Rolão Preto - A Traição Burguesa - 1945
CAPÍTULO I
A Traição burguesa no caminho da história
A Traição burguesa no caminho da história
RESUMO
Este capítulo apresenta a “traição burguesa” como uma constante da História: sempre que uma classe dirigente abandona o bem comum e se deixa conduzir pela riqueza, pela ambição e pelo cálculo, a vida coletiva corrompe-se e começa a decadência.
No Egipto, esse espírito surge no clero ambicioso e na burguesia comercial, que exploram, intrigam e enfraquecem o Estado. Na Grécia, apesar do esplendor da inteligência e da arte, manifesta-se na dispersão das cidades, nas rivalidades fatais, nas alianças com o invasor e numa moral de prudência egoísta que sacrifica a grandeza comum ao interesse particular.
Roma aparece primeiro como civilização da terra, da disciplina e do povo; mas a aliança da burguesia com a nobreza abre caminho à oligarquia financeira. A guerra, a especulação, o desaparecimento das classes médias e a opressão do povo transformam a República em instrumento do dinheiro. A queda republicana e a dureza do Império são, assim, vistas como efeitos de uma mesma traição: ora tirania capitalista, ora tirania do Estado, até à cumplicidade final com os bárbaros.
A Idade Média introduz a exceção fecunda: a burguesia dos burgos, ofícios e corporações nasce como força de liberdade, solidariedade e ordem comunitária. Mas também ela se degrada quando a riqueza se torna fim de si mesma, quando os grandes mercadores fundam oligarquias urbanas e quando o interesse das cidades se fecha contra uma missão superior.
Na Idade Moderna, o fortalecimento do Estado, a expansão económica, a Reforma e a Revolução Francesa exprimem novas formas dessa mesma deslocação: as antigas liberdades cedem perante o poder central e, depois, perante a burguesia triunfante. A Revolução proclama liberdade, igualdade e fraternidade, mas entrega o poder a uma nova aristocracia plutocrática, usando o povo como força de combate e não como verdadeiro sujeito da História.
A tese do capítulo é, pois, uma filosofia moral da decadência: onde a riqueza se separa da comunidade, onde o poder deixa de servir e passa a possuir, instala-se a traição burguesa — força dissolvente que corrói civilizações, instituições e destinos nacionais.
Entre as influências possíveis destacam-se Rostovtzeff, pela leitura económico-social da decadência romana; Spengler, pela visão orgânica das civilizações e da sua queda; Sombart e Weber, pela análise do espírito burguês e das formas económicas modernas; e Taine, expressamente convocado na leitura crítica da Revolução Francesa. A referência mais explícita do capítulo é Hippolyte Taine.
No Egipto, esse espírito surge no clero ambicioso e na burguesia comercial, que exploram, intrigam e enfraquecem o Estado. Na Grécia, apesar do esplendor da inteligência e da arte, manifesta-se na dispersão das cidades, nas rivalidades fatais, nas alianças com o invasor e numa moral de prudência egoísta que sacrifica a grandeza comum ao interesse particular.
Roma aparece primeiro como civilização da terra, da disciplina e do povo; mas a aliança da burguesia com a nobreza abre caminho à oligarquia financeira. A guerra, a especulação, o desaparecimento das classes médias e a opressão do povo transformam a República em instrumento do dinheiro. A queda republicana e a dureza do Império são, assim, vistas como efeitos de uma mesma traição: ora tirania capitalista, ora tirania do Estado, até à cumplicidade final com os bárbaros.
A Idade Média introduz a exceção fecunda: a burguesia dos burgos, ofícios e corporações nasce como força de liberdade, solidariedade e ordem comunitária. Mas também ela se degrada quando a riqueza se torna fim de si mesma, quando os grandes mercadores fundam oligarquias urbanas e quando o interesse das cidades se fecha contra uma missão superior.
Na Idade Moderna, o fortalecimento do Estado, a expansão económica, a Reforma e a Revolução Francesa exprimem novas formas dessa mesma deslocação: as antigas liberdades cedem perante o poder central e, depois, perante a burguesia triunfante. A Revolução proclama liberdade, igualdade e fraternidade, mas entrega o poder a uma nova aristocracia plutocrática, usando o povo como força de combate e não como verdadeiro sujeito da História.
A tese do capítulo é, pois, uma filosofia moral da decadência: onde a riqueza se separa da comunidade, onde o poder deixa de servir e passa a possuir, instala-se a traição burguesa — força dissolvente que corrói civilizações, instituições e destinos nacionais.
Entre as influências possíveis destacam-se Rostovtzeff, pela leitura económico-social da decadência romana; Spengler, pela visão orgânica das civilizações e da sua queda; Sombart e Weber, pela análise do espírito burguês e das formas económicas modernas; e Taine, expressamente convocado na leitura crítica da Revolução Francesa. A referência mais explícita do capítulo é Hippolyte Taine.
CAPÍTULO I
A Traição burguesa no caminho da história
A Traição burguesa no caminho da história
O primeiro espírito de traição burguesa sopra bem longe nos confins dos tempos quando a civilização humana que nascera nos Deltas fecundos e crescera no embalar das águas genésicas dos grandes rios, ensaiava os primeiros passos na terra sagrada do Egipto.
Bubastes, Hermopólis, Atríbis, Busíris, Letopólis... Viram bem cedo surgir dentro dos seus muros, e como um bolor alastrar e corromper a consciência virginal dos homens, o espírito do mal burguês, que se alimentava do suor e do sangue de quantos subiram o Nilo até aos confins da Núbia, à procura do marfim, do ébano e do oiro para logradouro da ganância alheia.
Cedo também é esse sopro maléfico que segreda aos sacerdotes de Osíris ou de Ámon as solicitações de riqueza, tornando uma classe que era poderoso motor vital do país no entrave permanente a todos os grandes esforços que procuram assegurar ao Egipto a sua marcha na História.
E assim dos Faraós das velhas dinastias aos Tutmés e Ramsés do Egipto restaurado, bem como à Era dos Ptolomeus, um longo rasto de lutas, intrigas, pactos com o invasor, assinala a acção dessa classe sacerdotal que um impulso de ambição sem limites conduz, até mesmo nos lances cruciais da vida do povo egípcio. Por ser este o mais poderoso índice da traição do espírito burguês naquele tempo, não era porém a única. A burguesia capitalista propriamente dita, enriquecida pelo comércio marítimo, logo se mostra e mantém oligarquia opressora, especuladora e avara, que em todas as crises graves ajuda a escravizar o país, feudalizando-o e atraiçoando-o tanto como o clero.
É aqui, neste «clima» do Egipto, que os judeus de Jacó se contaminam da ganância burguesa, demudando-se este povo primitivo de pastores de gado, de que fala a Bíblia, em mercadores de tal maneira especuladores que se tornam um quisto para o País, obrigando o Faraó a persegui-los.
Assim soprava o espírito burguês no Egipto.
Mas, já então, na Grécia, essa terra singular onde a consciência humana floresceu nos prodígios de uma revelação nunca mais excedida em claridade e graça - na Grécia onde a sabedoria de Sólon e o génio de Péricles ordenavam instituições, onde Aristóteles e Platão disciplinavam os sentimentos - onde Demóstenes descobria o génio alado das palavras e Fídias descortinava a beleza mística das formas - já então, nessa divina Grécia, como num belo fruto, a traição do bicho que a mina e decompõe - o mal burguês - mesquinhez, susceptibilidade, visão rasteira, inveja, dispersão e ganância - corroía e envenenava os destinos gregos.
Toda a história da Grécia é o testemunho dessa traição que incessantemente renova ou promove rivalidades fatais entre cidades e ligas, numa persistência alucinante e mesmo diante da ameaça bárbara da Ásia ou da Macedónia.
Hípias, ateniense, alia-se com Dario contra Atenas; Demarate, espartano, faz o mesmo contra Esparta; a cidade de Corinto joga na perda de Mileto, como Argos joga na perda de Esparta e Egino na perda de Atenas... O mesmo sucede quando é Filipe quem se propõe dominar o mundo grego. Com efeito, nas cidades gregas divididas, o partido do oiro favorece decididamente o invasor e a Macedónia, apesar de Demóstenes, triunfa.
A traição burguesa está no fundo de todos os desastres do mundo grego, porque é bem o seu espírito que governa as cidades, dita os costumes e orienta os destinos... É ela, evidentemente, quem desvia Atenas de realizar a sua vocação helénica, pela visão de estreito exclusivismo que sempre dominou a cidade perante os povos que de fora a cobiçam, quando os não tinha em suas mãos por lei da guerra. Jamais, nem mesmo com Demóstenes, ela consegue ultrapassar o estreito horizonte do seu ideal de cidade livre, cidade insolidária com os destinos do mundo que a rodeava, cabeça hegemónica e beneficiária, porventura, em qualquer liga efémera das cidades, mas não cidade-mãe, centro-motor de energias imperiais, mão benéfica dispensadora da equidade para quantos topava em seu caminho. Pelo contrário, sempre a dominou o critério de uma motora de negócios ou pertinaz exploradora de indústrias, para quem o verdadeiro mundo era o circuito estreito do seu burgo e para quem os outros homens só em verdade podiam interessar como tristes e míseros escravos.
E é assim que a Liga Aqueia condena Cleómene e esmaga a revolução que visava abater o capitalismo; é assim que Agis paga com a vida a sua ousadia de ter abolido as dívidas...
Gente ciosa das suas regalias de cidadãos mas incapazes de outorgar essas regalias seja a quem for, capaz de aplaudir Sófocles, mas, incapaz de entender Anaxágoras e não hesita em condenar e fazer beber cicuta a Sócrates...
Um pensamento, porventura, dentre o pensamento grego, pôde exprimir o conceito de vida burguesa daquele tempo e de todos os tempos: é o pensamento de Epicuro.
Epicuro é a expressão suprema da moral burguesa, materialista e egocêntrica; é fundamentada no desejo de encontrar a felicidade - doa a quem doer - dentro dos limites rasteiros e moderados em que não surgem duras contrariedades, e refractária por isso a grandes voos sobre largos horizontes, onde esbarra com a «sabedoria» e a «prudência» do seu próprio egoísmo.
Não está aqui pintada toda a paisagem moral de uma traição que sacrifica à sua «virtude» toda a grandeza do Homem, toda a grandeza da Comunidade, toda a grandeza do vasto Mundo Humano?
Ao contrário da Grécia, Roma nasce, cresce e caminha sob o signo da «terra» - todas as virtudes próprias da aristocracia, das classes médias e da plebe são temperadas no apelo da gleba...
