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1945 - Rolão Preto - A Traição Burguesa
CAPÍTULO VI

A Traição dos Mitos

RESUMO
Neste capítulo, Rolão Preto dirige ao espírito burguês uma acusação severa: nele vê uma das forças que mais profundamente corroem a unidade nacional, regional e social. A burguesia surge-lhe como mundo de susceptibilidades, invejas, rivalidades e egoísmos. Onde o seu clima moral se instala, a paisagem espiritual empobrece: tudo se nivela, tudo se apequena, e cada homem deixa de reconhecer no outro um companheiro de destino para nele descobrir apenas um rival, um obstáculo, quase um inimigo.
É nesse solo árido, trabalhado por despeitos e interesses, que germinam os grandes mitos burgueses. O mito não aparece aqui como impulso criador ou esperança comum, mas como máscara, artifício e mistificação: palavra nobre posta ao serviço de uma classe. Daí que a oposição entre “direitas” e “esquerdas” se apresente como batalha fantasmagórica de fórmulas equivalentes. Umas vezes, o mito serve de poltrona cómoda onde a burguesia repousa; outras, converte-se em espada brilhante que ela agita quando lhe convém.
Entre os mitos da “direita” avultam a ordem, a tradição, a cultura, a sabedoria, o bom senso e a caridade. A ordem burguesa não é justiça viva nem harmonia superior: é polícia que vela, censura atenta, renda paga, juro certo, Bolsa favorável, casa de veraneio, teatro, missa, jornal à hora do pequeno-almoço e toda a engrenagem tranquila dos privilégios. É o mundo disposto para que nada perturbe o conforto, a segurança e o regalo dos satisfeitos.
A tradição, por seu turno, é denunciada como história escrita em proveito da burguesia. As revoluções só lhe parecem legítimas quando traem o seu primeiro impulso popular e acabam por servir a ordem burguesa. Da Revolução Francesa a Napoleão, da Comuna de Paris à República Portuguesa, repete-se o mesmo drama: a esperança nasce no povo, mas a burguesia vela, desvia, amortece e recolhe o fruto. Também a monarquia é lida por esse prisma: há reis ajustados ao clima burguês, como Luís Filipe e D. Luís I, e há em D. Carlos a tentativa trágica, embora vencida, de reagir contra o regabofe constitucional da classe dominante.
O mito da cultura é talvez um dos mais incisivamente desmascarados. A burguesia converte a cultura em emblema de distinção, privilégio de casta e torre de marfim, onde académicos, eruditos e catedráticos se afastam da verdade criadora. Contra essa cultura de arquivo, sebenta e prudência imóvel, Rolão Preto deixa entrever a exigência de uma inteligência voltada para a vida, para o risco e para o futuro. No retrato satírico que traça, o catedrático típico não cria: adopta; não avança: recua; não abre caminho: espera que o caminho esteja feito para então o reconhecer.
Do outro lado, na “esquerda” burguesa, erguem-se os mitos da liberdade, do progresso social, do igualitarismo e do materialismo. Também estes se revelam fórmulas parciais, contraditórias e interessadas. A liberdade burguesa concede-se quando favorece o grupo dominante e nega-se quando ameaça os seus hábitos ou poderes. A liberdade económica e política degenera, muitas vezes, no direito dos fortes imporem a sua vontade aos fracos.
No desfecho, direita e esquerda burguesas deixam de figurar como alternativas verdadeiras: são antes duas máscaras da mesma mistificação. Os seus mitos equivalem-se porque ocultam interesses, legitimam traições e desviam o homem da verdade profunda da sua condição. Traída pelos próprios mitos que fabricou, a burguesia entra em desagregação; e nessa traição dos mitos encontra Rolão Preto uma das chaves da grande crise moderna do mundo.


​CAPÍTULO VI


A Traição dos Mitos
NADA mais atreito a atraiçoar a unidade nacional, a unidade regional, a unidade do grupo, do que o espírito burguês. É que em verdade nada mais susceptível, invejoso, querelento, — egoísta, enfim, do que a burguesia.
 
