1945 - Rolão Preto - A Traição Burguesa
CAPÍTULO IX
Caminhos de esperança
Caminhos de esperança
RESUMO
Terminada a guerra, abre-se diante dos povos uma nova esperança, nascida do preço terrível do sangue e das lágrimas. O capítulo contrapõe a ideia fecunda de «nacional», enraizada na história, na terra e no espírito dos povos, ao nacionalismo imperialista que conduziu o mundo ao desastre; e recorda que já em 1933 o autor se demarcara dos totalitarismos fascista e hitleriano, divinizadores do Estado, cesaristas, afirmando a necessidade de harmonizar a soberania do Interesse Nacional com a dignidade moral dos homens livres, segundo a tradição cristianíssima do Povo Português. A verdadeira marcha humana exige assim a conjugação entre a liberdade política, a justiça social-económica e a dignidade integral da Pessoa Humana. A experiência inglesa do trabalhismo surge em 1945 como sinal de uma possível revolução sem violência, capaz de unir garantias individuais e segurança material. A burguesia, vista como força em declínio, cede lugar à aproximação da hora do «Povo»: não uma classe ou partido, mas o homem concreto, com fome de pão, justiça e ideal. Para Rolão Preto cumpre representar organicamente as forças populares no Estado para o orientar para o bem comum. Na sombria noite do mundo, a energia atómica aparece como um relâmpago das possibilidades criadoras do espírito humano, talvez uma promessa tremenda e providencial que poderá libertar o homem, se guiada pela justiça e por um coração generoso.
CAPÍTULO IX
Caminhos de esperança
Caminhos de esperança
TERMINADA enfim esta dura guerra, renasce no dilacerado coração do homem nova esperança. Decerto, tão grande tragédia, cheia de tão duras provações para os povos, não poderá ser lição perdida e inútil... O seu pesado preço em sangue e lágrimas é o signo por que na História se anunciam as grandes épocas. O seu pesado preço... Mas, como poderiam os povos sair doutra maneira do inquietante beco a que os conduzira a sua ilusão de nacionalismo exagerado e imperialista?
Clamara-se que as nações podiam e deviam satisfazer-se a si próprias com a sua única produção; erguera-se até às nuvens a altura das suas barreiras alfandegárias; isolaram-se em mundos hostis, que mutuamente se desconheciam e excluíam, países, cada um dos quais se proclamava o mais belo, o mais útil, o mais excelente, pelo presente ou pelo que fora no passado...
O mundo estava retalhado em compartimentos estanques, dentro dos quais subia sem cessar o rumor de fábricas de guerra e de exércitos em marcha. As nações descobriam todas uma missão, um privilégio do Destino.
Como sair deste sangrento equívoco senão daquela dura maneira com que na História a Providência teria cortado todos os nós górdios criados pelos erros.
Decerto a ideia de «nacional» era, e continua a ser, ideia benéfica e fecunda em riquezas espirituais, mãe generosa de sacrifícios, heroísmos, e diferenciações proveitosas.
Sobre ela assentava o impulso da marcha humana e nela se encontrava o limite necessário a uma visão dos problemas sociais mais imperativos e de mais ingente solução.
De «nacional» se partia com segurança para «universal», abolido o sentido de exclusão, hostilidade e receio, para se afirmar a base de uma compreensão de realidades históricas, geográficas, económicas, úteis a uma colaboração dos valores específicos criados pela terra e pelo tempo, na marcha do género humano.
O «nacionalismo», tal porém como surgira na exaltação das propagandas, - princípio de denominação e imperialismo — era uma ideia imprudente carregada de elementos explosivos perigosos.
Por isso razão tínhamos quando nos dizíamos apenas «nacionais» fórmula que excluía duas interpretações dos tempos, que mutuamente se repeliam: o «nacionalismo» e o «internacionalismo».
«Nacional» era a fronteira posta no espaço e no tempo ao esforço de uma geração que se propunha, no campo social, erguer o país ao ritmo da civilização dos outros países. E «Nacional» foi afinal a fórmula vencedora desta guerra, consagrada em todos os campos de batalha, triunfante mesmo sobre a exaltação do «social», desde o «Trabalhismo» ao «Estalinismo»... Com efeito, para além das Trade-Unions mantém-se sempre o amor da Inglaterra, e para além da U.R.S.S. surgiu a velha Rússia....
Razão tínhamos também, por outro lado, proclamando o superior relevo do social-económico, face às estéreis batalhas da política pura.
Diante do fenómeno geral das grandes «massas», fenómeno da crescente desproletarização, fenómeno da chegada cada vez mais volumosa dos que se aproximam do banquete da vida e dele querem partilhar, evidente se tornava a necessidade de uma orgânica social-económica que lhes desse cabida dentro da justiça e do interesse geral.