A vocação de Roma é pois, em primeiro lugar, a Conquista, a extensão territorial, a base forte assente na «terra» forte; depois, o mar, como segurança ainda da terra; e só por último o mar como meio de expansão comercial e hegemonia imperial.
Enquanto na Grécia, a não ser Esparta, todas as cidades nasceram ribeirinhas ao mar, e para o mar naturalmente voltadas no seu sonho de expressão mercantil, Roma alicerça-se no interior, no alto de sete colinas, não tem porto natural, e traduz a intenção de uma associação de interesses e aspirações rurais que só na terra apoiavam o seu destino.
Nascidas sob signos tão diversos, bem diverso teria de ser o sentido da sua vocação histórica. A Grécia, encontrando no desenvolvimento da sua evolução económica as reacções da sua evolução social e política, mostra-se naturalmente mercantil e dispersa, sob o comando de uma burguesia rica e gananciosa. Roma, mesmo quando se desenvolve a ponto de abraçar todo o Mediterrâneo, mantém uma convergência, se não uma unidade essencial, o que é o sinal de um limite imposto às ambições, dispersivas e sem tino, de quantos não conseguem antepor o interesse geral ao interesse de cada um.
E, no entanto, Roma bem depressa significa o triunfo das classes médias, o habeas corpus, o direito e a liberdade dos cidadãos, alargando-se a todos e estendia a sua conquista do mundo.
Roma, república popular, suprime a servidão por dívidas, vence a aristocracia, estabelece a igualdade jurídica, organiza um exército de cidadãos. Roma é o primeiro império em que o povo toma consciência de si mesmo.
Democracia e meia fortuna tornam-se sinónimos; os muito ricos perdem pouco a pouco a sua influência política.
Eis, porém, que a Nobreza solicita e obtém o apoio da Burguesia contra as pressões do Povo. Esta primeira traição vai alterar, para todo o sempre, a evolução das instituições romanas.
Pouco a pouco a burguesia passa a ter características capitalistas; e o Senado, dominado por uma oligarquia, sobretudo depois de Canas e das guerras púnicas, seduz em seu proveito a influência do Povo. Roma é já então um centro poderoso de especulação comercial. A traição burguesa surge assim na febre com que a pequena e média fortuna rural trocam o brasão do seu ruralismo pela ganância cómoda das «acções» e do jogo da bolsa.
A República, exactamente porque liberal e universalista, menos armada estava então para se defender da traição capitalista, que não só absorveu rapidamente toda a fortuna romana e imperial, mas também depressa começou a dominar as próprias instituições, servindo-se delas como instrumento dos seus desígnios.
Como sempre, o capitalismo já então se serviu do seu melhor instrumento, que é a guerra, para realizar esses fins. A guerra, com todo o cortejo de especulações na sua preparação, de especulações nos serviços que a mantinham e de especulações nos lucros que ela comportava em escravos e espólio de vencidos - tal foi na verdade o signo sob o qual a sociedade capitalista romana lançou a república pelo caminho de novos destinos.
Ficou célebre a resposta de Catão ao Senado: a guerra pagará a guerra.
Agora Roma, sob a tutela e impulso da oligarquia financeira que a subjuga em absoluto, não é mais do que um povo de rapina sem quaisquer escrúpulos, afogando no sangue a Sardenha, a Macedónia, a Ilíria, para que não surgisse estorvo à plena posse das minas, do comércio e de toda a riqueza que suscitasse cobiças. Da Grécia, onde Perseu sai imolado à febre capitalista romana, até ao Egipto, a Loba austera e generosa passa a hiena insociável, por dura.
Entretanto, o mesmo clima do brutal domínio da Riqueza inspira e orienta as instituições de Roma. As classes médias liquidam totalmente, as massas rurais são contidas e impossibilitadas de obter a terra, que o seu suor fecundava. A tirania do capitalismo por toda a parte as vai esmagando...
A guerra civil e a revolta dos escravos surgem, então, como um aviso.
Caius Grachus é o primeiro tribuno que cai vítima da traição burguesa - assassinado por querer fazer triunfar a justiça.
Drusus, que tenta imitá-lo, tem a mesma sorte.
Mário encabeça a reacção popular, um momento vitoriosa; mas Sila, salvador da ordem burguesa, elaborando fria e inabalavelmente listas de condenados no próprio banquete do triunfo, chega por seu turno, para logo um dia desaparecer no mistério de uma abdicação que parece um remorso.
Espártaco ergue a bandeira dos escravos, outra vez revoltados e outra vez esmagados pela burguesia capitalista, que em Crassus, o riquíssimo Crassus, encontra o algoz que, para salvar os seus privilégios, deixa na História um largo rasto de sangue.
Eis os massacres da Sicília, os massacres de Mário, os massacres de Sila...
O sangue que corre durante o triunvirato é o que sela as lutas do Senado com os Césares. Eis o sangue que rompe do peito de César pela mão assassina de Bruto - desse Bruto que a história burguesa nos pinta como um austero salvador da República, aquele que brande o punhal em nome das liberdades espezinhadas pelo tirano, e que afinal não passa de um mandatário da burguesia capitalista, de um usurário de Salamina, de um defensor das regalias burguesas, a quem o poder de César limitava a extensão gananciosa.
Assim, o povo romano acaba por se divorciar das instituições republicanas, que as traições da burguesia converteram em instrumento de uma oligarquia capitalista e cosmopolita que o oprime e apela para a autoridade libertadora dos Césares, apoio das suas reivindicações sociais e políticas, restituidores das terras e da liberdade perdida.
A República morre pela traição burguesa.
Mas pela traição burguesa mostra-se logo contaminado o próprio Império. Debalde a voz eloquente de Cícero se ergue num protesto de inteligência e de humanismo, desenhando o perfil austero e sereno da República «guardiã de lei, mãe generosa, de universal grandeza e universal justiça... Edifício perfeito e forte construído pela clara metafísica para escalada segura do Direito das Gentes». Ninguém o escuta. A batalha dos interesses sem limites, de especulação sem freio, não tarda em reacender-se. Indiferente a Cícero, ignorando Lucrécio, numa luta sem tréguas, outro aspecto de traição surgiu, ameaça bem evidente para a própria integridade de Roma. A especulação capitalista, dividindo-se em duas correntes, a Continental e a Oriental, foi o ponto de partida da divisão futura do Império.
A traição capitalista não dá entretanto descanso aos Césares e assim, apesar de todos os massacres de Tibério, é ela que assassina Calígula e é ela quem se apodera definitivamente de toda a riqueza do Império: toda a indústria e toda a terra.
E assim, falhada a última tentativa de equilíbrio de forças entre os Imperadores e a oligarquia burguesa, falhada a tentativa de Séneca, a Roma só restaram dois caminhos: a tirania asfixiante do capitalismo ou a tirania dura do Cesarismo.
Por vezes César não foi mais do que um mandatário da tirania burguesa, um aventureiro que a sorte escolheu no jogo das aventuras militares que retalhavam o Império; outras, César foi o aristocrata implacável, que apoiava no povo, e só no povo, o seu domínio. De ditadura em ditadura, de reacção em reacção, o Estatismo tornou-se de cada vez mais um imperativo dos tempos, dominando tudo, intervindo em toda a parte, esmagando as últimas liberdades, vencendo as derradeiras resistências da plebe romana.
Por fim, a última traição da burguesia, foi a traição da sua cumplicidade com os invasores, os Bárbaros, o último recurso contra César. E os Bárbaros destruindo o Templo, não pouparam quem lhes ficou sepultado debaixo das ruínas trágicas.
Bubastes, Hermopólis, Atríbis, Busíris, Letopólis... Viram bem cedo surgir dentro dos seus muros, e como um bolor alastrar e corromper a consciência virginal dos homens, o espírito do mal burguês, que se alimentava do suor e do sangue de quantos subiram o Nilo até aos confins da Núbia, à procura do marfim, do ébano e do oiro para logradouro da ganância alheia.
Cedo também é esse sopro maléfico que segreda aos sacerdotes de Osíris ou de Ámon as solicitações de riqueza, tornando uma classe que era poderoso motor vital do país no entrave permanente a todos os grandes esforços que procuram assegurar ao Egipto a sua marcha na História.
E assim dos Faraós das velhas dinastias aos Tutmés e Ramsés do Egipto restaurado, bem como à Era dos Ptolomeus, um longo rasto de lutas, intrigas, pactos com o invasor, assinala a acção dessa classe sacerdotal que um impulso de ambição sem limites conduz, até mesmo nos lances cruciais da vida do povo egípcio. Por ser este o mais poderoso índice da traição do espírito burguês naquele tempo, não era porém a única. A burguesia capitalista propriamente dita, enriquecida pelo comércio marítimo, logo se mostra e mantém oligarquia opressora, especuladora e avara, que em todas as crises graves ajuda a escravizar o país, feudalizando-o e atraiçoando-o tanto como o clero.
É aqui, neste «clima» do Egipto, que os judeus de Jacó se contaminam da ganância burguesa, demudando-se este povo primitivo de pastores de gado, de que fala a Bíblia, em mercadores de tal maneira especuladores que se tornam um quisto para o País, obrigando o Faraó a persegui-los.
Assim soprava o espírito burguês no Egipto.
Mas, já então, na Grécia, essa terra singular onde a consciência humana floresceu nos prodígios de uma revelação nunca mais excedida em claridade e graça - na Grécia onde a sabedoria de Sólon e o génio de Péricles ordenavam instituições, onde Aristóteles e Platão disciplinavam os sentimentos - onde Demóstenes descobria o génio alado das palavras e Fídias descortinava a beleza mística das formas - já então, nessa divina Grécia, como num belo fruto, a traição do bicho que a mina e decompõe - o mal burguês - mesquinhez, susceptibilidade, visão rasteira, inveja, dispersão e ganância - corroía e envenenava os destinos gregos.
Toda a história da Grécia é o testemunho dessa traição que incessantemente renova ou promove rivalidades fatais entre cidades e ligas, numa persistência alucinante e mesmo diante da ameaça bárbara da Ásia ou da Macedónia.
Hípias, ateniense, alia-se com Dario contra Atenas; Demarate, espartano, faz o mesmo contra Esparta; a cidade de Corinto joga na perda de Mileto, como Argos joga na perda de Esparta e Egino na perda de Atenas... O mesmo sucede quando é Filipe quem se propõe dominar o mundo grego. Com efeito, nas cidades gregas divididas, o partido do oiro favorece decididamente o invasor e a Macedónia, apesar de Demóstenes, triunfa.
