Alfredo Pimenta, "Ao Leitor", Nas Vésperas do Estado Novo (1937), Lisboa, Nova Arrancada, 1998, pp. 9-11
Morta como regime, a República é hoje apenas um nome de uma cooperativa. Defendem-na os sócios da cooperativa. Há uma necessidade urgente em dispersar esses sócios.
- Alfredo Pimenta
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Este texto de Alfredo Pimenta, datado de Setembro de 1925, é uma interpelação direta ao leitor descrevendo a vida política portuguesa como uma paisagem “fúnebre”, usando a metáfora de que a República é um cadáver que está a contaminar a nação e que, por isso, urge “removê-la”.
Sustenta que, apesar de em 5 de Outubro a República ainda ter “homens” e “gérmenes de partidos”, com o tempo queimou e desprestigiou as suas figuras e desfez os partidos, ficando “sem homens e sem partidos”, incapaz de se sustentar. Para reforçar a tese, evoca o II volume das Memórias de Raul Brandão e cita Guerra Junqueiro (apresentado como “génio” associado à República) em tom de desencanto e arrependimento, usando isso como prova moral e simbólica da falência do regime. Pimenta conclui que a República sobrevive apenas como “nome de uma cooperativa” defendida por interesses, e anuncia que o julgamento dos revoltosos do '18 de Abril' [* 1925] explicará “a chave do mistério”, mas, por agora, reafirma: a República está morta e deve ser afastada sem demora.
Sustenta que, apesar de em 5 de Outubro a República ainda ter “homens” e “gérmenes de partidos”, com o tempo queimou e desprestigiou as suas figuras e desfez os partidos, ficando “sem homens e sem partidos”, incapaz de se sustentar. Para reforçar a tese, evoca o II volume das Memórias de Raul Brandão e cita Guerra Junqueiro (apresentado como “génio” associado à República) em tom de desencanto e arrependimento, usando isso como prova moral e simbólica da falência do regime. Pimenta conclui que a República sobrevive apenas como “nome de uma cooperativa” defendida por interesses, e anuncia que o julgamento dos revoltosos do '18 de Abril' [* 1925] explicará “a chave do mistério”, mas, por agora, reafirma: a República está morta e deve ser afastada sem demora.
AO LEITOR
Sente-se ao meu lado, leitor. Não sei quem o senhor é. Desconheço a sua profissão, os seus hábitos de vida, as suas aspirações. Só sei que é meu leitor. Sente-se. Não é muito confortável a cadeira? Desculpe: é o que há.
Está sentado? Então, oiça:
A paisagem que a vida política nos oferece é uma paisagem totalmente fúnebre: cruzes, ciprestes, céus de negrume, toques de finados. A sociedade portuguesa abafa sob crepes. O senhor ouve fanfarras? Repare bem: são marchas fúnebres. O senhor vê estandartes? Repare bem: são mortalhas. Cheira a cadáver, por todos os lados. Para onde a gente se volte, cheira a morte. Isto é um País, ou é a Morgue?
No Terreiro do Paço, corre a vasa. Pelo País inteiro, corre a Morte. Dizem que no Arsenal da Marinha estão a julgar uns tantos oficiais acusados de rebelião. Engano. O que se está a julgar no Arsenal da Marinha é um regime — o regime político de Portugal. E é lá, mais do que em qualquer outra parte, que cheira a cadáver. Absolvidos ou condenados, os oficiais? Pouco importa. O que de lá vai sair aos ombros dos cangalheiros, é o cadáver podre do regime.
Acha, o senhor, que exagero?
