Lusitanidade
Hipólito Raposo
Em Julho de 1933, Hipólito Raposo exalta a lusitanidade como a missão histórica e espiritual de Portugal, associando-a à expansão da língua, da fé e da cultura portuguesas pelo mundo. Ao mesmo tempo, denuncia a decadência social e moral do país, a pobreza do povo e as ameaças ideológicas que enfraquecem a nação. Defende um renascimento nacional baseado na tradição, na fé, na unidade moral e na valorização do legado português, sobretudo na relação com o Brasil e com os antigos territórios de influência lusa.
NA catedral de sonho em que a nossa juventude viu iluminados os altares votivos da Pátria, a missão de Portugal, inscrita na flâmula do acrotério, transcendia muito os desígnios da ordem policial nas ruas, da sanidade monetária, com dívidas pagas e saldos para conta nova.
Quando, em meio da turbação sanguinária dos dias e dos anos, ou dentro dos cárceres, encetámos a sementeira da Esperança, queríamos que ao florescer o renovo, a Nação guardasse fidelidade ao seu destino, alevantando-se da sua miséria de Lázaro, para retomar consciência dos seus maiores deveres, com sentido vivo e concreto do que agora chamaremos Lusitanidade.
Eco e reflexo do passado na memória de hoje, imperativo da inteligência, estímulo de ação realizadora, bem sentimos que por essa virtude se sublimou a alma portuguesa, vencendo na amplidão do orbe a plenitude do tempo.
Por ela se pode traduzir a transfiguração de Portugal em terras de além-mar, ao repetir-se, por nova criação, a fisionomia dos nossos vilares, ermidas e urbes, em gentes de outra fala e diversa crença.
Pelo milagre da Lusitanidade, atravessou continentes e mares a trajetória civilizadora deste Povo que, ardendo sempre em clarões de fé, sofreu mais do que todos a sede do Infinito; por ela, a Nação iluminou de fulgor espiritual o mapa do mundo, ganhando nos juízos da consciência universal, o arco de triunfo da sua imperial grandeza.
Ao fazer-se instrumento histórico que daria à civilização mediterrânea amplitude atlântica e expressão cósmica, Portugal veio a ser padrinho de constelações celestes e de ignotas ilhas, ainda absortas na luz e frescura virginal da primeira aurora do Planeta.
Se pelo influxo da sua vocação imperatória, a velha Lusitânia vem repetindo o desígnio de Roma por sobre a majestade e a miséria de vinte séculos, cumpre-lhe acatar o mandato dessa predestinação, com as obrigações inerentes a um Poder livre, forte e ousado, sinceramente rendido à certeza de que o melhor meio de continuar o passado é consagrar os deveres da moral e da honra na perseverança da fé nacional, e não esquecer os mais altos exemplos de serviços ao Rei e à Grei.
Por tal intuito não submetemos a tradição ao beneficio de inventário, à semelhança daqueles que tantas vezes e por tantos erros buscam no que foi, a justificação do que não deve nem pode ser: aceitámo-la como herança histórica, pesada de encargos, património que não se mede nem se conta, com as glórias das conquistas, as perdas e desditas da guerra, com a dor dos naufrágios, em perfeita solidariedade moral, por toda a longa corda do sangue a que nascemos e vivemos presos. Só por este conceito de unidade poderemos ver a Nação refletida na própria consciência, restaurada e devolvida à sua ordenação institucional, à família cristã, à oficina honrada, ao concelho livre na província distinta, à realeza e à dinastia, segurança e prestígio da verdadeira independência, na perpetuidade dos tempos.
Em ciclo de ressurgimento, se nele tivéssemos entrado, tanto por interesse coletivo, como por obediência ao preceito divino, seria o primeiro cuidado dar de comer aos famintos, vestir os nus portugueses, em boa ou má hora nascidos por Benavila, Alcafozes e Valpaços.
Sem farrapos que lhes embrulhem a carne tenra, nem pão de reserva para o lar, quando chegam ao mundo, em tal transe de miséria e grandeza humana, nem o pudor das mães se pode guardar dos olhos de outros filhos, através da chita esburacada. Boas raízes as desta arvore, da geração lusitana viçosamente, brotam-todos os dias, soldados, homens de ofício e cavadores; mas, pelo desgosto da pobreza e abandono, tanta é a dor moral das mulheres que nelas se vai perdendo a dignidade cristã de aceitar o sofrimento com alegria, colaborando com a Providência no plano da criação.
Por toda a terra portuguesa, quem agora for espreitar tugúrios, ouve marulhar o poderoso coral da desventura — infantes que não mamam leite, mas lágrimas, velhices a gemer de frio ou desamparo, enfermos indigentes que já em vão procuram nos hospitais o catre para esperar a morte. Para os homens, os dias da vida vão passando, assombrados de maldição: ausentou-se do trabalho a bênção que o fecundava, no ar respira-se um hálito amargo, de obsidiante melancolia, enquanto o velho Portugal já anda ameaçado na ditosa graça de não ver florido o seu sangue nas mais risonhas e amplas searas de crianças. A este povo de olhos-meninos, esculpido em terra morena e pintado à têmpera do sol, vergam-se os peitos de cansaço, os pés atardam-se no andar, de fome ou doença amolentam-se as fibras dos músculos, de sorte que, ao passar um regimento, assiste-se ao desfile de uma rendição sem combate; ver escolas de primeiras letras é presenciar muitas vezes cadeias de pequenos moribundos com quem Átropos zelosamente conta para lhes ceifar as vidas.
Sem povo farto, não há força, e menos força armada; fora de contentamento, não tem sabor a prosperidade; com almas vencidas e corpos débeis, não pode restaurar-se Portugal em vigor físico e saúde espiritual.
O sangue e a alma - quem os defender da corrução e da morte, cumpre o principal mandamento de governo, acode à mais grave crise nacional.
