Francisco Rolão Preto - A Traição Burguesa - 1945
CAPÍTULO III
A traição burguesa e as linhas de força nacionais
A traição burguesa e as linhas de força nacionais
RESUMO
Vem de longe, na alma portuguesa, esta linha de força que se chama aventura. Não é capricho de ocasião, nem simples ímpeto de povos inquietos: é antes uma constante profunda do nosso temperamento histórico, uma chama interior que, através dos séculos, nos impeliu a vencer cálculos, prudências, desalentos e fatalidades. Desde a fundação do Reino, conquistado em marchas ousadas e lances quase impossíveis, até à expansão marítima, a história nacional aparece marcada por esse impulso criador que prefere o risco à resignação, a esperança à comodidade, a honra ao repouso.
A aventura é, assim, Valdevez e Ourique, Aljubarrota e a ala dos Namorados; é o mar imenso das Descobertas, onde a ciência e a técnica não bastariam se lhes faltasse a fé ardente dos navegadores; é Albuquerque no Oriente, Mouzinho e Couceiro em África, Gago Coutinho e Sacadura Cabral no céu atlântico. Em cada época, sob diverso signo, a mesma vocação se renova: ora heróica e luminosa, ora trágica e sangrenta, mas sempre afirmando no português uma capacidade singular de se ultrapassar a si próprio diante do perigo e do impossível.
Nem sempre, porém, essa força se conservou pura. Por vezes, o espírito mercantilista, a prudência burguesa, o interesse e o cálculo vieram amortecer-lhe o fulgor, desviando energias, esterilizando sacrifícios e servindo-se do povo para fins menores. Ainda assim, mesmo nos períodos de decadência ou confusão, a aventura ressurgiu como protesto moral contra a apatia, como afirmação de dignidade nacional e como sinal de que a Nação não perdera a sua íntima capacidade de combate, de fé e de sacrifício.
O capítulo interpreta, pois, a história portuguesa à luz dessa vocação audaciosa e viril. Contra o pessimismo dos que julgam extinta a antiga grandeza, afirma-se que permanece viva, nas elites e na arraia miúda, uma energia capaz de reacender destinos. A aventura surge como uma das grandes linhas de força nacionais: não apenas gesto temerário, mas impulso moral, confiança interior, orgulho e fidelidade ao ideal. Enquanto essa chama subsistir, Portugal não será povo vencido, mas Nação ainda capaz de se renovar pelo risco, pela honra e pelo sacrifício.
A aventura é, assim, Valdevez e Ourique, Aljubarrota e a ala dos Namorados; é o mar imenso das Descobertas, onde a ciência e a técnica não bastariam se lhes faltasse a fé ardente dos navegadores; é Albuquerque no Oriente, Mouzinho e Couceiro em África, Gago Coutinho e Sacadura Cabral no céu atlântico. Em cada época, sob diverso signo, a mesma vocação se renova: ora heróica e luminosa, ora trágica e sangrenta, mas sempre afirmando no português uma capacidade singular de se ultrapassar a si próprio diante do perigo e do impossível.
Nem sempre, porém, essa força se conservou pura. Por vezes, o espírito mercantilista, a prudência burguesa, o interesse e o cálculo vieram amortecer-lhe o fulgor, desviando energias, esterilizando sacrifícios e servindo-se do povo para fins menores. Ainda assim, mesmo nos períodos de decadência ou confusão, a aventura ressurgiu como protesto moral contra a apatia, como afirmação de dignidade nacional e como sinal de que a Nação não perdera a sua íntima capacidade de combate, de fé e de sacrifício.
O capítulo interpreta, pois, a história portuguesa à luz dessa vocação audaciosa e viril. Contra o pessimismo dos que julgam extinta a antiga grandeza, afirma-se que permanece viva, nas elites e na arraia miúda, uma energia capaz de reacender destinos. A aventura surge como uma das grandes linhas de força nacionais: não apenas gesto temerário, mas impulso moral, confiança interior, orgulho e fidelidade ao ideal. Enquanto essa chama subsistir, Portugal não será povo vencido, mas Nação ainda capaz de se renovar pelo risco, pela honra e pelo sacrifício.
A AVENTURA
VEM de longe, das origens, a nossa vocação aventureira. É uma linha de força que nasce à raiz do sangue dos próprios fundadores.
O Conde D. Henrique é o aventureiro medievo que veio à cata da fortuna e da glória em seu cavalo de guerra coberto de ferro, os olhos fitos no sonho de um belo destino ocidental através da Península até às praias atlânticas. Aventura é Valdevez e é Ourique-aventura o próprio Reino conquistado, palmo a palmo, em marchas imprevistas na surpresa da noite, em fossados temerários na traição de serras e charnecas...
Aventura a independência e a luta contra as Espanhas. Aventura o Condestável, a ala dos Namorados e Aljubarrota — Aljubarrota, a aventura suprema!
Tudo condenava perante os cálculos do «bom senso», da «previsto», da «prudência», semelhante audácia. O Reino em grande parte nas mãos do castelhano. O país dividido, porque dividida a influência e a força da fidalguia em parte ganha ao invasor. Santarém com Castela, Sintra com Castela, os caminhos de Lisboa abertos... Como não teriam de ser sinistras as vozes dos Conselheiros do Rei, no Alardo de Tomar mostrando a «loucura» dos que queriam dar combate ao invasor, já de antemão tão claramente vitorioso, com as suas inumeráveis coortes, para o tão reduzido exército que se lhe podia opor —a «experiência», a «ponderação» e «justa reflexão» do Conselho Real indicavam com segurança o único caminho viável — a fuga do Rei... E o Rei teria fugido e tudo se teria perdido, por certo, se ao bom senso e à previsão refletida daqueles que a prudência raramente deixa rasgar novos caminhos, não se tivesse oposto a louca rebeldia, a absurda audácia de Nun'Álvares. Graças a ela, esta aventura torna-se a maior e mais brilhante façanha da nossa história militar.
*
Toda a nossa marcha imperial é feita de clamores de Aventura. «Navegadores» e «aventureiros» são, para o nosso povo, sinónimos confessos. Decerto, no plano das Descobertas, uma averiguada presunção científica, uma margem de certeza obtida em seguras fontes — um método e valores técnicos e inegáveis. No entanto, quanto não restava ainda ao valor individual conseguir, para que se traduzisse numa
confiança, que era sobretudo esperança em uma convicção realizadora.
Os roteiros, que lhes assinalava o génio do Infante em pergaminhos iluminados, tinham uma contrapartida temerosa e cheia de incógnitas — o vasto mar povoado de lendas sombrias, os duros e incertos ventos, as alterosas e desapiedadas vagas... Entre «mar e céu», semanas e meses afastados da «terra cara», servir-se do Astrolábio tem importância; saber onde permanece o Norte tem evidentemente interesse; mas tudo seria vão se a chama interior que iluminava o seu sonho de glórias lhe não rasgasse incessantemente as cerrações trágicas — desanimo, incerteza, cansaço — em que se engolfava hora a hora, instante a instante, a frágil proa das caravelas.
Todo o simbolismo da nossa aventura marítima está no gesto, lendário ou verdadeiro, do Gama, que em momento de apuro solenemente atira ao mar aparelhos e papéis náuticos clamando:
O piloto é Deus!
Aventura, aventura...
Ó glória de mandar, ó vã cobiça!
Aventura, alta febre lusitana que abrasa por um momento o vasto Oriente, desde as terras negras de Mombaça, Sofala e Zanzibar e das bocas do Mar Vermelho ao Golfo Pérsico; de Ormuz a Goa; de Malabar a Malaca e às Molucas; de Samatra aos incertos mares da China e ao misterioso e distante Japão. Sonho sem par de Albuquerque, o maior de todos os lusos que saíram do Tejo em demanda de grandeza e fama.
Aventura grandiosa e sonora, essa que se inscreve no próprio título dos Reis de Portugal, título que enche a História com acentos imperiais nunca encontrados, onde passam grandezas oceânicas e terras que tomam, de lado a lado, o vasto Mundo.
*
Caravelas de esperança, naus de inquietação, a que o próprio sopro de ansiedade humana enfunava as velas na vertigem de chegar mais cedo... A atracão magnética das terras exóticas, regiões de maravilha, fascinação dos sentidos, terras onde homens, animais e plantas são a permanente surpresa dos olhos e dos ouvidos; florestas sem fim cujo mistério esconde doces fontes e aves de oiro; paragens estranhas em que o ar se perfuma do cheiro de especiarias e a tentação das riquezas espreita a cada canto na avidez da nossa miséria...
Aventura... Ânsia de encontrar novas terras e, o que é mais, novas estrelas...
