1945 - Rolão Preto - A Traição Burguesa
CAPÍTULO IV
A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
RESUMO
Neste capítulo, Rolão Preto procura surpreender, na espiritualidade portuguesa, uma linha de força antiga e persistente: a liberdade interior do homem, o equilíbrio dos impulsos, a medida cristã e humanista, e essa natural repugnância pelo fanatismo que impede a comunidade de se converter em rebanho dócil e automático. Fátima surge-lhe, por isso, como lugar privilegiado de revelação nacional: ali, onde a multidão se reúne sob o apelo do mistério, não se apaga a pessoa humana; cada gesto conserva a sua cor própria, cada consciência permanece no eixo da sua liberdade, e a comunhão não destrói a personalidade.
Da colina inspirada de Fátima, o autor passa à história da Nação. Portugal é apresentado como povo profundamente cristão, mas não fanático; religioso na raiz, mas avesso aos excessos que confundem a vida civil com a vida espiritual. Mesmo quando a Inquisição, as lutas liberais ou as querelas entre Igreja e Estado perturbaram a ordem nacional, não teriam conseguido romper a unidade íntima do país, fundada numa regra de equilíbrio, de tolerância prática e de respeito pela liberdade da consciência portuguesa.
Essa mesma unidade aparece inscrita no próprio território. Estreita faixa atlântica, rasgada por rios que demandam o mar, Portugal encontrou cedo os caminhos naturais da sua coesão. A geografia confirmou-lhe o destino, abrindo-o à aventura marítima e à vocação universal. O clima brando, a paisagem clara, o ruralismo e a intimidade com a terra modelaram um espírito lírico, descritivo, empírico e humaníssimo, mais inclinado à evidência concreta da vida do que às nebulosas inquietações metafísicas ou aos pessimismos trágicos dos povos do Norte.
A expansão ultramarina representa, no seu primeiro movimento, a expressão alta dessa vocação: levar ao mundo, mais do que a força das armas, uma mensagem espiritual, cristã e civilizadora. Mas a curva do destino português inflecte-se quando a missão se deixa contaminar pela cobiça. As especiarias, o ouro, o luxo e a ostentação desviam a Nação do seu eixo. A chamada “traição burguesa” é precisamente essa queda: a substituição da grandeza espiritual pela febre mercantilista, da missão universal pela exploração, da ordem interior pela vaidade da riqueza.
Daí nasce a decadência. A terra abandona-se, os costumes corrompem-se, as classes deixam-se ganhar pelo desvario do ganho e da aparência, e a consciência nacional perde a sua antiga virilidade. Para além dos Filipes a decadência acentuou-se com o colbertismo do Marquês de Pombal, com a sua Real Mesa Censória e o seu Tribunal da Inconfidência. Escravos da miséria moral, depois de sermos escravos do oiro da Índia, teceu-se um aviltante cesarismo que nos amarrou à mesquinhez e à hipocrisia.
É então que a geração intelectual do século XIX — Antero de Quental, Oliveira Martins, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Fialho, Junqueiro, Bordalo e outros — surge como portadora do archote crítico. Pela irreverência, pela denúncia e pela coragem demolidora, essa elite obriga a Nação a contemplar a miséria do seu destino e rompe a paz podre do conformismo burguês. Não lhe coube ainda reconstruir plenamente o país; mas, ao derrubar ídolos mortos e ao abrir novas perspectivas, preparou a possível vitória do Espírito: o reencontro de Portugal com o seu pensamento claro, livre e humaníssimo.
Da colina inspirada de Fátima, o autor passa à história da Nação. Portugal é apresentado como povo profundamente cristão, mas não fanático; religioso na raiz, mas avesso aos excessos que confundem a vida civil com a vida espiritual. Mesmo quando a Inquisição, as lutas liberais ou as querelas entre Igreja e Estado perturbaram a ordem nacional, não teriam conseguido romper a unidade íntima do país, fundada numa regra de equilíbrio, de tolerância prática e de respeito pela liberdade da consciência portuguesa.
Essa mesma unidade aparece inscrita no próprio território. Estreita faixa atlântica, rasgada por rios que demandam o mar, Portugal encontrou cedo os caminhos naturais da sua coesão. A geografia confirmou-lhe o destino, abrindo-o à aventura marítima e à vocação universal. O clima brando, a paisagem clara, o ruralismo e a intimidade com a terra modelaram um espírito lírico, descritivo, empírico e humaníssimo, mais inclinado à evidência concreta da vida do que às nebulosas inquietações metafísicas ou aos pessimismos trágicos dos povos do Norte.
A expansão ultramarina representa, no seu primeiro movimento, a expressão alta dessa vocação: levar ao mundo, mais do que a força das armas, uma mensagem espiritual, cristã e civilizadora. Mas a curva do destino português inflecte-se quando a missão se deixa contaminar pela cobiça. As especiarias, o ouro, o luxo e a ostentação desviam a Nação do seu eixo. A chamada “traição burguesa” é precisamente essa queda: a substituição da grandeza espiritual pela febre mercantilista, da missão universal pela exploração, da ordem interior pela vaidade da riqueza.
Daí nasce a decadência. A terra abandona-se, os costumes corrompem-se, as classes deixam-se ganhar pelo desvario do ganho e da aparência, e a consciência nacional perde a sua antiga virilidade. Para além dos Filipes a decadência acentuou-se com o colbertismo do Marquês de Pombal, com a sua Real Mesa Censória e o seu Tribunal da Inconfidência. Escravos da miséria moral, depois de sermos escravos do oiro da Índia, teceu-se um aviltante cesarismo que nos amarrou à mesquinhez e à hipocrisia.
É então que a geração intelectual do século XIX — Antero de Quental, Oliveira Martins, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Fialho, Junqueiro, Bordalo e outros — surge como portadora do archote crítico. Pela irreverência, pela denúncia e pela coragem demolidora, essa elite obriga a Nação a contemplar a miséria do seu destino e rompe a paz podre do conformismo burguês. Não lhe coube ainda reconstruir plenamente o país; mas, ao derrubar ídolos mortos e ao abrir novas perspectivas, preparou a possível vitória do Espírito: o reencontro de Portugal com o seu pensamento claro, livre e humaníssimo.
CAPÍTULO IV
A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
O ESPÍRITO
A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
O ESPÍRITO
A lugares onde a natureza se cala e as solicitações dos sentidos cessam em face do misterioso apêlo que nasce das coisas e penetra o interior das almas erguendo-as em êxtase.
É aqui que a fina sensibilidade de Barrés escutava soprar o espírito...
Fátima é desses lugares eleitos, «colina inspirada» onde os pensamentos se afinam e, por momentos, procuram as razões insondáveis do mistério do mundo.
Vindos dos quatros cantos de Portugal, homens da serra e da planura, das cidades e da charneca, das terras distantes e das bordas do mar, muitos são os que sobem a colina do encantamento carregando de longe o peso da sua inquietação ou da sua queixa, movidos pelo impulso telúrico dos instintos ou guiados pela espiritualidade alta de uma crença - muitos são aqueles que demandam Fátima.
Ao alto da colina forma-se por momentos o clima de uma grande comunidade popular com todas as virtudes e defeitos, com tudo o que define as características dos portugueses. Une-os - um instante — uma comunhão geral que curva ou alteia o peito, esmaga ou alvoroça os corações tocados do milagre do lugar — a comunhão do infinito... A fé nos destinos...
Então, o espírito sopra... E, por seu alto condão, a comunidade de Fátima se torna um portentoso milagre de rara essência, em que todos os clamores e todos os gestos — todos os atos que testemunham uma atitude - conservam a cor específica, mantêm a nítida expressão individual. Não se somam ali as vontades.
Não se manifesta, a não ser por incidente, a marcha serrada de qualquer fanatismo. Mesmo nas manifestações em que todos colaboram, não se produz uma massa de automatismos; antes, a maior parte se conserva—até colaborando na sua liberdade de ação, —atenta ao pormenor, virada à luz do seu próprio pensamento. O homem continua homem, com a sua curiosidade, o seu espanto, a sua fé ou o seu cepticismo - dentro sempre de si próprio, sem se perder no agitado mar que o rodeia, sem sair do eixo da sua personalidade — Pessoa Humana, Espírito, enfim!