Na realidade sombria que todos conhecem, e que tantos esforços de corações eleitos da bondade não logram remediar, penetra, como fluido insistente, a aspiração do paraíso vermelho: quem nada tem aceita o que lhe prometem, mesmo que seja tudo. A cólera dos mais baixos e feridos instintos já se levanta em vagalhões contra a tirania do Estado, prescrevem-se, como afrontosos, sentimentos e alegrias de Família, renega-se a função da justa Riqueza, ultraja-se a própria vida do Espírito.
Como em perigo de incêndio ou maré de naufrágio, salta-se para uma floresta em chamas ou para um abismo rugidor.
Não importa. Com a cegueira raivosa dos olhos da carne, apaga-se ou obscurece-se a inteligência, e o caminho do futuro abre-se no regresso ao gregarismo primário onde se anulam milénios de nobres aspirações de pensamento e de beleza moral.
Durante eles, trabalhou o homem por dignificar-se acima da besta, submetendo o seu egoísmo às leis do sacrifício, por amor da mulher que é mais do que fêmea, à voz do afeto dos filhos que mais valem do que cachorros, por ditame da convivência humana a que fomos destinados, segundo o plano da Vida. Anular a opressão da família, suprimir a propriedade, como forma de tirania económica, renegar o sentimento religioso, equivale para a barbaria destruidora da civilização, a emancipar e tornar felizes os homens no domínio dos apetites, sob o império justiceiro e festivo de Satanás.
As nossas escolas e oficinas vão-se tornando seminários de petroleiros, células de energia destruidora ante a complacência ou a passividade do Poder Público que tem o encargo da conservação e defesa social. Com professores comunistas e acratas, seria insensatez esperar discípulos exemplares e cidadãos patriotas. Nas escuras lojas e pelas doces alfombras dos campos, já ecoa sinistramente um grito, até hoje nunca soado em terra e língua nossa:
— Morra Portugal!
Assim o povo vai perdendo a ventura de cantar ao sol e à chuva, com a voz enrouquecida de clamar vingança e rogar pragas. Aos cuidados urgentes dos que têm fome, à repressão exemplar dos que fingem tê-la para inflamar ódios, ao juízo seguro de quantos padecem sede de justiça, juntaria um governo previdente outra missão salvadora: o amparo moral e político daqueles portugueses erradios por alheias terras ou que vogam nas cobertas de navios mercantes — tantos milhares de irmãos nossos, dispersos pelo globo, que nas distâncias do sofrimento, do acaso ou da ventura, não puderam quebrar ainda os liames com que a saudade os prende à Terra-mãe. E não merecem ser esquecidos, esses a quem ninguém fala da Pátria ausente, que desaprendem a nossa língua e que por lá vivem e morrem, como náufragos do mundo, desde Ceuta à Polinésia, em paragens que foram nossas, ou entre gentes exóticas, sem que os cubra a sombra da bandeira. Se a missão de Portugal, por nossa consciência e amor, não está finda, ela terá de recomeçar com sentido crítico; aos que nos chamam povo moribundo, mostrar podemos que só falta despertar de uma hipnose maligna para prosseguir o mesmo signo. Temos de entrar na fase da compreensão, digamos, científica do Nacionalismo — cuidar da raça, no seu sangue, inflamar as almas em espírito de verdade, dar expressão consciente, pela escola e pela ação do Poder, à nossa vida coletiva.
O ideal nacional é o mesmo de ontem: erguer povos para a comunhão do espírito português, civilizar, criar para Deus e para os homens, novas nações, filhas da Nação. Foi a fé de Cristo que deu ao nosso imperialismo dos séculos áureos o sentido da universalidade, levando os Reis, desde D. João II, a chamar irmãos aos soberanos negros do Congo e aos chefes índios do Malabar, após o batismo. Se era católica a ação missionária, de larga amplitude política, de universalismo verdadeiro, tomaria expressão o nosso domínio antigo.
Por esta condição tradicional, fomos praticando a política da assimilação, pois outra não pode justificar-se em nações civilizadoras que se proponham mais altos intentos do que seja comerciar com os indígenas ou vendê-los ao capital cosmopolita.
Contra a justiça na dignificação do esforço português, investe audazmente a detração, a calúnia de certa escola histórica que pretende reduzir toda a nossa epopeia a uma empresa aventureira de chatinagem, rapina e escravaria.
Negócio de especiarias, de oiro e de sangue humano, a contribuição dos Portugueses na civilização do mundo ficaria reduzida a um ciclo monstruoso de ambição coletiva, do Rei, do Clero e dos Capitães, nesse conceito de colonizadores e humanitários de hoje que aperfeiçoaram os vícios dos nossos antepassados, sem tomar algum exemplo das suas virtudes. A História verdadeira honradamente confessa e acusa as violências do saque, as atrocidades do ferro e do fogo. Mas não foram os Portugueses mais cruéis do que os conquistadores e guerreiros de todos os tempos e de hoje em dia, e nenhuma grande obra histórica pôde ser levada a cabo, sem sacrifício de vidas e fazendas, sem afronta à inocência e à justiça, para que não lhe falte o cunho da nossa ingénita maldade, da triste imperfeição humana.
Mas já secaram as fontes encantadas da abundância e da cobiça, evolou-se o perfume do cravo e da canela, os diamantes andam dispersos por mãos que não os ganharam, e do oiro — tanto ele foi! — só sobrevive aquele que, para marcar a jornada do Espírito, moldou os metais e floriu a pedra, cativando-se em formas eternas de beleza, nos altares e nos templos.
Nesta hora, para vingar e afirmar a Lusitanidade, mantendo-a dignamente activa e arvorada, como estandarte, importaria criar uma diplomacia de servidores fieis que acreditassem na restauração do ideal português, que o vivessem e com fervor o amassem, possuídos da alta necessidade da sua função política. Em execução de tal desígnio e até por honra nacional, seria forçoso instituir uma chancelaria verdadeira, desalojar de repartições e legações os burocratas céticos ou epicuristas que ajuntam dinheiro no emprego ou o desbaratam com o próprio decoro, e que, para deslumbrar olhos mal previstos, se cobrem de chapas reluzentes, como os palhaços, fazendo avultar em falso relevo, a planura rasa da sua nulidade.
