Rolão Preto, Para além do Comunismo, Coimbra, Edição da Junta Escolar de Coimbra do Integralismo Lusitano, 1932.
PARTE TERCEIRA
Para além do Comunismo
Para além do Comunismo
O ESTADO INTEGRAL
O APELO AO CHEFE
Vimos, no capítulo anterior, como um dos predicados que mais se reclamava o comunismo – a sua novidade – era afinal absolutamente infundado, pois tudo o que ele tentou, desproletarização das massas operárias, capitalismo de Estado, etc., já a economia moderna tinha largamente experimentado, se bem que no Estado burguês com resultados que desmentem a doutrina marxista e são largamente superiores aos que o comunismo logrou alcançar.
Vamos ver como, no capítulo de realizações políticas, a tentativa comunista russa, longe de criar novos métodos, se cinge, ao contrário, aos mais antigos, que são de resto os consagrados pela velha sabedoria humana.
Com efeito, se o bolchevismo perdura e se mantém contra todas as dificuldades internas e externas – que são consideráveis – deve-o à eficiência da sua técnica política, que é essencialmente hierárquica. Na Rússia, faliu há muito, por inadaptável às realidades económicas, a tentativa comunista, mas mantém-se e persiste o sovietismo, pela lógica e pela força que encerra um sistema político que tem um Chefe indiscutível (o secretário do Partido comunista) em seus conselhos (os sovietes).
Tal é, hoje e sempre, a firmeza da construção tradicional, que, mesmo nas condições criadas pelo bolchevismo, se mostra indestrutível. Logrem os bolcheviques manter sem desvios o sistema e poderão rir-se indefinidamente dos seus adversários.
As construções políticas que a tradição consagrou só se destroem quando, perdida a fé em si próprias, se entregam nas mãos dos partidos, dos parlamentos, nas mãos da democracia que tudo assoalha e compromete, nas mãos da liberdade que tudo reduz, pulveriza e liquida.
Enquanto a técnica soviética for a técnica monárquica, a técnica tradicional dos grandes Imperadores russos, o regime não cairá. O sistema é porém velho como a sabedoria humana. O comunismo, em métodos políticos, adoptando o sovietismo, nada portanto inovou. Modificou, é certo, o seu sentido, no que ainda não é novidade, substituindo o Chefe indiscutível por posição histórica, por um aventureiro de acaso, um imperador vermelho audacioso e sem escrúpulos que soube na hora própria cavalgar o cavalo branco da sorte e impor-se à Rússia…
Frisemos porém que o sistema, se continua assim a ter as suas qualidades de sólido edifício político, perdeu porém todas as virtudes sociais do sistema tradicional na sua pureza integral. O Chefe do Estado, aqui, não tem, aos olhos dos seus concidadãos, nem a altíssima linha moral nem o grande significado social do Chefe histórico. Já foi isso que fez dizer tristemente a Napoleão:
– Ai, que se eu fosse o meu neto!…
Ao Chefe de Estado, ungido da sorte, falta aquele relevo que torna o Chefe histórico sobranceiro às facções e aos grupos que assaltam o poder, bem como aquela vantagem que é a continuidade do comando prolongando-se na eternidade da família – a dinastia.
Tal Chefe não se impõe, domina. É o Chefe eleito pela força. A força é porém caprichosa como a fortuna e isso importa não só o risco, o que torna ainda mais sem escrúpulos o Ditador no curar da sua própria defesa, mas também uma constante perda do seu prestígio de aventureiro com sorte diante da opinião esclarecida.
Considera-se pois como perante a derrocada de sistemas, princípios, instituições, ao fechar-se tragicamente um ciclo de experiências liberais, liberais-democratas, democratas-sociais e comunistas, só na verdade um princípio – o Chefe indiscutível – só na verdade uma instituição – a que o comporta – mantém toda a sua força, toda a sua mocidade, toda a sua eficiência no governo dos povos.
O Mundo, todo ele hoje está coberto de Ditaduras onde as Nações confessam a vantagem do Chefe sobre a multidão anónima e irresponsável das assembleias políticas. O mundo, todo ele, é hoje uma vasta consagração da hierarquia como método político, como sistema de comando, como princípio de salvação social. Quando a França se sente perdida diante da intriga e da traição dos partidos, entrega-se e salva-se nas mãos da Ditadura de Clémenceau. Quando os Aliados reconhecem o perigo da sua dispersão, é no comando único que procuram e encontram a vitória. O próprio comunismo, para se manter na Rússia, cria a hierarquia soviética.
É o Chefe quem valoriza a família, o grupo Económico – a Nação. Reconhece-o a história, reconhece-o a economia moderna. Também a história e a economia atestam como a eficiência do comando é directa função do prestígio desse Chefe e portanto da não discussão da sua legitimidade.
