ESTUDOS PORTUGUESES
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        • I. A origem e a natureza da realeza tradicional portuguesa
        • II. O caráter orgânico e democrático da monarquia medieval portuguesa
        • III. A formação das instituições representativas e o papel das Cortes
        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
        • VIII. O Absolutismo, o Pombalismo e a Reação Tradicionalista
        • IX. A Legitimidade Dinástica e Institucional na História Portuguesa
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1945 - Rolão Preto - A Traição Burguesa

CAPÍTULO VII

​TALASSOCRACIA
RESUMO
A Talassocracia surge aqui não como poder do mar, mas como liga obscura e dominante de interesses burgueses, feita de simulação, prudência, lucro e cumplicidade. Ela atravessa religiões, partidos, empresas, universidades, imprensa e salões, sobrevivendo a todos os regimes porque em todos sabe disfarçar-se e servir-se. Consagra os prudentes, os filhos de nomes ilustres, os medíocres manejáveis e os presidentes natos de todas as coisas; não procura o mérito livre, mas a utilidade obediente. Contra ela, toda a inteligência que vê, todo o carácter que resiste, todo o homem que não abdica, se torna perigoso. O capítulo denuncia ainda a embriaguez do mando, capaz de transformar a simplicidade em vaidade e a bondade em dureza, e dela tira uma advertência severa aos totalitários e estatistas: quem engrandece o Poder, sonhando um Estado indiscutível, esquece a pobre argila humana a que entrega os destinos alheios. Daí também a sátira amarga aos democratas-cristãos que, fiéis de toda a vida a certas palavras e princípios, aceitam fazer-se totalitários, encontrando depois razões prudentes, sinceras e magoadas para a própria sem-razão. No fim, a ordem burguesa aparece como paz sombria: uma tranquilidade comprada pelo esmagamento dos pequenos, pela condenação dos independentes e pela crescente separação entre homens que, tendo hoje mais meios para fazer o bem, mais desconfiam, mais se ferem e mais se afastam.
 ​

CAPÍTULO VII
 
TALASSOCRACIA

A palavra grega «talassa» [1] que, como o leitor sabe, significa o «mar» entrou na história política contemporânea nacional, apenas como uma adejante e um pouco pedantesca expressão de historicismo ao serviço de uma manifestação política dos portugueses no Brasil.
 
Entrou chocando com o seu estranho som, a que deveu o sucesso, mas logo tomou definitivo assento na nossa terminologia política, designando primeiro os amigos de João Franco, depois os monárquicos e por fim os reacionários de todas os matizes.
 
Hoje é, sem contestação, o sinónimo vivo de traição: traição burguesa do oiro, traição política e traição religiosa.
«Talassa» é a realização deste paradoxo: não é nada e é tudo.
 
O «Talassa» pode ser monárquico e pode ser republicano, católico ou ateu, conservador ou jacobino... Uma coisa nele é fundamental: a camouflage. A camouflage com que lhe é possível infiltrar-se em todas as empresas, em todas as situações políticas e em todas as religiões.
 
Assim, a Talassocracia, não quer dizer a soberania portuguesa no mar, nem com ela se invoca a hegemonia de Atenas, a da liga Acaia ou da liga Etólia...
 
É, contudo, uma liga e representa em verdade uma hegemonia indiscutível. A liga de quantos conciliam as atitudes mais antagónicas exteriorizadas na religião ou na política para se associarem em empresas bancárias, industriais, comerciais e mesmo políticas — todas as empresas em que uma regra predomine: simulação; em que um ideal a mande: o lucro.
 
Liga temerosa que se não prende com escrúpulos nem teve jamais que suspender o seu caminho, na linha sinuosa dos interesses, por se mostrar sensível às solicitações da solidariedade humana, na linha reta dos deveres do Homem... Liga forte que vive e perdura sobre as suas poderosas posições, seja qual for o signo «dos tempos»; na paz e na guerra, com a República ou com César, com Deus ou com Satanás triunfante.
 
