da Península, forçosamente envolvia, tornando-os viáveis e respiráveis, os interesses de Portugal ou de Castela. Pergunto eu, minhas senhoras e meus senhores, pergunto eu se semelhante consciência do superior interesse da Península – da Hispânia-Madre – não vibrasse, impondo-se, nos homens de Quinhentos, poderia acaso Portugal ter dilatado por oceanos enigmáticos e continentes hostis a Fé e o Império?, poderia acaso Castela ter barrado o avanço do Turco e dominado na Europa-Central o alastramento da anarquia religiosa, retardando assim por três séculos a crise quase mortal em que a comunidade europeia parece agora desfazer-se? Certamente que não – afirmêmo-lo com sereno desassombro. Mas, ao afirmá-lo, lamentemos também que a consciência desse super-nacionalismo hispânico se haja perdido nas intrigas das câmaras régias, no astigmatismo político de toda uma plêiade de estadistas, só dignos de governarem em Lilipute, nas inadmissíveis superstições de uma burguesia que se reputa de letrada, nos conluios ajuramentados das choças revolucionárias, para só faiscar, como passageiro relâmpago, quando, apenas por lei sagrada do sangue, espanhóis e portugueses se encontraram de súbito unidos como um só homem contra as águias assoladoras de Napoleão!
Sim, minhas senhoras e meus senhores! Perdida a consciência do super-nacionalismo hispânico, a Península entrou em decadência, é de uso proclamar-se. Decadência externa, apatia interna. Começa no século XVII, dura até aos nossos dias, e tão persistentemente, tão afincadamente, que perante a Europa, revendo-se, morfinizada, no fulgor da suposta civilização do Ferro e do Aço, Espanha e Portugal tomaram-se, com geral aprazimento, como caricaturas arcaicas, como figurações obsoletas, sem mais curiosidade que a de uma simples exibição arqueológica. Portugal e Espanha, caricaturas! Caricaturas, nós, minhas senhoras e meus senhores, nós que demos à Europa as vias marítimas e terrestres por onde ela depois passou, desdenhosa e ingrata! Caricaturas arcaicas, nós que arrancámos da selva a mais de vinte nações e, incorporando-as maternalmente no nosso ideal de civilização, as distinguimos logo no berço com a estrela dos grandes destinos!
Caricaturas arcaicas, nós, minhas senhoras e meus senhores, que, no depoimento do próprio Oswald Spengler, primeiro que ninguém, soubemos imprimir ao nosso nacionalismo um amplo e intenso sentimento universalista!
Consolêmo-nos, porém, com a certeza de que, ainda que tardia, a justiça vai chegando. Não há muito que um dos mais originais espíritos do nosso tempo – o inglês Chesterton – sustentava que a guerra da Espanha com a Inglaterra, ao declinar o século XVI, foi uma guerra de civilização – estando a civilização pelo lado da Espanha. A Espanha, ou seja, a Península, representava a continuidade cultural e moral de que a Europa se nutria e a cujas luzes se conformara social e espiritualmente. A derrota da "Invencível Armada" inicia a série de desastres que se remotam na guerra dos Trinta-Anos com os tratados de Vestfália. Os tratados de Vestfália sancionaram como norma de conduta internacional o individualismo religioso e político. Foi a vitória das "éticas do Norte" – como confessa Chesterton elucidativamente. E se tentarmos bosquejar a genealogia dos diversos males que afligem a dolorosa era de transição em que vivemos, minhas senhoras e meus senhores, a Vestfália teremos que remontar. O que confirmaram na Europa os tratados de Vestfália? O crepúsculo definitivo da Casa de Áustria, a queda da Espanha como potência europeia, como elemento ponderador da Cristandade. Mas não é só a Espanha que se some na sombra em Vestfália. Some-se também o prestígio diplomático do Pontificado – some-se igualmente o pouco que ainda restava do conceito da Cristandade. Abandonada às "éticas do Norte" – na frase felicíssima de Chesterton –, ou, em outros termos, aos desvarios e exageros do
individualismo, a Europa julgou-se libertada, como que entrada em outros caminhos de maior prosperidade e supremacia. Mas – ai de sua pobre e desvalida ilusão! –, desgarrando-se atrás de uma ignóbil mitologia social e filosófica, só para a sua ruína correu. Persistindo no seu erro, mais e mais se embrenhou nos círculos dantescos, em que hoje se despedaça, transviada. Não nos excedemos, por isso, minhas senhoras e meus senhores, se concluirmos que o início da decadência da Europa coincide com o início do crepúsculo da Península em Vestfália.
É imperioso, no entanto, rectificar-se: decadência da Europa, sim, mas não decadência da Península! Já veremos por quê. Oliveira Martins, e, com Oliveira Martins, Moniz Barreto, seu crítico e seu amigo, fixaram como qualidade-mestra da alma hispânica o seu aferro ao conceito absoluto da Existência. Pelo aferro dos hispanos à ideia absoluta da Vida se compreende e explica aquilo que destaca a sua história da história das outras nações europeias – sucessoras na condução e hegemonia do mundo. Enquanto elas se baseiam na noção de indivíduo, os hispanos basearam-se sempre, por condição peculiar da sua índole, na noção de "pessoa". Se recorrermos, minhas senhoras e meus senhores, à distinção que o Tomismo nos fornece entre "pessoa" e "indivíduo", abrangeremos sem dificuldade como o nacionalismo dos hispanos – centrípeto, acumulador por excelência – teria de ser universalista – aditivo, portanto, – ao passo que o nacionalismo de ingleses e alemães, individualistas por pecado original, seria centrífugo, atómico, subtrativo, como consequência. Eis aqui o motivo bem palpável porque nós fundámos "nacionalidades", não conseguindo os outros povos, que enfática e empavonadamente se intitulam de "colonizadores", ir além de "colónias" e, quando muito de "Estados", cujos fundamentos assentaram no extermínio sistemático das populações indígenas.
Insisto, senhoras e senhores, na distinção entre "pessoa" e "indivíduo", aplicando-a à história peninsular e à sua projeção universal. A "individualidade" vem do corpo, da matéria, do instinto. Inversamente, a "personalidade", vem da alma – é, observação aguda de um publicista contemporâneo – «a subsistência da alma, independentemente do corpo». «Desenvolver a sua individualidade – assinala o mesmo autor – é viver da vida egoísta das paixões, é fazer-se o centro de tudo e terminar, finalmente, por ser o escravo de mil bens passageiros que nos trazem um prazer de momento. A personalidade, ao contrário, aumenta na medida em que a alma, elevando-se ao de cima do mundo sensível, se prende mais estreitamente pela inteligência e pela vontade ao que constitui a vida do espírito.» (Padre Garrigou-Lagrange, Le Sens commun.)
Já na sua História do povo espanhol o hispanófilo inglês Martin Hume se choca com esse especial sentido dos hispanos em conceber a Vida. Confundindo-o embora com o "individualismo", demonstra-nos Martin Hume a traços incisivos como a identificação do hispano com o Cristianismo correspondeu a uma forte solicitação do seu temperamento. Substitua-se "indivíduo" por "pessoa", e "individualidade" por "personalidade" – e tudo ficará certo. Um filósofo espanhol do nosso tempo, em que revive o casticismo intelectual dos velhos mestres peninsulares, George Santayana, qualifica de paganismo, tanto na existência das coletividades, como na pura determinação individual, quanto derive apenas da vontade e pretenda exclusivamente servir o "eu" – no que ele tenha de centrífugo ou subtrativo, e "pagã" assim a filosofia germânica, afastando-se completamente da objetividade e procurando sobrepor a inteligência, como princípio e fim de si mesma, às evidências constantes do Ser, pagã, é a norma introduzida pelo liberalismo na política e economia dos povos, em que o elemento absoluto da Vida se despreza totalmente e só se rende à satisfação do apetite imediato, das nossas necessidades estritamente animais. Triunfante na marcha da Europa, principalmente a partir do século XVII, o conceito pagão da Vida – da filosofia às diretrizes dos Estados, da moral às belas-letras e às belas-artes – levou-nos automaticamente à crise trágica em que o Ocidente estaciona, insensibilizado pelo que nós julgamos um desmedido capital de civilização, mas que não é senão uma bastardia ou um envilecimento daquilo que por "civilização", imperiosamente carecemos de considerar.
Com efeito, minhas senhoras e meus senhores, "civilização" significa um predomínio de espírito, em que o indivíduo cede ao conjunto humano, em que as riquezas de ordem interna e ascendente jugulam e orbitam as riquezas unicamente materiais. Pois contra o Espírito a Matéria reina, contra a Civilização reina a Técnica, promovendo a alucinação da velocidade e asfixiando pela vitória torpe da Máquina o princípio de autonomia interior, pela qual a nossa dignidade de homens consiste em sermos "almas" – e não, na ironia clássica do humanista, «simples
sacos por onde entra e sai a comida»!
Algures, numa página bastante divulgada, interroga Henri Bergson – um dos mais elegantes sofistas da idade leviana que se atravessa! – até onde houvera chegado nas suas investigações a ciência moderna se, em lugar de partir da razão matemática para o estudo exclusivo da Matéria, partisse da razão psicológica para o estudo mais amplo e mais envolvente das coisas do Espírito. Na ameaça crescente do orientalismo que, com sarcasmos implacáveis, classifica de "saber ignorante" a nossa civilização do Aço e do Ferro, a nossa portentosa "técnica", encobridora, no fundo, do mais estigmatizante primitivismo mental, o Ocidente não sabe que opor-lhe, senão volver de novo os olhos para a rocha firme de Pedro, para a claridade que rutila para além dos montes, na transparência augustíssima do céu de Roma.
Praticamente, experimentalmente, a Europa, polida e orgulhosa, como domadora que foi do resto do Orbe, ou tem de sucumbir, ou de acolher-se ao aprisco paternal do Cristianismo. Adversários encarniçados do Catolicismo, como Oswald Spengler, não fogem a confessar que a sorte do Ocidente anda ligada à da Igreja – que aos da Igreja andam ligados os destinos da civilização, engendrada na concha azul do Mediterrâneo, o mar sagrado da cultura antiga.
O que concluir daqui minhas senhoras e meus senhores? Que está em juízo o conceito "pagão", ou "individualista" da Vida, conceito que tiranicamente suplantou, mormente depois do século XVII – insisto –, o conceito Cristão, e, implicitamente, "hispânico", da existência. Digo "implicitamente hispânico" ao adjetivar de "cristão" esse conceito absoluto da Existência porque, fundamentando-se a ideia da Vida, possuída pelos "hispanos", não no sentimento da "individualidade", mas no sentimento da "personalidade", não é difícil entender-se como, por uma espontânea combinação, Cristianismo e Hispanismo se conjugam e consubstanciam. Não foi por fortuito acaso que Ósio, bispo de Córdova, redigiu em Niceia o Credo e que um hispano – Teodósio – declarou o Cristianismo religião oficial do Império. Enquanto o indivíduo se esquiva às regras comuns e universais, para arvorar o seu egoísmo em eixo de quanto o rodeia e ele apreende, a pessoa ajusta-se naturalmente à espécie e, realizando-se integralmente, conserva-a, fortifica-a e perpetua-a.
Eis porque, desde sempre, o "hispano" tendeu para a "unidade" – não para a "unidade" que elimina, que exclui, mas para a unidade que incorpora, que assimila, que sintetiza. Assim se perceberá já porque intimamente nos associamos, transfigurando-nos com ela, aos prestígios e aos progressos de Roma, a ponto de a presentearmos com imperadores, com filósofos, com generais. O esboço ainda imperfeito da "unidade" que Roma nos oferecia em relação ao género humano, definiu-o e impô-lo o Cristianismo. O "hispano" reconheceu-se sem hesitações na nova fórmula religiosa, desposou-a, fez-se o seu verbo, dando-lhe apóstolos e mártires – fez-se o seu braço, dando-lhe soldados e legisladores. Porquê? Porque o Evangelho – no depoimento de Hume – concedia um apoio divino ao instinto mais enérgico da raça hispânica, o sentimento absorvente da "personalidade" que Hume erroneamente, como já notámos, troca por "individualidade". Essa grande democracia espiritual – a única, a verdadeira, minhas senhoras e meus senhores! –, que é o Cristianismo e em cujo seio todos são irmãos e iguais perante Deus, diferenciando-se somente pelos méritos adquiridos, pelas virtudes professadas, essa grande democracia espiritual, repito, correspondia ao que borbulhava no mais entranhado do génio hispânico: a ideia da independência e a ideia da responsabilidade. Pela ideia da independência e pela ideia da responsabilidade, batizadas e alimentadas pelos mandamentos de Cristo, a civilização ocidental foi possível no que ela guarda de vivaz, de moço, de eterno dentro da imortalidade da história.
A liberdade é, deste modo, nossa filha, ó filhos da admirável e caluniada Madre-Hispânia, entre nós nasceu do consórcio do amor à responsabilidade com o amor à independência. O consórcio dos dois sentimentos – o da responsabilidade e o da independência – já nos levava nos primeiros tempos da Igreja a repelir a heresia ariana, em que o princípio da autonomia individual se combate e nega esmagadoramente. Centenas de anos rodariam. E, ao desenlaçar-se o tremendo conflito do século XVI, em Trento, com a Igreja dividida e sangrando, são os teólogos espanhóis quem ampara a autonomia individual – origem e fonte de toda a verdadeira liberdade –, desbaratando os que pretendiam converter em dogma a terrível doutrina da Predestinação. Nessa hora grave o mundo se salvou de um torpor de morte, embora resvalasse depois, com o triunfo nefasto do relativismo filosófico, para as emboscadas sem fim do determinismo e da fatalidade histórica, iguais em consequências aos resultados que nos adviriam, se em Trento a ofensiva dos teólogos peninsulares não tivesse prevalecido soberanamente.
Mas se a autonomia individual se defendeu em Trento, garantindo a liberdade nos domínios morais, convém não esquecer que o devemos, como homens e como hispanos, ao nosso irredutível e estrutural sentido da "personalidade", e não da "individualidade". Por tão radicado e persistente atributo, nós reconhecemos nas Leis da Índia a unidade da espécie humana, andando decerto
na nossa lembrança a discussão levantada entre os juristas e canonistas peninsulares se havia, ou não, o direito de conquistar as terras recém-descobertas e de escravizar os seus habitantes. O que existe de mais belo, de mais rasgado nos presunçosos códigos da atualidade, do direito político ao direito penal e internacional, deriva, minhas senhoras e meus senhores, do fermento salutar que o Cristianismo depôs na consciência dos povos ocidentais, mas que só a Hispânia-Madre, por seu entranhado amor do Absoluto, soube desenvolver, expandir e consagrar em monumentos e criações, que nenhuma lenda-negra, por mais arquitetada e cimentada que seja, poderá ocultar, logo que os olhos se não fechem à claridade nem se feche aos direitos clamorosos da justiça a tibieza do nosso entendimento.
E acusam-nos de caricatura arcaica! A nós que já desde os concílios de Toledo submetíamos à disciplina suprema do Espírito a força bruta, enunciando o célebre aforismo, recolhido por Santo Isidoro nas suas Etimologias, «Rex eris recte facias: si non facias, non eris»...?! Caricatura arcaica – nós que nos erguemos como um cerrado baluarte, com os nossos doutores, com os nossos estadistas, contra o Absolutismo que a Renascença engrossara e que a rebeldia protestante ia atirar vitoriosamente para o campo das definições jurídicas?! Ao aforismo de Santo Isidoro, «Rex eris si recte facias», nobremente transitado para as Partidas («Onde Rey serás si facieres derecho, si non facieres non serás Rey»), imprimir-lhe-íamos então uma nova e solene retumbância. Basta recordar o episódio que, numa das suas valiosas Memórias, D. Eduardo de Hinojosa nos evoca. Foi no reinado de Filipe II. Na presença do soberano, um pregador afamado afirmara do púlpito para baixo que «los Reyes tenían poder absoluto sobre las personas de sus vasallos y sobre sus bienes». Processou-o por isso o Santo-Ofício, obrigando-o a retratar-se no mesmo púlpito, com a declaração expressa de que eram erróneas as suas palavras e de que, ao inverso delas e conforme instrução literal dos teólogos inquisitoriais, «los Reyes no tienen más poder sobre sus vasallos del que les permite el derecho divino y humano – y no por su libre y absoluta voluntad».
Ocorria isto, minhas senhoras e meus senhores (torno a repeti-lo), durante o reinado de Filipe, do denegridíssimo Filipe II, quase simultaneamente quando em França predominava a doutrina de não sujeição do Monarca à lei e quando a mão do carrasco queimava em Paris, na praça pública, o De Rege, do jesuíta Juan de Mariana, dedicado a Filipe II, «rei católico de Espanha».
Factos irrespondíveis, significam-nos bem quanto a Península – um dos maiores larários de civilização em todos os tempos – suscitou contra si uma campanha de ódios sistemáticos e infatigáveis. Porquê? Porque na sua adesão firmíssima ao Catolicismo, ela representou um dique oposto resolutamente às mil causas de desagregação social, que o vento mortífero da Reforma suscitou na Europa. Tida por uma falsa erudição de cópia como o reduto último do despotismo e de uma obstinação fanática e obscurantista, a Península, a Madre-Hispânia, vê-se, afinal, defendida por inesperadas e honestas reivindicações da cultura estrangeira. Citado por D. Eduardo de Hinojosa, o conhecido publicista e universitário alemão Von Gierke testemunha insuspeitamente que «a Reforma deu nova vida ao conceito teocrático» da autoridade. «Não obstante – escreve – a variedade de matizes que entre eles se observa, Lutero, Melanchton, Zwinglio e Calvino concordam em proclamar o direito divino da autoridade». Mas essa unanimidade por parte dos inovadores protestantes em reconhecer e sustentar o direito divino da autoridade dirigia-se ao endeusamento do Estado e à teoria absurda de que, não só a autoridade em si é de origem divina, como o é igual e inseparavelmente o direito dos seus titulares ocasionais. Daqui – concluo eu e não Gierke – a confusão propositada, na boca e na pena de muitos detratores do pensamento católico, entre a origem divina do poder e o falso direito divino dos reis. Mas Gierke prossegue. E prossegue, minhas senhoras e meus senhores, em termos que, registá-los, é honra e estímulo para nós: «os mais acérrimos inimigos da Reforma, em especial os dominicanos e os jesuítas, trabalharam com todas as forças do seu entendimento para que prevalecesse o conceito puramente racional do Estado e do soberano. Fizeram tal, é verdade para contrapor o Estado à Igreja, e inferir de semelhante contraposição entre a obra humana e a instituição divina a subordinação da potestade temporal à espiritual. Mas naqueles pontos em que as relações do Estado com a Igreja ficavam fora da questão, desenvolveram a doutrina do Estado sobre fundamentos inteiramente filosóficos e livres de todo o preconceito dogmático. Os grandes teóricos desta tendência – remata o acreditado professor berlinês – são unânimes em aceitar que a sociedade política se firma no direito natural e que, por virtude deste mesmo direito, corresponde à sociedade a soberania sobre os seus membros», sem que se repudie o preceito religioso de que o Estado se fundamenta na vontade divina e que todo o poder emana de Deus.
Talvez me excedesse, minhas senhoras e meus senhores, no exame de um aspecto dos mais controvertidos do génio hispânico. Mas cansados como andamos de ouvir, com ares de alta crítica, a velha atoarda enciclopédica de que a humanidade nada deve à Espanha – e Espanha aqui equivale à Península, ou seja Portugal e a Espanha propriamente dita – , bom será que reponhamos as coisas no seu justo lugar, respondendo aos que nos acusam de anacrónicos, de retardatários e de fossilizados, que a liberdade, no seu superior sentido orgânico, é natural da Península, sendo entre nós o absolutismo um intruso violento, um hóspede atrevido e não desejado. Como falei em "liberdade" e em "absolutismo", convém que, a vocábulos tão prostituídos pelo histrionismo verbal dos polvos da comédia política, se atribua o seu vigoroso conteúdo. Nada mais inimigo da liberdade – facto moral, radicado, sobretudo, na consciência – do que o Liberalismo, irmão mais novo, mas irmão hipócrita, do Absolutismo! Nada mais zelador e amparador da liberdade do que a autoridade do Estado, quando restituída à sua exata função, quando confinada nos seus limites históricos e racionais. Eis a lição que se tira da obra dos Reis-Católicos: unificando na sua soberania a soberania pulverizada pelos diversos senhorios e jurisdições nobiliárquicos, garantiram, contra particularismos odiosos, contrabandos que dentro do Estado constituíam verdadeiros Estados, o equilíbrio perdido da coletividade e a reposição dos seus legítimos interesses em moldes próprios e adequados. Eis porque a liberdade anda sempre ligada à autoridade – eis porque o exemplo dos reis católicos é de maneira a convencer-nos de que o poder responsável e forte nem sempre é sinónimo de absolutismo, ainda mesmo nos casos em que se sobreponha à ficção – por que não dizer? – à mentira dos textos escritos, dos ridículos e inexpressivos papéis, a que a mitologia dos nossos tempos chama "constituições".