Grande milagre do espírito é este, com efeito, Milagre de um clima fecundado pelo humanismo de uma Fátima católica cujos acentos universalistas dão maior realce à exaltação personalista, certo de que o pensamento que leva à síntese humanista do universo parte mais seguramente de uma análise que conduz ao Homem, livre e sagrado?
Vocação particular de um povo de seu natural impermeável às traições, por onde se transformam as comunidades humanas em dóceis e servis rebanhos?
Prodígio, enfim, de um lugar em que as forças telúricas se confessam vencidas e o homem liberto dessa gravidade misteriosa e empolgante pode manter a despeito de circunstâncias exteriores o equilíbrio da sua vontade?
Tal o problema que em Fátima se põe todos os dias, quando se observam os movimentos livres dos grupos humanos no seio da grande massa e o valor dos reflexos individuais, que por toda a parte explodem sem quebrar a harmonia do conjunto.
Não é, porém, este o problema espiritual do povo português?
Gente de tanta violência no amor da terra, de tanto entusiasmo na aventura e, no entanto, de tão justas proporções nos impulsos da sua espiritualidade, mesmo no domínio do absoluto! Povo que, em todos os tempos e em todas as circunstâncias, manteve sempre a fé nos seus particularismos e defendeu sempre com amor as suas liberdades.
Povo de rurais e de poetas, de guerreiros e de artistas. Povo de «homens livres» e não de «massas». Eis o que testemunha Fátima. Pelo menos aquela Fátima que se mantém na pureza dos primeiros apelos, longe das traições burguesas que mancham a grandeza dos altos cimos espirituais com a sua presença mercantil ou «snob».
O Homem aqui mostra-se livre, livremente, voluntariamente, procura o caminho do seu destino, sozinho perante Deus ou perante a sua dúvida. E aqui, sozinho, marcha confiante.
Confiante... Essa confiança que lhe dá uma tão clara serenidade multiplica-se em Fátima, esse largo altar que a vista abrange de todos os lados e que por todos os lados espalha a ideia pacificadora que Deus— seja qual for a culpa de cada um — é a salvação de todos...
Nenhum problema de consciência se põe para os que ali acreditam, pois todo o pecado, mesmo o mais grave, pode ser perdoado e, portanto, todos têm o coração liberto de velhas culpas... E mesmo para os que não creem, a consciência se aligeira do pecado, pois que a descrença pode bem ser considerada como um rompimento na linha de ordem religiosa. E o que é a vida dos crentes, tal como o cristianismo a considera, senão uma série ininterrupta de rompimentos e de perdões, de desastres e de vitórias, de batalhas e de tréguas?
Confiantes pois, isto é, livres...
*
Somos assim. A linha de força do nosso espiritualismo é um índice de inspirações, anseios e cuidados, onde se retrata sempre a volúpia de ser livre, o orgulho de não sofrer limites à glória de ser Homem.
Decerto, a espiritualidade portuguesa é fundamentalmente religiosa. Em todas as manifestações da vida deste povo surge a presença de conceitos pela força, que são diretrizes cristãs. Nas grandes obras onde se evidenciou o nosso génio, como nos simples atos e vulgar linguagem de todos os dias, a cada passo se mostram testemunhas de quanto nos penetrou o cristianismo e de quanto ele — quer se deseje quer não — comanda, através de velhos hábitos e velhas palavras.
Todavia, poucos povos terão em tão natural horror o facto e a palavra «fanatismo».
Nunca através da história, a não ser nas horas de crise, nas horas de doença do organismo nacional— nunca os planos da vida cívica e da vida religiosa se sobrepuseram sem reação. Pelo contrário, desde as origens da Nação Portuguesa, foram esses sectores sempre bem distintos e, quando se chocavam, era mais por virtude e atitudes pessoais dos responsáveis do que em razão dos impulsos coletivos, que de um lado ou do outro impusessem tendências de comando absoluto.
Este equilíbrio testemunha decisivamente um outro: o equilíbrio da espiritualidade portuguesa feito do respeito pelos direitos e pelas ideias de cada um.
Decerto que já os portugueses coevos de Erasmo tinham um instrumento crítico tão afinado como os dos seus contemporâneos europeus — e não se privavam das ironias e até das facécias com que os frades e clérigos eram mimoseados a propósito da inverosímil dialética das sermonatas e do pedantismo de gestos e palavras por que eram pronunciadas, do exagero de certas fórmulas de penitência, da boçalidade de certos hábitos e impudor de costumes; — já então em Portugal também se sentia que: «il vous serait plus aisé de sortir d'un labyrinthe, que d'échapper des filets des Reaux, des Nominaux, des Thomistes, des Albertistes, des Occamistes, des Scotistes, et enfin de toutes les sectes théologiques dont je ne nomme que les principales» — como em Portugal se era também espectador divertido das «disputas de palavras» em que se aclarava a diferença entre «graça gratuita» e «graça gratificante», «opus operas» e «opus operatum», «caridade infusa» e «caridade adquirida». Finalmente já também aqui se considerava com bonomia, a respeito de frades e clérigos, que «leur rencontre seule est regardée comme mauvais augure». Todavia, nunca a História teve que registar entre nós exageros ou violência duradoiros no clima dos debates. E, mesmo quando os reis ou governantes lutaram duro, jamais uma onda de fundo se ergueu a impor uma política contra a Igreja ou a seu favor.
Em tudo, de resto, esse equilíbrio é notório, até mesmo, nas provas mais vulgares e no respeito que o povo mantém para com a Igreja. Os portugueses raramente blasfemam e, quando o fazem, bem grande é a distância que os separa, por exemplo, da brutal grosseria de espanhóis e italianos...
Foi também, por milagre do nosso temperamento, que entre nós se esbateu o eco dos altos lances das lutas religiosas em que se abrasou a Europa de 1520 e de todas as repercussões adrede.
É verdade que se atribui aos processos dolorosos da Inquisição a unidade do nosso espírito religioso; mas deve-se, no entanto, frisar que o Santo Ofício, que entre nós foi largamente arma política dos governantes, não teve que reduzir nenhum movimento de grande monta, nem submeter ou liquidar figuras de tão alto relevo que a sua atividade espiritual pudesse causar um desequilíbrio decisivo.
Mais tarde, quando as lutas liberais agitaram o país, grandes foram — é certo — os redemoinhos na ordem dos sentimentos religiosos; mas como negar que o aspecto fundamental do debate era político, e, políticas todas as manobras de confusionismo ou de impulso religioso; de que os partidos em luta se serviram para seu exclusivo proveito?
De um e doutro lado se ergueram bandeiras e pregões, mobilizando os «verdadeiros» sentimentos religiosos do povo; mas, se uns vinham por Cristo e Roma e os outros por Cristo e o Evangelho — a unidade, no entanto manteve-se para além da luta, porque ela nunca deixou de se fazer sob a Cruz alto signo do nosso destino universalista e humanista.
Assim, nem excessos nem contradições desconcertantes, nem rupturas graves — nada desmentiu o equilíbrio da nossa espiritualidade através das relações, tantas vezes tão melindrosas, da vida civil e da vida religiosa. A linha de força do Espírito pôde pois definir-se e acentuar-se com a afluência de todos os valores por onde através dos tempos se projetou no Universo a marcha clara de um pensamento português — uno e cristão, uno nas suas raízes, cristão na sua regra humanista, na sua projeção universal.
É aqui que a fina sensibilidade de Barrés escutava soprar o espírito...
Fátima é desses lugares eleitos, «colina inspirada» onde os pensamentos se afinam e, por momentos, procuram as razões insondáveis do mistério do mundo.
Vindos dos quatros cantos de Portugal, homens da serra e da planura, das cidades e da charneca, das terras distantes e das bordas do mar, muitos são os que sobem a colina do encantamento carregando de longe o peso da sua inquietação ou da sua queixa, movidos pelo impulso telúrico dos instintos ou guiados pela espiritualidade alta de uma crença - muitos são aqueles que demandam Fátima.
Ao alto da colina forma-se por momentos o clima de uma grande comunidade popular com todas as virtudes e defeitos, com tudo o que define as características dos portugueses. Une-os - um instante — uma comunhão geral que curva ou alteia o peito, esmaga ou alvoroça os corações tocados do milagre do lugar — a comunhão do infinito... A fé nos destinos...
