Rolão Preto, Para além do Comunismo, Coimbra, Edição da Junta Escolar de Coimbra do Integralismo Lusitano, 1932.
PARTE PRIMEIRA - O Comunismo e os factos
RESUMO
A experiência soviética dispôs de condições que nenhuma outra realização político-social conheceu — meio predisposto, oposição esmagada, força armada, mística revolucionária — e, apesar disso, «o marxismo faliu». Os marxistas, que fundam a sua crítica no materialismo histórico, são os últimos que podem recusar o veredicto dos factos. Francisco Rolão Preto propõe-se mostrá-lo «com os depoimentos dos próprios responsáveis ou das suas vítimas», isto é, com a imprensa soviética. Desenvolvimento, em nove rubricas:
- A vida política. Em 150 milhões de habitantes só o partido (1.400.000 inscritos) tem direitos políticos. Os sovietes são «mistificação eleitoral»; o partido designa os candidatos; os operários «calam-se e votam». A Ditadura do Proletariado é, de facto, a «Ditadura do Secretariado».
- Vida sindical e cooperativas. Sindicalização forçada, reduzida ao pagamento de quotas; burocracia sindical pletórica; os sindicatos são «clubes políticos». As cooperativas, com monopólio do retalho, encarecem os géneros, roubam e maltratam o cliente operário.
- Habitações operárias. Sobrelotação, covas, barracas, tuberculose; construção nova sem planos, em ruína ao fim de meses; casas boas só para os «privilegiados».
- Trabalho das mulheres e dos menores. Coacção sexual por superiores, prostituição juvenil, suicídios; crianças abandonadas em multidão; casas de infância imundas e violentas, com excepção das reservadas aos filhos dos dirigentes; trabalho infantil de dez a dezasseis horas.
- Horas de trabalho. A jornada de oito horas não é respeitada; a de sete, prometida em manifesto, continua por cumprir três anos depois.
- Salários. Subsistem, e inferiores aos dos «países burgueses»: moeda sem cotação externa, preços reais acima dos oficiais, subscrições e empréstimos obrigatórios; 60-75 rublos para o operário, 200-800 para os privilegiados.
- Assistência. Falta de médicos, hospitais e higiene; acidentes de trabalho em crescimento.
- Burocracia. Num sistema em que o Estado é «motor, providência e orientador supremo e único», a máquina afoga-se em papel (relatórios de milhares de páginas, inquéritos de milhares de perguntas) e o pessoal em roubos e desfalques.
- Vida intelectual. Analfabetismo, escolas em ruína, professores na miséria, estudantes sem abrigo; edição estatal de manuais que ninguém lê; escritores de valor «à parte do comunismo»; literatura «desmoralizante»; reacção religiosa; o público prefere Hollywood ao cinema revolucionário.
ANÁLISE
1. Arquitectura e estratégia retórica
O capítulo assenta em três decisões de método.
A primeira é voltar o materialismo histórico contra os seus titulares: quem fez dos «factos» o tribunal da história não pode agora declinar-lhe a competência. Rolão Preto tem o cuidado de não absolutizar o critério («eles não têm valor absoluto e irrevogável»): os factos são «balizas» no caminho da Ideia, o que deixa aberta a Parte II, onde a discussão passa a ser doutrinária.
A segunda é o testemunho da parte contrária: quase tudo é dado como citação da Pravda, do Troud, da Izvestia, da Krasnaia Gazeta.
A terceira é a antecipação da última trincheira do adversário (a fraternidade na pobreza), reservada para o fecho, de modo que o tema dos «privilegiados», semeado em cada rubrica (Kremlin, vilas, casas-modelo, pensões de 200 a 800 rublos), funcione como refutação acumulada.
A ironia é o registo dominante («emancipado e feliz na sua república operária», «a simplicidade e a souplesse das engrenagens», «os nobres Ditadores do Proletariado»). O pórtico — Lenine moribundo, «olhos tristes de oriental» — e a «tirania asiática» pertencem a um tópico orientalizante corrente na publicística europeia da época sobre o bolchevismo; têm valor literário, não probatório.
2. O critério de juízo: representação, sindicato, Estado
O que mais distingue este capítulo de um anticomunismo de ordem é o padrão por que mede o regime soviético: o do próprio movimento operário. As rubricas são as de um caderno reivindicativo — representação, sindicato, cooperativa, casa, mulheres e menores, oito horas, salário, assistência — e o destinatário é nomeado: «um ponto que decerto causará o espanto dos operários»; «comparem os operários europeus a sua situação». Rolão Preto fala como «homens modernos que somos», «sem reserva nem intenção partidária». É a posição de quem, no mesmo ano de 1932, lança o Nacional-Sindicalismo e disputa ao comunismo o seu público.
Três passos merecem ser lidos de perto, porque neles a crítica ao sovietismo é feita com categorias do Integralismo:
Note-se ainda, para o uso de «democracia» neste texto: «Ditadura na engrenagem política, democracia no trabalho» e, na última rubrica, o par «democracia política» / «democracia social». No segundo passo, «democracia política» designa o regime eleitoral de tipo parlamentar (o eleitor juiz do seu candidato); «democracia social» designa a escolha permanente de comités de fábrica e conselhos locais. O argumento é a fortiori: se a primeira já exige instrução, a segunda exige-a muito mais — e o regime não a deu. Não há aqui juízo sobre a representação do trabalho em si, antes a constatação de que, na Rússia, ela é fictícia.
Por fim, a frase final — tirania «que nada limita, nem ao menos o escrúpulo e a linha histórica do tirano» — contrapõe implicitamente ao poder do secretário do Partido um poder limitado pela sua própria «linha histórica», isto é, pela continuidade e pela legitimidade. É um indício, neste capítulo de abertura, do que o «Apelo ao Chefe» tornará explícito.
3. As fontes: citações em segunda mão
Rolão Preto não lia russo nem teve acesso às colecções da Pravda ou do Troud. O capítulo é montado sobre um ou mais repertórios ocidentais de citações da imprensa soviética. Os indícios internos são de duas ordens:
Há, porém, um limite cronológico que obriga a supor uma segunda fonte: a trilogia saiu em Outubro de 1929 e o capítulo cita a Pravda de Abril, Maio, Junho, Julho e Novembro de 1930 e a «Vida Económica de Janeiro de 1930». As citações de 1930 (sobretudo em «A vida política» e «Habitações operárias») vêm de outro lado. Candidatos plausíveis: os boletins e brochuras da Entente internationale contre la IIIe Internationale (Théodore Aubert, Genebra), muito difundidos nos meios nacionalistas europeus; o semanário La Russie opprimée (Paris, 1926-1933, dirigido por Kerenski), que fazia revista da imprensa soviética; ou artigos da imprensa francesa e espanhola de 1930-1931 alimentados por essas agências. O terminus post quem da redacção é Novembro de 1930 (Pravda sobre Riazan).
Um pormenor confirma que o autor não controlava as fontes primárias: o mesmo jornal aparece com dois nomes — Economitcheskaia Jizu [Jizn] e, traduzido, Vida Económica — como se fossem dois títulos, o que acontece quando se copiam repertórios diferentes.
Sobre o valor deste tipo de prova, duas observações. Por um lado, o género das citações é autêntico: a partir de 1928 o regime promoveu a campanha de «autocrítica» (samokritika) e a imprensa encheu-se de denúncias de burocratas, cooperativas, comités de fábrica e administrações de habitação — foi exactamente esse filão que Souvarine e outros exploraram. Por outro lado, a denúncia jornalística de casos é prova de existência, não de frequência: a passagem do episódio («em G.», «na fábrica X») ao juízo universal («falhou em tudo») é salto retórico. E há um efeito de distorção na cadeia de transmissão (russo → francês → castelhano → português), visível nos nomes próprios e em alguns números.
4. Verificação histórica
Juízo: Confirmado — corresponde ao que a historiografia estabelece; Verosímil — coerente com o conhecido, mas não verifiquei a citação na fonte primária. Nenhuma das citações da imprensa soviética foi por mim conferida no original russo; o que se verifica é a consistência dos factos, instituições, pessoas e datas.
19.09.2026
J. M. Q.
O capítulo assenta em três decisões de método.
A primeira é voltar o materialismo histórico contra os seus titulares: quem fez dos «factos» o tribunal da história não pode agora declinar-lhe a competência. Rolão Preto tem o cuidado de não absolutizar o critério («eles não têm valor absoluto e irrevogável»): os factos são «balizas» no caminho da Ideia, o que deixa aberta a Parte II, onde a discussão passa a ser doutrinária.
A segunda é o testemunho da parte contrária: quase tudo é dado como citação da Pravda, do Troud, da Izvestia, da Krasnaia Gazeta.
A terceira é a antecipação da última trincheira do adversário (a fraternidade na pobreza), reservada para o fecho, de modo que o tema dos «privilegiados», semeado em cada rubrica (Kremlin, vilas, casas-modelo, pensões de 200 a 800 rublos), funcione como refutação acumulada.
A ironia é o registo dominante («emancipado e feliz na sua república operária», «a simplicidade e a souplesse das engrenagens», «os nobres Ditadores do Proletariado»). O pórtico — Lenine moribundo, «olhos tristes de oriental» — e a «tirania asiática» pertencem a um tópico orientalizante corrente na publicística europeia da época sobre o bolchevismo; têm valor literário, não probatório.
2. O critério de juízo: representação, sindicato, Estado
O que mais distingue este capítulo de um anticomunismo de ordem é o padrão por que mede o regime soviético: o do próprio movimento operário. As rubricas são as de um caderno reivindicativo — representação, sindicato, cooperativa, casa, mulheres e menores, oito horas, salário, assistência — e o destinatário é nomeado: «um ponto que decerto causará o espanto dos operários»; «comparem os operários europeus a sua situação». Rolão Preto fala como «homens modernos que somos», «sem reserva nem intenção partidária». É a posição de quem, no mesmo ano de 1932, lança o Nacional-Sindicalismo e disputa ao comunismo o seu público.
Três passos merecem ser lidos de perto, porque neles a crítica ao sovietismo é feita com categorias do Integralismo:
- A representação. Os «conselhos de operários» são «a suprema consagração da verdadeira representação»; a realidade é que «só tem direitos políticos […] um grupo, um partido». A acusação não é a de que a Rússia dispense o sufrágio à ocidental, mas a de que um partido se substituiu à representação do trabalho — o partido «designa os candidatos», os sovietes recebem «foros de representantes do povo» por «mistificação eleitoral». É a crítica integralista do partido como usurpador da representação orgânica, aplicada ao caso-limite do partido único. A frase de Tomski («um partido no Poder, todos os outros na cadeia») serve-lhe de epígrafe.
- O sindicato. «Os sindicatos são clubes políticos»: o sindicato soviético falha porque deixou de ser órgão profissional para ser correia do partido e repartição do Estado. Lida à luz de «A Política Social da Monarquia Orgânica» (1925), a objecção é coerente: o sindicato vale como corpo autónomo, não como secção política.
- O Estado. A rubrica «Burocracia» abre com a definição do sistema em que «o Estado tem a função máxima de motor, providência e orientador supremo e único da vida do país». O alvo é o estatismo integral enquanto tal, e a prova é a sua ineficácia. É a mesma objecção que Rolão Preto dirigirá depois, com outro endereço, ao «estatismo totalitário».
Note-se ainda, para o uso de «democracia» neste texto: «Ditadura na engrenagem política, democracia no trabalho» e, na última rubrica, o par «democracia política» / «democracia social». No segundo passo, «democracia política» designa o regime eleitoral de tipo parlamentar (o eleitor juiz do seu candidato); «democracia social» designa a escolha permanente de comités de fábrica e conselhos locais. O argumento é a fortiori: se a primeira já exige instrução, a segunda exige-a muito mais — e o regime não a deu. Não há aqui juízo sobre a representação do trabalho em si, antes a constatação de que, na Rússia, ela é fictícia.
Por fim, a frase final — tirania «que nada limita, nem ao menos o escrúpulo e a linha histórica do tirano» — contrapõe implicitamente ao poder do secretário do Partido um poder limitado pela sua própria «linha histórica», isto é, pela continuidade e pela legitimidade. É um indício, neste capítulo de abertura, do que o «Apelo ao Chefe» tornará explícito.
3. As fontes: citações em segunda mão
Rolão Preto não lia russo nem teve acesso às colecções da Pravda ou do Troud. O capítulo é montado sobre um ou mais repertórios ocidentais de citações da imprensa soviética. Os indícios internos são de duas ordens:
- Camada francesa. Transliterações à francesa (Troud, Izvestia, Krasnaia, Jizn, pouds, pionniers), termos deixados em francês («souple», souplesse, croquis, pendant, Athee por L’Athée, isto é, o Bezbojnik), e o galicismo institucional «C.G.T. soviética» para o Conselho Central dos Sindicatos.
- Camada castelhana. «Bujarin» (grafia espanhola de Bukharine, quando noutro passo se lê «Tomski», «Lunatcharski»), «enfermos», «vivenda» no sentido de alojamento, «obreira», «asilos da noite», «embaratecerem». Sugerem que pelo menos parte do material chegou por tradução espanhola.
Há, porém, um limite cronológico que obriga a supor uma segunda fonte: a trilogia saiu em Outubro de 1929 e o capítulo cita a Pravda de Abril, Maio, Junho, Julho e Novembro de 1930 e a «Vida Económica de Janeiro de 1930». As citações de 1930 (sobretudo em «A vida política» e «Habitações operárias») vêm de outro lado. Candidatos plausíveis: os boletins e brochuras da Entente internationale contre la IIIe Internationale (Théodore Aubert, Genebra), muito difundidos nos meios nacionalistas europeus; o semanário La Russie opprimée (Paris, 1926-1933, dirigido por Kerenski), que fazia revista da imprensa soviética; ou artigos da imprensa francesa e espanhola de 1930-1931 alimentados por essas agências. O terminus post quem da redacção é Novembro de 1930 (Pravda sobre Riazan).
Um pormenor confirma que o autor não controlava as fontes primárias: o mesmo jornal aparece com dois nomes — Economitcheskaia Jizu [Jizn] e, traduzido, Vida Económica — como se fossem dois títulos, o que acontece quando se copiam repertórios diferentes.
Sobre o valor deste tipo de prova, duas observações. Por um lado, o género das citações é autêntico: a partir de 1928 o regime promoveu a campanha de «autocrítica» (samokritika) e a imprensa encheu-se de denúncias de burocratas, cooperativas, comités de fábrica e administrações de habitação — foi exactamente esse filão que Souvarine e outros exploraram. Por outro lado, a denúncia jornalística de casos é prova de existência, não de frequência: a passagem do episódio («em G.», «na fábrica X») ao juízo universal («falhou em tudo») é salto retórico. E há um efeito de distorção na cadeia de transmissão (russo → francês → castelhano → português), visível nos nomes próprios e em alguns números.
4. Verificação histórica
Juízo: Confirmado — corresponde ao que a historiografia estabelece; Verosímil — coerente com o conhecido, mas não verifiquei a citação na fonte primária. Nenhuma das citações da imprensa soviética foi por mim conferida no original russo; o que se verifica é a consistência dos factos, instituições, pessoas e datas.