Em 5 de Outubro, a República tinha homens, tinha gérmenes de partidos. Um ano depois, tinha os mesmos homens, e tinha os partidos. Tinha, portanto, as condições para viver, se os homens e os partidos a soubessem servir. Hoje, a República não tem homens nem partidos. Aos homens, queimou-os. desprestigiou-os, inutilizou-os. Não há um, um só homem da República capaz de a aguentar e de a salvar. As velhas figuras são figuras de museu de curiosidades. Já nem aparecem. Umas estão lá para longe, em legações tranquilas; outras, metidas em casa. Quem encontra o sr. Bernardino Machado? Quem encontra o sr. António José de Almeida? O único que por aí se vê, é o sr. Brito Camacho - mas reformado. Na atividade, nenhuma das velhas figuras. Há uns fura-vidas, que passam por aí nos bicos dos pés, a fingir de pessoas grandes, gritando gritos descompassados e espalhafatosos. Se os homens são isto, que é feito dos partidos? Os partidos estão partidos aos bocados, numa tendência acentuada para o zero. Sem homens e sem partidos — a República está morta. O que falta é remover o cadáver, e dar-lhe destino. Cadáver maldito que está ameaçando contaminar a Nação inteira! E se lhe dão tempo, contamina-a; se lhe dão tempo, mata-a — e, depois, quem o enterrar, terá que enterrar a Nação.
Exagero meu?
Apareceu aí, agora, um livro lastimável e infeliz, quanto é certo seu autor possuir indiscutíveis qualidades de escritor — como o demonstram algumas páginas felizes desse lastimável e infeliz livro.
Refiro-me ao II volume das Memórias, de Raul Brandão. Se tem páginas belas, tem outras que a gente não lê sem uma instintiva e brutal repugnância. Se nós ficamos presos às páginas evocadoras do Natal — as melhores do livro — que hei de eu dizer, que posso eu dizer de outras que nesse livro se leem? Ora no II volume das Memórias do sr. Raul Brandão, passa muitas vezes, a figura de Guerra Junqueiro, no princípio, ainda vivo na sua ironia, ainda altivo nos seus conceitos, e, para o fim, humilde, manso e arrependido. Sempre a República considerou Guerra Junqueiro como o seu Génio. Até no-lo quis impor como génio da raça portuguesa. Se a República sempre teve Guerra Junqueiro como seu génio — é natural que o escutemos, para a julgarmos:
"Durante oito anos, diz Junqueiro, deixei de trabalhar, por causa dessa miserável República — e agora não posso! Agora não posso! E eu nunca fui republicano."
Nas vésperas de morrer, Junqueiro exclamava:
"Dava toda a minha glória para não ter saído do catolicismo. Errei a minha vida. Quem me dera ter vivido ignorado só para a minha mulher e para as minhas filhas!"
Quando a República, pelo seu exemplo, pelas suas realizações, pelas suas atitudes, leva um homem como Junqueiro que lhe deu o melhor do seu talento e tudo quanto havia de prestigioso no seu nome, a este remorso, a este arrependimento crescente que termina pelo grito: — Meu Deus, levai-me, meu Deus, levai-me! — não é lícito dizer-se ou pensar-se que a República está morta e que urge remover o seu cadáver, para que a Nação não contamine?
Dizia Junqueiro, nos últimos tempos, que pesava o bem que fizera e o mal que fizera. O bem que se faz — quem pode pesá-lo? Deus. Sim, o bem que fez — não pôde pesá-lo Junqueiro. Mas o mal? Ah! esse, pesou-o bem, e sentindo-se esmagado pelo mal que fez exclama: - Quem me dera ter vivido ignorado, só para a minha mulher e para as minhas filhas!
O seu mal alastra pelo País inteiro, envenenou gerações, corrompeu espíritos, desvairou consciências. Quantas vítimas! Quantas vítimas! E só Deus sabe, quantas vítimas mais, ainda!
Mas morreu arrependido, tolhido de remorsos. Salva-se quem se arrepende... Mas os que estão aí, teimando em sustentar o foco da corrupção, em alimentar o foco do veneno — com que autoridade o fazem, se Junqueiro morreu arrependido da sua obra?
Quando conclui pela Monarquia, Junqueiro escreveu-me: "Lamento deveras a sua adesão à Monarquia. Discordo do ato. Mas desde que foi meditado e desinteressado, é respeitável"
Hoje, Junqueiro não pensaria assim. Hoje, aplaudir-me-ia — ele que nas
vésperas da morte confessava que nunca fora republicano!
Não lhe cheira a cadáver, leitor?
Sem homens, sem partidos — como há de a República sustentar-se, tendo, contra ela, tudo quanto na Nação representa vontade de viver, desejo de viver?
Mas como se aguenta ela, sem homens, sem partidos, e contra a Nação?
