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        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
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Rolão Preto - A Traição Burguesa - 1945

​CAPÍTULO II
​
A Traição burguesa e as linhas de força nacionais

RESUMO
Este capítulo procura mostrar como, na marcha moderna da nossa História, a traição burguesa deixa pouco a pouco de ser acidente passageiro para se converter em força dominante, desviando a sociedade portuguesa das suas linhas naturais de equilíbrio e grandeza. Desde o século XVIII, à medida que o comércio, a finança e o critério frio da utilidade penetram nas estruturas do Estado, começa a afirmar-se uma nova orientação, estranha ao sentido orgânico da Nação. O período pombalino surge já como momento claro desse desvio: sob a aparência da reforma e da disciplina, a centralização do poder e a reorganização económica anunciam o predomínio crescente da riqueza, da eficácia material e da razão administrativa sobre as realidades vivas do país.
Com a Revolução Liberal, a tendência agrava-se e toma forma política definida. A burguesia, instalada no regime constitucional, subordina o Estado aos seus interesses, transforma a vida pública em campo de intriga e ambição, e entrega o governo da comunidade ao jogo das oligarquias, dos partidos e das influências económicas. A democracia e o nacionalismo, que poderiam servir altos fins coletivos, deixam-se contaminar pelo mesmo espírito dissolvente, perdendo a sua pureza original e o seu sentido criador.
O capitalismo, embora limitado entre nós, reforça este movimento de desnacionalização moral: concentra a riqueza, enfraquece as classes médias, corrompe a função equilibradora que lhes cabia e converte a sociedade em terreno de especulação, cálculo e interesse privado. Assim, onde deveria persistir o espírito de comunidade, de justiça e de serviço, instala-se a lógica do lucro; onde deveria afirmar-se a vocação nacional, cresce a inquietação sem grandeza de uma ordem burguesa. Daí nasce a crise moral, política e social que o capítulo apresenta como consequência última dessa persistente traição ao temperamento profundo de Portugal.

 A TERRA
NA luta entre o homem e a vida, os portugueses elegeram por seguro aliado a «terra». A terra, campo de sementeira de plantas e de esperanças; a terra, serrania alta onde apascentam gados e cuidados; a terra que é vinha, olival, montado ou simples pinhal rumorejante e triste...
 
E assim, enquanto outros povos procuram no Ferro, no Carvão, no Cobre, nas artes metalúrgicas e mecânicas, o apoio para o seu combate de todos os dias, nós, portugueses, é na gleba que particularmente nos apoiamos, e tão poderosamente o fazemos que é como se nela tomássemos raízes [1]. Desterrado, com efeito, se julga aquele que as circunstâncias obrigaram a sair deste país e mais ainda, pois também desterrado se proclama quem, mesmo não saindo do país, teve, no entanto, que deixar a gleba, afastar-se da «terra» onde os seus pés pareciam firmar-se com a segurança dos troncos e os seus sentidos julgavam poder comunicar com o secreto mistério da criação - a «sua terra».
 
O fundo íntimo do povo, como a essência do seu pensamento criador é, portanto, o ruralismo. Rural e agrícola não são, em matéria económica, sinónimos.
 
Povo rural, nem por isso quere dizer que o país reúna as condições favoráveis a uma segura economia agrícola. Bem pelo contrário.
 
Nem a constituição do terreno, na sua maior parte, nem o clima, podem constituir bases estáveis em que se apoiem cálculos de uma indústria agrícola fundamentada.
 
A lavoura é, regra geral, para os portugueses, como que uma aventura baseada numa fé que não cansa e um amor à terra que «tudo recompensa».
 
A linha de força do nosso ruralismo tem claramente em todos os tempos e lugares este nítido sentido. Contra o desequilíbrio das estações, a irregularidade das chuvas; contra ventos, geadas ou calores tórridos, contra as hostilidades da natureza e contra os frequentes absurdos da legislação — o português cultiva a terra, muitas vezes mais pelo amor que lhe dedica do que pelo interesse que está costumado a colher[2].
 
Este facto tem capital importância para quando se desejam equacionar os problemas da economia rural da nação, face ao Estado.
 
Com efeito, em países de indústria agrícola, a linha de força que impulsiona este ramo da atividade económica não é o ruralismo, o amor do campo, mas sim o lucro. De sorte que uma empresa cultiva um campo, como monta e explora uma fábrica de automóveis, e só o cultivará enquanto ele lhe render coisa que ela julgue compensadora.
 
Quão longe nós estamos desse conceito agrícola dos grandes países produtores, países em que são vulgares setenta sementes nos cereais...
 