Onde quer que triunfe o seu clima moral, a paisagem espiritual é campo raso, vasta charneca onde se não ergue um pinheiro, tudo nivelado na mediocridade que nasce de terreno sáfaro, sob a cresta de um sol implacável. E também nada mais disperso, dividido, insolidário, que esse chão de areia onde cada um é o centro do mundo e onde cada qual tem o semelhante como um émulo, um concorrente, um estorvo, um inimigo, que se vê cair com satisfação e subir com ódio.
 
Ai daquele que neste duro deserto em que raramente sopra uma brisa fresca ou coalha o rocio de uma umidade fecunda —ai daquele que, nesse deserto da insensibilidade e da hostilidade burguesa, ouse desdobrar as asas da sua inquietação e erguer-se no impulso viril dos seus anseios. Cada passo que dá é uma batalha. Por toda a parte pressente e sente a resistência dos despeitos e das invejas.
 
Quando se diz que «ninguém é profeta na sua terra» é que se verifica como a ternura dos carinhos ou o amparo da confiança, que mais justo seria obter entre os que nos viram nascer e erguer ao sol da vida, só vêm um dia de estranhos. Estes, ao acarinharem e ampararem aquele que chega, ultrapassam os seus próprios sentimentos — as suas vaidades e as suas emulações — acarinhando e amparando nele, a própria esperança ou o mito que ela faz surgir.
 
O Mito... Nenhum terreno mais propício para a sementeira e crescimento de mitos do que esse em que os sentimentos estão naturalmente voltados para um conceito artificial e contraditório das realidades— em que as convicções são em geral pensamentos que se não analisam e seguem a regra fixa de um partido tomado—a ideia sem base, a grosseira mistificação da verdade, por interesse de um julgamento particular ou de facção.
Assim, o mito entra na vida burguesa e explica os mais misteriosos lances da sua história agitada. Diversas são as condições em que ele nasce, como vária a maneira prática como a burguesia se serve dele. Sempre, porém, no caminho da sua marcha, o mito foi essencial para lhe dar um sentido característico.
 
Que é, por exemplo, a luta entre «esquerdas» e «direitas» senão uma batalha fantasmagórica de Mitos?
 
Umas vezes, para a Burguesia, o seu mito é cómoda poltrona para digestão e repouso, outras é arma brilhante e vingadora que ela brande e agita como uma espada.
 
Eis pois os mitos da «direita», da ordem burguesa, da «cultura», da «tradição», da «sabedoria», do «bom senso», da «caridade»... e, por outro lado, os mitos da «liberdade burguesa», da «ciência», do «progresso social»...
 
A ordem burguesa é um daqueles mitos confortáveis onde a «direita» se senta para ver desfilar, com justo optimismo, toda a filosofia do seu conceito de vida.
 
Quando verdadeiramente se acredita na Ordem, a Justiça e todas as complicações que traz o seu clamor, passam a um plano de muito mais suaves perspectivas.
 
A «ordem» é indiscutivelmente a polícia que vela, a guarda republicana que ronda, a censura, atenta que vela; são os juros que, doa a quem doer, entram no dia certo; as rendas das terras distantes, que, por cima das geadas que crestam ou dos temporais que tudo arrastam, têm de chegar dentro do prazo fixado; são as cotações da Bolsa que sobem; o relatório da Caixa de Depósitos e o «superavit»; é a missa de S. Domingos, indo no «Buick»; a estreia no «Tivoli» ou no «Trindade», indo no «Packard»; é uma casa na Linha de Cascais ou na Póvoa; é o mar e os prazeres da season; a neve vista de palanque; os bailes de carnaval e as capas de peles de trinta contos; é o «Diário de Noticias» com os eggs and bacon todas as manhãs, e as notícias da guerra lidas à pressa, nos jornais da tarde, à hora do chá... A Ordem é assim o conjunto harmónico de todas as coisas agradáveis deste mundo, panglossicamente disposto para que tudo funcione e trabalhe e se suceda em benefício da tranquilidade e do regalo burgueses.
 