*
Depois da crença com que erguemos os gentios do seu plano gregário, foi a língua o primeiro instrumento de Lusitanidade, a mais duradoira marca do espírito e da civilização de que nos fizemos apóstolos. Os povos não se reconheceriam adultos, na África, na Índia e no Brasil, se por nossa linguagem não os ensinássemos a rezar e a ler, levando-os a compartilhar do esplendor de uma das mais gloriosas obras dos homens. A ordens dadas em português, levantaram-se fortalezas e templos, armaram-se pretórios entre rochedos, areais ou palmares, por onde se constituíram autoridades para governar homens e administrar justiça. Pelos mais ignotos páramos do mundo, nos adarves, nas casamatas, no púlpito e na escola, nas capitanias e nos tribunais, pela língua esteve presente o génio português, a sua fé, a sua inteligência, a sua vontade e poder.
Com a palavra embarcou a música e o canto que difundiram na sensibilidade de tão apartadas gentes, pelo filtro misterioso dos sons, a melancolia ocidental, queixa do lirismo portugalês, cuja seiva corre escondida nas fontes mais vivas e profundas do nosso sangue. Costumes, vícios, de tudo se fez transcriação no terreno exótico de outras almas que ainda agora comunicam sofrimentos, cantam e sonham em vocábulos que dos nautas e apóstolos algum dia aprenderam seus avós.
Exiladas sob os céus ardentes de Malaca, à roda da capela de Hilir, da missão portuguesa de Singapura, podem ouvir-se da boca de pescadores, quadras populares de sentimento lusitano, em que vivamente floresce a saudade ocidental:
Despedi cum despedi,
Nunca cabá despedi :
Olo enchido lágri
Boca num pôdi abri [1].
(Equivalência)
Meu adeus e teu adeus,
Não me chego a despedir:
C'os olhos rasos de lágrimas
A boca não pude abrir.
E relembrando o dialecto crioulo de Ceilão onde não há missão nem escola portuguesa, vai para meio século, verificamos por documentos mais recentes que a nossa fala vive na Ilha pelos hinos e cantigas religiosas, pelas narrativas e contos nas formas usuais do português basso:
Oh Deos nosso Judador
E nossa Esp'rança;
De tromentos o Livrador
E nossa morança.
Sombral de Teu throno basso
Tem nossa seg'rança;
Basta per nos tem teu braço, -
Hum certo defensa.
..............................................................
E para findar, recortemos este trecho dum sermão sobre a alma, pregado na velha Taprobana pelo Vigário-Geral, padre Rodolfo Dalgado:
Né evangelho dé este domingo S. Matheus tê papiá tocando hum tentação que hum sorte dé homes chomado herodianos já andá fazê per Nossa Senhor Jesus Christo. Ellotros já pruntá per elle, si tinha dreito per dá tributo per Cesar ou não. Mas Jesus já entendê su malícia e já fallá: «Mustrá per mi o dinheiro dé tributo». E ellotros iá trizê per elle hum dinheiro; e elle já pruntá: «Quem su imajo e ins-cripção tem este?» Ellotros já repostá: «De Cesar». Aquelhora elle já fallá per ellotros: «Dá per Cesar o cóusas dè Cesar, e per Deos o cóusas dé Deos» [2].
Através da língua escrita, na fala viva dos portos, das missões e escolas do Padroado que uma política sem inteligência nem grandeza deixou reduzir há poucos anos a fórmula moribunda de domínio espiritual, a portuguesa anda esparsa nos horizontes cálidos e aromatizados do Oriente, arrastando a decadência secular, como águia ferida nas alturas que doridamente adeja em pios e suspiros, à espera de que a reanimem no voo.
Quando se pensa no que se perdeu sem remédio, sacode-nos o impulso de salvar o que ainda for possível do esquecimento tragador.
Por todas as paragens de Portugal peregrino e navegante, impõe-se a um Poder em função de exaltação coletiva, salvar os vestígios, as vozes, as lembranças, as pedras e as armas, enfim reivindicar esses atestados do longe que podem manter à Nação a sua fisionomia épica e que por toda a face da Terra testemunham a beleza e a amplitude da Lusitanidade. Não seria dispêndio inútil que um dia, e quanto antes, para dar realização perfeita à política do espírito, consagrando assim as forças morais, algumas missões de estudiosos, devidamente providas, fossem recolher as provas vivas dessa universal influência em oceanos, ilhas e impérios, desde Marrocos à Índia, à China e à Malásia, seguindo a passagem da Cruz e da Espada, dos soldados, sacerdotes e mercadores, durante a ação e domínio dessas prolongadas gesta Der per Lusitanos que, juntando heroísmo e tragédia, sangue com lágrimas, mereceram legendas de bronze na Crónica e os louvores do hino no Canto excelso de Camões.
Assim receberíamos melhor sentença da justiça histórica, compondo e ilustrando o mais famoso livro de quantos o mundo já viu, para sua lição e espanto.
*
Nesse atlas da nossa jornada transmarina, lugar de honra seria guardado para o Brasil, pois que, na grande posteridade de Santa Cruz, a vida e a alma que lá criámos nunca deixarão de reflorir.
No desenvolvimento histórico da língua, Portugal e Brasil exemplificam o destino do Império Romano e dos povos que lhe foram sujeitos: quebrado o vínculo da unidade política, surgiram os dialetos que foram alcançando na corrente dos séculos, o esplendor das línguas românticas de hoje.
Ainda agora, na terra do Brasil, os escritores que em verso e prosa mais honram e melhor servem a cultura da Nação-Irmã, empregam a língua portuguesa culta, exprimem-se em português verdadeiro.
Da fala à escrita, é grande a distância, a mesma que separa o primitivo dialeto colonial da língua que lá pregou o padre António Vieira, na sua forma mais nobre de correção e propriedade.
