1933 - Erich Müller - Nationalbolschewismus
Nationalbolschewismus é um ensaio político e histórico da autoria do escritor e publicista alemão Erich Müller (também citado como Erich Müller-Gangloff, 1907–1980), publicado originalmente na Alemanha em 1933. A obra constitui uma síntese teórica sobre a corrente ideológica do nacional-bolchevismo no contexto da República de Weimar e da chamada Revolução Conservadora (Konservative Revolution).
1. Tese Geral da Obra Original (1933)
A tese central de Müller articula a necessidade de superar tanto o capitalismo liberal ocidental como o marxismo internacionalista, propondo uma aliança estratégica e ideológica entre o nacionalismo radical e a revolução social.
Eixos conceptuais principais:
2. Histórico de Edições e Transmissão Editorial
1933
Nationalbolschewismus
Hanseatische Verlagsanstalt (Hamburgo)
Edição original em alemão. Publicada no ano da ascensão de Hitler ao poder, pouco antes da supressão das correntes nacional-bolcheviques independentes do NSDAP.
2003
National-bolchevisme
Éditions Ars Magna (Nantes, França)
Primeira edição em francês. Preparada sob a direção editorial de Christian Bouchet. Contém estudos complementares e um prefácio/introdução alargado com contextualizações sobre movimentos terceiristas/nacional-sindicalistas na Europa (incluindo um ensaio sobre Portugal e Rolão Preto). Tradução coletiva associada aos meios da Ars Magna / Nouvelle Résistance.
3. Contexto dos Intervenientes na Transmissão do Texto
1. Tese Geral da Obra Original (1933)
A tese central de Müller articula a necessidade de superar tanto o capitalismo liberal ocidental como o marxismo internacionalista, propondo uma aliança estratégica e ideológica entre o nacionalismo radical e a revolução social.
Eixos conceptuais principais:
- Antioccidentalismo geopolítico: Müller defende que o verdadeiro inimigo da Alemanha é o sistema ocidental (incorporado pelas potências liberais vencedoras da Primeira Guerra Mundial e pelo Tratado de Versalhes). A salvação geopolítica da Alemanha residiria numa aliança de leste com a União Soviética (Ostorientierung).
- Apropriação do modelo revolucionário: Embora rejeite o materialismo dialético e o ateísmo do marxismo-leninismo, Müller elogia o bolchevismo como um método eficaz de mobilização total, de destruição da ordem burguesa e de edificação de um Estado forte e disciplinado.
- Socialismo Nacional e Anticapitalismo: O autor defende um "socialismo prussiano" ou nacional, onde a economia é subordinada ao Estado e à coletividade nacional, combatendo a burguesia e o capital financeiro internacional.
- O Prussianismo como ponte: Müller estabelece uma linha de continuidade histórica entre o espírito ascético, militar e comunitário da Prússia e a disciplina de quadros do bolchevismo soviético.
2. Histórico de Edições e Transmissão Editorial
1933
Nationalbolschewismus
Hanseatische Verlagsanstalt (Hamburgo)
Edição original em alemão. Publicada no ano da ascensão de Hitler ao poder, pouco antes da supressão das correntes nacional-bolcheviques independentes do NSDAP.
2003
National-bolchevisme
Éditions Ars Magna (Nantes, França)
Primeira edição em francês. Preparada sob a direção editorial de Christian Bouchet. Contém estudos complementares e um prefácio/introdução alargado com contextualizações sobre movimentos terceiristas/nacional-sindicalistas na Europa (incluindo um ensaio sobre Portugal e Rolão Preto). Tradução coletiva associada aos meios da Ars Magna / Nouvelle Résistance.
3. Contexto dos Intervenientes na Transmissão do Texto
- Erich Müller (Autor original): Intelectual da Revolução Conservadora e colaborador próximo de Ernst Niekisch (a figura tutelar do nacional-bolchevismo alemão e editor da revista Widerstand).