19.09.2026
J. M. Q.
O COMUNISMO E OS FACTOS
[Por Rolão Preto in Para além do Comunismo ]
Conta-se que Lenine, à hora de morrer, os olhos tristes de oriental, oblíquos e misteriosos, fixos no céu azul, onde voavam já presságios de agonia, teria dito a sua mulher e para o círculo estreito dos amigos que o choravam em silêncio:
– Porque não morri eu na Suíça…
A desilusão de Lenine era profunda e triste como um remorso. Já antes ele o manifestara desoladamente, queixando-se de que os homens e os factos destruíam a doutrina…
Hoje, o caminho andado é ainda mais concludente. O balanço das experiências comunistas, segundo a interpretação soviética, é, na verdade, desastroso e trágico. E, todavia, nunca no mundo das realizações político-sociais se tentou alguma coisa com as possibilidades e os meios de acção de que dispunham os homens que instauraram o bolchevismo sobre as ruínas da Rússia dos Czares. Tudo, em verdade, os favoreceu. O meio cultural e moral predisposto para todas as reformas, a rápida paixão e morte da oposição, a força indefectível de um corpo pretoriano bem armado e bem pago, tendo em suas mãos o monopólio das armas e das benesses do Estado; a alavanca poderosa da mística revolucionária, criada através de uma larga e longa sementeira de ódios e desesperanças, feita pelos apóstolos de todas as quimeras e de todas as ideologias socialistas: tudo o que dependia do cálculo e da energia dos homens, os bolcheviques tinham de seu lado.
Decerto, o próprio Marx, quando sonhou as possibilidades da Revolução, nunca pôde prever as condições tão extraordinariamente propícias em que se desenvolveria a acção do maximalismo social russo.
Apesar disso, o marxismo – todos hoje o verificam, a começar em Estaline – faliu. Os factos condenam-no. Os factos falam alto.
Serenamente pesados, sem reserva nem intenção partidária, imprópria de homens modernos que somos, e que, cansados de ruínas e de ilusões, procuramos a verdade qualquer que ela seja, para com ela construir solidamente o futuro – os factos são contra o marxismo tentado na Rússia, atestando de uma maneira definitiva a sua falência no campo da moral social e da economia colectiva, e ainda a sua impotência largamente demonstrada em conseguir para o homem um maior quinhão de felicidade sobre a Terra.
Não contam os factos? Nem ao menos provam a contradição amarga entre o sonho dos homens e a própria realidade? Não são os marxistas, todavia, que podem desdenhar do valor positivo dos factos. Que ficaria então do edifício famoso que é o materialismo da História, erguido pelas mãos de Marx, para base segura de toda a crítica revolucionária?
Evidentemente, eles não têm valor absoluto e irrevogável. Cumpre, porém, aos homens de boa vontade entender o sentido profundo que se tira da sua lição, tantas vezes decisiva. Os factos são balizas indestrutíveis e claras que marcam o caminho por onde a Ideia, ao contacto da realidade, vai esfarrapando a sua túnica gloriosa… ou colhendo os louros da gratidão dos homens.
Na Rússia, a revolução comunista há muito perdeu o seu belo manto de púrpura.
Vamos ver, em rápido resumo, feito com os depoimentos dos próprios responsáveis ou das suas vítimas, como ela, hedionda e coberta de andrajos, vai arrastando o seu trágico fadário, negando-se, contradizendo-se, sem fé em si própria, reduzida à função infame de qualquer tirania asiática que se mantém como um peso, como uma maldição, sobre um povo inteiro.
– Porque não morri eu na Suíça…
A desilusão de Lenine era profunda e triste como um remorso. Já antes ele o manifestara desoladamente, queixando-se de que os homens e os factos destruíam a doutrina…
Hoje, o caminho andado é ainda mais concludente. O balanço das experiências comunistas, segundo a interpretação soviética, é, na verdade, desastroso e trágico. E, todavia, nunca no mundo das realizações político-sociais se tentou alguma coisa com as possibilidades e os meios de acção de que dispunham os homens que instauraram o bolchevismo sobre as ruínas da Rússia dos Czares. Tudo, em verdade, os favoreceu. O meio cultural e moral predisposto para todas as reformas, a rápida paixão e morte da oposição, a força indefectível de um corpo pretoriano bem armado e bem pago, tendo em suas mãos o monopólio das armas e das benesses do Estado; a alavanca poderosa da mística revolucionária, criada através de uma larga e longa sementeira de ódios e desesperanças, feita pelos apóstolos de todas as quimeras e de todas as ideologias socialistas: tudo o que dependia do cálculo e da energia dos homens, os bolcheviques tinham de seu lado.
Decerto, o próprio Marx, quando sonhou as possibilidades da Revolução, nunca pôde prever as condições tão extraordinariamente propícias em que se desenvolveria a acção do maximalismo social russo.
Apesar disso, o marxismo – todos hoje o verificam, a começar em Estaline – faliu. Os factos condenam-no. Os factos falam alto.
Serenamente pesados, sem reserva nem intenção partidária, imprópria de homens modernos que somos, e que, cansados de ruínas e de ilusões, procuramos a verdade qualquer que ela seja, para com ela construir solidamente o futuro – os factos são contra o marxismo tentado na Rússia, atestando de uma maneira definitiva a sua falência no campo da moral social e da economia colectiva, e ainda a sua impotência largamente demonstrada em conseguir para o homem um maior quinhão de felicidade sobre a Terra.
Não contam os factos? Nem ao menos provam a contradição amarga entre o sonho dos homens e a própria realidade? Não são os marxistas, todavia, que podem desdenhar do valor positivo dos factos. Que ficaria então do edifício famoso que é o materialismo da História, erguido pelas mãos de Marx, para base segura de toda a crítica revolucionária?
Evidentemente, eles não têm valor absoluto e irrevogável. Cumpre, porém, aos homens de boa vontade entender o sentido profundo que se tira da sua lição, tantas vezes decisiva. Os factos são balizas indestrutíveis e claras que marcam o caminho por onde a Ideia, ao contacto da realidade, vai esfarrapando a sua túnica gloriosa… ou colhendo os louros da gratidão dos homens.
Na Rússia, a revolução comunista há muito perdeu o seu belo manto de púrpura.
Vamos ver, em rápido resumo, feito com os depoimentos dos próprios responsáveis ou das suas vítimas, como ela, hedionda e coberta de andrajos, vai arrastando o seu trágico fadário, negando-se, contradizendo-se, sem fé em si própria, reduzida à função infame de qualquer tirania asiática que se mantém como um peso, como uma maldição, sobre um povo inteiro.
A VIDA POLÍTICA
O Comunismo integral soviético seria a realização suprema do marxismo. Ditadura na engrenagem política, democracia no trabalho. As massas operárias, e só essas, impondo o seu critério nivelador. Igualização absoluta de direitos. Morte a todos os privilégios.
Os trabalhadores, a quem o materialismo da história garantia enfim a vitória, viam definitivamente triunfantes as suas aspirações e constituíam a única expressão política da Nação e do Estado.
Os conselhos de operários, delegação sagrada dos seus camaradas da oficina e da terra, eram a suprema consagração da verdadeira representação e da justiça.
– Esta era a ilusão. A verdade é outra. A verdade é que num país de cento e cinquenta milhões de habitantes só tem direitos políticos, vontade política, comando político, um grupo, um partido, uma coteje, o chamado partido comunista. O partido ocupa as posições vitais do regime e tem nas suas mãos a indústria, a banca, a imprensa, o exército, a polícia, os celeiros, as habitações, as minas, os transportes – tudo. São 1.400.000 os inscritos no partido que tudo manda, tudo dirige. São eles os únicos que têm representação política, são eles que formam a vasta burocracia soviética. Há quem se não resigne? Tira-se-lhe o pão, tira-se-lhe o alojamento. Insiste no seu protesto? Logo se lhe tapa a boca com a Sibéria ou com a morte.
É Tomski, presidente do conselho central dos sindicatos vermelhos, quem melhor define a situação nestas linhas cínicas do Troud, de 13 de Novembro de 1927: «A diferença essencial entre a existência dos partidos no Ocidente e no nosso país é que a única possibilidade aqui é a seguinte: um partido no Poder, todos os outros na cadeia.»
Não há vida política. Há uma vasta, uma poderosa engrenagem que algema a Rússia e que tem por chefe um ditador inabalável, o secretário do Partido, e por agente o partido comunista.
É a pirâmide famosa: o secretariado do Partido designa delegados seus que, por uma série de manobras, estabelecem o jogo de vários comités, comissões, politbureau, ordebureau, locais, distritais e nacionais, mantendo assim nas mãos do secretariado todos os fios do verdadeiro governo da Rússia. Paralelamente, e só aparentemente, para se darem ares de se conformar com a doutrina de uma Constituição, existem os sovietes locais, distritais e nacionais, a que uma mistificação eleitoral dá foros de representantes do povo.
De facto quem manda é o partido através da sua organização. É ele quem designa os candidatos a propor e a eleger para os sovietes. Só os do partido falam, só eles podem indicar o caminho; todos os outros trabalhadores, nas fábricas, no campo, na vida da aldeia, ouvem e votam como lhes é ordenado.
Em Tver, como numa reunião se esboçasse resistência às ordens do chefe da célula comunista, a milícia entra em cena e, diz a Pravda de 4 de Abril de 1930: «Os assistentes escutaram a indicação e votaram mecanicamente.» «Não se trata de direcção mas de pressão», afirma ainda a Pravda. Noutra reunião, depois de se ouvir o presidente, que propõe determinados candidatos, como se pretende discutir, o mesmo presidente não aceita discussão e impõe os candidatos. Os operários clamam: «Para que nos chamaram? Tanto faz que a gente venha como não» (Pravda de 23 de Abril do mesmo ano). Em Ekaterinoslav alguém pergunta aos operários em assembleia: «Por que vos calais?» Um operário responde: «Calam-se e fazem bem, pois nenhum quer perder o seu trabalho» (Pravda de 12 de Maio de 1928).
«Para que vamos às reuniões operárias?», dizem os operários convocados para a eleição dos comités de fábrica. «Tudo já foi decidido de antemão pelo Partido» (Pravda de 13 de Maio de 1928).
Em Moscovo, depois de uma votação unânime contra determinada lista apresentada pelo secretário de uma célula é ela que é aprovada e considerada eleita.
A Pravda de 21 de Julho da 1930 resume: «Há muito tempo que os operários que assistem às reuniões não fazem mais do que calar-se e votar.» O Troud, de 16 de Outubro, depois de afirmar a repugnância dos operários em assistir às reuniões e em pronunciar-se por temerem perder o seu pão ou a sua habitação, conta como na fábrica Proletário Vermelho é preciso agarrar os operários e à força reuni-los. Em Pskov, os operários numa reunião, ao verem a porta aberta, fogem. Os oradores são previamente designados e estes são os únicos que em geral assistem.
Zoritch conta como se opera em geral: «Não há oposição, camaradas – não? Unanimidade menos uma abstenção. O camarada que se absteve fica convidado a vir ver-me depois da reunião…»
Assim os operários agrícolas de Karkov dizem: «Temos medo», e os de Srvidlosvk: «O meu vizinho que faça críticas se quer; eu não, que estou casado e não quero ficar sem trabalho» (Krasnaia Gazeta).
Tal é em pequena amostra a vida política do marxismo na Rússia. Tais são os seus métodos e tais são as condições criadas à representação política do proletariado. Por isso a Ditadura do Proletariado é chamada justamente, na Rússia, Ditadura do Secretariado.
Os trabalhadores, a quem o materialismo da história garantia enfim a vitória, viam definitivamente triunfantes as suas aspirações e constituíam a única expressão política da Nação e do Estado.
Os conselhos de operários, delegação sagrada dos seus camaradas da oficina e da terra, eram a suprema consagração da verdadeira representação e da justiça.
– Esta era a ilusão. A verdade é outra. A verdade é que num país de cento e cinquenta milhões de habitantes só tem direitos políticos, vontade política, comando político, um grupo, um partido, uma coteje, o chamado partido comunista. O partido ocupa as posições vitais do regime e tem nas suas mãos a indústria, a banca, a imprensa, o exército, a polícia, os celeiros, as habitações, as minas, os transportes – tudo. São 1.400.000 os inscritos no partido que tudo manda, tudo dirige. São eles os únicos que têm representação política, são eles que formam a vasta burocracia soviética. Há quem se não resigne? Tira-se-lhe o pão, tira-se-lhe o alojamento. Insiste no seu protesto? Logo se lhe tapa a boca com a Sibéria ou com a morte.
É Tomski, presidente do conselho central dos sindicatos vermelhos, quem melhor define a situação nestas linhas cínicas do Troud, de 13 de Novembro de 1927: «A diferença essencial entre a existência dos partidos no Ocidente e no nosso país é que a única possibilidade aqui é a seguinte: um partido no Poder, todos os outros na cadeia.»
Não há vida política. Há uma vasta, uma poderosa engrenagem que algema a Rússia e que tem por chefe um ditador inabalável, o secretário do Partido, e por agente o partido comunista.
É a pirâmide famosa: o secretariado do Partido designa delegados seus que, por uma série de manobras, estabelecem o jogo de vários comités, comissões, politbureau, ordebureau, locais, distritais e nacionais, mantendo assim nas mãos do secretariado todos os fios do verdadeiro governo da Rússia. Paralelamente, e só aparentemente, para se darem ares de se conformar com a doutrina de uma Constituição, existem os sovietes locais, distritais e nacionais, a que uma mistificação eleitoral dá foros de representantes do povo.
De facto quem manda é o partido através da sua organização. É ele quem designa os candidatos a propor e a eleger para os sovietes. Só os do partido falam, só eles podem indicar o caminho; todos os outros trabalhadores, nas fábricas, no campo, na vida da aldeia, ouvem e votam como lhes é ordenado.
Em Tver, como numa reunião se esboçasse resistência às ordens do chefe da célula comunista, a milícia entra em cena e, diz a Pravda de 4 de Abril de 1930: «Os assistentes escutaram a indicação e votaram mecanicamente.» «Não se trata de direcção mas de pressão», afirma ainda a Pravda. Noutra reunião, depois de se ouvir o presidente, que propõe determinados candidatos, como se pretende discutir, o mesmo presidente não aceita discussão e impõe os candidatos. Os operários clamam: «Para que nos chamaram? Tanto faz que a gente venha como não» (Pravda de 23 de Abril do mesmo ano). Em Ekaterinoslav alguém pergunta aos operários em assembleia: «Por que vos calais?» Um operário responde: «Calam-se e fazem bem, pois nenhum quer perder o seu trabalho» (Pravda de 12 de Maio de 1928).
«Para que vamos às reuniões operárias?», dizem os operários convocados para a eleição dos comités de fábrica. «Tudo já foi decidido de antemão pelo Partido» (Pravda de 13 de Maio de 1928).
Em Moscovo, depois de uma votação unânime contra determinada lista apresentada pelo secretário de uma célula é ela que é aprovada e considerada eleita.