Então, o espírito sopra... E, por seu alto condão, a comunidade de Fátima se torna um portentoso milagre de rara essência, em que todos os clamores e todos os gestos — todos os atos que testemunham uma atitude - conservam a cor específica, mantêm a nítida expressão individual. Não se somam ali as vontades.
Não se manifesta, a não ser por incidente, a marcha serrada de qualquer fanatismo. Mesmo nas manifestações em que todos colaboram, não se produz uma massa de automatismos; antes, a maior parte se conserva—até colaborando na sua liberdade de ação, —atenta ao pormenor, virada à luz do seu próprio pensamento. O homem continua homem, com a sua curiosidade, o seu espanto, a sua fé ou o seu cepticismo - dentro sempre de si próprio, sem se perder no agitado mar que o rodeia, sem sair do eixo da sua personalidade — Pessoa Humana, Espírito, enfim!
Grande milagre do espírito é este, com efeito, Milagre de um clima fecundado pelo humanismo de uma Fátima católica cujos acentos universalistas dão maior realce à exaltação personalista, certo de que o pensamento que leva à síntese humanista do universo parte mais seguramente de uma análise que conduz ao Homem, livre e sagrado?
Vocação particular de um povo de seu natural impermeável às traições, por onde se transformam as comunidades humanas em dóceis e servis rebanhos?
Prodígio, enfim, de um lugar em que as forças telúricas se confessam vencidas e o homem liberto dessa gravidade misteriosa e empolgante pode manter a despeito de circunstâncias exteriores o equilíbrio da sua vontade?
Tal o problema que em Fátima se põe todos os dias, quando se observam os movimentos livres dos grupos humanos no seio da grande massa e o valor dos reflexos individuais, que por toda a parte explodem sem quebrar a harmonia do conjunto.
Não é, porém, este o problema espiritual do povo português?
Gente de tanta violência no amor da terra, de tanto entusiasmo na aventura e, no entanto, de tão justas proporções nos impulsos da sua espiritualidade, mesmo no domínio do absoluto! Povo que, em todos os tempos e em todas as circunstâncias, manteve sempre a fé nos seus particularismos e defendeu sempre com amor as suas liberdades.
Povo de rurais e de poetas, de guerreiros e de artistas. Povo de «homens livres» e não de «massas». Eis o que testemunha Fátima. Pelo menos aquela Fátima que se mantém na pureza dos primeiros apelos, longe das traições burguesas que mancham a grandeza dos altos cimos espirituais com a sua presença mercantil ou «snob».
O Homem aqui mostra-se livre, livremente, voluntariamente, procura o caminho do seu destino, sozinho perante Deus ou perante a sua dúvida. E aqui, sozinho, marcha confiante.
Confiante... Essa confiança que lhe dá uma tão clara serenidade multiplica-se em Fátima, esse largo altar que a vista abrange de todos os lados e que por todos os lados espalha a ideia pacificadora que Deus— seja qual for a culpa de cada um — é a salvação de todos...
Nenhum problema de consciência se põe para os que ali acreditam, pois todo o pecado, mesmo o mais grave, pode ser perdoado e, portanto, todos têm o coração liberto de velhas culpas... E mesmo para os que não creem, a consciência se aligeira do pecado, pois que a descrença pode bem ser considerada como um rompimento na linha de ordem religiosa. E o que é a vida dos crentes, tal como o cristianismo a considera, senão uma série ininterrupta de rompimentos e de perdões, de desastres e de vitórias, de batalhas e de tréguas?
Confiantes pois, isto é, livres...
*
Somos assim. A linha de força do nosso espiritualismo é um índice de inspirações, anseios e cuidados, onde se retrata sempre a volúpia de ser livre, o orgulho de não sofrer limites à glória de ser Homem.
Decerto, a espiritualidade portuguesa é fundamentalmente religiosa. Em todas as manifestações da vida deste povo surge a presença de conceitos pela força, que são diretrizes cristãs. Nas grandes obras onde se evidenciou o nosso génio, como nos simples atos e vulgar linguagem de todos os dias, a cada passo se mostram testemunhas de quanto nos penetrou o cristianismo e de quanto ele — quer se deseje quer não — comanda, através de velhos hábitos e velhas palavras.
Todavia, poucos povos terão em tão natural horror o facto e a palavra «fanatismo».
Nunca através da história, a não ser nas horas de crise, nas horas de doença do organismo nacional— nunca os planos da vida cívica e da vida religiosa se sobrepuseram sem reação. Pelo contrário, desde as origens da Nação Portuguesa, foram esses sectores sempre bem distintos e, quando se chocavam, era mais por virtude e atitudes pessoais dos responsáveis do que em razão dos impulsos coletivos, que de um lado ou do outro impusessem tendências de comando absoluto.
Este equilíbrio testemunha decisivamente um outro: o equilíbrio da espiritualidade portuguesa feito do respeito pelos direitos e pelas ideias de cada um.
Decerto que já os portugueses coevos de Erasmo tinham um instrumento crítico tão afinado como os dos seus contemporâneos europeus — e não se privavam das ironias e até das facécias com que os frades e clérigos eram mimoseados a propósito da inverosímil dialética das sermonatas e do pedantismo de gestos e palavras por que eram pronunciadas, do exagero de certas fórmulas de penitência, da boçalidade de certos hábitos e impudor de costumes; — já então em Portugal também se sentia que: «il vous serait plus aisé de sortir d'un labyrinthe, que d'échapper des filets des Reaux, des Nominaux, des Thomistes, des Albertistes, des Occamistes, des Scotistes, et enfin de toutes les sectes théologiques dont je ne nomme que les principales» — como em Portugal se era também espectador divertido das «disputas de palavras» em que se aclarava a diferença entre «graça gratuita» e «graça gratificante», «opus operas» e «opus operatum», «caridade infusa» e «caridade adquirida». Finalmente já também aqui se considerava com bonomia, a respeito de frades e clérigos, que «leur rencontre seule est regardée comme mauvais augure». Todavia, nunca a História teve que registar entre nós exageros ou violência duradoiros no clima dos debates. E, mesmo quando os reis ou governantes lutaram duro, jamais uma onda de fundo se ergueu a impor uma política contra a Igreja ou a seu favor.
Em tudo, de resto, esse equilíbrio é notório, até mesmo, nas provas mais vulgares e no respeito que o povo mantém para com a Igreja. Os portugueses raramente blasfemam e, quando o fazem, bem grande é a distância que os separa, por exemplo, da brutal grosseria de espanhóis e italianos...
Foi também, por milagre do nosso temperamento, que entre nós se esbateu o eco dos altos lances das lutas religiosas em que se abrasou a Europa de 1520 e de todas as repercussões adrede.
É verdade que se atribui aos processos dolorosos da Inquisição a unidade do nosso espírito religioso; mas deve-se, no entanto, frisar que o Santo Ofício, que entre nós foi largamente arma política dos governantes, não teve que reduzir nenhum movimento de grande monta, nem submeter ou liquidar figuras de tão alto relevo que a sua atividade espiritual pudesse causar um desequilíbrio decisivo.
Mais tarde, quando as lutas liberais agitaram o país, grandes foram — é certo — os redemoinhos na ordem dos sentimentos religiosos; mas como negar que o aspecto fundamental do debate era político, e, políticas todas as manobras de confusionismo ou de impulso religioso; de que os partidos em luta se serviram para seu exclusivo proveito?
De um e doutro lado se ergueram bandeiras e pregões, mobilizando os «verdadeiros» sentimentos religiosos do povo; mas, se uns vinham por Cristo e Roma e os outros por Cristo e o Evangelho — a unidade, no entanto manteve-se para além da luta, porque ela nunca deixou de se fazer sob a Cruz alto signo do nosso destino universalista e humanista.
Assim, nem excessos nem contradições desconcertantes, nem rupturas graves — nada desmentiu o equilíbrio da nossa espiritualidade através das relações, tantas vezes tão melindrosas, da vida civil e da vida religiosa. A linha de força do Espírito pôde pois definir-se e acentuar-se com a afluência de todos os valores por onde através dos tempos se projetou no Universo a marcha clara de um pensamento português — uno e cristão, uno nas suas raízes, cristão na sua regra humanista, na sua projeção universal.
A TRAGÉDIA DA «UNIDADE»
Há povos cuja inquietação maior, inquietação de séculos tem sido a sua ânsia de encontrar a unidade nacional sem jamais o conseguir. A Espanha por exemplo.