... O leitor tem seguido os relatos do julgamento de 18 de Abril? Tem lido com atenção, os depoimentos das testemunhas, os discursos dos defensores, os comentários dos jornais? Tem lido? E não concluiu nada — mesmo nada, nada, do que leu? Pois deixe estar, que no fim de tudo, quando descer o pano sobre tudo, eu hei de dizer o que neste momento seria inoportuno dizer. O julgamento do 18 de Abril dá a chave do mistério, dá a resposta clara, indiscutível, à pergunta acima formulada. Mas isso fica para depois. Por agora, só quero chamar a atenção do leitor para isto: a República está morta. Há que a remover, e sem demora. Sem homens e sem partidos, ela não pode nem mesmo desempenhar o papel mau que tem desempenhado. Morta como regime, a República é hoje apenas um nome duma cooperativa. Defendem-na os sócios da cooperativa. Há uma necessidade urgente em dispersar esses sócios.
Não concorda, leitor?
Setembro, 1925.
Sente-se ao meu lado, leitor. Não sei quem o senhor é. Desconheço a sua profissão, os seus hábitos de vida, as suas aspirações. Só sei que é meu leitor. Sente-se. Não é muito confortável a cadeira? Desculpe: é o que há.
Está sentado? Então, oiça:
A paisagem que a vida política nos oferece é uma paisagem totalmente fúnebre: cruzes, ciprestes, céus de negrume, toques de finados. A sociedade portuguesa abafa sob crepes. O senhor ouve fanfarras? Repare bem: são marchas fúnebres. O senhor vê estandartes? Repare bem: são mortalhas. Cheira a cadáver, por todos os lados. Para onde a gente se volte, cheira a morte. Isto é um País, ou é a Morgue?
No Terreiro do Paço, corre a vasa. Pelo País inteiro, corre a Morte. Dizem que no Arsenal da Marinha estão a julgar uns tantos oficiais acusados de rebelião. Engano. O que se está a julgar no Arsenal da Marinha é um regime — o regime político de Portugal. E é lá, mais do que em qualquer outra parte, que cheira a cadáver. Absolvidos ou condenados, os oficiais? Pouco importa. O que de lá vai sair aos ombros dos cangalheiros, é o cadáver podre do regime.
Acha, o senhor, que exagero?
Em 5 de Outubro, a República tinha homens, tinha gérmenes de partidos. Um ano depois, tinha os mesmos homens, e tinha os partidos. Tinha, portanto, as condições para viver, se os homens e os partidos a soubessem servir. Hoje, a República não tem homens nem partidos. Aos homens, queimou-os. desprestigiou-os, inutilizou-os. Não há um, um só homem da República capaz de a aguentar e de a salvar. As velhas figuras são figuras de museu de curiosidades. Já nem aparecem. Umas estão lá para longe, em legações tranquilas; outras, metidas em casa. Quem encontra o sr. Bernardino Machado? Quem encontra o sr. António José de Almeida? O único que por aí se vê, é o sr. Brito Camacho - mas reformado. Na atividade, nenhuma das velhas figuras. Há uns fura-vidas, que passam por aí nos bicos dos pés, a fingir de pessoas grandes, gritando gritos descompassados e espalhafatosos. Se os homens são isto, que é feito dos partidos? Os partidos estão partidos aos bocados, numa tendência acentuada para o zero. Sem homens e sem partidos — a República está morta. O que falta é remover o cadáver, e dar-lhe destino. Cadáver maldito que está ameaçando contaminar a Nação inteira! E se lhe dão tempo, contamina-a; se lhe dão tempo, mata-a — e, depois, quem o enterrar, terá que enterrar a Nação.
Exagero meu?
Apareceu aí, agora, um livro lastimável e infeliz, quanto é certo seu autor possuir indiscutíveis qualidades de escritor — como o demonstram algumas páginas felizes desse lastimável e infeliz livro.
