ESTUDOS PORTUGUESES
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1945 - Rolão Preto - A Traição Burguesa

CAPÍTULO V

A Traição burguesa e as suas alianças ​

RESUMO
​No dia em que a Burguesia atraiçoou o seu passado comunal e popular, começou para ela o horror à palavra Revolução. Aterrada pelo advento do Homem-massa e pela pressão dos convivas vindos dos quatro cantos do povo, correu a fazer com o nacionalismo a sua aliança: disfarçou-se com as suas cores, invadiu-lhe os quadros e dominou-lhe os destinos. Assim se perdeu, pouco a pouco, o clima heroico, o entusiasmo criador, a fé nas ideias e nos homens; e, em seu lugar, entrou o clima burguês — manobrador, ganancioso, açambarcador — corroendo organizações, contaminando consciências, apagando a confiança e quebrando os impulsos da Revolução. Foi esta a sorte do Fascismo e do Nacional-socialismo. Nascidos como formas ocidentais da Revolução, com fórmulas antiburguesas, anticapitalistas, de justiça social, de Estado sindical e de nova ordem solidarista e humana, acabaram vencidos pela aliança burguesa. Mussolini, que parecera levantar uma mística nacionalista e equacionar o problema social italiano, deixou que o trambolho sórdido dessa aliança lhe amolecesse a vontade e o lançasse na aventura imperial; Hitler, que fizera vibrar no povo alemão a fé nova da justiça e da comunidade, aceitou também o conselho maquiavélico da Burguesia, esmagou a ala social do seu partido e entregou a Revolução à revanche, aos armamentos, ao mito imperial e à guerra. O resultado foi a amarga decepção das primeiras horas: em vez do Estado forte para garantir liberdades e justiça, surgiu o Estado máquina de guerra, regime de burocracia infinita, discricionário e totalitário, o “Estado «monólogo» em que só uma voz e sempre a mesma é a única que se ergue”, Estado plutocrata, explorador, corruptor dos homens e inimigo de toda a diversidade criadora. A aliança burguesa foi, assim, fatal aos fascismos: nas suas mãos, os chefes que começaram na glória de Paladinos acabaram na tragédia de Tiranos, e a Revolução, traída, cedeu lugar ao supremo triunfo burguês do Poder.


​CAPÍTULO V


A Traição burguesa e as suas alianças 
No dia em que a Burguesia começou a atraiçoar o seu passado comunal e popular, ao sopro do qual ainda deu alguns grandes dias à Revolução Francesa — começou para ela o seu horror à palavra Revolução. É certo que, no seu fundo íntimo se conservou por muito tempo num como que saudosismo doutras épocas em que ela era a primeira a erguer a bandeira das liberdades e das reivindicações do comum. Soava-lhe nos ouvidos, por vezes, o clamor heroico das turbas que ela agitara e conduzira pelos duros caminhos da revolta contra a tirania de feudos ou de Príncipes. Tudo, porém, se concertara para ser pura literatura, atitude espiritual onde se não moviam discriminadamente gérmenes de ação, propósitos sinceros de se empregar a fundo na batalha. O vento da ficção e do exagero romântico, um dia que soprou mais violento, conseguiu por fim atiçar nas brasas submersas de tanta cinza morta, uma flama ativa que foi 1848, a queda da Monarquia de Julho, vinda no fourgon da intervenção estrangeira, e, por isso nascida já condenada, com a entronização de Luís Filipe, o rei excelente, o rei gordo e bonacheirão da Burguesia triunfante.
 
O nosso 5 de Outubro foi também uma revolta romântica, com comícios na praça pública, largas gravatas à Lavalière, «compridas guedelhas e ideias curtas», e, aonde passam ainda «carbonários» — bons rapazes que todos conheciam, mas, que teimavam em mover-se embuçados nas trevas dramáticas das vielas...
 