Liga «sábia» que atentamente prepara os tempos e para isso possui a Imprensa, liquida ou exalta os que escrevem, comanda na Universidade o espírito e na sociedade os costumes; liga «augusta» que em todas as engrenagens se mostra entronizada nos «ilustres», nos «consagrados», nos «grandes», e, para isso, os prepara nas assembleias gerais e nos bastidores da política e os lança no «Tauromáquico», no «Turf» ou ao «ouvido de madame X»... Os prepara e os apoia com todo o poder de que dispõe e que é feito de todas as traições do oiro, da política e das sacristias.
 
Uma das primeiras condições para merecer a consagração da liga, para se ser falado, lançado e por fim ouvido é ter nascido prudente.
 
Prudência quer dizer conformismo.
 
Ninguém lhe pede que acredite, mas exige-se-lhe que aceite.
 
No Club pode rir-se da Igreja ou pôr em dúvida o dogma, contanto que não se esqueça de ir à missa.
 
Pode-se em teoria ser monárquico, mas isso não impede que na prática se sirva a república e dela se recebam proventos e honrarias. A religião, a política, a arte de viver, tudo são maneiras de chegar, ainda que se tenha de concordar com o que se reputa absurdo, erguer o que se deseja abater, aceitar o que estruturalmente lhe repugna.
 
Outra forma de merecer «boa reputação», de se ser naturalmente competente, insigne e próprio para o bom lugar, está em ser-se filho de «ilustre Pai».
 
Nada, com efeito, para ter a nostalgia da Monarquia como uma República, nada para invocar costumes aristocratas como uma burguesia democrata.
 
«Filho de Algo»... ou mais burguesmente «Fils à papa», eis a chave de grandes enigmas, a explicação heráldica de largas ascensões sem motor...
 
- Como atingiu, aquele, tão alta culminância? Nunca se dera nem pelo seu valor espiritual nem pela sua coragem, antes, sempre se mostrara medíocre, ignaro e pandilha, em todos os atos da sua vida. Ei-lo, porém no pináculo de uma poderosa empresa, no alto de um grande e inacessível «lugar», vendo-nos passar, cá em baixo, humildes e rastejantes vermes da terra. Todo o segredo deste imprevisto e assombroso triunfo ficaria porventura indecifrável aos olhos dos contemporâneos se o talismã que se encerra na certidão de baptismo destes prodígios tivesse também o condão de os livrar das quedas desastrosas em que os estatela, por vezes, a petulância e incapacidade de mentecaptos, feitos deuses... por graça divina da fama do Pai.
 
Mas eis, agora, este, que o sol da glória aureola de súbito fulgor.
 
Que fez ele para que tantos se curvem perante a sua fama? Um livro, um sistema, um tratado? Além da sua fortuna pessoal, nenhum mérito próprio de relevo se conhece que lhe tenha podido servir de alavanca com que se guindasse assim tão alto no conceito das turbas.
 
Glória «dirigida?»
 
De um portento desses que tem sacudido por terras de Espanha o pó glorioso dos seus sapatos de grande Bonzo, quis-se um dia saber o que pensava um alto espírito do país vizinho.
 
— Desde que o conheço — respondeu ele muito surpreendido da pregunta — só uma coisa lhe tem crescido... os pés!
 
Criando por interesse próprio os seus «valores», e, mantendo-os na fama de seus grandes dotes e ilustres feitos, a «Talassocracia» adoptou métodos e concebeu tipos definitivos que lhe retratam as intenções de casta sempre atenta no caminho do seu interesse.
 
E, assim, quanto à competência, ela elege os seus expoentes não em função do saber técnico da experiência, ou das provas de real valor da sua capacidade natural - mas sim na medida que lhes dá a possibilidade de serem amoldados, conduzidos, aproveitados em determinado sentido.
 
Daí, a fórmula bem conhecida, que, já tanto sucesso teve na Democracia parlamentar e que já noutros regimes não logrou ser corrigida, fórmula de fama e de proveito universal, cujos termos podem variar na generalidade, mas cujo conceito se resume, segundo Benoist, desta maneira: seja quem for, é bom, em toda a parte, para tudo o que se quiser...
 
Assim vai o mundo...
 
Este senhor tem hoje um lugar de comando em coisas que parecem denotar conhecimentos de coisas do mar; pois não deve causar estranheza que ele surja amanhã conduzindo destinos da lavoura do trigo; aquele já foi sucessivamente tudo: especializado em assistência e técnico em armamentos, ouvido em conservas de peixe e orientador em Belas Artes, perito em matéria Colonial e pontífice em problemas de ensino, ei-lo que... volta agora ao princípio do seu círculo de glória perante a mesma admiração de uns e os mesmos louvores doutros. Em toda a parte servindo com zelo e sabedoria, em toda a parte o homem próprio no próprio lugar.
 