- Linha de força poderosa e tantas vezes decisiva no renovamento incessante de todas as solicitações com que nos leva a «ação» e nos ajuda a ultrapassar deceções e sacrifícios, confiantes. O espírito de aventura projeta-se vincadamente nas atitudes individuais e coletivas dos portugueses, revelando-se sempre fonte de otimismos generosos, impulso indomável de vontades criadoras.
É ela que explica a História Nacional em tantos lances imprevistos e em tantos momentos sem saída — inspiração inesgotável de chefes e de soldados.
Decerto, a «aventura» conduz por vezes a desequilíbrios nefastos ou é servida por visões imperfeitas, quando não é contrariada por circunstâncias imprevistas. Assim a aventura pode ser Alcácer-Quibir e D. Sebastião.
Mas é sempre a sua virtude criadora, interesse que produz milagres necessários como quando se chama 1º de Dezembro de 1640 e D. Filipa de Vilhena.
Decerto, ainda, como todas as linhas de força que atravessam a história de um povo, a linha de força do espírito de aventura, sofreu desvios e recebeu golpes rudes, que a desvirtuaram ou lhe amorteceram as projeções ativas ao longo dos tempos.
Foi assim que as traições do clima mercantilista se sobrepuseram tantas vezes ao espírito heroico sob o signo do qual têm feito grandes coisas os portugueses. No entanto, aparente ou em eclipse, a sua permanência é bem clara lei da nossa história. Depois do oiro do Oriente e da «vil tristeza», foi possível o esforço hercúleo da Restauração, esforço duro que surge mais tarde - na decadência, para expulsar as legiões do Corso ou para mais adiante se dispensar na longa contenda liberal.
É erro, pois, e erro com provado, todo o pessimismo que afirma ter-se perdido, com os fumos da Índia, o fio resistente da nossa vocação audaciosa e viril, não nos restando outra perspetiva que um saudosismo melancólico e sorna do que já fomos.
É evidente, por certo, que os valores ativos sofrem muitas vezes a influência condicionadora do signo particular de cada época da História; e, assim, se a vida de um povo houvesse de ser vivida em ordem a duas referências essenciais —o imposto de palhota e o bilhete de lotaria — claro estava, que o plano de altos sonhos e grandes empresas não estaria na órbita das suas inquietações aventurosas. Por detrás, porém, da fisionomia exterior dos tempos, a constante do nosso espírito aventureiro demonstra-se em todas as épocas remotas ou contemporâneas.
E, assim, no período colonial do século XX, a aventura chama-se Couceiro e chama-se Mouzinho: lídima, gloriosa, alta, como nos tempos imperiais da nossa grandeza de antanho.
Outras épocas, outros signos, outras as aventuras; mas a linha de força do seu espírito mantém-se inalterável no sentido dinâmico e ousado. Na odisseia de África é toda uma explosão de heroísmos, de inquietações ousadas, de coragens fortes; são ansiosas peregrinações por terras áridas, florestas insondáveis, gentes bárbaras — sangue e febre...
Silva Porto, Serpa Pinto, Capelo e Ivens, renovam em África as tradições dos nossos exploradores e bandeirantes do Brasil; Mouzinho, Caldas Xavier, Galhardo, Aires de Ornelas, Couceiro, Roçadas, Camacho e João de Almeida—, oficiais, sargentos e «praças», que renovam a ousadia e o esforço rude das Conquistas.
Outras épocas, outros signos... A aventura, porém, não cessa...
Quantos ignoram a série de lutas, de duras batalhas e de estranhas ousadias que foi preciso travar, empreender e vencer para que delas possam hoje beneficiar estes tempos em que vivemos.
Eis a trágica aventura do Rei D. Carlos, que com seu filho marcha para a morte, cumprindo serenamente um destino inflexível e um alto dever confiante...
E logo outra surge, uma aventura ousada de um punhado de ilusões de quantos opõem galhardamente, ao curso da História, a negativa ingénua, mas viril, dos seus pobres peitos oferecidos às balas nas barricadas da Rotunda — as barricadas da República de 1910. Abandonados embora, a aventura não mais deixa aqueles sargentos, soldados e civis que teimam em bater-se e morrer, mesmo sem esperança, pela bandeira que o seu sonho hasteara.
Depois a aventura do Paladino, a aventura medieva de Paiva Couceiro e da sua hoste descendo da Galiza por caminhos amargos e ásperos corgos, na madrugada fria — falange temerária de poucos e desarmados visionários — que vêm no propósito altivo de dar batalha à República e, mais do que isso, na intenção de despertar um povo que havia tantos anos adormecera... Mais amarga do que esta aventura é a dos chefes republicanos — dos sinceros — dos que lutaram com alma pura na ânsia de renovar a Nação, renovando o sonho que cem anos antes, nas margens do Sena, fora a miragem grandiosa e exaltante que espantou o mundo.
Mas chega agora a sangrenta aventura da nossa intervenção na Grande Guerra.
Sem exército, nem marinha — divididos e sangrando ainda das lutas políticas — eis-nos, no entanto, levados a uma participação armada numa contenda de vida ou de morte que mobilizava todas as energias e todas as possibilidades técnicas das maiores nações do mundo. Para que impulso poderoso fariam apelo, em tais circunstâncias, os dirigentes, entre os quais sobreleva, pela sua tenacidade e firmeza, o chefe do departamento da guerra, Norton de Matos, se não para o impulso natural e seguro do nosso espírito de aventura. Só ele, com efeito, os absolveria das graves responsabilidades que assumiam, improvisando uma força armada que em terra e no mar teria de afrontar, se bem que entre aliados poderosos, os recursos e a galhardia do primeiro estado militar do Continente.
Pois foi ele, o eterno espírito da nossa vocação aventureira, que nos mobilizou e ousadamente tomou na Flandres à sua guarda um áspero sector na grande linha de combate que decidia então dos destinos do mundo. Dois lances da melhor nobreza militar assinalam o princípio e o fim da nossa ação: — Naulila, a carga de cavalaria de Sereno e Aragão, medieva e resoluta, contra as metralhadoras e os rifles dos africanders tedescos; - «Augusto Castilho», o suicídio heroico de um pequeno «caça-minas em combate com um dos mais poderosos submarinos alemães. Suicídio consciente, gesto cavalheiresco entre os mais altos, do seu comandante Carvalho Araújo, que, oferecendo a vida e a dos seus marinheiros, salvou da morte os passageiros do navio que fora confiado à sua proteção e ergueu ao mais alto cume a glória da Nação Portuguesa.
É certo que nesta aventura da nossa intervenção na guerra, uma dolorosa página de sangue se escreveu: O 9 de Abril. O «9 de Abril» não é, porém, uma derrota, é um esmagamento. Não foi a resultante de uma superioridade de tática, ou de uma superioridade de valores técnicos e morais dos adversários. Foi, como largamente testemunha Vasco de Carvalho[1], consequência invencível de uma acumulação temerosa de material de bombardeamento, cuja ação brutal produziu um desequilíbrio de forças insuportável para um pequeno sector, quási sem reservas, como o nosso.
Todavia, mesmo nessas trágicas circunstâncias, a honra da bandeira ficou intacta. Com efeito, cortados desde a primeira hora os contactos entre as unidades, cobertos de metralha e de fogo, envoltos no sudário gelado do nevoeiro da Flandres, os nossos soldados, sem saber para quê, pois ninguém lhes mobilizara a alma, batem-se com denodo e com galhardia; sabem morrer, trincheira por trincheira, morro por morro, como veteranos, como outrora em Mazagão e em Diu... Palmo a palmo, devagar, devagar, inutilmente, numa aventura de predestinação heroica, como em Alcácer...
Inutilmente? Como na boutade romântica de Rostand, os soldados da aventura portuguesa da Flandres poderiam proclamar:
On ne se bat pas dans l'espoir du succès :
C'est bien plus beau quand c'est inutile.
*
Na tarde fria e pardacenta de 5 de Dezembro de 1917, tarde de suprema inquietação e anseio, Lisboa estremeceu de súbito ao toque da marcha de guerra dos clarins de Sidónio Pais.
Subia a Avenida a mais galharda aventura de gente moça, a mais ardente «rapaziada» heroica em quem alguma vez tocou o vento da revolta. Na vanguarda a cavalaria de Teófilo Duarte «um tenente» e, por «grosso da coluna», a Escola de Guerra... Flor das batalhas, cadetes joviais e ousados de uma estranha Gasconha de resgate e glória.
Era ainda o tempo em que a Rotunda se mantinha campo de torneio eleito para as lides que decidiam bravamente dos destinos da Nação.
Batalha dura, cavalgadas fulminantes, ousadia e fé.