- Christian Bouchet (Editor da versão francesa): Publicista e ensaísta francês ligado a correntes da "Terceira Via", "National-Bolschevismo" e "Geopolítica Eurasiana" na França pós-1990. Através da sua chancela editorial Ars Magna, republicou obras clássicas do radicalismo político europeu, acrescentando-lhes aparatos críticos e notas de recepção regional (como a análise sobre o Movimento Nacional-Sindicalista de Rolão Preto em Portugal, aqui transcrita a partir da tradução de Bruno Dias).
NOTA sobre algumas imprecisões do texto sobre Portugal
O Integralismo Lusitano rejeitou a influência neo-clássica da Action Francaise - Sardinha demarcou-se logo em 1914; Monsaraz, em 1921, explicou o motivo em polémica com Raul Proença; e Hipólito Raposo fez mesmo uma conferência, em 1925, dedicada às suas diferentes tradições políticas.
Rolao Preto não estudou em Coimbra e não privou com Oliveira Salazar, de quem nunca foi aliás amigo. O contacto entre ambos foi muito escasso e indireto, por intermédio de Alberto Monsaraz (ver entrevista de 1975 a João Medina, sob o título “Não, não e não”).
Quando o Estado Novo foi estabelecido em Portugal (1933-34), o Estado Fascista tinha já sido plebiscitado em Itália (1929). Salazar copiou dois elementos essenciais: o modelo de partido único e o corporativismo de Estado. A lei eleitoral de 1934 expõe aliás, no seu preâmbulo e sem sofisma, a doutrina do Estado totalitário de Mussolini.
Aldo Bizzarri (Origine e caratteri dello "Stato Nuovo" portoghese, 1941) e Maurice Bardèche (Les fascismes inconnus, 1969) não incluiram Rolão Preto e o seu Movimento Nacional Sindicalista - os "Camisas Azuis" - entre as organizações fascistas europeias dos anos de 1930, o que muito abona a favor do rigor das obras referidas. No texto seguinte, porém, parece "explicar-se" a omissão de Rolão Preto entre os fascistas europeus pela ausência de mártires do MNS. É uma explicação bizarra que se distancia de um possível motivo levando os neofascistas a não se reconhecerem no nacional-sindicalismo português: em Janeiro de 1933, em entrevista à United Press, Rolão Preto demarcou-se do totalitarismo divinizador do Estado, cesarista, do fascismo e do hitlerismo.
22.07.2026
J. M. Q.
O Integralismo Lusitano rejeitou a influência neo-clássica da Action Francaise - Sardinha demarcou-se logo em 1914; Monsaraz, em 1921, explicou o motivo em polémica com Raul Proença; e Hipólito Raposo fez mesmo uma conferência, em 1925, dedicada às suas diferentes tradições políticas.
Rolao Preto não estudou em Coimbra e não privou com Oliveira Salazar, de quem nunca foi aliás amigo. O contacto entre ambos foi muito escasso e indireto, por intermédio de Alberto Monsaraz (ver entrevista de 1975 a João Medina, sob o título “Não, não e não”).
Quando o Estado Novo foi estabelecido em Portugal (1933-34), o Estado Fascista tinha já sido plebiscitado em Itália (1929). Salazar copiou dois elementos essenciais: o modelo de partido único e o corporativismo de Estado. A lei eleitoral de 1934 expõe aliás, no seu preâmbulo e sem sofisma, a doutrina do Estado totalitário de Mussolini.
Aldo Bizzarri (Origine e caratteri dello "Stato Nuovo" portoghese, 1941) e Maurice Bardèche (Les fascismes inconnus, 1969) não incluiram Rolão Preto e o seu Movimento Nacional Sindicalista - os "Camisas Azuis" - entre as organizações fascistas europeias dos anos de 1930, o que muito abona a favor do rigor das obras referidas. No texto seguinte, porém, parece "explicar-se" a omissão de Rolão Preto entre os fascistas europeus pela ausência de mártires do MNS. É uma explicação bizarra que se distancia de um possível motivo levando os neofascistas a não se reconhecerem no nacional-sindicalismo português: em Janeiro de 1933, em entrevista à United Press, Rolão Preto demarcou-se do totalitarismo divinizador do Estado, cesarista, do fascismo e do hitlerismo.