Finalmente, razão tinham aqueles que, como nós, afirmavam entender o sentido do grande clamor do nosso tempo: a conquista integral dos direitos da Pessoa Humana. Direitos políticos, direitos sociais, direitos económicos.
Os direitos políticos sem a garantia dos direitos social-económicos, verificara-se serem um logro, e isso trouxera a grande crise da Democracia. Mas esta tremenda crise, longe de significar renúncia, abdicação do homem nas mãos de quem quer que fosse, significava antes o seu anseio de encontrar maior libertação para além das fórmulas caducas que já em nada serviam para o que tinham sido criadas.
Ilusão fatal seria, porém, essa dos tiranos que julgassem o momento asado para imporem a tirania do seu mando. O povo correra às organizações sindicais, às organizações político-sociais, às formações de combate na suposição de que esses seriam outros tantos instrumentos do seu resgate e não do seu cativeiro. Resgate económico primeiro, pois demasiado pesou sobre ele o fardo das suas inquietações materiais para poder jamais erguer-se no voo das suas aspirações ideais. Resgate político logo depois, conquistada a independência económica, ponto de partida para encontrar os caminhos de todas as independências...
Hitler e Mussolini, eles próprios, assim o entenderam por certo quando, levando o povo aos supremos sacrifícios da guerra, lhes mostravam na conquista a fórmula de se obterem possibilidades novas para a solução do problema material que os inquietava.
Espaço vital... clamaram para a justificação do seu imperialismo.
Espaço vital... clama um pouco por toda a parte o rural sem terra, o funcionário deficientemente pago, o trabalhador das indústrias que aspira melhoria de remuneração — todos os que trabalham e anseiam pelo trabalho numa situação em que possam ter mais liberdade de movimentos dentro das possibilidades económicas.
Só para esse fim eles se sacrificam; só nessa esperança eles aceitam os limites que o estatismo socialista lhes impõe. Largo tempo eles esperaram isso da liberdade das fórmulas puramente democratas; mas estas só consagravam o direito aos mais fortes para esmagarem os mais fracos. À Democracia política faltou a contrapartida da Democracia económico-social.
Os sacrifícios que a experiência socialista acarreta são, pois, aceites de ânimo leve e alma alvoroçada com a reserva interior, porém, de que a condição que os trabalhadores impõem não seja desmentida.
Ai do «trabalhismo», por exemplo, agora tão largamente triunfante, se as suas promessas de resgate económico se não verificassem. Uma onda de liberalismo ergueria os ingleses dececionados na hora em que verificassem a inutilidade de terem aceitado peias de que não resultasse fruto.
Mas o «trabalhismo» inglês parece bem atento as realidades gritantes do nosso tempo.
O seu programa eleitoral, prometendo a libertação económica pela nacionalização das grandes empresas de interesse público, isto é, pela substituição do capitalismo privado pelo Estatismo económico — forma de tentar alargar a muitos o benefício de poucos — o seu programa eleitoral oferecendo a proteção do Estado contra as traições da vida; dispondo-se a preparar, pelo aproveitamento da capacidade, as «elites» futuras e planeando o alargamento de seguros sociais e de reformas, de maneira a darem um sentimento de segurança individual e familiar indispensáveis — é um programa que pode trazer a alegria de viver a um povo que tão grande esforço acaba de dar na tristeza de morrer. ..
A grande revolução da guerra encontrou assim na Inglaterra o eco mais profundo. Talvez tenha sido uma graça da Providência o facto de serem os ponderados e práticos anglo-saxões aqueles que primeiro surgem a orientar a marcha revolucionária depois de um conflito que mobilizou e trouxe à superfície, com todas as suas inquietações e todos os seus clamores de justiça, massas humanas de tão grande envergadura. Evitar-se-ão porventura ao mundo maiores violências e maiores tragédias.
A liberdade política individual dos ingleses juntar-se-á talvez a necessária justiça económica que eles reclamam.
Se assim for e, portanto, se às garantias individuais que os ingleses disfrutam - liberdade de expressão pública do pensamento, liberdade de associação, liberdade religiosa, etc. — a Revolução Trabalhista juntar a segurança económica, o Homem terá dado um passo em frente no caminho da dignidade do Homem.
Felizes os ingleses, que, pelas suas instituições políticas e tradição de costumes, puderam tentar a experiência revolucionária sem terem que usar da violência na conquista do poder e no seu livre exercício!
Exemplo para meditar, dado aos povos onde a falta de respeito pelo pensamento alheio e pela sua expressão nas urnas impossibilita tantas vezes as claras e serenas vias da sua marcha. A vitória do «trabalhismo» tem também este raro significado: o exemplo de um povo que livremente vota e livremente escolhe os seus destinos, mesmo quando do lado do poder podia pesar o prestígio altíssimo de um homem como Churchill, que lhes ganhou a guerra e, mais do que isso, que foi na hora crítica a pessoa que por sua corajosa atitude decidiu dos destinos ingleses.
