1945 - Rolão Preto - A Traição Burguesa
CAPÍTULO VIII
Do alto da colina da decepção
Do alto da colina da decepção
RESUMO
Do alto da colina amarga, onde a memória contempla o vale imenso das ilusões desfeitas, o autor vê passar diante de si o cortejo sombrio de uma geração vencida: esperanças tombadas em cinza, entusiasmos extintos, cidades abertas como feridas, povos esmagados sob o peso de ambições que se julgaram eternas. A Europa, mãe exausta e ensanguentada, aparece como o grande sepulcro dos sonhos modernos; e sobre ela pesa a acusação lançada aos condutores dos homens, cegos entre cegos, que fizeram da força uma religião e da guerra o instrumento absurdo da grandeza. A queda da Alemanha revela a inutilidade trágica dos imperialismos: nem a disciplina, nem a técnica, nem o fervor de um povo bastam para vencer a lei profunda que reúne contra o dominador todos os temores e todas as resistências. Também o sonho romano de Mussolini, nascido entre ruínas antigas, luas africanas e fantasmas de César, se dissolve como manto de púrpura tornado fumo, arrastando consigo império, poder, glória, família e destino pessoal. De todas essas ruínas ergue-se a lição dolorosa do capítulo: quem trai o Humanismo paga sempre preço duro, e nenhuma nação se engrandece pela conquista se não souber elevar cada cidadão pela justiça. Resta, por fim, no cimo da mesma colina, a visão mais íntima e mais amarga: a traição burguesa, feita de cálculo, cobardia, lucro, vaidade e medo — traição dos outros e de nós próprios, sempre pronta a vender ideais, camaradagens e dignidade por um lugar ao sol do Poder.
CAPÍTULO VIII
Do alto da colina da decepção
Do alto da colina da decepção
Do alto da colina da decepção alonga-se e esbate-se até aos horizontes nublosos da saudade o vasto e desolado panorama de trinta anos, que são a nossa vida de luta e de esforço duro ao serviço do ideal de Justiça. Trinta anos de batalhas perdidas, esperanças que se desfizeram em fumo amargo, ilusões que ao morrer nos deixaram na alma o eco de grandes dores; dúvidas que se tornaram esfinges monstruosas, entusiasmos que se apagaram e caíram em cinzas frias sobre o frio do nosso coração.
Até onde os olhos do espírito penetram e alcançam, assim se desenrola, amargo e infinito, o mar gelado, o largo oceano onde se subverteram tantas vidas fortes que amámos ou combatemos e vimos desaparecer com espanto e angústia; o oceano temeroso ao longo do qual sopra a nostalgia do tempo morto, da alegria perdida, da inquietação inútil...
Decepção!
Heróis que se tornaram cobardes, míseros que surgiram «senhores», honestos que se revelaram ladrões, indigentes que acordaram nababos, cordeiros que se tornaram déspotas; civilizados com o coração de bárbaros, cristãos com espírito de Satanás, e aqueles que nós um dia erguemos sobre os escudos votivos dos nossos peitos ardentes e custodiámos porfiadamente com as nossas lanças em duras refregas, para que melhor se consumasse um dia a sua traição para com os ideais comuns, as esperanças comuns e as comuns camaradagens...
Desolado panorama de ruínas, massacres, desenganos, abandonos, tiranias, vexames e sepulturas. Eis a Europa-madre, abatida, exangue, alucinada; amarga extensão de cidades mortas, sepulcro monstruoso de milhares de inocentes, que morderam o pó na mais assombrosa catástrofe da História.
Eis a obra da nossa geração, ó democratas, ó nacionalistas, ó comunistas — responsáveis de todos os países, de todas as ideias, de todos os sistemas; condutores da Europa e do mundo e que a Europa e o mundo conduziram à desolação e ao martírio.
Campos abrasados, enegrecidos, esventrados e para sempre malditos; florestas devastadas, estilhaçadas, soterradas, e para sempre perdidas; searas, frutos, fontes para sempre condenadas.
Parques de maravilha, avenidas majestosas, ruas e praças sem par — tudo desaparecido — e mais do que isso, lares sagrados, todos agora envilecidos, conspurcados, desertos.