Terra de três sementes, quando nos oferece dez, exultamos; mas tanto lhe dispensamos os carinhos da nossa cultura, num caso como no outro, bem seguros de tanto a amarmos na fome como na fartura.
 
O milagre desse amor, sensual e forte, em que de todo nos oferecemos à gleba, mesmo sem esperança, esse milagre estupendo da nossa vocação ruralista —tal é a alavanca obscura, mas viva, que impulsiona por serras e planuras, do interior ao litoral, a cultura e o povoamento do país.
 
Não fora essa vocação, a quem já alguém chamou vício, e Portugal, tirante algumas zonas verdadeiramente agrícolas, seria na maior parte charneca daninha e deserta.
 
E aqui se compreende como o Estado tem direitos e deveres bem diferentes quando legisla para uma economia rural ou para uma economia de indústria agrícola. No primeiro caso, deve-lhe evidente amparo e alívio fiscal, como prémio de uma tão alta virtude criadora de riqueza pública; no outro, já se não pode levar-se-lhe a mal que considere a indústria da terra em pé de igualdade com as outras indústrias — todas vivendo apenas sob o signo do lucro.
 
Nem sempre, antes pelo contrário, esta faceta do nosso carácter de rurais, entrou em equação nos problemas da nossa economia.
 
E, no entanto, em todas as manifestações do génio português — pensamento e ação — se reflete, como em espelho de aço, o mistério do nosso encantamento: — eco das dores, clamores de queixas, vibração amorosa. Sempre, hoje como ontem e no princípio, toda a nossa confissão de bons rurais é manifesta.
 
Em toda a nossa literatura corre um fio de bucolismo, saudoso e manso, onde acodem lembrança de vergéis, rumorejo de bosques, sussurro de rios, velhas tardes, madrugadas orvalhadas...
 
Mesmo o clamor heroico e alto dos Lusíadas se torna brando cantar quando invoca a doce Inês:
 
Aos campos ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.
 
Nas trovas de D. Dinis, como na «Menina e Moça», no «Crisfal» — nos primeiros e já tão graciosos passos da nossa espiritualidade literária, tudo se revela e mostra, desde logo, vivificado pela presença da natureza.
 
No Figueiral figueiredo, no Figueiral entrei, 
Seis niñas encontrara, seis niñas encontrei.
 
Mais tarde, toda a comédia humana de Mestre Gil retrata, em vivos traços, o espírito de um povo de profunda essência rural.
 
Não falta nunca esse clima particular, esse modo de pesar e de determinar o valor dos homens e das coisas, próprio do espírito rural, nos nossos Cronistas; mesmo quando, com Damião de Gois, se trata de um português que frequenta Justo Lípsio e Erasmo.
 
Para além da «Arcádia» e para além do Romantismo, onde foi regra a natureza ser cúmplice universal dos «amores pastoris» ou testemunha das trágicas paixões dos grandes amorosos, o maior estilista do nosso realismo literário escreve «As Cidades e as Serras».
 
José Fernandes, eis o nosso ruralismo que a tudo resiste e não se dilui nem deixa dominar nem mesmo pelo ritmo de refinamento parisiense do próprio 202 dos Campos Elísios... Em plena festa, diante de todas as solicitações dos sentidos tomados pela presença de desenvoltas elegâncias de Paris, mulheres célebres, escritores e banqueiros; como pelos requintes de civilização ali acumulados — tapetes, luzes, cristais e música —em plena festa José Fernandes evade-se um momento da tirania do Grão Duque; da magia dos sorrisos de Madame d'Oriol; do encantamento de Madame Vernhagem e da Princesa de Caraman; dos olhos profundos da Condessa de Trèves; das facécias de Dornan, o poeta neoplatónico da conversa erudita; do historiador Darjen e das boutades do banqueiro Efraim; esquece as Tziganes, o fonógrafo, o teatrofone, a Gilberte a cantar Les Casquetesno Alcazar - foge de Paris, para se refugiar a um canto de uma janela e recordar como no seu lento caminho ...«o crescente de lua que seguido de uma estrelinha corria entre nuvens sobre o telhado e as chaminés grandes negras dos Campos Elísios também andava fugindo, mais lustrosa e mais doce, por cima dos pinheirais. As rás coaxavam ao longe no Pego da Dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabeço, mansinha e cândida... No pátio da nossa casa ladravam os cães. De além do ribeiro respondiam os cães do João Sarnadas. Depois admirado me encontrei descendo por uma quelha sob as ramadas, com o meu varapau, ao ombro? E senti entre a seda das costuras, um fino ar macio, o cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos currais através das sebes altas e o sussurro dormente das levadas...».
 