Adiante, porém! E adiante, para nos confirmarmos, minhas senhoras e meus senhores, no prestígio e no já evidente ressurgimento do génio hispânico. Do seu crepúsculo no século XVII sabemos nós já como coincidiu com o crepúsculo daquelas verdades que, sendo depostas no coração da Europa pela solicitude maternal da Igreja, fizeram da Europa a portadora do facho, hoje turvado, da civilização. Amanhã, o historiador ou o crítico que ordenar a história da decadência europeia ou o inquérito aos motivos por que se encontra em crise a civilização ocidental, pondo de parte quaisquer intuitos apologéticos, verificará objetivamente que essa decadência e que essa crise entronca na ruptura do nosso continente com o ideal cristão e com a realização aproximada que dele a Península conseguira efetivar e difundir. Admitimos então para a Península uma como que predestinação, uma como que missão teológica de povo eleito? Não caiamos num terreno de tão fugidia e enleante natureza! Retraídos ao campo da pura observação, simplesmente constatamos que o conceito ou o sentimento da vida dos povos peninsulares, conduzindo-os por especial condição de temperamento à noção do homem como pessoa, e não como indivíduo, os dotou com todas as vantagens do individualismo, livrando-os de todas as suas aberrantes e dispersivas consequências. Assim necessitamos de encarar tão complexo tema, assim a psicologia do hispano se nos apresenta, olhada por um escrupuloso critério positivo.
É o critério positivo, minhas senhoras e meus senhores, que obriga Santayana a ressuscitar filosoficamente o vocábulo paganismo, para caracterizar os subjetivismos desvairantes de uma certa e vã filosofia, Filosofia que, inspirando-se na obsessão exclusivista do eu, promoveu, como fruto daninho do individualismo, a ruína da inteligência e da razão humanas. Podemos encará-la com o polo negativo do sistema, ou concepção do mundo, em que o hispano aparece na posição oposta, como seu antípoda radical e extremo. Se da filosofia, adjetivada por Santayana de pagã, deriva a dissolução contemporânea, tanto moral como intelectual, não é difícil inferir-se que na filosofia adversa reside a base da desejada recomposição do pensamento e da ética nas nossas combalidas sociedades. Qual essa filosofia? A filosofia da Escola, a filosofia do Ser, a filosofia da objetividade, a filosofia que, bafejada pela excelsa penetração de Santo Tomás, nos ensina a distinção entre pessoa e indivíduo, sem a qual a ação histórica dos povos peninsulares é difícil – senão impossível – de interpretar e deslindar. Pois, por persuasiva e reforçante coincidência, a filosofia da Escola achou na Península o seu derradeiro refúgio, ao anunciar-se o tremendo crepúsculo mental do século XVII. Ainda aí é impressionante o consórcio das predileções mais íntimas do génio hispânico com as regras e as disciplinas em que o ocidente depunha o segredo da sua vitalidade e do seu esplendor! O filósofo francês Jacques Maritain, no seu Antimoderne – breviário admirável de revisão e de depuração das ideias reputadas como basilares –, Jacques Maritain – da mesma forma que Bergson, que ele desfez num estudo inolvidável, aduza-se de passagem – levanta a seguinte interrogação: «Que serait-il advenu de la France et du Monde si le mouvement classique du XVIIe siècle avait choisi pour maître et pour guide en philosophie, non pas la dure et étroite tête orgueilleuse qui rejeta et détruisit tous les précieux instruments de Sagesse préparés le long des âges par le labeur des hommes, mais le vaste et puissant métaphysicien qui continuait et commentait humblement Aristote et Saint Thomas à Alcalá de Henares, pendant que Descartes combinait en Hollande sa révolution philosophique – le docteur profond Jean de Saint-Thomas?» [ O que teria sido da França e do Mundo se o movimento clássico do século XVII tivesse escolhido como mestre e guia em filosofia, não a cabeça dura, estreita e orgulhosa que rejeitou e destruiu todos os preciosos instrumentos da Sabedoria preparados ao longo dos séculos pelo trabalho dos homens, mas o vasto e poderoso metafísico que continuou e humildemente comentou Aristóteles e São Tomás em Alcalá de Henares, enquanto Descartes combinava a sua revolução filosófica na Holanda – o profundo doutor João de Santo Tomás? ] Equivale isto a dizer, minhas senhoras e meus senhores, que mais fecundas e menos fatais teriam sido as direções levadas pela Europa se, ao vento novo, que de França soprou com a nova filosofia, se sobrepusesse a voz da prudência mental, sustentada nas cátedras peninsulares, sobretudo, por esse assombroso Frei João de Santo Tomás, português de nascimento, embora professor na velha fundação de Cisneros. Ainda por aí – pela apertada aliança do espírito peninsular com a filosofia tradicional (e escusado é rememorar nomes como os do jesuíta Pedro da Fonseca e do jesuíta Francisco Suárez!) – nós verificamos como a noção da existência e do conhecimento, praticada e ensinada pelos hispanos, se conformava estruturalmente com as necessidades e as tendências progressivas da civilização ocidental. Infeccionada esta pela avariose ideológica da Reforma e da Renascença, onde é que a Reforma encontra mais denodados opositores, do campo da teologia ao campo da filosofia? Na Península. Na Península igualmente o humanismo pretensioso da Renascença se depura – e deixando de ser, como era para os gafados italianos, um fim, ideal de vida, volve-se com os colégios da Companhia, acentuadamente, um meio de educação valiosíssimo, um valioso agente de formação mental, de que o Colégio das Artes em Coimbra nos fornece um exemplo convincente. Ajuntemos aos testemunhos já produzidos dois de não menos peso e de não menos autoridade.
Depõe Brentano, professor de Economia Política na Universidade de Leipzig: «No século XVI a cultura espanhola alcança transitoriamente o primeiro lugar na vida intelectual da Europa. Não nos devemos, pois, admirar que o mundo inteiro tome a Espanha por modelo. As suas instituições são imediatas: não só o seu exército e a sua organização administrativa, mas também certas instituições económico-jurídicas, como os fideicomissos familiares... e assim como a infantaria espanhola imprime o seu selo aos exércitos da época, também a política monopolizadora de Espanha na ordem económica serve de norma às outras nações.» Também o historiador alemão Karl Hillebrand se pronuncia: «A nossa época, bastante inclinada a diminuir o papel da Espanha na história da civilização europeia, deve reconhecer que não só foi obra exclusivamente sua a reorganização da Igreja, como a monarquia de direito divino, tal como floresceu no século XVII.» E, resumindo a influência poderosa da Espanha na literatura e nas artes, Hillebrand adita: «Maior foi ainda a influência que teve no desenvolvimento filosófico da Europa... Não quer isto significar que a filosofia de Molina e Suárez enformasse por completo a vida intelectual da época; mas é inegável que à Espanha se deve o restabelecimento do princípio da autoridade em todas as ordens, erguendo assim um dique, às vezes benéfico, ao desenvolvimento da especulação filosófica na Europa Continental.»
São estes testemunhos altamente demonstrativos. Partindo de alemães, e de alemães com manifesta mentalidade luterana, ajudam-nos, pela sua origem, a ajuizar sem apologéticas preconcebidas, do esforço dispendido pela Península em proveito da unidade europeia e da civilização ocidental. Claro que aonde eles escrevem Espanha, é de justiça lermos nós Península, porque de outra maneira ocultaríamos, e com imperdoável injustiça, a parte que pertenceu a Portugal – com os seus humanistas e com os seus comentadores, dos Gouveias, tios e sobrinhos, a Frei Serafim de Freitas e ao citado Frei João de Santo Tomás, «doutor humilde e profundo», eis como o retrata Jacques Maritain! – do verdadeiro europeísmo, em seguida a Trento e às vésperas da guerra dos Trinta-Anos.
Mas tamanha capacidade afirmativa dos hispanos dependeria apenas da posse ocasional – ouro e soldados –, das forças materiais do domínio? Afoitamente respondemos que não. Basta repetir com G. K. Chesterton que, ao estalar a catástrofe da Invencível-Armada o interesse da Europa estava ao lado da Espanha, que «representava – na frase de Chesterton – a própria civilização». Consuma-se então o que Chesterton tem por "cisma das nações". O que entender por "cisma das nações"? O afastamento da Europa das vias tradicionais, o advento das "éticas do Norte" (a expressão é também de Chesterton) e o seu natural triunfo em Vestfália. Contudo, apesar de vencido pela explosão vitoriosa do individualismo, a Hispânia não sucumbiu, não entrou em decadência. Constitui um grosseiro desvio óptico o supor-se que é a história da decadência peninsular a história dos três últimos séculos, e história do individualismo em todas as suas multíplices revelações. O que será é a história da decadência da Europa, isso sim! Atirando-se, na esteira da razão matemática, para a exclusiva conquista do reino da Matéria, a Europa embrenhou-se na selva escura, em que hoje, túnica rasgada, a sua magnífica túnica orlada de castelos e de catedrais, o diadema perdido, vagueia como uma rainha de Shakespeare, esfarrapada e louca. De Spengler a Maritain, do conde de Keyserling a René Guénon, a decadência da Europa é denunciada e glosada em termos que não nos permitem duvidar sobre as causas em que se filia: o abuso da concepção mecânica da vida, o abuso do relativismo, o apetite sôfrego e absorvente, como se fossem as únicas das compensações materiais. Ao contrário, a Península, em pleno morgadio das riquezas ultramarinas, em pleno fastígio do seu poderio terrestre e naval, dispondo, consequentemente, dos fatores concretos de hegemonia porque ainda agora se batem as potências havidas como "grandes", some-se num crepúsculo rápido, voltando as costas ao prato de lentilhas, para permanecer fiel ao seu – expressemo-nos assim! – imperialismo espiritual. De quem a decadência, portanto? Oh, não olvidemos, minhas senhoras e meus senhores, que na crise máxima de Quinhentos a Seiscentos o que vence a Península vence simultaneamente, da religião à política, da inteligência ao sentimento, a Cristandade e o Europeísmo.
No seu Portrait d’Espagne com rara agudeza pondera Maurice Legendre: «En somme, dans la division du travail intellectuel et spirituel entre les peuples l'Espagne (leiamos sempre "Península") est restée plus spécialisée que la plupart des autres grands peuples; mais par bonheur pour elle, elle s’est spécialisée dans ce qui a de plus d’universalité. Sans doute – prossegue Legendre – elle n'a pas assez profité des découvertes d’ordre secondaire, cependant utiles, que d’autres ont faites dans le domaine scientifique : c'est que l'époque du développement des sciences, dans les temps modernes, a malheureusement coïncidé avec l'époque de la décadence politique de l'Espagne et de son isolement. Malheureusement aussi, l'isolement n'a pas seulement privé l'Espagne de ce que les autres nations avaient à lui donner ; il a privé les autres nations de ce que l’Espagne avait à leur donner ; mais il est évident que l'inconvénient était grand surtout pour la nation qui était seule de son côté ; elle en a les inconvénients de l'isolement sans avoir les avantages. Une nation moins forte, moins noble, moins riche de capital spirituel n’aurait pas résisté à ce régime. L'Espagne a superbement résisté. Elle avait choisi la meilleure partie » ; elle avait peut-être trop négligé le rôle de Marthe, qui est très beau lui aussi et qui s'impose en dehors des occasions où l'on reçoit le Seigneur, mais du moins elle a si bien aimée sa part, qu'elle tient en réserve, pour les nations sœurs, les plus affairées, de merveilleux trésors reçus du Sauveur ». E o autor do Portrait d’Espagne remata: «Quelle étrange destinée que la sienne!»
[Em suma, na divisão do trabalho intelectual e espiritual entre os povos, a Espanha (leia-se sempre "Península") manteve-se mais especializada do que a maioria dos outros grandes povos; mas, felizmente para ela, especializou-se no que é mais universal. Sem dúvida — prossegue Legendre —, ela não se aproveitou o suficiente das descobertas secundárias, porém úteis, que outros fizeram no campo científico: isto porque a era do desenvolvimento da ciência, nos tempos modernos, infelizmente coincidiu com a era da decadência política da Espanha e do seu isolamento. Infelizmente, também, o isolamento não privou apenas a Espanha daquilo que as outras nações tinham para lhe dar; privou as outras nações do que a Espanha tinha para lhes dar; mas é óbvio que a desvantagem foi grande, sobretudo para a nação que estava sozinha ao seu lado; tem as desvantagens do isolamento sem ter as vantagens. Uma nação menos forte, menos nobre, menos rica em capital espiritual não teria resistido a este regime. A Espanha resistiu soberbamente. Ela escolhera a melhor parte. ela talvez tenha negligenciado demais o papel de Marta, que também é muito bonito e se impõe fora das ocasiões em que se recebe o Senhor, mas ao menos amou tanto o seu papel, que guarda para as nações irmãs os tesouros mais movimentados e maravilhosos recebidos do Salvador." E o autor do Portrait d’Espagne rematou: "Que estranho destino o seu!"]
Expurgando dos comentários de Maurice Legendre, pelas considerações anteriormente apontadas, o critério de "decadência", em que nos reputa – critério que deve ser substituído pelo de "asfixia", ou de "sequestro" –, eu não conheço nada que mais fielmente retrate a superioridade frisante, pelo seu aferro aos bens do Espírito, da Hispânia-Madre, no desmantelo geral em que nós vemos desfazerem-se sistemas e ficções, mentiras douradas e aparatosas burlas, de que o individualismo enganadoramente se alimentou.
E bem o comprova, minhas senhoras e meus senhores, a festa que aqui nos reúne – a data que hoje comemoramos! Por mais que a lenda-negra se empenhasse em nos enegrecer a obra, obra de hispanos, eminentemente humana, quem há, tirante nós, que possa justamente orgulhar-se de haver criado nacionalidades?
Permita-se-me, minhas senhoras e meus senhores, que eu volte a reproduzir uma outra passagem de Maurice Legendre, passagem que se refere, precisamente, ao acontecimento que hoje jubilosamente se recorda: «Quand ils célèbrent la Fiesta de la Raza, le 12 Octobre, anniversaire du jour où Colomb parvint au Nouveau-Monde, les Espagnols, sans se forger des nations aventureusement scientifiques, rappellent avec un légitime orgueil que la population de la péninsule (il ne faut pas séparer de l'Espagne le Portugal, dont le rôle est ici particulièrement glorieux) a créé vingt nations dans le Nouveau-Monde: il a fallu que le caractère de la population de l'Ibérie fût singulièrement trempé, pour qu'il se transmuât ainsi, pour qu'il fût tradition vivante, pour que l'Espagne et le Portugal, répétant dans l'âge moderne le plus grand prodige de l’histoire de l’antique Rome, pussent créer un monde nouveau qui fût à la fois de leur esprit et de leur sang.»
[Quando celebram a Fiesta de la Raza em 12 de outubro, aniversário da chegada de Colombo ao Novo Mundo, os espanhóis, sem forjarem para si nações aventureiramente científicas, recordam com legítimo orgulho que a população peninsular (não devemos separar Portugal de Espanha, cujo papel aqui é particularmente glorioso) criou vinte nações no Novo Mundo: era necessário que o carácter da população da Ibéria fosse singularmente temperado, para que se transmutasse dessa forma, para que fosse uma tradição viva, pois Espanha e Portugal, repetindo na época moderna o maior prodígio da história da Roma antiga, pudessem criar um mundo novo que fosse ao mesmo tempo do seu espírito e do seu sangue.]
Assim fala desassombrada e desapaixonadamente um estrangeiro. Se nós realmente não passássemos de povos esgotados, e de povos esgotados pela ação persistente da Igreja e da Realeza, como pretendem tantas e tantas teorias da decadência peninsular, como é que, por virtude desses mesmos dois princípios, poderíamos gerar vinte viçosas nações que do outro lado do mar entoam num coro heroico a glória de serem filhas da Península?
Numa interessante conferência, realizada em 1921, na Real Academia de Jurisprudencia y Legislación, de Madrid, o alto funcionário colonial dr. J. H. Abendanón, não hesitou em declarar que «es un hecho histórico de los más notables que donde los españoles y los portugueses han pasado, su religión, su espíritu, su lengua y su canto quedan para siempre». Ocupava-se o dr. Abendanón, das Índias-Neerlandesas. E ocupava-se afirmando com louvável isenção os inúmeros vestígios que em todas elas os portugueses tinham deixado. «Se encuentran en todas las partes nombres portugueses – disse o conferente –, y en las lenguas del Archipiélago, que son más de 300, hay muchas palabras portuguesas». Continua o dr. Abendanón: «Hay islas en donde las mujeres de los jefes todavía se titulan Nora, y en algunas partes se puede oír la música antigua portuguesa, tocada en guitarra, con canciones en portugués corrompido. Cercano a Batavia, la capital – prossegue–, existe una aldea donde la gente habla un portugués mezclado con malayo, siendo los habitantes de esa aldea cristianos en medio del mahometismo. Cantan en la iglesia himnos portugueses y celebran la noche de Navidad como los portugueses solían hacerlo.»
Se me demorei, salientando semelhante facto, é porque ele se veste das linhas sumárias de um símbolo. A fidelidade das populações de Java e de Sumatra à penetração portuguesa – de resto, tão fugidia, tão transitória ali – é o reconhecimento expresso de que os nossos descobridores e os nossos conquistadores não levaram consigo apenas o ferro e o fogo, a destruição e a morte.
Pouco mais de dois meses decorreram, minhas senhoras e meus senhores, desde que nas Filipinas, numa solenidade em honra do vosso país, o general Aguinaldo chamava a Espanha «querida Madre de Filipinas». Quem é o general Aguinaldo? Vós o sabeis melhor do que eu. É o cabecilha das lutas anteriores a 98 – o caudilho da independência. Pois esse guerrilheiro que se bateu com os melhores dos vossos soldados inclina-se diante do prestígio da mãe comum, proclamando que «Espanha, por meio da fé cristã, elevou as colónias ao seu próprio nível, comunicando-lhes os mesmos cânones espirituais e morais que professam». Em tão sucintas palavras está contida a reabilitação do nosso passado colonizador. Fomos apóstolos, a fé nos conduziu.
Claro que os homens da nossa gesta ultramarina, como homens, não se eximiram às condições por vezes inferiores da sua natureza. Mas acreditavam numa verdade absoluta – e tão profundamente que Pizarro, agonizante, traça com o seu sangue uma cruz no chão, e beijando-a, morre, de espada em punho.
Enganaram-se os que nos imaginavam arrastados unicamente pela febre esbraseada do ouro! Com os aventureiros marchavam os missionários. E os missionários, trazendo os indígenas ao grémio de Deus-vivo, abriam os alicerces das pátrias que nós escutamos saudando na sua mocidade fervente a Península que as tirou do primitivismo regressivo da selva.
Temos que insistir nas ideias, já assinaladas, de "pessoa", e de "indivíduo" para bem compreendermos a privilegiada aptidão dos hispanos para fundadores de nacionalidades. É muito remota e muito confusa a expedição de Trajano à Dácia para que se apure a influência que o elemento hispânico exerceu na génese da moderna Roménia. No entanto, no sentimento típico do povo romeno – na dor –, alguns, mais entendidos na psicologia peninsular, querem achar estreitos parentescos com a saudade dos portugueses.
Pondo, porém, de parte as origens da Roménia e a possível contribuição que lhe dispensaram os hispanos, é fora de dúvida que, segundo juízos como o do dr. Abendanón, por onde espanhóis e portugueses passaram, os vestígios da sua passagem não se apagaram mais. Por quê? Por essa noção da personalidade que instintivamente nós possuímos e que obriga especialistas, como Charles Salomon na sua tese De l’occupation des territoires sans maître, referindo-se às teorias do dominicano Vitória, a considerá-las de «doctrine généreuse dont les États du XIX siècle pourraient faire, sur bien de points, leur profit, bien qu’elle soit la conception d'un théologien espagnol du XVI siècle».
As teorias de Vitória partiam do conceito de "pessoa", que no campo do direito penal determinava os teólogos peninsulares a sustentarem, numa época em que ainda o famigerado Grócio admitiria a vingança privada, que só à autoridade pública pertence o direito de castigar, estabelecendo ao mesmo tempo que o afirmavam o âmbito e as normas em que a "pena" carecia de se enquadrar. Evidentemente que não se tratava de simples e isolados atos intelectuais. As Leyes de Índias são um verdadeiro monumento jurídico, onde se apalpam já as possibilidades desse mundo novo, cuja gestação difícil, embora inconscientemente, se destinavam a proteger, moldadas nos altos ditames da Igreja sobre o apostolado aos gentios. Ninguém contesta a parte dominante do cristianismo em obra tão gigantesca. Mas se o cristianismo não correspondesse ao que havia de medular nos povos hispânicos, dificilmente os constrangeria a mudarem de temperamento. E é bom não encarar o problema da nossa colonização sem o relacionarmos imediatamente com a tendência de espírito que nos punha em filosofia ao lado da Escolástica, ou seja da filosofia do Ser, e em teologia ao lado do "livre-arbítrio", ou seja da responsabilidade na liberdade. Sempre o conceito de "pessoa" a iluminar, ainda nos seus meandros mais enredados, a "alma dos hispanos" – a história da Hispânia-Madre!