22.07.2026
J. M. Q.
Portugal
Com a cumplicidade de uma esquerda ignorante e de má-fé, os autores neofascistas trouxeram para si (para a sua ideologia) movimentos revolucionários alheios à ortodoxia fascista, dos quais apenas retiraram e transmitiram algumas características. No entanto, não surpreenderá a omissão, nas suas publicações, de qualquer referência ao movimento nacional-sindicalista português. Pois, ao contrário da Falange e da Guarda de Ferro, os Camisas Azuis portugueses não contam com mortos ilustres tombados pela justa causa. Falta-lhes o herói a quem prestar uma homenagem fúnebre mítica, um herói aureolado por uma morte mística (fuzilado ou caído no campo de honra) e que se pudesse invocar e celebrar.
Perguntem aos intelectuais pós-comunistas quem foi o primeiro a opor-se ao ditador português Salazar. Perguntem-lhes ainda se conhecem Rolão Preto e o seu percurso cultural. Por razões óbvias, é provável que nenhum deles sequer se lembre da sua existência.
E não terão mais sorte à direita. Os Camisas Azuis e o seu chefe não são citados no livro de Bardèche [1], que, contudo, aborda todos os movimentos fascistas, incluindo os mais marginais, como os fascismos luxemburguês, americano, grego, holandês, búlgaro, albanês ou suíço. E na sua obra Origini e caratteri dello Stato nuovo portoghese [2], Aldo Bizzani arranja maneira de não citar os nacional-sindicalistas lusitanos uma única vez.
Quem foi, então, Rolão Preto?
Francisco Barcelos Rolão Preto nasceu a 12 de Fevereiro de 1893. O seu envolvimento político foi precoce. Em 1913, figura como secretário de redacção do primeiro órgão de imprensa do Integralismo Lusitano, a Alma Portuguesa, expressão de uma nova tendência política que influenciaria as suas próprias convicções e as suas escolhas na Universidade de Coimbra.
O círculo dirigente do integralismo sofria as influências de Maurras, da Action Française e de Sorel. Quanto a Rolão Preto, diplomado em ciências sociais na Bélgica logo em 1917, estabeleceu-se em Toulouse, onde prosseguiu os seus estudos de Direito, e depois em Paris, onde frequentou Charles Maurras e Léon Daudet, nos quais se inspiraria mais tarde.
Os integralistas lusitanos assumiam-se como os arautos de um Estado unitário, mas fortemente descentralizado (conferindo uma ampla autonomia às cidades, províncias e regiões), sendo a descentralização equilibrada por uma estrutura corporativa que reatava com a tradição portuguesa. Uma espécie de futurismo do passado.
António Sardinha (1889-1925) foi, simultaneamente, a figura carismática do movimento e o seu líder mais qualificado. Não o envolveu na oposição parlamentar nem nas estruturas de poder, mas fez com que o integralismo exercesse uma influência assinalável sobre a sociedade portuguesa, cujas tendências conseguiu orientar, de tal forma que os governos que se sucederam tiveram de a ter em conta.
Durante a ditadura republicana de Sidónio Pais (1917-1918), a influência dos integralistas foi determinante em questões de fundo, como a autoridade e o corporativismo.
Importa sublinhar que a breve experiência corporativa de Sidónio Pais, devida à inspiração e à colaboração dos integralistas, antecipou outras experiências na Itália fascista e em Espanha, sob a ditadura de Primo de Rivera (pai de José António). Ao contrário do que se possa ter escrito, a república corporativa nascida da Constituição portuguesa de 1933 não se inspirou em nenhum exemplo estrangeiro [3].