Desta maneira singular se criam os grandes valores que à burguesia aproveitam. À força de se verem passar as letras luminosas dos seus nomes e só dos deles— outros não toleram no écran da sua imprensa a «talassocracia» soberana — como não há-de o vulgo acreditar que só aqueles foram eleitos pelos deuses, fadados pelos destinos? Tanto mais que a regra é esta: mostra um sujeito a sua incompetência em dado lugar, mas no dia em que se demitir sobe de posto, ou, pelo menos, de ordenado, noutro lugar que já o esperava, para a recompensa...
 
Aqui nasce, cresce e se torna de essência eterna, o Presidente nato de todas as coisas, esse outro alto símbolo, tipo característico da vida social em círculo estreito de amizades e interesses coligados —o Presidente que todas as associações escolhem, o juiz indispensável de todas as confrarias, o nome ilustre lembrado cada dia onde quer que se debatam interesses ou seja necessário apadrinhar manigâncias, o mesmo que já o senhor Melchior de Vogue no seu Les Morts qui parlent nos mostrou na sua última presidência na eça mortuária da igreja da Madalena, «aquele grande Duputel presidente da Câmara, antigo presidente do Conselho, presidente honorário da Sociedade universal das naftas e petróleos, presidente efetivo da União Geral dos funcionários republicanos, membro do Instituto, e o resto... de que não restava nada». Assim a Burguesia escolhe os que lhe fazem conta e os consagra. Mas só esses. Que admiração se esses que ela escolhe e tão arbitrariamente investe de honras e poderio, se mostram tantas vezes indignos da sorte que os fadou?
 
A «vã cobiça» cega-os. Duas ordens de sentimentos absorventes e contraditórias lhe sopram e incham o orgulho de senhores de acaso: uma pessimista e amarga, e refere-se aos que estão «por baixo», aqueles que a vara do seu mando tem de orientar e conduzir; a outra é optimista e consolante e dirige-se beneficamente a eles próprios e à sua própria posição.
 
Pode haver porventura mais desconcertante espetáculo do que aquele que a seus olhos superiores oferece a miséria dos que «por baixo» ficam? Aventureiros, desonestos, desordeiros, incompetentes, invejosos e inúteis...
 
Que seria deles se o zelo, a prudência, o saber supremo, a virtude máxima, a máxima isenção não velassem no coração e no espírito dos que estão por cima?
 
Também, com que constância e com que necessária dureza o mando tem de se exercer para que o mundo dos inferiores entre nos eixos!
 
Assim pensam aqueles a quem a traição burguesa entregou uma posição e criou um espírito. «Mandar»... eis o grande verbo criador que arrasta os mundos pelo vasto espaço sideral e os homens na louca farândola das suas maiores vaidades, exaltando-as, multiplicando-lhes a vontade, transmutando-lhe a própria essência!... Mandar seja como for, custe o que custar e como puder ser — eis o supremo objeto de todo o vilão feito senhor. A mais pequena partícula de «poder» caindo por distração dos Deuses na mão do mísero, e, logo, o seu coração se entumece do prazer supremo, deixando para trás, na poeira distante do olvido e da ingratidão, as melhores camaradagens e os mais antigos amigos.
 
Pegue-se num daqueles simbólicos companheiros de tertúlia, cuja obra o grande Fialho resumiu um dia «em vinte e cinco cartas a pedir vinte e cinco tostões emprestados em cada uma». Pegue-se num desses «amigos» cuja companhia temos assegurada com um jantar ou um simples café que se lhes pague no botequim — e faça-se o homem, mais não é preciso, do que secretário de ministro...
 
Oh! a glória com que ele subirá as escadas do seu ministério, a bela distância que ele saberá pôr entre nós e a sua grandeza, o jeito novo que ele dará ao colarinho e às atitudes, e, o desprezo com que nos fará esperar à porta do seu gabinete! De um simples padre de aldeia serrana, tocado do mau espírito do mando, se conta esta confissão de ingénuo sabor mas de bem simbólico sabor.
 
