'Apesar da República, dentro da Nação.'
Hipólito Raposo
Em 30 de Julho de 1930, o ministro das Finanças, Oliveira Salazar, defendeu os princípios de representação da Nação no Estado que vinham sendo defendidos pelo Integralismo Lusitano desde 1914 - representação não ideológica, mas de base municipal e sindical. Em Agosto, a Junta Central do Integralismo Lusitano manifestou apoio ao propósito regenerador da Ditadura expresso nas palavras de Salazar. Em 1932, ao ser tornado público o projecto de Constituição do Estado Novo, vingava o projecto político do grupo da Seara Nova, saindo defraudada a expectativa benévola dos integralistas.
O «Diário de Lisboa» publicou ontem a nota da Junta Central do Integralismo Lusitano, em que aquele organismo definia a sua posição perante a atual situação política.
No desejo de dar a conhecer ao público as razões dessa atitude, procurámos hoje um dos membros da referida Junta, o distinto escritor sr. dr. Hipólito Raposo.
E eis o que nos disse o autor do «Sentido do Humanismo» e da «Boa Gente»:
- A nossa atitude está definida na nota a que se refere, essencialmente a mesma que temos mantido desde o 28 de Maio: a obra de salvação nacional que a Ditadura Militar se propôs aplaudimo-la e auxiliamo-la, como é nosso dever de portugueses e de monárquicos.
- Dentro da República...
- Apesar da República, dentro da Nação. Há questões fundamentais da nacionalidade, para cuja solução todos os portugueses honrados podem e devem unir os seus esforços em razoável acordo: a defesa nacional, a moralização administrativa, o levantamento do crédito público, o prestígio internacional do país, a defesa do património ultramarino, as obras de fomento, a ordem nas ruas, por exemplo, estão nesse caso. Negar para elas ou outras do mesmo alcance concurso que seja permitido ou solicitado é trair um dever de patriotismo, dado que o Poder Público seja exercido com dignidade e boa intenção nacional.
- Que impressão fez no I. L. a nota dos monárquicos constitucionais?
- Constitucionais, no sentido de Liberais, não... Essa nota, com a qual só temos que nos regozijar, parece ter sido o epitáfio do liberalismo monárquico. Depois dela, pelo aplauso que ali se dá à doutrina do manifesto do Governo, alias com inteligente e nobre isenção parece que em Portugal, finalmente, só existem monárquicos antiparlamentares e antiliberais. A doutrina política dos monárquicos portugueses terá ficado sendo a mesma para todos. Pena é que esse acordo de pensamento não se tivesse verificado há mais tempo e que a unificação de princípios viesse a dar-se através ou a pretexto de um documento emanado de um Governo da República.
- Muitos querem ver nele as próprios princípios do Integralismo.
- Isso não é exato. Estamos muito mais longe. Alguns dos princípios que o I. L. vem propondo e defendendo, sim. Nós temos sido apenas os propagandistas de ideias e de aspirações que são nacionais e, portanto, a todos os portugueses pertencem. Não as criámos, não as inventámos, como elixir de redentorismo político: elas representam, a nosso ver, o ponto de coincidência do Estado com a nação portuguesa, a integração das diversas funções nos seus órgãos próprios, na administração e na política. São o património da experiência e da consciência histórico-política da Nação. Pela oposição largamente consentida e proclamada na fórmula de políticos mulatos: - «a Nação é de todos, mas o Estado é dos republicanos» — é que foi possível elevar os impostos, aumentando a divida, subir o número de escolas, crescendo a legião de incompetentes, gritar nas praças muito regionalismo, muito municipalismo e concentrar os poderes nas mãos do partido de Governo, não tendo havido tempo, em 20 anos, de decretar um estatuto municipal qualquer... Proclamar a responsabilidade ministerial e permitir-se toda a casta de abusos, de corrupções e latrocínios, de tal maneira repetidos que um chefe de Governo [António Maria da Silva] pôde declarar com alarmante franqueza que o pais «estava a saque»; falar em normalidade constitucional e trazer espingardas para a rua, num desígnio constante de guerra civil, na competição dos partidos. E foi a este caos de imoralidade e sangue que veio pôr termo o protesto armado do 28 de Maio.
- Mas os monárquicos não abdicam da questão do regime...
- Decerto, nem ninguém o pode esperar. Mas, esclarecidos no seu patriotismo, eles sabem que devem manter por agora afastada essa reivindicação, pois não existem atualmente condições políticas que favoreçam ou aconselhem a mudança regime, nem perigo nacional que a justifique. Se a Ditadura tem que recear algum perigo, não é aquele com que os agitadores pretendem amedrontá-la. Depois, nenhum monárquico que o saiba ser pode ou deseja esperar que os republicanos lhes façam Monarquia.
Fonte: "O dr. Hipólito Raposo fala-nos da atitude dos integralistas em face da Ditadura militar", Diário de Lisboa, 29 de Agosto de 1930.
No desejo de dar a conhecer ao público as razões dessa atitude, procurámos hoje um dos membros da referida Junta, o distinto escritor sr. dr. Hipólito Raposo.
E eis o que nos disse o autor do «Sentido do Humanismo» e da «Boa Gente»:
- A nossa atitude está definida na nota a que se refere, essencialmente a mesma que temos mantido desde o 28 de Maio: a obra de salvação nacional que a Ditadura Militar se propôs aplaudimo-la e auxiliamo-la, como é nosso dever de portugueses e de monárquicos.
- Dentro da República...