A Ordem tem de resto os seus símbolos augustos nos quais o burguês fita e ausculta o tempo e o seu mistério. A «ordem» é o sr. Júlio Dantas, o sr. Augusto de Castro, o sr. José Alberto dos Reis. O discurso comemorativo, o «fundo» dos dias solenes e a sermonata política congratulatória. E para que isto seja, a Burguesia tem muitas vezes, em seu favor, razões que limitam, equilibram e ordenam a marcha do mundo.
 
Para ela o próprio tempo é uma grande máquina que corre veloz, ao longo da eternidade, mas, sobre os rails, com paragens obrigatórias e horário estabelecido... Toda a linha de rotura é uma catástrofe, toda a inovação é um salto fatal no desconhecido, todo o espírito revolucionário uma aventura, que desmente a regra da marcha segura. A regra vem de longe, pelo caminho batido dos pés dos homens, e tem uma fonte de eterna inspiração e sabedoria - a tradição.
 
A «tradição» é para a Burguesia a história escrita em proveito de uma classe.
 
Há revoluções burguesas, mas essas não ferem o bom senso, antes diante delas se extasia a eloquência dos historiadores burgueses — a de 1830 em França, por exemplo; ou, entre nós, o 5 de Outubro.
 
Uma revolução pode ser de início uma onda de fundo, um sobressalto de sincera cólera, de justo anseio popular; mas, para a burguesia, só em verdade começa a ter sentido histórico quando ela se deixa atraiçoar nas suas intenções e nos seus objetivos não burgueses.

Todo o drama de 89 é obscuro, misterioso e contraditório.
 
Doidos nos são apresentados alguns dos seus protagonistas; grotescos e sanguinários, sem desculpa, nos mostram os outros.
 
Em certa altura, porém, o sol aparece radioso em pleno azul, sem nuvens... Uma sensação de puro alívio nos vem do fundo dos tempos: Napoleão.
 
Napoleão. A mais completa, a mais consciente, a mais rematada traição burguesa do Século XIX.
 
Eis outro exemplo: um dia, diante da debacle e da traição de 70, levanta-se sôbre as ruínas da pátria o povo de Paris — é a comuna.
 
Mas a Burguesia velava - «derrière la Commune»— disse um dia Briand, num famoso duelo parlamentar com Léon Daudet, — «derrière la Commune, Monsieur Daudet, c'était déjà la République». E era mesmo. Era essa terceira república, a consagração mais acabada, o triunfo mais vasto e duradoiro da Burguesia moderna, que assim assentava o seu poder sobre os montões de cadáveres do povo, que a ordem burguesa de Versailles abatera a tiro nas barricadas.
 
Mas reis há também que são burgueses: Luís Filipe ou o nosso D. Luís I.
 
São chefes de Estado, que permanentemente abdicam para se adaptarem às circunstâncias, evitando assim atritos e complicações, alheios a tôda a atitude varonil, fugindo a tôdas as responsabilidades que impõem grandeza.
 
Luís Filipe é o mandatário de uma burguesia cansada das aventuras do Império, ávida de ganho e dos prazeres da paz — bonacheirão, pacífico, sanguíneo amador das boas cozinhas -, Rei por direito divino de um Deus burguês, a quem a burguesia pagava as túnicas e as festas.
 
D. Luis I, prudente senhor, que, ao desembarcar do seu cruzeiro de oficial de marinha para assumir as «rédeas do poder», soube ser dócil às indicações da Burguesia - indicações que um seu ministro ali mesmo no cais lhe segredou, no mistério da hora trágica da morte do Rei D. Pedro V e dos irmãos... D. Luís I foi o monarca ideal onde cresceram e floriram todas as «virtudes» da «civilização burguesa». O «Fontismo» e o seu «clima» de estradas e portos; o grande Pacheco e a sua «sabedoria»; o grande Acácio e a sua «prudência«; o Padre Amaro e a sua Amélia; o túnel do Rossio e os seus escândalos; os partidos rotativos e as suas fantochadas eleitorais; Palma Cavalão e as suas espanholas; a ordem pública e o seu Milício; o Conselheiro Arrobas e o Déficit.
 