Refiro-me ao II volume das Memórias, de Raul Brandão. Se tem páginas belas, tem outras que a gente não lê sem uma instintiva e brutal repugnância. Se nós ficamos presos às páginas evocadoras do Natal — as melhores do livro — que hei de eu dizer, que posso eu dizer de outras que nesse livro se leem? Ora no II volume das Memórias do sr. Raul Brandão, passa muitas vezes, a figura de Guerra Junqueiro, no princípio, ainda vivo na sua ironia, ainda altivo nos seus conceitos, e, para o fim, humilde, manso e arrependido. Sempre a República considerou Guerra Junqueiro como o seu Génio. Até no-lo quis impor como génio da raça portuguesa. Se a República sempre teve Guerra Junqueiro como seu génio — é natural que o escutemos, para a julgarmos:
"Durante oito anos, diz Junqueiro, deixei de trabalhar, por causa dessa miserável República — e agora não posso! Agora não posso! E eu nunca fui republicano."
Nas vésperas de morrer, Junqueiro exclamava:
"Dava toda a minha glória para não ter saído do catolicismo. Errei a minha vida. Quem me dera ter vivido ignorado só para a minha mulher e para as minhas filhas!"
Quando a República, pelo seu exemplo, pelas suas realizações, pelas suas atitudes, leva um homem como Junqueiro que lhe deu o melhor do seu talento e tudo quanto havia de prestigioso no seu nome, a este remorso, a este arrependimento crescente que termina pelo grito: — Meu Deus, levai-me, meu Deus, levai-me! — não é lícito dizer-se ou pensar-se que a República está morta e que urge remover o seu cadáver, para que a Nação não contamine?
Dizia Junqueiro, nos últimos tempos, que pesava o bem que fizera e o mal que fizera. O bem que se faz — quem pode pesá-lo? Deus. Sim, o bem que fez — não pôde pesá-lo Junqueiro. Mas o mal? Ah! esse, pesou-o bem, e sentindo-se esmagado pelo mal que fez exclama: - Quem me dera ter vivido ignorado, só para a minha mulher e para as minhas filhas!
O seu mal alastra pelo País inteiro, envenenou gerações, corrompeu espíritos, desvairou consciências. Quantas vítimas! Quantas vítimas! E só Deus sabe, quantas vítimas mais, ainda!
Mas morreu arrependido, tolhido de remorsos. Salva-se quem se arrepende... Mas os que estão aí, teimando em sustentar o foco da corrupção, em alimentar o foco do veneno — com que autoridade o fazem, se Junqueiro morreu arrependido da sua obra?
Quando conclui pela Monarquia, Junqueiro escreveu-me: "Lamento deveras a sua adesão à Monarquia. Discordo do ato. Mas desde que foi meditado e desinteressado, é respeitável"
Hoje, Junqueiro não pensaria assim. Hoje, aplaudir-me-ia — ele que nas
vésperas da morte confessava que nunca fora republicano!
Não lhe cheira a cadáver, leitor?
Sem homens, sem partidos — como há de a República sustentar-se, tendo, contra ela, tudo quanto na Nação representa vontade de viver, desejo de viver?
Mas como se aguenta ela, sem homens, sem partidos, e contra a Nação?
... O leitor tem seguido os relatos do julgamento de 18 de Abril? Tem lido com atenção, os depoimentos das testemunhas, os discursos dos defensores, os comentários dos jornais? Tem lido? E não concluiu nada — mesmo nada, nada, do que leu? Pois deixe estar, que no fim de tudo, quando descer o pano sobre tudo, eu hei de dizer o que neste momento seria inoportuno dizer. O julgamento do 18 de Abril dá a chave do mistério, dá a resposta clara, indiscutível, à pergunta acima formulada. Mas isso fica para depois. Por agora, só quero chamar a atenção do leitor para isto: a República está morta. Há que a remover, e sem demora. Sem homens e sem partidos, ela não pode nem mesmo desempenhar o papel mau que tem desempenhado. Morta como regime, a República é hoje apenas um nome duma cooperativa. Defendem-na os sócios da cooperativa. Há uma necessidade urgente em dispersar esses sócios.
Não concorda, leitor?
Setembro, 1925.
(*) A Revolta militar de 18 de Abril de 1925 foi um "ensaio" para a revolta de 28 de Maio de 1926, que vem a encerrar o capítulo da 1ª República (1910-26). Envolveu oficiais, incluindo generais, num contexto de grande instabilidade político-social. A revolta militar foi contida, mas revelou a grave crise institucional da época.