Sempre que os escritores do Brasil quiserem servir-se do dialecto americano, não lhes custará fazê-lo, e alguns exemplos oferece a sua moderna antologia; mas, para dar título e foro à língua brasileira, necessário é que as vozes das gerações a criem, as inteligências a modelem, até atingir alma própria, com estrutura definida em normas de sintaxe.
Por alguns séculos ainda, o Império do Brasil, criado e conduzido para a emancipação nos braços da Metrópole, partilhará com ela a glória de falar um dos mais opulentos e coloridos idiomas do universo, enquanto, ao ritmo da sua obscura fatalidade, as leis da linguagem irão provocando e operando a diferenciação. Para cumprir os votos de fraternidade generosa que às vezes formulam, poderia sustar-se ou modificar-se este destino, promovendo a reação da escrita sobre a fonética, por meio de escolas, institutos, teatros e academias em que se cultivasse e defendesse a normal ortoépia portuguesa. Mas bem fora estão os brasileiros de tal propósito, tantas vezes impelidos por doentios zelos nativistas a reivindicar a originidade e autonomia duma língua brasileira que... ainda não existe. Se fosse fiel à Lusitanidade, o Brasil gostaria de associar os seus esforços ao intento de conservar e prestigiar a língua portuguesa, defendendo a pureza e a integridade de este rutilante prodígio dos sentidos e do engenho humano.
Sem Portugal, o Brasil não teria a alma que o dignifica, não seria como é, na sua conformação étnica e unidade espiritual. Por isso, renegar ou desvirtuar, por baixo despeito ou ignorância, a sua filiação lusitana, vale o mesmo que blasonar da confissão dum absurdo, ofendendo a natureza na justiça da sua progenitura.
Pode Portugal ver-se esquecido ou menosprezado nas intenções de brasileiros, obscuros ou ilustres que sejam; o Brasil sempre por nós será lembrado e querido, porque no milagre da sua criadora juventude se lê o título mais eloquente da nossa glória de Nação civilizadora.
Há mais de cinco séculos que Portugal anda a correr mundo, a transfundir a sua alma cristã nas almas dos gentios de todas as latitudes, o seu sangue na vida de outras raças, oferecendo à história dos homens o mais belo testemunho de esforço coletivo. Contra essa certeza, não prevalecerá a ignorância ou a ingratidão de alguns, entre os milhões que com nossos maiores aprenderam a falar, nem por isso o Brasil poderá deixar de ser, entre tantas terras e gentes da Lusitanidade, a carne da nossa carne, alma da nossa alma irmã.
Pelo Brasil, Portugal revive no sangue e sobrevive no espírito, prolongando-se no futuro em luminosa imortalidade. Aos nossos corações de poetas e cavaleiros gostoso é saber que lá por longe, na orla ocidental do Lago Atlântico, ainda permanecem alguns fiéis semeadores de afetos lusitanos, jardineiros das flores da alma, na linda pátria de que a Nação Portuguesa foi o berço e de que por saudosos afetos, sempre será o lar paterno.
*
Estes são os trofeus, os deveres e honras da Lusitanidade, a que a vadiagem culta, demitida da dignidade do crer e sentir português, há-de chamar retórica, com impotente e vicioso desdém. Mas, se neste orgulho de certezas há retórica, aceitemo-la corajosamente, para não encontrarmos no desgosto de nós mesmos a derrota mais vil, negando-nos a reconhecer que a vida portuguesa foi toda a retórica de uma existência coletiva, trabalhada, cantada e sofrida ao longo de uma procissão civilizadora que há oito séculos está passando.
E se a Cruz, firmada na Terra, topou o Céu pelo mistério da Ressurreição, foi a fé dos Portugueses que lhe prolongou os braços para Oriente e para Ocidente, traçando para todos os povos e nações o Equador da Redenção.
Lusitanidade — roteiro do mundo, esplendor heróico, evangelho de gentios, batismo de estrelas!
Do livro a sair brevemente — Pedras para o Templo
HIPÓLITO RAPOSO
[1] Vid. A Língua Portuguesa, vol. II - Fasc. V e VI, onde se lê um interessante estudo de Luís Chaves sobre o folclore no papiá cristão (o português) de Malaca, com base nos elementos colhidos pelo padre Silva Rego, missionário em Singapura.
[2] Sebastião Rodolpho Dalgado — Dialecto Indo-Português de Ceylão, Lisboa, Imprensa Nacional, 1900, pp. 117-118, 241.
Quando, em meio da turbação sanguinária dos dias e dos anos, ou dentro dos cárceres, encetámos a sementeira da Esperança, queríamos que ao florescer o renovo, a Nação guardasse fidelidade ao seu destino, alevantando-se da sua miséria de Lázaro, para retomar consciência dos seus maiores deveres, com sentido vivo e concreto do que agora chamaremos Lusitanidade.
Eco e reflexo do passado na memória de hoje, imperativo da inteligência, estímulo de ação realizadora, bem sentimos que por essa virtude se sublimou a alma portuguesa, vencendo na amplidão do orbe a plenitude do tempo.
Por ela se pode traduzir a transfiguração de Portugal em terras de além-mar, ao repetir-se, por nova criação, a fisionomia dos nossos vilares, ermidas e urbes, em gentes de outra fala e diversa crença.
Pelo milagre da Lusitanidade, atravessou continentes e mares a trajetória civilizadora deste Povo que, ardendo sempre em clarões de fé, sofreu mais do que todos a sede do Infinito; por ela, a Nação iluminou de fulgor espiritual o mapa do mundo, ganhando nos juízos da consciência universal, o arco de triunfo da sua imperial grandeza.
Ao fazer-se instrumento histórico que daria à civilização mediterrânea amplitude atlântica e expressão cósmica, Portugal veio a ser padrinho de constelações celestes e de ignotas ilhas, ainda absortas na luz e frescura virginal da primeira aurora do Planeta.