A traição burguesa está no fundo de todos os desastres do mundo grego, porque é bem o seu espírito que governa as cidades, dita os costumes e orienta os destinos... É ela, evidentemente, quem desvia Atenas de realizar a sua vocação helénica, pela visão de estreito exclusivismo que sempre dominou a cidade perante os povos que de fora a cobiçam, quando os não tinha em suas mãos por lei da guerra. Jamais, nem mesmo com Demóstenes, ela consegue ultrapassar o estreito horizonte do seu ideal de cidade livre, cidade insolidária com os destinos do mundo que a rodeava, cabeça hegemónica e beneficiária, porventura, em qualquer liga efémera das cidades, mas não cidade-mãe, centro-motor de energias imperiais, mão benéfica dispensadora da equidade para quantos topava em seu caminho. Pelo contrário, sempre a dominou o critério de uma motora de negócios ou pertinaz exploradora de indústrias, para quem o verdadeiro mundo era o circuito estreito do seu burgo e para quem os outros homens só em verdade podiam interessar como tristes e míseros escravos.
E é assim que a Liga Aqueia condena Cleómene e esmaga a revolução que visava abater o capitalismo; é assim que Agis paga com a vida a sua ousadia de ter abolido as dívidas...
Gente ciosa das suas regalias de cidadãos mas incapazes de outorgar essas regalias seja a quem for, capaz de aplaudir Sófocles, mas, incapaz de entender Anaxágoras e não hesita em condenar e fazer beber cicuta a Sócrates...
Um pensamento, porventura, dentre o pensamento grego, pôde exprimir o conceito de vida burguesa daquele tempo e de todos os tempos: é o pensamento de Epicuro.
Epicuro é a expressão suprema da moral burguesa, materialista e egocêntrica; é fundamentada no desejo de encontrar a felicidade - doa a quem doer - dentro dos limites rasteiros e moderados em que não surgem duras contrariedades, e refractária por isso a grandes voos sobre largos horizontes, onde esbarra com a «sabedoria» e a «prudência» do seu próprio egoísmo.
Não está aqui pintada toda a paisagem moral de uma traição que sacrifica à sua «virtude» toda a grandeza do Homem, toda a grandeza da Comunidade, toda a grandeza do vasto Mundo Humano?
Ao contrário da Grécia, Roma nasce, cresce e caminha sob o signo da «terra» - todas as virtudes próprias da aristocracia, das classes médias e da plebe são temperadas no apelo da gleba...
A vocação de Roma é pois, em primeiro lugar, a Conquista, a extensão territorial, a base forte assente na «terra» forte; depois, o mar, como segurança ainda da terra; e só por último o mar como meio de expansão comercial e hegemonia imperial.
Enquanto na Grécia, a não ser Esparta, todas as cidades nasceram ribeirinhas ao mar, e para o mar naturalmente voltadas no seu sonho de expressão mercantil, Roma alicerça-se no interior, no alto de sete colinas, não tem porto natural, e traduz a intenção de uma associação de interesses e aspirações rurais que só na terra apoiavam o seu destino.
Nascidas sob signos tão diversos, bem diverso teria de ser o sentido da sua vocação histórica. A Grécia, encontrando no desenvolvimento da sua evolução económica as reacções da sua evolução social e política, mostra-se naturalmente mercantil e dispersa, sob o comando de uma burguesia rica e gananciosa. Roma, mesmo quando se desenvolve a ponto de abraçar todo o Mediterrâneo, mantém uma convergência, se não uma unidade essencial, o que é o sinal de um limite imposto às ambições, dispersivas e sem tino, de quantos não conseguem antepor o interesse geral ao interesse de cada um.
E, no entanto, Roma bem depressa significa o triunfo das classes médias, o habeas corpus, o direito e a liberdade dos cidadãos, alargando-se a todos e estendia a sua conquista do mundo.
Roma, república popular, suprime a servidão por dívidas, vence a aristocracia, estabelece a igualdade jurídica, organiza um exército de cidadãos. Roma é o primeiro império em que o povo toma consciência de si mesmo.
Democracia e meia fortuna tornam-se sinónimos; os muito ricos perdem pouco a pouco a sua influência política.
Eis, porém, que a Nobreza solicita e obtém o apoio da Burguesia contra as pressões do Povo. Esta primeira traição vai alterar, para todo o sempre, a evolução das instituições romanas.
Pouco a pouco a burguesia passa a ter características capitalistas; e o Senado, dominado por uma oligarquia, sobretudo depois de Canas e das guerras púnicas, seduz em seu proveito a influência do Povo. Roma é já então um centro poderoso de especulação comercial. A traição burguesa surge assim na febre com que a pequena e média fortuna rural trocam o brasão do seu ruralismo pela ganância cómoda das «acções» e do jogo da bolsa.
A República, exactamente porque liberal e universalista, menos armada estava então para se defender da traição capitalista, que não só absorveu rapidamente toda a fortuna romana e imperial, mas também depressa começou a dominar as próprias instituições, servindo-se delas como instrumento dos seus desígnios.
Como sempre, o capitalismo já então se serviu do seu melhor instrumento, que é a guerra, para realizar esses fins. A guerra, com todo o cortejo de especulações na sua preparação, de especulações nos serviços que a mantinham e de especulações nos lucros que ela comportava em escravos e espólio de vencidos - tal foi na verdade o signo sob o qual a sociedade capitalista romana lançou a república pelo caminho de novos destinos.
Ficou célebre a resposta de Catão ao Senado: a guerra pagará a guerra.
Agora Roma, sob a tutela e impulso da oligarquia financeira que a subjuga em absoluto, não é mais do que um povo de rapina sem quaisquer escrúpulos, afogando no sangue a Sardenha, a Macedónia, a Ilíria, para que não surgisse estorvo à plena posse das minas, do comércio e de toda a riqueza que suscitasse cobiças. Da Grécia, onde Perseu sai imolado à febre capitalista romana, até ao Egipto, a Loba austera e generosa passa a hiena insociável, por dura.
Entretanto, o mesmo clima do brutal domínio da Riqueza inspira e orienta as instituições de Roma. As classes médias liquidam totalmente, as massas rurais são contidas e impossibilitadas de obter a terra, que o seu suor fecundava. A tirania do capitalismo por toda a parte as vai esmagando...
A guerra civil e a revolta dos escravos surgem, então, como um aviso.
Caius Grachus é o primeiro tribuno que cai vítima da traição burguesa - assassinado por querer fazer triunfar a justiça.
Drusus, que tenta imitá-lo, tem a mesma sorte.
Mário encabeça a reacção popular, um momento vitoriosa; mas Sila, salvador da ordem burguesa, elaborando fria e inabalavelmente listas de condenados no próprio banquete do triunfo, chega por seu turno, para logo um dia desaparecer no mistério de uma abdicação que parece um remorso.
Espártaco ergue a bandeira dos escravos, outra vez revoltados e outra vez esmagados pela burguesia capitalista, que em Crassus, o riquíssimo Crassus, encontra o algoz que, para salvar os seus privilégios, deixa na História um largo rasto de sangue.
Eis os massacres da Sicília, os massacres de Mário, os massacres de Sila...
O sangue que corre durante o triunvirato é o que sela as lutas do Senado com os Césares. Eis o sangue que rompe do peito de César pela mão assassina de Bruto - desse Bruto que a história burguesa nos pinta como um austero salvador da República, aquele que brande o punhal em nome das liberdades espezinhadas pelo tirano, e que afinal não passa de um mandatário da burguesia capitalista, de um usurário de Salamina, de um defensor das regalias burguesas, a quem o poder de César limitava a extensão gananciosa.
Assim, o povo romano acaba por se divorciar das instituições republicanas, que as traições da burguesia converteram em instrumento de uma oligarquia capitalista e cosmopolita que o oprime e apela para a autoridade libertadora dos Césares, apoio das suas reivindicações sociais e políticas, restituidores das terras e da liberdade perdida.
A República morre pela traição burguesa.
Mas pela traição burguesa mostra-se logo contaminado o próprio Império. Debalde a voz eloquente de Cícero se ergue num protesto de inteligência e de humanismo, desenhando o perfil austero e sereno da República «guardiã de lei, mãe generosa, de universal grandeza e universal justiça... Edifício perfeito e forte construído pela clara metafísica para escalada segura do Direito das Gentes». Ninguém o escuta. A batalha dos interesses sem limites, de especulação sem freio, não tarda em reacender-se. Indiferente a Cícero, ignorando Lucrécio, numa luta sem tréguas, outro aspecto de traição surgiu, ameaça bem evidente para a própria integridade de Roma. A especulação capitalista, dividindo-se em duas correntes, a Continental e a Oriental, foi o ponto de partida da divisão futura do Império.
A traição capitalista não dá entretanto descanso aos Césares e assim, apesar de todos os massacres de Tibério, é ela que assassina Calígula e é ela quem se apodera definitivamente de toda a riqueza do Império: toda a indústria e toda a terra.
E assim, falhada a última tentativa de equilíbrio de forças entre os Imperadores e a oligarquia burguesa, falhada a tentativa de Séneca, a Roma só restaram dois caminhos: a tirania asfixiante do capitalismo ou a tirania dura do Cesarismo.
Por vezes César não foi mais do que um mandatário da tirania burguesa, um aventureiro que a sorte escolheu no jogo das aventuras militares que retalhavam o Império; outras, César foi o aristocrata implacável, que apoiava no povo, e só no povo, o seu domínio. De ditadura em ditadura, de reacção em reacção, o Estatismo tornou-se de cada vez mais um imperativo dos tempos, dominando tudo, intervindo em toda a parte, esmagando as últimas liberdades, vencendo as derradeiras resistências da plebe romana.
Por fim, a última traição da burguesia, foi a traição da sua cumplicidade com os invasores, os Bárbaros, o último recurso contra César. E os Bárbaros destruindo o Templo, não pouparam quem lhes ficou sepultado debaixo das ruínas trágicas.
A IDADE MÉDIA
O plasma da nova Europa resultante do choque do velho mundo greco-romano com o dinamismo violento dos bárbaros teria, naturalmente, de nuclear-se com elementos de força onde se fixassem as primeiras resistências que foram as vértebras da ordem futura. Cumpria as elites activas, onde quer que elas se evidenciassem, o esforço guerreiro capaz de condensar e manter as posições iniciais de uma ordem que o torvelinho desenfreado de raças e instintos primitivos à solta, contrariava e comprometia a todo o instante.
Assim, a Europa Medieva teria de nascer sob o signo aristocrata e militar dos chefes, que com o seu duro braço asseguravam a resistência aos que os cercavam, erguendo castelos e defendendo-se esforçadamente. O Castelo passou a ser, não só o parapeito dos que o habitavam, mas também o refúgio de toda uma região de que era a cabeça e armadura.