Tal a obra desta geração nefasta. Geração inconsciente que meteu alegremente no fundo do mar a riqueza de muitas gerações do futuro, e destruiu, sem que a mão lhe estremecesse de horror, o tesouro de arte inestimável e insubstituível de muitos séculos do passado. Geração de loucos, que não pôde, que não soube e não quis evitar esta guerra, que ela bem sabia ser a mais dura, a mais dilacerante, a mais trágica de todas as desgraças que alguma vez cairiam sobre os homens.
Guerra de perdição, provocada por cegos, conduzida por cegos; guerra de fantasmas, comandada por fantasmas, na mesma birra absurda e sangrenta que lhes moveu os passos ao longo da História, para dominar o mundo...
Como Alexandre, como os generais de Roma, como Napoleão, autómatos pueris, a repetir os velhos gestos inúteis, armando coortes, erguendo parapeitos, arrastando engenhos para o assalto, o massacre, a conquista da terra, sem poderem ver como a terra, que sempre liquida no tempo as vãs ambições dos impérios, agora mais do que nunca lhes escapa...
Insensatos, nem mesmo do alto do nosso século puderam ver que a terra é pertença do Homem.
*
Agora mesmo acaba uma portentosa experiência.
Um grande povo, viril, poderoso, inflamado pelo verbo de um homem extraordinário e conduzido por um grupo de «elite», unido, bravo, heróico, tão heróico que veio a morrer no seu posto e no seu sangue; um povo de altas virtudes nacionais, disciplinado, capaz de todos os sacrifícios, valente, militar por nascimento e vocação; um povo culto, superior nas artes, na investigação científica, nas conquistas da técnica, na orgânica da produção — um povo coevo, com oitenta milhões de almas, onde não se mostra, mesmo nas horas mais duras, uma deserção ou uma discordância; um povo convicto da sua superioridade e da alta missão que o destino lhe teria marcado; um povo destes, armado com as últimas invenções e o mais perfeito aparelho de guerra de todos os tempos — lança-se na batalha, na hora que escolhe e começando por onde quer e todavia é vencido.
Todas as probabilidades parecem do seu lado e, no entanto, perde...
Por largo tempo balança nos seus braços robustos o anjo sorridente da vitória, mas, ao cabo... é derrotado. Derrota completa, total, esmagadora.
—Se não tivesse cometido estes e aqueles erros de estratégia, se não tivesse hesitado em tal circunstância, se tivesse previsto determinado acontecimento, finalmente se não se tivessem juntado tantos contra ela, a Alemanha teria ganho a guerra...- dirão alguns.
E evidente que a vitória está sujeita ao condicionalismo de certas regras, em que a série dos «se» pode ser infinita. A condição mais importante, porém, a condição decisiva está em que aquele que inicia o debate e se revela poderosa ameaça não suscite o temor de todos os que de qualquer forma podem sofrer as consequências.
Seja, porém, quem for que surja no tablado europeu, que se mostre uma força absorvente e dominadora, mobilizará assim automaticamente contra si, primeiro todos os receios, depois todas as forças dos outros. Com a diferença, claro, de que o tablado europeu é hoje solidário do tablado do mundo. E o dilema é este, o eterno dilema da História; ou é possível vencer a tempo todos os povos que possam amanhã sair à liça — e nunca se sabe ao certo quem eles possam vir a ser, ou se há-de ser vítima deles.
Diante, com efeito, do povo forte que chega para tomar o lugar que destrua o equilíbrio anterior - todas as influências cerceadas, todos os prestígios chocados, todos os interesses em perigo - numa palavra, todos os prejudicados ou que o suponham ser, tendem naturalmente a uma convergência que mais tarde ou mais cedo encontra um ponto de apoio, polarizador e animador de uma ação comum que acaba por os libertar do «intruso».
Toda a sabedoria da política da Grã-Bretanha tem sido, além de procurar resistir ao primeiro embate no que é favorecido pelos trinta e cinco quilómetros de água que a separa do continente, ser depois o federador de todos os descontentes, de todos os que julgam ter a perder com o predomínio futuro do seu antagonista. Foi assim que ela fez e refez todas as coligações contra Napoleão, contra Guilherme II, e agora contra Hitler.