 
*
 
 
O grande, o trágico, o forte Camilo, o maior de todos os nossos romancistas, não é verdade que, apesar da exuberância do seu génio, parece desde já envelhecer, enquanto Júlio Diniz se mostra mais e mais reservado dentre os esplendores morais onde projetou o seu filme? É que as ingénuas figuras do seu brando drama, mesmo quando envergam vestes patrícias, não conseguem ocultar totalmente a timidez rústica de certas atitudes naturais... Todo o encanto que as faz populares está aí. Júlio Diniz é um rural, que não atraiçoa o seu ruralismo.
 
Poder-se-á dizer o mesmo de Aquilino Ribeiro? O problema tem o seu interesse.
 
Não é verdade, porém, que as belas, másculas, ardentes e fortes figuras que nascem e se agitam, modeladas e movidas por suas mãos duras de beirão, morrem todas por traição da estética? Mesmo em Volfrâmio, o grande escritor não logra fazer aquele livro definitivo, aquela epopeia popular, que todos esperam dele. O «povo» das nossas serras é aquilo; mas, é ainda outra coisa que transcende de uma visão, a que a estética de Aquilino dá realce caricatural, mas faz perder o seu profundo sentido.
 
O drama popular, isto é rural, rural no centro moral das suas figuras e no clima da sua ficção, ainda Aquilino no-lo deve. Ele seria a contrapartida necessária à posição psicológica e estética do autor das Pupilas.
 
Com efeito, Júlio Diniz, alma de rural, mas rural da planura, era por posição otimista e sereno como a natureza que ele conhecia tão bem e na sua estética refletiu. Longe estava, porém, da dura inquietação da serrania, das suas imposições amargas e das suas fascinações altivas.
 
Assim o drama de quantos conflitos irredutíveis e de quantos choques brutais, de quantas violências inúteis ou criadoras, de quantas humilhações e de quantos orgulhos, de quantos voos e de quantas quedas; toda a paixão que nos agita em permanente e ansiosa busca de perspetivas mais vastas, de campos mais livres — esse drama que se reflete constantemente no pensamento e na ação de todos os que espreitam do alto da montanha a planura sem fim e as distantes neblinas oceânicas — esse poderoso drama não está ainda escrito. Pelo menos não está escrito ainda dentro de um pensamento rural, a que as tentações da estética não corrompam a pureza dos impulsos.
 
Sim, porque o drama da «terra» não é, na verdade, uma permanente projeção de otimismo, nem na serrania, nem decerto na planície. Se a psicologia do habitante das alturas se complica de elementos especiais, nem por isso a idiossincrasia dos que vivem na campina chã deixa de se ressentir de todos os embustes e de todas as cruezas da vida rural.
 
Seria então «normal» que na linha reta do nosso ruralismo nascesse um Zola escritor da Terre?
 
Não o cremos. E, aqui se mostra bem a posição particular do nosso temperamento. Uma sensibilidade especial; um tom de meias cores; uma certa delicadeza na expressão pública de usos e costumes; uma bondade natural, que se traduz por sentimentos de solidariedade e do humanismo cristão que nos é particular – tais são os motivos que nos distinguem largamente e principalmente doutros povos.
 
Não abolimos nós nos nossos códigos — mesmo nos códigos militares — a pena de morte?
 
Há decerto, na bruteza primitiva dos instintos, rudezas de sentimentos impressionantes; decerto há, entre gente misera, quem lamente mais a morte de um boi do que a de um filho, como há promiscuidades que levam paredes meias do incesto, e avarezas que conduzem ao crime.
 
No entanto, existe na epopeia rural de Zola — epopeia popular vasta e magnífica — pese isso embora a todos os pedantes, a todos os «sensíveis», a todo o «snobismo» alarmado pelas «vulgaridades» do forte escritor — existe nessa epopeia que tanto choca os pigmeus, clarões de incêndio, revoltas interiores, misérias totais, que dentro do clima do nosso ruralismo constituem tão rara exceção que não comportam facilmente com ele um justo paralelo.
 
Descontadas, porém, estas diferenças de temperamento, e a época em que foi escrita, — a epopeia rural de Zola é clara interpretação dos anseios, dos cuidados e da dor do povo trabalhador dos campos e, como tal, análise útil para aquele que entre nós se abalançar a escrever o drama profundo do nosso ruralismo.
 
Pelo menos é positivo que se estará mais próximo das grandezas e misérias do povo com Zola, do que apoiando-se nos casos psicológicos anormais de um Dostoievski tão caro aos refinamentos burgueses e à sua traição.
 

*
 
Na história da nossa economia, a linha de força do ruralismo é não só caracterizada por valores morais, que impulsionam a ação, como por outros que estabilizam, equilibram ou, pelo menos, tendem a neutralizar fatores de desequilíbrio na marcha geral.
 