Se pelo influxo da sua vocação imperatória, a velha Lusitânia vem repetindo o desígnio de Roma por sobre a majestade e a miséria de vinte séculos, cumpre-lhe acatar o mandato dessa predestinação, com as obrigações inerentes a um Poder livre, forte e ousado, sinceramente rendido à certeza de que o melhor meio de continuar o passado é consagrar os deveres da moral e da honra na perseverança da fé nacional, e não esquecer os mais altos exemplos de serviços ao Rei e à Grei.
Por tal intuito não submetemos a tradição ao beneficio de inventário, à semelhança daqueles que tantas vezes e por tantos erros buscam no que foi, a justificação do que não deve nem pode ser: aceitámo-la como herança histórica, pesada de encargos, património que não se mede nem se conta, com as glórias das conquistas, as perdas e desditas da guerra, com a dor dos naufrágios, em perfeita solidariedade moral, por toda a longa corda do sangue a que nascemos e vivemos presos. Só por este conceito de unidade poderemos ver a Nação refletida na própria consciência, restaurada e devolvida à sua ordenação institucional, à família cristã, à oficina honrada, ao concelho livre na província distinta, à realeza e à dinastia, segurança e prestígio da verdadeira independência, na perpetuidade dos tempos.
Em ciclo de ressurgimento, se nele tivéssemos entrado, tanto por interesse coletivo, como por obediência ao preceito divino, seria o primeiro cuidado dar de comer aos famintos, vestir os nus portugueses, em boa ou má hora nascidos por Benavila, Alcafozes e Valpaços.
Sem farrapos que lhes embrulhem a carne tenra, nem pão de reserva para o lar, quando chegam ao mundo, em tal transe de miséria e grandeza humana, nem o pudor das mães se pode guardar dos olhos de outros filhos, através da chita esburacada. Boas raízes as desta arvore, da geração lusitana viçosamente, brotam-todos os dias, soldados, homens de ofício e cavadores; mas, pelo desgosto da pobreza e abandono, tanta é a dor moral das mulheres que nelas se vai perdendo a dignidade cristã de aceitar o sofrimento com alegria, colaborando com a Providência no plano da criação.
Por toda a terra portuguesa, quem agora for espreitar tugúrios, ouve marulhar o poderoso coral da desventura — infantes que não mamam leite, mas lágrimas, velhices a gemer de frio ou desamparo, enfermos indigentes que já em vão procuram nos hospitais o catre para esperar a morte. Para os homens, os dias da vida vão passando, assombrados de maldição: ausentou-se do trabalho a bênção que o fecundava, no ar respira-se um hálito amargo, de obsidiante melancolia, enquanto o velho Portugal já anda ameaçado na ditosa graça de não ver florido o seu sangue nas mais risonhas e amplas searas de crianças. A este povo de olhos-meninos, esculpido em terra morena e pintado à têmpera do sol, vergam-se os peitos de cansaço, os pés atardam-se no andar, de fome ou doença amolentam-se as fibras dos músculos, de sorte que, ao passar um regimento, assiste-se ao desfile de uma rendição sem combate; ver escolas de primeiras letras é presenciar muitas vezes cadeias de pequenos moribundos com quem Átropos zelosamente conta para lhes ceifar as vidas.
Sem povo farto, não há força, e menos força armada; fora de contentamento, não tem sabor a prosperidade; com almas vencidas e corpos débeis, não pode restaurar-se Portugal em vigor físico e saúde espiritual.
O sangue e a alma - quem os defender da corrução e da morte, cumpre o principal mandamento de governo, acode à mais grave crise nacional.
Na realidade sombria que todos conhecem, e que tantos esforços de corações eleitos da bondade não logram remediar, penetra, como fluido insistente, a aspiração do paraíso vermelho: quem nada tem aceita o que lhe prometem, mesmo que seja tudo. A cólera dos mais baixos e feridos instintos já se levanta em vagalhões contra a tirania do Estado, prescrevem-se, como afrontosos, sentimentos e alegrias de Família, renega-se a função da justa Riqueza, ultraja-se a própria vida do Espírito.
Como em perigo de incêndio ou maré de naufrágio, salta-se para uma floresta em chamas ou para um abismo rugidor.
Não importa. Com a cegueira raivosa dos olhos da carne, apaga-se ou obscurece-se a inteligência, e o caminho do futuro abre-se no regresso ao gregarismo primário onde se anulam milénios de nobres aspirações de pensamento e de beleza moral.
Durante eles, trabalhou o homem por dignificar-se acima da besta, submetendo o seu egoísmo às leis do sacrifício, por amor da mulher que é mais do que fêmea, à voz do afeto dos filhos que mais valem do que cachorros, por ditame da convivência humana a que fomos destinados, segundo o plano da Vida. Anular a opressão da família, suprimir a propriedade, como forma de tirania económica, renegar o sentimento religioso, equivale para a barbaria destruidora da civilização, a emancipar e tornar felizes os homens no domínio dos apetites, sob o império justiceiro e festivo de Satanás.
As nossas escolas e oficinas vão-se tornando seminários de petroleiros, células de energia destruidora ante a complacência ou a passividade do Poder Público que tem o encargo da conservação e defesa social. Com professores comunistas e acratas, seria insensatez esperar discípulos exemplares e cidadãos patriotas. Nas escuras lojas e pelas doces alfombras dos campos, já ecoa sinistramente um grito, até hoje nunca soado em terra e língua nossa:
— Morra Portugal!