Foi, pois, a necessidade imperiosa de segurança que criou e desenvolveu o regímen feudal, regímen de dispersão da autoridade política a que as circunstâncias exageravam o pormenor dispersivo, ou, pelo contrário, encaminhavam a maiores concentrações.
Não havia aqui, de início, evidentemente possibilidades para outra vida que não fosse a do manejo das armas e a da procura do imediato sustento de cada dia pela cultura dos campos.
Só mais tarde, passada a maior tormenta e neutralizadas as grandes correntes, se criou o condicionalismo propicio ao desenvolvimento dos burgos e da vida comercial e industrial onde se tornam possíveis as classes médias. Então, o impulso de circunstâncias económicas impõe um direito novo, um direito urbano que liberta do puro arbítrio do regímen senhorial.
A Burguesia surge. E é mesmo nessa época que ela se começa a intitular com esse nome, que então, longe de ser uma doença da classe média, era um signo de vitalidade, de solidariedade e de independência que vai mudar a face da Europa. Organizada em associações livres «guildas», »corporações», «ofícios», a ela se deve a proclamação sagrada do princípio do bem comum e dessa harmónica convergência de direitos e de deveres que constitui a primeira célula social forte onde se apoiam as liberdades humanas para abrir caminho contra o absolutismo e ganância dos Prelados e Senhorios —a comuna.
Essa burguesia sã lança as bases de uma organização social e perfeita, um socialismo municipal minucioso e previsto, que regula o trabalho — protegendo igualmente o trabalhador e a produção- equilibra possibilidades organizando os mercados; assegura a justiça através das conquistas do direito individual, civil e comercial, para as quais se criam jurisdições especiais próprias de cada classe.
A Burguesia gera, de facto, instituições democráticas por onde se regem e administram os burgos dentro dos quais se trabalha e vive em perfeita harmonia, num ambiente de fraternidade e mesmo num clima de igualitarismo nunca visto na História. É que o burgo, nascendo pelo esforço de todos e defendendo-se pela mão de todos, cria uma solidariedade natural.
Um espírito novo surge sobre a terra martirizada da Europa. Uma esperança, ao mesmo tempo religiosa e cívica, ergue-se para o Céu na prece grandíloqua das Catedrais. Uma clara» uma serena razão aristotélica surge a disciplinar o mundo, guiada por São Tomás.
Toda uma civilização, uma civilização ativa, equitativa e fecunda nasce e floresce pela mão da Burguesia. As Flandres, a Holanda, a Alemanha, a França, a Itália, por toda a parte florescem cidades e vilas erguidas da devastação e do caos, pela energia, prudência e engenho burgueses.
A Idade Média é assim um vasto campo das atividades e das virtudes da mais sã Burguesia.
Pela poesia, pela pintura e pela arquitetura ficam para sempre inscritos na História os mais altos vãos da espiritualidade humana.
Mas já no século XII a traição recomeça. A presença desse espírito de traição manifesta-se então bem claramente em tudo. Até na corrupção das intenções com que se movem as Cruzadas a partir da terceira.
Aquilo que até ali fora espírito heroico ao serviço da fé religiosa, passa a ser simples espírito de aventura sob o impulso de ganância e sede de saque das cidades conquistadas.
Assim na ocupação de Constantinopla, onde os cristãos se assenhorearam dos vasos sagra- dos, das portas e dos candelabros de prata da Igreja de Santa Sofia. Assim também, quando, pela mão do famoso doge Dândalo, os Cruzados serviram os interesses meramente comerciais de Veneza. A especulação e o espírito de ganância criam os privilegiados da Fortuna. Os grandes mercadores passam a fundar as oligarquias tirânicas, impondo a lei da sua vontade e o domínio da sua riqueza à Cidade e aos cidadãos.
Por essa altura um grande sopro de conservantismo e de exclusivismo passa sôbre as instituições e sobre os costumes— espírito de casta que se torna tirânico e insuportável.
O interesse geral é preterido pelo interesse da oligarquia soberana. O povo e as classes médias são rapidamente subjugados, vendo todos os dias espezinhados os seus direitos e prerrogativas.
Um dia, porém, a revolta dos oprimidos torna-se inadiável e surge, ainda por impulso das classes médias, não apodrecidas, dessas classes médias mais próximas do povo, ou que com o povo se confundem.
A História ilumina-se com essa singular explosão revolucionária de Bruges em que o povo dos trabalhadores, guiados pela pequena burguesia dos ofícios, sacode o jugo da tirania capitalista, a tirania da traição da grande Burguesia. Mas o mal da traição estava já contaminando o mundo medievo e a batalha de Courtrai, dando a vitória a revolta, e apenas um ponto de partida da grande luta que não cessa mais entre as reivindicações do povo e a reação capitalista.
Essa traição acentua-se quando os Príncipes procuram impor a hegemonia do Estado sobre todos os particularismos. A Alta Burguesia joga na carta dos Príncipes que é a carta do funcionalismo, por cima da orgânica dos Burgos.
Por outro lado, os Burgos não se entendem nem se amparam na luta contra o Estado que os observa, antes continuam divergentes, senão em luta aberta ao sabor dos seus interesses imediatos, mesmo na hora de perigo extremo.
Exclusivista, conservador até à rotina, o espírito burguês das classes médias torna-as incapazes de criar a solidariedade cívica necessária a um Estado erguido pelas suas mãos e, assim, deixando-se ultrapassar na evolução dos tempos, são naturalmente sacrificadas pela sua marcha.
A resistência heróica de Gand, de Liège e de outros Burgos das Flandres não pode obstar a transformação da Europa, agora sob o signo dos Príncipes como representação do bem comum, a procura de novos destinos, destinos que a traição burguesa não deixou prever nem assegurar à democracia das cidades.
Assim, a Europa Medieva teria de nascer sob o signo aristocrata e militar dos chefes, que com o seu duro braço asseguravam a resistência aos que os cercavam, erguendo castelos e defendendo-se esforçadamente. O Castelo passou a ser, não só o parapeito dos que o habitavam, mas também o refúgio de toda uma região de que era a cabeça e armadura.
Foi, pois, a necessidade imperiosa de segurança que criou e desenvolveu o regímen feudal, regímen de dispersão da autoridade política a que as circunstâncias exageravam o pormenor dispersivo, ou, pelo contrário, encaminhavam a maiores concentrações.
Não havia aqui, de início, evidentemente possibilidades para outra vida que não fosse a do manejo das armas e a da procura do imediato sustento de cada dia pela cultura dos campos.
Só mais tarde, passada a maior tormenta e neutralizadas as grandes correntes, se criou o condicionalismo propicio ao desenvolvimento dos burgos e da vida comercial e industrial onde se tornam possíveis as classes médias. Então, o impulso de circunstâncias económicas impõe um direito novo, um direito urbano que liberta do puro arbítrio do regímen senhorial.
A Burguesia surge. E é mesmo nessa época que ela se começa a intitular com esse nome, que então, longe de ser uma doença da classe média, era um signo de vitalidade, de solidariedade e de independência que vai mudar a face da Europa. Organizada em associações livres «guildas», »corporações», «ofícios», a ela se deve a proclamação sagrada do princípio do bem comum e dessa harmónica convergência de direitos e de deveres que constitui a primeira célula social forte onde se apoiam as liberdades humanas para abrir caminho contra o absolutismo e ganância dos Prelados e Senhorios —a comuna.
Essa burguesia sã lança as bases de uma organização social e perfeita, um socialismo municipal minucioso e previsto, que regula o trabalho — protegendo igualmente o trabalhador e a produção- equilibra possibilidades organizando os mercados; assegura a justiça através das conquistas do direito individual, civil e comercial, para as quais se criam jurisdições especiais próprias de cada classe.
A Burguesia gera, de facto, instituições democráticas por onde se regem e administram os burgos dentro dos quais se trabalha e vive em perfeita harmonia, num ambiente de fraternidade e mesmo num clima de igualitarismo nunca visto na História. É que o burgo, nascendo pelo esforço de todos e defendendo-se pela mão de todos, cria uma solidariedade natural.
Um espírito novo surge sobre a terra martirizada da Europa. Uma esperança, ao mesmo tempo religiosa e cívica, ergue-se para o Céu na prece grandíloqua das Catedrais. Uma clara» uma serena razão aristotélica surge a disciplinar o mundo, guiada por São Tomás.
Toda uma civilização, uma civilização ativa, equitativa e fecunda nasce e floresce pela mão da Burguesia. As Flandres, a Holanda, a Alemanha, a França, a Itália, por toda a parte florescem cidades e vilas erguidas da devastação e do caos, pela energia, prudência e engenho burgueses.
A Idade Média é assim um vasto campo das atividades e das virtudes da mais sã Burguesia.
Pela poesia, pela pintura e pela arquitetura ficam para sempre inscritos na História os mais altos vãos da espiritualidade humana.
Mas já no século XII a traição recomeça. A presença desse espírito de traição manifesta-se então bem claramente em tudo. Até na corrupção das intenções com que se movem as Cruzadas a partir da terceira.
Aquilo que até ali fora espírito heroico ao serviço da fé religiosa, passa a ser simples espírito de aventura sob o impulso de ganância e sede de saque das cidades conquistadas.
Assim na ocupação de Constantinopla, onde os cristãos se assenhorearam dos vasos sagra- dos, das portas e dos candelabros de prata da Igreja de Santa Sofia. Assim também, quando, pela mão do famoso doge Dândalo, os Cruzados serviram os interesses meramente comerciais de Veneza. A especulação e o espírito de ganância criam os privilegiados da Fortuna. Os grandes mercadores passam a fundar as oligarquias tirânicas, impondo a lei da sua vontade e o domínio da sua riqueza à Cidade e aos cidadãos.
Por essa altura um grande sopro de conservantismo e de exclusivismo passa sôbre as instituições e sobre os costumes— espírito de casta que se torna tirânico e insuportável.
O interesse geral é preterido pelo interesse da oligarquia soberana. O povo e as classes médias são rapidamente subjugados, vendo todos os dias espezinhados os seus direitos e prerrogativas.
Um dia, porém, a revolta dos oprimidos torna-se inadiável e surge, ainda por impulso das classes médias, não apodrecidas, dessas classes médias mais próximas do povo, ou que com o povo se confundem.
A História ilumina-se com essa singular explosão revolucionária de Bruges em que o povo dos trabalhadores, guiados pela pequena burguesia dos ofícios, sacode o jugo da tirania capitalista, a tirania da traição da grande Burguesia. Mas o mal da traição estava já contaminando o mundo medievo e a batalha de Courtrai, dando a vitória a revolta, e apenas um ponto de partida da grande luta que não cessa mais entre as reivindicações do povo e a reação capitalista.