Carlyle qualificava o homem como um «fabricador de instrumentos». É a apologia da Técnica – é o sentido mecânico e naturalista da Vida, encaminhando-se todo à penetração e ao desfruto do material. Propõe Chesterton uma emenda a Carlyle e ela consiste em nos apresentar o homem como um «fabricador de dogmas». Ambos têm razão – Carlyle e Chesterton! Carlyle, dentro do seu jardim filosófico – jardim selvagem, do mais desgraçado e borbulhante individualismo, porque via o homem como "indivíduo", princípio e fim de si mesmo, buscando-se o máximo de felicidade imediata, animal. Chesterton, elevado já sobre a confusão babilónica dos mitos intelectuais hoje em franco crepúsculo, porque contempla no homem, sobretudo, o valor afirmativo de uma inteligência que cria, associando-se sem cessar à criação incessante de Deus. Pois o hispano é estruturalmente um «fabricador de dogmas»; e porque o é, com dificuldade se acomodaria a uma época em que a sublime função humana de concluir para criar foi despoticamente substituída pela reduzida operação de trabalhar para consumir. Enfim, Marta contra Maria, como quer a expressiva imagem de Maurice Legendre; a técnica contra a civilização, a Máquina contra o Espírito! Eis porque, no inevitável insucesso da Máquina, incapaz de resolver os problemas mais angustiosos da nossa existência; eis porque no fracasso já evidente de tantas locomotivas silvando, de tantos transatlânticos encarvoando os oceanos com a fumarada densa dos seus resfôlegos; eis porque na ilusão trágica de tantos aeroplanos repetindo na sua embriaguez do Espaço a loucura de Ícaro, diariamente renovada; eis, em resumo, porque a nossa concepção do mundo – a ideia que da vida nós, os hispanos, fazemos – regressa vitoriosamente do exílio a que a condenaram as burlas fantasmagóricas do Progresso-Indefinido, para acudir, numa sociedade que irremediavelmente se vai, ao que nela porventura subsista de belo, de sólido e de fecundo!
Porque em verdade vos digo, minhas senhoras e meus senhores, suceda o que suceder, aconteça o que acontecer, não será nem pelo Aço, nem pelo Ferro, que a civilização ocidental se salvará! Há-de salvar-se por um princípio absoluto que condene e harmonize, submetendo-o, todo o imenso recheio material que a enriquece e que a estonteia. Esse princípio é o princípio cristão. Mas se cada um de nós o pode possuir e realizar em relação a si próprio, só coletivamente, em relação à sociedade, como orgânica do governo, como tipo do Estado, os hispanos o souberam realizar e difundir. Não são outros os motivos porque só portugueses e espanhóis criaram nacionalidades, não são outros os motivos porque só nós, povos peninsulares, celebramos com justiça e sem inúteis frases retóricas a "Festa da Raça".
Entende-se assim, minhas senhoras e meus senhores, porque, acima das diferenças naturais e eternas que separam entre si Portugal e Espanha, paira a responsabilidade comum da civilização que criámos! Responsabilidade enorme, gloriosa e inigualável herança do passado, ela precisa de se tornar regra de acção imediata, para que retomemos sobre a face da terra o nosso denegrido lugar de semeadores de nacionalidades.
Não fiquemos a chorar sobre as ruínas de Jerusalém! Nem nos contentemos em arrolar quanto de forte, de grande, de imorredoiro praticámos, para o irmos depor sonambulescamente depois na atmosfera enregelante das vitrinas dos museus. Não! Urge que o conceito de "hispanismo" se levante do cemitério em que o enterrámos vivo, para que o sobreponhamos ao mentiroso e refalsado conceito de "latinismo", com que outros nos procuram roubar o que é exclusivamente filho do nosso génio, do génio dos povos hispânicos. Mas se é necessário, se é imperioso que o conceito perdido de "hispanismo" ressuscite para a dignidade de um supremo ideal aglutinador, necessário é também declarar-se com toda a energia que, sendo obra eminentemente espiritual, a obra de aproximação entre Portugal e Espanha, não depende, antes as repele, suspeitas combinações financeiras, tratados de comércio não menos suspeitos ou duvidosos! Não será pelo "material" que nós nos aproximaremos. O "material" – eterno pomo de discórdia, sempre e em todos os tempos – só nos dividiria e afastaria ainda mais. Não julguemos igualmente que a aproximação das duas pátrias peninsulares dependa de qualquer chiffon de papier, a que pomposamente chamemos aliança. Nós construímos para o futuro, não para nossa pronta e quotidiana utilidade!
Primeiro que tudo, impõe-se-nos a criação de um estado de espírito extensivo a ambos os países – estado de espírito em que se pese devidamente o que é próprio e essencial a cada um deles, completando-o em seguida com o que aos dois seja comum. Isto é, a consciência clara, bem determinada, de quanto nos afasta e de quanto nos liga. Portanto, o respeito sagrado das duas soberanias políticas, em que a Península se reparte; portanto, o regresso, como fórmula, ao dualismo do momento alto de Quinhentos, dualismo de que Camões recolheu o eco sonoro nos acentos inspirados das suas oitavas. É, de certo modo, a volta ao que, sem excesso de espécie alguma, designaremos por «política de Camões». Porque em Camões há uma "política". Porque há uma "política‟ nos Lusíadas, os Lusíadas são, et nunc et semper, a pedra mais firme de Portugal como nação, a mais firme coluna da lareira nacional dos portugueses. Mas Camões, marcando com cipos inderrubáveis as fronteiras morais da nacionalidade portuguesa, colocado como estava na agitação simultaneamente renovadora e destruidora da sua época, sabia
que a todo o nacionalismo corresponde um universalismo – ou, pelo menos, um prolongamento universal, uma janela aberta para o mundo restante. A Hispânia-Madre é a concepção em que o pensamento de Camões encontra a sua repercussão universalista do génio da pátria. A cruzada das Descobertas, se Portugal a adianta com arremessos épicos, Castela a acompanha paralelamente, nessa irmandade antiga que, por cima de brigas fratricidas, de sangrentas querelas de limites, acamaradara nas Navas de Tolosa e no Salado – como séculos volvidos se acamaradariam no mesmo impulso contra as águias napoleónicas as duas admiráveis nações peninsulares. Camões expressamente o pusera na boca daquela ninfa que anuncia ao Gama com "doce voz" os vaticínios do futuro:
Vedes a grande terra que confina
Vai de Calisto ao seu contrário Polo,
Que, soberba a fará a luzente mina
Do metal, que a cor tem do louro Apolo:
Castela, vossa amiga, será dina
De lançar lhe o colar ao rudo colo...
Era a América a terra que, indo de um polo ao outro – Castela, «vossa amiga», cantava a ninfa ao Gama – seria digna de a sujeitar. Na sua simplicidade eloquente nada melhor nos revela a identidade de propósitos que, em capítulo tão conflituoso como o da conquista ultramarina, unia Portugal e Castela. Pairava a visão da unidade espiritual da Península, unidade que achou em Camões um inolvidável definidor, como acharia em Herrera, na sua formidável elegia Voz de dolor y canto de gemido, o nosso desastre de Alcácer-Quibir. Embebendo-se da ampla aspiração hispanista de Camões, é fácil agora perceber-se por que sensatas razões Oliveira Martins chamou aos Lusíadas "testamento de Espanha".
Inegavelmente, minhas senhoras e meus senhores, nos Lusíadas se guarda quanto de super-humano e de avoejante nutriu a alma, não exausta ainda, da Península. Se há um roteiro a buscar-se para aquilo que eu nomearei de "patriotismo hispânico", nos Lusíadas ele se oferece à nossa meditação. Nos Lusíadas – reparai bem! –, que é uma das pedras mais rijas, um dos mais rijos suportes do patriotismo português. Sinal manifesto, minhas senhoras e meus senhores, de que, no caso presente, a unidade da civilização peninsular, o patriotismo nacional, seja ele português, seja ele castelhano, não exclui, antes o robustece e confirma, aquele outro sentimento circundante, o patriotismo hispânico, em que hoje tanto se abrange Portugal e Espanha, como o Brasil e a Argentina.
Mas dizia eu que Oliveira Martins chamou aos Lusíadas "testamento de Espanha". Chamou-lho, não num lacrimoso sentido funerário, rezando o responso do nosso irreparável desfalecimento. Embora dominado pelas teorias de Buckle, desse irrisório e antiquado Buckle!, acerca da decadência dos povos peninsulares, Oliveira Martins, ao terminar dois dos seus livros notáveis – a Vida de Nun’Álvares e a História da civilização ibérica – conseguiu afrontar as nuvens densas do seu pessimismo sistemático e confiar nas idades vindouras do mundo, salvo da desagregação e da anarquia por obra e graça do génio hispânico. Vale a pena escutá-lo, minhas senhoras e meus senhores! «Nos tempos modernos, ninguém soube a Vida melhor do que nós, os povos da Espanha: isto é, ninguém afirmou tão superiormente a energia da vontade humana. Ninguém tão-pouco melhor soube morrer, do que o povo que incarnou em si, paradoxalmente, a teoria da Morte no seio do Eterno: esse pensamento agudo como a lâmina de uma espada que, dobrando-se e traspassando o Mundo, na sua redondeza, veio a cravar-se-nos no coração para no-lo dessangrar. A Espanha foi vítima de um erro de definição; e se um dia os homens atinarem com a verdadeira teoria da Vida, ninguém, tão-pouco, saberá morrer por ela como o povo de entre todos gerado para o heroísmo.»
Assim conclui Oliveira Martins a sua Vida de Nun’Álvares. Ouçamo-lo agora na última página da História da civilização ibérica: «A história não é profecia; mas o estudo das idades passadas deixa entrever muitas vezes as possibilidades futuras; e, quando através de todas as crises, no meio dos ambientes mais sistematicamente adversos, observamos que o heroísmo peninsular soube vencer tudo com a sua indomável energia, somos levados a crer que o papel de apóstolos das futuras ideias está reservado aos que foram os apóstolos da antiga ideia católica.»
Submetido em demasia aos preconceitos racionalistas do seu tempo, julgava Oliveira Martins o Catolicismo uma ideia do passado, uma admirável ideia morta. Reconhecia, é certo – na posição intelectual em que, por exemplo, o reconhece hoje um Guglielmo Ferrero – que no catolicismo residira o princípio absoluto, em que se firmara na Europa a ordem geral das nações e dos espíritos. Mas, abandonando-se assim às superstições criticistas da sua época (Oliveira Martins, no entanto, morreria depois no seio da Igreja, e morreria tocante e piedosamente), não se entregava de todo ao Juízo corrente, até nos autores que mais de perto o influenciaram, sobre a Hispânia e as duas nações que a representavam. Admitia, sem dúvida, a falsa teoria da nossa decadência. Admitia-a, porém, no seu aspecto epidérmico, expressemo-nos desta forma, na inatualidade assacada à Península perante o desenvolvimento técnico da Europa contemporânea. Exceptuada semelhante face da questão, Oliveira Martins acreditava, e acreditava com um calor difícil de descobrir no seu temperamento cansado e céptico, nas virtudes fundamentais do nosso génio e na sua inesgotável capacidade construtiva.
Passaram, venturosamente, os relativismos filosóficos que a Oliveira Martins impediam de ver no Catolicismo e na sua identificação com o que existe de vivaz e de estrutural no génio hispânico um permanente valor de renovação moral e social. No conflito trágico em que a Europa se debate, não são os homens que se digladiam, são antes duas concepções da Vida que estão em frente uma da outra, esforçando-se ambas por vencer. Para que em toda a sua amplitude o imenso duelo se nos revele nos seus miúdos detalhes carecemos de remontar às géneses ideais, às Madres, como se exprimiria um Goethe. «L'homme – anota algures o insigne Jacques Maritain – est un animal qui se repaît de transcendantaux». Porque o homem é um animal que se nutre de transcendentais, é que nós carecemos de nos acolher a uma noção teológica da história. Agudamente repara George Valois que a tremenda agitação do mundo contemporâneo vem da luta entre duas teologias: a teologia do Ser e a teologia do Devir. A teologia do Ser é a metafísica de Aristóteles, é a filosofia de Santo Tomás. Por seu turno, a teologia do Devir é a filosofia do Progresso-Indefinido, é a bastardia mental de que se alimenta, desde Lutero, a crescente decomposição das sociedades ocidentais, tendo por dogma basilar a Instabilidade e por agente a Revolução.
Não se apaziguará o trágico conflito sem que a vitória da teologia do Ser restitua à Europa a sua clara razão perdida. Escusado seria insistir nos motivos que tão explicitamente consorciam a teologia do Ser com o génio peninsular ou hispânico. A como que profecia de Oliveira Martins, confiando aos povos da Península o excelso papel de salvadores da ordem, no seu supremo e espiritual significado, aproxima-se da realidade, entrou já no caminho directo da sua verificação. Pelo menos, começa a distinguir-se no campo da inteligência aquela primavera prometedora, em cujas auras regressam do seu exílio de séculos as verdades salutares que formaram a Europa e que a Hispânia-Madre guardou, como num sacrário, no castelo-interior do seu coração.
Radicalmente, contra a teologia do Devir, que arruinou a Europa empurrando-a para o suicídio, levanta-se a teologia do Ser – e a teologia do Ser, minhas senhoras e meus senhores, é flor maravilhosa que na alma dos hispanos achou sempre terreno certo em que desabrochar! A ordem que ela reanimará é, pois, a Ordem-Nova, a ordem que surge das mentiras convencionais de uma filosofia ignara que só espalhou à sua volta um sopro maléfico de destruição, como que o respiro das margens salgadas do Asfaltite.
À ordem-nova trazem os hispanos a sua ideia da vida – a sua concepção de "homem", não como "indivíduo", mas como "pessoa". A ordem-nova trazem os hispanos, consequentemente, o seu aferro ao elemento absoluto da existência e, portanto, à teologia do Ser, à supremacia criadora do Espírito. E com esses prodigiosos tesouros trazem ainda matéria-prima com que os aproveitar – chão feracíssimo em que os fazer produzir. Semeadores de nacionalidades – como me é grato sempre repetir –, a data de hoje, a data da "Festa da Raça", certifica-nos de quanto, no individualismo corrosivo em que se pulverizaram reinos e impérios, nós dispomos de um agrupamento humano, a Península e a América-Hispânica, em que apoiar, para o seu inevitável ressurgimento, a combalida civilização ocidental. Já agora outro não é o nosso destino de povos difamados e caluniados: sermos eternamente missionários, sermos magnífica e desprendidamente apóstolos! Mesmo quando mais sepultos nos imaginavam no que se combinou julgar como nossa «decadência», mas que não era, afinal, senão o nosso sequestro – mesmo no período mais negro, minhas senhoras e meus senhores, do nosso desterro, em pleno carnaval ideológico do século findo, mesmo então nós prosseguíamos fiéis à nossa herança de nações surgidas para gerarem outras nações.
Numa página, presente, sem dúvida, na lembrança de todos nós, minhas senhoras e meus senhores, há mais de trinta anos Eça de Queiroz saudava a Espanha como sendo na Europa «a única nação heroica». E, a propósito de Marrocos e da guerra do Rif, já latejante como um cancro em germe, o insigne romancista comentava admirativamente: «E assim, em pleno século XIX, temos de novo, como no Romancero, a cruz contra o crescente, e a Espanha na sua antiga e laboriosa ocupação de matar los moros.»
Apesar do inevitável ressaibo irónico de tudo o que escrevia, Eça de Queiroz, considerando a Espanha a única nação heroica da Europa, considerava igualmente a sua antiga e laboriosa ocupação de matar los moros não só como ato de heroísmo, mas, principalmente, como um ato civilizador. Não tomando ao pé da letra a frase matar los moros, efetivamente a guerra de Marrocos é, na horizontalidade sem grandeza dos dias em que vivemos, seduzidos os Estados apenas pela política cúpida do Aço, do Ferro e do Petróleo, a única, senão a última também, "guerra de civilização".
Não o impugnemos por um instante sequer, minhas senhoras e meus senhores: os soldados espanhóis que a esta hora combatem e morrem em Marrocos são os dignos e legítimos continuadores dos guerreiros e mareantes, cuja memória, congregados em torno da data de 12 de Outubro, nós aqui celebramos e veneramos!
Sim, é pela civilização que em Marrocos combatem e morrem os soldados espanhóis, pela civilização, cujo conteúdo espiritual dorme nas estrofes dos Lusíadas e palpita, por toda a Península, desde San Juan de los Reyes às arcarias dos Jerónimos. Não é um ideal truculento e arcaico, esse da guerra de Marrocos. O mouro, a aceitarem-se as hipóteses étnicas mais recentes, hipóteses que sem custo perfilho, é nas origens nosso parente chegado. Distancia-o de nós o particularismo estagnante que o impossibilita de se erguer coletivamente à consciência superior de uma nação – distancia-o de nós a ausência total das perspectivas sociais e morais que o cristianismo nos rasgou e oferece. Batizar e trazer para o caminho difícil da maioridade a pátria latente que se encontra no Rif, eis a missão da Espanha em Marrocos. Talvez assim se corrija o erro gravíssimo de Filipe II, ao dificultar os desígnios de D. João de Áustria, quando este pensava em fundar um reino cristão na Tunísia.
Talvez! O que vos asseguro, minhas senhoras e meus senhores, é que em Marrocos os soldados espanhóis se batem pelo seu país e pela civilização de que fomos os condutores através de uma longa procissão de séculos. Batem-se pelo seu país, porque é uma lei da história, verificada repetidamente e em tanta conjuntura desgraçada, que a Península dominará os povos que habitam a cabeceira de África, ou será dominada por eles. A guerra de Marrocos, com o imperialismo francês já instalado no norte de África, torna-se assim para a Península numa guerra de fronteiras, numa como que guerra de independência.
Outras nações, enraizadas ali, que não as nações peninsulares – e a Península, ameaçada na sua autonomia, ver-se-á transformada de pronto numa simples terra de passagem». Um monarca português, bem caluniado, mas que teve como poucos a compreensão da alma profunda de Portugal – el-rei D. Sebastião, cruzado póstumo que nesse Marrocos misterioso achou um fim misteriosíssimo, pelejando com o denodo dos extintos gestos da Reconquista – já encarava no seu tempo o problema de Marrocos em termos que não variavam muito de então para cá. Em carta sua, de 24 de Abril de 1576, dirigida ao monteiro-mor Manuel de Melo, escrevia D. Sebastião: «E por estas novas serem da calidade e importan que vedes me pareceu fazer-vos-las logo saber... considerando o que se deve cuidar e poderia esperar de imigos tão vizinhos e poderosos, e de tanta experiência na guerra, como são Turcos, cujo principal intento é haverem os portos de mar daquele Reino, e os mais da África para em cada um deles terem muitas galés, de que, se assim sucedesse (o que Deus não permita), resultariam grandes males, quase sem remédio a toda a Hespanha.»
Não se dirá que a D. Sebastião faltava um alto pensamento político, ao organizar a sua malfadada expedição a Marrocos. Fundamentalmente, é o pensamento político que nos deve animar, se considerarmos de ânimo levantado a ação da Espanha no norte de África. Não é só uma ação exclusivamente espanhola, é conjuntamente uma ação peninsular e uma ação europeia!
Por isso eu acuso – e acuso, não só como peninsular, mas também como português – aqueles jornalistas do meu país que, atacando insolitamente o governo do general Primo de Rivera pela sua tenacidade em prosseguir na guerra de Marrocos – patriótica e heróica conduta essa! – parecem ser em Portugal os partidários de Abd-el-Krin.
E no entanto, minhas senhoras e meus senhores, ninguém me suponha ardendo em bélicos arremedos contra os mouros! Já aqui reconheci o parentesco bastante apertado que etnicamente nos prende a eles. Mas reconheço também que se a Espanha não retomasse a política histórica de Isabel-a-Católica e de Cisneros, a Espanha desertava à sua grande responsabilidade de criadora de nacionalidades.
Uma nação, uma pátria, incorporada na comunidade cristã e europeia, despontará mais tarde, ou mais cedo, presumivelmente no norte de África. E se nós pudéssemos transpor as barreiras de anos que dessa futura realidade nos separam, presenciaríamos decerto os seus contemporâneos louvando a Espanha e agradecendo-lhe a obra imorredoura que ela cimentou com o sangue dos seus filhos.