António José de Almeida que o bronze de certo escultor imobilizou numa feliz interpretação das suas atitudes tribunícias de paladino popular — de pé, os cabelos revoltos ondeando ao vento, que o seu próprio verbo desencadeava; o seu gesto, a sua figura, tudo bem aberto e virado para o exterior, face à turba, sem nenhuma reserva íntima, todo oferecido à esperança ingénua dos que o escutavam — eis bem fixada na História a imagem do gesto romântico que derrubou a Monarquia em 1910. É a última revolução com êxito que o romantismo inspira a uma burguesia.
 
Kerensky tenta, é verdade, em 1917, dar à Revolução Russa um impulso no mesmo sentido. Depressa, porém, teve de reconhecer como os tempos o haviam já ultrapassado e como era bem diferente o signo sob o qual os burgueses conduziam a ação depois que o burguês Sorel ensinara a filosofia da violência. O romantismo de Kerensky fizera-lhe perder o lance. O Poder pertencia agora a burgueses duros, como os de 89, mas sob o acicate de massas populares que o clima burguês tocara e desumanizara.
 
Desde o fracasso de Kerensky, a burguesia passa a já não gostar da palavra «Revolução». O banquete da vida, bem provido pelas possibilidades da civilização e da técnica do nosso tempo, era coisa reservada pelos «deuses» só para seu apetite e prazer. Cada vez mais, porém, chegavam os convivas vindos dos quatro cantos do povo, que possibilidades económicas novas iam de proletarizando. Por fim o Homem-massa, como justamente o define Ortega e Gasset, surgia como uma ameaça de tudo submeter sob o seu volume e a sua fome desenfreada de séculos.
 
A Revolução, nesta altura, para quê? A Revolução só viria aumentar a pressão desse homem-massa, precipitar desequilíbrios, acelerar a liquidação de uma época que fora a sua época, de um tempo que fora o do apogeu burguês.
 
Assim, quando o «nacionalismo» surgiu dos escombros da primeira grande guerra com os seus métodos fortes e o seu pregão revolucionário, a primeira reação da Burguesia foi de hostilidade e afastamento de gente tão intempestiva e desorientada...
 
Eis, porém, que o nacionalismo alcança étapes decisivas. Por toda a parte a sua Revolução incute esperanças, cria clima de possibilidades.
 
Então, a Burguesia corre a fazer com o nacionalismo a sua aliança. Joga a sua carta, disfarça-se com as suas cores, invade-lhe os quadros — domina-lhe, enfim, os destinos.
 
Depressa essa manobra de traição burguesa mostraria, por muitas partes, os seus frutos naturais. O entusiasmo criador, caiu por importuno; os combatentes da primeira hora, aqueles que poriam na execução de qualquer serviço o ardor de uma missão e o anseio particular de ver triunfar a doutrina pela qual se bateram, foram afastados por ardorosos ([1]), e, substituídos pelo «não te rales» de quantos acudiam na hora do rancho, gente «sensata» para quem o sucesso de uma organização se traduzia sobretudo no bom ordenado que lhes caía do céu.
 
Pouco a pouco, em vários países ([2]), o clima burguês, — manobrador, ganancioso, açambarcador, — numa palavra o clima de traição contra o qual se erguera a Revolução «nacionalista», se foi substituindo ao clima heroico, ao clima entusiasta de que saem os milagres de isenção, sacrifício e espírito criador, contaminando tudo, corroendo os homens e as engrenagens, as melhores engrenagens e os homens mais puros.
 
Decerto, um homem tal que Mussolini teria verificado bem depressa, como, à semelhança do que se verificava no regime democrata, também no seu regime «alguma coisa havia que não marchava mais...». O trambolho sórdido, o travão sinistro, a úlcera maldita, estavam na sua aliança com a traição burguesa. Mas essa traição enlaça, perturba o julgamento, obscurece a consciência, parte os impulsos. Mesmo quando se tenta reagir, é batalha inútil. Como a pieuvre monstruosa do grande Hugo, por cada braço decepado em duro combate, outros e erguia vigoroso, alucinante, a embaraçar a vítima.
 
Tentar reagir... é fácil pensá-lo. Reagir, porém, supõe um ato de fé, e a primeira coisa que o clima de traição burguesa apaga é exatamente a fé. A fé nas ideias, nos homens, nos próprios destinos da Nação. Reagir, supõe ainda um ato de confiança em si próprio; mas é essa confiança sagrada e inabalável, com a qual todos os prodígios se alcançam, que a traição maléfica corrói, desviriliza, liquida.
 