Essa traição acentua-se quando os Príncipes procuram impor a hegemonia do Estado sobre todos os particularismos. A Alta Burguesia joga na carta dos Príncipes que é a carta do funcionalismo, por cima da orgânica dos Burgos.
Por outro lado, os Burgos não se entendem nem se amparam na luta contra o Estado que os observa, antes continuam divergentes, senão em luta aberta ao sabor dos seus interesses imediatos, mesmo na hora de perigo extremo.
Exclusivista, conservador até à rotina, o espírito burguês das classes médias torna-as incapazes de criar a solidariedade cívica necessária a um Estado erguido pelas suas mãos e, assim, deixando-se ultrapassar na evolução dos tempos, são naturalmente sacrificadas pela sua marcha.
A resistência heróica de Gand, de Liège e de outros Burgos das Flandres não pode obstar a transformação da Europa, agora sob o signo dos Príncipes como representação do bem comum, a procura de novos destinos, destinos que a traição burguesa não deixou prever nem assegurar à democracia das cidades.
IDADE MODERNA
Dos meados de século XIII em diante acelera-se a queda das instituições medievas mostrando-se claramente ultrapassadas pelos tempos de uma nova época da História. O aparecimento dos exércitos do Rei para o lugar dos mercenários dos castelos e dos municípios e o desenvolvimento de uma burocracia fundamentada na vontade real ao contrário daquela que até ali tinha surgido sob o signo e pelo processo nobiliárquico - tais eram as alavancas maiores que aceleravam a marcha da transformação profunda.
O mundo disperso fervendo na batalha de «senhores», a «anarquia aristocrática» no dizer de Goethe, que nascera sobre as ruínas do império romano ia agora, por sua vez, dar lugar a outro de conformação bem diversa.
Pouco a pouco, face aos castelos e municípios, tomava relevo a entidade Nação e não já como coisa do soberano mas sim como conjunto de poderes e comandos de que o Rei era o centro motor e arquiteto supremo de destinos: a Res-pública.
Despontavam os primeiros clarões da Renascença e com eles ressurgia o Direito Romano diante do qual os Reis assumiam um mandato que os assemelhavam aos Príncipes da tradição de Roma — os primeiros — no quadro dos valores da Hierarquia em que assentava a soberania da Nação.
Verdadeira revolução era aquela, pois, o ressurgimento do Direito Romano, numa época em que as nações tomavam corpo, definiam linguagem própria, e condensavam as características essenciais da sua personalidade, tomava as proporções decisivas de uma linha de ruptura total entre os costumes e ordenanças medievas e os conceitos renovados das instituições herdadas de Roma.
Agora, de uma sociedade comunitária e solidarista por necessidade de defesa e segurança comum, passava-se a um mundo atomístico e individualista cujo símbolo máximo se encarnava na pessoa do Rei, braço e garantia de todos. E, do homem complexo considerado até ali em função da sua vocação, solidariedade e ofício, passava-se ao homem simples individuo, visto apenas como unidade do grande somatório nacional.
Marchava-se então naturalmente para a concentração dos poderes e o que na verdade aparecia como libertação, processo de maior plasticidade social, redundaria necessariamente num desarmamento de pessoa humana, que desta maneira era deixada, isolada e só, em face de arbítrio do Chefe da Nação.
Predominava porém o critério dos Legistas — a primeira traição burguesa nos tempos novos — e, esses, inspirados nas normas do direito, que em Roma tendera a assegurar sempre a hegemonia da oligarquia dominante, compraziam-se agora em quebrar e fazer desaparecer, um a um, todos os círculos de prerrogativas e de direitos particulares dentro dos quais se movia o homem, no oficio, na corporação e no município - círculos que se é certo limitavam a ação individual, eram, por outro lado, as couraças fortes que protegiam os indivíduos dos abusos do Poder.
Por ineficaz foi então caindo em desuso e eliminada toda a jurisdição medieval, e o Rei pôde um dia absorver, uma a uma, todas as classes, acabando por dominar totalmente a Nação.
Reage o Clero. Reage por toda a parte a Nobreza e dessa tremenda luta que incendeia a Europa fica entre nós um derradeiro eco na conspiração que ela move contra D. João II e lhe deixa nas mãos o Duque de Bragança morto no cadafalso e o Duque de Viseu caído a golpes de punhal do próprio Rei.
De todos, aquele que mais rapidamente se submeteu trocando as liberdades antigas pelas possibilidades do favor real foi a Burguesia. Os Legistas, lançando as bases a um Estado Moderno que desconhecia completamente as regalias alcançadas pela experiência medieva, preparavam assim as condições de uma engrenagem em que a Burguesia teria o melhor lugar. Por sua traição se perderam, porém, todas as fontes que poderiam fertilizar a nova ordem, assegurando-lhe a possibilidade de, junto com novas liberdades, ser a garantia das liberdades antigas.
Mas a Europa era agora forte manancial de vitalidades criadoras. E as nações, na medida que se ia concluindo o processo da sua formação, revelavam-se carregadas de um potencial poderoso que se mostrava todos os dias no campo de novas ambições e de novos anseios.
Foi assim que um grande acontecimento, daqueles que marcam na vida da Humanidade sobre a terra, se produziu. Os portugueses e os espanhóis, lançados no caminho das descobertas geográficas, devassavam os mares, dobravam o Cabo da Boa Esperança, descobriam as Américas, chegavam à India e davam a volta ao mundo... Graças ao seu esforço temerário revelava-se enfim a verdadeira fisionomia do Globo e alargavam-se as possibilidades e a cobiça da Europa para as infindáveis terras da África, da Ásia, da América e da Oceânia. As consequências de tão grande prodígio foram, em todos os campos da atividade e sabedoria humanas, de uma importância decisiva. O homem pôde enfim conhecer com rigor a forma e a estrutura do planeta que habitava, as raças que o povoavam, os minerais e vegetais que ele continha.
Abrem-se à ciência novas perspetivas na geografia, na cosmografia, na investigação de todas as leis naturais que regem o mundo.
Sobretudo manifesta-se por toda a parte ardente curiosidade, desejo intenso de saber, e não apenas no campo de especulação pura, mas sim agora no campo dos factos e das coisas, libertos de preconceitos, abertos a toda a verdade fosse qual fosse. O homem debruçava-se como nunca sobre a natureza, para a ouvir e para entender o profundo mistério da sua existência.
Surge então Copérnico, surge Roger Bacon... O caminho estava aberto a um Galileu, a um Giordano Bruno, e razão havia para todas as intuições geniais de um Leonardo da Vinci...
O comércio e a indústria tomavam incremento novo, ao mesmo tempo que os grandes problemas do homem sobre a terra se equacionavam com novos fatores.
Conhecida a posição que pisava, o homem lançava-se agora com mais segurança na descoberta do universo que o rodeava.
Uma concepção do mundo era agora possível e entrava no debate dos espíritos criadores. A esses daria um dia o justo método o pensamento clarificador e coordenador de um Descartes.
Entretanto, os problemas religiosos assumiam uma dramática presença. Face à revelação magnifica das maravilhas reais do universo, aqueles que mais se deviam alegrar e louvar Deus pelo dom que concedera aos homens de as poder descobrir e entender, consideravam pelo contrário como seu dever mostrar-se reservados e hostis. Do lado de onde, até aí, tinha vindo maior clamor pelos direitos da razão e da liberdade humana, surgia agora um espírito conservador limitado, uma imposição sistemática de velhos métodos, um receio e uma prudência rotineiros... Esquecendo-se de que só em matéria de fé as suas opiniões tinham valor definitivo, julgou-se útil e necessário manter inabalável confiança contra toda a evidência dos tempos novos, numa velha interpretação da cosmogonia Bíblica.
Era o tempo em que o espírito de «traição burguesa» apodrecia e fazia cair em flores murchas a gloriosa floração da Renascença itálica. Renascimento de maravilha tinha sido esse que uma Burguesia livre e forte, fizera explodir em milagres criadores nas cidades autónomas setentrionais da Península. Atividade industrial e comercial esplendidas — sábia organização política, garantia das liberdades individuais — liberdade de pensar, de concorrência, de expressão artística; riqueza obtida por intenso trabaIho; cultura e arte erguidas aos mais altos cimos das possibilidades humanas.
Floração admirável que fizera brilhar no céu da Europa como estrelas de primeira grandeza as cidades de Florença, Siena, Verona, Veneza... Campo esplendoroso onde nasceram e puderam subir às paragens mais puras do ideal criador, homens cujo nome tem um sabor quási divino — Dante, Giotto, Donatello, Leonardo da Vinci, Petrarca, Ariosto, Corregio, Miguel Ângelo, Fra Angélico, Rafael, Ticiano, Botticelli e Tasso...
Depressa, porém, a ganância, a corrupção, a luta sem glória nem escrúpulos, secou a seiva bendita, mutilou a árvore sagrada, arrastando à decadência fulminante a Itália renovada. A burguesia, apodrecida, desfazia sem piedade toda a sua obra e, como nas cidades medievas da Flandres, atraiçoava tristemente a sua missão.
Sobre essa Itália, corrupta e miseranda, soaria para sempre a amarga condenação de Ariosto:
O d'ogni vizio fetida sentina
Dormi, Italia imbriaca!
Como não compreender então que esse clima de decadência e perdição tivesse contaminado aqueles que, embora portadores do facho eterno da Igreja, eram, contudo, apenas homens, que julgavam e perseguiam como homens e assim por certo não puderam fugir ao mal do mundo que os rodeava e sinistramente caía em ruínas?
Também, pois, a traição burguesa determinava atitudes nefastas mesmo no campo religioso, atitudes de incompreensão e rigidez dogmática em face de problemas que exigiam ser encarados com toda a plástica espiritual e atitudes condenáveis de manobras políticas que bem poderiam ser evitadas.
Assim Campanela e Giordano Bruno sofrem as durezas da perseguição. Assim Clemente VII se apoia no turco contra Carlos V.
Assim também a Reforma encontrava o clima propício. A traição do orgulho burguês... Sem a sua ação talvez que a unidade religiosa se pudesse ter mantido, talvez que os motivos que impunham a Reforma tivessem sido traduzidos em fórmulas que dessem satisfação aos descontentamentos, apesar do naturalismo da época e da rigidez dogmática; apesar da doutrina da graça e do livre-exame, das teorias da Imanência, do valor absoluto da Consciência e da Predestinação...
Assim, porém, aos erros do orgulho, de um lado opuseram-se, sem remédio, os erros do orgulho do outro. A conciliação não foi possível. Nem mesmo a sabedoria de Layonez e de Salmeron conseguiram convencer a revolta.