Assim, o período, a dinastia mais equilibrada da História nacional é evidentemente a primeira, a dinastia Afonsina. No seu conjunto, ela pode chamar-se com razão a mais rural, ou melhor, a dinastia verdadeiramente rural dentre as quatro dinastias portuguesas.
 
Tirante os primeiros reis, demasiado acicatados pelas imposições da conquista do território e sua defesa contra mouros ou vizinhos cristãos, todos os outros foram, de um modo geral, sobretudo príncipes de uma Côrte de rurais, grandes senhores de armas e de vastas terras.
 
Dentre eles, três foram, pelas suas medidas a mais alta expressão do nosso ruralismo medievo — D. Sancho II, D. Diniz e D. Fernando.
 
E tão justamente os aconselha o seu génio rural que a curva ascendente, que exprime os progressos do povoamento e da cultura do Reino, é de forma nítida, paralelamente à curva por onde se cotiza o desenvolvimento da sua expressão, naval e mercantil.
 
Assim, enquanto D. Sancho merece da História o título de Povoador, justiça lhe será também reconhecer que foi ele quem deu as primeiras possibilidades ao aparecimento da nossa marinha.
 
D. Diniz, o Lavrador, é já o Estado que, livre das inquietações da guerra, se volta todo para o impulso agrícola e ei-lo que toma a peito a sementeira do pinhal de Leiria, pensando com segurança no futuro naval do país.
 
D. Diniz tem já uma armada, a que D. Fernando dá tal impulso que já lhe serve para o bloqueio de Sevilha nas duras guerras do seu reinada Entretanto, D. Fernando é o tempo em que surgem essas sábias leis de desbravamento e cultura do Reino, que ficaram na História com o nome de «Sesmarias».
 
A curva do nosso desenvolvimento rural continua-se, para além da guerra da independência; mas logo declina para a preponderância nos negócios do Estado, do Infante D. Henrique. Sobretudo a partir de uma data: Alfarrobeira.
 
Em Alfarrobeira cai ferida de morte, nas altas figuras de D. Pedro e do Conde de Abranches, a última expressão do nosso sentido rural e provinciano. A clara e serena verdade, «à luz do sol», a franca e nobre atitude face à vida e às dificuldades naturais — eis o que a par de D. Pedro e do seu companheiro se sepultavam. Daí em diante o mercantilismo, com o seu espírito dúplice e traiçoeiro, a sua técnica de simulação e de engano ao serviço da ganância — ia ter largas perspetivas e predomínio indiscutido.
 
A linha de força do nosso ruralismo sofria o primeiro grande desvio da História.
 
O paralelismo cessara. Enquanto a curva do nosso desenvolvimento descia vertiginosamente, erguia-se, de salto, em demanda do seu apogeu, a curva dá nossa expansão externa.
 
Lisboa entronizava-se para sempre na tirania do seu comando.
 
Com efeito, nos colaboradores de D. Henrique, desde o seu «físico» ao seu famoso «tesoureiro», todos são mercadores ou judeus quando não judeus e mercadores ao mesmo tempo.
Fotografia
Na edição original - Lisboa, Pro domo, MCMXLV, entre as páginas 60 e 61.

​As naus consumiram o resto.
 
Os nobres quando não andavam embarcados vagueavam pelas ruas da capital, madraceando e seguidos de longos cortejos de lacaios andrajosos.
 
Por toda a parte a charneca retomara os seus direitos bravios, poucos semeavam, importava-se tudo: cereais, vestuário e as próprias armas.
 
Portugal, debruçado sobre o cais da Ribeira, via chegar e partir as naus...
 
Entretanto a linha de força do nosso ruralismo, atravessando o oceano, ia de novo surgir na virtude daqueles que lançavam as bases, da nossa grande Herdade — o Brasil.
 
D. João III dando impulso e amparo ao esforço que criou o Brasil, punha, para além da decadência a que nos levara a aventura mercantilista, as primeiras pedras onde se firma o nosso renascimento. A intuição ruralista que aconselhou o Rei foi, depois de Alfarrobeira, a primeira manifestação triunfante do nosso senso rural. Era, porém, demasiado tarde.
 
Estava já escrito o caminho da nossa paixão e da nossa morte.
 
A ganância, o espírito de lucro, a ânsia de riqueza, a traição do oiro, desviara a grande linha de força da nossa vocação. A ressurreição só depois do calvário... O nosso duro, amargo e longo calvário de séculos.
 
 
 
*
 
A Província não seria mais do que um longo corpo escravo pronto a pagar e a obedecer a quantos, naturais ou estranhos, ocupassem na capital as alavancas de direção. A traição do espírito burguês impunha as suas leis.
 