Um povo destes, com tão grande consciência dos seus direitos, pode na verdade obter frutuosos resultados na sua grande tentativa de resgate económico. Contanto que a obstinação doutrinária não venha perturbar com os seus exageros uma marcha que parece assegurada pela plena liberdade constitucional. Os ingleses não têm necessidade, como tantos outros, de substituir o Capitalismo feito Estado pelo Estado feito capitalista das tiranias estatistas da Burguesia.
É a grande vantagem de um povo avançado em civilização, com uma alta compreensão dos deveres e direitos e com o temperamento sereno dos anglo-saxões, essa de poder evitar servir-se de fórmulas que pelo seu necessário rigor comprometem as intenções ou as desviam do seu caminho natural.
Outros povos há — compreenderão isso os ingleses? — que para fazerem a Revolução não podem ter a esperança de seguir tão sereno caminho. Só em verdade em países como a Inglaterra é possível os governos perderem as eleições. Daí a necessidade em que noutros povos se veem os revolucionários de pôr de parte muitas vezes os meios legais como forma de conquistar o Poder. Quando muito eles aceitam a fórmula maurrasiana, que os aconselha a servirem-se «até de meios legais». A verdade, porém, é que sem o recurso de outros meios a Revolução não triunfaria jamais, pois nas urnas ela seria facilmente vencida. Isto explica as intervenções da força armada ou a tática de combate de formações políticas que marchavam em coluna, elegiam um signo de aliança - fosse a mão aberta ou o punho fechado — adotavam um uniforme e tentavam conquistar o poder «militarmente».
No clima da Europa, depois da guerra de 1914-18, esta foi na verdade a forma que mais geralmente se adotou para as lutas políticas.
Iniciou-a a ação de formações de antigos combatentes italianos e deu-lhe a primeira consistência e o primeiro êxito Mussolini, criando o Fascismo. Iniciou-se o método fascista. Este modo de conquista do Poder, tornado europeu, originou então um equívoco, fazendo que muitos considerassem fascistas todos os movimentos que do método de combate de Mussolini se serviam para os seus fins revolucionários.
Em verdade, porém, cada país tem as suas tradições políticas e os seus conceitos de governo muito particulares e por isso, adotando um método novo de combate que lhes parecia a única maneira de conquistar o Estado face às plutocracias dominantes, nem por isso os partidos revolucionários adotavam necessariamente as ideias do Fascismo italiano no que respeitava à forma de governar.
Tratava-se apenas de um método, método que o êxito generalizava e que as circunstâncias impunham, pois que fora das urnas onde a corrupção desvirtuava a livre expressão da opinião pública, as massas populares, céticas, inteiramente desagregadas, seriam ineficazes perante o Poder.
A ação política tornava-se uma ação militar, quer se tratasse da conquista do Estado pelos partidos nacionais ou pelos partidos comunistas.
A Democracia, atraiçoada pela alta finança burguesa, dominada por ela, tornando-se incapaz de assegurar o livre jogo de diversos processos políticos de combate, não deixava outra alternativa do que a submissão às maiorias burguesas ou a revolta. A revolta não se afirmaria com multidões anárquicas e desordenadas nas ruas, não era a da metralhadora e do carro blindado. Só o golpe de Estado se afigurava com probabilidades de êxito.
Os partidos revolucionários tinham assim de criar um instrumento militar. Tal era o método da época. Cada época tem o seu.
A Revolução Francesa criara os clubes revolucionários, as associações secretas, as carbonárias. A Revolução, depois da guerra de 1918 criara o método militar.
Servindo-se de idêntica alavanca para mudar os destinos, nada, porém mais diverso do que as ideologias que cada partido procura fazer triunfar com o seu esforço.
O caso português é bem concludente. Ao movimento Nacional-Sindicalista português foi desde o começo (Banquete do Parque Eduardo VII, fevereiro de 1933) marcado pelo seu chefe o sentido das suas intenções «para além da Democracia, do Fascismo e do Comunismo».
Numa entrevista para a United Press em 1933, publicada no jornal espanhol Esfera, disse claramente: «O Fascismo e o Hitlerismo são totalitários, divinizadores do Estado, cesaristas: nós outros pretendemos encontrar na tradição cristianíssima do Povo Português a fórmula que permita harmonizar a soberania indiscutível do Interesse Nacional com a nossa dignidade moral de homens livres».
Ergue-se, pois, sobre o mundo, cansado de uma guerra sem par em sacrifícios e destruições, nova perspetiva cheia de esperança. O capitalismo, lançado na guerra, acaba por ser vencido por ela. A traição burguesa, suscitadora de imperialismos, sofreu rude contrapartida dos acontecimentos.