Companhias fraudulentas, negociatas, monopólios e o Rei impassível!
 
Pic-nics, jantares na Côrte, récitas de gala em S. Carlos. A Burguesia contente.
 
D. Luís I, o Bom...
 
Certo dia vem D. Carlos, o assassinado.
 
É que, ao contrário de D. Luís, o rei burguês que foi de começo, D. Carlos sente reagir em si a fibra de um protesto, o clamor ancestral dos Reis que eram chefes; dos Reis que não aceitavam ser conduzidos; dos Reis que mantinham uma atitude viril e marcavam, com o seu risco próprio, um caminho audaz e certo.
 
O choque da realeza de D. Carlos com o regabofe constitucional da Burguesia era inevitável.
 
O erro de João Franco, seu ministro e excitador, foi o de querer fazer obra antiburguesa com o apoio de partidos que burgueses eram também; o partido franquista e o partido católico.
 
Os homens do «franquismo», di-lo a história dos nossos dias, tirante raras e belas excepções que sempre se mostraram fiéis ao sonho reformador do seu chefe, mesmo depois que este baixou ao barro úmido e sangrante do seu Alcaide natal, os homens do «franquismo», viu-se bem pelas traições, em todos os campos onde os evidenciou o destino, como era de vil burguesia a sua essência [1].
 
Dos homens que sob o signo católico e nacionalista alinhavam atrás da bandeira de Jacinto Cândido, apoio de Franco, fala o testemunho das suas aventuras «católicas» e «nacionalistas» pelas veredas e atalhos burgueses por onde assaltaram até hoje, empresas, conezias e outros santos lugares, de onde não se sabe se se avista melhor o céu, mas de onde com certeza se domina melhor esta misera e precária terra...
 
Uma obra antiburguesa só se podia fazer com o apoio do povo, mas o povo era massa amorfa cansada de impostos, de misérias e, sobretudo, de decepções. Não era o ditador quem podia chamar e fazer-se ouvir do povo.
 
E o rei, de sua realeza só tinha a alma. Entre o rei e as forças que dormiam no povo estava a traição burguesa de todo um século.
 
Poderia o «5 de Outubro» ter conseguido, mais tarde, essa onda de fundo popular resgatadora? Chegou-se a pensá-lo.
 
Mas o movimento que parecia ter penetrado na alma ansiosa do povo, tinha sido provocado de facto pela Burguesia e, naturalmente, com intenções bem diversas. Por isso, logo sobre ele pesou a traição que o amorteceu, desviando-o para batalhas inúteis enquanto, mercê do impulso inicial, a Burguesia conquistava as últimas posições que pertenciam ao seu domínio sem limites.
 
A República nascida na Rotunda foi assim, com algumas intermitências castrenses, uma farândola de interesses e um jogo permanente de traições.
 
Assim, quando a Burguesia invoca o mito da «tradição» ela sabe na verdade ao que se atém. E não é só a «tradição» política, que se diz vir de longe, mas a Tradição dos costumes que essa nasce na noite dos tempos: enriquecer, manobrar, tudo o mais é secundário. Por exemplo: a Tradição da Honra — da honra burguesa... O «honrado comerciante da nossa praça... «Trocaram-se dois tiros sem resultado»...
Numa página do grande Forain na «Comédie Parisienne» uma mãe invectiva, solene, diante do marido hierático, seu filho ferido, de braço ao peito:
 
«Se te tivesses batido por uma mulher casada, vá...
 
Mas bateres-te por uma mundana, é abominável.»
 
Outra tradição famosa da burguesia, tradição tantas vezes invocada como pedra angular de uma moral social que lhe é própria, tal é a tradição da «lealdade». Lealdade nos negócios, nas camaradagens, nos tratados...
 
Não foi Maquiavel quem ensinou aos príncipes as regras da «sabedoria» e da «prudência» burguesas, no mais perfeito tratado de governação dos homens pela felonia e simulação de todos os instantes?
 
No mito de «cultura», como expoente da sua civilização, tem a Burguesia insistido demasiado para que alguém desconheça as suas cumplicidades em quantas traições nessa palavra se consagram.
 