Creiam, minhas senhoras e meus senhores, que não estou floreteando um rebuscado paradoxo retórico! Como o sinto, corajosamente o confesso. Na verdade, a mais irrecusável prova de que a Espanha se não acha decadente é que nas suas entranhas se não secaram os seus velhos predicados de suscitadora de nações. Marrocos demonstra-no-lo bem, como dedicando ao meu país uma alusão merecedora no-lo demonstra igualmente o que durante um século nós criámos em Angola e Moçambique, na maioria das vezes em luta aberta contra o centralismo ignorante e cabeçudo do Estado. Mouzinho de Albuquerque concretiza para nós toda a fereza inquebrantável da nossa epopeia africana. No fundo, tanto nos exploradores do sertão português, como nos vossos atiradores do Rif, quem ressuscita, quem grita de novo no esplendor nunca esgotado de suas forças magníficas é o Descobridor – é o Conquistador que presenteou a Europa com a chave de todos os caminhos oceânicos e engrandeceu a civilização ocidental com o acréscimo inestimável da América.
E assevera-se agora que a nossa história se acha suspensa, que atravessámos, nós, os hispanos, as cenas do mundo com a rapidez cintilante, mas momentânea, de um meteoro! Obedecendo às quimeras, às burlas e às ficções do individualismo, quebrantámo-nos, sem dúvida, nos melhores impulsos da nossa vitalidade. Mas ela ficou sempre fiel a si mesma – contínua e homogénea, assiste de hora para hora ao seu triunfo, à sua já inadiável reabilitação.
Vimos como o general Aguinaldo, com cicatrizes mal fechadas, acaba de conceder à Espanha o nome de "madre querida de Filipinas". Por seu turno a Bélgica, com os seus historiadores mais ilustres por intérpretes, declara que à influência espanhola agradece uma das diferenciais mais fortes do seu nacionalismo, com exemplo bem evidente na combustão lírica da poesia de Verhaeren. Além do mar, a maneira que se radica em oposição consciente contra o norte-americanismo invasor, o sentir geral das repúblicas hispano-americanas é o seu fundo hispânico que reverdece, como base primacial da sua personalidade e da sua autonomia.
Eis porque, minhas senhoras e meus senhores, se não estancou a fonte oculta do nosso génio, eis porque esta festa, sendo a Festa da Raça, é implicitamente a festa da nossa civilização.
Não se esmoreceu na nossa memória aquela varonil página de Ganivet sobre o Conquistador, sobre o homem da Estremadura (e, eu acrescentarei de Portugal), que José María Heredia celebrou nas suas rimas marmóreas e estilizadas:
Comme un val de gerpants hors du charnier natal,
Fatigués de porter leurs misères hautaines,
De Palos de Moguer, routiers et capitaines
Partaient, ivres d’un rêve héroïque et brutal.
......................................................................
Chaque soir, espérant des lendemains épiques,
L’azur phosphorescent de la mer des Tropiques
Enchantaient leur sommeil d’un mirage doré,
Où penchés à l’avant des blanches caravelles
Ils regardaient monter en un ciel ignoré
Du fond de l’Océan des étoiles nouvelles.
Pois o Conquistador, de quem Heredia descendia e que, debruçado da sua airosa caravela, via num céu desconhecido despontarem novas estrelas (não nos recorda o verso de Heredia o passo de Pedro Nunes, «... e, o que mais é: novas estrelas»?), pois o Conquistador, ou estremenho ou lusitano, nos seus ímpetos cavalheirescos e nas suas violências primitivas, que tanto chocam o filantropismo dos nossos dias, o filantropismo coevo dos submarinos e dos gases asfixiantes, Ángel Ganivet no seu Idearium español magistralmente no-lo desmonta peça por peça, ao estabelecer a sua penetrante distinção entre "espírito militar", e "espírito guerreiro". Não possui a Península "espírito militar", que é filho da organização, que é um produto reflexo, que é uma invenção colectiva, enquanto que o "espírito guerreiro", é espontâneo, nativo, pessoal.
Nós, os peninsulares, somos ricos de "espírito guerreiro", e quase vazios de "espírito militar". Ora o Conquistador individualiza soberanamente o espírito guerreiro, e é, sobre as águas do mar ou arribando à orla sussurrante da selva, o herdeiro, o continuador de Viriato e do Cid. Anota Ganivet que a Europa não compreendeu nunca o Conquistador, assemelhando-o invariavelmente a um
bandido, a um chefe assolador e exterminador. Em compensação faz o elogio da política comercial e colonial das modernas potências colonizadoras. Política de sucção, política essencialmente utilitária e – por que não proclamá-lo? – subractiva. Com ela não se engendram nacionalidades. Ao inverso, com a política instintiva do Conquistador – porque ao impor os seus dogmas e as suas paixões, impõe a sua personalidade –, geram-se pátrias, criam-se nações. Por isso Ganivet pondera justamente que «no son conquistadores quienes sirven un breve periodo de tiempo en una colonia por obtener riquezas u honores, sino quienes conquistan por necesidad, espontáneamente, por impulso natural hacia la independencia, sin otro propósito que demonstrar la grandeza oculta dentro de la pequeñez aparente». E Ganivet tão conquistador reputa Pizarro ou Cortés, como Santo Inácio de Loiola. Antecipado nesse juízo a Ganivet, também Oliveira Martins, compara São Francisco Xavier aos nossos heróis da Índia, cognominando-o de "Albuquerque da Cruz". O Conquistador personifica assim inteiramente aquela forte tendência de todo o ser para se expandir e reproduzir, que a teologia designa por "espírito de principado" e que, sendo a origem do imperialismo, ou moral ou político, ou mesmo ecuménico, o nosso contemporâneo Ernest Seillière tão subtil e proveitosamente analisou.
Tal é, minhas senhoras e meus senhores, o sentir da história peninsular – a explicação de todo o formidável esforço de Portugal e Espanha nas suas empresas ultramarinas. Julgo que das minhas desbotadas palavras terá saído bem nítida a certeza que deponho nas virtudes sempre moças do génio hispânico. O que importa é que, para lá de quanto justamente e injustamente nos divide, a espanhóis e portugueses, se robusteça o que indissoluvelmente nos une: a responsabilidade comum da civilização que o nosso sangue e a nossa fé heroicamente fizeram germinar.
Abraçada com a mais pura essência do Cristianismo, a civilização gerada por Portugal e Espanha é a única muralha sólida com que se pode abaluartar a sorte ameaçadíssima do Ocidente. Por nossa mão se arrancaram à selva e foram batizadas em Cristo as nacionalidades que hoje, do outro lado do Oceano, aclamam o nome da Península que lhes deu o ser. Este é o significado inapagável da Festa da Raça. Da "raça" não no sentido étnico, mas da "raça" no sentido espiritual de "raiz" – repito e saliento. Da mesma maneira que nós nos deformamos e nos enfraquecemos sempre que levianamente se troca o nosso irredutível "hispanismo" por um postiço e retórico "latinismo", da mesma maneira na outra margem do mar, se deformam e enfraquecem as nacionalidades hispano-americanas, entregando-se incautamente à cobiça da infiltração do Yankee, sempre que avolumam e propagam os efeitos negativos da leyenda-negra contra a Península. Pertence-lhes, tanto como a nós, a guarda da civilização, em que todos nos inserimos como ramadas de uma frondosa árvore genealógica. A guarda e a difusão. Na sua guarda e na sua difusão estão os alicerces mais inabaláveis das pátrias hispano-americanas. Intensifiquemos, portanto, os laços que a elas nos hajam de ligar. Esses laços só se intensificam pelo respeito exato do nosso fundo tradicional, pela obediência escrupulosa ao mandato imperativo da nossa história, hoje reduzida a moeda miúda nas mãos de verdadeiros ciganos do pensamento e da política. E ninguém melhor do que vós, estremenhos, para o sentir e para o empreender. É enorme a parte que vos cabe nas glórias comemoradas hoje, nos louros com que hoje se adorna a efígie sagrada da Hispânia-Madre. Dentro das vossas artérias não se extinguiu decerto o impulso magnânimo que atirou fidalgos e ganhões dos vossos descampados para a rota inesperada do descobrimento da América.
O santuário de Guadalupe encontra-se ainda de pé – serena, entre círios e flores, Nossa Senhora de Guadalupe, madrinha de descobridores e de conquistadores, alonga ainda por sobre vós a mediação do seu manto maternal. Junto do seu altar abençoaram as empresas com difícil antecipação nas da antiguidade clássica, que hoje despertam em nossos corações estremecimentos de
orgulho legítimo. Há que refazer a casa em ruínas, há que refazer a diretriz suprema da nossa civilização – da civilização hispânica.
Estremenhos, levantai-vos! O gesto centenário que lavra a herdade e que espalha a semente foi em vós o gesto que apontou às caravelas o rumo sedutor do Poente e abriu em terras enigmáticas os caboucos de tantas nações, agora livres.
Levantai-vos, estremenhos! Convosco latejam sempre as ânsias nobres dos vossos místicos, dos vossos soldados, dos vossos poetas, dos vossos homens-tipo. De São Pedro de Alcântara a Donoso Cortés, de Hernando de Soto ao inquieto Espronceda, é toda a vossa estirpe transformada em lavareda, para luzeiro inextinguível do mundo.
Horas duras se aproximam para o continente em que vivemos, para o tempo dúbio em que os nossos dias se somem. São pesadas as obrigações do vosso passado, mas a forma como a elas sabeis corresponder proclama-o altamente a festa que a todos nos convocou para aqui. Assim correspondereis também ao sacrifício que a Península vos pedir ao soar o momento de sermos definitivamente pelo Espírito contra a Matéria, pela Ordem contra o Caos, pela Civilização contra a Barbaria.
Não nos esqueçamos nunca de que nós, os hispanos, quando praticamos atos nacionais, praticamos invariavelmente atos universais. Isto desde o negrume medieval, sustentando o europeísmo nas Navas-de-Tolosa e no Salado, isto nas amuradas das naus da Descoberta, isto, ou detendo o Turco, que já avançava até Viena, ou evangelizando o Oriente, onde as espadas portuguesas rasgaram o caminho do zelo e a ardência dos missionários.
Não se enganou Oliveira Martins saudando a Península como salvadora da Europa. Precisamente o meu empenho consistiu todo em vos demonstrar que, na bancarrota evidente do industrialismo e do capitalismo – ou seja, da concepção materialista da Vida –, só os povos de tronco ou antecedentes hispânicos dispunham do capital de Espírito suficiente para reagirem eficazmente, desbaratando a animalização em que tombaram quase sem remédio a inteligência e o sentimento.
Nada mais agradável ao meu espírito do que falar da descoberta da América em pleno coração da terra estremenha! Dos navegadores aos conquistadores, Estremadura foi a grande mãe de que se nutriu insaciavelmente a gesta admirável do descobrimento e da colonização da América. Eis um laço – laço indissolúvel – que prende de perto a história ultramarina de Portugal ao maior capítulo da história de Estremadura. Daqui partiu Pizarro, daqui partiu Cortés, daqui partiu Vasco Núñez de Balboa, daqui partiram os Alvarados. E hoje que as investigações e a erudição nos vão esmiuçando pormenor a pormenor, trabalho árduo, o zelo incansável – tanta fome sofrida, tanto sangue derramado! – de que resultou na sua pluralidade harmoniosa a América, indevidamente chamada "latina", nós sentimos, nós compreendemos quanto era natural e espontâneo, às vésperas da Península encontrar o seu cantor máximo em Camões, a associação do génio estremenho e do génio português! Como detalhe expressivo, não quero deixar de lembrar a memória daqueles fidalgos de Elvas – Pegados e Vasconcelos – companheiros de Hernando de Soto, outro estremenho, na empresa acidentada e cavalheiresca da Florida.
Sempre que se fala das glórias da Península, o nome de Menéndez Pelayo, o grande mestre, acode tutelarmente a encaminhar-nos e a amparar-nos. Pois Menéndez Pelayo (e diante da sua egrégia sombra me curvo, reverente, eu que lhe devo a visão sintética da unidade cultural, em que inconfundível, mas também inseparavelmente, Portugal e Espanha se integram e completam!), pois Menéndez Pelayo, discorrendo de Gil Vicente e da flama inquieta que lhe sacode a sátira, oferece-nos algures um penetrante juízo, entre os muitos em que abundava a sua rara acuidade crítica. Para Menéndez Pelayo, Gil Vicente «tenía en su lira todas las cuerdas del alma portuguesa, pero sobre los rasgos del gallego melancólico y soledoso predominan en su acentuada fisionomía los del duro lusitano, del extremeño seco y cetrino, raza de los Albuquerques y Pizarros, que tan fieramente estampó su huella en las pagodas indostánicas y en los templos de los hijos del Sol». Evidentemente, minhas senhoras e meus senhores, que não vos venho cansar com a exposição de longas teorias, ainda que oportunas, em face do acontecimento que celebramos. Mas impõe-se-nos assinalar e, mais que assinalar, salientar a circunstância de haver sido Estremadura, uma região ou país do interior, quem entre as várias províncias de que se entretecia a coroa católica de Castela se atirou com heróica febre à aventura dos mares e à cristianização do Novo-Mundo, em que parecia ressuscitar, saído dos fundos misteriosos do Oceano, o prestígio fabuloso da Atlântida submersa. Envolta Castela nas guerras continentais, de que em boa parte derivou a salvação da Europa – então devastada pela dissidência religiosa e com a ameaça do Turco oprimindo-a sufocadoramente –, ocorre de pronto perguntar porque preferiram a sedução do incerto e do ignoto, trocando o trato familiar do arado pelo difícil trato marítimo, a que nasciam e se criavam estranhos, às lutas em campo aberto, debaixo das bandeiras do Imperador, as levas e levas de estremenhos que, desbordando da sua pequena pátria rural, foram depois, na perturbação enervante da selva americana, semente bendita, alicerce vivo e fecundo de vinte fecundas e vivas nacionalidades. A interrogação é legítima e há logicamente que aceitá-la. Aceitêmo-la, porém, sem recorrer às explicações artificiosas e infantis de um Unamuno, quando atribui ao «Amor do risco» (espécie de paixão animal e inferior que poderia conduzir às galés, da mesma maneira que conduzia às esplanadas da fama) o impulso colectivo que em Estremadura atirou, como uma só pessoa, vibrando numa única aspiração, para as terras moças do Poente – para as maravilhosas Índias Ocidentais – fidalgos e frades, labregos e letrados, até crianças e mulheres, trasladando na sua mudança o grão do celeiro e o cortejo ruidoso dos animais domésticos.
Se durante o formidável período de Quinhentos é seguro e nítido o paralelismo social e político de Portugal e Castela; se é segura e nítida em todas as manifestações a simultaneidade consciente dos dois Estados peninsulares, concordemos que Estremadura acompanha, mais que nenhuma outra parte dos reinos de Carlos V, o ritmo em que Portugal – o Portugal rústico do cajado e da
charrua – se transfere, de cruz aberta nas armaduras, para o convés das naus da Descoberta. Porquê? Carecemos de recuar bem longe, de subir ao segredo remoto das Origens, de auscultar as nascentes míticas, as tradições poéticas do antigo solo da Hispânia-Madre. Não se enganava Menéndez Pelayo, ao deslindar na crueza faceira de Gil Vicente dois elementos componentes – o que o mestre ilustre classificava de galego, e o que reputava como estremenho. Efectivamente, a expressão histórica em que o génio português se concretizou e imortalizou resulta dos dois elementos: do elemento lírico, apaixonado, saudoso, para sempre individualizado nos Cancioneiros galaico-lusitanos; e do elemento pertinaz, combativo, de agarrada resistência local, mas dotado de conjunta capacidade expansiva – ou imperialista – que nos ensina como Portugal é – contraditoriamente, a terra da poesia do amor e um ninho inesgotável de "heróis" – no sentido carlyliano da palavra. Do consórcio do velho fundo galaico com o velho fundo vetónico nascemos nós, como "povo", nascemos nós, como "alma". A "lusitanidade", como tipo psíquico personalizado no decurso de uma existência secular por uma literatura bem marcada e autónoma e por uma acção universal, que ninguém ousará contestar, não traduziu, não traduz, senão a justa fusão dessas duas modalidades que, ao penetrarem-se, se ampliaram e remodelaram, incessantemente, até provocarem o aparecimento, em meio físico adequado, daquilo que constituiu a essência generatriz de Portugal como nação.
Não nos diminuía em nada, por isso mesmo, Menéndez Pelayo ao surpreender em Gil Vicente – nos dois «Autos a El-Rey» – a afloração dos dois elementos, o galaico e o vetónico, com a supremacia do segundo, determinando a feição cortante, a irreverência implacável do patriarca do teatro peninsular. Irrefutavelmente, aí reside a dinâmica do nacionalismo português que, se na vertente ocidental da Península achou moldura que o ajeitou e desenvolveu, na índole sensível e branda do galego, seu irmão, e na rijeza bíblica – digamos assim – do estremenho, seu parente carnal, contempla ainda agora as partes desgarradas de um todo, de que a Lusitânia de Viriato, prolongada aos portugueses da Reconquista e aos mareantes de Nuno Gonçalves, representa o núcleo colectivo elevado ao grau consciente de nacionalidade.
As afinidades do português com o estremenho, apresentadas por Menéndez Pelayo na obra de Gil Vicente, aparecem-nos igualmente apontadas pelo alemão Adolfo Schulten no seu recentíssimo estudo sobre Viriato. Referindo-se ao incomparável caudilho, observa o ilustre arqueólogo, poderoso exumador de Numância a jamais vencida: «Também em épocas posteriores os montes lusitanos produziram grandes generais: dos Vetões da Estremadura deriva toda a série de férreos conquistadores, a cuja frente se contam Pizarro e Cortês.»
Ora, na estreita irmandade do estremenho com o português, ramos concordes da mesma árvore genealógica, e nas imposições longínquas de um comum atavismo, é que nós necessitamos de buscar a atracção irresistível que as empresas ultramarinas acenderam em Estremadura por vales e serras, por cidades e vilares. Decerto que o exemplo próximo de Portugal contribuíra fortemente para esse como que levantamento em massa. Decerto! Mas o contágio, ou não se daria, ou passaria rápido como um golpe de vento, se mais profundamente não existisse, na sub-consciência das populações, uma especial disposição para o receber e propagar. Eis porque festejando o 12 de Outubro, Portugal e Estremadura se entrelaçam de uma forma particular na comemoração de uma data que é como que a epígrafe, ou talvez o pórtico, das idades modernas do Mundo.
Com a entrada da América na comunidade da civilização ocidental, pura essência do Cristianismo – que é imperioso reanimar, para desmentirmos a Oswald Spengler e à sua teoria de catástrofe! –, a tendência pronunciadamente universalista da Hispânia-Madre atingia a sua máxima verificação. Facilmente se percebe que, celebrando tão extraordinário acontecimento, não é a "raça" num exclusivo e absurdo sentido étnico que celebramos, aqui, mas a "raça" no sentido de "raiz", "antecedentes, e logo no sentido de no sentido de "cultura" e de "civilização". No sentido de "cultura" e de "civilização" (e não nos perderemos a esmiuçar os ilusórios antagonismos que entre "cultura" e "civilização" os mais famosos pan-germanistas contemporâneos se entretêm a engendrar para total intoxicação filosófica do pobre Ocidente!), no sentido de "cultura" e "civilização", a "Festa da Raça" – festa de Portugal e Espanha, congraçados no seu ideal supremo de povos colonizadores e evangelizadores, é a festa do nosso génio – é a festa do Génio Peninsular! E o que é o Génio Peninsular, na sua superior unidade espiritual, senão o fruto admirável de um admirável dualismo – o dualismo que, na vida da Hispânia-Madre, Portugal e Castela vigorosamente vinculam e perpetuam?
Enganam-se, e enganam-se numa cegueira lamentável, os que, olhando apenas à lição superficial das aparências, confundem "unidade" com "unitarismo". É "una", sem dúvida, a Península, mas a sua "unidade" alimenta-se da sua "diversidade". Se as "diversidades" de que se compõe conseguem introduzir matizes apreciáveis no conjunto político do que hoje entendemos como "Estado", ou "nação espanhola", e matizes de natureza psicológica, que são os mais inapagáveis! como negar, numa aberrante abstração, o que, desde a adolescência dos tempos, a geografia e a história se combinaram em diferenciar e manter: a personalidade própria, independente, de Portugal?! Com o seu autorizado convívio nos textos clássicos, referentes à etnogenia peninsular, o arqueólogo Adolfo Schulten fala-nos do sentimento instintivo, designando-o por "obstinação ibérica", que nas suas lutas contra Roma impedia já os Lusitanos de se ligarem duradoiramente aos Celtiberos.