A Reforma seguiu o seu caminho apesar dos conselhos de Erasmo, apesar dos jesuítas e da Contra-Reforma. É que o Burguês encontrava na Reforma o seu clima natural. A sua religião verdadeira está na «sua consciência», fórmula onde cabem todas as imposições da sua vontade. Enquanto o catolicismo impõe uma submissão e um confessor, um «Director Espiritual», ao protestante basta o comando do seu «foro íntimo» que é a fórmula cara à Burguesia, a fórmula capaz de conciliar todas as atitudes no tempo e no espaço, pois que para cada uma delas a «consciência» pode encontrar uma justificação.
É apenas em referência ao seu «foro íntimo» que o burguês avalia os motivos da consideração alheia. E, desde que ele se suponha considerado pelos outros, está de bem com a sua consciência e isso é o suficiente para a sua tranquilidade religiosa.
O protestantismo é assim sobretudo uma religião de «moderados», de «gente sensata», de «gente bem», como hoje se diz, é uma moral social de consciências. Ora, para o «burguês» que se diz ou supõe católico, também a fórmula do que é «conveniente» ou «não é conveniente» impera. O árbitro dessa medida está um tanto dentro dele próprio, mas também está fora, e concretiza-se na pessoa do Banqueiro com quem trata de negócios e conhece a sua «pontualidade» nos pagamentos; na pessoa do lojista que lhe fornece a mercearia e que atesta o «rigor» das suas contas em dia; e, principalmente, na pessoa de cada sócio do seu Club que por certo o não aceitaria como confrade todas as noites à mesa do Bridge se o não «considerasse» digno disso.
Quanto ao Padre, o burguês católico tolera-o com cordialidade e vai até ao ponto mesmo de lhe pagar a côngrua generosamente. Não vê, porém, nele, e, isso é evidente, nada que equipare a «sua consideração» aquela com que o honram os outros, as pessoas referência da sua consciência de homem de negócios e de mundano...
Vai à missa como toda a gente «bem-educada», contribui para as obras pias. Que não o importunem, porém, com outras explicações... O seu dever cumpre-o...
Nesta liberdade de movimentos interiores; nesta independência unicamente condicionada pelo seu próprio julgamento; neste conceito que ele tem da sua vida e da vida dos outros, estão, pois, todos os princípios essenciais da sua moral e da sua religião.
O burguês não é, pois, católico. Embora não tenha disso «a consciência», a sua religião é naturalmente a protestante. E assim na City, na Wall-Street, na rua do Comércio... Todo o sucesso das seitas protestantes está na natural inclinação burguesa para as suas condescendências. Triunfaram mais facilmente nos países nórdicos porque exatamente nestes países as forças da Burguesia eram mais poderosas. Na medida, porém, em que a Burguesia triunfa nos outros países, o seu afastamento do catolicismo, ao menos no campo da comunhão efetiva dos consentios católicos, é coisa evidente.
No nosso tempo o fenómeno é de todos os dias. A Burguesia e de um modo particular a Alta-Burguesia, torna-se protestante, senão nos ritos, nas atitudes mentais face à vida e às realidades espirituais que a condicionam.
*
É evidente que o que há de fundamental na Reforma é o seu sentido político. Separando-se de Roma, Lutero liquidava a intenção de quantos procuravam realizar e manter um império Teocrático vindo a reforçar com novos fatores a concepção do mundo baseada nos nacionalismos.
O Norte europeu sacudia mais uma vez o jugo do «império romano», mesmo quando parecera apenas ressurgir no plano de uma intenção religiosa — o universalismo do «mundo católico». O problema de independência do temporal surgira assim equacionado com novos elementos, o mais importante dos quais clamava dos dois lados da barricada no espírito de cada combatente: a Razão.
Durante séculos vai agora o Homem fazer o seu desesperado apelo à nova divindade, à qual acaba por erguer altares e oferecer um culto pela mão de Robespierre e da Revolução Francesa.
À força de se teimar em impor certos absurdos para assegurar certos privilégios, orgulho e posições de domínio - a traição dos exageros de uns trazia a traição dos exageros doutros. A «Razão» opunha-se agora o «racionalismo».
Para além de S. Tomás viriam a despontar os Filósofos. A curva que vai de Descartes a Kant traduz a marcha do conceito de Razão em face do facto novo: a Experiência.
Entretanto a Europa moderna ia no caminho exuberante da sua evolução.
Lançada na inquietação da descoberta dos valores da Terra, a que a «ciência» ia descortinando novos coeficientes, o homem passava da Alquimia à Química com Boyle; do magnetismo à eletricidade com Gilberto; descobria as leis da Física experimental com Newton; o cálculo infinitesimal com Newton e Leibinitz; a astronomia com Copérnico e Galileu; a anatomia com Bichat; a fisiologia vegetal com Stefen, Hales; a classificação botânica com Jon Ray...
E, armando-se incessantemente com novos conhecimentos e novos métodos de investigação, lançava-se agora com dobrado impulso na grande indústria.
Já Gutemberg tinha descoberto a fundição de letras e a máquina de impressão, revolucionando toda a arte e indústria do livro. Hargreaves lança um dia o seu famoso tear. Watt descobre por fim a máquina a vapor, que, desde o grande Leonardo à marmita de Papin, era uma grande esperança em marcha.
O homem descobrira que «tudo era movimento» e então desenvolve um prodigioso esforço para encontrar todas as fontes de energia — todas as forças motrizes que Deus prodigalizara sobre a terra.
Atomística, a civilização moderna encontra o verdadeiro signo da sua inquietação fazendo-se mecanicista. Diferenciada até a pura vontade individual pelas solicitações do seu «racionalismo» e do seu «naturalismo» tão vivamente revelados e incessantemente aguilhoados, a sociedade moderna sentia nascer dentro de si os impulsos de uma agitação que ia revolucionar o mundo até às suas mais profundas raízes.
Entretanto o plano da evolução política do Estado não correra paralelo, antes bem pelo contrário, ao plano da evolução das sociedades.
O Estado que, primeiro fora o Príncipe, e no Príncipe encontrara porventura ainda certas correções a neutralizar a dureza do seu comando, era agora ao lado do Príncipe engrenagem impiedosa que cada vez mais alargava o âmbito da sua ação trituradora.
Já Cromwel fora um chefe implacável, bem mais tirânico e sombrio em certas horas que o mal-aventurado Carlos I, que a Revolução ceifara. Mazarino, Richelieu, e Colbert foram «senhores indiscutíveis», que à sombra do poder Real se tornaram mais déspotas que os seus amos. Em Portugal o Marquês implantava também os métodos do Colbertismo, a que deu uma feição drástica particular; Campomanes e Flórida Blanca foram na Espanha o seu eco amargo; na Rússia o grande favorito de Catarina II, Potemkine, escreveu as mais duras páginas da sua história.
O Estado, no seu conceito moderno de Estado, só em verdade então nascera. Logo, porém, nasce com ele um estadismo esmagador e sem limites. No conflito entre as aspirações de liberdade dos governados e da tirania dos governantes, ia surgir a grande crise. A Burguesia, senhora da maior parte das engrenagens preparava-se para se apoderar do resto. Só a ela aproveitaria, pois, a ação racionalista da Enciclopédia. Demolido o prestígio do Rei, à sombra do qual a nobreza mantinha privilégios e possibilidades de comando; demolida a nobreza que nos seus próprios salões fazia o leito da nova ordem que ameaçava devorá-la; e demolidos os alicerces do poder da Igreja, a Burguesia triunfava. Tinha por si os Filósofos que, de Voltaire a Diderot, proclamavam a ruína da velha ordem; tinha por si o «Contrato Social» de Jean Jaques Rousseau e já por seu aliado natural era o impulso que vinha da revolta protestante. O antigo regime estava condenado. Os sucessos da Revolução Francesa estão, porém, bem longe de provar a sinceridade da Burguesia quanto ao seu desejo de fazer triunfar as liberdades e prerrogativas populares. Do que ela sobretudo cuidou foi de assegurar o seu próprio poderio. E assim a Burguesia, que atraiçoara os destinos do Homem deixando perder as suas prerrogativas medievas em benefício do Cesarismo da Renascença, atraiçoava outra vez esses destinos instaurando uma nova tirania, agora claramente em seu exclusivo proveito
Mas a bandeira onde ela inscreveu as palavras-força, as palavras dinâmicas de Liberdade, Igualdade, Fraternidade, a bandeira que traduzia as mais vivas inquietações do povo que ansiava já ser massa, levava-a à batalha e à vitória.
Vitória burguesa... Traição burguesa.
Derrubou-se uma aristocracia—a dos valores atávicos do sangue. Surgiu logo uma outra — a dos valores plutocráticos da Burguesia.
E o Povo?
O mundo disperso fervendo na batalha de «senhores», a «anarquia aristocrática» no dizer de Goethe, que nascera sobre as ruínas do império romano ia agora, por sua vez, dar lugar a outro de conformação bem diversa.
Pouco a pouco, face aos castelos e municípios, tomava relevo a entidade Nação e não já como coisa do soberano mas sim como conjunto de poderes e comandos de que o Rei era o centro motor e arquiteto supremo de destinos: a Res-pública.
Despontavam os primeiros clarões da Renascença e com eles ressurgia o Direito Romano diante do qual os Reis assumiam um mandato que os assemelhavam aos Príncipes da tradição de Roma — os primeiros — no quadro dos valores da Hierarquia em que assentava a soberania da Nação.
Verdadeira revolução era aquela, pois, o ressurgimento do Direito Romano, numa época em que as nações tomavam corpo, definiam linguagem própria, e condensavam as características essenciais da sua personalidade, tomava as proporções decisivas de uma linha de ruptura total entre os costumes e ordenanças medievas e os conceitos renovados das instituições herdadas de Roma.
Agora, de uma sociedade comunitária e solidarista por necessidade de defesa e segurança comum, passava-se a um mundo atomístico e individualista cujo símbolo máximo se encarnava na pessoa do Rei, braço e garantia de todos. E, do homem complexo considerado até ali em função da sua vocação, solidariedade e ofício, passava-se ao homem simples individuo, visto apenas como unidade do grande somatório nacional.
Marchava-se então naturalmente para a concentração dos poderes e o que na verdade aparecia como libertação, processo de maior plasticidade social, redundaria necessariamente num desarmamento de pessoa humana, que desta maneira era deixada, isolada e só, em face de arbítrio do Chefe da Nação.
Predominava porém o critério dos Legistas — a primeira traição burguesa nos tempos novos — e, esses, inspirados nas normas do direito, que em Roma tendera a assegurar sempre a hegemonia da oligarquia dominante, compraziam-se agora em quebrar e fazer desaparecer, um a um, todos os círculos de prerrogativas e de direitos particulares dentro dos quais se movia o homem, no oficio, na corporação e no município - círculos que se é certo limitavam a ação individual, eram, por outro lado, as couraças fortes que protegiam os indivíduos dos abusos do Poder.