A Pravda de 21 de Julho da 1930 resume: «Há muito tempo que os operários que assistem às reuniões não fazem mais do que calar-se e votar.» O Troud, de 16 de Outubro, depois de afirmar a repugnância dos operários em assistir às reuniões e em pronunciar-se por temerem perder o seu pão ou a sua habitação, conta como na fábrica Proletário Vermelho é preciso agarrar os operários e à força reuni-los. Em Pskov, os operários numa reunião, ao verem a porta aberta, fogem. Os oradores são previamente designados e estes são os únicos que em geral assistem.
Zoritch conta como se opera em geral: «Não há oposição, camaradas – não? Unanimidade menos uma abstenção. O camarada que se absteve fica convidado a vir ver-me depois da reunião…»
Assim os operários agrícolas de Karkov dizem: «Temos medo», e os de Srvidlosvk: «O meu vizinho que faça críticas se quer; eu não, que estou casado e não quero ficar sem trabalho» (Krasnaia Gazeta).
Tal é em pequena amostra a vida política do marxismo na Rússia. Tais são os seus métodos e tais são as condições criadas à representação política do proletariado. Por isso a Ditadura do Proletariado é chamada justamente, na Rússia, Ditadura do Secretariado.
VIDA SINDICAL E COOPERATIVAS
Os sindicatos comunistas russos são uma ficção sob o ponto de vista da organização operária. Os operários são sindicados à força, pois nas empresas só são aceites depois da matrícula no sindicato. A sua acção limita-se, porém, a pagar as quotas. Quem tudo resolve por eles, quem tudo decide e comanda é a engrenagem burocrática. Esta é simplesmente assombrosa. Segundo o Troud, só no sindicato dos metalúrgicos de Moscovo há 700 funcionários para 13.000 cadernetas sindicais. Dogadov declarou no conselho central dos Sindicatos que no orçamento da C.G.T. soviética os funcionários absorvem 40% das despesas, sendo estas de 70 milhões de rublos. O «Vestnik Troud», de 10 de Fevereiro de 1926, dá as reuniões dos sindicatos «muito pouco concorridas», assim como a falta de interesse dos operários por estas reuniões. O Troud de 20 de Março de 1929 afirma que em Kiev se averiguou que «os sindicatos nada têm de comum com os sindicados». Também o mesmo Troud, de 28 de Março de 1927, proclama «que as decisões são adoptadas pelos órgãos executivos, sem contar para nada com os sindicados». Segundo ele, ainda o tempo passado em reuniões (de sindicatos) é tempo perdido. A Pravda de Setembro concede que os sindicatos «não compreendem a época histórica actual, separam-se das massas, trabalham deficientemente», etc.
A burocracia sindical entrega-se à «alta política» e abandona a protecção ao trabalho (Troud de Março de 1929).
Já se verificou que o Estado comunista se mostra impotente para organizar a vida política e a representação política do proletariado. Passemos agora à vida sindical. Não há vida sindical propriamente dita. Os sindicatos são clubes políticos onde pontificam sobre os mais altos problemas da política russa e internacional alguns milhares de funcionários bem pagos, bem comidos, bem alojados. Os únicos que, na verdade, na Rússia comunista, estão nestas privilegiadas condições.
As cooperativas, complemento directo e indispensável de uma economia moderna e de uma economia operária, são por outro lado na Rússia uma grande chaga, cancro que ajuda à agonia das classes trabalhadoras. Também neste aspecto a falência do Estado comunista é definitiva. O salário, que em parte se funda e regula pelo custo da vida, e que portanto depende directamente das cooperativas, tem nestas não um auxiliar e um benefício, mas um inimigo.
Obriga-se o cliente a comprar o que não necessita e não se lhe vende o que precisa, diz a Pravda de 26 de Março de 1927. Na cooperativa Amo, de Moscovo, as mercadorias são de má qualidade e os géneros por vezes podres e ficam mais caros que em qualquer outra parte (Pravda, Junho). Em Donetz, umas vezes não há produtos de primeira necessidade, outras vezes há, mas são péssimos; o pão não é pão e a carne não é carne (Pravda, Setembro). «Porque não se importam com as cooperativas os operários?», pergunta a Pravda de 30 de Setembro do mesmo ano, e explica o caso pela intervenção dos comunistas que põem à frente delas os seus homens de confiança, os quais nada sabem fazer. Nessa conferência cooperativista verifica-se que os preços dos géneros são tão elevados que fazem diminuir os salários em 8% (Pravda, 26 de Abril). A administração das cooperativas é uma vergonha para o regime. Num ano, os roubos do pessoal dirigente elevaram-se a 5.323.000 rublos (Torgovo Promycehlenaia Gazeta, Maio de 1926). Tanto rouba o pessoal em Leninegrado como em Jaroslov (Rabotchaia Gazeta, Junho). Como o Estado lhes assegura pela força o monopólio da venda a retalho, os dirigentes das cooperativas entregam-se a um mercantilismo sem freio, explorando os pobres e fazendo lucros de 200 a 100%, empregando os piores processos capitalistas (Pravda, Fevereiro de 1927). Os clientes operários são recebidos nas cooperativas como cães; os empregados são arrogantes e grosseiros, é preciso fazer bicha para receber géneros (Troud, Agosto de 1927). Os fundos das cooperativas são desbaratados pelo pessoal de mais de metade (Krasnaia Gazeta, Novembro de 1928). Registam-se roubos em Saratovo, em Estalinegrado, em Rostovo e em toda a parte (Pravda, Janeiro de 1929).
Tal é, a traços rápidos, o quadro miserável. E para isto gasta o Estado comunista com os 400.000 funcionários empregados nas cooperativas 90 milhões de rublos. A desordem, o roubo, o desbarato, eis a obra do Estado na administração das cooperativas. Só nas cooperativas de Moscovo, em 1927, o deficit foi de 234.000 rublos. E para quê? Para os géneros, em lugar de embaratecerem, ficarem mais caros. A diferença entre os preços de compra e os preços de venda por essa causa, afirma-o a Vida Económica de Janeiro de 1930, «é superior a 93% daquela que havia antes da Guerra para os trigos; 130% para os ovos; 123% para a manteiga», etc.
Haverá, porventura, em qualquer país capitalista uma tão absoluta falência do cooperativismo?
A burocracia sindical entrega-se à «alta política» e abandona a protecção ao trabalho (Troud de Março de 1929).
Já se verificou que o Estado comunista se mostra impotente para organizar a vida política e a representação política do proletariado. Passemos agora à vida sindical. Não há vida sindical propriamente dita. Os sindicatos são clubes políticos onde pontificam sobre os mais altos problemas da política russa e internacional alguns milhares de funcionários bem pagos, bem comidos, bem alojados. Os únicos que, na verdade, na Rússia comunista, estão nestas privilegiadas condições.
As cooperativas, complemento directo e indispensável de uma economia moderna e de uma economia operária, são por outro lado na Rússia uma grande chaga, cancro que ajuda à agonia das classes trabalhadoras. Também neste aspecto a falência do Estado comunista é definitiva. O salário, que em parte se funda e regula pelo custo da vida, e que portanto depende directamente das cooperativas, tem nestas não um auxiliar e um benefício, mas um inimigo.
Obriga-se o cliente a comprar o que não necessita e não se lhe vende o que precisa, diz a Pravda de 26 de Março de 1927. Na cooperativa Amo, de Moscovo, as mercadorias são de má qualidade e os géneros por vezes podres e ficam mais caros que em qualquer outra parte (Pravda, Junho). Em Donetz, umas vezes não há produtos de primeira necessidade, outras vezes há, mas são péssimos; o pão não é pão e a carne não é carne (Pravda, Setembro). «Porque não se importam com as cooperativas os operários?», pergunta a Pravda de 30 de Setembro do mesmo ano, e explica o caso pela intervenção dos comunistas que põem à frente delas os seus homens de confiança, os quais nada sabem fazer. Nessa conferência cooperativista verifica-se que os preços dos géneros são tão elevados que fazem diminuir os salários em 8% (Pravda, 26 de Abril). A administração das cooperativas é uma vergonha para o regime. Num ano, os roubos do pessoal dirigente elevaram-se a 5.323.000 rublos (Torgovo Promycehlenaia Gazeta, Maio de 1926). Tanto rouba o pessoal em Leninegrado como em Jaroslov (Rabotchaia Gazeta, Junho). Como o Estado lhes assegura pela força o monopólio da venda a retalho, os dirigentes das cooperativas entregam-se a um mercantilismo sem freio, explorando os pobres e fazendo lucros de 200 a 100%, empregando os piores processos capitalistas (Pravda, Fevereiro de 1927). Os clientes operários são recebidos nas cooperativas como cães; os empregados são arrogantes e grosseiros, é preciso fazer bicha para receber géneros (Troud, Agosto de 1927). Os fundos das cooperativas são desbaratados pelo pessoal de mais de metade (Krasnaia Gazeta, Novembro de 1928). Registam-se roubos em Saratovo, em Estalinegrado, em Rostovo e em toda a parte (Pravda, Janeiro de 1929).
Tal é, a traços rápidos, o quadro miserável. E para isto gasta o Estado comunista com os 400.000 funcionários empregados nas cooperativas 90 milhões de rublos. A desordem, o roubo, o desbarato, eis a obra do Estado na administração das cooperativas. Só nas cooperativas de Moscovo, em 1927, o deficit foi de 234.000 rublos. E para quê? Para os géneros, em lugar de embaratecerem, ficarem mais caros. A diferença entre os preços de compra e os preços de venda por essa causa, afirma-o a Vida Económica de Janeiro de 1930, «é superior a 93% daquela que havia antes da Guerra para os trigos; 130% para os ovos; 123% para a manteiga», etc.
Haverá, porventura, em qualquer país capitalista uma tão absoluta falência do cooperativismo?
HABITAÇÕES OPERÁRIAS
Também neste capítulo as condições criadas ou mantidas pelos métodos da administração e previdência do Estado Marxista são concludentes.
Enquanto os chefes do partido se alojam principescamente no Kremlin ou nos palácios imperiais e particulares confiscados pela revolução proletária; enquanto outros ilustres privilegiados da burocracia soviética têm bons chalés e boas vilas na Suíça, na Itália e em Nice; enquanto a estes nada falta, veja-se como o proletariado, emancipado e feliz na sua república operária e comunista, está entregue ao mais desesperado e negro abandono.
São «eles» ainda que depõem, e só alguns ao acaso; que o clamor de todos enche volumes de inquéritos pesados e trágicos como túmulos.
Nas minas de ouro do Lena, escreve-se na Pravda de 27 de Maio de 1930, «os operários vivem tristemente em grandes buracos no chão, sem luz, casados e solteiros juntos. A maior parte não tem colchões, dorme vestida no chão». Na fábrica Revolução de Outubro, «as famílias operárias dormem em esteiras, duas famílias em cada compartimento. Os operários solteiros, por nem isso terem, dormem na estação do caminho-de-ferro» (Pravda, Junho de 1930). Na fábrica Rosa Vermelha, «as famílias operárias vivem com pequenos de peito em covas húmidas» (Pravda, idem).
Também na Pravda, de 24 de Junho do mesmo ano, se descreve nestes termos o alojamento dos operários municipais de Moscovo e suas famílias: «Três homens dormem num mesmo leito. Alguns no chão, nos corredores e debaixo das camas. Também dormem à porta quando o tempo o permite. As mulheres dormindo com os homens no dormitório comum. A entrada está convertida em latrina. O resultado é 80% dos operários estarem atingidos pela tuberculose.»
Na fábrica Z. Ivanovo Vosnessenk «em cubículos vivem famílias de 15 pessoas. Uma obreira com três filhos ocupa uma retrete. Muitos operários dormem nos telheiros em covas. Uma operária com dois filhos foi posta na rua» (Pravda, 13 de Setembro). O camarada Semachko, comissário da Higiene, escreve na Pravda de 25 de Março de 1929: «35% dos operários vive em grupos de seis e mais em cada compartimento. Uma inspecção de 79 empresas de um só bairro de Moscovo revela que de 1.585 adolescentes, 1.120 estão doentes.» Segundo o Troud de 2 de Julho de 1929, mais de metade dos adolescentes está tuberculosa. Na fábrica Krasny Perekoy estão doentes seiscentos aprendizes (Pravda das Juventudes, 28 de Outubro de 1928).
A Krasnaia Gazeta de 15 de Abril de 1926 pergunta se «pode chamar-se comunista uma situação em que a estreiteza dos alojamentos obriga os pais a satisfazer as suas necessidades sexuais diante dos filhos!»
Um mineiro escreve: «Na nossa casa é impossível descansar ou lavar-se a gente. Em todas as nossas barracas não há um colchão. Dorme-se no chão, vestido. Se chove, podemos nadar. Quando nos levantamos, estamos mais fatigados do que ao deitar» (Pravda das Juventudes, 14 de Abril de 1929).
O mal vai, de resto, a pior… A desordem, a incompetência, o desleixo do Estado comunista quando se resolve a construir casas operárias é só por si uma prova concludente da falência do sistema: «Próximo da fábrica T. Ural construíram-se casas operárias. No mesmo ano estavam carcomidas. A chuva atravessava os tectos, etc.» (Pravda, 20 de Novembro). «Em Zatlonst, os fundos destinados a construções foram delapidados e as casas ficaram em ruínas» (Pravda, 15 de Dezembro). «Há casas que se tornam inabitáveis ao cabo de alguns meses. Em Donetz teve que se introduzir grandes reparações ao cabo de 2 anos. Em G., ao cabo de um ano» (Troud, 20 de Abril de 1927). Um inquérito «revela que 90% das novas casas são de madeira e não obedecem a planos nem inspecções alguns, tendo-se gasto com elas rios de dinheiro» (Troud, 7 de Julho de 1927). Em Karkou «construíram-se dezenas de casas, mas todo um bairro está já a cair. O tecto e as paredes completamente gretadas. As portas e as janelas partidas e arrancadas. Há infiltrações de água. Os materiais estão podres» (Izvestia, 21de Agosto de 1927). «A fábrica Comuna de Paris construiu-se numa casa em 1927, em 1928 está já em completa ruína» (Pravda, Julho de 1929). «A cooperativa operária e empregados da Electrobank constroem uma casa de três andares que acto contínuo se desmorona» (idem, idem).
As casas feitas pelos serviços do regime atestam singularmente a incapacidade dos seus dirigentes. Segundo o Troud de 25 de Julho de 1929, «as casas constroem-se sem planos e sem orçamentos: ao calhar, e, apenas terminadas, necessitam reparações: às vezes intervêm nas obras oito organizações; voltam a repetir-se os mesmos erros do ano anterior».
A Pravda de 16 de Maio 1928 publicava o croquis de uma casa construída pela Textilstroi: o tecto aparecia levantado e as paredes separadas vários metros por uma árvore que se deixara crescer no meio do prédio.
Nos planos oficiais soviéticos reduziu-se a três metros quadrados o tamanho dos alojamentos para uma família. E a menos ainda para um estudante. Na Rússia, por esse motivo, as casas feitas pelo regime são chamadas ataúdes. Claro que há na Rússia também boas casas, casas modernas, confortáveis e bonitas, mas essas são para os funcionários, para os privilegiados do regime.