Rolão Preto tomou parte no levantamento do general Gomes da Costa, a 28 de Maio de 1926, e foi o autor do manifesto-programa em 10 pontos [nota: o original francês diz 10, embora o manifesto continha 12 pontos, que foram afixados nas paredes de Braga, no qual se formulavam as bases programáticas do movimento militar] promulgado pela junta militar:
«1. Publicação de uma lei fundamental que preserve no essencial o regime republicano proclamado em 1919 [nota: o original francês diz 1919, embora a República Portuguesa tenha sido proclamada em 1910] e reconhecido pelas Potências, mas introduzindo as modificações necessárias ao seu bom funcionamento;
2. Reorganização dos serviços públicos através de uma lei que determine a responsabilidade penal e civil de todos os funcionários do Estado;
3. Redução das despesas públicas;
4. Verificação das contas públicas e simplificação do regime fiscal;
5. Aumento da riqueza nacional;
6. Reforma e coordenação dos métodos de ensino e de educação;
7. Implementação de uma justiça independente, de procedimentos rápidos e eficazes para restaurar o direito e sancionar as infracções;
8. Reorganização imediata dos serviços e coordenação dos programas coloniais de desenvolvimento com vista a acelerar o progresso económico e financeiro nas colónias;
9. Reorganização militar e naval através do recurso aos conhecimentos mais recentes e da aquisição do material moderno indispensável;
10. Garantia absoluta e indiscutível do direito dos cidadãos à vida, à propriedade e ao bom nome.
Todos aqueles que amam verdadeiramente a pátria e querem que a república recupere a sua dignidade trabalharão com lealdade e fidelidade por este movimento de regeneração política, económica, administrativa, financeira, intelectual e moral, num país chamado pelas suas qualidades, pelo seu espírito de iniciativa e de sacrifício a favor da humanidade a ocupar um lugar de destaque no concerto das nações.»
Este manifesto poderia parecer pouca coisa, se esquecêssemos: a) a situação de Portugal antes da tomada de poder por Gomes da Costa; b) o seu estatuto de potência colonial, sujeita por conseguinte às gravíssimas ingerências dos comerciantes e dos banqueiros na sua vida política.
Questionado sobre este ponto [4], à pergunta: «Que reformas administrativas tem em vista?», Gomes da Costa responde: «Em primeiro lugar, pôr de parte as leis criadas para fins particulares, e que servem os interesses de alguns em detrimento do interesse geral da nação. Estas leis atentam contra a moral e devem ser absolutamente suprimidas.
Imediatamente a seguir, pôr fim aos escândalos administrativos que se sucedem há anos, sem que os responsáveis alguma vez tenham sido punidos.»
Mais adiante, declara: «Correndo o risco de surpreender os adversários do regime português, afirmo que a revolução teve por objectivo definir claramente e garantir efectivamente o direito de cada cidadão. Antes de 1926, ele não tinha qualquer garantia real, e podemos dizer que as liberdades essenciais do povo português foram confiscadas, subtraídas ou espezinhadas pelos nossos regimes liberais. A palavra é pouca coisa, é preciso considerar a realidade dos factos. Não, a revolução nacional não custa nada ao nosso povo, se exceptuarmos os especuladores e os exploradores da política, que não interessam hoje à nação portuguesa. À desordem endémica e à tirania dos piores interesses da nação, substituímos um Estado de direito, de legalidade e de ordem, sem os quais não há liberdade.»
No seio da junta militar (tão aberta à circulação de ideias e de teorias políticas que acaba por as absorver) surge um homem de um talento inegável, professor de economia, António de Oliveira Salazar. Ministro da Economia [nota: na realidade, assumiu a pasta das Finanças] em 1928, assume também o Ministério das Colónias dois anos mais tarde. É aí que se inicia a elaboração das ideias e dos princípios políticos que fundarão o Estado Novo quando, em 1932, Salazar for nomeado Presidente do Conselho.