- Agora, quando passo nas ruas da minha aldeia — diz o reverendo muito a sério — sinto na verdade que sou o poder. Sou o Presidente da Junta de Freguesia, o Presidente da Casa do Povo, aquele que distribui o racionamento, e o meu sacristão é o regedor...
 
Assim, aquele modesto pároco, outrora homem simples, bom amigo e razoável coração, agora que tem na mão umas migalhas de mando que lhe granjeiam uma clientela e lhe dão motivo para dispor de certos favores, se sente já diferente do que era: pessoa de importância. Sujeito impertinente... Este pequeno facto, cuja puerilidade poderá fazer rir, encobre, contudo, um significado amargo que convida a meditar com tristeza.
 
Tal é a pobre essência humana, que, basta que sobre ela sopre o vento de um mandarinato, por mínimo que seja, para que nela surjam os germes que lhe alteram o sentido, demudando a simplicidade em ostentação, a bondade em secura, a nobreza em vilania.
 
Oh! totalitários, oh! sonhadores, imprudentes do Estado indiscutível, oh! estatistas que esqueceis as liberdades sagradas, aí tendes a massa elementar, a argila humana com que edificar a torre de menagem da Justiça e os muros fortes da cidade futura. Se um pobre padre, simples serrano, por demais ainda tocado de alguma graça cristã, assim se torna «imperador» da sua aldeia pela graça dos «papéis» da Junta de Freguesia, da Casa do Povo e das senhas do racionamento, se um mísero de entre nós, os míseros, assim sente de súbito insuflar-lhe o peito um sopro de orgulho só à ideia de que nas suas mãos pode estar um instante dos destinos alheios - pensai um pouco no que irá por esse mundo... se entregarmos totalmente, seja a quem for, os nossos próprios destinos.
 
Que a vossa sabedoria multiplique sucessivamente pelas crescentes possibilidades dos diversos graus de hierarquia social, política e económica de um país, as mínimas razões que ao padre serrano incharam o peito e considerareis por certo como será arriscado e perigoso entregar-se essas sagradas e frágeis coisas do nosso destino à mercê arbitrária e desapiedada dos altos e desenfreados tufões que sopram no abismo insondável do orgulho humano.
 
Quantas das misérias que no círculo estreito dos nossos passos e das nossas amizades contemplamos com ternura e dó, merecem que sobre elas se debruce a inquietação compassiva de altas posições? Quantos dos erros que o Código frio e os juízes distantes castigam com dureza e que nós estamos em melhor posição de resolver?
 
Cuidado, portanto, devem ter quantos engrandecem o Poder, não os esmague um dia a mão a quem deram a força.
Talvez que o cálculo de muitos que desejam um Estado indiscutível e de poder ilimitado esteja na suposição de que esse Estado virá um dia a ser nas suas próprias mãos a forte vara da justiça... Mas quem poderá dizer com segurança como e a favor de quem se vão pronunciar os Deuses na noite gloriosa... Todos os imprevistos têm a sua probabilidade quando se trata de golpes de força, e, por vezes, é o mais improvável mesmo que consegue a aprovação dos destinos. Se essa vara da Justiça for cair nas mãos de quem não for digno dela, quem poderá livrar das suas tremendas consequências aqueles que de boa fé erraram o seu cálculo de bem governar um dia com o forte instrumento que ajudaram a forjar... para os outros.
 
Dir-se-á porventura que os outros a quem o acaso dá o poder, não tendo criado o próprio instrumento de que se servem mostrarão em breve a sua incompetência se os não assaltar antes o escrúpulo da contradição em que têm de viver. Em qualquer caso, serão varridos...
 
Varridos... O Poder é coisa magnífica, talismã de maravilha que enfeitiça quem prova dos seus deleites infindáveis. Voluntariamente ninguém sai de uma posição de onde a paisagem é tão doce e bela de descortinar. Cair é sempre desagradável, mormente quando se sabe que se cai para nunca mais se levantar. Nesse ponto, eram menos exigentes os que serviram com regimes parlamentares, pois lhes restava sempre a esperança de voltar outra vez.
 
Nos regimes de força, ó totalitários, quando se cai, é definitivo, e, por isso, eles se seguram bem, aqueles que a sorte uma vez bafejou.
 