Dentro desse clima pessimista ou cético, tudo se torna vão e inútil, a não ser o que diretamente parece interessar à satisfação das próprias ambições, quando não à simples conservação da própria posição alcançada. Vistos por este prisma deformador todos os homens cá por baixo se revelam incompetentes, loucos e desonestos, todos os «sistemas» surgem impotentes e absurdos; todas as «ideias» explodem ao choque das realidades naturais, como brilhantes, mas efémeras bolas de sabão contra um muro.
 
Para que então agir, modificar, corrigir, lutar duro? Não vale a pena...
 
Deixe-se correr o tempo enquanto aos «deuses» aprouver a monção.
 
Assim os tempos correm e com eles vai correndo a cavalgada ululante dos apetites, dos lucros, das megalomanias desenfreadas. Ao cabo surge a catástrofe.
 
Oh! As alianças da traição burguesa...
 
Quando Mussolini surge - proclamando a sua vontade revolucionária de equacionar e resolver o problema social italiano sobre a base segura de uma equitativa distribuição de riquezas -, todos aqueles que viviam a inquietação do seu tempo encararam a tentativa com curiosidade e mesmo com esperança.
 
Mussolini vinha do socialismo e bebera, antes, na origem, nas fontes do anarquismo. Eram as melhores bases para procurar a fórmula que marcasse à Comunidade deveres para com o Homem e ao Homem deveres para com a Comunidade.
 
Os primeiros passos do Fascismo são os ensaios sinceros de uma aventura heroica que se propunha erguer a comunidade nacional italiana a um pedestal de grandeza e de justiça social que a colocaria na vanguarda dos povos europeus.
 
O que Mussolini ainda consegue realizar no plano material - escolas, estradas, monumentos, riqueza hidroelétrica, transformação dos pântanos em fecundas terras, marinha mercante e armada, desenvolvimento colonial etc. — o que Mussolini consegue neste plano é, em verdade, vasta e indiscutível obra. Mas indiscutível é infelizmente também a falência da sua obra de justiça social, obra começada sob tão rasgadas intenções.
 
É que, a entravar-lhe os passos, a amolecer-lhe a vontade, a mudar-lhe os próprios propósitos, surgiu logo, para dia a dia acentuar o peso do seu comando e os malefícios do seu clima, a aliança da traição burguesa.
 
Talvez até que o chefe do Fáscio, ao marchar sobre Roma já o não fizesse livre de compromissos... Chegaria ele ao Poder, ao menos naquela altura, sem as cumplicidades burguesas que lhe aplanaram o caminho?
 
O certo é que, travada a batalha, o capitalismo burguês, que de começo vira nas atitudes irrequietas e inconformistas de Mussolini motivo forte de desconfiança e hostilidade— passa de súbito a apoiá-lo. É um «cheque» da «Fiat» que financia as coortes dos «arditi» na sua luta de morte para assegurar uma ordem que a decomposição burguesa não conseguia manter.
 
A aliança burguesa começa então e jamais deixa de influir nos destinos, torneando, pactuando, inflamando apetites, desarmando protestos, — conduzindo tudo para a megalomania, a ânsia das riquezas, o instinto do poderio sem limites nem fiscalização, fosse de quem fosse.
 
Tendo aceitado a Monarquia, fizera de facto do Rei um títere ameaçando-o com a República, se este se permitisse discordar das suas vontades.
 
Desconfiando das atitudes do Príncipe herdeiro a seu respeito, vai ele até ao ponto de alterar as leis da sucessão dinástica, pondo nas mãos do Grande Conselho Fascista a oportuna escolha do sucessor.
 
O espírito de traição burguesa com os seus ardis, as suas soberbas e as suas infinitas ambições, penetra, pouco e pouco, mas seguramente, os homens e as organizações, manchando, desorientando, arrastando ao sorvedouro onde tudo se perde: nobreza de alma, gentileza de sentimentos, grandeza de ideais.
 