Entre tantos, que tão bem se bateram, duas figuras destacam-se, dois cavaleiros andantes, de bravura temerária, dois soldados que totalmente encarnam as virtudes do génio nacional — desprezo da própria vida, espírito de temerosa aventura: Teófilo Duarte, entre os que atacavam, Agatão Lança entre os que defendiam.
Agatão Lança, à frente dos seus admiráveis marujos, ferido duas vezes — exangue e inabalável. Teófilo Duarte, com um esquadrão de cavalaria, faz toda a ofensiva da revolta chegando a assaltar e aprisionar uma bateria de artilharia, à frente dos seus cavaleiros.
A odisseia de Teófilo Duarte, nesses dias agitados e atrozes das revoltas democráticas e da insurreição monárquica, é das mais extraordinárias aventuras, capaz só por si de dar relevo a um temperamento e a uma época.
*
Assim é este povo. O povo pelas suas elites ativas e o povo na sua «arraia miúda», pois que em todos estes lances, sargentos, cabos, soldados e civis, se bateram com glória e honra.
A insurreição monárquica, que vem a seguir, oferece então o ensejo a uma grande mobilização popular, que ao apelo da mística republicana —o último grande incêndio - corre às armas e assalta de peito descoberto, e em massa, o melhor da guarnição de Lisboa concentrada no alto do Monsanto. Essa grande aventura popular revela bem o poder da linha de força do nosso temperamento. Foi ele que impossibilitou então a Monarquia, em vésperas de se restaurar.
A gente moça de hoje não pode por certo fazer uma ideia da impressão poderosa que fazia a nossos olhos espantados a marcha dos batalhões populares pelas ruas da Capital, naquelas horas de vibração e incerteza.
Dir-se-ia que o velho Santerre ressuscitara, aqui nas margens do Tejo, com o seu eterno tambor, a convocar as secções reincarnadas dos sans culottes...
Respirava-se um estranho ar fecundado por todas as emanações de violência. Cessavam certos ruídos familiares e a cidade como que emudecera, de semblante carregado e grave. Uma grande angústia apertava os corações — a angústia inexplicável dos altos momentos em que tudo se aguarda e espera... Do fundo da História chegam-nos todas as reminiscências de frondas e de lutas, em que o perfil do povo se torna inflexível no esforço de mudar os destinos.
Tivessem os chefes republicanos de então uma alma pura na ação, e uma nova República teria porventura surgido. Outra vez, porém, como depois do 5 de Outubro o povo servia apenas as miseras ambições de chefes burgueses e incapazes. A esperança de uma restauração monárquica perde-se sem que a República tirasse daí qualquer apreciável benefício.
O espírito esterilizante da Burguesia liquidava assim duas ardorosas aventuras: a da tropa e a do povo. Tudo foi em vão, o esforço, as lágrimas e o sangue... Isto é, tudo foi baldado para o sentido que dera impulso àquela tragédia. Mas nem tudo foi inútil, não; pois um facto novo e de importância singular surgira no alto de Monsanto: a fisionomia viril, nova, categórica, revolucionária do Integralismo, quinta essência do nacionalismo português.
Alberto de Monsaraz, alferes gentil e o mais gentil dos espíritos, caía no próprio sangue, inabalável, na fé do seu sonho:
«Rapazes, fogo! Pelo Rei e em frente...
Eu já tombei, não pensem mais em mim»!
Com ele caía Pequito Rebelo, enquanto na mesma aventura se batiam com igual coragem, Hipólito Raposo, Félix Correia e outros batalhadores esforçados, que em Monsanto colheram a lição do seu sacrifício entre duas certezas históricas: a liquidação da monarquia burguesa e a demonstração de uma linha de força inerente ao temperamento popular, mobilizado pela fé no seu próprio resgate.
Ninguém como Alberto de Monsaraz, poeta e batalhador, melhor compreendeu então todo o sentido da grande tragédia daqueles que subiram a colina do sacrifício, percorrendo caminhos interiores tão diversos e contraditórios. E foi por isso com certeza que, sob a metralha dos contrários, ferido ele próprio, jamais a sua espingarda se voltou para o povo. Todos os tiros se perderam inocentes e inúteis, num céu indiferente...
Sentimentalismo, poesia, reflexo de intelectual ou revelação interior? Fosse como fosse, o certo é que o mais artista, o mais distante, o Conde de Monsaraz foi o único talvez que não atirou contra o povo, mesmo quando este o metralhava e, mais tarde, na campanha nacional-sindicalista foi daqueles também que mais se esforçou pelo bem do povo, ainda mesmo quando o próprio povo parecia não querer entendê-lo.
*
Eis agora uma outra aventura que, por momentos, renova todo o clamor heroico das nossas façanhas atlânticas. Aventura que mergulha as fundas raízes através de oito seculos da História e sobe ao cimo dos tempos na flor alta de uma odisseia que retrata como poucos a inquietação deste povo eternamente debruçado sôbre o mar, atraído pela fascinação do seu mistério insondável... Aventura que melhor traduz a nossa tentação ancestral de saltar, a pleno voo marinho, por sobre as águas sem fim, em demanda de horizontes inacessíveis para além dos quais se ocultam as formas irreais do nosso eterno sonho... Erguermo-nos do alto de um rochedo a dominar, com as largas asas de uma águia real superior às vagas, às marés e aos ventos indomáveis.
Tal foi a aventura de Gago Coutinho e de Sacadura Cabral num pobre esquife a que a sua energia inquebrantável e a sua fé incansável — mais do que as míseras e precárias possibilidades do aparelho-deram asas e motor para alcançar de um pulo, primeiro que ninguém, as terras do Brasil, pelo ar.
Num momento toda a Nação estremeceu e vibrou. E, enquanto Coutinho e Cabral suspensos sobre o abismo, ansiosamente perscrutavam nas trevas os sinais de boa rota, iam sentindo bater-lhes ao lado, alvoraçado e inquieto de orgulho, o coração da Nação Portuguesa, toda ela embarcada também na caravela do ar para a nova aventura.
Brito Pais e Aragão são depois outros «aventureiros», outros pioneiros gloriosos da nossa vocação magnífica. Um belo dia a tropa soube com espanto da sua temerosa façanha, Lisboa-Macau, em tão leve e frágil aparelho que outros que não fossem os portugueses da eterna aventura e não se manteriam por certo no ar, por tão grande e difícil caminho.
Fugazes e leves têm sido, porém, sempre os nossos meios, e só bem forte e indomável se mostrou sempre em mil façanhas o nosso heroico coração.
Portuguese war ship chamam os ingleses aos airosos argonautas que com a sua firme vela de nacar desfraldada, singram a todos os ventos do oceano...
Marinheiros, e como marinheiros valentes, dando sempre a cara ao perigo por glória própria, e por maior que esse perigo parecesse, tal foi sempre a tradição do nosso brio militar.
É do nosso tempo o belo gesto de Augusto de Castilho no Rio a bordo da sua pequena corveta, como não esquecem as façanhas esplêndidas das canhoneiras de Augusto Ferreira, no Limpopo... Barcos pequenos, porque os não temos maiores, mas sempre uma grande alma para fazer com eles aquilo que outros só fazem com os grandes.
Durante a guerra russo-japonesa, um dia que Carlos Nogueira cruzava com a sua minúscula canhoneira colonial as águas da Baía dos Tigres, mostrara-se, de súbito, a esquadra de Rodjvensky, que ia em demanda do Extremo-Oriente. Era uma poderosíssima esquadra, que partira da Europa na segurança de liquidar a vitoriosa armada nipónica.
Como neutros, não podíamos consentir a sua entrada em porto nosso e, nesse sentido, tinha ordens categóricas o comandante do barco português.
Feitos, porém, os sinais indicando ao Russo que ele tinha de mudar de rumo, nem por isso a grande esquadra deixara de se encaminhar para onde lhe era vedado.
A honra da nossa bandeira iria assim ficar enxovalhada? Que poderia, entretanto, o nosso minúsculo barco fazer mais?
Não hesita, porém, Carlos Nogueira. Proa à monstruosa armada, corre a intimar o almirante a não insistir, pois que as ordens do governo português tinham que ser cumpridas e para isso já as peças de bordo tinham sido destapadas e todos os do seu navio estavam nos seus postos de combate...
- Mas se eu teimar a entrar?
- Faço fogo!
O Russo, para quem, depois de tão longa viagem, descansar era de importância decisiva, não pode deixar de sentira grandeza do lance e não só obedece, como se julga no dever de prestar as suas homenagens a homem de tão grande galhardia.
Importa pouco a insignificância do nosso barco. A bandeira portuguesa não a arrearia o temor, pois, como mais tarde o provaria Carvalho Araújo, face ao inimigo, ninguém a arrancaria da adriça até que o navio mergulhasse com a heroica equipagem, nas águas do mar.