Quanto ao remorso que nasce de uma consciência onde se trava luta entre as ideias que sempre a inspiraram e as realidades com que está atuando para no Poder se segurar - poucas esperanças a História nos ensina a pôr nele. Sempre se acaba por encontrar a maneira de conciliar o pensamento antigo com a ação presente, quanto mais não seja varrendo a sombra do remorso com a claridade pura das intenções...
 
Não foi isto que se viu já em todos os sistemas e em todas as épocas?
 
Não sabemos nós de democratas-cristãos de toda a vida que aceitaram fazer-se totalitários, dando-nos ainda por cima as razões da sua sem-razão, «sinceramente», magoadamente, sábios e prudentes como Salomão?...
 
O Poder tudo justifica porque ele tem sempre uma razão superior: é o mais forte.
 
Eis pois a Burguesia escolhendo os «seus», elegendo e guindando os que lhe convém. As regras fixa-as ela, o caminho marca-o a sua sabedoria. Ai, porém, daquele que não aceita conformar-se aos rails em que a Burguesia torna obrigatória a marcha—o seu conceito de vida, a sua moral social, a sua «prudência».
 
O drama que se desenrola, porém em silêncio no coração ou no espírito dos insatisfeitos, dos que sofrem, dos que anseiam para além das regras da prudência burguesa, passa desapercebido dentro dos muros da Talassocracia.
 
Quando muito, esse drama angustiante, é o signo de um desequilíbrio moral de quantos ele agita ou comove.
 
Espírito «equilibrado», inteligência «útil», isto significa uma hábil concordância de todos os instantes entre a vida e as imposições da sua época, seja qual for a injustiça que as prescreva. Todas as vezes porém que a inteligência se escusa a uma obediência que é permanente abdicação da razão e da dignidade dos sentimentos, todas as vezes que a inteligência ousa ir até ao fim na lógica das verdades políticas, económicas e sociais, tirando corajosamente todas as justas ilações dos próprios postulados burgueses que fundamentam a ética do seu tempo mas são a viva contradição entre os «Princípios» e a realidade dura - todas as vezes que à inteligência repugna deixar de ver - então a condenação da Burguesia cai sobre ela, impiedosa. Esta é em seu conceito uma inteligência perigosa. Como perigosa é para ela, todo o carácter que seja carácter, toda a coerência que seja coerência, todo o homem que seja verdadeiramente homem.
 
- Muito inteligente, culto, valente, muito bom rapaz, mas muito perigoso...
 
Tal é a fórmula com que a Burguesia afasta do seu caminho aqueles que não sabem pôr à pureza das convicções, à espontaneidade dos sentimentos e à sinceridade dos gestos o limite do seu próprio interesse.
 
—Por que não aceita aquele o bom lugar que lhe oferecem? Quer endireitar o mundo? Fazia bem melhor que reparasse na situação que a sua intransigência lhe cria e à família.
 
A propósito de Silva Lisboa, o violento panfletário que incorreu nas iras do Ministério Público - ó doces tempos em que as coisas se passavam assim—pelos seus ataques ao Chefe do Estado, cita Ramalho a censura de um burguês de então, perfeito documento do pensamento eterno da burguesia:
 
- «Silva Lisboa - dizia-me um lojista do Chiado—é um homem de bem, sério, e que não precisava de se meter nesta dança, porque tem de seu. A sua família é a dos primeiros cutileiros de Lisboa; a sua oficina é excelente e acreditadíssima.
 
Porque é que ele não faz tesouras e canivetes, como seu pai e seu irmão? Porque é tolo.
 
Dizem que escreve bem! Pois então que escreva em termos e com propósito!
 
Eu sou um homem pacato, não tenho partido, ocupo-me do meu ramo de negócio e embirro com esse género de descomposturas. Se eu fosse juiz desterrava-o para toda a vida. Quer descompor, descomponha nas costas de África!
 
Tem a sua casa e tem o seu ofício, olhe pelo que já tem e deixe-se de palermices! E asno, vá ser asno para o diabo que o leve!... Nós cá não estamos em país de guerras nem de birras estamos em pais de paz, e o que queremos é paz, união e sossego. Os que não estão satisfeitos, Costa de África com eles, que é para acabar com as questões! Basta de asneiras. Esta, meu caro senhor, é a minha opinião.»
 