Não venho a este lugar, minhas senhoras e meus senhores, desfiar brumosas genealogias de Portugal como pátria livre. Mas exatamente porque acredito na unidade do Génio Peninsular, exatamente porque me considero filho da grande Madre-Hispânia, é que reputo dever meu distinguir bem que "unidade" não quer exprimir unitarismo e que, sendo "unidade" de ordem estritamente espiritual, nada melhor a serve de que o dualismo em que historicamente a Península acabou por se estabilizar!
Dualismo de soberanias, dualismo de Estados. Mas semelhante dualismo não passaria nunca de um artifício, que a corrigenda inexorável dos anos haveria já desfeito, se não correspondesse a uma realidade maior, se não tirasse a sua razão de ser de outras razões mais recuadas e mais profundas. Não nos embrenharemos por uma selva escura de hipóteses a inquirir de onde viriam essas razões, se unicamente de uma influência de meio físico (ninguém ignora o papel do Atlântico na diversificação portuguesa dentro da Península), ou também se de misturas ou sobrevivências humanas, que porventura prevalecessem irredutíveis no ocidente peninsular. O que sublinho é a circunstância de Castela tender espontaneamente para a poesia heróica, para a gesta sonora e altissonante, enquanto Portugal vazava as inquietações do seu coração ardente na poesia do amor. Recordemo-nos do que o marquês de Santillana escrevia ao Condestável de Portugal: «... no ha mucho tiempo cualesquier decidores y trovadores de estas partes, ahora fueren castellanos, andaluces o de la Extremadura, todas sus obras componían en lengua gallega o
portuguesa». Recordemo-nos ainda de que Menéndez Pelayo, ao inclinar-se para a naturalidade galaico-lusitana do Amadis, ao mesmo tempo que o tratava de algo llorón, via-se obrigado a confessar que, apesar de a gravidade peninsular imprimir ao Amadis um ar sério e casto, ar que se não descobre nos seus modelos e arranjos franceses, palpita na afamada novela «mucho de enervante y muelle que contrasta con la férrea austeridad de las gestas castellanas». Achamo-nos em presença de uma evidente idiossincrasia – permita-se o emprego da feia palavra! – de que bem cedo as restantes Espanhas – como Camões diria! – formaram perfeito juízo, arvorando-o até à dignidade de provérbio.
Proverbial se tornou, indubitavelmente, em toda a Península a fina amorosidade portuguesa. López de Vega dedicou-lhe um dos seus mais aplaudidos epigramas e, rendido a uma evidência que seguramente o chocava, não hesitou em colocar na boca de um dos seus personagens, o "Don Fernando" da Dorotea, aquela inolvidável passagem, tão doce de repetir para nós, os de Portugal: «Tengo los ojos niños y portuguesa el alma». Conceito corrente durante o período filipino, o período áureo da vossa literatura, minhas senhoras e meus senhores, esse conceito da amorosidade lusitana, magnificamente o documentou o jesuíta Álvaro de Cienfuegos, ao declarar a propósito da morte da imperatriz Isabel, que «las demonstraciones del Emperador en esta desgracia fueron iguales a la pérdida, llorando tanto tiempo, y con tanta alma, que se conocía bien que con el trato de la Emperatriz se le había pegado toda la ternura portuguesa».
Mas a "ternura portuguesa" não acusa demissão de vontade, ausência de carácter empreendedor e construtivo. A data que nos congrega hoje aqui demonstra-no-lo belamente nas suas esplendorosas consequências. Essa extraordinária aptidão emocional do tronco luso, vestida em tipos literários como o Amadis e a Diana, gerou – temos de proclamá-lo! – a concepção do "amor" por que o Ocidente se rege, desde o "amor" base da família e da espécie, até aos desvios da atormentada psicose romântica. Fronteira moral de Portugal em relação a Castela, é um dos sinais porque se manifesta na sua dupla face o Génio Peninsular. A outra face – é a face da Epopeia, é a face da Gesta, do género sonoro e viril que, prosificado mais tarde, encherá as ressonâncias calderonianas do vosso teatro e iniciará com os vossos pícaros, e sobretudo, com as andanças sublimes do pobre senhor Alonso Quijano o romance realista – o romance analítico moderno.
Não se confina, porém, nos domínios excelsos do espiritual, minhas senhoras e meus senhores, o dualismo peninsular! Transitando para as grandes exteriorizações coletivas da história, é fácil descobrir lhe o rasto no papel que Deus conferiu a Castela, entregando-lhe a política continental do Mediterrâneo e da Europa Central – a cruzada da Terra – enquanto, com as Descobertas e com a alvorada de novos mundos, confiava a Portugal a cruzada do Mar. Não arriscarei uma hipérbole impertinente, se considerar o que existe de medular na civilização ocidental – exceptuado, claro, o impulso criador que lhe veio do Cristianismo – como essencialmente filho do génio peninsular ou hispânico. Mas a sua unidade, a unidade do génio hispânico, não reside na secura dogmática de uma fórmula inteiriça e geométrica. Nasce, ao contrário, de uma tocante pluralidade de aspectos e matizes, que Portugal e Castela, como partes predominantes, nele introduzem, enriquecendo-os de realce humano e de vitalidade incomparável.
Assim o teriam, por certo, sentido os varões máximos de Quinhentos, os varões da Descoberta e da Colonização. Uma das mais agudas, embora das mais esquecidas inteligências de Portugal, o malogrado Moniz Barreto, tracejou as linhas gerais dessa particular fisionomia do Génio Peninsular – o seu indiscutível dualismo. E, possuidor, como poucos, da chave da psicologia hispânica, bem alto proclamava, numa hora em que reinavam soberanamente em Portugal os mais abstrusos preconceitos anti-espanhóis, que o período de maior esplendor, tanto para Portugal como para Castela, coincide com o do sincero e voluntariamente procurado paralelismo de Quinhentos.
Acentuo voluntariamente procurado porque talvez como nunca, entre súbditos de Portugal e súbditos de Castela, os motivos de discórdia e de desavença se contassem tão numerosos. Bastava para nos incendiar numa luta fratricida a disputa das Terras maravilhosas, em que soldados de ambas as pátrias e missionários de ambas as línguas implantavam com o prestígio da Península o
lábaro resgatador de Cristo. Mas – lição inolvidável! – um Papa dividira por portugueses e castelhanos (recuso-me a pronunciar o apelativo "espanhol", porque só mais tarde, da segunda metade do século XVII em diante, se restringiu aos naturais da monarquia unificada pelos Reis-Católicos) o orbe que ainda estivesse por descobrir. E, minhas senhoras, e meus senhores, não era um artificio jurídico, nem uma argúcia diplomática – pronta evasiva de momento, depressa condenada ao limbo das coisas estéreis, das soluções convencionais e inúteis.
Não! O sentimento, que inspirou a bula de Alexandre VI – um valenciano –, esse sentimento correspondia ao sentimento da unidade da Península em que se abrasavam, por cima das suas fronteiras nacionalistas, os habitantes da Espanha gloriosa, adiantada-mor da Europa e sua salvadora em tanta dolorosa emergência!
Havia então um "patriotismo peninsular" – patriotismo que não excluía o outro patriotismo: o das diferentes pátrias, de que a Península se compunha. Provas? Sei lá de prova mais expressiva de que o testemunho de Gil Vicente que, numa das suas invenções teatrais mais aparatosas, põe no mar picado da tormenta as sereias cantando em castelhano os louvores de Portugal:
«Recuérdate, Portugal,
Cuanto Dios te tiene honrado;
Dióte las tierras del sol
Por comercio a tu mandado;
Los jardines de la tierra
Tienes bien señoreado,
Los pomares de Oriente
Te dan su fruto preciado,
Sus paraísos terrenales
Cerraste con su condado.
Loa al que te dio la llave
De lo mejor que ha criado;
Todas las islas ignotas
A ti solo ha revelado.»
Pois se, como vimos, o patriotismo peninsular não excluía ou minguava o patriotismo nacional de portugueses ou de castelhanos, justo é declarar-se também que para a sua manutenção contribuía o zelo infatigável, o diligente cuidado dos monarcas peninsulares.
D. Manuel I de Portugal – eis um exemplo de pleno valor demonstrativo! – recusou a coroa de Castela que os comuneiros revoltados lhe ofereceram. Porquê? Porque nos dois reinos da Península palpitava, clara e vigorosa, a consciência de que, acima dos interesses centrífugos e divisionistas em que por vezes se degladiavam e diminuíam, pairava o interesse superior da Península – interesse que, por ser da Península, forçosamente envolvia, tornando-os viáveis e respiráveis, os interesses de Portugal ou de Castela. Pergunto eu, minhas senhoras e meus senhores, pergunto eu se semelhante consciência do superior interesse da Península – da Hispânia-Madre – não vibrasse, impondo-se, nos homens de Quinhentos, poderia acaso Portugal ter dilatado por oceanos enigmáticos e continentes hostis a Fé e o Império?, poderia acaso Castela ter barrado o avanço do Turco e dominado na Europa-Central o alastramento da anarquia religiosa, retardando assim por três séculos a crise quase mortal em que a comunidade europeia parece agora desfazer-se? Certamente que não – afirmêmo-lo com sereno desassombro. Mas, ao afirmá-lo, lamentemos também que a consciência desse super-nacionalismo hispânico se haja perdido nas intrigas das câmaras régias, no astigmatismo político de toda uma plêiade de estadistas, só dignos de governarem em Lilipute, nas inadmissíveis superstições de uma burguesia que se reputa de letrada, nos conluios ajuramentados das choças revolucionárias, para só faiscar, como passageiro relâmpago, quando, apenas por lei sagrada do sangue, espanhóis e portugueses se encontraram de súbito unidos como um só homem contra as águias assoladoras de Napoleão!
Sim, minhas senhoras e meus senhores! Perdida a consciência do super-nacionalismo hispânico, a Península entrou em decadência, é de uso proclamar-se. Decadência externa, apatia interna. Começa no século XVII, dura até aos nossos dias, e tão persistentemente, tão afincadamente, que perante a Europa, revendo-se, morfinizada, no fulgor da suposta civilização do Ferro e do Aço, Espanha e Portugal tomaram-se, com geral aprazimento, como caricaturas arcaicas, como figurações obsoletas, sem mais curiosidade que a de uma simples exibição arqueológica. Portugal e Espanha, caricaturas! Caricaturas, nós, minhas senhoras e meus senhores, nós que demos à Europa as vias marítimas e terrestres por onde ela depois passou, desdenhosa e ingrata! Caricaturas arcaicas, nós que arrancámos da selva a mais de vinte nações e, incorporando-as maternalmente no nosso ideal de civilização, as distinguimos logo no berço com a estrela dos grandes destinos!
Caricaturas arcaicas, nós, minhas senhoras e meus senhores, que, no depoimento do próprio Oswald Spengler, primeiro que ninguém, soubemos imprimir ao nosso nacionalismo um amplo e intenso sentimento universalista!
Consolêmo-nos, porém, com a certeza de que, ainda que tardia, a justiça vai chegando. Não há muito que um dos mais originais espíritos do nosso tempo – o inglês Chesterton – sustentava que a guerra da Espanha com a Inglaterra, ao declinar o século XVI, foi uma guerra de civilização – estando a civilização pelo lado da Espanha. A Espanha, ou seja, a Península, representava a continuidade cultural e moral de que a Europa se nutria e a cujas luzes se conformara social e espiritualmente. A derrota da "Invencível Armada" inicia a série de desastres que se remotam na guerra dos Trinta-Anos com os tratados de Vestfália. Os tratados de Vestfália sancionaram como norma de conduta internacional o individualismo religioso e político. Foi a vitória das "éticas do Norte" – como confessa Chesterton elucidativamente. E se tentarmos bosquejar a genealogia dos diversos males que afligem a dolorosa era de transição em que vivemos, minhas senhoras e meus senhores, a Vestfália teremos que remontar. O que confirmaram na Europa os tratados de Vestfália? O crepúsculo definitivo da Casa de Áustria, a queda da Espanha como potência europeia, como elemento ponderador da Cristandade. Mas não é só a Espanha que se some na sombra em Vestfália. Some-se também o prestígio diplomático do Pontificado – some-se igualmente o pouco que ainda restava do conceito da Cristandade. Abandonada às "éticas do Norte" – na frase felicíssima de Chesterton –, ou, em outros termos, aos desvarios e exageros do
individualismo, a Europa julgou-se libertada, como que entrada em outros caminhos de maior prosperidade e supremacia. Mas – ai de sua pobre e desvalida ilusão! –, desgarrando-se atrás de uma ignóbil mitologia social e filosófica, só para a sua ruína correu. Persistindo no seu erro, mais e mais se embrenhou nos círculos dantescos, em que hoje se despedaça, transviada. Não nos excedemos, por isso, minhas senhoras e meus senhores, se concluirmos que o início da decadência da Europa coincide com o início do crepúsculo da Península em Vestfália.
É imperioso, no entanto, rectificar-se: decadência da Europa, sim, mas não decadência da Península! Já veremos por quê. Oliveira Martins, e, com Oliveira Martins, Moniz Barreto, seu crítico e seu amigo, fixaram como qualidade-mestra da alma hispânica o seu aferro ao conceito absoluto da Existência. Pelo aferro dos hispanos à ideia absoluta da Vida se compreende e explica aquilo que destaca a sua história da história das outras nações europeias – sucessoras na condução e hegemonia do mundo. Enquanto elas se baseiam na noção de indivíduo, os hispanos basearam-se sempre, por condição peculiar da sua índole, na noção de "pessoa". Se recorrermos, minhas senhoras e meus senhores, à distinção que o Tomismo nos fornece entre "pessoa" e "indivíduo", abrangeremos sem dificuldade como o nacionalismo dos hispanos – centrípeto, acumulador por excelência – teria de ser universalista – aditivo, portanto, – ao passo que o nacionalismo de ingleses e alemães, individualistas por pecado original, seria centrífugo, atómico, subtrativo, como consequência. Eis aqui o motivo bem palpável porque nós fundámos "nacionalidades", não conseguindo os outros povos, que enfática e empavonadamente se intitulam de "colonizadores", ir além de "colónias" e, quando muito de "Estados", cujos fundamentos assentaram no extermínio sistemático das populações indígenas.
Insisto, senhoras e senhores, na distinção entre "pessoa" e "indivíduo", aplicando-a à história peninsular e à sua projeção universal. A "individualidade" vem do corpo, da matéria, do instinto. Inversamente, a "personalidade", vem da alma – é, observação aguda de um publicista contemporâneo – «a subsistência da alma, independentemente do corpo». «Desenvolver a sua individualidade – assinala o mesmo autor – é viver da vida egoísta das paixões, é fazer-se o centro de tudo e terminar, finalmente, por ser o escravo de mil bens passageiros que nos trazem um prazer de momento. A personalidade, ao contrário, aumenta na medida em que a alma, elevando-se ao de cima do mundo sensível, se prende mais estreitamente pela inteligência e pela vontade ao que constitui a vida do espírito.» (Padre Garrigou-Lagrange, Le Sens commun.)
Já na sua História do povo espanhol o hispanófilo inglês Martin Hume se choca com esse especial sentido dos hispanos em conceber a Vida. Confundindo-o embora com o "individualismo", demonstra-nos Martin Hume a traços incisivos como a identificação do hispano com o Cristianismo correspondeu a uma forte solicitação do seu temperamento. Substitua-se "indivíduo" por "pessoa", e "individualidade" por "personalidade" – e tudo ficará certo. Um filósofo espanhol do nosso tempo, em que revive o casticismo intelectual dos velhos mestres peninsulares, George Santayana, qualifica de paganismo, tanto na existência das coletividades, como na pura determinação individual, quanto derive apenas da vontade e pretenda exclusivamente servir o "eu" – no que ele tenha de centrífugo ou subtrativo, e "pagã" assim a filosofia germânica, afastando-se completamente da objetividade e procurando sobrepor a inteligência, como princípio e fim de si mesma, às evidências constantes do Ser, pagã, é a norma introduzida pelo liberalismo na política e economia dos povos, em que o elemento absoluto da Vida se despreza totalmente e só se rende à satisfação do apetite imediato, das nossas necessidades estritamente animais. Triunfante na marcha da Europa, principalmente a partir do século XVII, o conceito pagão da Vida – da filosofia às diretrizes dos Estados, da moral às belas-letras e às belas-artes – levou-nos automaticamente à crise trágica em que o Ocidente estaciona, insensibilizado pelo que nós julgamos um desmedido capital de civilização, mas que não é senão uma bastardia ou um envilecimento daquilo que por "civilização", imperiosamente carecemos de considerar.
Com efeito, minhas senhoras e meus senhores, "civilização" significa um predomínio de espírito, em que o indivíduo cede ao conjunto humano, em que as riquezas de ordem interna e ascendente jugulam e orbitam as riquezas unicamente materiais. Pois contra o Espírito a Matéria reina, contra a Civilização reina a Técnica, promovendo a alucinação da velocidade e asfixiando pela vitória torpe da Máquina o princípio de autonomia interior, pela qual a nossa dignidade de homens consiste em sermos "almas" – e não, na ironia clássica do humanista, «simples
sacos por onde entra e sai a comida»!
Algures, numa página bastante divulgada, interroga Henri Bergson – um dos mais elegantes sofistas da idade leviana que se atravessa! – até onde houvera chegado nas suas investigações a ciência moderna se, em lugar de partir da razão matemática para o estudo exclusivo da Matéria, partisse da razão psicológica para o estudo mais amplo e mais envolvente das coisas do Espírito. Na ameaça crescente do orientalismo que, com sarcasmos implacáveis, classifica de "saber ignorante" a nossa civilização do Aço e do Ferro, a nossa portentosa "técnica", encobridora, no fundo, do mais estigmatizante primitivismo mental, o Ocidente não sabe que opor-lhe, senão volver de novo os olhos para a rocha firme de Pedro, para a claridade que rutila para além dos montes, na transparência augustíssima do céu de Roma.
Praticamente, experimentalmente, a Europa, polida e orgulhosa, como domadora que foi do resto do Orbe, ou tem de sucumbir, ou de acolher-se ao aprisco paternal do Cristianismo. Adversários encarniçados do Catolicismo, como Oswald Spengler, não fogem a confessar que a sorte do Ocidente anda ligada à da Igreja – que aos da Igreja andam ligados os destinos da civilização, engendrada na concha azul do Mediterrâneo, o mar sagrado da cultura antiga.
O que concluir daqui minhas senhoras e meus senhores? Que está em juízo o conceito "pagão", ou "individualista" da Vida, conceito que tiranicamente suplantou, mormente depois do século XVII – insisto –, o conceito Cristão, e, implicitamente, "hispânico", da existência. Digo "implicitamente hispânico" ao adjetivar de "cristão" esse conceito absoluto da Existência porque, fundamentando-se a ideia da Vida, possuída pelos "hispanos", não no sentimento da "individualidade", mas no sentimento da "personalidade", não é difícil entender-se como, por uma espontânea combinação, Cristianismo e Hispanismo se conjugam e consubstanciam. Não foi por fortuito acaso que Ósio, bispo de Córdova, redigiu em Niceia o Credo e que um hispano – Teodósio – declarou o Cristianismo religião oficial do Império. Enquanto o indivíduo se esquiva às regras comuns e universais, para arvorar o seu egoísmo em eixo de quanto o rodeia e ele apreende, a pessoa ajusta-se naturalmente à espécie e, realizando-se integralmente, conserva-a, fortifica-a e perpetua-a.
Eis porque, desde sempre, o "hispano" tendeu para a "unidade" – não para a "unidade" que elimina, que exclui, mas para a unidade que incorpora, que assimila, que sintetiza. Assim se perceberá já porque intimamente nos associamos, transfigurando-nos com ela, aos prestígios e aos progressos de Roma, a ponto de a presentearmos com imperadores, com filósofos, com generais. O esboço ainda imperfeito da "unidade" que Roma nos oferecia em relação ao género humano, definiu-o e impô-lo o Cristianismo. O "hispano" reconheceu-se sem hesitações na nova fórmula religiosa, desposou-a, fez-se o seu verbo, dando-lhe apóstolos e mártires – fez-se o seu braço, dando-lhe soldados e legisladores. Porquê? Porque o Evangelho – no depoimento de Hume – concedia um apoio divino ao instinto mais enérgico da raça hispânica, o sentimento absorvente da "personalidade" que Hume erroneamente, como já notámos, troca por "individualidade". Essa grande democracia espiritual – a única, a verdadeira, minhas senhoras e meus senhores! –, que é o Cristianismo e em cujo seio todos são irmãos e iguais perante Deus, diferenciando-se somente pelos méritos adquiridos, pelas virtudes professadas, essa grande democracia espiritual, repito, correspondia ao que borbulhava no mais entranhado do génio hispânico: a ideia da independência e a ideia da responsabilidade. Pela ideia da independência e pela ideia da responsabilidade, batizadas e alimentadas pelos mandamentos de Cristo, a civilização ocidental foi possível no que ela guarda de vivaz, de moço, de eterno dentro da imortalidade da história.