Enquanto os chefes do partido se alojam principescamente no Kremlin ou nos palácios imperiais e particulares confiscados pela revolução proletária; enquanto outros ilustres privilegiados da burocracia soviética têm bons chalés e boas vilas na Suíça, na Itália e em Nice; enquanto a estes nada falta, veja-se como o proletariado, emancipado e feliz na sua república operária e comunista, está entregue ao mais desesperado e negro abandono.
São «eles» ainda que depõem, e só alguns ao acaso; que o clamor de todos enche volumes de inquéritos pesados e trágicos como túmulos.
Nas minas de ouro do Lena, escreve-se na Pravda de 27 de Maio de 1930, «os operários vivem tristemente em grandes buracos no chão, sem luz, casados e solteiros juntos. A maior parte não tem colchões, dorme vestida no chão». Na fábrica Revolução de Outubro, «as famílias operárias dormem em esteiras, duas famílias em cada compartimento. Os operários solteiros, por nem isso terem, dormem na estação do caminho-de-ferro» (Pravda, Junho de 1930). Na fábrica Rosa Vermelha, «as famílias operárias vivem com pequenos de peito em covas húmidas» (Pravda, idem).
Também na Pravda, de 24 de Junho do mesmo ano, se descreve nestes termos o alojamento dos operários municipais de Moscovo e suas famílias: «Três homens dormem num mesmo leito. Alguns no chão, nos corredores e debaixo das camas. Também dormem à porta quando o tempo o permite. As mulheres dormindo com os homens no dormitório comum. A entrada está convertida em latrina. O resultado é 80% dos operários estarem atingidos pela tuberculose.»
Na fábrica Z. Ivanovo Vosnessenk «em cubículos vivem famílias de 15 pessoas. Uma obreira com três filhos ocupa uma retrete. Muitos operários dormem nos telheiros em covas. Uma operária com dois filhos foi posta na rua» (Pravda, 13 de Setembro). O camarada Semachko, comissário da Higiene, escreve na Pravda de 25 de Março de 1929: «35% dos operários vive em grupos de seis e mais em cada compartimento. Uma inspecção de 79 empresas de um só bairro de Moscovo revela que de 1.585 adolescentes, 1.120 estão doentes.» Segundo o Troud de 2 de Julho de 1929, mais de metade dos adolescentes está tuberculosa. Na fábrica Krasny Perekoy estão doentes seiscentos aprendizes (Pravda das Juventudes, 28 de Outubro de 1928).
A Krasnaia Gazeta de 15 de Abril de 1926 pergunta se «pode chamar-se comunista uma situação em que a estreiteza dos alojamentos obriga os pais a satisfazer as suas necessidades sexuais diante dos filhos!»
Um mineiro escreve: «Na nossa casa é impossível descansar ou lavar-se a gente. Em todas as nossas barracas não há um colchão. Dorme-se no chão, vestido. Se chove, podemos nadar. Quando nos levantamos, estamos mais fatigados do que ao deitar» (Pravda das Juventudes, 14 de Abril de 1929).
O mal vai, de resto, a pior… A desordem, a incompetência, o desleixo do Estado comunista quando se resolve a construir casas operárias é só por si uma prova concludente da falência do sistema: «Próximo da fábrica T. Ural construíram-se casas operárias. No mesmo ano estavam carcomidas. A chuva atravessava os tectos, etc.» (Pravda, 20 de Novembro). «Em Zatlonst, os fundos destinados a construções foram delapidados e as casas ficaram em ruínas» (Pravda, 15 de Dezembro). «Há casas que se tornam inabitáveis ao cabo de alguns meses. Em Donetz teve que se introduzir grandes reparações ao cabo de 2 anos. Em G., ao cabo de um ano» (Troud, 20 de Abril de 1927). Um inquérito «revela que 90% das novas casas são de madeira e não obedecem a planos nem inspecções alguns, tendo-se gasto com elas rios de dinheiro» (Troud, 7 de Julho de 1927). Em Karkou «construíram-se dezenas de casas, mas todo um bairro está já a cair. O tecto e as paredes completamente gretadas. As portas e as janelas partidas e arrancadas. Há infiltrações de água. Os materiais estão podres» (Izvestia, 21de Agosto de 1927). «A fábrica Comuna de Paris construiu-se numa casa em 1927, em 1928 está já em completa ruína» (Pravda, Julho de 1929). «A cooperativa operária e empregados da Electrobank constroem uma casa de três andares que acto contínuo se desmorona» (idem, idem).
As casas feitas pelos serviços do regime atestam singularmente a incapacidade dos seus dirigentes. Segundo o Troud de 25 de Julho de 1929, «as casas constroem-se sem planos e sem orçamentos: ao calhar, e, apenas terminadas, necessitam reparações: às vezes intervêm nas obras oito organizações; voltam a repetir-se os mesmos erros do ano anterior».
A Pravda de 16 de Maio 1928 publicava o croquis de uma casa construída pela Textilstroi: o tecto aparecia levantado e as paredes separadas vários metros por uma árvore que se deixara crescer no meio do prédio.
Nos planos oficiais soviéticos reduziu-se a três metros quadrados o tamanho dos alojamentos para uma família. E a menos ainda para um estudante. Na Rússia, por esse motivo, as casas feitas pelo regime são chamadas ataúdes. Claro que há na Rússia também boas casas, casas modernas, confortáveis e bonitas, mas essas são para os funcionários, para os privilegiados do regime.
TRABALHO DAS MULHERES E DOS MENORES
A impotência comunista em organizar um novo Estado político-social onde se reparassem os males da revolução industrial e consequente desequilíbrio trazido por ela à vida dos povos modernos, manifesta-se em todos os ramos da sua actividade, traduzindo-se na continuação ou no agravamento das grandes chagas.
Por sua mão nada vem melhorar: antes o desleixo se acentua sem desculpa nem atenuantes, pois ele é senhor absoluto do Estado e de todos os recursos da Nação.
O trabalho das mulheres e dos menores é hoje o alvo das atenções de todos os economistas, e em muitos países, como na América, na Alemanha, na Inglaterra, etc., se tem procurado atenuar os seus inconvenientes e reduzir o seu peso.
Na Rússia comunista, depois de larga experiência de ditadura, a vida das trabalhadoras e das crianças é cada vez mais dura e trágica.
Na Crimeia, escreve Seraffimovich no Troud de 26 de Março de 1926, as «raparigas empregadas nas plantações são obrigadas a dormir com os graduados que as empregam. Produzem-se abortos em massa e enfermidades sem número; são mal alimentadas e tratam-nas como gado».
Diz a Krasnaia Gazeta de 21 de Maio: «A falta de trabalho para as mulheres, a crise das casas, desenvolveu a prostituição, sobretudo a infantil. Multiplicaram-se as prostitutas de 14 anos, e isto tanto nas oficinas como nas escolas.»
Os suicídios das mulheres são constantes. A Pravda de 12 de Julho de 1929: «As pessoas como K. pesam as vidas das raparigas como coisas ligeiras. Nem sempre se chega ao suicídio, mas as mortes morais são de todos os dias. Não é um assassínio moral o facto de uma rapariga, aluna de uma Universidade, se ver obrigada a passar pela cama desse indivíduo K., que desempenha uma alta função na Universidade, se quer receber uma licença, uma bolsa de estudo, um bilhete de comboio, etc.?»
Em Garoslow, os dirigentes da fábrica comunista de álcool impõem o direito de dormir com as obreiras, despedindo-as quando já lhes não interessam. A Izvestia de 6 de Julho de 1929 cita casos vários de empregadas, enfermeiras e mestras que tiveram de se sujeitar às exigências sexuais dos seus superiores hierárquicos.
A condição dos menores é verdadeiramente desoladora.
Num regime para o qual não tem significado o casamento religioso e civil e em que as ligações dos pais são tão efémeras como o desejo sexual que as provocou, as crianças teriam o seu refúgio e a sua protecção natural e única no Estado. O abandono a que este Estado as vota é duplamente criminoso, perante a doutrina marxista que lhe entrega as crianças, como perante os deveres de simples humanidade.
Todos os viajantes que percorrem a Rússia ficam assombrados com as multidões de crianças que, semi-nuas, doentes, olhares atrevidos e envelhecidos, vagabundeiam nas ruas, pedindo, reclamando esmola. Todos relatam as cenas emocionantes de que são constante teatro as cidades e os campos sob o regime soviético. Lançadas à rua, abandonadas a si próprias como cães, as crianças são quem mais sofre no Estado comunista. É verdade que esse Estado pretende iludir a opinião estrangeira com a criação de casas da Infância onde recolhe os filhos dos trabalhadores. O que se passa, porém, nestas casas de assistência é horrível, e, como em todos os outros aspectos do regime, uma prova da sua impotência.
Na «província de Tula estas casas não têm higiene, amontoando-se as crianças; os alimentos são deploráveis, a instrução abaixo de tudo; reina a imoralidade no pessoal; em muitas destas casas as crianças são esfaqueadas, aterrorizadas, citam-se casos de violações de rapariguitas, e até um caso de revolta colectiva» (Pravda, Maio de 1929). Na colónia de crianças Varowski é ainda pior: sujidade repelente, piolhos, montes de resíduos, atmosfera pestilencial, amontoamento – duas e três crianças na mesma cama –, montes de excrementos nas casas; não há banhos nem roupas quentes, nem sapatos de Inverno (o Inverno russo!); em seis meses deram-se 3.096 casos de doença entre 352 crianças (Pravda das Juventudes n.º 149). No número 303 da Pravda das Juventudes descreve-se uma casa destas nas proximidades de Moscovo: «Em pleno Inverno as crianças andam semi-nuas, cheias de espinhas e de chagas; os doentes dormem no chão, não há médicos nem farmácia, sujidade, falta de água, a casa sem aquecimento, as crianças dormem fechadas e têm fome, o pessoal administrativo e pedagógico embebeda-se, delapida e rouba; os dirigentes são comunistas.» Em Novotchrerkask: «Quase todas as casas de crianças estão cheias de miséria, abarrotadas de crianças com tifo, tinha, etc. Em Rostovo os asilos convertem-se em ninho de banditismo se lhes não põem remédio» (Krasnaia Nov, Agosto de 1927). Perto de Moscovo, em Bechiaqui: o pessoal dá provas duma crueldade bestial; as crianças vivem na sujidade, passam frio e fome, «tratam-nas como resíduos humanos» (Pravda das Juventudes, Agosto de 1927). No Instituto de Educação das crianças abandonadas, estas, de ambos os sexos, embriagam-se, seguindo o exemplo que lhes dá o pessoal e que lhes inflige maus-tratos. Um rapaz enforcou-se e as raparigas tentaram suicidar-se (Izvestia, Junho de 1928). O asilo de Odessa «é uma escola de ladrões», lugar de corrupção e embriaguez; as crianças dormem no chão em lugar húmido e lôbrego; a secção de raparigas é um lugar de prostituição; em todos estes estabelecimentos as crianças são esfaqueadas diante dos olhos dos comunistas que o consentem; «tudo isto explica porque as crianças preferem a rua e a vagabundagem». E os casos multiplicam-se indefinidamente.
Tal é a situação das crianças em regime soviético. E o que é mais duro, é que há crianças privilegiadas e casas modelo: mas aquelas são para os filhos dos chefes comunistas e estas destinam-se às crianças dos dirigentes do Partido. Os filhos dos trabalhadores pertencem à grei. São por isso tratados como «detritos humanos». A casa de crianças de Malalckoska, nos arredores de Moscovo, e outras, são, ao contrário, excelentes. Os nobres Ditadores do Proletariado não sujeitariam os seus filhos à desgraça da plebe. Tal é o sentido da justiça comunista posta à prova.
Isto no que respeita à assistência à infância, num regime em que, não será demasiado repetir, pela sua essência as crianças são naturalmente abandonadas ao Estado que aboliu todas as obrigações religiosas e civis dos pais para com os filhos.
Mas o regime do trabalho em país comunista no que respeita a menores é também elucidativo:
Em 5.400.000 operários agrícolas, afirma um representante da Juventude comunista, 1.300.000 são menores e 639.000 têm entre onze e catorze anos, apesar da lei que o proíbe…
A imensa maioria dos menores trabalha dez a doze horas por dia (a lei das oito horas é só para os países capitalistas). Cerca de 34% dos menores trabalha mais de doze horas (Pravda das Juventudes, Junho de 1929). Na IV conferência das Juventudes comunistas, uma delegada dizia: «Por dolorosa que seja a verdade, o certo é que ninguém se preocupa com o trabalho dos menores. As cartas destes revelam factos que parecem incríveis na U.R.S.S. Há pionniers (membros da organização das crianças) que afirmam unanimemente que as crianças se vêem obrigadas a trabalhar catorze e dezasseis horas por dia, por um salário de dez rublos por mês» (Pravda das Juventudes).
Não acabaríamos mais na descrição das condições sinistras em que vivem as crianças em regime comunista.
Também aqui, pois, a falência é estrondosa.
Por sua mão nada vem melhorar: antes o desleixo se acentua sem desculpa nem atenuantes, pois ele é senhor absoluto do Estado e de todos os recursos da Nação.
O trabalho das mulheres e dos menores é hoje o alvo das atenções de todos os economistas, e em muitos países, como na América, na Alemanha, na Inglaterra, etc., se tem procurado atenuar os seus inconvenientes e reduzir o seu peso.
Na Rússia comunista, depois de larga experiência de ditadura, a vida das trabalhadoras e das crianças é cada vez mais dura e trágica.
Na Crimeia, escreve Seraffimovich no Troud de 26 de Março de 1926, as «raparigas empregadas nas plantações são obrigadas a dormir com os graduados que as empregam. Produzem-se abortos em massa e enfermidades sem número; são mal alimentadas e tratam-nas como gado».
Diz a Krasnaia Gazeta de 21 de Maio: «A falta de trabalho para as mulheres, a crise das casas, desenvolveu a prostituição, sobretudo a infantil. Multiplicaram-se as prostitutas de 14 anos, e isto tanto nas oficinas como nas escolas.»
Os suicídios das mulheres são constantes. A Pravda de 12 de Julho de 1929: «As pessoas como K. pesam as vidas das raparigas como coisas ligeiras. Nem sempre se chega ao suicídio, mas as mortes morais são de todos os dias. Não é um assassínio moral o facto de uma rapariga, aluna de uma Universidade, se ver obrigada a passar pela cama desse indivíduo K., que desempenha uma alta função na Universidade, se quer receber uma licença, uma bolsa de estudo, um bilhete de comboio, etc.?»
Em Garoslow, os dirigentes da fábrica comunista de álcool impõem o direito de dormir com as obreiras, despedindo-as quando já lhes não interessam. A Izvestia de 6 de Julho de 1929 cita casos vários de empregadas, enfermeiras e mestras que tiveram de se sujeitar às exigências sexuais dos seus superiores hierárquicos.
A condição dos menores é verdadeiramente desoladora.