A grandeza de um povo é feita um pouco destas loucuras heroicas. Saber que para defender a honra da Nação basta um punhado de marujos num velho barco ou quatro soldados intoxicados de malária morrendo com o seu comandante no posto que lhes foi confiado — eis uma garantia que faz hesitar os poderosos pelo respeito que a todos merece o aprumo dos seus filhos. Uma Nação assim nunca morre, pois que, para além da violência que a sacrifique uma hora, vem sempre a reparação a que tem direito a sua dignidade sem mancha.
*
Recordar uma época agitada e áspera que tantos já esqueceram e outros, porventura, desconhecem, não deve causar quaisquer reparos ao bom senso dos que hoje estão tranquilos pelo presente e pelo futuro. Só para os pessimistas a evocação desta aventura, ao longo da qual tantos valores ativos se revelaram no povo e nas elites, este volver de olhos para o recente passado tem por certo largo interesse objetivo.
A lição dos sucessos que logicamente conduziram à aventura do 28 de Maio e das lutas que o estabilizaram, lutas onde surge uma elite numerosa e brava como Gomes da Costa, Cabeçadas, Vasco de Carvalho, Luna de Oliveira, Agatão Lança, Major Varão, Mário Pessoa, David Neto, João dos Santos Marques, Curujeira de Carvalho, Jorge e Júlio Botelho Moniz, Dores, Casais, Aragão, Dias Leite, Brito Pais, Bacelar, Silva Pais, Boavida, Granjo, Costa Alemão Teixeira, Moreira Lopes, João da Costa Andrade, João Soares, Alferes Romão, José Brandão Pereira de Melo, Pedro Moreira, David Rosado, José Virgolino, Francisco Chedas, Alberto Godinho, Vilar, Horácio de Castro, Montalvão e Silva, José Agapito, Augusto Pimenta, Júlio de Oliveira, José Esquível (hoje comandante de Caçadores 5), Alferes Branco, Alferes Barcelos, Teixeira Pinto, Óscar Ruas, Pinto Correia, Freitas (hoje comandante de Metralhadoras n.° I), Monteiro de Barros, José Nazaré, Gorgulho, José Januário, António Tavares, Eduardo Soares de Albergaria, Tenente-coronel Utra Machado, Abranches, Carrasco, José Manuel de Carvalho, Prostes da Fonseca, Delfim Maia, Martins de Lima, Dourado, Joaquim Baltasar, Manuel Deslandes, Santos Romão, Horta, Rogério A. da Silva, e tantos outros esplêndidos militares, de um e de outro lado da trincheira, a que se juntam civis não menos intemeratos e leais como os Vilaças, os Rangeis, os Alberto dos Santos, os «mata-afonso» os Pamplona, os Oliveira Bastos, os Charters de Azevedo, os José Zeferino, os António Valadares, os Costa Alemão, os António Victorino, os Egas de Carvalho, os D. José Barahona, os José Prego e tantos mais — essa lição onde há lances históricos como o «18 de Abril», a revolução em Braga e a «marcha sobre Lisboa», o «7 de Fevereiro», a «revolta da Madeira», o «26 de Agosto» — essa lição, repetimos ainda, atesta também por si própria, como a constante do desembaraço físico, da coragem; permanece no temperamento deste povo e é capaz de todos os milagres.
Decerto que foi uma viva batalha, onde se desperdiçaram valores e energias úteis; mas, a ter que decidir: «antes una nación de locos que una nación de esclavos», graças tem de ser dadas à providência dos nossos destinos que manteve em nós uma linha de forças de aventuras, que foi a asa poderosa por onde nos libertámos do charco podre, onde os povos que nele caem para sempre, se somem e perdem.
Contra essa gente esplêndida e inabalável nada pôde o «bom senso», a «prudência» e outros mandamentos da corrupção burguesa. Ia-se para a guerra cantando, sem deitar balanço ao que se perdia, pois tudo se oferecia, até a vida, no altar da Nação e do Ideal sagrado que se elegia.
Engenheiros, advogados, industriais, proprietários, ninguém se lembrava de fazer contas aos ordenados cerceados, às fábricas e terras abandonadas — na hora em que o apelo do país ou o imperativo das suas convicções lhes impunha marchar.
Assim se foi para as incursões, para as revoltas, para as Flandres e para a África. Quando em Naulila caíram os primeiros portugueses, sendo nós uma nação neutra ainda, todo o país reagiu e ninguém se lembrou de se congratular por serem só aqueles que lá morriam, distantes, enquanto nós íamos gozando «este dom inestimável da paz».
O editorial do Diário de Notícias, de 24 de Março do corrente ano, em que, a propósito dos massacres de portugueses em Timor, Macau e Manila se frisa que exatamente quando morrem portugueses lá longe é que melhor sentimos os benefícios da paz que aqui gozamos — é um perfeito sinal dos tempos.
Esfregar as mãos de puro contentamento pela tranquilidade que o destino nos tem consentido — está bem que o recordemos em todas as ocasiões, menos, porém, decerto, no momento em que nos lembramos dos ultrajes à honra da nossa bandeira e à dignidade e segurança dos portugueses por êsse mundo, tão duramente atingidos. O mais elementar brio nacional e o mais frágil laço de solidariedade entre portugueses no-lo proíbe.
Pelo contrário.
Onde quer que caísse um português, à mão de inimigos, nos confins da Ásia ou nos remotos sertões africanos, era aqui, na Mãe Pátria, que se sentia o trágico baque; e, para sempre, nos ficava nos ouvidos, o estrondo horrível, clamando como um remorso, enquanto o não vingássemos...
— Galhardia? Espírito de aventura?
*
Mas esta linha de força, cuja revelação é condicionada por circunstâncias de toda a ordem, mesmo quando se não exteriorize em manifestações de importância capital para os destinos da Nação, nem por isso deixa de atuar como estimulante benéfico e é, portanto, um coeficiente de ação, cuja utilidade convém sempre ter em conta, Há nela um conteúdo moral, que se traduz por um salutar espírito de otimismo, frente à vida e às suas contingências, otimismo que a torna centro-motor, força de vontade renovada ao serviço da energia humana.
Todas as empresas têm seu risco, mas nenhuma o risco das empresas militares nas quais está em jogo a própria vida de quantos as empreendem. Quando um povo, como o povo português, mostra ao longo da sua marcha na História uma tão grande disposição para o sacrifício e uma tão grande constância na esperança, mesmo quando é aventura esperar, grandes são as suas possibilidades para vencer no presente como no futuro os obstáculos que lhe surgirem no caminho, porque grandes são as suas possibilidades de, em todos os tempos, se ultrapassar a si próprio pela confiança interior que é a linha de força do seu próprio temperamento.
*
O clamor interior de uma dignidade que permanentemente afirmava os seus direitos ou o acicate de uma solidariedade que impunha o seu comando, por cima de todas as solicitações do egoísmo e do interesse pessoal — tais as trincheiras morais em que se escudavam as atitudes, não as deixando cair, senão por exceção, no pecado vil da simulação ou na baixeza sem nome da deserção face ao inimigo...
Era-se orgulhoso!
Quando do ultimatum, de que resultou a perda de terras africanas, a estátua de Camões cobria-se de crepes, a bandeira da Nação que nos ameaçava era desrespeitada nas ruas da Capital e de toda a parte surgiram ingénuos, mas ardentes oferecimentos de voluntários...
Muitos foram também os voluntários na guerra mundial de 1914. Deputados ou personagens a quem a importância política podia facilmente evitar o sacrifício de marchar, foram os primeiros a fazê-lo, acudindo assim ao apelo de uma consciência imperativa que não lhes consente atitudes como «esse dom inestimável da paz», quando outros portugueses, menos protegidos da sorte, se iam bater pela causa da bandeira.
Muitos são os portugueses que caíram em África e na Flandres, como muitos são os que de lá voltaram com as fardas esburacadas de balas e o peito constelado daquelas medalhas de exceção que são o prémio dos que se oferecem à morte sem hesitar, por glória do seu país, nesse outro dom bem mais inestimável que é o doce dom de viver... Gomes da Costa, Alves Pedrosa, Craveiro Lopes, Pissarra, Peres, Mouzinho de Albuquerque, Bento Roma, Aníbal de Azevedo, Cabeças, os irmãos Olavo, Jaime Baptista, David Neto, Figueiredo, António Correia, Hernâni Cidade, Durão, Oliveira Belo, Moreira Lopes, Sacramento Monteiro, Dores, Manuel Afonso do Paço, José António Boavida, Currusca, Rebelo, Figueiroa, Augusto Tavares, Nepomuceno de Freitas, Calado, Lacerda Nunes, Leão Teixeira, João Quinhones Portugal da Silveira, Casaleiro, Santos Carneiro, Côrte Real, Pinto de Barros, Joaquim José Saldanha, Vasco de Carvalho, Malheiro, Trancoso, Chiote, Rodrigues Leite, Cansado, Ribeiro Gomes, Carlos Braga, Almeida Luz, Ribeiro de Carvalho, Cameiro Franco, Almiro de Vasconcelos e tantos, tantos mais que gloriosamente morreram ou padeceram pelo seu país.