Assim o povo vai perdendo a ventura de cantar ao sol e à chuva, com a voz enrouquecida de clamar vingança e rogar pragas. Aos cuidados urgentes dos que têm fome, à repressão exemplar dos que fingem tê-la para inflamar ódios, ao juízo seguro de quantos padecem sede de justiça, juntaria um governo previdente outra missão salvadora: o amparo moral e político daqueles portugueses erradios por alheias terras ou que vogam nas cobertas de navios mercantes — tantos milhares de irmãos nossos, dispersos pelo globo, que nas distâncias do sofrimento, do acaso ou da ventura, não puderam quebrar ainda os liames com que a saudade os prende à Terra-mãe. E não merecem ser esquecidos, esses a quem ninguém fala da Pátria ausente, que desaprendem a nossa língua e que por lá vivem e morrem, como náufragos do mundo, desde Ceuta à Polinésia, em paragens que foram nossas, ou entre gentes exóticas, sem que os cubra a sombra da bandeira. Se a missão de Portugal, por nossa consciência e amor, não está finda, ela terá de recomeçar com sentido crítico; aos que nos chamam povo moribundo, mostrar podemos que só falta despertar de uma hipnose maligna para prosseguir o mesmo signo. Temos de entrar na fase da compreensão, digamos, científica do Nacionalismo — cuidar da raça, no seu sangue, inflamar as almas em espírito de verdade, dar expressão consciente, pela escola e pela ação do Poder, à nossa vida coletiva.
O ideal nacional é o mesmo de ontem: erguer povos para a comunhão do espírito português, civilizar, criar para Deus e para os homens, novas nações, filhas da Nação. Foi a fé de Cristo que deu ao nosso imperialismo dos séculos áureos o sentido da universalidade, levando os Reis, desde D. João II, a chamar irmãos aos soberanos negros do Congo e aos chefes índios do Malabar, após o batismo. Se era católica a ação missionária, de larga amplitude política, de universalismo verdadeiro, tomaria expressão o nosso domínio antigo.
Por esta condição tradicional, fomos praticando a política da assimilação, pois outra não pode justificar-se em nações civilizadoras que se proponham mais altos intentos do que seja comerciar com os indígenas ou vendê-los ao capital cosmopolita.
Contra a justiça na dignificação do esforço português, investe audazmente a detração, a calúnia de certa escola histórica que pretende reduzir toda a nossa epopeia a uma empresa aventureira de chatinagem, rapina e escravaria.
Negócio de especiarias, de oiro e de sangue humano, a contribuição dos Portugueses na civilização do mundo ficaria reduzida a um ciclo monstruoso de ambição coletiva, do Rei, do Clero e dos Capitães, nesse conceito de colonizadores e humanitários de hoje que aperfeiçoaram os vícios dos nossos antepassados, sem tomar algum exemplo das suas virtudes. A História verdadeira honradamente confessa e acusa as violências do saque, as atrocidades do ferro e do fogo. Mas não foram os Portugueses mais cruéis do que os conquistadores e guerreiros de todos os tempos e de hoje em dia, e nenhuma grande obra histórica pôde ser levada a cabo, sem sacrifício de vidas e fazendas, sem afronta à inocência e à justiça, para que não lhe falte o cunho da nossa ingénita maldade, da triste imperfeição humana.
Mas já secaram as fontes encantadas da abundância e da cobiça, evolou-se o perfume do cravo e da canela, os diamantes andam dispersos por mãos que não os ganharam, e do oiro — tanto ele foi! — só sobrevive aquele que, para marcar a jornada do Espírito, moldou os metais e floriu a pedra, cativando-se em formas eternas de beleza, nos altares e nos templos.
Nesta hora, para vingar e afirmar a Lusitanidade, mantendo-a dignamente activa e arvorada, como estandarte, importaria criar uma diplomacia de servidores fieis que acreditassem na restauração do ideal português, que o vivessem e com fervor o amassem, possuídos da alta necessidade da sua função política. Em execução de tal desígnio e até por honra nacional, seria forçoso instituir uma chancelaria verdadeira, desalojar de repartições e legações os burocratas céticos ou epicuristas que ajuntam dinheiro no emprego ou o desbaratam com o próprio decoro, e que, para deslumbrar olhos mal previstos, se cobrem de chapas reluzentes, como os palhaços, fazendo avultar em falso relevo, a planura rasa da sua nulidade.
*
Depois da crença com que erguemos os gentios do seu plano gregário, foi a língua o primeiro instrumento de Lusitanidade, a mais duradoira marca do espírito e da civilização de que nos fizemos apóstolos. Os povos não se reconheceriam adultos, na África, na Índia e no Brasil, se por nossa linguagem não os ensinássemos a rezar e a ler, levando-os a compartilhar do esplendor de uma das mais gloriosas obras dos homens. A ordens dadas em português, levantaram-se fortalezas e templos, armaram-se pretórios entre rochedos, areais ou palmares, por onde se constituíram autoridades para governar homens e administrar justiça. Pelos mais ignotos páramos do mundo, nos adarves, nas casamatas, no púlpito e na escola, nas capitanias e nos tribunais, pela língua esteve presente o génio português, a sua fé, a sua inteligência, a sua vontade e poder.
Com a palavra embarcou a música e o canto que difundiram na sensibilidade de tão apartadas gentes, pelo filtro misterioso dos sons, a melancolia ocidental, queixa do lirismo portugalês, cuja seiva corre escondida nas fontes mais vivas e profundas do nosso sangue. Costumes, vícios, de tudo se fez transcriação no terreno exótico de outras almas que ainda agora comunicam sofrimentos, cantam e sonham em vocábulos que dos nautas e apóstolos algum dia aprenderam seus avós.
Exiladas sob os céus ardentes de Malaca, à roda da capela de Hilir, da missão portuguesa de Singapura, podem ouvir-se da boca de pescadores, quadras populares de sentimento lusitano, em que vivamente floresce a saudade ocidental:
Despedi cum despedi,
Nunca cabá despedi :
Olo enchido lágri
Boca num pôdi abri [1].
(Equivalência)
Meu adeus e teu adeus,
Não me chego a despedir:
C'os olhos rasos de lágrimas
A boca não pude abrir.
E relembrando o dialecto crioulo de Ceilão onde não há missão nem escola portuguesa, vai para meio século, verificamos por documentos mais recentes que a nossa fala vive na Ilha pelos hinos e cantigas religiosas, pelas narrativas e contos nas formas usuais do português basso:
Oh Deos nosso Judador
E nossa Esp'rança;
De tromentos o Livrador
E nossa morança.
Sombral de Teu throno basso
Tem nossa seg'rança;
Basta per nos tem teu braço, -
Hum certo defensa.