Assim ela julga os sacrifícios que se fazem pela honra de uma atitude, assim ela considera a linha moral dos que não se vendem, mesmo quando isso lhes mataria a fome e a fome dos seus!
 
É que a Burguesia não procura valores nem lhe interessa proporcionar condições em que eles se possam criar. Os valores humanos de alto quilate moral perturbam-na e amedrontam-na a ela que só precisa e procura encontrar cúmplices.
 
Cumplicidade na ganância, na abdicação por interesse, na traição por egoísmo.
 
Eis porque todo o gesto de independência significa um atentado contra a segurança da Talassocracia. Um espírito independente é um espírito rebelde às leis da selva, onde as grandes feras, só porque são grandes, podem esmagar a seu belo prazer os pequenos animais indefesos, a contento complacente de todos.
 
Sobre o rebelde cai toda a execração das manadas e - paradoxo amargo — não só das manadas dos que esmagam como daquelas mesmo que são esmagadas.
 
E preciso em primeiro lugar que reine a «paz». Paz dura e sombria na sombria floresta onde por vezes se ergue o lancinante grito do pobre bicho nas garras do leão, ou se sente o tropel inquieto do rebanho que procura na fuga esquivar-se à ronda implacável do lobo... Mas a paz apesar de tudo. A paz por que é a ordem, essa ordem burguesa que tem o sinónimo linear e claro da «tranquilidade», que em «ordem» se esquece todas as verdadeiras desordens que se ocultam na sombra das horas em que o mundo forçadamente repousa, e, tantas confusões e desequilíbrios que provocam certos «homens de ordem» à força de a quererem perpetuar, contra os imperativos de vida que em todos os tempos promovem e mantém a marcha do mundo. Mas é a ordem, triunfo fatal de uns e o sacrifício fatal doutros.
 
Nesta fórmula cabe todo um mundo com leis próprias e destinos expressos, que ninguém deve perturbar na sua marcha equilibrada e segura. Um mundo em que os limites da bondade e da solidariedade humanas se restringem cada vez mais nesta hora amarga, como os de uma estreita «terra de ninguém» que separa o fogo incessante e duro das forças da ambição e da conquista, que entre si disputam a posse do desolado coração do homem. Mundo estranho, em que os contatos entre humanos têm o que quer que seja de dramático e agressivo, perdida a nobreza das atitudes e a franca lealdade dos pensamentos por temor de todas as traições e realidades brutais que condicionam a vida, expressas no cinismo de fórmulas matemáticas, em função do tempo e do dinheiro.
 
Tal é o mundo da Talassocracia, paradoxo gritante de uma época em que, sendo maiores do que nunca as possibilidades dos homens fazerem o bem, dos homens encontrarem motivos que inspiram amizades, é exatamente quando mais mal fazem, mais desconfiam e mais uns dos outros se afastam.

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[1] Foi em 1907, em plena ditadura franquista, que a palavra «Talassa» surgiu com significado político em Portugal. Numa mensagem da colónia portuguesa do Rio, ao ditador, querendo significar o entusiasmo com que ele era visto e a sua obra, comparava-o solenemente aquilo que os soldados de Xenofonte, na famosa retirada dos 10,000, sentiram ao avistar, do alto do monte Tegua, o vasto mar, o elemento helénico por excelência, a salvação...
Como eles, à vista de «redenção», os admiradores de João Franco traduziam o seu clamor de esperança por uma palavra forte, que era a mesma dos gregos, pois que era também o mar largo e livre de escolhos que parecia surgir para a nau portuguesa do Estado, que tanto tempo parecera encalhada e em perigo...


Cap. I - A Traição burguesa nos caminhos da história
​- A IDADE MÉDIA
​- A IDADE MODERNA
​- A REVOLUÇÃO FRANCESA
 

Cap. II - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
​- A TERRA


Cap. III - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
​- A AVENTURA


Cap. IV - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
​- O ESPÍRITO
- A TRAGÉDIA DA "UNIDADE"


Cap. V - A traição burguesa e as suas alianças


Cap. VI - A traição dos mitos


Cap. VII - Talassocracia


Cap. VIII - No alto da colina


​Cap. IX - Caminhos de Esperança


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​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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