Um maior e mais vivo sentimento das aspirações populares irrompe por toda a parte nas atitudes individuais e coletivas, onde quer que as circunstâncias especiais da hora permitem manifestar-se. A Burguesia, de traição em traição, para se assegurar e manter no Poder, vê agora aproximar-se o seu declínio.
Avizinha-se a hora do «povo?» Tudo leva a crer que assim seja. A última ilusão da Burguesia estará na sua crença de uma nova guerra...
Secretamente ela a implora aos Deuses.
Grande foi assim, o seu desapontamento com a queda de Churchill, onde a Burguesia já julgava ver o fundador e chefe de uma nova «cruzada».
Para a Burguesia uma política anti, política de «cruzada» é uma política útil, pelo que separa, divide, retalha as massas e as aspirações populares, que é a forma de ela manter o seu poderio.
Mas a ilusão Churchill caiu. Os Estados Unidos parecem ainda afastados da «cruzada» salvadora, preocupados com o seu futuro no Oriente e no vasto mundo dos seus interesses imediatos. A nova guerra parece pelo menos adiada.
Que vem aí?
Tudo leva a crer que seja o «Povo».
E o que é o «Povo?».
O «Povo» é um conjunto de aspirações, de anseios, de inquietações, de que resulta a marcha em frente do Homem. O Homem que caminha à procura de pão, de justiça e de ideal — O homem pobre verme da terra, ente fraco e imperfeito, capaz de todas as misérias de espírito, mas, também, capaz de todas as grandezas de coração...
O «Povo» é esse Homem e não a classe, a casta, o partido, instrumentos da sua deformação e de traição dos seus destinos.
O triunfo do «Povo» fecha o círculo dos triunfos da Burguesia, liquidando a sua política de sangrentas antinomias; abrindo para cada nação a era de uma convergência geral de valores, de vontades, de aspirações no impulso comum do seu desenvolvimento espiritual e material, e abrindo um dia, entre todas as nações, a era de uma convergência geral de possibilidades humanas, capazes porventura de resolver os grandes problemas do destino do Homem no mundo. Eis, pois, chegada verdadeiramente uma nova época da História.
Vencidos os duros diques que os privilégios de todas as classes ergueram ao longo dos tempos, o povo entra agora em massa, invadindo como irresistível caudal as posições e lugares que outrora lhe eram vedados. O mal será que a sua ascensão se faça às cegas, de roldão devastador. Opor-se ao «povo» que hoje por toda a parte impõe já os imperativos da sua presença é imprudência louca. Importa, porém, que a grande força seja orientada, esclarecida, inspirada no caminho mais útil à sua própria marcha.
Criar o instrumento e a mecânica capazes de ser aceites e úteis à economia das forças populares tal é a alta função daqueles que sentem e entendem a grande onda da vida humana que se aproxima.
Falharão todos os princípios e todos os homens da Revolução se a tempo não se tiverem produzido os novos moldes em que a grande massa ígnea poderá tomar novas formas mais perfeitas, mas completas, mais harmónicas. Seja como for é preciso contar com o povo e não para lhe ter medo ou aversão, mas sim para dar verdadeira representação às forças populares, na política, na administração, na economia. Bastará, por certo, de embustes da Burguesia para camuflar a sua tirania de classe eleita, onde quer que ela se mostre por esse mundo, como eterna depositária da representação popular. Bastará também de sacrifícios das propagandas, elegendo «homens providenciais» à admiração dos povos, homens cuja «sabedoria» e «grandeza» os impossibilita de ser sensíveis aos anseios e à dor alheia.
Que o povo, organicamente integrado no Estado, obtenha, enfim, a garantia da sua representação direta nos Sindicatos, nos Municípios, nas Assembleias nacionais. Quanto aos «homens», é suficiente que eles sejam de bom coração e de espírito claro, que por sensibilidade e inteligência respeitem os direitos dos outros homens. Só eles compreenderão a era do povo que se aproxima, esse povo de que todos nós fazemos parte desde que nos desembaracemos de privilégios, rótulos partidários, conceitos de classe ou de casta, para convergirmos, como homens livres, no plano nacional e social do bem comum.
Eis, pois, nesta sombria noite do mundo, a madrugada do seu resgate... A hora do povo que vai soar. E, para que ela surja em plena luz de uma apoteose de maravilha, salta do génio humano o mais vivo relâmpago das suas possibilidades criadoras, traduzindo-se na assombrosa conquista da energia atómica. No caminho dos seus destinos, o homem parece obter, enfim, por merecimentos de duro labor do seu espírito, a graça divina que alivia as penas do «pecado inicial» ... Agora, que a terra se mostra mais do que nunca promessa bendita aos «homens de boa vontade», grande bem foi que a Providência concedesse à inteligência humana a possibilidade mais alta que até hoje sonhou: a de a possuir, dentro do reino da justiça, uma força que, aproveitada para o seu bem, parece poder salvá-los de maiores pesadelos.