Mussolini aceita ser o «Duce». O chefe de uma revolta Popular aceita ser Sila, protetor de uma «ordem» de casta, o triunfo implacável, o orgulho frio do imperante. Matteoti caiu... A Revolução tornara-se baluarte burguês, garantia do statu quo dos satisfeitos.
 
O Fascismo, aliado da Burguesia, perdera o seu verdadeiro sentido. Para se manter só tinha um caminho que o espírito burguês inspira a todos os orgulhos... A guerra.
 
Foi a guerra! Primeiro a da Abissínia, onde ainda sopra um último vento de tempestade revolucionária para a Europa, onde ainda Mussolini encontra os acentos fortes do seu clamor de filho do povo; depois a mísera Albânia e, por fim, a França prostrada.
 
Pobre Duce! As traições que o espírito burguês lhe segredara levaram-no pelo plano inclinado de um orgulho imenso ao temeroso calvário da sua morte trágica, da sua revoltante morte.
 
Aquele que alteara o peito frente às multidões, para as inflamar com a sua fé e conduzir com o seu ardor de revolucionário por todos os caminhos da glória; aquele que ensinara à Europa descrente, uma «mística nacionalista»; aquele que fez brilhar por momentos aos olhos do mundo a miragem de uma justiça triunfante — esse homem superior onde tantas vezes explodem clarões do génio romano e estoira o trovão dos césares — eis um grande exemplo do destino que as alianças burguesas proporcionam a quantos nelas confiam para nelas se perderem...
 
E assim também, com Hitler. O chefe do nacional-socialismo alemão que era na verdade senão uma forte vontade, um espírito revolucionário arrebatado, uma fé inquebrantável - tudo posto, ao serviço da comunidade alemã e da justiça social que ela reclamava?
 
Ei-lo lançado na grande fogueira da propaganda, sacudindo até ao fundo das entranhas, a consciência dos adormecidos; insuflando uma alma nova aos céticos e um fervor novo aos cobardes ou abatidos pela derrota nacional; sobretudo, ei-lo semeando a grande seara revolucionária ao anseio da nova era de justiça social.
 
Eis a Revolução em marcha.
 
De duas formas totais de apreciar o problema da justiça no mundo - Hitler é uma.
 
A Nação acorda, aclama-o, elege-o na praça pública, elegendo nele, no seu verbo iluminado, a sua eterna esperança sempre pronta a florir em novos anseios.
 
Frente a Hidenburg e aos partidos burgueses reunidos todos em sua volta no temor do tremendo assalto revolucionário — o nacional-socialismo reúne 19 milhões de votos no ostracismo da oposição. Das ruas sobe até ao palácio do velho marechal o cântico religioso de uma fé nova do povo alemão. A Burguesia inquieta reage ainda...
 
Um dia, porém, a Burguesia cede. Os caminhos aplanam-se. Alguém segreda ao ouvido do velho chefe, o conselho que tudo decide. Pela mão de Von Papen, Hitler sobe as escadas da Chancelaria. Pela mesma mão se atava uma nova aliança: a aliança da Burguesia com o Nazismo. No Olimpo, Maquiavel sorria... A Burguesia mudara de tertoce.
 
Duas tendências, duas linhas de força fundamentais percorriam o campo nacional-socialista: a febre da revanchee o anseio de justiça. Para neutralizar uma, a Burguesia apoiou a outra.
 
Não tardou, assim, que a crise surgisse no seio do Partido. Nessa conjetura dramática Hitler vê-se obrigado a escolher: esmagar a ala esquerda, a ala social, ou ser ele esmagado pelas forças de conservação e de nacionalismo estreme. Poderia ainda ter abandonado o Poder livremente e tentar refazer na oposição a unidade do partido, perdendo o que se perdesse, mas salvando a sua projeção revolucionária no futuro. Mas o Poder é filtro mágico que altera a visão e engana o julgamento. Do alto dessa colina que tanto custa a galgar, os homens que ficam cá por baixo dificilmente são visíveis na sua pobre miséria de formigas... Cria-se um clima que favorece e exalta a confiança em si próprio, ao mesmo tempo que se vão com pessimismo e descrença os outros. De um modo geral, para o Poder, a natureza humana tem, uma amarga essência. Ao «poder» compete, pois, «uma missão», a missão superior de «salvar» os homens por todas as maneiras, mesmo as legais, como dizia Maurras.
 