Naquele tempo, comandava o Infante, cercado de tantos que nos faziam desviar para a aventura marítima ou para a miragem mais próxima de Marrocos, entreposto das ricas caravanas do Oriente... Afonso V, o nosso último conquistador medievo, é o instrumento poderoso de D. Henrique. Com ele ou quebrara ou atenuara as últimas oposições do bom senso rural que se antepunha aos excessos da aventura mercantil, e com ele se abalançara à conquista da costa marroquina para além da qual vinha a tentação dos ecos distantes de uma Tombuctu de mármore e oiro... por detrás do deserto.
 
Os destinos da «terra» estavam claramente sacrificados, e o povo português, povo de rurais apartado da sua vocação, corria ao mar, desenraizado e inquieto.
 
Se se tivesse mantido o paralelismo entre as linhas de força rural e aventureira, paralelismo a que a morte de D Pedro pôs definitivamente remate, talvez que as terras de Marrocos tivessem sido não só conquistadas, mas absorvidas pela expansão do nosso clima rural - tornando-se assim, para além do estreito, um desdobramento do nosso território da Euгора.
 
Muitos preguntam hoje por que assim não foi e do desolamento que se ergue ao longo dos tempos e que a lembrança das cidades perdidas reforça, nasceu, um saudosismo de Marrocos que chega a alimentar quiméricos planos de futuro...
 
Na verdade, porém, desde que aparece vencida a ação equilibrada do ruralismo e que ficou em livre campo apenas a corrente mercantilista, a nossa ida às terras Marroquinas foi apenas conduzida pela estratégia momentânea das bases comerciais do Norte de África.
 
Nenhum plano de expansão territorial para lá levou o Infante e o seu conselho, nenhuma política neste sentido lhe condicionou a ação futura. A nossa intenção era outra.
 
Esta foi a traição mercantil, traição do lucro proventoso e imediato, que hoje se chama traição do espírito burguês.
 
Um estudo consciencioso dos colaboradores mais diretos do Infante e da influência que sobre ele exerceram, interessa cada vez mais à história daquele período em que os destinos da Nação tão largamente estiveram à mercê da sua orientação soberana.
 
A raça, a nacionalidade, o «temperamento» próprio e o próprio ofício — tudo nos ajudaria a entender os móveis e os métodos de ação Henriquina!
 
O desvio total da Nação, da sua linha de força rural não seria devido sobretudo ao espírito semita predominante em certos conselheiros e dos mais íntimos? O judeu sempre entendeu bastante mal a «terra» e sempre desprezou, por pueril e aleatório, o trabalho dos que dela vivem.
 
Já outrora, no Egito, para onde Jacob conduziu os seus rebanhos, depressa ele se tornou elemento embaraçante da vida económica de um país essencialmente rural. O Felah e o mercador judeu são duas entidades tão diferentes como o arroz que o primeiro cultiva e o oiro que o segundo amealha. Dai o êxodo e a terra da promissão.
 
Decerto o judeu exulta e disso ecoam profundamente as páginas da Bíblia, com as uvas doiradas e a larga abundância agrícola da terra da promissão. Mas é o natural, o beduíno, quem planta e semeia.
 
Não é à Deusa Ceres ou à Deusa Pomona que Israel ergue uma estátua festiva — quando, na ausência de Moisés, se torna um momento idólatra, mas sim ao Oiro, ao Bezerro de Oiro...
 
Na história de Judá não sopra jamais uma brisa do campo, um eco do seu amor à gleba.
 
Nos doze apóstolos, companheiros de Cristo, não há um que tivesse sido lavrador...
 
Disperso Israel pelo mundo, em parte alguma o vamos encontrar lavrando e semeando.
 
Em França, em Inglaterra, em Veneza, em Roterdão, na Rússia, na Polónia, em Constantinopla, em Tunes, por todas as terras e em todos os climas, judeu é sempre sinónimo de mercador astuto e consumado traficante.
 
Quando nós próprios chegámos à Índia, lá os topámos, negociando, à cata do oiro e das especiarias...
 
Nos tempos presentes a ingenuidade compadecida dos ingleses leva-os à tentativa de uma nova Judeia, com Telavive plantada de laranjeiras e semeada de prados regados à americana... Puro engano. O árabe é quem planta, pois é o árabe que nasceu para regar e amanhar os prados. Bem depressa se reconheceu que, para o verdadeiro Israel, só interessava da cultura das laranjas a sua cotação na Bolsa de Londres.
 
Assim, resumindo, visto o assunto ser vasto e concluindo, sem aliás nenhuma outra intenção no que respeita ao semitismo senão verificar uma verdade histórica — temos de acreditar que há uma tendência humana no semita que o desinteressa da cultura agrícola. Existe assim um aspeto de orientação nos destinos de um povo, que não pode ser entregue sem desvantagem a um judeu: o seu destino rural! Nunca o entenderá e não o saberá, portanto, apreciar nem amparar como é indispensável.
 