Ausência de vias naturais de comunicação, dificuldade de precisar o seu centro geográfico, problemas religiosos ou de língua, eis outros tantos motivos que, ao criarem particularismos irredutíveis, se opõem à unidade de um povo, ocasionando repetidas e graves crises nacionais.
Portugal teve logo por si o território.
Estreita faixa ao longo do mar, toda sulcada por uma intensa rede de rios e seus afluentes, a que o destino concedeu uma orientação tão favorável como o «Minho», o «Douro», o «Vouga», o «Mondego», o «Zêzere», o «Tejo», — o «Tejo» estrada real, avenida —eixo do sistema — o «Sado», e principalmente o «Guadiana», Portugal encontrou já feitos e perfeitos, os caminhos da sua unidade. Esses caminhos, que abriam o horizonte da terra, demandavam todos o mar e o mar, no seu largo abraço, confirmou para sempre os nossos destinos de Nação una.
Ao facto feliz da nossa unidade ter sido encontrada «naturalmente», junta-se outro de não menos importância —o de não ter sido feita em prejuízo de uma parte do todo. Estas duas circunstâncias explicam assim como se tornou possível, primeiro do que todas as outras nações europeias ribeirinhas do oceano, a nossa aventura ultramarina.
Com efeito, só unidos e livres de qualquer preocupação pelos destinos dessa unidade, nos poderíamos oferecer, como nos oferecemos, às solicitações atlânticas e universais do nosso génio.
Assim, a linha de força da nossa espiritualidade se mostra, desde as origens, claro índice de uma rara unidade nacional, pois que é realizada duas vezes pelo território e pelas leis da comunidade — religião, língua, costumes.
Cristã e «humanista» nos primeiros passos, jamais deixa de se conservar fiel a si própria mesmo quando atinge os mais altos cumes da sua curva, e que, traduzindo a expressão suprema do génio, poderia extraviar-se no orgulho de caminhos diferentes...
Decerto vai longe das trovas em que a língua balbucia apenas ao bronze eterno de Camões, às sonoridades altas de Junqueiro ou às divinas cogitações de Antero. Não importa; variam por certo as densidades, as alturas e as conquistas de técnica, mas nada interrompe a linha privilegiada da nossa emotividade, da nossa sensibilidade, da nossa ternura humana face à dor, à beleza e a todos os fortes anseios que agitam o pobre coração do Homem.
Nasceu, em verdade, sob as bênçãos de um destino humaníssimo o nosso génio. O clima e o solo foram-lhe propícios pelo carácter brando de um e pelas suaves perspectivas do outro.
As leis que regulam a dupla influência do clima e da terra sobre o homem são ainda desconhecidas — é certo — mas bem evidente se torna a relação em que está para o poderoso génio de um Tolstoi, a vasta Rússia gelada e misera, onde o Moujick só encontra na sua Isla o precário refúgio contra os lobos, que as outras feras, os homens, não as detém nenhum sagrado direito, nenhuma garantia moral à porta do seu lar...
A Rússia dos generais e dos Príncipes com almas de criança e de validos com instintos de tigre; a Rússia das pequenas e grandes coisas; das cavalgadas heróicas dos Cossacos e de Sebastopol; da pobre princesa Bolkonsky e da família Rostov.
Clara é também a relação entre um Ibsen e o mistério dessa Escandinávia de quem o «sol se esconde» e onde os homens muitos meses se movem na incerteza da penumbra gelada, enquanto do fundo insondável dos fiords sobe a canção dramática das águas negras mordendo o duro coração da rocha...
Pode dizer-se que o Shakespeare da Lady Machbet e do Hamlet está para as terras e visões do Norte, como Mistral para as claras e doces paisagens do Sul, que o Ródano brandamente rega e o Mediterrâneo eternamente embala.
E assim, enquanto a paisagem de Castela, dura, sangrenta dos barros e misteriosa das serras, afina o génio dramático de Calderon e de Lope de Vega, ou explode nesse estranho Goia inconfundível, a paisagem e o clima lusitanos foram o meio propício do nosso eterno lirismo e do nosso permanente diálogo com a terra —dois altos termos da nossa particular sensibilidade.
A linha de força do nosso espiritualismo surge como uma «constante» evidente. É que a reforçá-la estão todos os dias os milagres de luz e de harmoniosas perspectivas da terra ocidental. Tudo o que nas terras nórdicas sugere visões monstruosas — florestas insondáveis, claridades moribundas, fantasmas de neblina, gritos de gelo nas trevas — tudo o que ali desloca o eixo do pensamento, justificando as exaltações ideais da ficção em prejuízo das serenas regras do raciocínio — todo esse clima, de fantasmagoria e sonho, é aqui varrido pela violência do sol e pela evidência clara e leal de uma natureza simples, de uma natureza que para nós não tem segredos.
Enquanto as gentes do Norte vivem na permanente hostilidade do clima e da natureza, é no clima e na terra que nós encontramos a melhor aliança.
O Norte criou-lhes naturalmente as lendas trágicas, as religiões de pavor e de devastação — um nebuloso Odin e um misterioso Walhala, um mundo de gigantes e anões, abismados num clamor de lutas infernais donde é banido todo o optimismo, toda a esperança, e onde a vida é permanente concepção e derrocada, idealismo e materialismo, entrechocando-se na eterna inquietação metafísica de um mito sem fim...
Pelo contrário, nós que amamos a terra e nela nos comprazemos, dela recebemos uma inspiração estética que não perturba os voos de espírito apoiados na clara razão, antes nos torna impermeáveis, a certa influência das forças telúricas cujo dinamismo por vezes se impõe aos destinos dos povos nórdicos.
Desta maneira é o próprio ruralismo que nos liberta, voltando-nos para o exterior, para a natureza e para a vida, que o sol ilumina todos os dias, de novos coloridos e novas perspectivas, deus benéfico que nos concedeu o dom de um espírito descritivo, colorista e lírico.
Não somos um povo de inquietação metafísica ou de pessimismo heróico. O espírito rural, empírico, minucioso, sereno, afina a análise, reforça o instrumento crítico, simplifica o julgamento.
Raras vezes fomos meditativos. Até o romantismo, nascido no laquismo escocês e nas margens do sombrio Reno, não encontrou em nós o meio propício do mistério das florestas e da neblina das águas. Assim, nas Histórias do pensamento, não se mostram grandes idealistas nem grandes místicos portugueses.
Nem Kant nem Santa Tereza poderiam ser feitos da branda argila lusitana, terra que é tanto oceano como continente, terra fluida, terra marinha por excelência.
Se em Spinoza corre porventura sangue nosso, as veias são-lhe dessa raça de eternos cogitadores, «raça escolhida» para quem o céu se ilumina perspectivamente do fulgor dos próprios sistemas em potência, ideias que incessantemente procuram o apoio de uma terra de promissão que lhes escapa sempre...
Em verdade, na história da nossa espiritualidade, os filósofos são excepções, ao contrário dos teólogos que os temos mestres: Tal regra tem um significado claro. Dentro dos horizontes e dos limites da verdade religiosa, que nós aceitamos, fincamos o pé na terra firme, desdobramos asas e desferimos altos voos. Nunca porém nos tentou a «estratosfera», não revelada e insondável, por onde sopram vendavais sem nenhuma lei e donde mal se avista a terra e todas as realidades que a condicionam...
Quando o cura e o barbeiro de Cervantes vão queimar os livros de D. Quixote, como responsáveis da sua loucura de cavaleiro andante, grande foi a fogueira vingadora. Poetas e prosadores, pequenas e grandes tramas, tudo ardeu num cortejo de condenados de que o próprio «Amadis» escapou por milagre, cortejo que foi alinhando sem piedade para o pátio da excursão com as «gloriosas» Proezas de Esplandiano o farrombante «D. Olivante de Laura, Florismate de Hircania, Cavaleiro Patis, Cavaleiro da Cruz, Espelho de Cavalarias» e outros mais onde «esforçados cavaleiros» gigantes e outras maravilhas de seu tempo corriam na cavalgada maravilhosa dos seus aventurosos destinos...
Mas no juízo sem perdão do temeroso cura fez-se súbito uma pausa. É que surgira um livro que bem merecia as honras de uma exceção: «Palmeirim de Inglaterra».