Por ineficaz foi então caindo em desuso e eliminada toda a jurisdição medieval, e o Rei pôde um dia absorver, uma a uma, todas as classes, acabando por dominar totalmente a Nação.
Reage o Clero. Reage por toda a parte a Nobreza e dessa tremenda luta que incendeia a Europa fica entre nós um derradeiro eco na conspiração que ela move contra D. João II e lhe deixa nas mãos o Duque de Bragança morto no cadafalso e o Duque de Viseu caído a golpes de punhal do próprio Rei.
De todos, aquele que mais rapidamente se submeteu trocando as liberdades antigas pelas possibilidades do favor real foi a Burguesia. Os Legistas, lançando as bases a um Estado Moderno que desconhecia completamente as regalias alcançadas pela experiência medieva, preparavam assim as condições de uma engrenagem em que a Burguesia teria o melhor lugar. Por sua traição se perderam, porém, todas as fontes que poderiam fertilizar a nova ordem, assegurando-lhe a possibilidade de, junto com novas liberdades, ser a garantia das liberdades antigas.
Mas a Europa era agora forte manancial de vitalidades criadoras. E as nações, na medida que se ia concluindo o processo da sua formação, revelavam-se carregadas de um potencial poderoso que se mostrava todos os dias no campo de novas ambições e de novos anseios.
Foi assim que um grande acontecimento, daqueles que marcam na vida da Humanidade sobre a terra, se produziu. Os portugueses e os espanhóis, lançados no caminho das descobertas geográficas, devassavam os mares, dobravam o Cabo da Boa Esperança, descobriam as Américas, chegavam à India e davam a volta ao mundo... Graças ao seu esforço temerário revelava-se enfim a verdadeira fisionomia do Globo e alargavam-se as possibilidades e a cobiça da Europa para as infindáveis terras da África, da Ásia, da América e da Oceânia. As consequências de tão grande prodígio foram, em todos os campos da atividade e sabedoria humanas, de uma importância decisiva. O homem pôde enfim conhecer com rigor a forma e a estrutura do planeta que habitava, as raças que o povoavam, os minerais e vegetais que ele continha.
Abrem-se à ciência novas perspetivas na geografia, na cosmografia, na investigação de todas as leis naturais que regem o mundo.
Sobretudo manifesta-se por toda a parte ardente curiosidade, desejo intenso de saber, e não apenas no campo de especulação pura, mas sim agora no campo dos factos e das coisas, libertos de preconceitos, abertos a toda a verdade fosse qual fosse. O homem debruçava-se como nunca sobre a natureza, para a ouvir e para entender o profundo mistério da sua existência.
Surge então Copérnico, surge Roger Bacon... O caminho estava aberto a um Galileu, a um Giordano Bruno, e razão havia para todas as intuições geniais de um Leonardo da Vinci...
O comércio e a indústria tomavam incremento novo, ao mesmo tempo que os grandes problemas do homem sobre a terra se equacionavam com novos fatores.
Conhecida a posição que pisava, o homem lançava-se agora com mais segurança na descoberta do universo que o rodeava.
Uma concepção do mundo era agora possível e entrava no debate dos espíritos criadores. A esses daria um dia o justo método o pensamento clarificador e coordenador de um Descartes.
Entretanto, os problemas religiosos assumiam uma dramática presença. Face à revelação magnifica das maravilhas reais do universo, aqueles que mais se deviam alegrar e louvar Deus pelo dom que concedera aos homens de as poder descobrir e entender, consideravam pelo contrário como seu dever mostrar-se reservados e hostis. Do lado de onde, até aí, tinha vindo maior clamor pelos direitos da razão e da liberdade humana, surgia agora um espírito conservador limitado, uma imposição sistemática de velhos métodos, um receio e uma prudência rotineiros... Esquecendo-se de que só em matéria de fé as suas opiniões tinham valor definitivo, julgou-se útil e necessário manter inabalável confiança contra toda a evidência dos tempos novos, numa velha interpretação da cosmogonia Bíblica.
Era o tempo em que o espírito de «traição burguesa» apodrecia e fazia cair em flores murchas a gloriosa floração da Renascença itálica. Renascimento de maravilha tinha sido esse que uma Burguesia livre e forte, fizera explodir em milagres criadores nas cidades autónomas setentrionais da Península. Atividade industrial e comercial esplendidas — sábia organização política, garantia das liberdades individuais — liberdade de pensar, de concorrência, de expressão artística; riqueza obtida por intenso trabaIho; cultura e arte erguidas aos mais altos cimos das possibilidades humanas.
Floração admirável que fizera brilhar no céu da Europa como estrelas de primeira grandeza as cidades de Florença, Siena, Verona, Veneza... Campo esplendoroso onde nasceram e puderam subir às paragens mais puras do ideal criador, homens cujo nome tem um sabor quási divino — Dante, Giotto, Donatello, Leonardo da Vinci, Petrarca, Ariosto, Corregio, Miguel Ângelo, Fra Angélico, Rafael, Ticiano, Botticelli e Tasso...
Depressa, porém, a ganância, a corrupção, a luta sem glória nem escrúpulos, secou a seiva bendita, mutilou a árvore sagrada, arrastando à decadência fulminante a Itália renovada. A burguesia, apodrecida, desfazia sem piedade toda a sua obra e, como nas cidades medievas da Flandres, atraiçoava tristemente a sua missão.
Sobre essa Itália, corrupta e miseranda, soaria para sempre a amarga condenação de Ariosto:
O d'ogni vizio fetida sentina
Dormi, Italia imbriaca!
Como não compreender então que esse clima de decadência e perdição tivesse contaminado aqueles que, embora portadores do facho eterno da Igreja, eram, contudo, apenas homens, que julgavam e perseguiam como homens e assim por certo não puderam fugir ao mal do mundo que os rodeava e sinistramente caía em ruínas?
Também, pois, a traição burguesa determinava atitudes nefastas mesmo no campo religioso, atitudes de incompreensão e rigidez dogmática em face de problemas que exigiam ser encarados com toda a plástica espiritual e atitudes condenáveis de manobras políticas que bem poderiam ser evitadas.
Assim Campanela e Giordano Bruno sofrem as durezas da perseguição. Assim Clemente VII se apoia no turco contra Carlos V.
Assim também a Reforma encontrava o clima propício. A traição do orgulho burguês... Sem a sua ação talvez que a unidade religiosa se pudesse ter mantido, talvez que os motivos que impunham a Reforma tivessem sido traduzidos em fórmulas que dessem satisfação aos descontentamentos, apesar do naturalismo da época e da rigidez dogmática; apesar da doutrina da graça e do livre-exame, das teorias da Imanência, do valor absoluto da Consciência e da Predestinação...
Assim, porém, aos erros do orgulho, de um lado opuseram-se, sem remédio, os erros do orgulho do outro. A conciliação não foi possível. Nem mesmo a sabedoria de Layonez e de Salmeron conseguiram convencer a revolta.
A Reforma seguiu o seu caminho apesar dos conselhos de Erasmo, apesar dos jesuítas e da Contra-Reforma. É que o Burguês encontrava na Reforma o seu clima natural. A sua religião verdadeira está na «sua consciência», fórmula onde cabem todas as imposições da sua vontade. Enquanto o catolicismo impõe uma submissão e um confessor, um «Director Espiritual», ao protestante basta o comando do seu «foro íntimo» que é a fórmula cara à Burguesia, a fórmula capaz de conciliar todas as atitudes no tempo e no espaço, pois que para cada uma delas a «consciência» pode encontrar uma justificação.
É apenas em referência ao seu «foro íntimo» que o burguês avalia os motivos da consideração alheia. E, desde que ele se suponha considerado pelos outros, está de bem com a sua consciência e isso é o suficiente para a sua tranquilidade religiosa.
O protestantismo é assim sobretudo uma religião de «moderados», de «gente sensata», de «gente bem», como hoje se diz, é uma moral social de consciências. Ora, para o «burguês» que se diz ou supõe católico, também a fórmula do que é «conveniente» ou «não é conveniente» impera. O árbitro dessa medida está um tanto dentro dele próprio, mas também está fora, e concretiza-se na pessoa do Banqueiro com quem trata de negócios e conhece a sua «pontualidade» nos pagamentos; na pessoa do lojista que lhe fornece a mercearia e que atesta o «rigor» das suas contas em dia; e, principalmente, na pessoa de cada sócio do seu Club que por certo o não aceitaria como confrade todas as noites à mesa do Bridge se o não «considerasse» digno disso.
Quanto ao Padre, o burguês católico tolera-o com cordialidade e vai até ao ponto mesmo de lhe pagar a côngrua generosamente. Não vê, porém, nele, e, isso é evidente, nada que equipare a «sua consideração» aquela com que o honram os outros, as pessoas referência da sua consciência de homem de negócios e de mundano...
Vai à missa como toda a gente «bem-educada», contribui para as obras pias. Que não o importunem, porém, com outras explicações... O seu dever cumpre-o...
Nesta liberdade de movimentos interiores; nesta independência unicamente condicionada pelo seu próprio julgamento; neste conceito que ele tem da sua vida e da vida dos outros, estão, pois, todos os princípios essenciais da sua moral e da sua religião.
O burguês não é, pois, católico. Embora não tenha disso «a consciência», a sua religião é naturalmente a protestante. E assim na City, na Wall-Street, na rua do Comércio... Todo o sucesso das seitas protestantes está na natural inclinação burguesa para as suas condescendências. Triunfaram mais facilmente nos países nórdicos porque exatamente nestes países as forças da Burguesia eram mais poderosas. Na medida, porém, em que a Burguesia triunfa nos outros países, o seu afastamento do catolicismo, ao menos no campo da comunhão efetiva dos consentios católicos, é coisa evidente.
No nosso tempo o fenómeno é de todos os dias. A Burguesia e de um modo particular a Alta-Burguesia, torna-se protestante, senão nos ritos, nas atitudes mentais face à vida e às realidades espirituais que a condicionam.
*
É evidente que o que há de fundamental na Reforma é o seu sentido político. Separando-se de Roma, Lutero liquidava a intenção de quantos procuravam realizar e manter um império Teocrático vindo a reforçar com novos fatores a concepção do mundo baseada nos nacionalismos.
O Norte europeu sacudia mais uma vez o jugo do «império romano», mesmo quando parecera apenas ressurgir no plano de uma intenção religiosa — o universalismo do «mundo católico». O problema de independência do temporal surgira assim equacionado com novos elementos, o mais importante dos quais clamava dos dois lados da barricada no espírito de cada combatente: a Razão.