Num regime para o qual não tem significado o casamento religioso e civil e em que as ligações dos pais são tão efémeras como o desejo sexual que as provocou, as crianças teriam o seu refúgio e a sua protecção natural e única no Estado. O abandono a que este Estado as vota é duplamente criminoso, perante a doutrina marxista que lhe entrega as crianças, como perante os deveres de simples humanidade.
Todos os viajantes que percorrem a Rússia ficam assombrados com as multidões de crianças que, semi-nuas, doentes, olhares atrevidos e envelhecidos, vagabundeiam nas ruas, pedindo, reclamando esmola. Todos relatam as cenas emocionantes de que são constante teatro as cidades e os campos sob o regime soviético. Lançadas à rua, abandonadas a si próprias como cães, as crianças são quem mais sofre no Estado comunista. É verdade que esse Estado pretende iludir a opinião estrangeira com a criação de casas da Infância onde recolhe os filhos dos trabalhadores. O que se passa, porém, nestas casas de assistência é horrível, e, como em todos os outros aspectos do regime, uma prova da sua impotência.
Na «província de Tula estas casas não têm higiene, amontoando-se as crianças; os alimentos são deploráveis, a instrução abaixo de tudo; reina a imoralidade no pessoal; em muitas destas casas as crianças são esfaqueadas, aterrorizadas, citam-se casos de violações de rapariguitas, e até um caso de revolta colectiva» (Pravda, Maio de 1929). Na colónia de crianças Varowski é ainda pior: sujidade repelente, piolhos, montes de resíduos, atmosfera pestilencial, amontoamento – duas e três crianças na mesma cama –, montes de excrementos nas casas; não há banhos nem roupas quentes, nem sapatos de Inverno (o Inverno russo!); em seis meses deram-se 3.096 casos de doença entre 352 crianças (Pravda das Juventudes n.º 149). No número 303 da Pravda das Juventudes descreve-se uma casa destas nas proximidades de Moscovo: «Em pleno Inverno as crianças andam semi-nuas, cheias de espinhas e de chagas; os doentes dormem no chão, não há médicos nem farmácia, sujidade, falta de água, a casa sem aquecimento, as crianças dormem fechadas e têm fome, o pessoal administrativo e pedagógico embebeda-se, delapida e rouba; os dirigentes são comunistas.» Em Novotchrerkask: «Quase todas as casas de crianças estão cheias de miséria, abarrotadas de crianças com tifo, tinha, etc. Em Rostovo os asilos convertem-se em ninho de banditismo se lhes não põem remédio» (Krasnaia Nov, Agosto de 1927). Perto de Moscovo, em Bechiaqui: o pessoal dá provas duma crueldade bestial; as crianças vivem na sujidade, passam frio e fome, «tratam-nas como resíduos humanos» (Pravda das Juventudes, Agosto de 1927). No Instituto de Educação das crianças abandonadas, estas, de ambos os sexos, embriagam-se, seguindo o exemplo que lhes dá o pessoal e que lhes inflige maus-tratos. Um rapaz enforcou-se e as raparigas tentaram suicidar-se (Izvestia, Junho de 1928). O asilo de Odessa «é uma escola de ladrões», lugar de corrupção e embriaguez; as crianças dormem no chão em lugar húmido e lôbrego; a secção de raparigas é um lugar de prostituição; em todos estes estabelecimentos as crianças são esfaqueadas diante dos olhos dos comunistas que o consentem; «tudo isto explica porque as crianças preferem a rua e a vagabundagem». E os casos multiplicam-se indefinidamente.
Tal é a situação das crianças em regime soviético. E o que é mais duro, é que há crianças privilegiadas e casas modelo: mas aquelas são para os filhos dos chefes comunistas e estas destinam-se às crianças dos dirigentes do Partido. Os filhos dos trabalhadores pertencem à grei. São por isso tratados como «detritos humanos». A casa de crianças de Malalckoska, nos arredores de Moscovo, e outras, são, ao contrário, excelentes. Os nobres Ditadores do Proletariado não sujeitariam os seus filhos à desgraça da plebe. Tal é o sentido da justiça comunista posta à prova.
Isto no que respeita à assistência à infância, num regime em que, não será demasiado repetir, pela sua essência as crianças são naturalmente abandonadas ao Estado que aboliu todas as obrigações religiosas e civis dos pais para com os filhos.
Mas o regime do trabalho em país comunista no que respeita a menores é também elucidativo:
Em 5.400.000 operários agrícolas, afirma um representante da Juventude comunista, 1.300.000 são menores e 639.000 têm entre onze e catorze anos, apesar da lei que o proíbe…
A imensa maioria dos menores trabalha dez a doze horas por dia (a lei das oito horas é só para os países capitalistas). Cerca de 34% dos menores trabalha mais de doze horas (Pravda das Juventudes, Junho de 1929). Na IV conferência das Juventudes comunistas, uma delegada dizia: «Por dolorosa que seja a verdade, o certo é que ninguém se preocupa com o trabalho dos menores. As cartas destes revelam factos que parecem incríveis na U.R.S.S. Há pionniers (membros da organização das crianças) que afirmam unanimemente que as crianças se vêem obrigadas a trabalhar catorze e dezasseis horas por dia, por um salário de dez rublos por mês» (Pravda das Juventudes).
Não acabaríamos mais na descrição das condições sinistras em que vivem as crianças em regime comunista.
Também aqui, pois, a falência é estrondosa.
HORAS DE TRABALHO
Uma das reivindicações mais ardentemente proclamadas pelos movimentos operários e à qual, de resto, nos países capitalistas se tem atendido com maior largueza é, sem dúvida, a jornada das oito horas de trabalho.
Veja-se como o comunismo, triunfante na Rússia, acata e respeita também este ponto essencial da emancipação dos trabalhadores.
Na linha do Báltico, os ferroviários trabalham às vezes vinte horas seguidas (Troud, Março de 1928). Os empregados de comércio fazem por dia, por toda a parte, dez a onze horas de trabalho (Rabotchaia Gazeta). Em Briansk há operários que trabalham desde as quatro horas da madrugada até às oito e dez da noite (Pravda das Juventudes, Janeiro de 1928). Em Estalinegrado foi introduzida a jornada das 10 horas para acabar a construção de tractores (Troud, Agosto de 1929).
O Governo lança um manifesto prometendo a jornada de 7 horas. Decorrem dois anos; a situação mantém-se.
O comissariado do Trabalho promete assegurar as 7 horas para 450.000 trabalhadores para Setembro de 1930, três anos depois do manifesto do Governo de Moscovo. A situação continua, de resto, a mesma.
Na Ucrânia, os trabalhadores agrícolas trabalham por dia 13 horas. As mulheres 10 horas (Troud, Julho de 1927).
– Salvai-nos camaradas, vamos morrer! –, clamam há anos os trabalhadores das lagunas de P. Estes trabalhadores, ao sair dos charcos, molhados, sujos, fatigados, não possuem para descansar mais do que barracas de campanha com palha húmida no solo». «Que nos dêem ao menos uma tábua, dizem; não é possível continuar dormindo no chão húmido. Tem-se-lhes feito promessas, mas nada de prático» (Troud, 27 de Agosto de 1929). Etc., etc.
Veja-se como o comunismo, triunfante na Rússia, acata e respeita também este ponto essencial da emancipação dos trabalhadores.
Na linha do Báltico, os ferroviários trabalham às vezes vinte horas seguidas (Troud, Março de 1928). Os empregados de comércio fazem por dia, por toda a parte, dez a onze horas de trabalho (Rabotchaia Gazeta). Em Briansk há operários que trabalham desde as quatro horas da madrugada até às oito e dez da noite (Pravda das Juventudes, Janeiro de 1928). Em Estalinegrado foi introduzida a jornada das 10 horas para acabar a construção de tractores (Troud, Agosto de 1929).
O Governo lança um manifesto prometendo a jornada de 7 horas. Decorrem dois anos; a situação mantém-se.
O comissariado do Trabalho promete assegurar as 7 horas para 450.000 trabalhadores para Setembro de 1930, três anos depois do manifesto do Governo de Moscovo. A situação continua, de resto, a mesma.
Na Ucrânia, os trabalhadores agrícolas trabalham por dia 13 horas. As mulheres 10 horas (Troud, Julho de 1927).
– Salvai-nos camaradas, vamos morrer! –, clamam há anos os trabalhadores das lagunas de P. Estes trabalhadores, ao sair dos charcos, molhados, sujos, fatigados, não possuem para descansar mais do que barracas de campanha com palha húmida no solo». «Que nos dêem ao menos uma tábua, dizem; não é possível continuar dormindo no chão húmido. Tem-se-lhes feito promessas, mas nada de prático» (Troud, 27 de Agosto de 1929). Etc., etc.
SALÁRIOS
Eis aqui um ponto que decerto causará o espanto dos operários.
– Pois subsistem os salários no comunismo?
Subsistem. E em que condições de inferioridade, se os compararmos aos dos países burgueses!
Quanto ganha um operário russo? É difícil estabelecer ao certo o salário que resulta da intrincada organização soviética. Basta dizer que a moeda não tem cotação nos mercados externos e que dentro do país varia indefinidamente. Por outro lado, para se fazer uma ideia desta pavorosa engrenagem, será suficiente esclarecer que há 17 coeficientes por onde se regula o salário operário.
Há, porém, um termo de comparação geral que nos ajuda a estabelecer a posição aproximada da questão. Afirmam com efeito os propagandistas da revolução, como vitória do regime, o facto do salário médio do operário russo atingir e até ultrapassar alguma coisa o salário de antes da Guerra. Confirma-se isto nestas palavras, aliás descontentes, de Kamenew: «Não, camaradas; o nível de antes da Guerra não é o objectivo para nós. Os nossos operários não fizeram a revolução para receber o que recebiam antes da Guerra; as suas necessidades são maiores, etc.» (Pravda, Dezembro).
É fácil, porém, calcular a quanto monta tão mísero salário, se soubermos que, na melhor das hipóteses, a moeda russa hoje vale metade do que valia antes da Guerra… Mas há ainda reduções a fazer e de tal sorte que a situação dos proletários russos é absolutamente desastrosa. Em que consistem tais reduções?
Em primeiro lugar, o salário é calculado em relação ao custo da vida e, portanto, ao preço nominal das mercadorias fornecidas pelas cooperativas. Ora as cooperativas nunca vendem pelos preços oficiais. A maior parte dos géneros não os têm, de resto, e o operário vê-se obrigado a comprá-los, no comércio clandestino ou no comércio livre, pelo preço que encontra. Em segundo lugar, há a reduzir ainda ao salário as mil alcavalas de uma política de espoliação dos operários pelo Estado e seus agentes. Estão nestes casos as subscrições obrigatórias para efeitos de propaganda, as assinaturas obrigatórias de jornais comunistas, compra obrigatória de bandeiras e retratos dos «chefes». Os operários são obrigados a ser sócios de diversas organizações de propaganda e a darem para eles as suas quotas. O Socorro Vermelho ajuda as crianças abandonadas, vítimas de inundações. Subscrições para «responder a Chamberlain» ou para comprar tanques com que se há-de atacar Chang-Kai-Chek. Empréstimos obrigatórios para os quais os operários têm de concorrer com um mês, e até mais, dos seus parcos salários, etc.
Compreende-se como é difícil, na verdade, estabelecer o valor real de tal salário. Um tal conceito de remuneração operária está à margem dos sistemas de um Hakei, de um Williams, Rowan, Gantt, Emerson e de outros economistas modernos. Não se trata na verdade de um salário moderno susceptível de ser entendido por um Brentano, um John Leitch, um Gide, Drage, Zwiedineck, um Coummons ou um Schloss. Está longe da alçada da crítica económica moderna. Não tem regras nem sentido definido. É aquilo que os senhores bolcheviques, bem apoiados numa guarda vermelha toda-poderosa, entendem querer dar aos seus servos, aos novos escravos miseráveis e impotentes.
Assim para tudo. Casa, assistência, vida política, horas de trabalho, contratos colectivos, salários…
O melhor quinhão reservam-no eles para si, habitando palácios, tratando do seu fígado em Vichy, veraneando docemente nas praias da Itália ou em Nice, com os filhos em boas casas de recolhimento infantil. Também no salário são soberanos. Assim, enquanto aos pobres operários não se dá mais de 60 a 75 rublos por mês, os senhores, os privilegiados, cobram pensões que vão dos 200 aos 800 rublos.
– Pois subsistem os salários no comunismo?
Subsistem. E em que condições de inferioridade, se os compararmos aos dos países burgueses!
Quanto ganha um operário russo? É difícil estabelecer ao certo o salário que resulta da intrincada organização soviética. Basta dizer que a moeda não tem cotação nos mercados externos e que dentro do país varia indefinidamente. Por outro lado, para se fazer uma ideia desta pavorosa engrenagem, será suficiente esclarecer que há 17 coeficientes por onde se regula o salário operário.
Há, porém, um termo de comparação geral que nos ajuda a estabelecer a posição aproximada da questão. Afirmam com efeito os propagandistas da revolução, como vitória do regime, o facto do salário médio do operário russo atingir e até ultrapassar alguma coisa o salário de antes da Guerra. Confirma-se isto nestas palavras, aliás descontentes, de Kamenew: «Não, camaradas; o nível de antes da Guerra não é o objectivo para nós. Os nossos operários não fizeram a revolução para receber o que recebiam antes da Guerra; as suas necessidades são maiores, etc.» (Pravda, Dezembro).
É fácil, porém, calcular a quanto monta tão mísero salário, se soubermos que, na melhor das hipóteses, a moeda russa hoje vale metade do que valia antes da Guerra… Mas há ainda reduções a fazer e de tal sorte que a situação dos proletários russos é absolutamente desastrosa. Em que consistem tais reduções?
Em primeiro lugar, o salário é calculado em relação ao custo da vida e, portanto, ao preço nominal das mercadorias fornecidas pelas cooperativas. Ora as cooperativas nunca vendem pelos preços oficiais. A maior parte dos géneros não os têm, de resto, e o operário vê-se obrigado a comprá-los, no comércio clandestino ou no comércio livre, pelo preço que encontra. Em segundo lugar, há a reduzir ainda ao salário as mil alcavalas de uma política de espoliação dos operários pelo Estado e seus agentes. Estão nestes casos as subscrições obrigatórias para efeitos de propaganda, as assinaturas obrigatórias de jornais comunistas, compra obrigatória de bandeiras e retratos dos «chefes». Os operários são obrigados a ser sócios de diversas organizações de propaganda e a darem para eles as suas quotas. O Socorro Vermelho ajuda as crianças abandonadas, vítimas de inundações. Subscrições para «responder a Chamberlain» ou para comprar tanques com que se há-de atacar Chang-Kai-Chek. Empréstimos obrigatórios para os quais os operários têm de concorrer com um mês, e até mais, dos seus parcos salários, etc.