Com efeito, se a «Caridade» é o brasão da burguesia na luta com a Justiça, a «Cultura» sê-lo-á na sua espiritualidade em luta com a «Verdade»-ambos brasões de classe, signos de «elite», timbres de uma nobreza por que a burguesia anda eternamente suspirando.
 
Assim, a verdadeira cultura, para os burgueses, não passa de uma determinada cultura, aquela que mais se presta a erguer torres de marfim; feudalismos pessoais onde se isolam príncipes de encantamento nas artes poéticas; barões assinalados da História e da Geografia; mestres de armas na polémica; nobres gardingos das Pandectas; cavaleiros da erudição e do Arquivo.
 
Cá por baixo, em torno dos castelos feudais que a «cultura» ergue á Burguesia, os humildes mirando de longe os outeiros, onde se recortam as altas ameias; ou vendo desfilar pelas alamedas, as orgulhosas cavalgadas da glória burguesa, enquanto eles, pobres mesnadas de néscios, de ignorantes que Deus não fadou para atingirem as culminâncias da Filosofia, da História, da Estilística, da Pragmática são a pobre gente que vos contempla, ó Burguesia!
 
Porque, enfim, nasce-se com o destino superior de vir a ser considerado culto pela Burguesia, ou não.
 
Tudo o mais será inútil.
 
Deste modo pode-se ser engenheiro, diretor de um departamento de Estado e diretor de um jornal em Lisboa, como é o caso do senhor Luís Fernando de Sousa, e, circunstância singular, ser apontado como analfabeto pelo erudito e aliás alto espírito do sr. Alfredo Pimenta, porque esse evidentemente, tem pergaminhos de Culto e dos mais legítimos.
 
E que para a cultura, no conceito acreditado pela Burguesia, para o sr. Alfredo Pimenta, é evidente que o sr. eng. Luís Fernando de Sousa será capaz de todos os algebrismos a que o obriga a sua profissão; será competente para lançar o arco de uma ponte ou levantar o dique de uma barragem; conhece as matemáticas, a química, a física, a geologia; é um técnico; traduz por equações subtis a elegância de uma curva no espaço e exprime em fórmulas seguras a resistência dos materiais; mas saberá ele, em verdade, por que razão Amenópolis casou com uma fenícia?
 
Conhecerá ele, e até que ponto, as razões do subjetivismo de Protágoras ou do atomismo de Demócrito?
 
E, mais perto de nós, poderá ele dizer-nos que esta era a divisa de Duguesclin: «Fais ce que dois, advienne que pourra»?...
 
Assim, a cultura é o signo de distinção de uma classe eleita, ambrósia de deuses, precioso alimento de raros e soberanos senhores.
 
São considerados, por tácito assentimento, expoentes máximos dessa cultura, os «imortais» das «Academias» e os catedráticos.
 
Na «cultura», como nos vinhos de fina essência, cada povo tem, porém, a sua especialidade!
 
Em França, por exemplo, é para os académicos que vai toda a admiração das gentes.
 
É que em França quando alguém chega a imortal é quando mais faz para se imortalizar, nas ciências, nas artes, no valor criador.
 
Em Portugal, pelo contrário, aquele que atinge as culminâncias da imortalidade, em geral, não faz mais nada... senão morrer.
 
Entre nós, talvez por isso, não vai em demasia aos académicos o favor popular. Os catedráticos, esses sim, que pesam de uma maneira particular na imaginação reverenciadora do país. E que à imagem dominante da sua «ciência» junta-se o terror ancestral de quantos «imploraram» a sua valiosa «proteção» ou tentaram servilmente captar, de qualquer forma, a sua benevolência de omnipotentes nos exames...
 
O catedrático é um senhor que eternamente exibe a sua faculdade de ensinar. O Lente está sempre dando lição. Numa carruagem do caminho de ferro, numa mesa de hotel, no passeio público, em família, a propósito do rol da lavadeira, ou na vida pública falando de estatísticas ou apreciando contas gerais do Estado...
 