Mas a ilusão continua.
O povo forte, instruído, preparado, organizado e inflamado mais do que nenhum outro, no caminho da História, pelo ardor inextinguível de um anseio revolucionário e conduzido pela catapulta poderosa de uma técnica revolucionária—o povo forte foi vencido. A grande experiência consumiu-se. Todo o solo alemão é vasto sudário de ruínas, sepulturas e decepções. E, todavia, para além do exemplo trágico e monstruoso, a ilusão continua...
Novos imperialismos escondem mal nas palavras e nos gestos, a dureza acerada das suas garras... O seu destino não será menos duro nem menos fatal que o dos imperialismos vencidos, certo como é, que idênticas ambições suscitam também idênticas repulsas.
Não importa. Novos sonhos se desenrolam já no campo iluminado de novos anseios, de novas ambições e de novas esperanças. Sonhos de maravilha, tentação eterna de grandeza, a que nenhuma lição da História, nenhuma dor, nenhuma miséria, nenhuma morte alheia podem pôr o limite de um remorso.
Sonhos magníficos, como foi o do Duce Mussolini...
Sonho absurdo mas lindo, sonho iluminado do génio, mas sonho fatal.
- Sobre a «pedra branca» no imenso Coliseu onde por vezes passa o gemido dos séculos que se lamentam de não poder voltar, na vida e na glória das fortes gerações mortas —«nessa «pedra branca» de onde Anatole um dia se debruçou por sobre os abismos do tempo para sentir passar o sopro divino do génio de Roma - sobre a «pedra branca» da grandeza imperial romana, como é natural, visível, quase real, o sonho de um novo império, que como o outro tivesse à cabeça o lugar predestinado, as sete colinas de Roma...
Pobre Duce! Como ele sentiria no alvoroço do seu sangue de soldado do Corso e de revolucionário - romano no amor da terra sagrada da península e romano no conceito de uma missão imperial de Itália, face ao mundo dos «bárbaros» - como ele sentiria no seu sangue o violento assalto desses fantasmas gigantes que fizeram o Império e para sempre ficaram na recordação dos homens, a fazer-lhe guarda e a reclamá-lo como ideia máxima, necessidade suprema, esperança rediviva e única de uma civilização nascida e embalada ao sopro amoroso e fecundo do velho Mediterrâneo!...
Depois, como os destinos de começo, sorriem propícios, avolumando a grandeza louca da miragem! Eis a marcha sobre Roma. Um povo de ociosos e indolentes, um povo artista apodrecido, que de súbito se agita e ferve e vibra ao apelo de uma missão revolucionária e imperial. Eis a Abissínia conquistada e na cidade dos césares um pequeno rei que cinge a grande coroa doirada dos imperadores... Pela Albânia e pelo Dodecaneso, a sombra de Itália projetando-se já sobre os Balcãs e pendendo como uma ameaça sobre a Grécia... Na outra margem, da Líbia ao Egito, uma vida nova a correr por vias imperiais lançadas num esforço hercúleo de cidade a cidade num abraço vigoroso de vontade forte... A tentação da África.
Assim, por certo que foi numa noite, dessas estranhas noites de África, serena, cálida, silenciosa, com uma lua gloriosa prateando as ondas de um areal de seda entre ruínas misteriosas de mármore, que o Duce teceu num momento toda a aventura da sua vocação predestinada. A velha esfinge que vive oculta no encantamento doloroso de todos os desertos, falara-lhe...
Também ali Roma passara e os ecos da sua grandeza triunfal repercutiam eternamente os acentos do seu nome invencível e augusto. Dali, da poderosa Cirene de que o Duce pisava as cinzas, estendera-se a rubra mancha imperial sobre o mapa do mundo antigo, para o Oriente cobrindo o império dos Ptolomeus até Mênfis e Alexandria, sobre o delta do Nilo, que ela galgara, subindo até à Etiópia, para além de Tebas, e até ao Mar Vermelho, para cima de Berenice... Depois, rodeando a costa além do Egito, alarga-se pela Arábia Petreia, a Palestina com Jerusalém e Cesareia, a Fenícia com o rosário deslumbrante de Tiro, Sidon e Beirute, tendo à direita Damasco.