Compreende-se como é difícil, na verdade, estabelecer o valor real de tal salário. Um tal conceito de remuneração operária está à margem dos sistemas de um Hakei, de um Williams, Rowan, Gantt, Emerson e de outros economistas modernos. Não se trata na verdade de um salário moderno susceptível de ser entendido por um Brentano, um John Leitch, um Gide, Drage, Zwiedineck, um Coummons ou um Schloss. Está longe da alçada da crítica económica moderna. Não tem regras nem sentido definido. É aquilo que os senhores bolcheviques, bem apoiados numa guarda vermelha toda-poderosa, entendem querer dar aos seus servos, aos novos escravos miseráveis e impotentes.
Assim para tudo. Casa, assistência, vida política, horas de trabalho, contratos colectivos, salários…
O melhor quinhão reservam-no eles para si, habitando palácios, tratando do seu fígado em Vichy, veraneando docemente nas praias da Itália ou em Nice, com os filhos em boas casas de recolhimento infantil. Também no salário são soberanos. Assim, enquanto aos pobres operários não se dá mais de 60 a 75 rublos por mês, os senhores, os privilegiados, cobram pensões que vão dos 200 aos 800 rublos.
ASSISTÊNCIA
A incúria e desorganização comunista no que respeita à vida operária – habitações, condições de trabalho, etc. – não podia deixar de também ser total na forma como se prevê e assegura a assistência em caso de doença ou de invalidez. Não há hoje país burguês onde se não tenha procurado dar a este problema a melhor solução. Comparem os operários europeus a sua situação com a dos seus camaradas do país comunista.
O quadro sinistro antevê-se claramente através das resumidas citações que vamos fazer:
«Em Donetz não há assistência médica. Em G., para os operários, que são 18.000, não há policlínica. Vem um médico 2 vezes por semana e examina cem enfermos por dia. Na sala de consultas não há lavatório. O médico, depois de examinar um venéreo, põe a mão sem a lavar nos olhos ou na boca de outro doente» (Pravda de Fevereiro de 1926). Os acidentes de trabalho multiplicam-se. Num ano, o coeficiente elevou-se de 21 a 33% na indústria em geral; de 39 a 47% na metalurgia; de 10 a 14% na indústria têxtil, em consequência da má organização» (Troud).
No Cáucaso setentrional, nas aglomerações operárias «não há lavatórios, nem socorros médicos, nem farmácia» (Troud). Na sessão do conselho central dos sindicatos apura-se que: «Os operários doentes esperam 10 dias pelo médico. Faltam médicos e carecemos de hospitais». Tomski afirma: «Os órgãos de protecção à saúde não funcionam; limitam-se a fazer belas frases, declarações, sem se importarem com os operários.»
A Vetchornaia Moscva julga que há 45.000 acidentes de trabalho só na província de Moscovo num ano. Nas minas de Geórgia os socorros médicos são irrisórios; encontra-se um hospital com 20 camas para cada 8.000 operários (Troud de Julho). No Ural há milhares de operários mutilados. Os incidentes seguiram a proporção: 14.430, 26.958, 37.947 (Troud).
O quadro trágico, o quadro negro, é digno pendant das outras organizações comunistas no que se refere à vida dos trabalhadores.
Não pode haver maior liquidação.
O quadro sinistro antevê-se claramente através das resumidas citações que vamos fazer:
«Em Donetz não há assistência médica. Em G., para os operários, que são 18.000, não há policlínica. Vem um médico 2 vezes por semana e examina cem enfermos por dia. Na sala de consultas não há lavatório. O médico, depois de examinar um venéreo, põe a mão sem a lavar nos olhos ou na boca de outro doente» (Pravda de Fevereiro de 1926). Os acidentes de trabalho multiplicam-se. Num ano, o coeficiente elevou-se de 21 a 33% na indústria em geral; de 39 a 47% na metalurgia; de 10 a 14% na indústria têxtil, em consequência da má organização» (Troud).
No Cáucaso setentrional, nas aglomerações operárias «não há lavatórios, nem socorros médicos, nem farmácia» (Troud). Na sessão do conselho central dos sindicatos apura-se que: «Os operários doentes esperam 10 dias pelo médico. Faltam médicos e carecemos de hospitais». Tomski afirma: «Os órgãos de protecção à saúde não funcionam; limitam-se a fazer belas frases, declarações, sem se importarem com os operários.»
A Vetchornaia Moscva julga que há 45.000 acidentes de trabalho só na província de Moscovo num ano. Nas minas de Geórgia os socorros médicos são irrisórios; encontra-se um hospital com 20 camas para cada 8.000 operários (Troud de Julho). No Ural há milhares de operários mutilados. Os incidentes seguiram a proporção: 14.430, 26.958, 37.947 (Troud).
O quadro trágico, o quadro negro, é digno pendant das outras organizações comunistas no que se refere à vida dos trabalhadores.
Não pode haver maior liquidação.
BUROCRACIA
Eis um capítulo onde o regime está verdadeiramente à prova. Num sistema, com efeito, em que o Estado tem a função máxima de motor, providência e orientador supremo e único da vida do país, é evidente que mais do que em nenhum outro ele depende do jogo das suas engrenagens e do rendimento que lhe possam dar os seus diversos funcionalismos. A crítica revolucionária é na verdade implacável sobre a péssima gestão dos serviços públicos nos países burgueses, e todos os dias afirma a necessidade de substituir, por um organismo mais em harmonia com as necessidades da vida moderna, a velha traquitana. Engrenagem «souple» e funcionários competentes, tal é o clamor socialista.
Na Rússia o comunismo não hesitaria, pois, em pôr em prática as suas já velhas teorias de reforma do Estado. Não tem ele à sua disposição, revolucionária e discricionariamente, toda a máquina do Estado para fazer dela o que quiser para melhor servir e vencer? Não tem ele por si um partido que se jacta de ser a nata moral e intelectual do país?
Vamos ver, pois, como no regime máximo da burocracia esta funciona, e de que casta especial são os seus agentes criados e alimentados pela essência redentora dos princípios e da mística comunista.
A surpresa já não é grande, na verdade, pois já vimos quando tratámos das Cooperativas como elas, com os seus 400.000 funcionários, são administradas e utilizadas para o bem público. Mas o sistema ganha muito em ser conhecido, para se fazer justiça à simplicidade e à souplesse das engrenagens criadas pelo génio reformador soviético.
«A direcção do aparelho soviético-base perde-se em papeladas. O comité provincial manda habitualmente uma ou duas circulares diárias sobre todas as questões imaginárias e assim crê ter cumprido todas as suas obrigações» (Pravda, Julho de 1925). «Cada membro da nossa célula tem obrigação de responder, por escrito e em cada mês, a 84 perguntas de inquéritos» (Pravda, Abril de 1925). «Cria-se um mar de papéis em que se perdem centenas de pessoas. A situação da contabilidade e da estatística é simplesmente catastrófica» (Pravda, Julho de 1926). O relatório anual do Yugostal pesaria 12 pouds (190 quilos) se fosse redigido conforme o regulamento (Economitcheskaia Jizu, Junho de 1926). O comissariado do povo dos Transportes mandou cerca de 10.000 ordens que ninguém lê e que se publicam com o atraso que oscila entre um e três anos (Krasnaia Gazeta, Julho de 1926). Em Chesepavetz a administração comunal estabelece a gestão para 200 anos (Krasnaia Gazeta, Agosto de 1926). Há certas mercadorias que passam por nada menos de 37 serviços (Krasnaia Gazeta, Agosto de 1926). Um trust do Ural imprime um relatório de 9.459 páginas. Os Caminhos de Ferro gastam 9 milhões de rublos em 18.000 páginas em que não há maneira de encontrar uma informação. O comissariado da Fazenda do Adjanistan gasta mais do que recebe em impostos (Krasnaia Gazeta, Dezembro de 1926). A direcção dos Caminhos de Ferro recebe relatórios que representam 30 milhões de páginas. O Mostorg respondeu em um ano a 477.085 perguntas. O conselho de cooperativas de Moscovo respondeu a 622.793. Só uma fábrica têxtil respondeu a 629.000 (Pravda, Fevereiro de 1927). Só o comissariado dos Transportes desbarata 420.000 pouds de papel por ano – cerca da quarta parte da produção –, dez comboios de 40 vagões (Izvestia, Fevereiro de 1927). A inspecção operária e campestre calcula que só a contabilidade da indústria do Estado emprega 500.000 contabilistas e vem a custar 1.000 milhões de rublos por ano (Troud, Maio de 1927). Um operário que tenha uma reclamação a fazer contra a administração da empresa tem que passar por 24 repartições burocráticas (Troud, Janeiro de 1928). No comissariado do Comércio o relatório sobre coiros contém 27.000 perguntas. Um relatório sobre agronomia na Ucrânia, 20.000 perguntas (Izvestia, Dezembro de 1927). O instituto de Agronomia experimental estabelece uma folha de inquérito de 5 a 6 metros coberta de perguntas sobre tractores (Biednota, Abril de 1929).
Com tal engrenagem e modo de trabalhar simples e rápido, o «trabalho» não pode deixar de ser útil e rendoso. A Pravda de Abril de 1918 conta, por exemplo, o caso de uma perfumaria, a Tégé, que fez um pedido ao conselho económico de Moscovo, de óleos, em Março de 1927. Em Abril de 1928 ainda os não tinha obtido. Tinham sido escritas 28 cartas pelos órgãos dirigentes superiores; tinham-se celebrado 13 conferências e cinco deliberações dos conselhos económicos superiores da República; os Comissários do Povo tinham telefonado oito vezes.
Outro caso curioso, que mostra o bom funcionamento da engrenagem soviética: importaram-se tractores para a lavoura. Milhares desses tractores estão, porém, inutilizados porque lhes falta uma peça, que se fabrica, de resto, no país. Durante dois anos chovem «as reclamações, os pedidos, os conselhos autorizados, os relatos das conferências vieram engrossar o expediente, sem que se fizesse nada de efectivo para aumentar o fabrico das peças necessárias» (Pravda, Janeiro de 1930).
Veja-se ainda noutro exemplo como está organizada uma grande obra soviética, a livraria do Estado Gosigdat: as oficinas constituem uma máquina pesada de 180 serviços, secções, subsecções, sectores sem ligação entre si. Só a direcção central contava em Janeiro de 1927 com 1.148 pessoas de pessoal efectivo. Os trabalhos de organização dos manuscritos ficam mais caros que os direitos do autor. A secção rural pagou, em 1926, 74.380 rublos aos autores e 106.028 rublos aos redactores que corrigiram os manuscritos! (Pravda, Janeiro de 1927).
Isto quanto à máquina burocrática. Veja-se o pessoal: na província de Riazau, de 5.100 funcionários da Fazenda, 1.139 são despedidos por roubo, embriaguez, falsificação de escrituras (Pravda, Novembro de 1930).
Em Moscovo descobre-se o caso dos Kabuki. O Estado-Maior do sindicato de construção é culpado de roubos, orgias, abusos de poder (Pravda, Janeiro de 1930). Em Leninegrado, as organizações comunistas da Sir-Dária estão cheias de ladrões e de bandidos (Pravda, Janeiro de 1930). Em Tuer, o tribunal é cúmplice de todos os funcionários culpados de prevaricações, abusos, etc. (Pravda, Janeiro de 1930). Em Astrakan são presos 200 funcionários soviéticos por roubarem o Estado (Izvestia, Setembro de 1929). Em Ryvinsk descobre-se coisa idêntica (Troud, Agosto de 1929). O mesmo em Syzrane (Troud, Agosto); o mesmo em Gronzny, Kastov, Estalinegrado (Troud, Agosto de 1929). Em Leninegrado, corrupção da administração comunal com a cumplicidade do Partido Comunista (Troud, Setembro). Em Nijni-Novgorod assiste-se à decomposição da organização comunista (Pravda, Setembro de 1929). Na Sibéria deram-se 1.500 roubos em detrimento das caixas do Estado das Cooperativas, dos Sindicatos (Krasnaia Gazeta, Março de 1929). Em Leninegrado registam-se 2.274.000 roubos em 7 meses, 2.702 casos de desfalque, sendo a quarta parte deles nos sindicatos (Troud, Março de 1926), etc.
Assim, a decomposição burguesa, tão proclamada pelos propagandistas da revolução, é a infância da arte, afinal, perante os esplendores da burocracia comunista.
Na Rússia o comunismo não hesitaria, pois, em pôr em prática as suas já velhas teorias de reforma do Estado. Não tem ele à sua disposição, revolucionária e discricionariamente, toda a máquina do Estado para fazer dela o que quiser para melhor servir e vencer? Não tem ele por si um partido que se jacta de ser a nata moral e intelectual do país?
Vamos ver, pois, como no regime máximo da burocracia esta funciona, e de que casta especial são os seus agentes criados e alimentados pela essência redentora dos princípios e da mística comunista.
A surpresa já não é grande, na verdade, pois já vimos quando tratámos das Cooperativas como elas, com os seus 400.000 funcionários, são administradas e utilizadas para o bem público. Mas o sistema ganha muito em ser conhecido, para se fazer justiça à simplicidade e à souplesse das engrenagens criadas pelo génio reformador soviético.
«A direcção do aparelho soviético-base perde-se em papeladas. O comité provincial manda habitualmente uma ou duas circulares diárias sobre todas as questões imaginárias e assim crê ter cumprido todas as suas obrigações» (Pravda, Julho de 1925). «Cada membro da nossa célula tem obrigação de responder, por escrito e em cada mês, a 84 perguntas de inquéritos» (Pravda, Abril de 1925). «Cria-se um mar de papéis em que se perdem centenas de pessoas. A situação da contabilidade e da estatística é simplesmente catastrófica» (Pravda, Julho de 1926). O relatório anual do Yugostal pesaria 12 pouds (190 quilos) se fosse redigido conforme o regulamento (Economitcheskaia Jizu, Junho de 1926). O comissariado do povo dos Transportes mandou cerca de 10.000 ordens que ninguém lê e que se publicam com o atraso que oscila entre um e três anos (Krasnaia Gazeta, Julho de 1926). Em Chesepavetz a administração comunal estabelece a gestão para 200 anos (Krasnaia Gazeta, Agosto de 1926). Há certas mercadorias que passam por nada menos de 37 serviços (Krasnaia Gazeta, Agosto de 1926). Um trust do Ural imprime um relatório de 9.459 páginas. Os Caminhos de Ferro gastam 9 milhões de rublos em 18.000 páginas em que não há maneira de encontrar uma informação. O comissariado da Fazenda do Adjanistan gasta mais do que recebe em impostos (Krasnaia Gazeta, Dezembro de 1926). A direcção dos Caminhos de Ferro recebe relatórios que representam 30 milhões de páginas. O Mostorg respondeu em um ano a 477.085 perguntas. O conselho de cooperativas de Moscovo respondeu a 622.793. Só uma fábrica têxtil respondeu a 629.000 (Pravda, Fevereiro de 1927). Só o comissariado dos Transportes desbarata 420.000 pouds de papel por ano – cerca da quarta parte da produção –, dez comboios de 40 vagões (Izvestia, Fevereiro de 1927). A inspecção operária e campestre calcula que só a contabilidade da indústria do Estado emprega 500.000 contabilistas e vem a custar 1.000 milhões de rublos por ano (Troud, Maio de 1927). Um operário que tenha uma reclamação a fazer contra a administração da empresa tem que passar por 24 repartições burocráticas (Troud, Janeiro de 1928). No comissariado do Comércio o relatório sobre coiros contém 27.000 perguntas. Um relatório sobre agronomia na Ucrânia, 20.000 perguntas (Izvestia, Dezembro de 1927). O instituto de Agronomia experimental estabelece uma folha de inquérito de 5 a 6 metros coberta de perguntas sobre tractores (Biednota, Abril de 1929).