Esta consciência de uma missão segreda ao Poder um natural desprezo pelas oposições. Podem eles ter também uma missão? Serão mesmo suscetíveis de ter ideias justas?
 
Com que ironia profunda os homens dos governos atiram aos homens das oposições o epíteto de «salvadores». Concebe-se que possa haver outro critério de «salvação do que aquela que os Deuses inspiram aos seus eleitos?
 
O exercício do poder com as glórias, as honrarias e os proveitos adrede, cria uma corrupção própria a que um rei ou aristocrata pode por vezes resistir, mas que a Burguesia não domina. Assim, o que todas as vantagens e todas as cumplicidades segredam aos governantes é sobretudo: durar. Durar, manter-se, continuar. Eles saberão em tempo oportuno equacionar e resolver todos os problemas, corrigir todos os defeitos, retificar os enganos. De resto se eles o não fizerem, eles que têm todos os elementos de informação, toda a ciência certa, toda a competência e toda a força, quem poderá então fazê-lo, ó néscios, ó imprudentes, ó míseros?
 
Os governantes o que precisam é, pois, de durar e os governados paciência para esperar.
 
Panaït Istrati conta, que, uma vez, encontrou na alma compadecida de uma senhora de alta estirpe e não menos dominadora fortuna o desejo que parecia sincero de o fazer desviar do seu caminho violento de revolucionário. Então a boa dama, fez destilar perante os ouvidos atentos do seu interlocutor, todos aqueles sábios argumentos que constituem a gama variada da paciência, da resignação e da esperança que é de uso apelidar de cristãs.
 
Ao cabo, quando se preparava, a santa senhora, para colher daquela boca precita a confissão de um novo estado de espírito de doce remissão aos destinos, eis o que satanicamente lhe responde Istrati...
 
- O minha excelente senhora, como tudo isso é magnífico. Somente há uma coisa que lhe esqueceu. É que enquanto a senhora para me dizer essas coisas adoráveis se senta, como todas as senhoras da sua classe, num bom fauteuil bem cómodo, não repara que eu e os da minha pobre qualidade estamos aqui penosamente sentados com o assento em cima de umas brasas...
 
Eis, porém, Hitler face a face com a traição burguesa e acabando por lhe aceitar o maquiavélico conselho.
 
Desde então a sorte estava lançada.
 
Os ideais, as amizades, as camaradagens — tudo isso tinha que ser sacrificado «à missão» de Hitler, missão que a sua «estrela» protegeria com resplandecente segurança... Roehm e alguns dos fervorosos nacionais-socialistas como êle, caem no seu sangue, tôda a ala esquerda do partido oferecida em holocausto à aliança burguesa... O Dr. Schacht presidindo às finanças do III Reich... A corrida dos armamentos, a obsessão do Tratado de Versailles e Dantzig, os lugares-comuns de um chauvinismo exaltante... A raça superior. Os melhores bobards científicos de Gobineau e Chamberlain — o Dolicocéfalo loiro... o homem perfeito, o povo escolhido - Herr Wolk...
 
Sucumbem então os Sudetas, liquida-se a Áustria, esmaga-se a Tcheco-Eslováquia, e, por fim, era fatal, a.… guerra. A grande ilusão de Carlos Magno, Carlos V, Napoleão, Guilherme II e do III Reich: —a unidade da Europa, a miragem de uma ressurreição do Império Romano centro do mundo...
 
Decerto, um vivo clima heróico, uma porta mística nacionalista imperial agitam um momento o povo alemão erguendo-o às culminâncias da História, na bravura, na unidade e na grandeza moral, com que soube sofrer batalhas e cair de pé no lance supremo; de resto ainda, a orgânica social e política, as conquistas no Trabalho, na Técnica e na Assistência, os limites postos à ambição latifundiária dos Junkers — decerto, isto é uma obra que merecerá ser considerada pela História na hora em que serenamente ela puder fazer o seu julgamento.
 