Nesse mesmo ano de 1932 surgem os Camisas Azuis do Movimento Nacional-Sindicalista, dirigido por Rolão Preto. Um movimento que, desde o seu nascimento, conhece um certo sucesso com cinco mil militantes, dezoito jornais, entre os quais se destaca um diário, o Revolução, e numerosos militantes entre os quadros do exército, operários, professores universitários, profissões liberais e industriais.
Num primeiro momento, o movimento parece querer apoiar a junta militar na sua curiosa evolução para uma estrutura política de governo que, com Salazar, introduz as características económicas que marcaram as novas teorias corporativas. Abstém-se, em vão, de qualquer oposição frontal e de qualquer antagonismo para tentar influenciar a maturação política da junta. À medida que o movimento cresce na estima do povo português, as suas relações com esta degradam-se. A ruptura está próxima. Severas restrições abatem-se sobre os Camisas Azuis e os seus dirigentes, submetidos a fortes pressões, bem como sobre os meios de propaganda e sobre a actividade editorial do movimento. Em Junho de 1934, Rolão Preto, o antigo amigo de Salazar que tomou parte na Revolução Nacional, é condenado ao exílio. Em Agosto, no final de uma forte depuração, o comité executivo do Movimento Nacional-Sindicalista decide a dissolução da organização e apela aos seus aderentes para se juntarem à União Nacional, o partido institucional de Salazar.
Apesar deste desaparecimento forçado do Movimento Nacional-Sindicalista, que antecipa a muitos níveis o destino em breve reservado à Falange Espanhola, Rolão Preto não desiste. Em 1958, apoiará a campanha presidencial do general Humberto Delgado, que obterá 23% dos votos, antes de ser também ele forçado ao exílio, e depois assassinado em Espanha, em 1965.
O slogan caro ao nacional-sindicalismo português: «Nem esquerda nem direita, em frente!» permanece de uma actualidade candente. A ideia que tinham da estrutura do Estado era herdada do integralismo lusitano: um poderoso reforço do poder municipal e regional, mais orgânico e melhor estruturado do que o federalismo, tal como habitualmente o entendemos, algo que se aproximaria da ideia do comunitarismo; uma autonomia disciplinada e harmonizada num sentido nacional pelas concepções do sindicalismo revolucionário. Embora reconhecendo o papel fundamental das elites, o nacional-sindicalismo é populista, na medida em que «a revolução só é eficaz se emanar do povo».
É por isso que Rolão Preto se oporá ao poder de Salazar. Ele suscita a eclosão de uma elite no seio dos movimentos de massa, projecta a criação de uma milícia armada que coloque a tónica na necessidade da violência sistemática no processo revolucionário, e na sua tentativa de mobilizar a classe operária opõe-se abertamente à burguesia e ao capitalismo.
Preto considera que «o socialismo e o comunismo são a quintessência da moral e da inclinação económica do capitalismo feito Estado». Por isso mesmo, é fundamental que «todos os trabalhadores tomem consciência da futilidade que seria querer substituir a tirania do capitalismo feito Estado por um Estado tornado capitalista.»
A implantação das teorias nacional-comunistas (que, na sua justa acepção, se opõem tanto ao nacionalismo de Estado de tipo burguês como ao comunismo colectivista de inspiração marxista) num terreno a-fascista e a-comunista, justificaria que se retirasse o movimento nacional-sindicalista do esquecimento em que se pretendeu encerrá-lo.
[1] Les fascismes inconnus, 1969.
[2] In Documenti di storia e di pensiero politico, colecção dirigida por Gioacchino Volpe para o Instituto de Estudos de Política Internacional, 1941.
[3] De resto, Portugal não se encontrava alheado do debate cultural europeu daqueles anos. Disso é testemunho a obra de Pessoa ou a efervescência futurista nacional. A este propósito, leia-se, de Marco Pasi, A proposito di Fernando Pessoa, Orion n.º 125, Fevereiro de 1995, e também Il futurismo portoghese, Orion n.º 130, Julho de 1995.