O homem vai ter porventura na sua mão a grande alavanca indispensável aos seus destinos. Da posse deles, quantos obstáculos que, até ontem, apenas a esperança revolucionária tentava remover, vão de hoje em diante ser varridos do duro caminho humano! Na era nova, que surge, todas as possibilidades que o homem buscava para quebrar a grilheta do seu cativeiro de trabalho, se multiplicam por incalculável fator. A força primeira, aquela mesma com que Deus teceu os mundos, ei-la generosamente revelada ao homem, mísero ente a quem Deus por alto dom concedeu o espírito.
Assim Deus bate no espírito do Homem e relembra-lhe que ele possui lá dentro um coração sensível, um generoso coração.
Clamara-se que as nações podiam e deviam satisfazer-se a si próprias com a sua única produção; erguera-se até às nuvens a altura das suas barreiras alfandegárias; isolaram-se em mundos hostis, que mutuamente se desconheciam e excluíam, países, cada um dos quais se proclamava o mais belo, o mais útil, o mais excelente, pelo presente ou pelo que fora no passado...
O mundo estava retalhado em compartimentos estanques, dentro dos quais subia sem cessar o rumor de fábricas de guerra e de exércitos em marcha. As nações descobriam todas uma missão, um privilégio do Destino.
Como sair deste sangrento equívoco senão daquela dura maneira com que na História a Providência teria cortado todos os nós górdios criados pelos erros.
Decerto a ideia de «nacional» era, e continua a ser, ideia benéfica e fecunda em riquezas espirituais, mãe generosa de sacrifícios, heroísmos, e diferenciações proveitosas.
Sobre ela assentava o impulso da marcha humana e nela se encontrava o limite necessário a uma visão dos problemas sociais mais imperativos e de mais ingente solução.
De «nacional» se partia com segurança para «universal», abolido o sentido de exclusão, hostilidade e receio, para se afirmar a base de uma compreensão de realidades históricas, geográficas, económicas, úteis a uma colaboração dos valores específicos criados pela terra e pelo tempo, na marcha do género humano.
O «nacionalismo», tal porém como surgira na exaltação das propagandas, - princípio de denominação e imperialismo — era uma ideia imprudente carregada de elementos explosivos perigosos.
Por isso razão tínhamos quando nos dizíamos apenas «nacionais» fórmula que excluía duas interpretações dos tempos, que mutuamente se repeliam: o «nacionalismo» e o «internacionalismo».
«Nacional» era a fronteira posta no espaço e no tempo ao esforço de uma geração que se propunha, no campo social, erguer o país ao ritmo da civilização dos outros países. E «Nacional» foi afinal a fórmula vencedora desta guerra, consagrada em todos os campos de batalha, triunfante mesmo sobre a exaltação do «social», desde o «Trabalhismo» ao «Estalinismo»... Com efeito, para além das Trade-Unions mantém-se sempre o amor da Inglaterra, e para além da U.R.S.S. surgiu a velha Rússia....
Razão tínhamos também, por outro lado, proclamando o superior relevo do social-económico, face às estéreis batalhas da política pura.
Diante do fenómeno geral das grandes «massas», fenómeno da crescente desproletarização, fenómeno da chegada cada vez mais volumosa dos que se aproximam do banquete da vida e dele querem partilhar, evidente se tornava a necessidade de uma orgânica social-económica que lhes desse cabida dentro da justiça e do interesse geral.
Finalmente, razão tinham aqueles que, como nós, afirmavam entender o sentido do grande clamor do nosso tempo: a conquista integral dos direitos da Pessoa Humana. Direitos políticos, direitos sociais, direitos económicos.
Os direitos políticos sem a garantia dos direitos social-económicos, verificara-se serem um logro, e isso trouxera a grande crise da Democracia. Mas esta tremenda crise, longe de significar renúncia, abdicação do homem nas mãos de quem quer que fosse, significava antes o seu anseio de encontrar maior libertação para além das fórmulas caducas que já em nada serviam para o que tinham sido criadas.
Ilusão fatal seria, porém, essa dos tiranos que julgassem o momento asado para imporem a tirania do seu mando. O povo correra às organizações sindicais, às organizações político-sociais, às formações de combate na suposição de que esses seriam outros tantos instrumentos do seu resgate e não do seu cativeiro. Resgate económico primeiro, pois demasiado pesou sobre ele o fardo das suas inquietações materiais para poder jamais erguer-se no voo das suas aspirações ideais. Resgate político logo depois, conquistada a independência económica, ponto de partida para encontrar os caminhos de todas as independências...
Hitler e Mussolini, eles próprios, assim o entenderam por certo quando, levando o povo aos supremos sacrifícios da guerra, lhes mostravam na conquista a fórmula de se obterem possibilidades novas para a solução do problema material que os inquietava.