A liberdade é, deste modo, nossa filha, ó filhos da admirável e caluniada Madre-Hispânia, entre nós nasceu do consórcio do amor à responsabilidade com o amor à independência. O consórcio dos dois sentimentos – o da responsabilidade e o da independência – já nos levava nos primeiros tempos da Igreja a repelir a heresia ariana, em que o princípio da autonomia individual se combate e nega esmagadoramente. Centenas de anos rodariam. E, ao desenlaçar-se o tremendo conflito do século XVI, em Trento, com a Igreja dividida e sangrando, são os teólogos espanhóis quem ampara a autonomia individual – origem e fonte de toda a verdadeira liberdade –, desbaratando os que pretendiam converter em dogma a terrível doutrina da Predestinação. Nessa hora grave o mundo se salvou de um torpor de morte, embora resvalasse depois, com o triunfo nefasto do relativismo filosófico, para as emboscadas sem fim do determinismo e da fatalidade histórica, iguais em consequências aos resultados que nos adviriam, se em Trento a ofensiva dos teólogos peninsulares não tivesse prevalecido soberanamente.
Mas se a autonomia individual se defendeu em Trento, garantindo a liberdade nos domínios morais, convém não esquecer que o devemos, como homens e como hispanos, ao nosso irredutível e estrutural sentido da "personalidade", e não da "individualidade". Por tão radicado e persistente atributo, nós reconhecemos nas Leis da Índia a unidade da espécie humana, andando decerto
na nossa lembrança a discussão levantada entre os juristas e canonistas peninsulares se havia, ou não, o direito de conquistar as terras recém-descobertas e de escravizar os seus habitantes. O que existe de mais belo, de mais rasgado nos presunçosos códigos da atualidade, do direito político ao direito penal e internacional, deriva, minhas senhoras e meus senhores, do fermento salutar que o Cristianismo depôs na consciência dos povos ocidentais, mas que só a Hispânia-Madre, por seu entranhado amor do Absoluto, soube desenvolver, expandir e consagrar em monumentos e criações, que nenhuma lenda-negra, por mais arquitetada e cimentada que seja, poderá ocultar, logo que os olhos se não fechem à claridade nem se feche aos direitos clamorosos da justiça a tibieza do nosso entendimento.
E acusam-nos de caricatura arcaica! A nós que já desde os concílios de Toledo submetíamos à disciplina suprema do Espírito a força bruta, enunciando o célebre aforismo, recolhido por Santo Isidoro nas suas Etimologias, «Rex eris recte facias: si non facias, non eris»...?! Caricatura arcaica – nós que nos erguemos como um cerrado baluarte, com os nossos doutores, com os nossos estadistas, contra o Absolutismo que a Renascença engrossara e que a rebeldia protestante ia atirar vitoriosamente para o campo das definições jurídicas?! Ao aforismo de Santo Isidoro, «Rex eris si recte facias», nobremente transitado para as Partidas («Onde Rey serás si facieres derecho, si non facieres non serás Rey»), imprimir-lhe-íamos então uma nova e solene retumbância. Basta recordar o episódio que, numa das suas valiosas Memórias, D. Eduardo de Hinojosa nos evoca. Foi no reinado de Filipe II. Na presença do soberano, um pregador afamado afirmara do púlpito para baixo que «los Reyes tenían poder absoluto sobre las personas de sus vasallos y sobre sus bienes». Processou-o por isso o Santo-Ofício, obrigando-o a retratar-se no mesmo púlpito, com a declaração expressa de que eram erróneas as suas palavras e de que, ao inverso delas e conforme instrução literal dos teólogos inquisitoriais, «los Reyes no tienen más poder sobre sus vasallos del que les permite el derecho divino y humano – y no por su libre y absoluta voluntad».
Ocorria isto, minhas senhoras e meus senhores (torno a repeti-lo), durante o reinado de Filipe, do denegridíssimo Filipe II, quase simultaneamente quando em França predominava a doutrina de não sujeição do Monarca à lei e quando a mão do carrasco queimava em Paris, na praça pública, o De Rege, do jesuíta Juan de Mariana, dedicado a Filipe II, «rei católico de Espanha».
Factos irrespondíveis, significam-nos bem quanto a Península – um dos maiores larários de civilização em todos os tempos – suscitou contra si uma campanha de ódios sistemáticos e infatigáveis. Porquê? Porque na sua adesão firmíssima ao Catolicismo, ela representou um dique oposto resolutamente às mil causas de desagregação social, que o vento mortífero da Reforma suscitou na Europa. Tida por uma falsa erudição de cópia como o reduto último do despotismo e de uma obstinação fanática e obscurantista, a Península, a Madre-Hispânia, vê-se, afinal, defendida por inesperadas e honestas reivindicações da cultura estrangeira. Citado por D. Eduardo de Hinojosa, o conhecido publicista e universitário alemão Von Gierke testemunha insuspeitamente que «a Reforma deu nova vida ao conceito teocrático» da autoridade. «Não obstante – escreve – a variedade de matizes que entre eles se observa, Lutero, Melanchton, Zwinglio e Calvino concordam em proclamar o direito divino da autoridade». Mas essa unanimidade por parte dos inovadores protestantes em reconhecer e sustentar o direito divino da autoridade dirigia-se ao endeusamento do Estado e à teoria absurda de que, não só a autoridade em si é de origem divina, como o é igual e inseparavelmente o direito dos seus titulares ocasionais. Daqui – concluo eu e não Gierke – a confusão propositada, na boca e na pena de muitos detratores do pensamento católico, entre a origem divina do poder e o falso direito divino dos reis. Mas Gierke prossegue. E prossegue, minhas senhoras e meus senhores, em termos que, registá-los, é honra e estímulo para nós: «os mais acérrimos inimigos da Reforma, em especial os dominicanos e os jesuítas, trabalharam com todas as forças do seu entendimento para que prevalecesse o conceito puramente racional do Estado e do soberano. Fizeram tal, é verdade para contrapor o Estado à Igreja, e inferir de semelhante contraposição entre a obra humana e a instituição divina a subordinação da potestade temporal à espiritual. Mas naqueles pontos em que as relações do Estado com a Igreja ficavam fora da questão, desenvolveram a doutrina do Estado sobre fundamentos inteiramente filosóficos e livres de todo o preconceito dogmático. Os grandes teóricos desta tendência – remata o acreditado professor berlinês – são unânimes em aceitar que a sociedade política se firma no direito natural e que, por virtude deste mesmo direito, corresponde à sociedade a soberania sobre os seus membros», sem que se repudie o preceito religioso de que o Estado se fundamenta na vontade divina e que todo o poder emana de Deus.
Talvez me excedesse, minhas senhoras e meus senhores, no exame de um aspecto dos mais controvertidos do génio hispânico. Mas cansados como andamos de ouvir, com ares de alta crítica, a velha atoarda enciclopédica de que a humanidade nada deve à Espanha – e Espanha aqui equivale à Península, ou seja Portugal e a Espanha propriamente dita – , bom será que reponhamos as coisas no seu justo lugar, respondendo aos que nos acusam de anacrónicos, de retardatários e de fossilizados, que a liberdade, no seu superior sentido orgânico, é natural da Península, sendo entre nós o absolutismo um intruso violento, um hóspede atrevido e não desejado. Como falei em "liberdade" e em "absolutismo", convém que, a vocábulos tão prostituídos pelo histrionismo verbal dos polvos da comédia política, se atribua o seu vigoroso conteúdo. Nada mais inimigo da liberdade – facto moral, radicado, sobretudo, na consciência – do que o Liberalismo, irmão mais novo, mas irmão hipócrita, do Absolutismo! Nada mais zelador e amparador da liberdade do que a autoridade do Estado, quando restituída à sua exata função, quando confinada nos seus limites históricos e racionais. Eis a lição que se tira da obra dos Reis-Católicos: unificando na sua soberania a soberania pulverizada pelos diversos senhorios e jurisdições nobiliárquicos, garantiram, contra particularismos odiosos, contrabandos que dentro do Estado constituíam verdadeiros Estados, o equilíbrio perdido da coletividade e a reposição dos seus legítimos interesses em moldes próprios e adequados. Eis porque a liberdade anda sempre ligada à autoridade – eis porque o exemplo dos reis católicos é de maneira a convencer-nos de que o poder responsável e forte nem sempre é sinónimo de absolutismo, ainda mesmo nos casos em que se sobreponha à ficção – por que não dizer? – à mentira dos textos escritos, dos ridículos e inexpressivos papéis, a que a mitologia dos nossos tempos chama "constituições".
Adiante, porém! E adiante, para nos confirmarmos, minhas senhoras e meus senhores, no prestígio e no já evidente ressurgimento do génio hispânico. Do seu crepúsculo no século XVII sabemos nós já como coincidiu com o crepúsculo daquelas verdades que, sendo depostas no coração da Europa pela solicitude maternal da Igreja, fizeram da Europa a portadora do facho, hoje turvado, da civilização. Amanhã, o historiador ou o crítico que ordenar a história da decadência europeia ou o inquérito aos motivos por que se encontra em crise a civilização ocidental, pondo de parte quaisquer intuitos apologéticos, verificará objetivamente que essa decadência e que essa crise entronca na ruptura do nosso continente com o ideal cristão e com a realização aproximada que dele a Península conseguira efetivar e difundir. Admitimos então para a Península uma como que predestinação, uma como que missão teológica de povo eleito? Não caiamos num terreno de tão fugidia e enleante natureza! Retraídos ao campo da pura observação, simplesmente constatamos que o conceito ou o sentimento da vida dos povos peninsulares, conduzindo-os por especial condição de temperamento à noção do homem como pessoa, e não como indivíduo, os dotou com todas as vantagens do individualismo, livrando-os de todas as suas aberrantes e dispersivas consequências. Assim necessitamos de encarar tão complexo tema, assim a psicologia do hispano se nos apresenta, olhada por um escrupuloso critério positivo.
É o critério positivo, minhas senhoras e meus senhores, que obriga Santayana a ressuscitar filosoficamente o vocábulo paganismo, para caracterizar os subjetivismos desvairantes de uma certa e vã filosofia, Filosofia que, inspirando-se na obsessão exclusivista do eu, promoveu, como fruto daninho do individualismo, a ruína da inteligência e da razão humanas. Podemos encará-la com o polo negativo do sistema, ou concepção do mundo, em que o hispano aparece na posição oposta, como seu antípoda radical e extremo. Se da filosofia, adjetivada por Santayana de pagã, deriva a dissolução contemporânea, tanto moral como intelectual, não é difícil inferir-se que na filosofia adversa reside a base da desejada recomposição do pensamento e da ética nas nossas combalidas sociedades. Qual essa filosofia? A filosofia da Escola, a filosofia do Ser, a filosofia da objetividade, a filosofia que, bafejada pela excelsa penetração de Santo Tomás, nos ensina a distinção entre pessoa e indivíduo, sem a qual a ação histórica dos povos peninsulares é difícil – senão impossível – de interpretar e deslindar. Pois, por persuasiva e reforçante coincidência, a filosofia da Escola achou na Península o seu derradeiro refúgio, ao anunciar-se o tremendo crepúsculo mental do século XVII. Ainda aí é impressionante o consórcio das predileções mais íntimas do génio hispânico com as regras e as disciplinas em que o ocidente depunha o segredo da sua vitalidade e do seu esplendor! O filósofo francês Jacques Maritain, no seu Antimoderne – breviário admirável de revisão e de depuração das ideias reputadas como basilares –, Jacques Maritain – da mesma forma que Bergson, que ele desfez num estudo inolvidável, aduza-se de passagem – levanta a seguinte interrogação: «Que serait-il advenu de la France et du Monde si le mouvement classique du XVIIe siècle avait choisi pour maître et pour guide en philosophie, non pas la dure et étroite tête orgueilleuse qui rejeta et détruisit tous les précieux instruments de Sagesse préparés le long des âges par le labeur des hommes, mais le vaste et puissant métaphysicien qui continuait et commentait humblement Aristote et Saint Thomas à Alcalá de Henares, pendant que Descartes combinait en Hollande sa révolution philosophique – le docteur profond Jean de Saint-Thomas?» [ O que teria sido da França e do Mundo se o movimento clássico do século XVII tivesse escolhido como mestre e guia em filosofia, não a cabeça dura, estreita e orgulhosa que rejeitou e destruiu todos os preciosos instrumentos da Sabedoria preparados ao longo dos séculos pelo trabalho dos homens, mas o vasto e poderoso metafísico que continuou e humildemente comentou Aristóteles e São Tomás em Alcalá de Henares, enquanto Descartes combinava a sua revolução filosófica na Holanda – o profundo doutor João de Santo Tomás? ] Equivale isto a dizer, minhas senhoras e meus senhores, que mais fecundas e menos fatais teriam sido as direções levadas pela Europa se, ao vento novo, que de França soprou com a nova filosofia, se sobrepusesse a voz da prudência mental, sustentada nas cátedras peninsulares, sobretudo, por esse assombroso Frei João de Santo Tomás, português de nascimento, embora professor na velha fundação de Cisneros. Ainda por aí – pela apertada aliança do espírito peninsular com a filosofia tradicional (e escusado é rememorar nomes como os do jesuíta Pedro da Fonseca e do jesuíta Francisco Suárez!) – nós verificamos como a noção da existência e do conhecimento, praticada e ensinada pelos hispanos, se conformava estruturalmente com as necessidades e as tendências progressivas da civilização ocidental. Infeccionada esta pela avariose ideológica da Reforma e da Renascença, onde é que a Reforma encontra mais denodados opositores, do campo da teologia ao campo da filosofia? Na Península. Na Península igualmente o humanismo pretensioso da Renascença se depura – e deixando de ser, como era para os gafados italianos, um fim, ideal de vida, volve-se com os colégios da Companhia, acentuadamente, um meio de educação valiosíssimo, um valioso agente de formação mental, de que o Colégio das Artes em Coimbra nos fornece um exemplo convincente. Ajuntemos aos testemunhos já produzidos dois de não menos peso e de não menos autoridade.
Depõe Brentano, professor de Economia Política na Universidade de Leipzig: «No século XVI a cultura espanhola alcança transitoriamente o primeiro lugar na vida intelectual da Europa. Não nos devemos, pois, admirar que o mundo inteiro tome a Espanha por modelo. As suas instituições são imediatas: não só o seu exército e a sua organização administrativa, mas também certas instituições económico-jurídicas, como os fideicomissos familiares... e assim como a infantaria espanhola imprime o seu selo aos exércitos da época, também a política monopolizadora de Espanha na ordem económica serve de norma às outras nações.» Também o historiador alemão Karl Hillebrand se pronuncia: «A nossa época, bastante inclinada a diminuir o papel da Espanha na história da civilização europeia, deve reconhecer que não só foi obra exclusivamente sua a reorganização da Igreja, como a monarquia de direito divino, tal como floresceu no século XVII.» E, resumindo a influência poderosa da Espanha na literatura e nas artes, Hillebrand adita: «Maior foi ainda a influência que teve no desenvolvimento filosófico da Europa... Não quer isto significar que a filosofia de Molina e Suárez enformasse por completo a vida intelectual da época; mas é inegável que à Espanha se deve o restabelecimento do princípio da autoridade em todas as ordens, erguendo assim um dique, às vezes benéfico, ao desenvolvimento da especulação filosófica na Europa Continental.»
São estes testemunhos altamente demonstrativos. Partindo de alemães, e de alemães com manifesta mentalidade luterana, ajudam-nos, pela sua origem, a ajuizar sem apologéticas preconcebidas, do esforço dispendido pela Península em proveito da unidade europeia e da civilização ocidental. Claro que aonde eles escrevem Espanha, é de justiça lermos nós Península, porque de outra maneira ocultaríamos, e com imperdoável injustiça, a parte que pertenceu a Portugal – com os seus humanistas e com os seus comentadores, dos Gouveias, tios e sobrinhos, a Frei Serafim de Freitas e ao citado Frei João de Santo Tomás, «doutor humilde e profundo», eis como o retrata Jacques Maritain! – do verdadeiro europeísmo, em seguida a Trento e às vésperas da guerra dos Trinta-Anos.
Mas tamanha capacidade afirmativa dos hispanos dependeria apenas da posse ocasional – ouro e soldados –, das forças materiais do domínio? Afoitamente respondemos que não. Basta repetir com G. K. Chesterton que, ao estalar a catástrofe da Invencível-Armada o interesse da Europa estava ao lado da Espanha, que «representava – na frase de Chesterton – a própria civilização». Consuma-se então o que Chesterton tem por "cisma das nações". O que entender por "cisma das nações"? O afastamento da Europa das vias tradicionais, o advento das "éticas do Norte" (a expressão é também de Chesterton) e o seu natural triunfo em Vestfália. Contudo, apesar de vencido pela explosão vitoriosa do individualismo, a Hispânia não sucumbiu, não entrou em decadência. Constitui um grosseiro desvio óptico o supor-se que é a história da decadência peninsular a história dos três últimos séculos, e história do individualismo em todas as suas multíplices revelações. O que será é a história da decadência da Europa, isso sim! Atirando-se, na esteira da razão matemática, para a exclusiva conquista do reino da Matéria, a Europa embrenhou-se na selva escura, em que hoje, túnica rasgada, a sua magnífica túnica orlada de castelos e de catedrais, o diadema perdido, vagueia como uma rainha de Shakespeare, esfarrapada e louca. De Spengler a Maritain, do conde de Keyserling a René Guénon, a decadência da Europa é denunciada e glosada em termos que não nos permitem duvidar sobre as causas em que se filia: o abuso da concepção mecânica da vida, o abuso do relativismo, o apetite sôfrego e absorvente, como se fossem as únicas das compensações materiais. Ao contrário, a Península, em pleno morgadio das riquezas ultramarinas, em pleno fastígio do seu poderio terrestre e naval, dispondo, consequentemente, dos fatores concretos de hegemonia porque ainda agora se batem as potências havidas como "grandes", some-se num crepúsculo rápido, voltando as costas ao prato de lentilhas, para permanecer fiel ao seu – expressemo-nos assim! – imperialismo espiritual. De quem a decadência, portanto? Oh, não olvidemos, minhas senhoras e meus senhores, que na crise máxima de Quinhentos a Seiscentos o que vence a Península vence simultaneamente, da religião à política, da inteligência ao sentimento, a Cristandade e o Europeísmo.
No seu Portrait d’Espagne com rara agudeza pondera Maurice Legendre: «En somme, dans la division du travail intellectuel et spirituel entre les peuples l'Espagne (leiamos sempre "Península") est restée plus spécialisée que la plupart des autres grands peuples; mais par bonheur pour elle, elle s’est spécialisée dans ce qui a de plus d’universalité. Sans doute – prossegue Legendre – elle n'a pas assez profité des découvertes d’ordre secondaire, cependant utiles, que d’autres ont faites dans le domaine scientifique : c'est que l'époque du développement des sciences, dans les temps modernes, a malheureusement coïncidé avec l'époque de la décadence politique de l'Espagne et de son isolement. Malheureusement aussi, l'isolement n'a pas seulement privé l'Espagne de ce que les autres nations avaient à lui donner ; il a privé les autres nations de ce que l’Espagne avait à leur donner ; mais il est évident que l'inconvénient était grand surtout pour la nation qui était seule de son côté ; elle en a les inconvénients de l'isolement sans avoir les avantages. Une nation moins forte, moins noble, moins riche de capital spirituel n’aurait pas résisté à ce régime. L'Espagne a superbement résisté. Elle avait choisi la meilleure partie » ; elle avait peut-être trop négligé le rôle de Marthe, qui est très beau lui aussi et qui s'impose en dehors des occasions où l'on reçoit le Seigneur, mais du moins elle a si bien aimée sa part, qu'elle tient en réserve, pour les nations sœurs, les plus affairées, de merveilleux trésors reçus du Sauveur ». E o autor do Portrait d’Espagne remata: «Quelle étrange destinée que la sienne!»
[Em suma, na divisão do trabalho intelectual e espiritual entre os povos, a Espanha (leia-se sempre "Península") manteve-se mais especializada do que a maioria dos outros grandes povos; mas, felizmente para ela, especializou-se no que é mais universal. Sem dúvida — prossegue Legendre —, ela não se aproveitou o suficiente das descobertas secundárias, porém úteis, que outros fizeram no campo científico: isto porque a era do desenvolvimento da ciência, nos tempos modernos, infelizmente coincidiu com a era da decadência política da Espanha e do seu isolamento. Infelizmente, também, o isolamento não privou apenas a Espanha daquilo que as outras nações tinham para lhe dar; privou as outras nações do que a Espanha tinha para lhes dar; mas é óbvio que a desvantagem foi grande, sobretudo para a nação que estava sozinha ao seu lado; tem as desvantagens do isolamento sem ter as vantagens. Uma nação menos forte, menos nobre, menos rica em capital espiritual não teria resistido a este regime. A Espanha resistiu soberbamente. Ela escolhera a melhor parte. ela talvez tenha negligenciado demais o papel de Marta, que também é muito bonito e se impõe fora das ocasiões em que se recebe o Senhor, mas ao menos amou tanto o seu papel, que guarda para as nações irmãs os tesouros mais movimentados e maravilhosos recebidos do Salvador." E o autor do Portrait d’Espagne rematou: "Que estranho destino o seu!"]