Os homens que rodeiam D. Henrique, por instinto da raça, ou por espírito de ofício — não podiam nunca considerar com verdadeiro interesse as vantagens que a similitude de terrenos, de clima, e de culturas representavam para um desdobramento do Reino, e às terras para além do Estreito.
 
 
*
 
 
Recolhidos em nós mesmos, na meditação e miséria do cativeiro filipino, muitos selaram de novo o seu pacto com a Terra, convencidos, pela lição dos tempos, de que só ela poderia ser mãe generosa e fecunda, de que só com ela haveria finalmente que contar.
 
Já para a campanha, longa e dispendiosa da restauração, nos foi bem útil e proveitoso esse «regresso à terra». Sem as forças, que começávamos a armar do nosso ruralismo renovado, não teríamos por certo logrado resistir, nem por tanto tempo combater.
 
D. João IV é rural, como grande lavrador e grande senhor de terras. D. Pedro II também. O tratado de Methuen tem ao menos essa interpretação.
 
Portugal, renunciando à sua indústria, não se confinava afinal totalmente na esperança ruralista?
 
Mas eis que chegam agora os galeões carregados de oiro do Brasil. De novo a Nação se alvoroça para sonhar com o eldorado, a quimera da fortuna e da felicidade para além do mar, em terras de mistério que, ao toque do alvião, generosamente se desventravam em milhões cintilantes.
 
De novo, para muitos, a enxada enferruja ao canto da lareira.
 
De novo, porém, o oiro passa sobre nós como a sombra sobre um muro...
 
E os clamores da «terra» venceram outra vez.
 
Quando o Marquês chega, são já os problemas de organização da produção agrícola que se lhe entolham mais necessários. Ei-lo por um lado a arrancar as vinhas e, por outro, a criar a Real Companhia Vinícola. Economia dirigida já. Problemas de indústria agrícola, que num país de vivo sentido rural reclamam o grande cuidado de se lhe não imporem soluções demasiado lineares...
 
O valor de uma política económica agrícola nestes países aquilata-se pelas soluções em que as tendências de cada região são aproveitadas e não esmagadas, encontrando-se o equilíbrio geral por meios sempre renovados pela competência e pela imaginação. Mas Pombal, como Colbert, não se preocupava com tendências, impunha reformas para os quais traçava planos servindo-se dos mesmos meios com que levantara a baixa lisboeta das ruínas do terramoto: — a régua e o esquadro...
 
Assim, quando o divino Garrett, certo dia, topa com ele, no seu passeio Elísio, não resiste que lhe não lance:
 
— Afinal para que mandou o senhor arrancar tantas vinhas se, por toda a parte, elas já lá estão outra vez?
 
Ao que, Pombal, fiel a si próprio, e ao seu velho critério retorque através da tremenda luneta:
 
— E, por lá, quem bebe agora todo esse vinho?...
 
 
*
 
 
Na verdade, os problemas de organização da produção agrícola são problemas de índole muito delicada que exigem um conhecimento exato de todos os seus dados e um propósito sincero de nada forçar, sob pena de tudo partir. As imposições de ordem económica, arbitrárias e violentas, são também ineficazes.
 
Os alemães, mestres consumados na arte de organizar, neste capítulo difícil proclamaram, no entanto:
 
«Menos organização e mais Produção».
 
Por isso eles não se aventuraram a uma orgânica corporativa, apesar das tradições sindicais em que podiam apoiar a sua experiência.
 
Com efeito, a Produção, mormente em tempos de dura crise, reclama mais impulso do que limitação; mais plástica de movimentos, do que quadros rígidos; mais audácia do que ponderação.
 
Sobretudo realismo. Realismo total, isto é, revolucionário; neste sentido de que se não deve hesitar em ultrapassar velhos conceitos económicos, quando, para além deles, a marcha claramente se acelera. O terror de um momentâneo desequilíbrio só assalta aqueles que, por mingua de imaginação criadora, reduzem o mundo a um conjunto de fórmulas feitas... pelos outros.
 
A função dos que orientam nunca pode ser uma função negativa. Orientar não quer dizer tolher, mas sim conduzir a marcha para a frente.
 
Ora, para conduzir uma marcha é indispensável ser permeável a todas as realidades — realidades que impulsionam e realidades que retardam.
 
Na marcha da Produção é sempre indispensável contar com os elementos que naturalmente a aceleram e com aqueles que fatalmente a contrariam.
 