..............................................................
E para findar, recortemos este trecho dum sermão sobre a alma, pregado na velha Taprobana pelo Vigário-Geral, padre Rodolfo Dalgado:
Né evangelho dé este domingo S. Matheus tê papiá tocando hum tentação que hum sorte dé homes chomado herodianos já andá fazê per Nossa Senhor Jesus Christo. Ellotros já pruntá per elle, si tinha dreito per dá tributo per Cesar ou não. Mas Jesus já entendê su malícia e já fallá: «Mustrá per mi o dinheiro dé tributo». E ellotros iá trizê per elle hum dinheiro; e elle já pruntá: «Quem su imajo e ins-cripção tem este?» Ellotros já repostá: «De Cesar». Aquelhora elle já fallá per ellotros: «Dá per Cesar o cóusas dè Cesar, e per Deos o cóusas dé Deos» [2].
Através da língua escrita, na fala viva dos portos, das missões e escolas do Padroado que uma política sem inteligência nem grandeza deixou reduzir há poucos anos a fórmula moribunda de domínio espiritual, a portuguesa anda esparsa nos horizontes cálidos e aromatizados do Oriente, arrastando a decadência secular, como águia ferida nas alturas que doridamente adeja em pios e suspiros, à espera de que a reanimem no voo.
Quando se pensa no que se perdeu sem remédio, sacode-nos o impulso de salvar o que ainda for possível do esquecimento tragador.
Por todas as paragens de Portugal peregrino e navegante, impõe-se a um Poder em função de exaltação coletiva, salvar os vestígios, as vozes, as lembranças, as pedras e as armas, enfim reivindicar esses atestados do longe que podem manter à Nação a sua fisionomia épica e que por toda a face da Terra testemunham a beleza e a amplitude da Lusitanidade. Não seria dispêndio inútil que um dia, e quanto antes, para dar realização perfeita à política do espírito, consagrando assim as forças morais, algumas missões de estudiosos, devidamente providas, fossem recolher as provas vivas dessa universal influência em oceanos, ilhas e impérios, desde Marrocos à Índia, à China e à Malásia, seguindo a passagem da Cruz e da Espada, dos soldados, sacerdotes e mercadores, durante a ação e domínio dessas prolongadas gesta Der per Lusitanos que, juntando heroísmo e tragédia, sangue com lágrimas, mereceram legendas de bronze na Crónica e os louvores do hino no Canto excelso de Camões.
Assim receberíamos melhor sentença da justiça histórica, compondo e ilustrando o mais famoso livro de quantos o mundo já viu, para sua lição e espanto.
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Nesse atlas da nossa jornada transmarina, lugar de honra seria guardado para o Brasil, pois que, na grande posteridade de Santa Cruz, a vida e a alma que lá criámos nunca deixarão de reflorir.
No desenvolvimento histórico da língua, Portugal e Brasil exemplificam o destino do Império Romano e dos povos que lhe foram sujeitos: quebrado o vínculo da unidade política, surgiram os dialetos que foram alcançando na corrente dos séculos, o esplendor das línguas românticas de hoje.
Ainda agora, na terra do Brasil, os escritores que em verso e prosa mais honram e melhor servem a cultura da Nação-Irmã, empregam a língua portuguesa culta, exprimem-se em português verdadeiro.
Da fala à escrita, é grande a distância, a mesma que separa o primitivo dialeto colonial da língua que lá pregou o padre António Vieira, na sua forma mais nobre de correção e propriedade.
Sempre que os escritores do Brasil quiserem servir-se do dialecto americano, não lhes custará fazê-lo, e alguns exemplos oferece a sua moderna antologia; mas, para dar título e foro à língua brasileira, necessário é que as vozes das gerações a criem, as inteligências a modelem, até atingir alma própria, com estrutura definida em normas de sintaxe.
Por alguns séculos ainda, o Império do Brasil, criado e conduzido para a emancipação nos braços da Metrópole, partilhará com ela a glória de falar um dos mais opulentos e coloridos idiomas do universo, enquanto, ao ritmo da sua obscura fatalidade, as leis da linguagem irão provocando e operando a diferenciação. Para cumprir os votos de fraternidade generosa que às vezes formulam, poderia sustar-se ou modificar-se este destino, promovendo a reação da escrita sobre a fonética, por meio de escolas, institutos, teatros e academias em que se cultivasse e defendesse a normal ortoépia portuguesa. Mas bem fora estão os brasileiros de tal propósito, tantas vezes impelidos por doentios zelos nativistas a reivindicar a originidade e autonomia duma língua brasileira que... ainda não existe. Se fosse fiel à Lusitanidade, o Brasil gostaria de associar os seus esforços ao intento de conservar e prestigiar a língua portuguesa, defendendo a pureza e a integridade de este rutilante prodígio dos sentidos e do engenho humano.
Sem Portugal, o Brasil não teria a alma que o dignifica, não seria como é, na sua conformação étnica e unidade espiritual. Por isso, renegar ou desvirtuar, por baixo despeito ou ignorância, a sua filiação lusitana, vale o mesmo que blasonar da confissão dum absurdo, ofendendo a natureza na justiça da sua progenitura.
Pode Portugal ver-se esquecido ou menosprezado nas intenções de brasileiros, obscuros ou ilustres que sejam; o Brasil sempre por nós será lembrado e querido, porque no milagre da sua criadora juventude se lê o título mais eloquente da nossa glória de Nação civilizadora.
Há mais de cinco séculos que Portugal anda a correr mundo, a transfundir a sua alma cristã nas almas dos gentios de todas as latitudes, o seu sangue na vida de outras raças, oferecendo à história dos homens o mais belo testemunho de esforço coletivo. Contra essa certeza, não prevalecerá a ignorância ou a ingratidão de alguns, entre os milhões que com nossos maiores aprenderam a falar, nem por isso o Brasil poderá deixar de ser, entre tantas terras e gentes da Lusitanidade, a carne da nossa carne, alma da nossa alma irmã.