Expurgando dos comentários de Maurice Legendre, pelas considerações anteriormente apontadas, o critério de "decadência", em que nos reputa – critério que deve ser substituído pelo de "asfixia", ou de "sequestro" –, eu não conheço nada que mais fielmente retrate a superioridade frisante, pelo seu aferro aos bens do Espírito, da Hispânia-Madre, no desmantelo geral em que nós vemos desfazerem-se sistemas e ficções, mentiras douradas e aparatosas burlas, de que o individualismo enganadoramente se alimentou.
E bem o comprova, minhas senhoras e meus senhores, a festa que aqui nos reúne – a data que hoje comemoramos! Por mais que a lenda-negra se empenhasse em nos enegrecer a obra, obra de hispanos, eminentemente humana, quem há, tirante nós, que possa justamente orgulhar-se de haver criado nacionalidades?
Permita-se-me, minhas senhoras e meus senhores, que eu volte a reproduzir uma outra passagem de Maurice Legendre, passagem que se refere, precisamente, ao acontecimento que hoje jubilosamente se recorda: «Quand ils célèbrent la Fiesta de la Raza, le 12 Octobre, anniversaire du jour où Colomb parvint au Nouveau-Monde, les Espagnols, sans se forger des nations aventureusement scientifiques, rappellent avec un légitime orgueil que la population de la péninsule (il ne faut pas séparer de l'Espagne le Portugal, dont le rôle est ici particulièrement glorieux) a créé vingt nations dans le Nouveau-Monde: il a fallu que le caractère de la population de l'Ibérie fût singulièrement trempé, pour qu'il se transmuât ainsi, pour qu'il fût tradition vivante, pour que l'Espagne et le Portugal, répétant dans l'âge moderne le plus grand prodige de l’histoire de l’antique Rome, pussent créer un monde nouveau qui fût à la fois de leur esprit et de leur sang.»
[Quando celebram a Fiesta de la Raza em 12 de outubro, aniversário da chegada de Colombo ao Novo Mundo, os espanhóis, sem forjarem para si nações aventureiramente científicas, recordam com legítimo orgulho que a população peninsular (não devemos separar Portugal de Espanha, cujo papel aqui é particularmente glorioso) criou vinte nações no Novo Mundo: era necessário que o carácter da população da Ibéria fosse singularmente temperado, para que se transmutasse dessa forma, para que fosse uma tradição viva, pois Espanha e Portugal, repetindo na época moderna o maior prodígio da história da Roma antiga, pudessem criar um mundo novo que fosse ao mesmo tempo do seu espírito e do seu sangue.]
Assim fala desassombrada e desapaixonadamente um estrangeiro. Se nós realmente não passássemos de povos esgotados, e de povos esgotados pela ação persistente da Igreja e da Realeza, como pretendem tantas e tantas teorias da decadência peninsular, como é que, por virtude desses mesmos dois princípios, poderíamos gerar vinte viçosas nações que do outro lado do mar entoam num coro heroico a glória de serem filhas da Península?
Numa interessante conferência, realizada em 1921, na Real Academia de Jurisprudencia y Legislación, de Madrid, o alto funcionário colonial dr. J. H. Abendanón, não hesitou em declarar que «es un hecho histórico de los más notables que donde los españoles y los portugueses han pasado, su religión, su espíritu, su lengua y su canto quedan para siempre». Ocupava-se o dr. Abendanón, das Índias-Neerlandesas. E ocupava-se afirmando com louvável isenção os inúmeros vestígios que em todas elas os portugueses tinham deixado. «Se encuentran en todas las partes nombres portugueses – disse o conferente –, y en las lenguas del Archipiélago, que son más de 300, hay muchas palabras portuguesas». Continua o dr. Abendanón: «Hay islas en donde las mujeres de los jefes todavía se titulan Nora, y en algunas partes se puede oír la música antigua portuguesa, tocada en guitarra, con canciones en portugués corrompido. Cercano a Batavia, la capital – prossegue–, existe una aldea donde la gente habla un portugués mezclado con malayo, siendo los habitantes de esa aldea cristianos en medio del mahometismo. Cantan en la iglesia himnos portugueses y celebran la noche de Navidad como los portugueses solían hacerlo.»
Se me demorei, salientando semelhante facto, é porque ele se veste das linhas sumárias de um símbolo. A fidelidade das populações de Java e de Sumatra à penetração portuguesa – de resto, tão fugidia, tão transitória ali – é o reconhecimento expresso de que os nossos descobridores e os nossos conquistadores não levaram consigo apenas o ferro e o fogo, a destruição e a morte.
Pouco mais de dois meses decorreram, minhas senhoras e meus senhores, desde que nas Filipinas, numa solenidade em honra do vosso país, o general Aguinaldo chamava a Espanha «querida Madre de Filipinas». Quem é o general Aguinaldo? Vós o sabeis melhor do que eu. É o cabecilha das lutas anteriores a 98 – o caudilho da independência. Pois esse guerrilheiro que se bateu com os melhores dos vossos soldados inclina-se diante do prestígio da mãe comum, proclamando que «Espanha, por meio da fé cristã, elevou as colónias ao seu próprio nível, comunicando-lhes os mesmos cânones espirituais e morais que professam». Em tão sucintas palavras está contida a reabilitação do nosso passado colonizador. Fomos apóstolos, a fé nos conduziu.
Claro que os homens da nossa gesta ultramarina, como homens, não se eximiram às condições por vezes inferiores da sua natureza. Mas acreditavam numa verdade absoluta – e tão profundamente que Pizarro, agonizante, traça com o seu sangue uma cruz no chão, e beijando-a, morre, de espada em punho.
Enganaram-se os que nos imaginavam arrastados unicamente pela febre esbraseada do ouro! Com os aventureiros marchavam os missionários. E os missionários, trazendo os indígenas ao grémio de Deus-vivo, abriam os alicerces das pátrias que nós escutamos saudando na sua mocidade fervente a Península que as tirou do primitivismo regressivo da selva.
Temos que insistir nas ideias, já assinaladas, de "pessoa", e de "indivíduo" para bem compreendermos a privilegiada aptidão dos hispanos para fundadores de nacionalidades. É muito remota e muito confusa a expedição de Trajano à Dácia para que se apure a influência que o elemento hispânico exerceu na génese da moderna Roménia. No entanto, no sentimento típico do povo romeno – na dor –, alguns, mais entendidos na psicologia peninsular, querem achar estreitos parentescos com a saudade dos portugueses.
Pondo, porém, de parte as origens da Roménia e a possível contribuição que lhe dispensaram os hispanos, é fora de dúvida que, segundo juízos como o do dr. Abendanón, por onde espanhóis e portugueses passaram, os vestígios da sua passagem não se apagaram mais. Por quê? Por essa noção da personalidade que instintivamente nós possuímos e que obriga especialistas, como Charles Salomon na sua tese De l’occupation des territoires sans maître, referindo-se às teorias do dominicano Vitória, a considerá-las de «doctrine généreuse dont les États du XIX siècle pourraient faire, sur bien de points, leur profit, bien qu’elle soit la conception d'un théologien espagnol du XVI siècle».
As teorias de Vitória partiam do conceito de "pessoa", que no campo do direito penal determinava os teólogos peninsulares a sustentarem, numa época em que ainda o famigerado Grócio admitiria a vingança privada, que só à autoridade pública pertence o direito de castigar, estabelecendo ao mesmo tempo que o afirmavam o âmbito e as normas em que a "pena" carecia de se enquadrar. Evidentemente que não se tratava de simples e isolados atos intelectuais. As Leyes de Índias são um verdadeiro monumento jurídico, onde se apalpam já as possibilidades desse mundo novo, cuja gestação difícil, embora inconscientemente, se destinavam a proteger, moldadas nos altos ditames da Igreja sobre o apostolado aos gentios. Ninguém contesta a parte dominante do cristianismo em obra tão gigantesca. Mas se o cristianismo não correspondesse ao que havia de medular nos povos hispânicos, dificilmente os constrangeria a mudarem de temperamento. E é bom não encarar o problema da nossa colonização sem o relacionarmos imediatamente com a tendência de espírito que nos punha em filosofia ao lado da Escolástica, ou seja da filosofia do Ser, e em teologia ao lado do "livre-arbítrio", ou seja da responsabilidade na liberdade. Sempre o conceito de "pessoa" a iluminar, ainda nos seus meandros mais enredados, a "alma dos hispanos" – a história da Hispânia-Madre!
Carlyle qualificava o homem como um «fabricador de instrumentos». É a apologia da Técnica – é o sentido mecânico e naturalista da Vida, encaminhando-se todo à penetração e ao desfruto do material. Propõe Chesterton uma emenda a Carlyle e ela consiste em nos apresentar o homem como um «fabricador de dogmas». Ambos têm razão – Carlyle e Chesterton! Carlyle, dentro do seu jardim filosófico – jardim selvagem, do mais desgraçado e borbulhante individualismo, porque via o homem como "indivíduo", princípio e fim de si mesmo, buscando-se o máximo de felicidade imediata, animal. Chesterton, elevado já sobre a confusão babilónica dos mitos intelectuais hoje em franco crepúsculo, porque contempla no homem, sobretudo, o valor afirmativo de uma inteligência que cria, associando-se sem cessar à criação incessante de Deus. Pois o hispano é estruturalmente um «fabricador de dogmas»; e porque o é, com dificuldade se acomodaria a uma época em que a sublime função humana de concluir para criar foi despoticamente substituída pela reduzida operação de trabalhar para consumir. Enfim, Marta contra Maria, como quer a expressiva imagem de Maurice Legendre; a técnica contra a civilização, a Máquina contra o Espírito! Eis porque, no inevitável insucesso da Máquina, incapaz de resolver os problemas mais angustiosos da nossa existência; eis porque no fracasso já evidente de tantas locomotivas silvando, de tantos transatlânticos encarvoando os oceanos com a fumarada densa dos seus resfôlegos; eis porque na ilusão trágica de tantos aeroplanos repetindo na sua embriaguez do Espaço a loucura de Ícaro, diariamente renovada; eis, em resumo, porque a nossa concepção do mundo – a ideia que da vida nós, os hispanos, fazemos – regressa vitoriosamente do exílio a que a condenaram as burlas fantasmagóricas do Progresso-Indefinido, para acudir, numa sociedade que irremediavelmente se vai, ao que nela porventura subsista de belo, de sólido e de fecundo!
Porque em verdade vos digo, minhas senhoras e meus senhores, suceda o que suceder, aconteça o que acontecer, não será nem pelo Aço, nem pelo Ferro, que a civilização ocidental se salvará! Há-de salvar-se por um princípio absoluto que condene e harmonize, submetendo-o, todo o imenso recheio material que a enriquece e que a estonteia. Esse princípio é o princípio cristão. Mas se cada um de nós o pode possuir e realizar em relação a si próprio, só coletivamente, em relação à sociedade, como orgânica do governo, como tipo do Estado, os hispanos o souberam realizar e difundir. Não são outros os motivos porque só portugueses e espanhóis criaram nacionalidades, não são outros os motivos porque só nós, povos peninsulares, celebramos com justiça e sem inúteis frases retóricas a "Festa da Raça".
Entende-se assim, minhas senhoras e meus senhores, porque, acima das diferenças naturais e eternas que separam entre si Portugal e Espanha, paira a responsabilidade comum da civilização que criámos! Responsabilidade enorme, gloriosa e inigualável herança do passado, ela precisa de se tornar regra de acção imediata, para que retomemos sobre a face da terra o nosso denegrido lugar de semeadores de nacionalidades.
Não fiquemos a chorar sobre as ruínas de Jerusalém! Nem nos contentemos em arrolar quanto de forte, de grande, de imorredoiro praticámos, para o irmos depor sonambulescamente depois na atmosfera enregelante das vitrinas dos museus. Não! Urge que o conceito de "hispanismo" se levante do cemitério em que o enterrámos vivo, para que o sobreponhamos ao mentiroso e refalsado conceito de "latinismo", com que outros nos procuram roubar o que é exclusivamente filho do nosso génio, do génio dos povos hispânicos. Mas se é necessário, se é imperioso que o conceito perdido de "hispanismo" ressuscite para a dignidade de um supremo ideal aglutinador, necessário é também declarar-se com toda a energia que, sendo obra eminentemente espiritual, a obra de aproximação entre Portugal e Espanha, não depende, antes as repele, suspeitas combinações financeiras, tratados de comércio não menos suspeitos ou duvidosos! Não será pelo "material" que nós nos aproximaremos. O "material" – eterno pomo de discórdia, sempre e em todos os tempos – só nos dividiria e afastaria ainda mais. Não julguemos igualmente que a aproximação das duas pátrias peninsulares dependa de qualquer chiffon de papier, a que pomposamente chamemos aliança. Nós construímos para o futuro, não para nossa pronta e quotidiana utilidade!
Primeiro que tudo, impõe-se-nos a criação de um estado de espírito extensivo a ambos os países – estado de espírito em que se pese devidamente o que é próprio e essencial a cada um deles, completando-o em seguida com o que aos dois seja comum. Isto é, a consciência clara, bem determinada, de quanto nos afasta e de quanto nos liga. Portanto, o respeito sagrado das duas soberanias políticas, em que a Península se reparte; portanto, o regresso, como fórmula, ao dualismo do momento alto de Quinhentos, dualismo de que Camões recolheu o eco sonoro nos acentos inspirados das suas oitavas. É, de certo modo, a volta ao que, sem excesso de espécie alguma, designaremos por «política de Camões». Porque em Camões há uma "política". Porque há uma "política‟ nos Lusíadas, os Lusíadas são, et nunc et semper, a pedra mais firme de Portugal como nação, a mais firme coluna da lareira nacional dos portugueses. Mas Camões, marcando com cipos inderrubáveis as fronteiras morais da nacionalidade portuguesa, colocado como estava na agitação simultaneamente renovadora e destruidora da sua época, sabia
que a todo o nacionalismo corresponde um universalismo – ou, pelo menos, um prolongamento universal, uma janela aberta para o mundo restante. A Hispânia-Madre é a concepção em que o pensamento de Camões encontra a sua repercussão universalista do génio da pátria. A cruzada das Descobertas, se Portugal a adianta com arremessos épicos, Castela a acompanha paralelamente, nessa irmandade antiga que, por cima de brigas fratricidas, de sangrentas querelas de limites, acamaradara nas Navas de Tolosa e no Salado – como séculos volvidos se acamaradariam no mesmo impulso contra as águias napoleónicas as duas admiráveis nações peninsulares. Camões expressamente o pusera na boca daquela ninfa que anuncia ao Gama com "doce voz" os vaticínios do futuro:
Vedes a grande terra que confina
Vai de Calisto ao seu contrário Polo,
Que, soberba a fará a luzente mina
Do metal, que a cor tem do louro Apolo:
Castela, vossa amiga, será dina
De lançar lhe o colar ao rudo colo...
Era a América a terra que, indo de um polo ao outro – Castela, «vossa amiga», cantava a ninfa ao Gama – seria digna de a sujeitar. Na sua simplicidade eloquente nada melhor nos revela a identidade de propósitos que, em capítulo tão conflituoso como o da conquista ultramarina, unia Portugal e Castela. Pairava a visão da unidade espiritual da Península, unidade que achou em Camões um inolvidável definidor, como acharia em Herrera, na sua formidável elegia Voz de dolor y canto de gemido, o nosso desastre de Alcácer-Quibir. Embebendo-se da ampla aspiração hispanista de Camões, é fácil agora perceber-se por que sensatas razões Oliveira Martins chamou aos Lusíadas "testamento de Espanha".
Inegavelmente, minhas senhoras e meus senhores, nos Lusíadas se guarda quanto de super-humano e de avoejante nutriu a alma, não exausta ainda, da Península. Se há um roteiro a buscar-se para aquilo que eu nomearei de "patriotismo hispânico", nos Lusíadas ele se oferece à nossa meditação. Nos Lusíadas – reparai bem! –, que é uma das pedras mais rijas, um dos mais rijos suportes do patriotismo português. Sinal manifesto, minhas senhoras e meus senhores, de que, no caso presente, a unidade da civilização peninsular, o patriotismo nacional, seja ele português, seja ele castelhano, não exclui, antes o robustece e confirma, aquele outro sentimento circundante, o patriotismo hispânico, em que hoje tanto se abrange Portugal e Espanha, como o Brasil e a Argentina.
Mas dizia eu que Oliveira Martins chamou aos Lusíadas "testamento de Espanha". Chamou-lho, não num lacrimoso sentido funerário, rezando o responso do nosso irreparável desfalecimento. Embora dominado pelas teorias de Buckle, desse irrisório e antiquado Buckle!, acerca da decadência dos povos peninsulares, Oliveira Martins, ao terminar dois dos seus livros notáveis – a Vida de Nun’Álvares e a História da civilização ibérica – conseguiu afrontar as nuvens densas do seu pessimismo sistemático e confiar nas idades vindouras do mundo, salvo da desagregação e da anarquia por obra e graça do génio hispânico. Vale a pena escutá-lo, minhas senhoras e meus senhores! «Nos tempos modernos, ninguém soube a Vida melhor do que nós, os povos da Espanha: isto é, ninguém afirmou tão superiormente a energia da vontade humana. Ninguém tão-pouco melhor soube morrer, do que o povo que incarnou em si, paradoxalmente, a teoria da Morte no seio do Eterno: esse pensamento agudo como a lâmina de uma espada que, dobrando-se e traspassando o Mundo, na sua redondeza, veio a cravar-se-nos no coração para no-lo dessangrar. A Espanha foi vítima de um erro de definição; e se um dia os homens atinarem com a verdadeira teoria da Vida, ninguém, tão-pouco, saberá morrer por ela como o povo de entre todos gerado para o heroísmo.»
Assim conclui Oliveira Martins a sua Vida de Nun’Álvares. Ouçamo-lo agora na última página da História da civilização ibérica: «A história não é profecia; mas o estudo das idades passadas deixa entrever muitas vezes as possibilidades futuras; e, quando através de todas as crises, no meio dos ambientes mais sistematicamente adversos, observamos que o heroísmo peninsular soube vencer tudo com a sua indomável energia, somos levados a crer que o papel de apóstolos das futuras ideias está reservado aos que foram os apóstolos da antiga ideia católica.»
Submetido em demasia aos preconceitos racionalistas do seu tempo, julgava Oliveira Martins o Catolicismo uma ideia do passado, uma admirável ideia morta. Reconhecia, é certo – na posição intelectual em que, por exemplo, o reconhece hoje um Guglielmo Ferrero – que no catolicismo residira o princípio absoluto, em que se firmara na Europa a ordem geral das nações e dos espíritos. Mas, abandonando-se assim às superstições criticistas da sua época (Oliveira Martins, no entanto, morreria depois no seio da Igreja, e morreria tocante e piedosamente), não se entregava de todo ao Juízo corrente, até nos autores que mais de perto o influenciaram, sobre a Hispânia e as duas nações que a representavam. Admitia, sem dúvida, a falsa teoria da nossa decadência. Admitia-a, porém, no seu aspecto epidérmico, expressemo-nos desta forma, na inatualidade assacada à Península perante o desenvolvimento técnico da Europa contemporânea. Exceptuada semelhante face da questão, Oliveira Martins acreditava, e acreditava com um calor difícil de descobrir no seu temperamento cansado e céptico, nas virtudes fundamentais do nosso génio e na sua inesgotável capacidade construtiva.
Passaram, venturosamente, os relativismos filosóficos que a Oliveira Martins impediam de ver no Catolicismo e na sua identificação com o que existe de vivaz e de estrutural no génio hispânico um permanente valor de renovação moral e social. No conflito trágico em que a Europa se debate, não são os homens que se digladiam, são antes duas concepções da Vida que estão em frente uma da outra, esforçando-se ambas por vencer. Para que em toda a sua amplitude o imenso duelo se nos revele nos seus miúdos detalhes carecemos de remontar às géneses ideais, às Madres, como se exprimiria um Goethe. «L'homme – anota algures o insigne Jacques Maritain – est un animal qui se repaît de transcendantaux». Porque o homem é um animal que se nutre de transcendentais, é que nós carecemos de nos acolher a uma noção teológica da história. Agudamente repara George Valois que a tremenda agitação do mundo contemporâneo vem da luta entre duas teologias: a teologia do Ser e a teologia do Devir. A teologia do Ser é a metafísica de Aristóteles, é a filosofia de Santo Tomás. Por seu turno, a teologia do Devir é a filosofia do Progresso-Indefinido, é a bastardia mental de que se alimenta, desde Lutero, a crescente decomposição das sociedades ocidentais, tendo por dogma basilar a Instabilidade e por agente a Revolução.