Guarde-se porém essa palma de Inglaterra —disse o cura —e conserve-se para ela outra caixa como a que achou Alexandre entre os despojos de Dario, a qual reservou para guardar as Obras de Homero.
Este Livro, senhor compadre por duas coisas se fez apreciável: uma é o ser ele em si mesmo muito bom, e outra o ter sido seu Autor um discreto Rei de Portugal, como é constante.
Todas as aventuras do Castelo de Mira Guarda são muito boas, e muito bem inventadas, e cheias de arte; o estilo fácil e puro; seu Autor esmerou-se em conservar o decoro de quem fala com muita «propriedade e siso». Pelo que, a meu ver, Mestre Nicolau, salvo o vosso bom aviso, este e Amadis de Gaula, sejam isentos do fogo e os outros todos sem mais exame morram.
Esta homenagem do génio de Cervantes à «propriedade e siso» da nossa espiritualidade, distinguindo as suas virtudes dentre a tão vasta assembleia reunida na livraria de D. Quixote e em matéria tão naturalmente propícia a desvarios do pensamento, é bem alto testemunho do equilíbrio e feição da nossa personalidade.
Teófilo Braga, estudando em Bernardim Ribeiro este equilíbrio tão diferente do «castelhanismo pomposo e banal», atribui à nossa linha de força do Espírito uma ascendência «pré-romana», que nos liberta totalmente da origem «asturo-lioneza» que nos supusera Herculano.
E, assim, essa linha de força que já vemos tão firme nos portugueses de quinhentos, teria raízes anteriores à formação da nacionalidade, raízes bem fundas senão numa raça, no clima e na terra da costa atlântida da Ibéria. Desta maneira não surpreende a harmonia da curva da nossa espiritualidade clássica.
Em verdade, através da nossa literatura «clássica» se nota sempre o apelo das origens: uma ordem feita de razão, uma regra ordenada em função da clara inteligência das coisas e dos factos.
Mas logo no nosso espírito se mostra a sua tendência universal, debruçando-se tanto quanto se ergueu sobre o coração inquieto dos humanos, para lhes escutar as queixas amorosas as mais profundas, tão cheias de dolente mistério, ou para lhes entender as fraquezas e melancólicas grandezas.
D. Diniz, Garcia de Resende, Bernardim Ribeiro, Couto, João de Barros, Sá de Miranda, António Ferreira, Damião de Gois, Fernão Lopes, Azurara, o grande Gil Vicente, Frei Luís de Sousa, Jacinto Freire de Andrade, Rodrigues Lobo.
Terra e clima. A geografia fez o resto.
A geografia, marcando-nos um destino atlântico rasgou horizontes inéditos à nossa observação e ao nosso engenho, dando-nos logo uma personalidade característica, que depressa deixou de ser europeia para se tornar totalmente universal, isto é, humana.
Vimos, primeiro que ninguém, alongar-se diante dos nossos olhos a infinita costa de África e, para além dos marcos fatais o Cabo Bojador, o Cabo de Boa Esperança; conhecemos o Oriente com as suas riquezas e as suas misérias; desvendámos os segredos dos mares e detivemo-nos, assombrados, perante a grandeza sem par das terras da América e das florestas virgens e silenciosas do Amazonas. Na branda argila da nossa memória imprimiu-se a imagem do Mundo. Costumes, leis, paisagens, conceitos de vida — de tudo trouxemos a impressão forte que nos ultrapassava.
Então, escrevemos o poema da conquista da Terra pelo homem branco. Fizemos os «Lusíadas» e erguemos os Jerónimos.
Éramos os primeiros a quem era revelada a verdadeira grandeza do universo e o significado de uma «Humanidade» total que o habitava.
O equilíbrio natural do nosso temperamento a que o espírito do Evangelho exaltava as virtudes fez-nos não sentir o nosso orgulho de raça, frente às outras raças. E, assim, a descoberta e conquista da Terra pelos portugueses inscreveu-se na História com o significado de uma mensagem espiritual do mundo novo aos povos que, para além do mar, jaziam na treva primitiva, ou nos escombros de civilizações mortas.
Foi assim que as naus em que demandámos a glória da Descoberta desembarcaram um dia apóstolos e mártires do Espírito Novo. A linha de força da espiritualidade portuguesa renovou-se então nessas terras distantes pela pujança vigorosa de um Vieira ou de um Bernardes... Mas o fio da nossa espiritualidade não pode resistir ao desastre da nossa queda. A traição mercantilista, desviando-nos, do eixo da nossa vocação, arrastara o país pelo caminho da grande miragem em que o nosso equilíbrio natural
se perdeu.
Vamos a Marrocos com o desígnio de chamar a nós as caravanas do Oriente. Depois dobramos, ansiosos, a linha da costa africana escondendo mal a nossa decepção de não encontrarmos as riquezas que procurávamos. Por um momento hesitamos, ante o desenrolar de tanta ânsia inútil... D. João II proclama, porém, a «boa esperança», e certo dia chegámos à Índia. O vento que levava as caravelas não era todavia já só o de dilatação de fé e do império, como nos primeiros anos, nas primeiras horas em que nos debruçamos sobre o mar, com o coração puro de cavaleiros... Agora vinhamos no encanto das especiarias, das pedras preciosas, do marfim e do oiro. Não tardou muito que essa «vã cubiça, nos fizesse esquecer os destinos da Nação, perdidos na farândola dos apetites e da megalomania desenfreada que nos assaltara».
Então ganhou-nos o desvario sem remédio.
As virtudes e aptidões naturais foram substituídas por ambições e impulsos desordenados e estéreis. A terra, abandonada, denudara-se em charneca bravia, as indústrias eram esmagadas pelo comércio europeu que nos invadia ao assalto das riquezas que aceitávamos do Oriente.
Todas as classes se irmanavam no anseio da perdição.
O povo corria dos campos para embarcar na grande aventura. A fidalguia renegava todo o equilíbrio que lhe podia emprestar as regras da sua tradição. A burguesia esquecia aquela linha móvel, rude mas incorruptível, que a fizera outrora base segura da resistência nacional em todas as horas de crise. —Tudo enfim se deixara ganhar pela traição da riqueza. Uma só intenção movia os portugueses: o desejo de ostentação, a ânsia do luxo e da parada deslumbrante, sem os forçosos limites que impõem as preocupações do futuro e a sua ameaça...
Tínhamo-nos lançado na conquista do Mundo não para alargar sobre ele os cuidados da nossa herdade, o nosso conceito moral de civilização, a nossa tradição humaníssima. Demudados pela ganância, tornámo-nos avassaladores dos mares, mercadores sem escrúpulos, dissolutos, para quem o vasto mundo interessava apenas pela sôfrega traição de o explorar, de colher nele tudo quanto nele houvesse para alimentar a fogueira sensual e desordenada do nosso egoísmo.
Já ninguém descortinava o caminho de uma missão portuguesa na terra. Os «fumos da Índia» entenebreciam-nos o horizonte para além das aparatosas cavalgadas do Rossio e dos estonteantes bazares da Rua Nova... A Rua Nova... era a velha rua, a eterna rua por onde se perdem os povos tocados da traição do oiro.
Estávamos apodrecidos. O espírito heróico era recordação perdida no tempo, de que apenas os ingénuos podiam lembrar-se; o orgulho nacional uma lenda épica que só «quixotes» invocariam e o próprio sentido cristão que inspira os anseios da raça, degenerara em delírio religioso dissolvente dos caracteres, agora corruptos, da nossa virilidade antiga.
A febre mercantilista fizera perder-se a consciência nacional dos portugueses. A traição burguesa tornara-os maduros para todos os jugos.
Não tardavam os Filipes...
A curva da nossa evolução espiritual mudara de sentido.
Os «Lusíadas», que abriam no clamor estridente de trombetas e no rufar heróico de tambores, fecham no momento amargo de uma prece que é também a expressão dorida de uma queixa.
D. João III... Entramos em plena noite, na longa noite de crise que ainda dura.
D. Jerónimo Osório e o grande Vieira são ainda duas estrelas vivas, a brilhar no céu pejado de mil estrelas; mas daqui em diante já não somos mais o que deveríamos ser por nós próprios, como elos lógicos da cadeia gloriosa que se partira. Ou nos voltamos para o passado a fim de viver apenas da lembrança do que fomos ou nos debruçamos para o exterior, a colher nos gestos e nas ideias dos estranhos aquilo que já não sabíamos encontrar no génio nacional.