Mas nem os clarões estupendos da mística nacionalista, nem as poderosas projeções sociais do esforço nazista podem fazer esquecer o que o nazismo representa de deceção para a esperança revolucionária que fizera nascer no mundo o nacional-socialismo.
 
Conquistar um mundo, organizando e armando espiritual e materialmente todo um vasto povo —foi um alto sonho e significou um duro esforço. A Revolução tem, porém, outros direitos e outras armas. E, eis, porque, se para a Alemanha superpovoada havia o imperativo de graves problemas face a um mundo que ela encontrou todo ocupado, nem por isso para a consciência revolucionária deixam de subsistir as razões de uma condenação inexorável.
 
Para a conquista da terra, não haverá, com efeito, outra maneira além da violência das armas, ó revolucionários?...
 
A palavra foi, porém, dita: deceção. O seu sabor amargo penetra demasiado a consciência de quantos sinceramente sentiram o alvoroço das primeiras horas em que Mussolini e Hitler ergueram na praça pública o seu clamor revolucionário, para que bem mereça ser meditada.
 
Vão longe, na corrida louca do nosso tempo, as ansiedades e as febris interrogações a que o fascismo e o nacional-socialismo deram então um corpo e um sentido forte.
 
Saíra-se de uma tremenda guerra que fazia ruir um velho mundo, milhões de homens tinham sofrido e batalhado duro e regressavam agora a seus lares trazendo no peito a angústia da inutilidade das suas dores e do seu esforço. Luta de hegemonias, batalha de imperialismos, ruínas vãs...
 
Para que se vivera na lama das trincheiras, se marchara oferecendo o pobre corpo à crueza das balas assassinas? para que se perderam lugares e vidas, arrasariam cidades e talariam campos — se toda a inquietação de justiça, todo o anseio de transformação do mundo para além da catástrofe visionada em noites de vigília dolorosa, se mostrava agora ter sido fumo inútil de inútil sonho?
 
Foi então que soprou sobre o tempo o vento fresco e salutar da Revolução resgatadora.
 
No oriente o comunismo mostrava o seu perfil ousado, no Ocidente, erguiam-se alterosas as ondas renovadoras dos fascismos.
 
Homens livres, ou cuja mais ardente aspiração era a liberdade na sua expressão espiritual e económica. — Homens livres, os homens do Ocidente dificilmente poderiam amar regimes em que a liberdade estivesse totalmente em jogo.
 
Por isso, a forma ocidental da Revolução — o apoio do Homem na comunidade —nação, grupo económico, família — para melhor conquistar a possibilidade do seu desenvolvimento espiritual e material, mereceram a adesão de quantos almejavam por uma nova ordem, ordem solidarista e humana.
 
O clamor que se ergue nas praças públicas da Itália e mais tarde nas da Alemanha, traduzia o aplauso popular destes povos pelas fórmulas em que os novos chefes lhe interpretaram os anseios.
 
Fórmulas anti burguesas.
 
Fórmulas anticapitalistas.
 
Fórmulas que proclamavam os direitos sindicais de todos os trabalhadores.
 
Fórmulas que reclamavam uma mais equitativa distribuição da riqueza.
 
Fórmulas que davam ao homem maiores garantias de justiça contra os abusos dos poderosos, fosse qual fosse o signo do seu poder.
 
Fórmulas de ruptura com o passado e fórmulas de novos caminhos para um mundo melhor.
 
Se a batalha se travava sob a inspiração desta bandeira, como não havia ela de mobilizar as sinceridades e os entusiasmos da geração saída da guerra e que a guerra fizera com a instintiva esperança numa mudança dos destinos?...
 
Assim, sejam quais forem as responsabilidades por que Mussolini e Hitler tenham que responder perante a História dos seus povos — outras igualmente graves eles assumiram perante a Revolução.

Com as primeiras, só têm italianos e alemães, mas, as outras, dizem respeito a todos os que na Revolução põem as suas esperanças.
 