O erro do Marquês — que é o erro de quantos entendem impor um critério sem ouvir o apelo das realidades — foi julgar que, para resolver o problema vinícola, bastaria arrancar plantio a fim de que na mesma terra se semeasse trigo.
 
É evidente que a um apelo bem nacional do Estado se podem conseguir grandes coisas, mesmo em matéria de Produção; mas não se deve esquecer que ao homem só o movem duas grandes forças: a mística de um ideal ou o interesse do lucro. Quando mingua um, deve ter que se suportar o poder do outro, sob pena de se não dar um passo, ou de se darem só passos em falso.
 
Quer isto dizer que há duas maneiras de encarar uma organização política do país: ou tomando por base o seu ruralismo, o seu amor místico da «terra», ou julgando-a apenas em função do critério industrial-agrícola.
 
No primeiro caso, a orientação tem de ser dada acompanhada de carinhoso amparo — do impulso constante do Estado: ajuda para vencer as crises, crédito para reforçar possibilidades.
 
No segundo caso há apenas que assegurar o interesse.
 
De há muito, porém, que a traição burguesa para com a «terra» faz substituir o conceito rural pelo conceito da indústria agrícola nas relações do Estado com a Produção.
 
Essa traição, uma das maiores do pensamento burguês para com o temperamento nacional, está no seu mito do «Trabalho». Para ela todas as atividades — agricultura, comércio e indústria — como ela as classifica — se medem por uma medida comum: Trabalho-Lucro.
 
Assim, o impulso dos valores morais, que entram na paixão dos portugueses pela «terra», sofre naturalmente das oposições que gera e determina este conceito desenraizador por excelência: o trabalho agrícola visto por um prisma que é a negação do ruralismo, reduzindo-o a mera função industrial. Então, as solicitações que nos vêm da leiva e da fonte, as virtudes criadoras que nascem do nosso contacto com as forças telúricas da natureza, a nossa ânsia de transformação dinâmica da paisagem, finalmente o nosso voluntário sacrifício - semeando, plantando, «povoando» —tudo isso passa para um plano secundário diante da realidade fria e absorvente, a única que conta, a única que interessa: o lucro, o lucro traduzido nas vantagens soberanas do dinheiro e do seu cortejo natural de tentações.
 
Mercê desta traição do espírito de ganância pura, transportada para os costumes e para a legislação, gerações houve logo revelando perante a «terra» disposições que alteravam a sua própria fisionomia. Assim foi que às gerações que plantaram amorosamente a Oliveira e o Sobro e semearam o Pinhal, confiando e esperando, ou oferecendo o seu sacrifício aos vindouros, — sucederam-se outras que plantaram sobretudo a vinha, signo de lucro rápido embora de futuro limitado e precário.
 
Mas outros golpes e mais rudes sofreu ainda a linha de força rural.
 
Perdido o amor da terra, a gleba passou para muitos a ser apenas um valor venal de bem melhor rendimento quando transformado em papéis de crédito ou em capitais de indústria.
 
Para quê, com efeito, sujeitar-se à longa e dolorosa tragédia dos que são escravos do seu ruralismo? Manhãs de frio, dias de inquietação e cansaço, noites sem o conforto e a distração frenética das cidades; as geadas que queimam o «renovo» e as pastagens; o míldio que no espaço de uma manhã enegrece e faz tornar estéril e inútil a flor das uvas; o granizo que em dez minutos estilhaça e pulveriza todo o viçoso milho e todos os batatais floridos; a morrinha dos gados; o preço do ferro, desequilíbrio do preço da mão de obra, e.… o imposto.
 
Para quê?
 
«Dinheiro a juros» não o queima a geada, nem desfaz o míldio, nem arrasta o granizo, e por cima de tudo, quanto maior não é o lucro que ele pode trazer!
 
Assim, uns vendem; outros arrendam ou entregam as terras a feitores, para irem em demanda de capital e na mira de ganhos maiores.
 
Eis a traição burguesa!
 
 
«Lavrar», «semear», arborizar» todas essas palavras — força de um «clima» ruralista — foram perdendo o impulso do seu conteúdo moral em «clima» de indústria agrícola. Agora, sábio será aquele que, compreendendo com clareza o problema e dele tirando lógica conclusão, entenda como em «clima» que deixou de ter as virtudes rurais só há uma maneira de obter-se maior produção, aquela que realize mais substanciais e maiores lucros para o produtor.
 
Se neste capítulo, todas as violências serão estéreis, pois ninguém semeia à força; todos os apelos serão inúteis, porque no mundo dos negócios não há mística que influa, mas sim cotações que resolvem.
 
Um negócio... Como não há-de a lavoura sentir-se tocada de mercantilismo, se ela é por todos considerada apenas como tal e, se por todos os lados, se vê cercada das solicitações da ganância que tudo avassalou?
 