Seguindo agora na direção do Norte conquistara Antióquia e Alepo e para além da Mesopotâmia e da Assíria, avizinhava com os Partas e os Arménios. Depois, reduzira a Capadócia até Trebizonda e correndo agora para os estreitos e para os mares da Grécia, era senhora do intrépido reino de Pérgamo e de Niceia, frente a Bizâncio, por onde o império não descontinuava até Roma... E, virando-se então para o ocidente, o Duce via a sucessão de províncias numa alucinação magnífica: a África Preconsular esmagando Cartago, a Numídia e as duas Mauritânias até Ceuta nas Colunas de Hércules, frente a Gades, à Bética e a essa Ibéria onde o Império já chegara pela cadeia dos Pirenéus, fechando nas suas mãos de ferro todo o Mediterrâneo, como um lago manso e submisso...
Alongara-se a meditação do Duce no mistério da noite. Para além das dunas a madrugada adivinhava-se no horizonte. A simum começava a despertar, sacudindo os leques de oleado das palmeiras.
Na sua viagem pelo mundo irreal da invocação não se dera conta nem do tempo nem do espaço. De súbito, porém, estremeceu. Por largo tempo caminhara entre ruínas, às quais a lua branqueava de mistério. Atravessava agora um pórtico altivo que desafiara o tempo no meio da derrocada das colunas... A lua, próximo do poente, criava um mundo agitado de sombras enigmáticas e absurdas. E foi então que o Duce claramente viu como a sua própria sombra lhe tecera na claridade incerta do luar o vasto manto solene dos Césares que atrás de si arrastava...
... Sonho de sombra... manto de púrpura que se torna em cinza... A guerra... O ataque à irmã França, já vencida, a triste aventura da Grécia, as misérias da Abissínia, da Somália e da Eritreia, as hesitações de Graziani, que deixa fugir das mãos a vitória, as humilhações do enquadramento germânico... E o manto de púrpura esfarrapando-se, evolando-se em fumo. A grande armada que se deixa mutilar, pouco a pouco, sem honra, apesar dos desafios chicoteantes de Churchill, a aventura de Rommel e o «quadrado roto» de Almain, a retirada, a fuga, a Tunísia, a Sicília, a reunião do Grande Conselho, a atitude do Rei, o fim... Manto, Império, Reino, Poder, tudo se lhe desfaz por entre as mãos impotentes e trágicas, como num pesadelo Shakespeariano.
Pobre Duce! Poderá haver mais amarga, mais alucinante tragédia que a do seu destino de homem público, de chefe orgulhoso de uma nação que, afinal, de si própria deserta, se liquefaz e cai de joelhos miseranda? Pois há ainda. É a amarga, a alucinante tragédia pessoal de Benito Mussolini. É o seu filho, o seu orgulho de pai, asas gloriosas da aviação italiana, que se abate e para sempre emudece... Oh! o grito desesperado, o choro convulso, o trágico apelo que do fundo do coração de Mussolini se ergue aos Destinos, conjurando-os para que cesse a sua implacável crueldade! Mas o cálice horrível ia agora encher-se.
É o genro, o companheiro da filha mais querida, aquele que por amor dela ele acumulara de honras e de benesses, e, que na hora fria em que todos o abandonam primeiro que nenhum outro o abandona também... São os amigos mais íntimos, camaradas das horas difíceis e das horas de glória, soldados do mesmo ideal e da mesma esperança — são os velhos amigos que ele distinguira, que ele amara, e que um por um o atraiçoam, e que sem piedade o entregam, o acusam por não ter vencido...
Se na hora torva em que os assassinos praticaram a última traição italiana contra Mussolini ele pôde ainda rever num relâmpago toda a paisagem moral da sua aventura ao serviço do seu portentoso sonho romano, como seria Dantesco o lance da sua derrocada interior, e, como a Morte impiedosa foi para ele menos cruel que os homens!...
Não importa! Todos os grandes sonhos desfeitos, todos os trágicos exemplos de quantos o Destino duro despenhou um dia da Rocha Trágica, reduzindo a misera lama de sangue a soberba dos que subiram altivos ao Capitólio - tudo terá sido inútil, e tudo ainda será inútil porventura, para impedir outras tremendas desilusões, outras amargas tragédias.