Espaço vital... clamaram para a justificação do seu imperialismo.
Espaço vital... clama um pouco por toda a parte o rural sem terra, o funcionário deficientemente pago, o trabalhador das indústrias que aspira melhoria de remuneração — todos os que trabalham e anseiam pelo trabalho numa situação em que possam ter mais liberdade de movimentos dentro das possibilidades económicas.
Só para esse fim eles se sacrificam; só nessa esperança eles aceitam os limites que o estatismo socialista lhes impõe. Largo tempo eles esperaram isso da liberdade das fórmulas puramente democratas; mas estas só consagravam o direito aos mais fortes para esmagarem os mais fracos. À Democracia política faltou a contrapartida da Democracia económico-social.
Os sacrifícios que a experiência socialista acarreta são, pois, aceites de ânimo leve e alma alvoroçada com a reserva interior, porém, de que a condição que os trabalhadores impõem não seja desmentida.
Ai do «trabalhismo», por exemplo, agora tão largamente triunfante, se as suas promessas de resgate económico se não verificassem. Uma onda de liberalismo ergueria os ingleses dececionados na hora em que verificassem a inutilidade de terem aceitado peias de que não resultasse fruto.
Mas o «trabalhismo» inglês parece bem atento as realidades gritantes do nosso tempo.
O seu programa eleitoral, prometendo a libertação económica pela nacionalização das grandes empresas de interesse público, isto é, pela substituição do capitalismo privado pelo Estatismo económico — forma de tentar alargar a muitos o benefício de poucos — o seu programa eleitoral oferecendo a proteção do Estado contra as traições da vida; dispondo-se a preparar, pelo aproveitamento da capacidade, as «elites» futuras e planeando o alargamento de seguros sociais e de reformas, de maneira a darem um sentimento de segurança individual e familiar indispensáveis — é um programa que pode trazer a alegria de viver a um povo que tão grande esforço acaba de dar na tristeza de morrer. ..
A grande revolução da guerra encontrou assim na Inglaterra o eco mais profundo. Talvez tenha sido uma graça da Providência o facto de serem os ponderados e práticos anglo-saxões aqueles que primeiro surgem a orientar a marcha revolucionária depois de um conflito que mobilizou e trouxe à superfície, com todas as suas inquietações e todos os seus clamores de justiça, massas humanas de tão grande envergadura. Evitar-se-ão porventura ao mundo maiores violências e maiores tragédias.
A liberdade política individual dos ingleses juntar-se-á talvez a necessária justiça económica que eles reclamam.
Se assim for e, portanto, se às garantias individuais que os ingleses disfrutam - liberdade de expressão pública do pensamento, liberdade de associação, liberdade religiosa, etc. — a Revolução Trabalhista juntar a segurança económica, o Homem terá dado um passo em frente no caminho da dignidade do Homem.
Felizes os ingleses, que, pelas suas instituições políticas e tradição de costumes, puderam tentar a experiência revolucionária sem terem que usar da violência na conquista do poder e no seu livre exercício!
Exemplo para meditar, dado aos povos onde a falta de respeito pelo pensamento alheio e pela sua expressão nas urnas impossibilita tantas vezes as claras e serenas vias da sua marcha. A vitória do «trabalhismo» tem também este raro significado: o exemplo de um povo que livremente vota e livremente escolhe os seus destinos, mesmo quando do lado do poder podia pesar o prestígio altíssimo de um homem como Churchill, que lhes ganhou a guerra e, mais do que isso, que foi na hora crítica a pessoa que por sua corajosa atitude decidiu dos destinos ingleses.
Um povo destes, com tão grande consciência dos seus direitos, pode na verdade obter frutuosos resultados na sua grande tentativa de resgate económico. Contanto que a obstinação doutrinária não venha perturbar com os seus exageros uma marcha que parece assegurada pela plena liberdade constitucional. Os ingleses não têm necessidade, como tantos outros, de substituir o Capitalismo feito Estado pelo Estado feito capitalista das tiranias estatistas da Burguesia.
É a grande vantagem de um povo avançado em civilização, com uma alta compreensão dos deveres e direitos e com o temperamento sereno dos anglo-saxões, essa de poder evitar servir-se de fórmulas que pelo seu necessário rigor comprometem as intenções ou as desviam do seu caminho natural.
Outros povos há — compreenderão isso os ingleses? — que para fazerem a Revolução não podem ter a esperança de seguir tão sereno caminho. Só em verdade em países como a Inglaterra é possível os governos perderem as eleições. Daí a necessidade em que noutros povos se veem os revolucionários de pôr de parte muitas vezes os meios legais como forma de conquistar o Poder. Quando muito eles aceitam a fórmula maurrasiana, que os aconselha a servirem-se «até de meios legais». A verdade, porém, é que sem o recurso de outros meios a Revolução não triunfaria jamais, pois nas urnas ela seria facilmente vencida. Isto explica as intervenções da força armada ou a tática de combate de formações políticas que marchavam em coluna, elegiam um signo de aliança - fosse a mão aberta ou o punho fechado — adotavam um uniforme e tentavam conquistar o poder «militarmente».