E, no entanto, é na linha da força rural, índice de maior resistência das virtudes características, que fizeram e mantiveram a estrutura do País nas horas de crise — que deve apoiar-se uma política económica de justas e seguras bases morais.
 
É dentro do seu «clima» natural que a natalidade, o espírito de economia, a mutualidade, o amor pátrio, a fibra de resistência física e moral encontram um meio natural propício a todos os milagres de que é feita a marcha de um povo.
 
 
*
 
Que seria com efeito da Cidade sem a reserva de valores sãos que todos os dias recebe da terra? A Cidade, que consome todas as energias e amolece todos os caracteres no jogo das engrenagens de mil preocupações e esforços da sua vida absorvente, impetuosa! Assim, o seu tónus moral baixaria incessantemente, se não pudesse recrutar na rija e boa gente dos campos indispensáveis elementos ativos para reanimar e acelerar, em todos os tempos, a sua vida exaustiva. Dos campos ela recebe, em verdade, esse influxo retemperador, assimilando elementos, que, não sendo valores especializados, conservam, no entanto, em potência, todas as possibilidades criadoras que se contêm nos homens puros e de vigorosas intenções quando correm à Cidade na ânsia de se ultrapassar.
 
Assim, é esse elemento rural, que mantém a essência do fator humano nacional, mormente numa época em que o desenvolvimento industrial atrai e queima largamente as qualidades raciais.
 
E não só a energia e o instinto criador são as virtudes que se acumulam no coração do rural, com as quais ele retempera a vida do país. Também, o equilíbrio, a prudência e o espírito prático são ornamento do seu espírito — e todos bem necessários à economia moral de uma sociedade vivendo sob o impulso desenfreado de fatores que por demais a perturbam e desorientam.
 
Todos nós somos sensíveis à diferença de julgamento do critério rural, quando este se transporta para a Cidade. A Cidade surge-nos sempre pueril, intoxicada, inquieta e sem sentido claro da sua inquietação. A Cidade acredita em tudo e até nas mistificações mais evidentes. A Cidade, mesmo que se chame Paris, tem a curiosidade fútil de uma criança e o seu estonteamento imprevisto e ondulante.
 
A harmonia dos sentimentos, o espírito de medida e observação, justa, natural dos rurais, tais são as virtudes por cuja graça floriu um dia e se tornou cetro real, a aguilhada rústica de Wamba, rude arroteador da Egitânia e sábio monarca de todas as Espanhas em tempos visigóticos...
 
Eis as virtudes que o espírito burguês atraiçoa, desviando na História o caminho da nossa vocação e arrastando-nos hoje para as incertezas de um destino sem grandeza moral e sentido criador de reais valores humanos.
 
 
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[1] Já no livro Justiça! frisámos a observação de Kaiserling que distingue os povos que encontraram a palavra desterro para significar exilio.
 
[2] Uma vez, em conversa de amigos, alguém interpela um ilustre espírito que era também funcionário do Estado, Conservador do Registo Civil, por sinal, e põe-lhe cruamente o problema: — se tivesse que optar entre o seu lugar e a propriedade da sua quinta no Douro, que escolheria?
A resposta veio rápida, sem a mínima hesitação:
— Ganho com o meu lugar de funcionário quatro contos por mês, ou sejam quarenta e oito contos, A minha quinta dá em geral pouco mais do que a despesa. Todavia se eu tivesse que me decidir, decidia-me evidentemente pela quinta. Preferia sem dúvida uma vida duríssima a perder aquele pedaço de terra, sem o qual a própria vida não parece ter sentido.
Um dia, falava-se de vinhas e da primavera de esperanças de que elas se revestiam naquele ano benéfico.
Houve quem preguntasse, então, a outro, alheado da
conversa:
- E a tua?
- Já não tenho vinha... tive que a vender.
Todos, de súbito, emudecemos. Diante de nós passara uma grande dor, daquelas que deixam como que cicatrizes na alma... Era como se éle nos tivesse dito de uma pessoa muito querida: «morreu-me»...



​Cap. I - A Traição burguesa nos caminhos da história
​- A IDADE MÉDIA
​- A IDADE MODERNA
​- A REVOLUÇÃO FRANCESA
 

Cap. II - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
​- A TERRA

Cap. III - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
​- A AVENTURA


Cap. IV - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
​- O ESPÍRITO
- A TRAGÉDIA DA "UNIDADE"


Cap. V - A traição burguesa e as suas alianças
​
Cap. VI - A traição dos mitos

Cap. VII - Talassocracia

Cap. VIII - No alto da colina

Cap. IX - Caminhos de Esperança
​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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