Com tal engrenagem e modo de trabalhar simples e rápido, o «trabalho» não pode deixar de ser útil e rendoso. A Pravda de Abril de 1918 conta, por exemplo, o caso de uma perfumaria, a Tégé, que fez um pedido ao conselho económico de Moscovo, de óleos, em Março de 1927. Em Abril de 1928 ainda os não tinha obtido. Tinham sido escritas 28 cartas pelos órgãos dirigentes superiores; tinham-se celebrado 13 conferências e cinco deliberações dos conselhos económicos superiores da República; os Comissários do Povo tinham telefonado oito vezes.
Outro caso curioso, que mostra o bom funcionamento da engrenagem soviética: importaram-se tractores para a lavoura. Milhares desses tractores estão, porém, inutilizados porque lhes falta uma peça, que se fabrica, de resto, no país. Durante dois anos chovem «as reclamações, os pedidos, os conselhos autorizados, os relatos das conferências vieram engrossar o expediente, sem que se fizesse nada de efectivo para aumentar o fabrico das peças necessárias» (Pravda, Janeiro de 1930).
Veja-se ainda noutro exemplo como está organizada uma grande obra soviética, a livraria do Estado Gosigdat: as oficinas constituem uma máquina pesada de 180 serviços, secções, subsecções, sectores sem ligação entre si. Só a direcção central contava em Janeiro de 1927 com 1.148 pessoas de pessoal efectivo. Os trabalhos de organização dos manuscritos ficam mais caros que os direitos do autor. A secção rural pagou, em 1926, 74.380 rublos aos autores e 106.028 rublos aos redactores que corrigiram os manuscritos! (Pravda, Janeiro de 1927).
Isto quanto à máquina burocrática. Veja-se o pessoal: na província de Riazau, de 5.100 funcionários da Fazenda, 1.139 são despedidos por roubo, embriaguez, falsificação de escrituras (Pravda, Novembro de 1930).
Em Moscovo descobre-se o caso dos Kabuki. O Estado-Maior do sindicato de construção é culpado de roubos, orgias, abusos de poder (Pravda, Janeiro de 1930). Em Leninegrado, as organizações comunistas da Sir-Dária estão cheias de ladrões e de bandidos (Pravda, Janeiro de 1930). Em Tuer, o tribunal é cúmplice de todos os funcionários culpados de prevaricações, abusos, etc. (Pravda, Janeiro de 1930). Em Astrakan são presos 200 funcionários soviéticos por roubarem o Estado (Izvestia, Setembro de 1929). Em Ryvinsk descobre-se coisa idêntica (Troud, Agosto de 1929). O mesmo em Syzrane (Troud, Agosto); o mesmo em Gronzny, Kastov, Estalinegrado (Troud, Agosto de 1929). Em Leninegrado, corrupção da administração comunal com a cumplicidade do Partido Comunista (Troud, Setembro). Em Nijni-Novgorod assiste-se à decomposição da organização comunista (Pravda, Setembro de 1929). Na Sibéria deram-se 1.500 roubos em detrimento das caixas do Estado das Cooperativas, dos Sindicatos (Krasnaia Gazeta, Março de 1929). Em Leninegrado registam-se 2.274.000 roubos em 7 meses, 2.702 casos de desfalque, sendo a quarta parte deles nos sindicatos (Troud, Março de 1926), etc.
Assim, a decomposição burguesa, tão proclamada pelos propagandistas da revolução, é a infância da arte, afinal, perante os esplendores da burocracia comunista.
VIDA INTELECTUAL
Finalmente, se algum aspecto da vida comunista interessava a um governo inspirado na pura ortodoxia marxista, esse devia ser decerto o da vida intelectual. Sem a instrução largamente difundida nas massas, sem uma intensa cultura espiritual nos chefes, como seria possível conceber a experiência revolucionária que faz tábua rasa de toda a velha engrenagem e pretende em absoluto substituir-se-lhe, criando um mundo novo?
Se a democracia política exige a extinção do analfabetismo e uma capacidade de conhecimentos gerais capaz de fazer de um eleitor o juiz das qualidades do seu candidato, que dizer da democracia social, em que as massas operárias são chamadas a todo o instante para a escolha do seu comité de fábrica, do seu comité de empresa, do seu conselho político local, etc., etc.?
Era pois evidente que o comunismo instalado na Rússia iria empregar todos os seus esforços para o incremento da instrução popular e para assegurar todas as possibilidades culturais de que se ufana um regime que se julga a mais alta etapa da emancipação humana.
Vamos ver, pois, neste capítulo, a sua acção na Rússia.
Segundo a Izvestia, atinge nada menos de 90% a percentagem dos analfabetos em grande parte do território. O mal vem de trás? Decerto. Mas tem sido ao menos combatido? De nenhuma maneira. As nossas escolas de primeiro grau não instruem mais do que metade das crianças (Rabotchaia Gazeta de Julho de 1926). Esta mesma gazeta afirma ainda que o nível elevadíssimo de antes da Guerra (de analfabetos) está muito ultrapassado agora (R. G., Julho de 1926). O número de crianças que se não aceita nas escolas aumenta todos os dias. Apesar disso, há casos em que o professor tem na escola três grupos de alunos de mais de cem rapazes.
Como encara o problema o regime? «Em 1913» – em plena era do absolutismo imperial – «gastavam-se por cada aluno 30 rublos; actualmente 18, enquanto em Londres se gastam 163 e em Nova Iorque 220». «O professor não recebe mais do que 2 terços do salário médio do operário, metade apenas do seu miserável salário da época czarista.» Artigo de Lunatcharski, comissário do povo da Instrução (Pravda, Setembro de 1926). Há menos escolas que sob o czarismo e por outro lado há 30% mais de alunos.
Os professores estão sobrecarregados de obrigações sociais, além da sua tarefa, e vêem-se privados dos mais elementares direitos (Troud, Novembro de 1926). Não há ensino gratuito senão no papel. Mediante numerosas diminuições de salários, os operários aumentam as escolas (Troud, Maio de 1927). Há 15 milhões de crianças que não recebem a menor instrução (Pravda das Juventudes, Julho de 1929). Na província de Estalinegrado, de 998 escolas, 447 precisam ser reparadas (Rabotchaia Gazeta, Junho de 1916). Os vidros partidos, um frio terrível (o frio russo!), falta de bancos, as crianças sentadas no chão em pleno Inverno, tal é o quadro geral, incluindo a região de Moscovo (Pravda, Fevereiro de 1927).
O material escolar é significativo. Em Saratov, numa escola de 43 alunos há 25 gramáticas de sete autores diferentes. Para 1.600 alunos há 707 aritméticas de 23 autores diferentes. Um lápis custa 10 arráteis de centeio. Um caderno, seis.
Não há livros escolares, mas as livrarias estão abarrotadas de livros inúteis (Troud, Julho de 1916). Há em Odessa uma tábua de multiplicar que ensina que 4 x 8 são 30 e 4 x 9 são 26 (Pravda, Outubro de 1926).
A condição dos professores é das mais precárias.
Durante muito tempo não tiveram direitos políticos por pertencerem à classe intelectual. Vivem na miséria. Bujarin, no Congresso de 1924, afirmou haver professores que tinham de recorrer à mendicidade pelos caminhos. Lunatcharski declara que «é horrível a sua indigência; um sem número de enfermidades; uma excessiva mortandade e a prostituição». Os professores passam literalmente fome; carecem de roupa e de calçado (Pravda, Março de 1927). O pessoal do ensino sofre vexames por parte das autoridades soviéticas locais. Aqui proíbe-se-lhes dançar a mazurca, além proíbe-se-lhes casar para evitar que lhes sejam concedidas licenças (Troud, Março de 1927). Há professoras que são perseguidas pelos funcionários soviéticos até ao ponto de se terem produzido suicídios (Troud, Dezembro de 1929).
A situação dos alunos é a pior. Um inquérito médico, levado a cabo no Instituto Tecnológico, revela que de 198 alunos só 2 não estão enfermos (Krasnaia Gazeta, Março de 1926). Vivem na mais negra miséria; para ganhar o pão têm de ser porteiros, guardas-nocturnos, varredores, etc. A que trabalho cultural podem dedicar-se a sério em tais condições? (Troud, Setembro de 1926). Na Ucrânia só 30% dispõem de vivenda. Em Odessa muitos deles dormem nos corredores e em lugares infectos das casas comuns; os outros nas ruas, nas estações, nas docas (Troud, Outubro de 1926). Em Moscovo os estudantes vivem no meio da porcaria e quase na rua; dormem vestidos; há 1.500 sem abrigo que passam a noite nas estações e nas ruas; a desmoralização e a embriaguez acabam por ganhar os desgraçados (Pravda das Juventudes, Outubro de 1927). Há 3.000 estudantes em Leninegrado sem abrigo (Krasnaia Gazeta, Novembro de 1927). Só numa escola técnica de Moscovo há 1.000 filhos de operários que renunciam a terminar os seus estudos (Pravda das Juventudes, Julho de 1928). Os estudantes do Instituto Agronómico do Ural vivem no subsolo húmido, frio e sujo, que é uma verdadeira tumba; de 136 que vivem ali, 102 estão enfermos seriamente e quatro morreram durante o ano; há seis anos que este subsolo foi reconhecido inabitável (Pravda das Juventudes, Junho de 1929). Em Leninegrado, por falta de dormitórios, dormem nas aulas e nos anfiteatros, nos alpendres, nas estações e nos asilos da noite (Krasnaia Gazeta, Outubro de 1929).
O resultado é geralmente desastroso, como era de esperar. Ao cabo de 4 anos de estudos, as crianças não sabem ler nem escrever: os candidatos às escolas superiores são lamentavelmente ignorantes (Narodnoie Prosvechtchenié, Janeiro de 1926). Só 11 a 25% dos adolescentes obtêm bom êxito nos exames de admissão; a maioria dos estudantes de letras não conhecem Puchkin, Ostrovski, Saltikov, Turgueniev, Tolstoi (Izvestia, Novembro de 1926). Num congresso de estudantes proletários registaram-se as seguintes respostas ao questionário do alfabeto político: Ford, ditador da Espanha; Hindemburgo, presidente da Internacional Comunista; Briand, imperador americano (Troud, Março de 1929).
A maioria dos estudantes das escolas superiores fica reprovada nos exames. Em Moscovo, nas escolas de pontes e caminhos 250 alunos não passam de 70 nas matemáticas (Krasnaia Gazeta).
Os clubes e os «retiros vermelhos», de recreio e estudo operários, são uma vergonha. Não há livros na sua maior parte. Abundam retratos de Lenine e dos grandes chefes. No de Baku gastaram-se 2.000 rublos para se ter apenas nele um grande retrato a cores de Lenine. A um clube é preciso ir com guarda-chuva, pois não tem tecto (Pravda, Abril de 1925). Segundo o Troud de Julho de 1928, os clubes operários convertem-se em lugares de corrupção e banditismo; a pretendida «actividade cultural» só existe no papel (Pravda, Agosto de 1928).
No que respeita a bibliotecas, a mesma insuficiência. O comissário adjunto da Instrução, Yakovleva, confessa a redução das bibliotecas (Pravda, Abril de 1929). «O nosso atraso no movimento dos livros é-nos absolutamente desfavorável» (Pravda, Agosto de 1929).
De resto, na Rússia oficial não são permitidos os livros de propaganda. São os eternos amontoados de velhas fórmulas marxistas, o elogio dos chefes, literatura paga a peso que ninguém lê, por estar farta toda a gente de ver repetir em todos os tons as mesmas mediocridades. A livraria do Estado não aceita obras em que o pensamento livre estuda os homens e as coisas para tirar ensinamentos ou simples impressões de arte. Há só uma qualidade de autores que vêem os seus livros aceites e acarinhados. São os fazedores de manuais marxistas cheios de citações de Marx ou Lenine. A esses, a livraria soviética Gosigdat paga generosamente e generosamente se desentranha em edições que apodrecem nas arrecadações, inúteis e virgens. Só em Leninegrado e Moscovo havia 65 milhões de obras que se não vendem, representando um valor de mais de doze milhões de rublos (Troud).
Triunfa assim a onda vilíssima dos exploradores da lisonja ou dos que vivem à custa da Ideia. Os seus livros contam e repisam as chaminés das fábricas, as virtudes do comunismo e dos seus chefes, etc.
Os Nikolay Nikitin, Tikhonov, Fedin, Selvinsky, Lidia Seyfulina, Vasevold Yvanof e outros valores intelectuais russos que não emigraram, vivem todavia à parte do comunismo, no qual não crêem. Para todos os que não navegam na mediocridade oficial estão fechadas as facilidades e os tesouros da Gosigdat. Abunda ainda a literatura desmoralizante e erótica, género «A questão sexual», de Zalkind, «Direito do Amor», de Hipólito, etc.
Numa revista, órgão central das juventudes comunistas «Jovem Guarda», n.º 1.º, 1926), escreve-se: «Não recorras à virgem; a sua inocência está cheia de uma lânguida tristeza; o seu peito pleno de torpes dúvidas. Na prostituta encontrarás a precisão e a desenvoltura duma máquina.» «É a voz dos futuros séculos, o canto triunfal da indústria – que anunciam o despedaçar das cadeias do amor desfeitas pelo poderoso génio da técnica.»
Reage-se felizmente contra este assalto de animalidade. Essa reacção, porém, que vem de fora do comunismo, é sobretudo uma reacção religiosa. Por todos os lados o espírito religioso procura dar combate à gangrena comunista. Às vezes até, com êxito. Istrati cita o caso das revistas religiosas tirarem na Ucrânia 33.000 exemplares, enquanto a revista comunista Atheenão tira mais que 6.000.
Também aqui se cifra, segundo ele, em 4 milhões de exemplares o número de livros de rezas, calendários, manifestos religiosos.
A falência da inteligência em regime comunista mostra-se também largamente em todas as outras actividades do espírito. No teatro, no cinema, a vitória do medíocre protegido pelo Estado em detrimento do verdadeiro valor que não é posto ao serviço da propaganda – tal é a regra.
Também o povo se desinteressa da arte oficial. O deficit das três grandes empresas cinematográficas soviéticas Prolekino, Gorkino, Leninegradokino ascendia, segundo Metscheriatov, a cinco milhões de rublos em 1926. Aos filmes revolucionários, segundo Istrati, ninguém vai. Tem de se recorrer aos filmes estrangeiros que só em 1927 passaram de 2.000 a 5.508. Na Rússia, enquanto a arte comunista é posta de parte, triunfa largamente Hollywood com os seus Harold, Douglas Fairbanks, Mary Pickford, etc.