Não há, portanto, que considerar deselegância ou crueza no julgamento, que, um puro pensamento revolucionário haja de fazer da obra fascista ou nazista plano dos interesses sagrados da Revolução.
 
Ora, em verdade, a Revolução é completamente estranha à aventura imperial de Mussolini como à aventura imperialista de Hitler. Uma e outra poderiam ter resultado benéficas para a Itália ou para a Alemanha, tal qual como lhe foram fatais. O facto é evidente, porém, e nele está o aspeto amargo da decepção que estas aventuras representam para um verdadeiro espírito revolucionário, o facto indiscutível é que elas redundaram pura e simplesmente em aventuras imperiais.
 
Tudo foi conduzido, condicionado ou inspirado por esta intenção. Tudo foi oferecido, sacrificado, ou condicionado para esta resultante.
 
O Estado, as organizações, os homens e as coisas, tudo foi considerado apenas, ou foi considerado principalmente, em função de certa aspiração suprema: uma maior Itália, uma maior Alemanha.
 
Repete-se, ainda que para estes dois povos o problema poderia merecer ser equacionado em função de tal incógnita. Para a Revolução, porém, equacioná-lo assim é obstar às soluções que dele se esperavam.
 
Estado forte para garantia das liberdades perdidas no clima de licença e de corrupção plutocratas eis o que proclamavam na oposição o fascismo e o nacional-socialismo. Estado forte para assegurar hegemonias nacionais, tal foi a realidade da sua ação verificada no Poder.
 
Para que se realizasse o pregão das propagandas, impunha-se: o esmagamento da alta finança e a solução do problema do crédito em proveito das possibilidades económicas de todos; o Estado sindical, para que desaparecesse a tirania dos que exploram sobre os que são explorados; o Estado representativo, justo fiel da liberdade e da espontaneidade de todos os valores e tendências populares.
 
Que se viu então?
 
Viu-se um Estado máquina de guerra, regime de burocracia infinita, engrenagem fria e discricionária dentro da qual se assegurou o status quo da injustiça sem recurso, da opressão sem resistência, da abdicação sem esperança.
 
Estado «monólogo» em que só uma voz e sempre a mesma é a única que se ergue e a única que tem razão para se erguer; Estado indiscutível e que nunca se pode enganar; Estado plutocrata e que se apoia em plutocratas; Estado explorador e que consente que outros explorem também; Estado unidade que liquida toda a diversidade criadora, toda a independência rectificante.
 
Estado que fez apelo aos vícios e às fraquezas do Homem — interesse, ganância, delação, adulação, servilismo — corrompendo-o para melhor o dominar e conduzir; Estado que não aceita colaboradores, mas só criados; Estado, enfim, que repele os homens de carácter, pois só deseja cúmplices.
 
Traição burguesa!
 
Pois que é na verdade esse tal regime senão o supremo triunfo de um conceito burguês de Poder, sem os limites que consegue impor o clamor de uma opinião pública, o conselho de uma tradição, ou os escrúpulos de uma sensibilidade aristocrata?
 
Não surgem aqui bem manifestas as naturais características de um regime oligárquico — tais como a burguesia as criou no caminho da História?
 
É indiscutível! A aliança burguesa foi fatal aos fascismos. Nas mãos da sua traição subtil, mas invencível, os chefes da Itália e da Alemanha esqueceram que tinham começado na glória de Paladinos e vieram assim acabar na tragédia de Tiranos.
 
 
*
 
 
Tiranos sim, mas com que grandeza eles afirmaram sempre a sua envergadura de homens.
 
E, como viveram, sofreram e caíram sob o seu sonho imperial, enfrentando nobremente a batalha tal qual eles eram, com as suas qualidades e com os seus defeitos, arriscando tudo, jogando sem disfarces a sua temerária cartada!
 
Vencidos, ninguém poderá dizer com justiça que eles jamais se ocultaram atrás da simulação de fórmulas de dúplice sentido com que outros pensaram poder iludir o veredictum da História. Marcha ascensional, mas retilínea. Logo na conquista da posição inicial há combate e há risco e não manobra oculta e sem perigo para se aproveitarem do esforço e do risco alheio. Qualquer dos dois ditadores sofreu na sua carne, a prisão e as balas, antes que, a glória do Poder os bafejasse.
 