Não se apaziguará o trágico conflito sem que a vitória da teologia do Ser restitua à Europa a sua clara razão perdida. Escusado seria insistir nos motivos que tão explicitamente consorciam a teologia do Ser com o génio peninsular ou hispânico. A como que profecia de Oliveira Martins, confiando aos povos da Península o excelso papel de salvadores da ordem, no seu supremo e espiritual significado, aproxima-se da realidade, entrou já no caminho directo da sua verificação. Pelo menos, começa a distinguir-se no campo da inteligência aquela primavera prometedora, em cujas auras regressam do seu exílio de séculos as verdades salutares que formaram a Europa e que a Hispânia-Madre guardou, como num sacrário, no castelo-interior do seu coração.
Radicalmente, contra a teologia do Devir, que arruinou a Europa empurrando-a para o suicídio, levanta-se a teologia do Ser – e a teologia do Ser, minhas senhoras e meus senhores, é flor maravilhosa que na alma dos hispanos achou sempre terreno certo em que desabrochar! A ordem que ela reanimará é, pois, a Ordem-Nova, a ordem que surge das mentiras convencionais de uma filosofia ignara que só espalhou à sua volta um sopro maléfico de destruição, como que o respiro das margens salgadas do Asfaltite.
À ordem-nova trazem os hispanos a sua ideia da vida – a sua concepção de "homem", não como "indivíduo", mas como "pessoa". A ordem-nova trazem os hispanos, consequentemente, o seu aferro ao elemento absoluto da existência e, portanto, à teologia do Ser, à supremacia criadora do Espírito. E com esses prodigiosos tesouros trazem ainda matéria-prima com que os aproveitar – chão feracíssimo em que os fazer produzir. Semeadores de nacionalidades – como me é grato sempre repetir –, a data de hoje, a data da "Festa da Raça", certifica-nos de quanto, no individualismo corrosivo em que se pulverizaram reinos e impérios, nós dispomos de um agrupamento humano, a Península e a América-Hispânica, em que apoiar, para o seu inevitável ressurgimento, a combalida civilização ocidental. Já agora outro não é o nosso destino de povos difamados e caluniados: sermos eternamente missionários, sermos magnífica e desprendidamente apóstolos! Mesmo quando mais sepultos nos imaginavam no que se combinou julgar como nossa «decadência», mas que não era, afinal, senão o nosso sequestro – mesmo no período mais negro, minhas senhoras e meus senhores, do nosso desterro, em pleno carnaval ideológico do século findo, mesmo então nós prosseguíamos fiéis à nossa herança de nações surgidas para gerarem outras nações.
Numa página, presente, sem dúvida, na lembrança de todos nós, minhas senhoras e meus senhores, há mais de trinta anos Eça de Queiroz saudava a Espanha como sendo na Europa «a única nação heroica». E, a propósito de Marrocos e da guerra do Rif, já latejante como um cancro em germe, o insigne romancista comentava admirativamente: «E assim, em pleno século XIX, temos de novo, como no Romancero, a cruz contra o crescente, e a Espanha na sua antiga e laboriosa ocupação de matar los moros.»
Apesar do inevitável ressaibo irónico de tudo o que escrevia, Eça de Queiroz, considerando a Espanha a única nação heroica da Europa, considerava igualmente a sua antiga e laboriosa ocupação de matar los moros não só como ato de heroísmo, mas, principalmente, como um ato civilizador. Não tomando ao pé da letra a frase matar los moros, efetivamente a guerra de Marrocos é, na horizontalidade sem grandeza dos dias em que vivemos, seduzidos os Estados apenas pela política cúpida do Aço, do Ferro e do Petróleo, a única, senão a última também, "guerra de civilização".
Não o impugnemos por um instante sequer, minhas senhoras e meus senhores: os soldados espanhóis que a esta hora combatem e morrem em Marrocos são os dignos e legítimos continuadores dos guerreiros e mareantes, cuja memória, congregados em torno da data de 12 de Outubro, nós aqui celebramos e veneramos!
Sim, é pela civilização que em Marrocos combatem e morrem os soldados espanhóis, pela civilização, cujo conteúdo espiritual dorme nas estrofes dos Lusíadas e palpita, por toda a Península, desde San Juan de los Reyes às arcarias dos Jerónimos. Não é um ideal truculento e arcaico, esse da guerra de Marrocos. O mouro, a aceitarem-se as hipóteses étnicas mais recentes, hipóteses que sem custo perfilho, é nas origens nosso parente chegado. Distancia-o de nós o particularismo estagnante que o impossibilita de se erguer coletivamente à consciência superior de uma nação – distancia-o de nós a ausência total das perspectivas sociais e morais que o cristianismo nos rasgou e oferece. Batizar e trazer para o caminho difícil da maioridade a pátria latente que se encontra no Rif, eis a missão da Espanha em Marrocos. Talvez assim se corrija o erro gravíssimo de Filipe II, ao dificultar os desígnios de D. João de Áustria, quando este pensava em fundar um reino cristão na Tunísia.
Talvez! O que vos asseguro, minhas senhoras e meus senhores, é que em Marrocos os soldados espanhóis se batem pelo seu país e pela civilização de que fomos os condutores através de uma longa procissão de séculos. Batem-se pelo seu país, porque é uma lei da história, verificada repetidamente e em tanta conjuntura desgraçada, que a Península dominará os povos que habitam a cabeceira de África, ou será dominada por eles. A guerra de Marrocos, com o imperialismo francês já instalado no norte de África, torna-se assim para a Península numa guerra de fronteiras, numa como que guerra de independência.
Outras nações, enraizadas ali, que não as nações peninsulares – e a Península, ameaçada na sua autonomia, ver-se-á transformada de pronto numa simples terra de passagem». Um monarca português, bem caluniado, mas que teve como poucos a compreensão da alma profunda de Portugal – el-rei D. Sebastião, cruzado póstumo que nesse Marrocos misterioso achou um fim misteriosíssimo, pelejando com o denodo dos extintos gestos da Reconquista – já encarava no seu tempo o problema de Marrocos em termos que não variavam muito de então para cá. Em carta sua, de 24 de Abril de 1576, dirigida ao monteiro-mor Manuel de Melo, escrevia D. Sebastião: «E por estas novas serem da calidade e importan que vedes me pareceu fazer-vos-las logo saber... considerando o que se deve cuidar e poderia esperar de imigos tão vizinhos e poderosos, e de tanta experiência na guerra, como são Turcos, cujo principal intento é haverem os portos de mar daquele Reino, e os mais da África para em cada um deles terem muitas galés, de que, se assim sucedesse (o que Deus não permita), resultariam grandes males, quase sem remédio a toda a Hespanha.»
Não se dirá que a D. Sebastião faltava um alto pensamento político, ao organizar a sua malfadada expedição a Marrocos. Fundamentalmente, é o pensamento político que nos deve animar, se considerarmos de ânimo levantado a ação da Espanha no norte de África. Não é só uma ação exclusivamente espanhola, é conjuntamente uma ação peninsular e uma ação europeia!
Por isso eu acuso – e acuso, não só como peninsular, mas também como português – aqueles jornalistas do meu país que, atacando insolitamente o governo do general Primo de Rivera pela sua tenacidade em prosseguir na guerra de Marrocos – patriótica e heróica conduta essa! – parecem ser em Portugal os partidários de Abd-el-Krin.
E no entanto, minhas senhoras e meus senhores, ninguém me suponha ardendo em bélicos arremedos contra os mouros! Já aqui reconheci o parentesco bastante apertado que etnicamente nos prende a eles. Mas reconheço também que se a Espanha não retomasse a política histórica de Isabel-a-Católica e de Cisneros, a Espanha desertava à sua grande responsabilidade de criadora de nacionalidades.
Uma nação, uma pátria, incorporada na comunidade cristã e europeia, despontará mais tarde, ou mais cedo, presumivelmente no norte de África. E se nós pudéssemos transpor as barreiras de anos que dessa futura realidade nos separam, presenciaríamos decerto os seus contemporâneos louvando a Espanha e agradecendo-lhe a obra imorredoura que ela cimentou com o sangue dos seus filhos.
Creiam, minhas senhoras e meus senhores, que não estou floreteando um rebuscado paradoxo retórico! Como o sinto, corajosamente o confesso. Na verdade, a mais irrecusável prova de que a Espanha se não acha decadente é que nas suas entranhas se não secaram os seus velhos predicados de suscitadora de nações. Marrocos demonstra-no-lo bem, como dedicando ao meu país uma alusão merecedora no-lo demonstra igualmente o que durante um século nós criámos em Angola e Moçambique, na maioria das vezes em luta aberta contra o centralismo ignorante e cabeçudo do Estado. Mouzinho de Albuquerque concretiza para nós toda a fereza inquebrantável da nossa epopeia africana. No fundo, tanto nos exploradores do sertão português, como nos vossos atiradores do Rif, quem ressuscita, quem grita de novo no esplendor nunca esgotado de suas forças magníficas é o Descobridor – é o Conquistador que presenteou a Europa com a chave de todos os caminhos oceânicos e engrandeceu a civilização ocidental com o acréscimo inestimável da América.
E assevera-se agora que a nossa história se acha suspensa, que atravessámos, nós, os hispanos, as cenas do mundo com a rapidez cintilante, mas momentânea, de um meteoro! Obedecendo às quimeras, às burlas e às ficções do individualismo, quebrantámo-nos, sem dúvida, nos melhores impulsos da nossa vitalidade. Mas ela ficou sempre fiel a si mesma – contínua e homogénea, assiste de hora para hora ao seu triunfo, à sua já inadiável reabilitação.
Vimos como o general Aguinaldo, com cicatrizes mal fechadas, acaba de conceder à Espanha o nome de "madre querida de Filipinas". Por seu turno a Bélgica, com os seus historiadores mais ilustres por intérpretes, declara que à influência espanhola agradece uma das diferenciais mais fortes do seu nacionalismo, com exemplo bem evidente na combustão lírica da poesia de Verhaeren. Além do mar, a maneira que se radica em oposição consciente contra o norte-americanismo invasor, o sentir geral das repúblicas hispano-americanas é o seu fundo hispânico que reverdece, como base primacial da sua personalidade e da sua autonomia.
Eis porque, minhas senhoras e meus senhores, se não estancou a fonte oculta do nosso génio, eis porque esta festa, sendo a Festa da Raça, é implicitamente a festa da nossa civilização.
Não se esmoreceu na nossa memória aquela varonil página de Ganivet sobre o Conquistador, sobre o homem da Estremadura (e, eu acrescentarei de Portugal), que José María Heredia celebrou nas suas rimas marmóreas e estilizadas:
Comme un val de gerpants hors du charnier natal,
Fatigués de porter leurs misères hautaines,
De Palos de Moguer, routiers et capitaines
Partaient, ivres d’un rêve héroïque et brutal.
......................................................................
Chaque soir, espérant des lendemains épiques,
L’azur phosphorescent de la mer des Tropiques
Enchantaient leur sommeil d’un mirage doré,
Où penchés à l’avant des blanches caravelles
Ils regardaient monter en un ciel ignoré
Du fond de l’Océan des étoiles nouvelles.
Pois o Conquistador, de quem Heredia descendia e que, debruçado da sua airosa caravela, via num céu desconhecido despontarem novas estrelas (não nos recorda o verso de Heredia o passo de Pedro Nunes, «... e, o que mais é: novas estrelas»?), pois o Conquistador, ou estremenho ou lusitano, nos seus ímpetos cavalheirescos e nas suas violências primitivas, que tanto chocam o filantropismo dos nossos dias, o filantropismo coevo dos submarinos e dos gases asfixiantes, Ángel Ganivet no seu Idearium español magistralmente no-lo desmonta peça por peça, ao estabelecer a sua penetrante distinção entre "espírito militar", e "espírito guerreiro". Não possui a Península "espírito militar", que é filho da organização, que é um produto reflexo, que é uma invenção colectiva, enquanto que o "espírito guerreiro", é espontâneo, nativo, pessoal.
Nós, os peninsulares, somos ricos de "espírito guerreiro", e quase vazios de "espírito militar". Ora o Conquistador individualiza soberanamente o espírito guerreiro, e é, sobre as águas do mar ou arribando à orla sussurrante da selva, o herdeiro, o continuador de Viriato e do Cid. Anota Ganivet que a Europa não compreendeu nunca o Conquistador, assemelhando-o invariavelmente a um
bandido, a um chefe assolador e exterminador. Em compensação faz o elogio da política comercial e colonial das modernas potências colonizadoras. Política de sucção, política essencialmente utilitária e – por que não proclamá-lo? – subractiva. Com ela não se engendram nacionalidades. Ao inverso, com a política instintiva do Conquistador – porque ao impor os seus dogmas e as suas paixões, impõe a sua personalidade –, geram-se pátrias, criam-se nações. Por isso Ganivet pondera justamente que «no son conquistadores quienes sirven un breve periodo de tiempo en una colonia por obtener riquezas u honores, sino quienes conquistan por necesidad, espontáneamente, por impulso natural hacia la independencia, sin otro propósito que demonstrar la grandeza oculta dentro de la pequeñez aparente». E Ganivet tão conquistador reputa Pizarro ou Cortés, como Santo Inácio de Loiola. Antecipado nesse juízo a Ganivet, também Oliveira Martins, compara São Francisco Xavier aos nossos heróis da Índia, cognominando-o de "Albuquerque da Cruz". O Conquistador personifica assim inteiramente aquela forte tendência de todo o ser para se expandir e reproduzir, que a teologia designa por "espírito de principado" e que, sendo a origem do imperialismo, ou moral ou político, ou mesmo ecuménico, o nosso contemporâneo Ernest Seillière tão subtil e proveitosamente analisou.
Tal é, minhas senhoras e meus senhores, o sentir da história peninsular – a explicação de todo o formidável esforço de Portugal e Espanha nas suas empresas ultramarinas. Julgo que das minhas desbotadas palavras terá saído bem nítida a certeza que deponho nas virtudes sempre moças do génio hispânico. O que importa é que, para lá de quanto justamente e injustamente nos divide, a espanhóis e portugueses, se robusteça o que indissoluvelmente nos une: a responsabilidade comum da civilização que o nosso sangue e a nossa fé heroicamente fizeram germinar.
Abraçada com a mais pura essência do Cristianismo, a civilização gerada por Portugal e Espanha é a única muralha sólida com que se pode abaluartar a sorte ameaçadíssima do Ocidente. Por nossa mão se arrancaram à selva e foram batizadas em Cristo as nacionalidades que hoje, do outro lado do Oceano, aclamam o nome da Península que lhes deu o ser. Este é o significado inapagável da Festa da Raça. Da "raça" não no sentido étnico, mas da "raça" no sentido espiritual de "raiz" – repito e saliento. Da mesma maneira que nós nos deformamos e nos enfraquecemos sempre que levianamente se troca o nosso irredutível "hispanismo" por um postiço e retórico "latinismo", da mesma maneira na outra margem do mar, se deformam e enfraquecem as nacionalidades hispano-americanas, entregando-se incautamente à cobiça da infiltração do Yankee, sempre que avolumam e propagam os efeitos negativos da leyenda-negra contra a Península. Pertence-lhes, tanto como a nós, a guarda da civilização, em que todos nos inserimos como ramadas de uma frondosa árvore genealógica. A guarda e a difusão. Na sua guarda e na sua difusão estão os alicerces mais inabaláveis das pátrias hispano-americanas. Intensifiquemos, portanto, os laços que a elas nos hajam de ligar. Esses laços só se intensificam pelo respeito exato do nosso fundo tradicional, pela obediência escrupulosa ao mandato imperativo da nossa história, hoje reduzida a moeda miúda nas mãos de verdadeiros ciganos do pensamento e da política. E ninguém melhor do que vós, estremenhos, para o sentir e para o empreender. É enorme a parte que vos cabe nas glórias comemoradas hoje, nos louros com que hoje se adorna a efígie sagrada da Hispânia-Madre. Dentro das vossas artérias não se extinguiu decerto o impulso magnânimo que atirou fidalgos e ganhões dos vossos descampados para a rota inesperada do descobrimento da América.
O santuário de Guadalupe encontra-se ainda de pé – serena, entre círios e flores, Nossa Senhora de Guadalupe, madrinha de descobridores e de conquistadores, alonga ainda por sobre vós a mediação do seu manto maternal. Junto do seu altar abençoaram as empresas com difícil antecipação nas da antiguidade clássica, que hoje despertam em nossos corações estremecimentos de
orgulho legítimo. Há que refazer a casa em ruínas, há que refazer a diretriz suprema da nossa civilização – da civilização hispânica.
Estremenhos, levantai-vos! O gesto centenário que lavra a herdade e que espalha a semente foi em vós o gesto que apontou às caravelas o rumo sedutor do Poente e abriu em terras enigmáticas os caboucos de tantas nações, agora livres.
Levantai-vos, estremenhos! Convosco latejam sempre as ânsias nobres dos vossos místicos, dos vossos soldados, dos vossos poetas, dos vossos homens-tipo. De São Pedro de Alcântara a Donoso Cortés, de Hernando de Soto ao inquieto Espronceda, é toda a vossa estirpe transformada em lavareda, para luzeiro inextinguível do mundo.
Horas duras se aproximam para o continente em que vivemos, para o tempo dúbio em que os nossos dias se somem. São pesadas as obrigações do vosso passado, mas a forma como a elas sabeis corresponder proclama-o altamente a festa que a todos nos convocou para aqui. Assim correspondereis também ao sacrifício que a Península vos pedir ao soar o momento de sermos definitivamente pelo Espírito contra a Matéria, pela Ordem contra o Caos, pela Civilização contra a Barbaria.
Não nos esqueçamos nunca de que nós, os hispanos, quando praticamos atos nacionais, praticamos invariavelmente atos universais. Isto desde o negrume medieval, sustentando o europeísmo nas Navas-de-Tolosa e no Salado, isto nas amuradas das naus da Descoberta, isto, ou detendo o Turco, que já avançava até Viena, ou evangelizando o Oriente, onde as espadas portuguesas rasgaram o caminho do zelo e a ardência dos missionários.
Não se enganou Oliveira Martins saudando a Península como salvadora da Europa. Precisamente o meu empenho consistiu todo em vos demonstrar que, na bancarrota evidente do industrialismo e do capitalismo – ou seja, da concepção materialista da Vida –, só os povos de tronco ou antecedentes hispânicos dispunham do capital de Espírito suficiente para reagirem eficazmente, desbaratando a animalização em que tombaram quase sem remédio a inteligência e o sentimento.
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[António Sardinha morreu sem que tivesse tempo para concluir a redacção deste discurso, pronunciado em Badajoz, em Outubro de 1924, no dia da Festa da Raça. Nem sequer pôde rever as provas que lhe haviam remetido para Elvas! Escrevendo à medida que se ia compondo, deixou sem fecho um dos seus trabalhos de mais larga visão, e porventura aquele em que mais gosto fazia. – Nota dos Editores da 1.ª edição.]
[ negritos acrescentados ]
Relacionado
- 1893 - Eduardo Prado, A ilusão americana - livro proibido pela república brasileira
- 1915 - O Território e a Raça, Conferência realizada na Liga Naval Portuguesa, em 7 de Abril de 1915.
- 1922 - O Pan-hispanismo, Contemporânea, nº 2, Junho de 1922, pp. 49-51.
- 1922 - La Unidad Hispánica, in Unión Ibero-Americana, Julio y Agosto de 1922, pp. 67-73.
- 1924 - A Aliança Peninsular.
- 1930 - A Aliança Peninsular - Antecedentes & Possibilidades, 2ª edição, Prefácio de Gabriel Maura Gamazo, conde la Mortera, Porto, Livraria Civilização.
- 1930 - La Alianza Peninsular, Prólogo de Ramiro de Maeztu, tradução de marquês de Quintanar, conde de Santibañez del Río, Madrid, 1930;
- 1939 - La Alianza Peninsular, 2ª edição em espanhol, tradução e prólogo de marquês de Quintanar, prólogo da 1ª edição espanhola de Ramiro de Maeztu, e "Unidad y Dualismo Peninsular", estudio de José Pequito Rebelo, Segovia, El Adelantado, 1939.
- 1943 - À Lareira de Castela - Estudos Peninsulares, Lisboa.
- 1972 - Aliança Peninsular, 3ª edição, Lisboa, Biblioteca do Pensamento Político, com nota prévia de Mário Saraiva (4ª edição, Lisboa, 1974).