Por isso, para além dos Filipes, a decadência não fez mais do que acentuar-se. Não é D. João V, com a sua megalomania monstruosa, desperdiçando os milhões do Brasil em puro benefício do seu povo; nem o colbertismo do Marquês, com a sua Real Mesa Censória e o seu Tribunal da Inconfidência, devassando cartas e consciências, perseguindo quantos ousavam erguer uma personalidade que chocasse a sua vaidade de tirano sem limites; nem tampouco seriam os sombrios tempos de D. Maria I e de D. João VI, com Pina Manique debruçado sobre os caixotes na Alfândega, a vasculhar e queimar os livros que vinham de França, com D. Francisco Manuel exilado, Bocage na cadeia, o abade Correia da Serra, o Duque de Lafões e o Padre António Pereira de Figueiredo sob o olho vigilante dos esbirros— e lograram assim com certeza que o fio partido da espiritualidade portuguesa se reatasse nas suas nobres tradições de clareza, ousadia e livre voo.
Escravos da miséria moral, depois de serem escravos do oiro da Índia, tecera-se pelas mãos de aviltantes cesarismos a grilheta que nos amarrara à mesquinhez, à resignação, à hipocrisia e à futilidade, que são as maneiras de viver do espírito nos povos que deixam morrer a liberdade.
Assim, a decadência espiritual da Nação se arrasta sem esperança, mesmo quando o país é erguido nas suas possibilidades financeiras e no seu poderio militar e naval à altura que o ergueu o Marquês. Passa D. Maria...
E não tarda muito que Junot, à frente de um mísero exército de esfarrapados e exaustos soldados atravessasse triunfante o País e fosse, sem um tiro, arrear dos mastros da Capital a bandeira da nação. Tanto é verdade que o verdadeiro poder dos povos está sobretudo na sua alma!
Esse arrastar penoso da alma aviltada da Nação era tão trágico, que o povo nem sequer dele podia ter a justa e precisa consciência. Só as circunstâncias excepcionais do século XIX, consentindo que o pensamento nacional surgisse no clarão de uma corajosa e gloriosa elite, pôde descerrar a grande treva que cobria o abismo do nosso aviltamento.
Antero de Quental, Oliveira Martins, Ramalho, Eça, Fialho, Junqueiro, Bordalo, entre os mais brilhantes, tais foram os portadores do archote vivo à luz do qual a Nação mediu a miséria do seu destino.
Nunca a burguesia de então lhes perdoou o talento, a coragem e a irreverência com que perturbaram a paz podre em que o país dia a dia mais se enterrava no torpor e na descrença de si próprio, razões que sempre levam os povos à morte sem honra. No entanto, foram as suas duras pedradas no charco pútrido, a sua audácia viril em estilhaçar os velhos ídolos da estagnação, do «lugar comum» e da vaidade ridícula — a sua coragem revolucionária, enfim, de atirar por terra a velha mansarda em que o povo português abafava sem poder ver o vasto céu e o claro sol criador, que abriu novas perspectivas à nação.
E claro que a necessária e impiedosa demolição do velho Estado e da velha sociedade europeia reclamava a contrapartida construtiva e viril que não estava na alçada daquela geração formidável realizar, mas, que, na sua obra gigantesca se contém e implicitamente se determina.
Seja, porém, como fôr e quando quer que essa ação construtiva se inicie na paz, na liberdade e na justiça, o grande facto contemporâneo está na vitória do Espírito, nessa vitória que renova a flor alta da espiritualidade lusíada, erguendo por cima da traição do conformismo, do artificialismo, da miséria burguesa, a nobreza antiga do pensamento português — claro, livre e humaníssimo.
Ausência de vias naturais de comunicação, dificuldade de precisar o seu centro geográfico, problemas religiosos ou de língua, eis outros tantos motivos que, ao criarem particularismos irredutíveis, se opõem à unidade de um povo, ocasionando repetidas e graves crises nacionais.
Portugal teve logo por si o território.
Estreita faixa ao longo do mar, toda sulcada por uma intensa rede de rios e seus afluentes, a que o destino concedeu uma orientação tão favorável como o «Minho», o «Douro», o «Vouga», o «Mondego», o «Zêzere», o «Tejo», — o «Tejo» estrada real, avenida —eixo do sistema — o «Sado», e principalmente o «Guadiana», Portugal encontrou já feitos e perfeitos, os caminhos da sua unidade. Esses caminhos, que abriam o horizonte da terra, demandavam todos o mar e o mar, no seu largo abraço, confirmou para sempre os nossos destinos de Nação una.
Ao facto feliz da nossa unidade ter sido encontrada «naturalmente», junta-se outro de não menos importância —o de não ter sido feita em prejuízo de uma parte do todo. Estas duas circunstâncias explicam assim como se tornou possível, primeiro do que todas as outras nações europeias ribeirinhas do oceano, a nossa aventura ultramarina.
Com efeito, só unidos e livres de qualquer preocupação pelos destinos dessa unidade, nos poderíamos oferecer, como nos oferecemos, às solicitações atlânticas e universais do nosso génio.
Assim, a linha de força da nossa espiritualidade se mostra, desde as origens, claro índice de uma rara unidade nacional, pois que é realizada duas vezes pelo território e pelas leis da comunidade — religião, língua, costumes.
Cristã e «humanista» nos primeiros passos, jamais deixa de se conservar fiel a si própria mesmo quando atinge os mais altos cumes da sua curva, e que, traduzindo a expressão suprema do génio, poderia extraviar-se no orgulho de caminhos diferentes...
Decerto vai longe das trovas em que a língua balbucia apenas ao bronze eterno de Camões, às sonoridades altas de Junqueiro ou às divinas cogitações de Antero. Não importa; variam por certo as densidades, as alturas e as conquistas de técnica, mas nada interrompe a linha privilegiada da nossa emotividade, da nossa sensibilidade, da nossa ternura humana face à dor, à beleza e a todos os fortes anseios que agitam o pobre coração do Homem.
Nasceu, em verdade, sob as bênçãos de um destino humaníssimo o nosso génio. O clima e o solo foram-lhe propícios pelo carácter brando de um e pelas suaves perspectivas do outro.
As leis que regulam a dupla influência do clima e da terra sobre o homem são ainda desconhecidas — é certo — mas bem evidente se torna a relação em que está para o poderoso génio de um Tolstoi, a vasta Rússia gelada e misera, onde o Moujick só encontra na sua Isla o precário refúgio contra os lobos, que as outras feras, os homens, não as detém nenhum sagrado direito, nenhuma garantia moral à porta do seu lar...
A Rússia dos generais e dos Príncipes com almas de criança e de validos com instintos de tigre; a Rússia das pequenas e grandes coisas; das cavalgadas heróicas dos Cossacos e de Sebastopol; da pobre princesa Bolkonsky e da família Rostov.
Clara é também a relação entre um Ibsen e o mistério dessa Escandinávia de quem o «sol se esconde» e onde os homens muitos meses se movem na incerteza da penumbra gelada, enquanto do fundo insondável dos fiords sobe a canção dramática das águas negras mordendo o duro coração da rocha...
Pode dizer-se que o Shakespeare da Lady Machbet e do Hamlet está para as terras e visões do Norte, como Mistral para as claras e doces paisagens do Sul, que o Ródano brandamente rega e o Mediterrâneo eternamente embala.
E assim, enquanto a paisagem de Castela, dura, sangrenta dos barros e misteriosa das serras, afina o génio dramático de Calderon e de Lope de Vega, ou explode nesse estranho Goia inconfundível, a paisagem e o clima lusitanos foram o meio propício do nosso eterno lirismo e do nosso permanente diálogo com a terra —dois altos termos da nossa particular sensibilidade.
A linha de força do nosso espiritualismo surge como uma «constante» evidente. É que a reforçá-la estão todos os dias os milagres de luz e de harmoniosas perspectivas da terra ocidental. Tudo o que nas terras nórdicas sugere visões monstruosas — florestas insondáveis, claridades moribundas, fantasmas de neblina, gritos de gelo nas trevas — tudo o que ali desloca o eixo do pensamento, justificando as exaltações ideais da ficção em prejuízo das serenas regras do raciocínio — todo esse clima, de fantasmagoria e sonho, é aqui varrido pela violência do sol e pela evidência clara e leal de uma natureza simples, de uma natureza que para nós não tem segredos.