O Lente sabe tudo e tem no seu destino um raro privilégio: nunca se engana. Daí lhe nasce um orgulho que infunde carácter, tornando sempre mais circunspectas as suas atitudes.
 
O catedrático nunca se engana porque a sua prudência sabe pôr rigoroso limite à sua ciência: o limite natural que tem o livro, o «tratado» que a sua sabedoria adoptou.
 
Assim, o Lente não cria, adopta...
 
Pacientemente acomodado na sua cátedra, ele sabe esperar que as ideias, os sistemas, as instituições nasçam, tomem corpo e marchem, é para, na hora própria, as «perfilhar». É o seu ofício. É a sua missão.
 
Eis porque o Lente avança de costas sistematicamente voltadas para o futuro. Falta-lhe essa dimensão de tempo.
 
Conhece, é certo, até à minúcia profissional, o Passado e o Presente, que está estabelecido regulamentarmente nos compêndios oficiais. O seu dever impõe-lhe que deles extraia a sebenta, com rigorosa obediência ao que está exposto e com toda a precisão nas vírgulas. Mas o seu conformismo profissional também se opõe formalmente a que ele veja, sinta e ouse pensar para além do que está já escrito.
 
Desta maneira, o catedrático avança recuando e jamais se volta para a frente, apontando nos tempos a vir um caminho e uma esperança.
 
Poder-se-ia enganar... e isso seria um atentado à «dignidade» da sua aristocracia de «culto».
 
A traição burguesa na «cultura» faz assim que as Universidades andem como andavam os austríacos: «atrasados numa ideia e numa época».
 
Havia largo tempo que o Integralismo vencera a batalha espiritual contra a liberal-democracia e ainda a maior parte dos catedráticos acertava o passo constitucionalista, arrancando aos velhos argumentos as derradeiras conclusões com que justificavam a sua lealdade aos poderes de então.
 
Viu-se depois o fervor com que certos de entre eles se fizeram «totalitários» e assim permaneceram, enquanto um novo «humanismo», personalista e comunitário, os ultrapassa, erguendo por cima das ruínas do mundo uma nova consciência dos deveres e dos direitos do Homem.
 
Bem entendido que este espírito de «catedrático» é uma doença, ou antes, uma deformação, que nem a todos os catedráticos atinge.
 
Alguns, e não dos menos ilustres, se lhes mostram refratários. Essas honrosas excepções são demasiado notórias, para que espontaneamente se não faça a necessária destrinça.
 
Do «outro lado» há o mito da «Liberdade», isto é, o plano em que se assegura o triunfo de certas tendências que alinham à «esquerda política: mas nele não se aceita a possibilidade do triunfo de quaisquer outras... É a liberdade de poder atacar as crenças religiosas, que nega o direito de as poder confessar. Negar, por sistema, aos outros, a possibilidade que lhes multiplica as faculdades de ação, de apoiarem a sua esperança no imponderável; enquanto para si reivindicam o direito de eleger todos os pragmatismos que justificam as suas superstições...
 
A liberdade religiosa burguesa pode concretizar-se nesta fórmula, todos os dias posta à prova entre nós: quando triunfa a «esquerda» ai do que vai à missa; quando triunfa a «direita» pobre de quem lá não vai...
 
Quanto à liberdade económica e à liberdade política burguesa, elas significam, na maior parte das vezes, o direito de que os poderosos se arrogam para impor a sua vontade aos mais fracos...
 
O conceito burguês de liberdade é assim a expressão bem clara de um privilégio. Privilégio de posição, privilégio de casta.
 
Outro mito, à «esquerda» burguesa é o mito do «progresso social»; e, esse, condiciona esta moral de que os esmagamentos, as derrocadas e as lágrimas sejam só admissíveis de um lado da barricada, que evidentemente nunca deve ser o lado daqueles que por esse progresso anseiam ([2]). Paredes meias revela-se o mito do «igualitarismo», a que, com justiça, se pode contrapor o mito da «direita» de «política de verdade».
 
Mitos que se equivalem, pois partem soberanamente de postulados que um justo realismo todos os dias põe em discussão.
 