Do alto da colina da decepção, esta geração amaldiçoada do Destino, mais do que nenhuma outra em qualquer tempo pôde testemunhar até onde os homens são levados pela tentação do Poder e se deixam perder sem remédio, pela traição do orgulho que o Poder suscita.
Poucos viram tanto em tão curto tempo. No espaço de um quarto de século, quantos subiram arrogantes, confiados na sua estrela; quantos desafiaram o Destino do alto da sua soberba e do seu desprezo pelos outros homens, quantos, também, morderam o pó, na hora que os deuses marcaram para a sua queda, deixando atrás de si um triste rasto de maldição ou de comiseração alheia!
Nunca, como neste tempo de estranhos imprevistos, se viram tão inesperadas ascensões, tão inexplicáveis permanências no Poder, e fulminantes e trágicas quedas! A grande lição da História, que afirma a sua grande constante, demonstra-se de maneira bem categórica ao clarão de acontecimentos cuja transcendência e rápida sucessão não têm par na vida doutra geração.
E, assim, o alto da colina dolorosa se mostra lugar próprio para entender, no exemplo dos tempos vividos, a regra de todos os tempos, a regra de todas as épocas. Evidente se torna que as traições contra o Humanismo se pagam sempre e de bem duro preço se estão pagando as do nosso tempo.
Errada se revela certa filosofia da História, que considera cimos da grandeza dos povos os momentos em que êles abdicaram da sua personalidade e da consciência da sua vocação para se confiarem ao alvedrio e ao abuso dos grandes cesarismos.
A verdadeira grandeza de Roma, aquela que se sente na exuberância da seiva nacional, no vigor e na pureza dos anseios do povo romano, está bem mais na República, antes da suprema traição burguesa do Senado, do que no Império onde o brilho exterior encobria o vírus de decomposição e morte que lhe seria fatal.
Outro exemplo, e este da nossa História. O vigor da nacionalidade, a projecção clara das suas inquietações e do seu entusiasmo criador é bem mais manifesto em D. João I e nos «ínclitos infantes» do que no tempo considerado «supremo» de D. Manuel. Com o Mestre de Avis sente-se o arfar do grande oceano que é o povo, e que tudo enche da sua presença nestas páginas da nossa glória e da nossa vitalidade fecunda. Com D. Manuel o povo já não colabora. Obedece e segue, ou vê passar os cortejos da glória do Rei e dos «grandes», por vontade real e do destino...
No primeiro caso, a Nação forte e sadia marcha no caminho dos seus grandes anseios, enquanto no segundo, por deslumbrante que se mostre nessa ascensão, não encobre o seu cansaço, nem oculta já os germes da decadência que a estão minando.
Esta regra, bem clara no plano da vida de um povo, é ainda mais evidente no plano de História Universal:
Com felicidade estabeleceu um dia Demoulins[1] o quadro que revela a justiça dos seus contrastes:
De sorte que o verdadeiro chefe, ou os verdadeiros chefes nacionais não são jamais os tiranos, que impõem o seu critério esmagando a alma da Nação; mas sim aquele ou aqueles, Rei ou delegados do povo que sabem conduzir a Nação para mais altos destinos, sem esquecer que a Nação só se ergue e exalta em verdade, erguendo-se e exaltando-se na dignidade e no orgulho de cada cidadão. E também indiscutível se torna que os triunfos militares, postos ao serviço de uma hegemonia Imperial, podem é certo, criar um sentimento delirante de soberba nacional; mas só a certeza de uma justiça, que a todos assista e ampare, pode dar a um Povo a serena consciência desse valor de civilização que é a pedra angular da nobreza dos Povos.
*
Contemplando e sofrendo diante do amargo desenrolar do panorama deste quarto de século sombrio e estranho, as gerações do sacrifício têm em verdade o direito de interrogar os Deuses sobre a fatalidade que sempre lhes condenou os sonhos e os passos na dolorosa marcha...
Para quê tantos combates, tantos cuidados e tanto esforço vão? Não era justo, nobre, claro, o impulso que os moveu, e conduziu a todas as esperanças e a todas as batalhas?...