Da mesma maneira, nas atitudes proveitosas, como em todas as outras atitudes espirituais, era-se categórico.
Era-se republicano e era-se monárquico, católico ou ateu, governamental ou oposicionista.
Era-se fosse o que fosse com firmeza, com decisão - Honradamente!
Eleger um credo religioso em uma ideia política, era como que um ato livre da consciência, que impunha deveres e não um cálculo dos instintos que proporciona direitos.
Todos aqueles que, enfileirando num grupo, alinhando atrás de uma bandeira, o faziam apenas por interesse — tinham um único nome: vendidos. Como aqueles que apenas o faziam por medo tinham outro: cobardes.
Era vendido todo aquele que, sabendo bem que atraiçoa as suas ideias mais sagradas, o País e o próprio dever das suas camaradagens — só prezava, para as usufruir largamente, as vantagens da sua traição.
E todo aquele que, com medo de sofrer, traía; com medo de lutar, abandonava; com o medo de perder, desertava — grande miséria — chamava-se cobarde!
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[1] O 9 de Abril
O Conde D. Henrique é o aventureiro medievo que veio à cata da fortuna e da glória em seu cavalo de guerra coberto de ferro, os olhos fitos no sonho de um belo destino ocidental através da Península até às praias atlânticas. Aventura é Valdevez e é Ourique-aventura o próprio Reino conquistado, palmo a palmo, em marchas imprevistas na surpresa da noite, em fossados temerários na traição de serras e charnecas...
Aventura a independência e a luta contra as Espanhas. Aventura o Condestável, a ala dos Namorados e Aljubarrota — Aljubarrota, a aventura suprema!
Tudo condenava perante os cálculos do «bom senso», da «previsto», da «prudência», semelhante audácia. O Reino em grande parte nas mãos do castelhano. O país dividido, porque dividida a influência e a força da fidalguia em parte ganha ao invasor. Santarém com Castela, Sintra com Castela, os caminhos de Lisboa abertos... Como não teriam de ser sinistras as vozes dos Conselheiros do Rei, no Alardo de Tomar mostrando a «loucura» dos que queriam dar combate ao invasor, já de antemão tão claramente vitorioso, com as suas inumeráveis coortes, para o tão reduzido exército que se lhe podia opor —a «experiência», a «ponderação» e «justa reflexão» do Conselho Real indicavam com segurança o único caminho viável — a fuga do Rei... E o Rei teria fugido e tudo se teria perdido, por certo, se ao bom senso e à previsão refletida daqueles que a prudência raramente deixa rasgar novos caminhos, não se tivesse oposto a louca rebeldia, a absurda audácia de Nun'Álvares. Graças a ela, esta aventura torna-se a maior e mais brilhante façanha da nossa história militar.
*
Toda a nossa marcha imperial é feita de clamores de Aventura. «Navegadores» e «aventureiros» são, para o nosso povo, sinónimos confessos. Decerto, no plano das Descobertas, uma averiguada presunção científica, uma margem de certeza obtida em seguras fontes — um método e valores técnicos e inegáveis. No entanto, quanto não restava ainda ao valor individual conseguir, para que se traduzisse numa
confiança, que era sobretudo esperança em uma convicção realizadora.
Os roteiros, que lhes assinalava o génio do Infante em pergaminhos iluminados, tinham uma contrapartida temerosa e cheia de incógnitas — o vasto mar povoado de lendas sombrias, os duros e incertos ventos, as alterosas e desapiedadas vagas... Entre «mar e céu», semanas e meses afastados da «terra cara», servir-se do Astrolábio tem importância; saber onde permanece o Norte tem evidentemente interesse; mas tudo seria vão se a chama interior que iluminava o seu sonho de glórias lhe não rasgasse incessantemente as cerrações trágicas — desanimo, incerteza, cansaço — em que se engolfava hora a hora, instante a instante, a frágil proa das caravelas.
Todo o simbolismo da nossa aventura marítima está no gesto, lendário ou verdadeiro, do Gama, que em momento de apuro solenemente atira ao mar aparelhos e papéis náuticos clamando:
O piloto é Deus!
Aventura, aventura...
Ó glória de mandar, ó vã cobiça!
Aventura, alta febre lusitana que abrasa por um momento o vasto Oriente, desde as terras negras de Mombaça, Sofala e Zanzibar e das bocas do Mar Vermelho ao Golfo Pérsico; de Ormuz a Goa; de Malabar a Malaca e às Molucas; de Samatra aos incertos mares da China e ao misterioso e distante Japão. Sonho sem par de Albuquerque, o maior de todos os lusos que saíram do Tejo em demanda de grandeza e fama.
Aventura grandiosa e sonora, essa que se inscreve no próprio título dos Reis de Portugal, título que enche a História com acentos imperiais nunca encontrados, onde passam grandezas oceânicas e terras que tomam, de lado a lado, o vasto Mundo.
*
Caravelas de esperança, naus de inquietação, a que o próprio sopro de ansiedade humana enfunava as velas na vertigem de chegar mais cedo... A atracão magnética das terras exóticas, regiões de maravilha, fascinação dos sentidos, terras onde homens, animais e plantas são a permanente surpresa dos olhos e dos ouvidos; florestas sem fim cujo mistério esconde doces fontes e aves de oiro; paragens estranhas em que o ar se perfuma do cheiro de especiarias e a tentação das riquezas espreita a cada canto na avidez da nossa miséria...
Aventura... Ânsia de encontrar novas terras e, o que é mais, novas estrelas...
- Linha de força poderosa e tantas vezes decisiva no renovamento incessante de todas as solicitações com que nos leva a «ação» e nos ajuda a ultrapassar deceções e sacrifícios, confiantes. O espírito de aventura projeta-se vincadamente nas atitudes individuais e coletivas dos portugueses, revelando-se sempre fonte de otimismos generosos, impulso indomável de vontades criadoras.
É ela que explica a História Nacional em tantos lances imprevistos e em tantos momentos sem saída — inspiração inesgotável de chefes e de soldados.
Decerto, a «aventura» conduz por vezes a desequilíbrios nefastos ou é servida por visões imperfeitas, quando não é contrariada por circunstâncias imprevistas. Assim a aventura pode ser Alcácer-Quibir e D. Sebastião.
Mas é sempre a sua virtude criadora, interesse que produz milagres necessários como quando se chama 1º de Dezembro de 1640 e D. Filipa de Vilhena.
Decerto, ainda, como todas as linhas de força que atravessam a história de um povo, a linha de força do espírito de aventura, sofreu desvios e recebeu golpes rudes, que a desvirtuaram ou lhe amorteceram as projeções ativas ao longo dos tempos.
Foi assim que as traições do clima mercantilista se sobrepuseram tantas vezes ao espírito heroico sob o signo do qual têm feito grandes coisas os portugueses. No entanto, aparente ou em eclipse, a sua permanência é bem clara lei da nossa história. Depois do oiro do Oriente e da «vil tristeza», foi possível o esforço hercúleo da Restauração, esforço duro que surge mais tarde - na decadência, para expulsar as legiões do Corso ou para mais adiante se dispensar na longa contenda liberal.
É erro, pois, e erro com provado, todo o pessimismo que afirma ter-se perdido, com os fumos da Índia, o fio resistente da nossa vocação audaciosa e viril, não nos restando outra perspetiva que um saudosismo melancólico e sorna do que já fomos.
É evidente, por certo, que os valores ativos sofrem muitas vezes a influência condicionadora do signo particular de cada época da História; e, assim, se a vida de um povo houvesse de ser vivida em ordem a duas referências essenciais —o imposto de palhota e o bilhete de lotaria — claro estava, que o plano de altos sonhos e grandes empresas não estaria na órbita das suas inquietações aventurosas. Por detrás, porém, da fisionomia exterior dos tempos, a constante do nosso espírito aventureiro demonstra-se em todas as épocas remotas ou contemporâneas.
E, assim, no período colonial do século XX, a aventura chama-se Couceiro e chama-se Mouzinho: lídima, gloriosa, alta, como nos tempos imperiais da nossa grandeza de antanho.