Na sua vida de incessante luta há megalomanias e gestos heroicos, tirania e violência, temeridades e sonhos vãos — mas não há nunca a prudente «sabedoria» da maromba e da sornice, como meio seguro e prático de conquistar ou manter posições.
 
Agentes catalíticos da História era inútil que eles se não mostrassem sinceros. Eram-no com efeito.
 
Os atos arrebatados, mas de frente! As palavras, direta expressão das suas intenções. Ao seu regime de força nunca chamaram ordem cristã; à sua tirania nunca deram o título de liberdade; ao seu desprezo pela pessoa humana nunca emprestavam fórmulas de aparência democrata.
 
A imprensa não era livre — todos o sabiam; o direito de reunião não existia — era conhecido; os atos eleitorais não eram fiscalizados pela oposição, porque as oposições não podiam votar — era um facto. Todavia, nunca eles chamaram a este sistema o melhor sistema para a liberdade humana.
 
Na franqueza dos seus desígnios, todos voltados para a hegemonia dos seus povos e para a luta, há assim uma averiguada nobreza de atitudes, a qual, mesmo condenando os objetivos que levaram os Ditadores a criar apenas uma poderosa máquina de guerra, terá de ser considerada com justiça. Ao pé dela, a miséria de certas camouflages com que outros escondem da História o que são para melhor atingir o que desejam, parece bem desprezível.
 
Caídos como soldados junto à bandeira do seu sonho, morrendo na angústia de vencidos, mas morrendo na glória da batalha que eles procuraram, a sua queda pode, nesta hora de violência, não aplacar todo o ódio dos contrários, mas tomará por certo, para a consciência serena dos vindouros, as proporções grandiosas de um exemplo alto de virilidade humana.
 
Verificá-lo é não só justiça essencial, como imperativo dever diante de tanto desertor, de tanto trânsfuga, de tanta capitulação sem honra, de tanta abdicação por interesse, tanta miséria por traição... Assim, os cadáveres dos dois Ditadores caídos no próprio sangue da sua tragédia, ascendem rapidamente ao limbo misterioso dos mitos. Mitos que evocam um grande sonho desfeito, que é no fundo esse eterno sonho humano de aventura e de grandeza, essa estranha loucura que Denis de Rougemont averigua, como sendo «la nécessité vitale et créatrice des grands délires qui rythment notre Histoire».
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[1] Um ano depois da vitória «nacionalista» em Espanha, preguntando eu em várias cidades do país vizinho pelos nomes mais conhecidos da Falange dos tempos da guerra civil—raros, verifiquei ainda estarem ao serviço da nação. Por toda a parte os «novos nacionalistas» tinham ocupado as posições dos que se tinham batido.

[2] Um italiano ilustre, engenheiro e antigo funcionário do Estado, de passagem em Lisboa, contava há tempos, com serena melancolia, como presenciara a mudança dos tempos no seu país desde o começo da revolução fascista.
No princípio os dirigentes, qualquer que fosse a sua posição, mostravam-se atentos, vigilantes, honestos e compreensíveis. Só depois veio a loucura, a negligência, o abuso, a corrupção, a ânsia de uma riqueza pessoal tão desvairada, tão abundantemente ilimitada que tudo se perdeu... eles e a Itália.


​Cap. I - A Traição burguesa nos caminhos da história
​- A IDADE MÉDIA
​- A IDADE MODERNA
​- A REVOLUÇÃO FRANCESA
 

Cap. II - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
​- A TERRA


Cap. III - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
​- A AVENTURA


Cap. IV - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
​- O ESPÍRITO
- A TRAGÉDIA DA "UNIDADE"


Cap. V - A traição burguesa e as suas alianças
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Cap. VI - A traição dos mitos

Cap. VII - Talassocracia

Cap. VIII - No alto da colina

Cap. IX - Caminhos de Esperança

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​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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