[4] Diário de Lisboa, 29 de Maio de 1926, citado por Aldo Bizzarri, op. cit.
Com a cumplicidade de uma esquerda ignorante e de má-fé, os autores neofascistas trouxeram para si (para a sua ideologia) movimentos revolucionários alheios à ortodoxia fascista, dos quais apenas retiraram e transmitiram algumas características. No entanto, não surpreenderá a omissão, nas suas publicações, de qualquer referência ao movimento nacional-sindicalista português. Pois, ao contrário da Falange e da Guarda de Ferro, os Camisas Azuis portugueses não contam com mortos ilustres tombados pela justa causa. Falta-lhes o herói a quem prestar uma homenagem fúnebre mítica, um herói aureolado por uma morte mística (fuzilado ou caído no campo de honra) e que se pudesse invocar e celebrar.
Perguntem aos intelectuais pós-comunistas quem foi o primeiro a opor-se ao ditador português Salazar. Perguntem-lhes ainda se conhecem Rolão Preto e o seu percurso cultural. Por razões óbvias, é provável que nenhum deles sequer se lembre da sua existência.
E não terão mais sorte à direita. Os Camisas Azuis e o seu chefe não são citados no livro de Bardèche [1], que, contudo, aborda todos os movimentos fascistas, incluindo os mais marginais, como os fascismos luxemburguês, americano, grego, holandês, búlgaro, albanês ou suíço. E na sua obra Origini e caratteri dello Stato nuovo portoghese [2], Aldo Bizzani arranja maneira de não citar os nacional-sindicalistas lusitanos uma única vez.
Quem foi, então, Rolão Preto?
Francisco Barcelos Rolão Preto nasceu a 12 de Fevereiro de 1893. O seu envolvimento político foi precoce. Em 1913, figura como secretário de redacção do primeiro órgão de imprensa do Integralismo Lusitano, a Alma Portuguesa, expressão de uma nova tendência política que influenciaria as suas próprias convicções e as suas escolhas na Universidade de Coimbra.
O círculo dirigente do integralismo sofria as influências de Maurras, da Action Française e de Sorel. Quanto a Rolão Preto, diplomado em ciências sociais na Bélgica logo em 1917, estabeleceu-se em Toulouse, onde prosseguiu os seus estudos de Direito, e depois em Paris, onde frequentou Charles Maurras e Léon Daudet, nos quais se inspiraria mais tarde.
Os integralistas lusitanos assumiam-se como os arautos de um Estado unitário, mas fortemente descentralizado (conferindo uma ampla autonomia às cidades, províncias e regiões), sendo a descentralização equilibrada por uma estrutura corporativa que reatava com a tradição portuguesa. Uma espécie de futurismo do passado.
António Sardinha (1889-1925) foi, simultaneamente, a figura carismática do movimento e o seu líder mais qualificado. Não o envolveu na oposição parlamentar nem nas estruturas de poder, mas fez com que o integralismo exercesse uma influência assinalável sobre a sociedade portuguesa, cujas tendências conseguiu orientar, de tal forma que os governos que se sucederam tiveram de a ter em conta.
Durante a ditadura republicana de Sidónio Pais (1917-1918), a influência dos integralistas foi determinante em questões de fundo, como a autoridade e o corporativismo.
Importa sublinhar que a breve experiência corporativa de Sidónio Pais, devida à inspiração e à colaboração dos integralistas, antecipou outras experiências na Itália fascista e em Espanha, sob a ditadura de Primo de Rivera (pai de José António). Ao contrário do que se possa ter escrito, a república corporativa nascida da Constituição portuguesa de 1933 não se inspirou em nenhum exemplo estrangeiro [3].