Outras épocas, outros signos, outras as aventuras; mas a linha de força do seu espírito mantém-se inalterável no sentido dinâmico e ousado. Na odisseia de África é toda uma explosão de heroísmos, de inquietações ousadas, de coragens fortes; são ansiosas peregrinações por terras áridas, florestas insondáveis, gentes bárbaras — sangue e febre...
Silva Porto, Serpa Pinto, Capelo e Ivens, renovam em África as tradições dos nossos exploradores e bandeirantes do Brasil; Mouzinho, Caldas Xavier, Galhardo, Aires de Ornelas, Couceiro, Roçadas, Camacho e João de Almeida—, oficiais, sargentos e «praças», que renovam a ousadia e o esforço rude das Conquistas.
Outras épocas, outros signos... A aventura, porém, não cessa...
Quantos ignoram a série de lutas, de duras batalhas e de estranhas ousadias que foi preciso travar, empreender e vencer para que delas possam hoje beneficiar estes tempos em que vivemos.
Eis a trágica aventura do Rei D. Carlos, que com seu filho marcha para a morte, cumprindo serenamente um destino inflexível e um alto dever confiante...
E logo outra surge, uma aventura ousada de um punhado de ilusões de quantos opõem galhardamente, ao curso da História, a negativa ingénua, mas viril, dos seus pobres peitos oferecidos às balas nas barricadas da Rotunda — as barricadas da República de 1910. Abandonados embora, a aventura não mais deixa aqueles sargentos, soldados e civis que teimam em bater-se e morrer, mesmo sem esperança, pela bandeira que o seu sonho hasteara.
Depois a aventura do Paladino, a aventura medieva de Paiva Couceiro e da sua hoste descendo da Galiza por caminhos amargos e ásperos corgos, na madrugada fria — falange temerária de poucos e desarmados visionários — que vêm no propósito altivo de dar batalha à República e, mais do que isso, na intenção de despertar um povo que havia tantos anos adormecera... Mais amarga do que esta aventura é a dos chefes republicanos — dos sinceros — dos que lutaram com alma pura na ânsia de renovar a Nação, renovando o sonho que cem anos antes, nas margens do Sena, fora a miragem grandiosa e exaltante que espantou o mundo.
Mas chega agora a sangrenta aventura da nossa intervenção na Grande Guerra.
Sem exército, nem marinha — divididos e sangrando ainda das lutas políticas — eis-nos, no entanto, levados a uma participação armada numa contenda de vida ou de morte que mobilizava todas as energias e todas as possibilidades técnicas das maiores nações do mundo. Para que impulso poderoso fariam apelo, em tais circunstâncias, os dirigentes, entre os quais sobreleva, pela sua tenacidade e firmeza, o chefe do departamento da guerra, Norton de Matos, se não para o impulso natural e seguro do nosso espírito de aventura. Só ele, com efeito, os absolveria das graves responsabilidades que assumiam, improvisando uma força armada que em terra e no mar teria de afrontar, se bem que entre aliados poderosos, os recursos e a galhardia do primeiro estado militar do Continente.
Pois foi ele, o eterno espírito da nossa vocação aventureira, que nos mobilizou e ousadamente tomou na Flandres à sua guarda um áspero sector na grande linha de combate que decidia então dos destinos do mundo. Dois lances da melhor nobreza militar assinalam o princípio e o fim da nossa ação: — Naulila, a carga de cavalaria de Sereno e Aragão, medieva e resoluta, contra as metralhadoras e os rifles dos africanders tedescos; - «Augusto Castilho», o suicídio heroico de um pequeno «caça-minas em combate com um dos mais poderosos submarinos alemães. Suicídio consciente, gesto cavalheiresco entre os mais altos, do seu comandante Carvalho Araújo, que, oferecendo a vida e a dos seus marinheiros, salvou da morte os passageiros do navio que fora confiado à sua proteção e ergueu ao mais alto cume a glória da Nação Portuguesa.
É certo que nesta aventura da nossa intervenção na guerra, uma dolorosa página de sangue se escreveu: O 9 de Abril. O «9 de Abril» não é, porém, uma derrota, é um esmagamento. Não foi a resultante de uma superioridade de tática, ou de uma superioridade de valores técnicos e morais dos adversários. Foi, como largamente testemunha Vasco de Carvalho[1], consequência invencível de uma acumulação temerosa de material de bombardeamento, cuja ação brutal produziu um desequilíbrio de forças insuportável para um pequeno sector, quási sem reservas, como o nosso.
Todavia, mesmo nessas trágicas circunstâncias, a honra da bandeira ficou intacta. Com efeito, cortados desde a primeira hora os contactos entre as unidades, cobertos de metralha e de fogo, envoltos no sudário gelado do nevoeiro da Flandres, os nossos soldados, sem saber para quê, pois ninguém lhes mobilizara a alma, batem-se com denodo e com galhardia; sabem morrer, trincheira por trincheira, morro por morro, como veteranos, como outrora em Mazagão e em Diu... Palmo a palmo, devagar, devagar, inutilmente, numa aventura de predestinação heroica, como em Alcácer...
Inutilmente? Como na boutade romântica de Rostand, os soldados da aventura portuguesa da Flandres poderiam proclamar:
On ne se bat pas dans l'espoir du succès :
C'est bien plus beau quand c'est inutile.
*
Na tarde fria e pardacenta de 5 de Dezembro de 1917, tarde de suprema inquietação e anseio, Lisboa estremeceu de súbito ao toque da marcha de guerra dos clarins de Sidónio Pais.
Subia a Avenida a mais galharda aventura de gente moça, a mais ardente «rapaziada» heroica em quem alguma vez tocou o vento da revolta. Na vanguarda a cavalaria de Teófilo Duarte «um tenente» e, por «grosso da coluna», a Escola de Guerra... Flor das batalhas, cadetes joviais e ousados de uma estranha Gasconha de resgate e glória.
Era ainda o tempo em que a Rotunda se mantinha campo de torneio eleito para as lides que decidiam bravamente dos destinos da Nação.
Batalha dura, cavalgadas fulminantes, ousadia e fé.
Entre tantos, que tão bem se bateram, duas figuras destacam-se, dois cavaleiros andantes, de bravura temerária, dois soldados que totalmente encarnam as virtudes do génio nacional — desprezo da própria vida, espírito de temerosa aventura: Teófilo Duarte, entre os que atacavam, Agatão Lança entre os que defendiam.
Agatão Lança, à frente dos seus admiráveis marujos, ferido duas vezes — exangue e inabalável. Teófilo Duarte, com um esquadrão de cavalaria, faz toda a ofensiva da revolta chegando a assaltar e aprisionar uma bateria de artilharia, à frente dos seus cavaleiros.
A odisseia de Teófilo Duarte, nesses dias agitados e atrozes das revoltas democráticas e da insurreição monárquica, é das mais extraordinárias aventuras, capaz só por si de dar relevo a um temperamento e a uma época.
*
Assim é este povo. O povo pelas suas elites ativas e o povo na sua «arraia miúda», pois que em todos estes lances, sargentos, cabos, soldados e civis, se bateram com glória e honra.
A insurreição monárquica, que vem a seguir, oferece então o ensejo a uma grande mobilização popular, que ao apelo da mística republicana —o último grande incêndio - corre às armas e assalta de peito descoberto, e em massa, o melhor da guarnição de Lisboa concentrada no alto do Monsanto. Essa grande aventura popular revela bem o poder da linha de força do nosso temperamento. Foi ele que impossibilitou então a Monarquia, em vésperas de se restaurar.
A gente moça de hoje não pode por certo fazer uma ideia da impressão poderosa que fazia a nossos olhos espantados a marcha dos batalhões populares pelas ruas da Capital, naquelas horas de vibração e incerteza.
Dir-se-ia que o velho Santerre ressuscitara, aqui nas margens do Tejo, com o seu eterno tambor, a convocar as secções reincarnadas dos sans culottes...
Respirava-se um estranho ar fecundado por todas as emanações de violência. Cessavam certos ruídos familiares e a cidade como que emudecera, de semblante carregado e grave. Uma grande angústia apertava os corações — a angústia inexplicável dos altos momentos em que tudo se aguarda e espera... Do fundo da História chegam-nos todas as reminiscências de frondas e de lutas, em que o perfil do povo se torna inflexível no esforço de mudar os destinos.
Tivessem os chefes republicanos de então uma alma pura na ação, e uma nova República teria porventura surgido. Outra vez, porém, como depois do 5 de Outubro o povo servia apenas as miseras ambições de chefes burgueses e incapazes. A esperança de uma restauração monárquica perde-se sem que a República tirasse daí qualquer apreciável benefício.