Pelo Brasil, Portugal revive no sangue e sobrevive no espírito, prolongando-se no futuro em luminosa imortalidade. Aos nossos corações de poetas e cavaleiros gostoso é saber que lá por longe, na orla ocidental do Lago Atlântico, ainda permanecem alguns fiéis semeadores de afetos lusitanos, jardineiros das flores da alma, na linda pátria de que a Nação Portuguesa foi o berço e de que por saudosos afetos, sempre será o lar paterno.
*
Estes são os trofeus, os deveres e honras da Lusitanidade, a que a vadiagem culta, demitida da dignidade do crer e sentir português, há-de chamar retórica, com impotente e vicioso desdém. Mas, se neste orgulho de certezas há retórica, aceitemo-la corajosamente, para não encontrarmos no desgosto de nós mesmos a derrota mais vil, negando-nos a reconhecer que a vida portuguesa foi toda a retórica de uma existência coletiva, trabalhada, cantada e sofrida ao longo de uma procissão civilizadora que há oito séculos está passando.
E se a Cruz, firmada na Terra, topou o Céu pelo mistério da Ressurreição, foi a fé dos Portugueses que lhe prolongou os braços para Oriente e para Ocidente, traçando para todos os povos e nações o Equador da Redenção.
Lusitanidade — roteiro do mundo, esplendor heróico, evangelho de gentios, batismo de estrelas!
Do livro a sair brevemente — Pedras para o Templo
HIPÓLITO RAPOSO
[1] Vid. A Língua Portuguesa, vol. II - Fasc. V e VI, onde se lê um interessante estudo de Luís Chaves sobre o folclore no papiá cristão (o português) de Malaca, com base nos elementos colhidos pelo padre Silva Rego, missionário em Singapura.
[2] Sebastião Rodolpho Dalgado — Dialecto Indo-Português de Ceylão, Lisboa, Imprensa Nacional, 1900, pp. 117-118, 241.
... abramos Os Lusíadas - fonte de consolações íntimas, breviário de esperança (...) Camões é o poeta da Contra-Reforma - é o cantor do ideal supremo da Cristandade, apontado à Europa pelo Concílio de Trento. (...) abramos Os Lusíadas e ali prescutaremos, como em nenhuma parte, a vocação apostólica, que anima, qual seiva mística, o corpo moral da pátria bem amada.
- António Sardinha
- António Sardinha
Em 1914, em Humanismo e Nacionalidade, o jovem Hipólito Raposo apresentou a Renascença como um período de desnacionalização e a Expansão como uma das causas da decadência portuguesa (na linha de Antero de Quental), a que não subtraía a mestiçagem "deprimindo a energia moral da raça". Essa visão negativa da mestiçagem era corrente na época, em especial entre os republicanos que tendiam a ver na nação portuguesa um organismo étnico, como Aquilino Ribeiro e Raul Proença, do grupo da Seara Nova. Em 1926, Raul Proença defendeu mesmo uma política da Raça, ou Eugenia, como a base essencial do seu programa de regeneração da República - "a peça mestra das nossas reformas e a condição prévia de todas elas" (A Ditadura Militar, p. 65).
Nos anos de 1920 e 1930, os integralistas estavam já bem nos antípodas do racismo estrutural dos republicanos. Em Julho de 1933, Hipólito Raposo via a Expansão portuguesa e a mestiçagem, assim como Os Lusíadas, à luz do que designou por "Lusitanidade" - "uma procissão civilizadora que há cinco séculos está passando":
"Há mais de cinco séculos que Portugal anda a correr mundo, a transfundir a sua alma cristã nas almas dos gentios de todas as latitudes, o seu sangue na vida de outras raças, oferecendo à história dos homens o mais belo testemunho de esforço coletivo. Contra essa certeza, não prevalecerá a ignorância ou a ingratidão de alguns, entre os milhões que com nossos maiores aprenderam a falar, nem por isso o Brasil poderá deixar de ser, entre tantas terras e gentes da Lusitanidade, a carne da nossa carne, alma da nossa alma irmã.
Pelo Brasil, Portugal revive no sangue e sobrevive no espírito, prolongando-se no futuro em luminosa imortalidade.
Aos nossos corações de poetas e cavaleiros gostoso é saber que lá por longe, na orla ocidental do Lago Atlântico, ainda permanecem alguns fiéis semeadores de afetos lusitanos, jardineiros das flores da alma, na linda pátria de que a Nação Portuguesa foi o berço e de que por saudosos afetos, sempre será o lar paterno."
J. M. Q.
10 de Junho de 2026
Nos anos de 1920 e 1930, os integralistas estavam já bem nos antípodas do racismo estrutural dos republicanos. Em Julho de 1933, Hipólito Raposo via a Expansão portuguesa e a mestiçagem, assim como Os Lusíadas, à luz do que designou por "Lusitanidade" - "uma procissão civilizadora que há cinco séculos está passando":
"Há mais de cinco séculos que Portugal anda a correr mundo, a transfundir a sua alma cristã nas almas dos gentios de todas as latitudes, o seu sangue na vida de outras raças, oferecendo à história dos homens o mais belo testemunho de esforço coletivo. Contra essa certeza, não prevalecerá a ignorância ou a ingratidão de alguns, entre os milhões que com nossos maiores aprenderam a falar, nem por isso o Brasil poderá deixar de ser, entre tantas terras e gentes da Lusitanidade, a carne da nossa carne, alma da nossa alma irmã.
Pelo Brasil, Portugal revive no sangue e sobrevive no espírito, prolongando-se no futuro em luminosa imortalidade.
Aos nossos corações de poetas e cavaleiros gostoso é saber que lá por longe, na orla ocidental do Lago Atlântico, ainda permanecem alguns fiéis semeadores de afetos lusitanos, jardineiros das flores da alma, na linda pátria de que a Nação Portuguesa foi o berço e de que por saudosos afetos, sempre será o lar paterno."
J. M. Q.
10 de Junho de 2026