No clima da Europa, depois da guerra de 1914-18, esta foi na verdade a forma que mais geralmente se adotou para as lutas políticas.
Iniciou-a a ação de formações de antigos combatentes italianos e deu-lhe a primeira consistência e o primeiro êxito Mussolini, criando o Fascismo. Iniciou-se o método fascista. Este modo de conquista do Poder, tornado europeu, originou então um equívoco, fazendo que muitos considerassem fascistas todos os movimentos que do método de combate de Mussolini se serviam para os seus fins revolucionários.
Em verdade, porém, cada país tem as suas tradições políticas e os seus conceitos de governo muito particulares e por isso, adotando um método novo de combate que lhes parecia a única maneira de conquistar o Estado face às plutocracias dominantes, nem por isso os partidos revolucionários adotavam necessariamente as ideias do Fascismo italiano no que respeitava à forma de governar.
Tratava-se apenas de um método, método que o êxito generalizava e que as circunstâncias impunham, pois que fora das urnas onde a corrupção desvirtuava a livre expressão da opinião pública, as massas populares, céticas, inteiramente desagregadas, seriam ineficazes perante o Poder.
A ação política tornava-se uma ação militar, quer se tratasse da conquista do Estado pelos partidos nacionais ou pelos partidos comunistas.
A Democracia, atraiçoada pela alta finança burguesa, dominada por ela, tornando-se incapaz de assegurar o livre jogo de diversos processos políticos de combate, não deixava outra alternativa do que a submissão às maiorias burguesas ou a revolta. A revolta não se afirmaria com multidões anárquicas e desordenadas nas ruas, não era a da metralhadora e do carro blindado. Só o golpe de Estado se afigurava com probabilidades de êxito.
Os partidos revolucionários tinham assim de criar um instrumento militar. Tal era o método da época. Cada época tem o seu.
A Revolução Francesa criara os clubes revolucionários, as associações secretas, as carbonárias. A Revolução, depois da guerra de 1918 criara o método militar.
Servindo-se de idêntica alavanca para mudar os destinos, nada, porém mais diverso do que as ideologias que cada partido procura fazer triunfar com o seu esforço.
O caso português é bem concludente. Ao movimento Nacional-Sindicalista português foi desde o começo (Banquete do Parque Eduardo VII, fevereiro de 1933) marcado pelo seu chefe o sentido das suas intenções «para além da Democracia, do Fascismo e do Comunismo».
Numa entrevista para a United Press em 1933, publicada no jornal espanhol Esfera, disse claramente: «O Fascismo e o Hitlerismo são totalitários, divinizadores do Estado, cesaristas: nós outros pretendemos encontrar na tradição cristianíssima do Povo Português a fórmula que permita harmonizar a soberania indiscutível do Interesse Nacional com a nossa dignidade moral de homens livres».
Ergue-se, pois, sobre o mundo, cansado de uma guerra sem par em sacrifícios e destruições, nova perspetiva cheia de esperança. O capitalismo, lançado na guerra, acaba por ser vencido por ela. A traição burguesa, suscitadora de imperialismos, sofreu rude contrapartida dos acontecimentos.
Um maior e mais vivo sentimento das aspirações populares irrompe por toda a parte nas atitudes individuais e coletivas, onde quer que as circunstâncias especiais da hora permitem manifestar-se. A Burguesia, de traição em traição, para se assegurar e manter no Poder, vê agora aproximar-se o seu declínio.
Avizinha-se a hora do «povo?» Tudo leva a crer que assim seja. A última ilusão da Burguesia estará na sua crença de uma nova guerra...
Secretamente ela a implora aos Deuses.
Grande foi assim, o seu desapontamento com a queda de Churchill, onde a Burguesia já julgava ver o fundador e chefe de uma nova «cruzada».
Para a Burguesia uma política anti, política de «cruzada» é uma política útil, pelo que separa, divide, retalha as massas e as aspirações populares, que é a forma de ela manter o seu poderio.
Mas a ilusão Churchill caiu. Os Estados Unidos parecem ainda afastados da «cruzada» salvadora, preocupados com o seu futuro no Oriente e no vasto mundo dos seus interesses imediatos. A nova guerra parece pelo menos adiada.
Que vem aí?
Tudo leva a crer que seja o «Povo».
E o que é o «Povo?».
O «Povo» é um conjunto de aspirações, de anseios, de inquietações, de que resulta a marcha em frente do Homem. O Homem que caminha à procura de pão, de justiça e de ideal — O homem pobre verme da terra, ente fraco e imperfeito, capaz de todas as misérias de espírito, mas, também, capaz de todas as grandezas de coração...