Enquanto as gentes do Norte vivem na permanente hostilidade do clima e da natureza, é no clima e na terra que nós encontramos a melhor aliança.
O Norte criou-lhes naturalmente as lendas trágicas, as religiões de pavor e de devastação — um nebuloso Odin e um misterioso Walhala, um mundo de gigantes e anões, abismados num clamor de lutas infernais donde é banido todo o optimismo, toda a esperança, e onde a vida é permanente concepção e derrocada, idealismo e materialismo, entrechocando-se na eterna inquietação metafísica de um mito sem fim...
Pelo contrário, nós que amamos a terra e nela nos comprazemos, dela recebemos uma inspiração estética que não perturba os voos de espírito apoiados na clara razão, antes nos torna impermeáveis, a certa influência das forças telúricas cujo dinamismo por vezes se impõe aos destinos dos povos nórdicos.
Desta maneira é o próprio ruralismo que nos liberta, voltando-nos para o exterior, para a natureza e para a vida, que o sol ilumina todos os dias, de novos coloridos e novas perspectivas, deus benéfico que nos concedeu o dom de um espírito descritivo, colorista e lírico.
Não somos um povo de inquietação metafísica ou de pessimismo heróico. O espírito rural, empírico, minucioso, sereno, afina a análise, reforça o instrumento crítico, simplifica o julgamento.
Raras vezes fomos meditativos. Até o romantismo, nascido no laquismo escocês e nas margens do sombrio Reno, não encontrou em nós o meio propício do mistério das florestas e da neblina das águas. Assim, nas Histórias do pensamento, não se mostram grandes idealistas nem grandes místicos portugueses.
Nem Kant nem Santa Tereza poderiam ser feitos da branda argila lusitana, terra que é tanto oceano como continente, terra fluida, terra marinha por excelência.
Se em Spinoza corre porventura sangue nosso, as veias são-lhe dessa raça de eternos cogitadores, «raça escolhida» para quem o céu se ilumina perspectivamente do fulgor dos próprios sistemas em potência, ideias que incessantemente procuram o apoio de uma terra de promissão que lhes escapa sempre...
Em verdade, na história da nossa espiritualidade, os filósofos são excepções, ao contrário dos teólogos que os temos mestres: Tal regra tem um significado claro. Dentro dos horizontes e dos limites da verdade religiosa, que nós aceitamos, fincamos o pé na terra firme, desdobramos asas e desferimos altos voos. Nunca porém nos tentou a «estratosfera», não revelada e insondável, por onde sopram vendavais sem nenhuma lei e donde mal se avista a terra e todas as realidades que a condicionam...
Quando o cura e o barbeiro de Cervantes vão queimar os livros de D. Quixote, como responsáveis da sua loucura de cavaleiro andante, grande foi a fogueira vingadora. Poetas e prosadores, pequenas e grandes tramas, tudo ardeu num cortejo de condenados de que o próprio «Amadis» escapou por milagre, cortejo que foi alinhando sem piedade para o pátio da excursão com as «gloriosas» Proezas de Esplandiano o farrombante «D. Olivante de Laura, Florismate de Hircania, Cavaleiro Patis, Cavaleiro da Cruz, Espelho de Cavalarias» e outros mais onde «esforçados cavaleiros» gigantes e outras maravilhas de seu tempo corriam na cavalgada maravilhosa dos seus aventurosos destinos...
Mas no juízo sem perdão do temeroso cura fez-se súbito uma pausa. É que surgira um livro que bem merecia as honras de uma exceção: «Palmeirim de Inglaterra».
Guarde-se porém essa palma de Inglaterra —disse o cura —e conserve-se para ela outra caixa como a que achou Alexandre entre os despojos de Dario, a qual reservou para guardar as Obras de Homero.
Este Livro, senhor compadre por duas coisas se fez apreciável: uma é o ser ele em si mesmo muito bom, e outra o ter sido seu Autor um discreto Rei de Portugal, como é constante.
Todas as aventuras do Castelo de Mira Guarda são muito boas, e muito bem inventadas, e cheias de arte; o estilo fácil e puro; seu Autor esmerou-se em conservar o decoro de quem fala com muita «propriedade e siso». Pelo que, a meu ver, Mestre Nicolau, salvo o vosso bom aviso, este e Amadis de Gaula, sejam isentos do fogo e os outros todos sem mais exame morram.
Esta homenagem do génio de Cervantes à «propriedade e siso» da nossa espiritualidade, distinguindo as suas virtudes dentre a tão vasta assembleia reunida na livraria de D. Quixote e em matéria tão naturalmente propícia a desvarios do pensamento, é bem alto testemunho do equilíbrio e feição da nossa personalidade.
Teófilo Braga, estudando em Bernardim Ribeiro este equilíbrio tão diferente do «castelhanismo pomposo e banal», atribui à nossa linha de força do Espírito uma ascendência «pré-romana», que nos liberta totalmente da origem «asturo-lioneza» que nos supusera Herculano.
E, assim, essa linha de força que já vemos tão firme nos portugueses de quinhentos, teria raízes anteriores à formação da nacionalidade, raízes bem fundas senão numa raça, no clima e na terra da costa atlântida da Ibéria. Desta maneira não surpreende a harmonia da curva da nossa espiritualidade clássica.
Em verdade, através da nossa literatura «clássica» se nota sempre o apelo das origens: uma ordem feita de razão, uma regra ordenada em função da clara inteligência das coisas e dos factos.
Mas logo no nosso espírito se mostra a sua tendência universal, debruçando-se tanto quanto se ergueu sobre o coração inquieto dos humanos, para lhes escutar as queixas amorosas as mais profundas, tão cheias de dolente mistério, ou para lhes entender as fraquezas e melancólicas grandezas.
D. Diniz, Garcia de Resende, Bernardim Ribeiro, Couto, João de Barros, Sá de Miranda, António Ferreira, Damião de Gois, Fernão Lopes, Azurara, o grande Gil Vicente, Frei Luís de Sousa, Jacinto Freire de Andrade, Rodrigues Lobo.
Terra e clima. A geografia fez o resto.
A geografia, marcando-nos um destino atlântico rasgou horizontes inéditos à nossa observação e ao nosso engenho, dando-nos logo uma personalidade característica, que depressa deixou de ser europeia para se tornar totalmente universal, isto é, humana.
Vimos, primeiro que ninguém, alongar-se diante dos nossos olhos a infinita costa de África e, para além dos marcos fatais o Cabo Bojador, o Cabo de Boa Esperança; conhecemos o Oriente com as suas riquezas e as suas misérias; desvendámos os segredos dos mares e detivemo-nos, assombrados, perante a grandeza sem par das terras da América e das florestas virgens e silenciosas do Amazonas. Na branda argila da nossa memória imprimiu-se a imagem do Mundo. Costumes, leis, paisagens, conceitos de vida — de tudo trouxemos a impressão forte que nos ultrapassava.
Então, escrevemos o poema da conquista da Terra pelo homem branco. Fizemos os «Lusíadas» e erguemos os Jerónimos.
Éramos os primeiros a quem era revelada a verdadeira grandeza do universo e o significado de uma «Humanidade» total que o habitava.
O equilíbrio natural do nosso temperamento a que o espírito do Evangelho exaltava as virtudes fez-nos não sentir o nosso orgulho de raça, frente às outras raças. E, assim, a descoberta e conquista da Terra pelos portugueses inscreveu-se na História com o significado de uma mensagem espiritual do mundo novo aos povos que, para além do mar, jaziam na treva primitiva, ou nos escombros de civilizações mortas.
Foi assim que as naus em que demandámos a glória da Descoberta desembarcaram um dia apóstolos e mártires do Espírito Novo. A linha de força da espiritualidade portuguesa renovou-se então nessas terras distantes pela pujança vigorosa de um Vieira ou de um Bernardes... Mas o fio da nossa espiritualidade não pode resistir ao desastre da nossa queda. A traição mercantilista, desviando-nos, do eixo da nossa vocação, arrastara o país pelo caminho da grande miragem em que o nosso equilíbrio natural
se perdeu.