Rolão Preto tomou parte no levantamento do general Gomes da Costa, a 28 de Maio de 1926, e foi o autor do manifesto-programa em 10 pontos [nota: o original francês diz 10, embora o manifesto continha 12 pontos, que foram afixados nas paredes de Braga, no qual se formulavam as bases programáticas do movimento militar] promulgado pela junta militar:
«1. Publicação de uma lei fundamental que preserve no essencial o regime republicano proclamado em 1919 [nota: o original francês diz 1919, embora a República Portuguesa tenha sido proclamada em 1910] e reconhecido pelas Potências, mas introduzindo as modificações necessárias ao seu bom funcionamento;
2. Reorganização dos serviços públicos através de uma lei que determine a responsabilidade penal e civil de todos os funcionários do Estado;
3. Redução das despesas públicas;
4. Verificação das contas públicas e simplificação do regime fiscal;
5. Aumento da riqueza nacional;
6. Reforma e coordenação dos métodos de ensino e de educação;
7. Implementação de uma justiça independente, de procedimentos rápidos e eficazes para restaurar o direito e sancionar as infracções;
8. Reorganização imediata dos serviços e coordenação dos programas coloniais de desenvolvimento com vista a acelerar o progresso económico e financeiro nas colónias;
9. Reorganização militar e naval através do recurso aos conhecimentos mais recentes e da aquisição do material moderno indispensável;
10. Garantia absoluta e indiscutível do direito dos cidadãos à vida, à propriedade e ao bom nome.
Todos aqueles que amam verdadeiramente a pátria e querem que a república recupere a sua dignidade trabalharão com lealdade e fidelidade por este movimento de regeneração política, económica, administrativa, financeira, intelectual e moral, num país chamado pelas suas qualidades, pelo seu espírito de iniciativa e de sacrifício a favor da humanidade a ocupar um lugar de destaque no concerto das nações.»
Este manifesto poderia parecer pouca coisa, se esquecêssemos: a) a situação de Portugal antes da tomada de poder por Gomes da Costa; b) o seu estatuto de potência colonial, sujeita por conseguinte às gravíssimas ingerências dos comerciantes e dos banqueiros na sua vida política.
Questionado sobre este ponto [4], à pergunta: «Que reformas administrativas tem em vista?», Gomes da Costa responde: «Em primeiro lugar, pôr de parte as leis criadas para fins particulares, e que servem os interesses de alguns em detrimento do interesse geral da nação. Estas leis atentam contra a moral e devem ser absolutamente suprimidas.
Imediatamente a seguir, pôr fim aos escândalos administrativos que se sucedem há anos, sem que os responsáveis alguma vez tenham sido punidos.»
Mais adiante, declara: «Correndo o risco de surpreender os adversários do regime português, afirmo que a revolução teve por objectivo definir claramente e garantir efectivamente o direito de cada cidadão. Antes de 1926, ele não tinha qualquer garantia real, e podemos dizer que as liberdades essenciais do povo português foram confiscadas, subtraídas ou espezinhadas pelos nossos regimes liberais. A palavra é pouca coisa, é preciso considerar a realidade dos factos. Não, a revolução nacional não custa nada ao nosso povo, se exceptuarmos os especuladores e os exploradores da política, que não interessam hoje à nação portuguesa. À desordem endémica e à tirania dos piores interesses da nação, substituímos um Estado de direito, de legalidade e de ordem, sem os quais não há liberdade.»
No seio da junta militar (tão aberta à circulação de ideias e de teorias políticas que acaba por as absorver) surge um homem de um talento inegável, professor de economia, António de Oliveira Salazar. Ministro da Economia [nota: na realidade, assumiu a pasta das Finanças] em 1928, assume também o Ministério das Colónias dois anos mais tarde. É aí que se inicia a elaboração das ideias e dos princípios políticos que fundarão o Estado Novo quando, em 1932, Salazar for nomeado Presidente do Conselho.