O espírito esterilizante da Burguesia liquidava assim duas ardorosas aventuras: a da tropa e a do povo. Tudo foi em vão, o esforço, as lágrimas e o sangue... Isto é, tudo foi baldado para o sentido que dera impulso àquela tragédia. Mas nem tudo foi inútil, não; pois um facto novo e de importância singular surgira no alto de Monsanto: a fisionomia viril, nova, categórica, revolucionária do Integralismo, quinta essência do nacionalismo português.
Alberto de Monsaraz, alferes gentil e o mais gentil dos espíritos, caía no próprio sangue, inabalável, na fé do seu sonho:
«Rapazes, fogo! Pelo Rei e em frente...
Eu já tombei, não pensem mais em mim»!
Com ele caía Pequito Rebelo, enquanto na mesma aventura se batiam com igual coragem, Hipólito Raposo, Félix Correia e outros batalhadores esforçados, que em Monsanto colheram a lição do seu sacrifício entre duas certezas históricas: a liquidação da monarquia burguesa e a demonstração de uma linha de força inerente ao temperamento popular, mobilizado pela fé no seu próprio resgate.
Ninguém como Alberto de Monsaraz, poeta e batalhador, melhor compreendeu então todo o sentido da grande tragédia daqueles que subiram a colina do sacrifício, percorrendo caminhos interiores tão diversos e contraditórios. E foi por isso com certeza que, sob a metralha dos contrários, ferido ele próprio, jamais a sua espingarda se voltou para o povo. Todos os tiros se perderam inocentes e inúteis, num céu indiferente...
Sentimentalismo, poesia, reflexo de intelectual ou revelação interior? Fosse como fosse, o certo é que o mais artista, o mais distante, o Conde de Monsaraz foi o único talvez que não atirou contra o povo, mesmo quando este o metralhava e, mais tarde, na campanha nacional-sindicalista foi daqueles também que mais se esforçou pelo bem do povo, ainda mesmo quando o próprio povo parecia não querer entendê-lo.
*
Eis agora uma outra aventura que, por momentos, renova todo o clamor heroico das nossas façanhas atlânticas. Aventura que mergulha as fundas raízes através de oito seculos da História e sobe ao cimo dos tempos na flor alta de uma odisseia que retrata como poucos a inquietação deste povo eternamente debruçado sôbre o mar, atraído pela fascinação do seu mistério insondável... Aventura que melhor traduz a nossa tentação ancestral de saltar, a pleno voo marinho, por sobre as águas sem fim, em demanda de horizontes inacessíveis para além dos quais se ocultam as formas irreais do nosso eterno sonho... Erguermo-nos do alto de um rochedo a dominar, com as largas asas de uma águia real superior às vagas, às marés e aos ventos indomáveis.
Tal foi a aventura de Gago Coutinho e de Sacadura Cabral num pobre esquife a que a sua energia inquebrantável e a sua fé incansável — mais do que as míseras e precárias possibilidades do aparelho-deram asas e motor para alcançar de um pulo, primeiro que ninguém, as terras do Brasil, pelo ar.
Num momento toda a Nação estremeceu e vibrou. E, enquanto Coutinho e Cabral suspensos sobre o abismo, ansiosamente perscrutavam nas trevas os sinais de boa rota, iam sentindo bater-lhes ao lado, alvoraçado e inquieto de orgulho, o coração da Nação Portuguesa, toda ela embarcada também na caravela do ar para a nova aventura.
Brito Pais e Aragão são depois outros «aventureiros», outros pioneiros gloriosos da nossa vocação magnífica. Um belo dia a tropa soube com espanto da sua temerosa façanha, Lisboa-Macau, em tão leve e frágil aparelho que outros que não fossem os portugueses da eterna aventura e não se manteriam por certo no ar, por tão grande e difícil caminho.
Fugazes e leves têm sido, porém, sempre os nossos meios, e só bem forte e indomável se mostrou sempre em mil façanhas o nosso heroico coração.
Portuguese war ship chamam os ingleses aos airosos argonautas que com a sua firme vela de nacar desfraldada, singram a todos os ventos do oceano...
Marinheiros, e como marinheiros valentes, dando sempre a cara ao perigo por glória própria, e por maior que esse perigo parecesse, tal foi sempre a tradição do nosso brio militar.
É do nosso tempo o belo gesto de Augusto de Castilho no Rio a bordo da sua pequena corveta, como não esquecem as façanhas esplêndidas das canhoneiras de Augusto Ferreira, no Limpopo... Barcos pequenos, porque os não temos maiores, mas sempre uma grande alma para fazer com eles aquilo que outros só fazem com os grandes.
Durante a guerra russo-japonesa, um dia que Carlos Nogueira cruzava com a sua minúscula canhoneira colonial as águas da Baía dos Tigres, mostrara-se, de súbito, a esquadra de Rodjvensky, que ia em demanda do Extremo-Oriente. Era uma poderosíssima esquadra, que partira da Europa na segurança de liquidar a vitoriosa armada nipónica.
Como neutros, não podíamos consentir a sua entrada em porto nosso e, nesse sentido, tinha ordens categóricas o comandante do barco português.
Feitos, porém, os sinais indicando ao Russo que ele tinha de mudar de rumo, nem por isso a grande esquadra deixara de se encaminhar para onde lhe era vedado.
A honra da nossa bandeira iria assim ficar enxovalhada? Que poderia, entretanto, o nosso minúsculo barco fazer mais?
Não hesita, porém, Carlos Nogueira. Proa à monstruosa armada, corre a intimar o almirante a não insistir, pois que as ordens do governo português tinham que ser cumpridas e para isso já as peças de bordo tinham sido destapadas e todos os do seu navio estavam nos seus postos de combate...
- Mas se eu teimar a entrar?
- Faço fogo!
O Russo, para quem, depois de tão longa viagem, descansar era de importância decisiva, não pode deixar de sentira grandeza do lance e não só obedece, como se julga no dever de prestar as suas homenagens a homem de tão grande galhardia.
Importa pouco a insignificância do nosso barco. A bandeira portuguesa não a arrearia o temor, pois, como mais tarde o provaria Carvalho Araújo, face ao inimigo, ninguém a arrancaria da adriça até que o navio mergulhasse com a heroica equipagem, nas águas do mar.
A grandeza de um povo é feita um pouco destas loucuras heroicas. Saber que para defender a honra da Nação basta um punhado de marujos num velho barco ou quatro soldados intoxicados de malária morrendo com o seu comandante no posto que lhes foi confiado — eis uma garantia que faz hesitar os poderosos pelo respeito que a todos merece o aprumo dos seus filhos. Uma Nação assim nunca morre, pois que, para além da violência que a sacrifique uma hora, vem sempre a reparação a que tem direito a sua dignidade sem mancha.
*
Recordar uma época agitada e áspera que tantos já esqueceram e outros, porventura, desconhecem, não deve causar quaisquer reparos ao bom senso dos que hoje estão tranquilos pelo presente e pelo futuro. Só para os pessimistas a evocação desta aventura, ao longo da qual tantos valores ativos se revelaram no povo e nas elites, este volver de olhos para o recente passado tem por certo largo interesse objetivo.
A lição dos sucessos que logicamente conduziram à aventura do 28 de Maio e das lutas que o estabilizaram, lutas onde surge uma elite numerosa e brava como Gomes da Costa, Cabeçadas, Vasco de Carvalho, Luna de Oliveira, Agatão Lança, Major Varão, Mário Pessoa, David Neto, João dos Santos Marques, Curujeira de Carvalho, Jorge e Júlio Botelho Moniz, Dores, Casais, Aragão, Dias Leite, Brito Pais, Bacelar, Silva Pais, Boavida, Granjo, Costa Alemão Teixeira, Moreira Lopes, João da Costa Andrade, João Soares, Alferes Romão, José Brandão Pereira de Melo, Pedro Moreira, David Rosado, José Virgolino, Francisco Chedas, Alberto Godinho, Vilar, Horácio de Castro, Montalvão e Silva, José Agapito, Augusto Pimenta, Júlio de Oliveira, José Esquível (hoje comandante de Caçadores 5), Alferes Branco, Alferes Barcelos, Teixeira Pinto, Óscar Ruas, Pinto Correia, Freitas (hoje comandante de Metralhadoras n.° I), Monteiro de Barros, José Nazaré, Gorgulho, José Januário, António Tavares, Eduardo Soares de Albergaria, Tenente-coronel Utra Machado, Abranches, Carrasco, José Manuel de Carvalho, Prostes da Fonseca, Delfim Maia, Martins de Lima, Dourado, Joaquim Baltasar, Manuel Deslandes, Santos Romão, Horta, Rogério A. da Silva, e tantos outros esplêndidos militares, de um e de outro lado da trincheira, a que se juntam civis não menos intemeratos e leais como os Vilaças, os Rangeis, os Alberto dos Santos, os «mata-afonso» os Pamplona, os Oliveira Bastos, os Charters de Azevedo, os José Zeferino, os António Valadares, os Costa Alemão, os António Victorino, os Egas de Carvalho, os D. José Barahona, os José Prego e tantos mais — essa lição onde há lances históricos como o «18 de Abril», a revolução em Braga e a «marcha sobre Lisboa», o «7 de Fevereiro», a «revolta da Madeira», o «26 de Agosto» — essa lição, repetimos ainda, atesta também por si própria, como a constante do desembaraço físico, da coragem; permanece no temperamento deste povo e é capaz de todos os milagres.