Eis ainda o mito do «materialismo», expressão em que se opõe a matéria aos direitos do Espírito, absurdo que tende a separar duas partes integrantes de um mesmo todo.
 
Os comunistas, é certo, têm razão quando reclamam o bem-estar material do homem.
 
Com uma condição porém: a de que se considere sempre que esse bem-estar não é um fim, mas um meio, para que o homem atinja outras culminâncias —as espirituais.
 
A miséria, a fome, o sentimento do abandono, podem acordar, e de certo modo acordam, os instintos; mas não anulam a realidade Homem, que antes de tudo é consciência.
 
 
*
 
 
Esta batalha de mitos, em que a Burguesia todos os dias revela a face de novas traições, denuda-se cada vez mais numa farândola trágica e grotesca de mistificações e desenganos, que formam o processo moderno da sua desagregação e perda irreparável. A traição dos mitos burgueses explica, só por si, a grande crise do mundo.
 
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[1] Ficou célebre o famoso grito de João Franco na hora perturbadora em que assumiu o Poder, quando, sôbre êle já galgava a onda dos apetites de quantos só vêem no Chefe o condutor do assalto aos bons lugares do Estado. Na sua inquietação dramática, sentindo-se avassalado pela pressão sôfrega da ambição burguesa dos correligionários, exclamava: «Quem fôr meu amigo que não me peça nada !».

[2] Assim, quantos advogados e quantos médicos, que ganham em cada ano uma fortuna, e que reclamam a divisão da propriedade agrícola... Eles, cujos rendimentos, sem riscos, são incomparavelmente maiores que os de tantas grandes lavouras, que um mau ano tudo pode fazer perder.

 [ Negritos acrescentados ]

Exemplos históricos e figuras citadas:
  • Revolução de 1830 em França — apresentada como exemplo de revolução burguesa aceite e celebrada pela própria burguesia.
  • 5 de Outubro de 1910 / República Portuguesa — referido como movimento inicialmente visto como possível renovação popular, mas depois descrito como capturado por interesses burgueses.
  • Revolução Francesa de 1789 — chamada de “drama de 89”, vista como processo contraditório que culmina numa traição burguesa.
  • Napoleão Bonaparte — descrito como “a mais completa” traição burguesa do século XIX.
  • Debacle de 1870 — contexto da derrota francesa e da crise que antecede a Comuna.
  • Comuna de Paris — apresentada como levantamento popular posteriormente traído e esmagado.
  • Terceira República Francesa — vista como triunfo duradouro da burguesia moderna, surgido sobre os cadáveres da Comuna.
  • Versailles — associado à repressão da Comuna pela ordem burguesa.
  • Luís Filipe de França — citado como exemplo de rei burguês, adaptado aos interesses da burguesia.
  • D. Luís I de Portugal — também apresentado como monarca burguês, dócil ao ambiente político e económico da burguesia.
  • D. Pedro V — mencionado no contexto da subida de D. Luís I ao trono.
  • D. Carlos I — retratado como rei que tentou reagir contra o “regabofe constitucional” burguês.
  • João Franco — criticado por tentar uma obra antiburguesa apoiando-se em partidos também burgueses.
  • Partido franquista — citado como exemplo de apoio político contaminado pelo espírito burguês.
  • Partido católico / grupo de Jacinto Cândido — referido como outro apoio que o autor considera preso a interesses burgueses.
  • Fontismo — citado como símbolo da civilização burguesa portuguesa, ligada a obras públicas, interesses e negociatas.
  • Túnel do Rossio — mencionado como exemplo de escândalo associado ao período.
  • Partidos rotativos — apresentados como parte das “fantochadas eleitorais” do sistema político burguês.
  • Maquiavel — citado como referência à prudência, simulação e felonia política.
  • Integralismo — referido como movimento que teria vencido espiritualmente a liberal-democracia.
  • Liberal-democracia — criticada como sistema ultrapassado.
  • Totalitarismo — mencionado no contexto da adesão tardia de certos catedráticos a novas correntes políticas.
  • Comunismo / comunistas — citados na discussão sobre materialismo e bem-estar material.
​