Vamos a Marrocos com o desígnio de chamar a nós as caravanas do Oriente. Depois dobramos, ansiosos, a linha da costa africana escondendo mal a nossa decepção de não encontrarmos as riquezas que procurávamos. Por um momento hesitamos, ante o desenrolar de tanta ânsia inútil... D. João II proclama, porém, a «boa esperança», e certo dia chegámos à Índia. O vento que levava as caravelas não era todavia já só o de dilatação de fé e do império, como nos primeiros anos, nas primeiras horas em que nos debruçamos sobre o mar, com o coração puro de cavaleiros... Agora vinhamos no encanto das especiarias, das pedras preciosas, do marfim e do oiro. Não tardou muito que essa «vã cubiça, nos fizesse esquecer os destinos da Nação, perdidos na farândola dos apetites e da megalomania desenfreada que nos assaltara».
Então ganhou-nos o desvario sem remédio.
As virtudes e aptidões naturais foram substituídas por ambições e impulsos desordenados e estéreis. A terra, abandonada, denudara-se em charneca bravia, as indústrias eram esmagadas pelo comércio europeu que nos invadia ao assalto das riquezas que aceitávamos do Oriente.
Todas as classes se irmanavam no anseio da perdição.
O povo corria dos campos para embarcar na grande aventura. A fidalguia renegava todo o equilíbrio que lhe podia emprestar as regras da sua tradição. A burguesia esquecia aquela linha móvel, rude mas incorruptível, que a fizera outrora base segura da resistência nacional em todas as horas de crise. —Tudo enfim se deixara ganhar pela traição da riqueza. Uma só intenção movia os portugueses: o desejo de ostentação, a ânsia do luxo e da parada deslumbrante, sem os forçosos limites que impõem as preocupações do futuro e a sua ameaça...
Tínhamo-nos lançado na conquista do Mundo não para alargar sobre ele os cuidados da nossa herdade, o nosso conceito moral de civilização, a nossa tradição humaníssima. Demudados pela ganância, tornámo-nos avassaladores dos mares, mercadores sem escrúpulos, dissolutos, para quem o vasto mundo interessava apenas pela sôfrega traição de o explorar, de colher nele tudo quanto nele houvesse para alimentar a fogueira sensual e desordenada do nosso egoísmo.
Já ninguém descortinava o caminho de uma missão portuguesa na terra. Os «fumos da Índia» entenebreciam-nos o horizonte para além das aparatosas cavalgadas do Rossio e dos estonteantes bazares da Rua Nova... A Rua Nova... era a velha rua, a eterna rua por onde se perdem os povos tocados da traição do oiro.
Estávamos apodrecidos. O espírito heróico era recordação perdida no tempo, de que apenas os ingénuos podiam lembrar-se; o orgulho nacional uma lenda épica que só «quixotes» invocariam e o próprio sentido cristão que inspira os anseios da raça, degenerara em delírio religioso dissolvente dos caracteres, agora corruptos, da nossa virilidade antiga.
A febre mercantilista fizera perder-se a consciência nacional dos portugueses. A traição burguesa tornara-os maduros para todos os jugos.
Não tardavam os Filipes...
A curva da nossa evolução espiritual mudara de sentido.
Os «Lusíadas», que abriam no clamor estridente de trombetas e no rufar heróico de tambores, fecham no momento amargo de uma prece que é também a expressão dorida de uma queixa.
D. João III... Entramos em plena noite, na longa noite de crise que ainda dura.
D. Jerónimo Osório e o grande Vieira são ainda duas estrelas vivas, a brilhar no céu pejado de mil estrelas; mas daqui em diante já não somos mais o que deveríamos ser por nós próprios, como elos lógicos da cadeia gloriosa que se partira. Ou nos voltamos para o passado a fim de viver apenas da lembrança do que fomos ou nos debruçamos para o exterior, a colher nos gestos e nas ideias dos estranhos aquilo que já não sabíamos encontrar no génio nacional.
Por isso, para além dos Filipes, a decadência não fez mais do que acentuar-se. Não é D. João V, com a sua megalomania monstruosa, desperdiçando os milhões do Brasil em puro benefício do seu povo; nem o colbertismo do Marquês, com a sua Real Mesa Censória e o seu Tribunal da Inconfidência, devassando cartas e consciências, perseguindo quantos ousavam erguer uma personalidade que chocasse a sua vaidade de tirano sem limites; nem tampouco seriam os sombrios tempos de D. Maria I e de D. João VI, com Pina Manique debruçado sobre os caixotes na Alfândega, a vasculhar e queimar os livros que vinham de França, com D. Francisco Manuel exilado, Bocage na cadeia, o abade Correia da Serra, o Duque de Lafões e o Padre António Pereira de Figueiredo sob o olho vigilante dos esbirros— e lograram assim com certeza que o fio partido da espiritualidade portuguesa se reatasse nas suas nobres tradições de clareza, ousadia e livre voo.
Escravos da miséria moral, depois de serem escravos do oiro da Índia, tecera-se pelas mãos de aviltantes cesarismos a grilheta que nos amarrara à mesquinhez, à resignação, à hipocrisia e à futilidade, que são as maneiras de viver do espírito nos povos que deixam morrer a liberdade.
Assim, a decadência espiritual da Nação se arrasta sem esperança, mesmo quando o país é erguido nas suas possibilidades financeiras e no seu poderio militar e naval à altura que o ergueu o Marquês. Passa D. Maria...
E não tarda muito que Junot, à frente de um mísero exército de esfarrapados e exaustos soldados atravessasse triunfante o País e fosse, sem um tiro, arrear dos mastros da Capital a bandeira da nação. Tanto é verdade que o verdadeiro poder dos povos está sobretudo na sua alma!
Esse arrastar penoso da alma aviltada da Nação era tão trágico, que o povo nem sequer dele podia ter a justa e precisa consciência. Só as circunstâncias excepcionais do século XIX, consentindo que o pensamento nacional surgisse no clarão de uma corajosa e gloriosa elite, pôde descerrar a grande treva que cobria o abismo do nosso aviltamento.
Antero de Quental, Oliveira Martins, Ramalho, Eça, Fialho, Junqueiro, Bordalo, entre os mais brilhantes, tais foram os portadores do archote vivo à luz do qual a Nação mediu a miséria do seu destino.
Nunca a burguesia de então lhes perdoou o talento, a coragem e a irreverência com que perturbaram a paz podre em que o país dia a dia mais se enterrava no torpor e na descrença de si próprio, razões que sempre levam os povos à morte sem honra. No entanto, foram as suas duras pedradas no charco pútrido, a sua audácia viril em estilhaçar os velhos ídolos da estagnação, do «lugar comum» e da vaidade ridícula — a sua coragem revolucionária, enfim, de atirar por terra a velha mansarda em que o povo português abafava sem poder ver o vasto céu e o claro sol criador, que abriu novas perspectivas à nação.
E claro que a necessária e impiedosa demolição do velho Estado e da velha sociedade europeia reclamava a contrapartida construtiva e viril que não estava na alçada daquela geração formidável realizar, mas, que, na sua obra gigantesca se contém e implicitamente se determina.
Seja, porém, como fôr e quando quer que essa ação construtiva se inicie na paz, na liberdade e na justiça, o grande facto contemporâneo está na vitória do Espírito, nessa vitória que renova a flor alta da espiritualidade lusíada, erguendo por cima da traição do conformismo, do artificialismo, da miséria burguesa, a nobreza antiga do pensamento português — claro, livre e humaníssimo.
Cap. I - A Traição burguesa nos caminhos da história
- A IDADE MÉDIA
- A IDADE MODERNA
- A REVOLUÇÃO FRANCESA
Cap. II - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- A TERRA
Cap. III - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- A AVENTURA
Cap. IV - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- O ESPÍRITO
- A TRAGÉDIA DA "UNIDADE"
Cap. V - A traição burguesa e as suas alianças
Cap. VI - A traição dos mitos
Cap. VII - Talassocracia
Cap. VIII - No alto da colina
Cap. IX - Caminhos de Esperança
- A IDADE MÉDIA
- A IDADE MODERNA
- A REVOLUÇÃO FRANCESA
Cap. II - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- A TERRA
Cap. III - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- A AVENTURA
Cap. IV - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- O ESPÍRITO
- A TRAGÉDIA DA "UNIDADE"
Cap. V - A traição burguesa e as suas alianças
Cap. VI - A traição dos mitos
Cap. VII - Talassocracia
Cap. VIII - No alto da colina
Cap. IX - Caminhos de Esperança
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