Decerto que foi uma viva batalha, onde se desperdiçaram valores e energias úteis; mas, a ter que decidir: «antes una nación de locos que una nación de esclavos», graças tem de ser dadas à providência dos nossos destinos que manteve em nós uma linha de forças de aventuras, que foi a asa poderosa por onde nos libertámos do charco podre, onde os povos que nele caem para sempre, se somem e perdem.
Contra essa gente esplêndida e inabalável nada pôde o «bom senso», a «prudência» e outros mandamentos da corrupção burguesa. Ia-se para a guerra cantando, sem deitar balanço ao que se perdia, pois tudo se oferecia, até a vida, no altar da Nação e do Ideal sagrado que se elegia.
Engenheiros, advogados, industriais, proprietários, ninguém se lembrava de fazer contas aos ordenados cerceados, às fábricas e terras abandonadas — na hora em que o apelo do país ou o imperativo das suas convicções lhes impunha marchar.
Assim se foi para as incursões, para as revoltas, para as Flandres e para a África. Quando em Naulila caíram os primeiros portugueses, sendo nós uma nação neutra ainda, todo o país reagiu e ninguém se lembrou de se congratular por serem só aqueles que lá morriam, distantes, enquanto nós íamos gozando «este dom inestimável da paz».
O editorial do Diário de Notícias, de 24 de Março do corrente ano, em que, a propósito dos massacres de portugueses em Timor, Macau e Manila se frisa que exatamente quando morrem portugueses lá longe é que melhor sentimos os benefícios da paz que aqui gozamos — é um perfeito sinal dos tempos.
Esfregar as mãos de puro contentamento pela tranquilidade que o destino nos tem consentido — está bem que o recordemos em todas as ocasiões, menos, porém, decerto, no momento em que nos lembramos dos ultrajes à honra da nossa bandeira e à dignidade e segurança dos portugueses por êsse mundo, tão duramente atingidos. O mais elementar brio nacional e o mais frágil laço de solidariedade entre portugueses no-lo proíbe.
Pelo contrário.
Onde quer que caísse um português, à mão de inimigos, nos confins da Ásia ou nos remotos sertões africanos, era aqui, na Mãe Pátria, que se sentia o trágico baque; e, para sempre, nos ficava nos ouvidos, o estrondo horrível, clamando como um remorso, enquanto o não vingássemos...
— Galhardia? Espírito de aventura?
*
Mas esta linha de força, cuja revelação é condicionada por circunstâncias de toda a ordem, mesmo quando se não exteriorize em manifestações de importância capital para os destinos da Nação, nem por isso deixa de atuar como estimulante benéfico e é, portanto, um coeficiente de ação, cuja utilidade convém sempre ter em conta, Há nela um conteúdo moral, que se traduz por um salutar espírito de otimismo, frente à vida e às suas contingências, otimismo que a torna centro-motor, força de vontade renovada ao serviço da energia humana.
Todas as empresas têm seu risco, mas nenhuma o risco das empresas militares nas quais está em jogo a própria vida de quantos as empreendem. Quando um povo, como o povo português, mostra ao longo da sua marcha na História uma tão grande disposição para o sacrifício e uma tão grande constância na esperança, mesmo quando é aventura esperar, grandes são as suas possibilidades para vencer no presente como no futuro os obstáculos que lhe surgirem no caminho, porque grandes são as suas possibilidades de, em todos os tempos, se ultrapassar a si próprio pela confiança interior que é a linha de força do seu próprio temperamento.
*
O clamor interior de uma dignidade que permanentemente afirmava os seus direitos ou o acicate de uma solidariedade que impunha o seu comando, por cima de todas as solicitações do egoísmo e do interesse pessoal — tais as trincheiras morais em que se escudavam as atitudes, não as deixando cair, senão por exceção, no pecado vil da simulação ou na baixeza sem nome da deserção face ao inimigo...
Era-se orgulhoso!
Quando do ultimatum, de que resultou a perda de terras africanas, a estátua de Camões cobria-se de crepes, a bandeira da Nação que nos ameaçava era desrespeitada nas ruas da Capital e de toda a parte surgiram ingénuos, mas ardentes oferecimentos de voluntários...
Muitos foram também os voluntários na guerra mundial de 1914. Deputados ou personagens a quem a importância política podia facilmente evitar o sacrifício de marchar, foram os primeiros a fazê-lo, acudindo assim ao apelo de uma consciência imperativa que não lhes consente atitudes como «esse dom inestimável da paz», quando outros portugueses, menos protegidos da sorte, se iam bater pela causa da bandeira.
Muitos são os portugueses que caíram em África e na Flandres, como muitos são os que de lá voltaram com as fardas esburacadas de balas e o peito constelado daquelas medalhas de exceção que são o prémio dos que se oferecem à morte sem hesitar, por glória do seu país, nesse outro dom bem mais inestimável que é o doce dom de viver... Gomes da Costa, Alves Pedrosa, Craveiro Lopes, Pissarra, Peres, Mouzinho de Albuquerque, Bento Roma, Aníbal de Azevedo, Cabeças, os irmãos Olavo, Jaime Baptista, David Neto, Figueiredo, António Correia, Hernâni Cidade, Durão, Oliveira Belo, Moreira Lopes, Sacramento Monteiro, Dores, Manuel Afonso do Paço, José António Boavida, Currusca, Rebelo, Figueiroa, Augusto Tavares, Nepomuceno de Freitas, Calado, Lacerda Nunes, Leão Teixeira, João Quinhones Portugal da Silveira, Casaleiro, Santos Carneiro, Côrte Real, Pinto de Barros, Joaquim José Saldanha, Vasco de Carvalho, Malheiro, Trancoso, Chiote, Rodrigues Leite, Cansado, Ribeiro Gomes, Carlos Braga, Almeida Luz, Ribeiro de Carvalho, Cameiro Franco, Almiro de Vasconcelos e tantos, tantos mais que gloriosamente morreram ou padeceram pelo seu país.
Da mesma maneira, nas atitudes proveitosas, como em todas as outras atitudes espirituais, era-se categórico.
Era-se republicano e era-se monárquico, católico ou ateu, governamental ou oposicionista.
Era-se fosse o que fosse com firmeza, com decisão - Honradamente!
Eleger um credo religioso em uma ideia política, era como que um ato livre da consciência, que impunha deveres e não um cálculo dos instintos que proporciona direitos.
Todos aqueles que, enfileirando num grupo, alinhando atrás de uma bandeira, o faziam apenas por interesse — tinham um único nome: vendidos. Como aqueles que apenas o faziam por medo tinham outro: cobardes.
Era vendido todo aquele que, sabendo bem que atraiçoa as suas ideias mais sagradas, o País e o próprio dever das suas camaradagens — só prezava, para as usufruir largamente, as vantagens da sua traição.
E todo aquele que, com medo de sofrer, traía; com medo de lutar, abandonava; com o medo de perder, desertava — grande miséria — chamava-se cobarde!
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[1] O 9 de Abril
Cap. I - A Traição burguesa nos caminhos da história
- A IDADE MÉDIA
- A IDADE MODERNA
- A REVOLUÇÃO FRANCESA
Cap. II - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- A TERRA
Cap. III - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- A AVENTURA
Cap. IV - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- O ESPÍRITO
- A TRAGÉDIA DA "UNIDADE"
Cap. V - A traição burguesa e as suas alianças
Cap. VI - A traição dos mitos
Cap. VII - Talassocracia
Cap. VIII - No alto da colina
Cap. IX - Caminhos de Esperança
- A IDADE MÉDIA
- A IDADE MODERNA
- A REVOLUÇÃO FRANCESA
Cap. II - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- A TERRA
Cap. III - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- A AVENTURA
Cap. IV - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- O ESPÍRITO
- A TRAGÉDIA DA "UNIDADE"
Cap. V - A traição burguesa e as suas alianças
Cap. VI - A traição dos mitos
Cap. VII - Talassocracia
Cap. VIII - No alto da colina
Cap. IX - Caminhos de Esperança