- Apesar da República, dentro da Nação. Há questões fundamentais da nacionalidade, para cuja solução todos os portugueses honrados podem e devem unir os seus esforços em razoável acordo: a defesa nacional, a moralização administrativa, o levantamento do crédito público, o prestígio internacional do país, a defesa do património ultramarino, as obras de fomento, a ordem nas ruas, por exemplo, estão nesse caso. Negar para elas ou outras do mesmo alcance concurso que seja permitido ou solicitado é trair um dever de patriotismo, dado que o Poder Público seja exercido com dignidade e boa intenção nacional.
- Que impressão fez no I. L. a nota dos monárquicos constitucionais?
- Constitucionais, no sentido de Liberais, não... Essa nota, com a qual só temos que nos regozijar, parece ter sido o epitáfio do liberalismo monárquico. Depois dela, pelo aplauso que ali se dá à doutrina do manifesto do Governo, alias com inteligente e nobre isenção parece que em Portugal, finalmente, só existem monárquicos antiparlamentares e antiliberais. A doutrina política dos monárquicos portugueses terá ficado sendo a mesma para todos. Pena é que esse acordo de pensamento não se tivesse verificado há mais tempo e que a unificação de princípios viesse a dar-se através ou a pretexto de um documento emanado de um Governo da República.
- Muitos querem ver nele as próprios princípios do Integralismo.
- Isso não é exato. Estamos muito mais longe. Alguns dos princípios que o I. L. vem propondo e defendendo, sim. Nós temos sido apenas os propagandistas de ideias e de aspirações que são nacionais e, portanto, a todos os portugueses pertencem. Não as criámos, não as inventámos, como elixir de redentorismo político: elas representam, a nosso ver, o ponto de coincidência do Estado com a nação portuguesa, a integração das diversas funções nos seus órgãos próprios, na administração e na política. São o património da experiência e da consciência histórico-política da Nação. Pela oposição largamente consentida e proclamada na fórmula de políticos mulatos: - «a Nação é de todos, mas o Estado é dos republicanos» — é que foi possível elevar os impostos, aumentando a divida, subir o número de escolas, crescendo a legião de incompetentes, gritar nas praças muito regionalismo, muito municipalismo e concentrar os poderes nas mãos do partido de Governo, não tendo havido tempo, em 20 anos, de decretar um estatuto municipal qualquer... Proclamar a responsabilidade ministerial e permitir-se toda a casta de abusos, de corrupções e latrocínios, de tal maneira repetidos que um chefe de Governo [António Maria da Silva] pôde declarar com alarmante franqueza que o pais «estava a saque»; falar em normalidade constitucional e trazer espingardas para a rua, num desígnio constante de guerra civil, na competição dos partidos. E foi a este caos de imoralidade e sangue que veio pôr termo o protesto armado do 28 de Maio.
- Mas os monárquicos não abdicam da questão do regime...
- Decerto, nem ninguém o pode esperar. Mas, esclarecidos no seu patriotismo, eles sabem que devem manter por agora afastada essa reivindicação, pois não existem atualmente condições políticas que favoreçam ou aconselhem a mudança regime, nem perigo nacional que a justifique. Se a Ditadura tem que recear algum perigo, não é aquele com que os agitadores pretendem amedrontá-la. Depois, nenhum monárquico que o saiba ser pode ou deseja esperar que os republicanos lhes façam Monarquia.
Fonte: "O dr. Hipólito Raposo fala-nos da atitude dos integralistas em face da Ditadura militar", Diário de Lisboa, 29 de Agosto de 1930.
"Os integralistas expõem o seu pensamento sobre a organização de apoio à ditadura", Diário de Lisboa, 28 de Agosto de 1930.
A Junta Central do Integralismo Lusitano reuniu e enviou-nos a seguinte nota:
«Tendo considerado atentamente o manifesto do governo da Ditadura, e as declarações complementares do sr. ministro das Finanças, de 30 de julho último, o Integralismo Lusitano congratula-se com o facto de ver reconhecidos e proclamados pelo poder público alguns dos princípios em que deve assentar a verdadeira reconstituição nacional.
«Tomando as palavras do governo como um apelo de salvação publica, declara-se decidido, por intermedio dos filiados na sua organização, que assim o desejem, a cooperar oportunamente com a Ditadura Militar, em tudo quanto sirva o bem comum e procure realizar a igualdade dos portugueses perante a lei condição essencial para efetivar o prepósito de União Nacional.
«Continuando a manter afastada, por superiores razões de interesse coletivo e por obediência às ordens do rei, a máxima reivindicação política dos seus princípios, fica na esperança de que os meios de execução, por parte do governo dos seus agentes, correspondam inteiramente ao pensamento salvador de substituir às ruínas do Estado democrático-parlamentar, os fundamentos legítimos do Estado Novo».
«Tendo considerado atentamente o manifesto do governo da Ditadura, e as declarações complementares do sr. ministro das Finanças, de 30 de julho último, o Integralismo Lusitano congratula-se com o facto de ver reconhecidos e proclamados pelo poder público alguns dos princípios em que deve assentar a verdadeira reconstituição nacional.
«Tomando as palavras do governo como um apelo de salvação publica, declara-se decidido, por intermedio dos filiados na sua organização, que assim o desejem, a cooperar oportunamente com a Ditadura Militar, em tudo quanto sirva o bem comum e procure realizar a igualdade dos portugueses perante a lei condição essencial para efetivar o prepósito de União Nacional.
«Continuando a manter afastada, por superiores razões de interesse coletivo e por obediência às ordens do rei, a máxima reivindicação política dos seus princípios, fica na esperança de que os meios de execução, por parte do governo dos seus agentes, correspondam inteiramente ao pensamento salvador de substituir às ruínas do Estado democrático-parlamentar, os fundamentos legítimos do Estado Novo».
"O dr. Hipólito Raposo fala-nos da atitude dos integralistas em face da Ditadura militar", Diário de Lisboa, 29 de Agosto de 1930:
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