A democracia política, elegendo o Chefe do Estado, fez dele um chefe de partido, o delegado de certos interesses, de certas ideias que apenas uma parte da Nação perfilha ou aceita. A democracia social, elegendo o chefe da empresa ou da oficina, faz dele um chefe de partido.
Só o Chefe cuja legitimidade se não discute tem na verdade em si toda a virtude social eficiente e completa. Eis porque a instituição que tem à cabeça um Chefe dessa natureza é o regime social por excelência.
Vamos ver como, no capítulo de realizações políticas, a tentativa comunista russa, longe de criar novos métodos, se cinge, ao contrário, aos mais antigos, que são de resto os consagrados pela velha sabedoria humana.
Com efeito, se o bolchevismo perdura e se mantém contra todas as dificuldades internas e externas – que são consideráveis – deve-o à eficiência da sua técnica política, que é essencialmente hierárquica. Na Rússia, faliu há muito, por inadaptável às realidades económicas, a tentativa comunista, mas mantém-se e persiste o sovietismo, pela lógica e pela força que encerra um sistema político que tem um Chefe indiscutível (o secretário do Partido comunista) em seus conselhos (os sovietes).
Tal é, hoje e sempre, a firmeza da construção tradicional, que, mesmo nas condições criadas pelo bolchevismo, se mostra indestrutível. Logrem os bolcheviques manter sem desvios o sistema e poderão rir-se indefinidamente dos seus adversários.
As construções políticas que a tradição consagrou só se destroem quando, perdida a fé em si próprias, se entregam nas mãos dos partidos, dos parlamentos, nas mãos da democracia que tudo assoalha e compromete, nas mãos da liberdade que tudo reduz, pulveriza e liquida.
Enquanto a técnica soviética for a técnica monárquica, a técnica tradicional dos grandes Imperadores russos, o regime não cairá. O sistema é porém velho como a sabedoria humana. O comunismo, em métodos políticos, adoptando o sovietismo, nada portanto inovou. Modificou, é certo, o seu sentido, no que ainda não é novidade, substituindo o Chefe indiscutível por posição histórica, por um aventureiro de acaso, um imperador vermelho audacioso e sem escrúpulos que soube na hora própria cavalgar o cavalo branco da sorte e impor-se à Rússia…
Frisemos porém que o sistema, se continua assim a ter as suas qualidades de sólido edifício político, perdeu porém todas as virtudes sociais do sistema tradicional na sua pureza integral. O Chefe do Estado, aqui, não tem, aos olhos dos seus concidadãos, nem a altíssima linha moral nem o grande significado social do Chefe histórico. Já foi isso que fez dizer tristemente a Napoleão:
– Ai, que se eu fosse o meu neto!…
Ao Chefe de Estado, ungido da sorte, falta aquele relevo que torna o Chefe histórico sobranceiro às facções e aos grupos que assaltam o poder, bem como aquela vantagem que é a continuidade do comando prolongando-se na eternidade da família – a dinastia.
Tal Chefe não se impõe, domina. É o Chefe eleito pela força. A força é porém caprichosa como a fortuna e isso importa não só o risco, o que torna ainda mais sem escrúpulos o Ditador no curar da sua própria defesa, mas também uma constante perda do seu prestígio de aventureiro com sorte diante da opinião esclarecida.
Considera-se pois como perante a derrocada de sistemas, princípios, instituições, ao fechar-se tragicamente um ciclo de experiências liberais, liberais-democratas, democratas-sociais e comunistas, só na verdade um princípio – o Chefe indiscutível – só na verdade uma instituição – a que o comporta – mantém toda a sua força, toda a sua mocidade, toda a sua eficiência no governo dos povos.
O Mundo, todo ele hoje está coberto de Ditaduras onde as Nações confessam a vantagem do Chefe sobre a multidão anónima e irresponsável das assembleias políticas. O mundo, todo ele, é hoje uma vasta consagração da hierarquia como método político, como sistema de comando, como princípio de salvação social. Quando a França se sente perdida diante da intriga e da traição dos partidos, entrega-se e salva-se nas mãos da Ditadura de Clémenceau. Quando os Aliados reconhecem o perigo da sua dispersão, é no comando único que procuram e encontram a vitória. O próprio comunismo, para se manter na Rússia, cria a hierarquia soviética.
É o Chefe quem valoriza a família, o grupo Económico – a Nação. Reconhece-o a história, reconhece-o a economia moderna. Também a história e a economia atestam como a eficiência do comando é directa função do prestígio desse Chefe e portanto da não discussão da sua legitimidade.
A democracia política, elegendo o Chefe do Estado, fez dele um chefe de partido, o delegado de certos interesses, de certas ideias que apenas uma parte da Nação perfilha ou aceita. A democracia social, elegendo o chefe da empresa ou da oficina, faz dele um chefe de partido.
Só o Chefe cuja legitimidade se não discute tem na verdade em si toda a virtude social eficiente e completa. Eis porque a instituição que tem à cabeça um Chefe dessa natureza é o regime social por excelência.