O «Povo» é esse Homem e não a classe, a casta, o partido, instrumentos da sua deformação e de traição dos seus destinos.
O triunfo do «Povo» fecha o círculo dos triunfos da Burguesia, liquidando a sua política de sangrentas antinomias; abrindo para cada nação a era de uma convergência geral de valores, de vontades, de aspirações no impulso comum do seu desenvolvimento espiritual e material, e abrindo um dia, entre todas as nações, a era de uma convergência geral de possibilidades humanas, capazes porventura de resolver os grandes problemas do destino do Homem no mundo. Eis, pois, chegada verdadeiramente uma nova época da História.
Vencidos os duros diques que os privilégios de todas as classes ergueram ao longo dos tempos, o povo entra agora em massa, invadindo como irresistível caudal as posições e lugares que outrora lhe eram vedados. O mal será que a sua ascensão se faça às cegas, de roldão devastador. Opor-se ao «povo» que hoje por toda a parte impõe já os imperativos da sua presença é imprudência louca. Importa, porém, que a grande força seja orientada, esclarecida, inspirada no caminho mais útil à sua própria marcha.
Criar o instrumento e a mecânica capazes de ser aceites e úteis à economia das forças populares tal é a alta função daqueles que sentem e entendem a grande onda da vida humana que se aproxima.
Falharão todos os princípios e todos os homens da Revolução se a tempo não se tiverem produzido os novos moldes em que a grande massa ígnea poderá tomar novas formas mais perfeitas, mas completas, mais harmónicas. Seja como for é preciso contar com o povo e não para lhe ter medo ou aversão, mas sim para dar verdadeira representação às forças populares, na política, na administração, na economia. Bastará, por certo, de embustes da Burguesia para camuflar a sua tirania de classe eleita, onde quer que ela se mostre por esse mundo, como eterna depositária da representação popular. Bastará também de sacrifícios das propagandas, elegendo «homens providenciais» à admiração dos povos, homens cuja «sabedoria» e «grandeza» os impossibilita de ser sensíveis aos anseios e à dor alheia.
Que o povo, organicamente integrado no Estado, obtenha, enfim, a garantia da sua representação direta nos Sindicatos, nos Municípios, nas Assembleias nacionais. Quanto aos «homens», é suficiente que eles sejam de bom coração e de espírito claro, que por sensibilidade e inteligência respeitem os direitos dos outros homens. Só eles compreenderão a era do povo que se aproxima, esse povo de que todos nós fazemos parte desde que nos desembaracemos de privilégios, rótulos partidários, conceitos de classe ou de casta, para convergirmos, como homens livres, no plano nacional e social do bem comum.
Eis, pois, nesta sombria noite do mundo, a madrugada do seu resgate... A hora do povo que vai soar. E, para que ela surja em plena luz de uma apoteose de maravilha, salta do génio humano o mais vivo relâmpago das suas possibilidades criadoras, traduzindo-se na assombrosa conquista da energia atómica. No caminho dos seus destinos, o homem parece obter, enfim, por merecimentos de duro labor do seu espírito, a graça divina que alivia as penas do «pecado inicial» ... Agora, que a terra se mostra mais do que nunca promessa bendita aos «homens de boa vontade», grande bem foi que a Providência concedesse à inteligência humana a possibilidade mais alta que até hoje sonhou: a de a possuir, dentro do reino da justiça, uma força que, aproveitada para o seu bem, parece poder salvá-los de maiores pesadelos.
O homem vai ter porventura na sua mão a grande alavanca indispensável aos seus destinos. Da posse deles, quantos obstáculos que, até ontem, apenas a esperança revolucionária tentava remover, vão de hoje em diante ser varridos do duro caminho humano! Na era nova, que surge, todas as possibilidades que o homem buscava para quebrar a grilheta do seu cativeiro de trabalho, se multiplicam por incalculável fator. A força primeira, aquela mesma com que Deus teceu os mundos, ei-la generosamente revelada ao homem, mísero ente a quem Deus por alto dom concedeu o espírito.
Assim Deus bate no espírito do Homem e relembra-lhe que ele possui lá dentro um coração sensível, um generoso coração.
Cap. I - A Traição burguesa nos caminhos da história
- A IDADE MÉDIA
- A IDADE MODERNA
- A REVOLUÇÃO FRANCESA
Cap. II - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- A TERRA
Cap. III - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- A AVENTURA
Cap. IV - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- O ESPÍRITO
- A TRAGÉDIA DA "UNIDADE"
Cap. V - A traição burguesa e as suas alianças
Cap. VI - A traição dos mitos
Cap. VII - Talassocracia
Cap. VIII - No alto da colina
Cap. IX - Caminhos de Esperança