Eis, pois, num pequeno resumo a vasta lição comunista da Rússia. Outros aspectos havia ainda a focar e de importância máxima no campo da moral social, das finanças, da economia geral da nação, a vida agrícola, etc. A natureza deste trabalho obriga-nos porém a limitá-lo. Os ensinamentos que dos aspectos focados se podem tirar são bastante claros e definitivos para quem de boa-fé neles atentar.
A experiência comunista, feita num país singularmente predisposto para ela e servida por uma poderosa máquina militar e civil, é concludente.
Organizou o comunismo uma sociedade proletária perfeita, em melhores condições de trabalho, de justiça, e de felicidade? Os factos respondem brutalmente.
O comunismo falhou em tudo. Podia ao menos manter o que estava. Não soube. Tudo o que fez foi pior do que o regime czarista que não era decerto um modelo para as nações ocidentais. A vida do país é um caos. As condições da existência do povo russo estão tragicamente pioradas. Nem a vida sindical, nem as cooperativas, nem os salários, nem a assistência, nem a vida intelectual representam na Rússia comunista uma etapa de progresso. Tem ao menos o povo russo na sua desgraça o prazer de se dirigir a si próprio, de se governar, livre e soberanamente sem coleira, como o lobo da fábula? Nem isso. Nunca uma mais feroz tirania pesou sobre um povo. Tirania que nada limita, nem ao menos o escrúpulo e a linha histórica do tirano.
Dir-se-á ainda: é verdade que o regime falhou em tudo. A imperícia, a falta de preparação dos dirigentes, deram o caos e a ruína. Mas o comunismo tem uma missão mais alta, e essa cumpriu-a. A camaradagem, a fraternidade humana, reina enfim em alguma parte. Todos iguais, todos irmãos. É miserável a situação, é negro o pão de cada dia? Embora. Ao menos todos partilham da mesma sorte. Não há privilegiados. São cento e cinquenta milhões de vítimas, seja; mas são cento e cinquenta milhões de irmãos, de amigos, de camaradas sofrendo todos por um, e um por todos neste vale de lágrimas que é a terra. Trágica ironia! As páginas que aí ficam, em que se mostram cento e cinquenta milhões de escravos sempre sob a tutela infame dos seus senhores, respondem cabalmente, totalmente.
Se a democracia política exige a extinção do analfabetismo e uma capacidade de conhecimentos gerais capaz de fazer de um eleitor o juiz das qualidades do seu candidato, que dizer da democracia social, em que as massas operárias são chamadas a todo o instante para a escolha do seu comité de fábrica, do seu comité de empresa, do seu conselho político local, etc., etc.?
Era pois evidente que o comunismo instalado na Rússia iria empregar todos os seus esforços para o incremento da instrução popular e para assegurar todas as possibilidades culturais de que se ufana um regime que se julga a mais alta etapa da emancipação humana.
Vamos ver, pois, neste capítulo, a sua acção na Rússia.
Segundo a Izvestia, atinge nada menos de 90% a percentagem dos analfabetos em grande parte do território. O mal vem de trás? Decerto. Mas tem sido ao menos combatido? De nenhuma maneira. As nossas escolas de primeiro grau não instruem mais do que metade das crianças (Rabotchaia Gazeta de Julho de 1926). Esta mesma gazeta afirma ainda que o nível elevadíssimo de antes da Guerra (de analfabetos) está muito ultrapassado agora (R. G., Julho de 1926). O número de crianças que se não aceita nas escolas aumenta todos os dias. Apesar disso, há casos em que o professor tem na escola três grupos de alunos de mais de cem rapazes.
Como encara o problema o regime? «Em 1913» – em plena era do absolutismo imperial – «gastavam-se por cada aluno 30 rublos; actualmente 18, enquanto em Londres se gastam 163 e em Nova Iorque 220». «O professor não recebe mais do que 2 terços do salário médio do operário, metade apenas do seu miserável salário da época czarista.» Artigo de Lunatcharski, comissário do povo da Instrução (Pravda, Setembro de 1926). Há menos escolas que sob o czarismo e por outro lado há 30% mais de alunos.
Os professores estão sobrecarregados de obrigações sociais, além da sua tarefa, e vêem-se privados dos mais elementares direitos (Troud, Novembro de 1926). Não há ensino gratuito senão no papel. Mediante numerosas diminuições de salários, os operários aumentam as escolas (Troud, Maio de 1927). Há 15 milhões de crianças que não recebem a menor instrução (Pravda das Juventudes, Julho de 1929). Na província de Estalinegrado, de 998 escolas, 447 precisam ser reparadas (Rabotchaia Gazeta, Junho de 1916). Os vidros partidos, um frio terrível (o frio russo!), falta de bancos, as crianças sentadas no chão em pleno Inverno, tal é o quadro geral, incluindo a região de Moscovo (Pravda, Fevereiro de 1927).
O material escolar é significativo. Em Saratov, numa escola de 43 alunos há 25 gramáticas de sete autores diferentes. Para 1.600 alunos há 707 aritméticas de 23 autores diferentes. Um lápis custa 10 arráteis de centeio. Um caderno, seis.
Não há livros escolares, mas as livrarias estão abarrotadas de livros inúteis (Troud, Julho de 1916). Há em Odessa uma tábua de multiplicar que ensina que 4 x 8 são 30 e 4 x 9 são 26 (Pravda, Outubro de 1926).
A condição dos professores é das mais precárias.
Durante muito tempo não tiveram direitos políticos por pertencerem à classe intelectual. Vivem na miséria. Bujarin, no Congresso de 1924, afirmou haver professores que tinham de recorrer à mendicidade pelos caminhos. Lunatcharski declara que «é horrível a sua indigência; um sem número de enfermidades; uma excessiva mortandade e a prostituição». Os professores passam literalmente fome; carecem de roupa e de calçado (Pravda, Março de 1927). O pessoal do ensino sofre vexames por parte das autoridades soviéticas locais. Aqui proíbe-se-lhes dançar a mazurca, além proíbe-se-lhes casar para evitar que lhes sejam concedidas licenças (Troud, Março de 1927). Há professoras que são perseguidas pelos funcionários soviéticos até ao ponto de se terem produzido suicídios (Troud, Dezembro de 1929).
A situação dos alunos é a pior. Um inquérito médico, levado a cabo no Instituto Tecnológico, revela que de 198 alunos só 2 não estão enfermos (Krasnaia Gazeta, Março de 1926). Vivem na mais negra miséria; para ganhar o pão têm de ser porteiros, guardas-nocturnos, varredores, etc. A que trabalho cultural podem dedicar-se a sério em tais condições? (Troud, Setembro de 1926). Na Ucrânia só 30% dispõem de vivenda. Em Odessa muitos deles dormem nos corredores e em lugares infectos das casas comuns; os outros nas ruas, nas estações, nas docas (Troud, Outubro de 1926). Em Moscovo os estudantes vivem no meio da porcaria e quase na rua; dormem vestidos; há 1.500 sem abrigo que passam a noite nas estações e nas ruas; a desmoralização e a embriaguez acabam por ganhar os desgraçados (Pravda das Juventudes, Outubro de 1927). Há 3.000 estudantes em Leninegrado sem abrigo (Krasnaia Gazeta, Novembro de 1927). Só numa escola técnica de Moscovo há 1.000 filhos de operários que renunciam a terminar os seus estudos (Pravda das Juventudes, Julho de 1928). Os estudantes do Instituto Agronómico do Ural vivem no subsolo húmido, frio e sujo, que é uma verdadeira tumba; de 136 que vivem ali, 102 estão enfermos seriamente e quatro morreram durante o ano; há seis anos que este subsolo foi reconhecido inabitável (Pravda das Juventudes, Junho de 1929). Em Leninegrado, por falta de dormitórios, dormem nas aulas e nos anfiteatros, nos alpendres, nas estações e nos asilos da noite (Krasnaia Gazeta, Outubro de 1929).
O resultado é geralmente desastroso, como era de esperar. Ao cabo de 4 anos de estudos, as crianças não sabem ler nem escrever: os candidatos às escolas superiores são lamentavelmente ignorantes (Narodnoie Prosvechtchenié, Janeiro de 1926). Só 11 a 25% dos adolescentes obtêm bom êxito nos exames de admissão; a maioria dos estudantes de letras não conhecem Puchkin, Ostrovski, Saltikov, Turgueniev, Tolstoi (Izvestia, Novembro de 1926). Num congresso de estudantes proletários registaram-se as seguintes respostas ao questionário do alfabeto político: Ford, ditador da Espanha; Hindemburgo, presidente da Internacional Comunista; Briand, imperador americano (Troud, Março de 1929).
A maioria dos estudantes das escolas superiores fica reprovada nos exames. Em Moscovo, nas escolas de pontes e caminhos 250 alunos não passam de 70 nas matemáticas (Krasnaia Gazeta).
Os clubes e os «retiros vermelhos», de recreio e estudo operários, são uma vergonha. Não há livros na sua maior parte. Abundam retratos de Lenine e dos grandes chefes. No de Baku gastaram-se 2.000 rublos para se ter apenas nele um grande retrato a cores de Lenine. A um clube é preciso ir com guarda-chuva, pois não tem tecto (Pravda, Abril de 1925). Segundo o Troud de Julho de 1928, os clubes operários convertem-se em lugares de corrupção e banditismo; a pretendida «actividade cultural» só existe no papel (Pravda, Agosto de 1928).
No que respeita a bibliotecas, a mesma insuficiência. O comissário adjunto da Instrução, Yakovleva, confessa a redução das bibliotecas (Pravda, Abril de 1929). «O nosso atraso no movimento dos livros é-nos absolutamente desfavorável» (Pravda, Agosto de 1929).
De resto, na Rússia oficial não são permitidos os livros de propaganda. São os eternos amontoados de velhas fórmulas marxistas, o elogio dos chefes, literatura paga a peso que ninguém lê, por estar farta toda a gente de ver repetir em todos os tons as mesmas mediocridades. A livraria do Estado não aceita obras em que o pensamento livre estuda os homens e as coisas para tirar ensinamentos ou simples impressões de arte. Há só uma qualidade de autores que vêem os seus livros aceites e acarinhados. São os fazedores de manuais marxistas cheios de citações de Marx ou Lenine. A esses, a livraria soviética Gosigdat paga generosamente e generosamente se desentranha em edições que apodrecem nas arrecadações, inúteis e virgens. Só em Leninegrado e Moscovo havia 65 milhões de obras que se não vendem, representando um valor de mais de doze milhões de rublos (Troud).
Triunfa assim a onda vilíssima dos exploradores da lisonja ou dos que vivem à custa da Ideia. Os seus livros contam e repisam as chaminés das fábricas, as virtudes do comunismo e dos seus chefes, etc.
Os Nikolay Nikitin, Tikhonov, Fedin, Selvinsky, Lidia Seyfulina, Vasevold Yvanof e outros valores intelectuais russos que não emigraram, vivem todavia à parte do comunismo, no qual não crêem. Para todos os que não navegam na mediocridade oficial estão fechadas as facilidades e os tesouros da Gosigdat. Abunda ainda a literatura desmoralizante e erótica, género «A questão sexual», de Zalkind, «Direito do Amor», de Hipólito, etc.
Numa revista, órgão central das juventudes comunistas «Jovem Guarda», n.º 1.º, 1926), escreve-se: «Não recorras à virgem; a sua inocência está cheia de uma lânguida tristeza; o seu peito pleno de torpes dúvidas. Na prostituta encontrarás a precisão e a desenvoltura duma máquina.» «É a voz dos futuros séculos, o canto triunfal da indústria – que anunciam o despedaçar das cadeias do amor desfeitas pelo poderoso génio da técnica.»
Reage-se felizmente contra este assalto de animalidade. Essa reacção, porém, que vem de fora do comunismo, é sobretudo uma reacção religiosa. Por todos os lados o espírito religioso procura dar combate à gangrena comunista. Às vezes até, com êxito. Istrati cita o caso das revistas religiosas tirarem na Ucrânia 33.000 exemplares, enquanto a revista comunista Atheenão tira mais que 6.000.
Também aqui se cifra, segundo ele, em 4 milhões de exemplares o número de livros de rezas, calendários, manifestos religiosos.
A falência da inteligência em regime comunista mostra-se também largamente em todas as outras actividades do espírito. No teatro, no cinema, a vitória do medíocre protegido pelo Estado em detrimento do verdadeiro valor que não é posto ao serviço da propaganda – tal é a regra.
Também o povo se desinteressa da arte oficial. O deficit das três grandes empresas cinematográficas soviéticas Prolekino, Gorkino, Leninegradokino ascendia, segundo Metscheriatov, a cinco milhões de rublos em 1926. Aos filmes revolucionários, segundo Istrati, ninguém vai. Tem de se recorrer aos filmes estrangeiros que só em 1927 passaram de 2.000 a 5.508. Na Rússia, enquanto a arte comunista é posta de parte, triunfa largamente Hollywood com os seus Harold, Douglas Fairbanks, Mary Pickford, etc.
Eis, pois, num pequeno resumo a vasta lição comunista da Rússia. Outros aspectos havia ainda a focar e de importância máxima no campo da moral social, das finanças, da economia geral da nação, a vida agrícola, etc. A natureza deste trabalho obriga-nos porém a limitá-lo. Os ensinamentos que dos aspectos focados se podem tirar são bastante claros e definitivos para quem de boa-fé neles atentar.
A experiência comunista, feita num país singularmente predisposto para ela e servida por uma poderosa máquina militar e civil, é concludente.
Organizou o comunismo uma sociedade proletária perfeita, em melhores condições de trabalho, de justiça, e de felicidade? Os factos respondem brutalmente.
O comunismo falhou em tudo. Podia ao menos manter o que estava. Não soube. Tudo o que fez foi pior do que o regime czarista que não era decerto um modelo para as nações ocidentais. A vida do país é um caos. As condições da existência do povo russo estão tragicamente pioradas. Nem a vida sindical, nem as cooperativas, nem os salários, nem a assistência, nem a vida intelectual representam na Rússia comunista uma etapa de progresso. Tem ao menos o povo russo na sua desgraça o prazer de se dirigir a si próprio, de se governar, livre e soberanamente sem coleira, como o lobo da fábula? Nem isso. Nunca uma mais feroz tirania pesou sobre um povo. Tirania que nada limita, nem ao menos o escrúpulo e a linha histórica do tirano.
Dir-se-á ainda: é verdade que o regime falhou em tudo. A imperícia, a falta de preparação dos dirigentes, deram o caos e a ruína. Mas o comunismo tem uma missão mais alta, e essa cumpriu-a. A camaradagem, a fraternidade humana, reina enfim em alguma parte. Todos iguais, todos irmãos. É miserável a situação, é negro o pão de cada dia? Embora. Ao menos todos partilham da mesma sorte. Não há privilegiados. São cento e cinquenta milhões de vítimas, seja; mas são cento e cinquenta milhões de irmãos, de amigos, de camaradas sofrendo todos por um, e um por todos neste vale de lágrimas que é a terra. Trágica ironia! As páginas que aí ficam, em que se mostram cento e cinquenta milhões de escravos sempre sob a tutela infame dos seus senhores, respondem cabalmente, totalmente.