Nesse mesmo ano de 1932 surgem os Camisas Azuis do Movimento Nacional-Sindicalista, dirigido por Rolão Preto. Um movimento que, desde o seu nascimento, conhece um certo sucesso com cinco mil militantes, dezoito jornais, entre os quais se destaca um diário, o Revolução, e numerosos militantes entre os quadros do exército, operários, professores universitários, profissões liberais e industriais.
Num primeiro momento, o movimento parece querer apoiar a junta militar na sua curiosa evolução para uma estrutura política de governo que, com Salazar, introduz as características económicas que marcaram as novas teorias corporativas. Abstém-se, em vão, de qualquer oposição frontal e de qualquer antagonismo para tentar influenciar a maturação política da junta. À medida que o movimento cresce na estima do povo português, as suas relações com esta degradam-se. A ruptura está próxima. Severas restrições abatem-se sobre os Camisas Azuis e os seus dirigentes, submetidos a fortes pressões, bem como sobre os meios de propaganda e sobre a actividade editorial do movimento. Em Junho de 1934, Rolão Preto, o antigo amigo de Salazar que tomou parte na Revolução Nacional, é condenado ao exílio. Em Agosto, no final de uma forte depuração, o comité executivo do Movimento Nacional-Sindicalista decide a dissolução da organização e apela aos seus aderentes para se juntarem à União Nacional, o partido institucional de Salazar.
Apesar deste desaparecimento forçado do Movimento Nacional-Sindicalista, que antecipa a muitos níveis o destino em breve reservado à Falange Espanhola, Rolão Preto não desiste. Em 1958, apoiará a campanha presidencial do general Humberto Delgado, que obterá 23% dos votos, antes de ser também ele forçado ao exílio, e depois assassinado em Espanha, em 1965.
O slogan caro ao nacional-sindicalismo português: «Nem esquerda nem direita, em frente!» permanece de uma actualidade candente. A ideia que tinham da estrutura do Estado era herdada do integralismo lusitano: um poderoso reforço do poder municipal e regional, mais orgânico e melhor estruturado do que o federalismo, tal como habitualmente o entendemos, algo que se aproximaria da ideia do comunitarismo; uma autonomia disciplinada e harmonizada num sentido nacional pelas concepções do sindicalismo revolucionário. Embora reconhecendo o papel fundamental das elites, o nacional-sindicalismo é populista, na medida em que «a revolução só é eficaz se emanar do povo».
É por isso que Rolão Preto se oporá ao poder de Salazar. Ele suscita a eclosão de uma elite no seio dos movimentos de massa, projecta a criação de uma milícia armada que coloque a tónica na necessidade da violência sistemática no processo revolucionário, e na sua tentativa de mobilizar a classe operária opõe-se abertamente à burguesia e ao capitalismo.
Preto considera que «o socialismo e o comunismo são a quintessência da moral e da inclinação económica do capitalismo feito Estado». Por isso mesmo, é fundamental que «todos os trabalhadores tomem consciência da futilidade que seria querer substituir a tirania do capitalismo feito Estado por um Estado tornado capitalista.»
A implantação das teorias nacional-comunistas (que, na sua justa acepção, se opõem tanto ao nacionalismo de Estado de tipo burguês como ao comunismo colectivista de inspiração marxista) num terreno a-fascista e a-comunista, justificaria que se retirasse o movimento nacional-sindicalista do esquecimento em que se pretendeu encerrá-lo.
[1] Les fascismes inconnus, 1969.
[2] In Documenti di storia e di pensiero politico, colecção dirigida por Gioacchino Volpe para o Instituto de Estudos de Política Internacional, 1941.
[3] De resto, Portugal não se encontrava alheado do debate cultural europeu daqueles anos. Disso é testemunho a obra de Pessoa ou a efervescência futurista nacional. A este propósito, leia-se, de Marco Pasi, A proposito di Fernando Pessoa, Orion n.º 125, Fevereiro de 1995, e também Il futurismo portoghese, Orion n.º 130, Julho de 1995.
[4] Diário de Lisboa, 29 de Maio de 1926, citado por Aldo Bizzarri, op. cit.