Porquê, então, tanto desolador desastre, tanta decepção esmagadora?
Entusiasmos, dedicações, voluntariado ardente, tudo sempre vencido, tudo ficando a meio caminho da decisão gloriosa, tudo tornado de súbito efémero fumo.
Sempre na hora suprema os que se vendem por um «prato de lentilhas»; os que trocam as camaradagens pelos «trinta dinheiros»; os que põem de parte as «amizades incómodas» para se oferecerem às amizades «frutuosas»... Sempre a vileza do abandono de quantos foram inventados, criados, erguidos desde o anonimato dos faits-divers às maiúsculas da «primeira página» para, uma vez «lançados», logo esquecerem a mão generosa que os lançou... Sempre os aduladores do Poder, os calculistas, os que jogam na vitória.
Sempre a traição da ganância, a traição do lucro... A traição burguesa!
A traição daqueles que nós fizemos senhores e que só se dignam olhar-nos como escravos; traição de vilões que se vingam de ter sido «servos»; traição dos que têm fome de mando e que tudo fazem para se poderem saciar; traição daqueles que o Poder enche de soberba e que tudo sacrificam à vaidade de se manterem; traição dos que nos prometem a nós e aos contrários; dos que vão à missa e negam Cristo; dos que só têm opinião as escondidas; dos que fazem a «greve passiva»; dos que enfileiram nos cortejos de homenagem, compelidos; dos que sopram a tuba das propagandas, sabendo que mentem; dos que se afirmam delegados do povo, sabendo que o povo nem sequer os conhece; dos que pertencem à nobre arte de escrever e louvam a coação do pensamento; dos que imitam os «grandes» para serem notados por eles; dos que não ousam romper com os erros dos antecessores e são a sua miseranda «pública forma» na continuação da injustiça; dos que fogem das pessoas de carácter por medo de se comprometerem com a sua atitude; dos que assinam de crus sentenças iníquas; dos que são duros na justiça para serem agradáveis à dureza sistemática dos Conselhos Judiciários; dos que aconselham os Reis a que joguem na chance de um partido, esquecendo-se que só podem ser Reis de toda a Nação; dos realistas que esquecem os Reis para se servirem da República; dos republicanos que esquecem os deveres da sua dignidade de republicanos; dos que, para servirem as suas ideias, servem o estrangeiro; dos que seguem a carreira das armas e conspurcam a nobreza das suas fardas para servirem de lacaios e finalmente, dos que mostram desconhecer ou desprezar o aviso célebre que afirma serem as baionetas boas para tudo menos para se lhes sentar em cima... Traição burguesa... Traição de nós todos, traição que nos faz descrer das coisas em que mais cremos; traição do nosso egoísmo que nos faz hesitar por temor, recuar por comodismo, precipitar por orgulho, perder por vaidade...
Do alto da colina amarga, como ela é clara, real, constante, essa traição. E como é dever da nossa decepção denunciá-la!
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[1] A-t-on intérêt à s'emparer du Pouvoir? [ É do nosso interesse tomar o poder?]
Cap. I - A Traição burguesa nos caminhos da história
- A IDADE MÉDIA
- A IDADE MODERNA
- A REVOLUÇÃO FRANCESA
Cap. II - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- A TERRA
Cap. III - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- A AVENTURA
Cap. IV - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- O ESPÍRITO
- A TRAGÉDIA DA "UNIDADE"
Cap. V - A traição burguesa e as suas alianças
Cap. VI - A traição dos mitos
Cap. VII - Talassocracia
Cap. VIII - No alto da colina
Cap. IX - Caminhos de Esperança
- A IDADE MÉDIA
- A IDADE MODERNA
- A REVOLUÇÃO FRANCESA
Cap. II - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- A TERRA
Cap. III - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- A AVENTURA
Cap. IV - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- O ESPÍRITO
- A TRAGÉDIA DA "UNIDADE"
Cap. V - A traição burguesa e as suas alianças
Cap. VI - A traição dos mitos
Cap. VII - Talassocracia
Cap. VIII - No alto da colina
Cap. IX - Caminhos de Esperança