Também aparecem nomes de intelectuais, políticos e figuras culturais, usados como referências ou exemplos dentro da crítica do autor:

·       Júlio Dantas — apresentado como símbolo da “ordem” burguesa.
·       Augusto de Castro — também associado aos símbolos da ordem e da solenidade burguesa.
·       José Alberto dos Reis — incluído no mesmo grupo de figuras representativas da ordem burguesa.
·       Briand — citado por uma frase sobre a Comuna e a República.
·       Léon Daudet — interlocutor de Briand no “duelo parlamentar” referido.
·       Forain — autor de uma página da Comédie Parisienne usada como exemplo irónico sobre a honra burguesa.
·       Luís Fernando de Sousa — usado como exemplo de técnico competente desprezado pela cultura erudita burguesa.
·       Alfredo Pimenta — citado como representante de uma conceção erudita e aristocratizante da cultura.
·       Amenópolis — mencionado como exemplo de saber histórico erudito usado ironicamente.
·       Protágoras — citado a propósito do “subjetivismo”.
·       Demócrito — citado a propósito do “atomismo”.
·       Duguesclin — lembrado pela divisa francesa: “Fais ce que dois, advienne que pourra”.
·       Pacheco — referido como “o grande Pacheco”, ligado ao ambiente do Fontismo.
·       Acácio — referido como “o grande Acácio”, símbolo de prudência e retórica burguesa.
·       Padre Amaro — alusão literária, associado à crítica da civilização burguesa.
·       Amélia — mencionada juntamente com Padre Amaro.
·       Palma Cavalão — citado no retrato satírico do ambiente burguês.
·       Milício — associado à ordem pública.
·       Conselheiro Arrobas — ligado à referência ao défice.
·       Jacinto Cândido — líder do grupo católico/nacionalista que apoiava João Franco.
 
A referência a Alfredo Pimenta surge no contexto da crítica ao mito burguês da cultura. Rolão Preto está a atacar a ideia de que “ser culto” significa pertencer a uma elite erudita, académica e livresca. Para ele, a burguesia transforma a cultura num sinal de distinção social, quase como um título de nobreza: quem domina certas referências históricas, filosóficas ou literárias é considerado “culto”; quem possui apenas saber técnico ou prático pode ser desprezado como inferior.
É nesse ponto que aparece Luís Fernando de Sousa, apresentado como engenheiro, diretor de um departamento do Estado e diretor de jornal. Apesar dessas competências, ele teria sido chamado de “analfabeto” por Alfredo Pimenta, descrito ironicamente como “erudito” e “alto espírito”. O autor usa o caso para mostrar o absurdo dessa conceção de cultura: alguém pode dominar matemática, física, química, geologia e engenharia, mas ser desvalorizado por não conhecer certas minúcias eruditas — como referências a Amenópolis, Protágoras, Demócrito ou Duguesclin.
Ou seja, Alfredo Pimenta funciona aqui como exemplo de uma cultura entendida como erudição aristocrática e exclusivista. A crítica não é apenas pessoal; ele representa, no argumento do capítulo, o tipo de intelectual que mede a cultura por pergaminhos, citações e saberes raros, em vez de a ligar à criação, à verdade, à utilidade ou à vida concreta.
A referência e citação de Alfredo Pimenta citação serve para denunciar uma cultura usada como instrumento de hierarquia social, separando os “cultos” dos “ignorantes” segundo critérios que Rolão Preto considera burgueses, artificiais e vaidosos.
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Cap. I - A Traição burguesa nos caminhos da história
​- A IDADE MÉDIA
​- A IDADE MODERNA
​- A REVOLUÇÃO FRANCESA
 

Cap. II - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
​- A TERRA


Cap. III - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
​- A AVENTURA


Cap. IV - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
​- O ESPÍRITO
- A TRAGÉDIA DA "UNIDADE"


Cap. V - A traição burguesa e as suas alianças

Cap. VI - A traição dos mitos

Cap. VII - Talassocracia

Cap. VIII - No alto da colina

Cap. IX - Caminhos de Esperança

Francisco Rolão Preto, 1893-1977
​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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