Durante séculos vai agora o Homem fazer o seu desesperado apelo à nova divindade, à qual acaba por erguer altares e oferecer um culto pela mão de Robespierre e da Revolução Francesa.
À força de se teimar em impor certos absurdos para assegurar certos privilégios, orgulho e posições de domínio - a traição dos exageros de uns trazia a traição dos exageros doutros. A «Razão» opunha-se agora o «racionalismo».
Para além de S. Tomás viriam a despontar os Filósofos. A curva que vai de Descartes a Kant traduz a marcha do conceito de Razão em face do facto novo: a Experiência.
Entretanto a Europa moderna ia no caminho exuberante da sua evolução.
Lançada na inquietação da descoberta dos valores da Terra, a que a «ciência» ia descortinando novos coeficientes, o homem passava da Alquimia à Química com Boyle; do magnetismo à eletricidade com Gilberto; descobria as leis da Física experimental com Newton; o cálculo infinitesimal com Newton e Leibinitz; a astronomia com Copérnico e Galileu; a anatomia com Bichat; a fisiologia vegetal com Stefen, Hales; a classificação botânica com Jon Ray...
E, armando-se incessantemente com novos conhecimentos e novos métodos de investigação, lançava-se agora com dobrado impulso na grande indústria.
Já Gutemberg tinha descoberto a fundição de letras e a máquina de impressão, revolucionando toda a arte e indústria do livro. Hargreaves lança um dia o seu famoso tear. Watt descobre por fim a máquina a vapor, que, desde o grande Leonardo à marmita de Papin, era uma grande esperança em marcha.
O homem descobrira que «tudo era movimento» e então desenvolve um prodigioso esforço para encontrar todas as fontes de energia — todas as forças motrizes que Deus prodigalizara sobre a terra.
Atomística, a civilização moderna encontra o verdadeiro signo da sua inquietação fazendo-se mecanicista. Diferenciada até a pura vontade individual pelas solicitações do seu «racionalismo» e do seu «naturalismo» tão vivamente revelados e incessantemente aguilhoados, a sociedade moderna sentia nascer dentro de si os impulsos de uma agitação que ia revolucionar o mundo até às suas mais profundas raízes.
Entretanto o plano da evolução política do Estado não correra paralelo, antes bem pelo contrário, ao plano da evolução das sociedades.
O Estado que, primeiro fora o Príncipe, e no Príncipe encontrara porventura ainda certas correções a neutralizar a dureza do seu comando, era agora ao lado do Príncipe engrenagem impiedosa que cada vez mais alargava o âmbito da sua ação trituradora.
Já Cromwel fora um chefe implacável, bem mais tirânico e sombrio em certas horas que o mal-aventurado Carlos I, que a Revolução ceifara. Mazarino, Richelieu, e Colbert foram «senhores indiscutíveis», que à sombra do poder Real se tornaram mais déspotas que os seus amos. Em Portugal o Marquês implantava também os métodos do Colbertismo, a que deu uma feição drástica particular; Campomanes e Flórida Blanca foram na Espanha o seu eco amargo; na Rússia o grande favorito de Catarina II, Potemkine, escreveu as mais duras páginas da sua história.
O Estado, no seu conceito moderno de Estado, só em verdade então nascera. Logo, porém, nasce com ele um estadismo esmagador e sem limites. No conflito entre as aspirações de liberdade dos governados e da tirania dos governantes, ia surgir a grande crise. A Burguesia, senhora da maior parte das engrenagens preparava-se para se apoderar do resto. Só a ela aproveitaria, pois, a ação racionalista da Enciclopédia. Demolido o prestígio do Rei, à sombra do qual a nobreza mantinha privilégios e possibilidades de comando; demolida a nobreza que nos seus próprios salões fazia o leito da nova ordem que ameaçava devorá-la; e demolidos os alicerces do poder da Igreja, a Burguesia triunfava. Tinha por si os Filósofos que, de Voltaire a Diderot, proclamavam a ruína da velha ordem; tinha por si o «Contrato Social» de Jean Jaques Rousseau e já por seu aliado natural era o impulso que vinha da revolta protestante. O antigo regime estava condenado. Os sucessos da Revolução Francesa estão, porém, bem longe de provar a sinceridade da Burguesia quanto ao seu desejo de fazer triunfar as liberdades e prerrogativas populares. Do que ela sobretudo cuidou foi de assegurar o seu próprio poderio. E assim a Burguesia, que atraiçoara os destinos do Homem deixando perder as suas prerrogativas medievas em benefício do Cesarismo da Renascença, atraiçoava outra vez esses destinos instaurando uma nova tirania, agora claramente em seu exclusivo proveito
Mas a bandeira onde ela inscreveu as palavras-força, as palavras dinâmicas de Liberdade, Igualdade, Fraternidade, a bandeira que traduzia as mais vivas inquietações do povo que ansiava já ser massa, levava-a à batalha e à vitória.
Vitória burguesa... Traição burguesa.
Derrubou-se uma aristocracia—a dos valores atávicos do sangue. Surgiu logo uma outra — a dos valores plutocráticos da Burguesia.
E o Povo?
A REVOLUÇÃO FRANCESA
As raízes de ordem política, social e económica que produziram o drama da Revolução Francesa, são hoje bem conhecidas da crítica e da filosofia da História.
Noventa e três é o triunfo consumado da Burguesia levada por diversas circunstâncias e impulsos a conduzir a batalha que dá o Poder ao Terceiro Estado, ao seu Estado.
Recordações do poder oligárquico ultrapassado, atavismos de classe, espírito de reivindicta e de emulação sob o forte impulso de novos apetites e tudo isto impelido ainda pelo sopro interior de uma inquietação que na aparência a irmanava e confundia com o povo - tal era o impulso dos sentimentos, a convergência de linhas de força, que fizeram a ressurreição burguesa dos fins do século XVIII.
Sedenta de mando, vaidosa, irascível, inumana, «totalitária» como todos os vilões feitos senhores, a Burguesia ressurgia no Poder, esquecida de todas as suas primitivas virtudes e brandindo apenas as armas da sua traição.
Assim enquanto o povo perdoa e se comove diante da desgraça de tantos ci-devants ceifados pelo tufão revolucionário, Fouquier-Tainville permanece frio e implacável; enquanto o povo se enternece em frente da figura humilhada de Luís XVI, a Convenção, imperturbável, vota a sua morte.
A Convenção... Trezentos e setenta e três advogados desconhecidos, funcionários de justiça, juízes e fiscais, numa assembleia de 577 deputados conforme observa Taine! A Convenção, esse teatro de vaidades, ódios, ambições e terrores burgueses, onde se desenrola o mais assombroso dos dramas da História, força estupenda de títeres, igualmente pueris e satânicos, que serviram à Providência para transformar o curso do Destino.
Todos os acontecimentos que enchem a história da Revolução são gerados e alimentados pela intriga burguesa, pela ambição de chefes burgueses. À Burguesia sobretudo se deve o tom de ferocidade, o sentido insensível e desumano que a batalha tomou[1].
A condenação e morte do Rei; a condenação e morte de Maria Antonieta; a condenação e morte dos Girondinos; a condenação e morte de Robespierre; —a própria morte de Marat são incidentes sangrentos da mais torva luta entre burgueses.
O povo forma nos batalhões e bate-se na fronteira, não colabora nesta farsa tenebrosa em que rolam da guilhotina, umas após outras, as cabeças dos Reis, dos homens da Gironda e da Montanha, dos cortesãos, dos generais e dos intelectuais da Revolução, da altiva Madame Roland e do doce Chénier... Luta burguesa, na qual a Burguesia, dividida em clientelas, atraiçoava a sua missão e os destinos da Revolução em marcha, na ânsia de conquistar hegemonias que iam tragicamente caindo de mão em mão, para finalmente tudo caber em sorte ao olímpico Corso, suprema humilhação, última das traições de uma burguesia que se vangloriava de haver proclamado os Direitos do Homem.
Sim, foi a traição burguesa que desviou a Revolução do seu caminho.
---------------------------------
[1] Drumont, no dizer de Sorel, conclui mesmo que «aucune de nos révolutions ne fut aussi sanglante que la première, parce qu'elle fut conduite par la bourgeoisie». Réflexions sur la Violence, p. 144.
Noventa e três é o triunfo consumado da Burguesia levada por diversas circunstâncias e impulsos a conduzir a batalha que dá o Poder ao Terceiro Estado, ao seu Estado.
Recordações do poder oligárquico ultrapassado, atavismos de classe, espírito de reivindicta e de emulação sob o forte impulso de novos apetites e tudo isto impelido ainda pelo sopro interior de uma inquietação que na aparência a irmanava e confundia com o povo - tal era o impulso dos sentimentos, a convergência de linhas de força, que fizeram a ressurreição burguesa dos fins do século XVIII.
Sedenta de mando, vaidosa, irascível, inumana, «totalitária» como todos os vilões feitos senhores, a Burguesia ressurgia no Poder, esquecida de todas as suas primitivas virtudes e brandindo apenas as armas da sua traição.
Assim enquanto o povo perdoa e se comove diante da desgraça de tantos ci-devants ceifados pelo tufão revolucionário, Fouquier-Tainville permanece frio e implacável; enquanto o povo se enternece em frente da figura humilhada de Luís XVI, a Convenção, imperturbável, vota a sua morte.
A Convenção... Trezentos e setenta e três advogados desconhecidos, funcionários de justiça, juízes e fiscais, numa assembleia de 577 deputados conforme observa Taine! A Convenção, esse teatro de vaidades, ódios, ambições e terrores burgueses, onde se desenrola o mais assombroso dos dramas da História, força estupenda de títeres, igualmente pueris e satânicos, que serviram à Providência para transformar o curso do Destino.
Todos os acontecimentos que enchem a história da Revolução são gerados e alimentados pela intriga burguesa, pela ambição de chefes burgueses. À Burguesia sobretudo se deve o tom de ferocidade, o sentido insensível e desumano que a batalha tomou[1].
A condenação e morte do Rei; a condenação e morte de Maria Antonieta; a condenação e morte dos Girondinos; a condenação e morte de Robespierre; —a própria morte de Marat são incidentes sangrentos da mais torva luta entre burgueses.
O povo forma nos batalhões e bate-se na fronteira, não colabora nesta farsa tenebrosa em que rolam da guilhotina, umas após outras, as cabeças dos Reis, dos homens da Gironda e da Montanha, dos cortesãos, dos generais e dos intelectuais da Revolução, da altiva Madame Roland e do doce Chénier... Luta burguesa, na qual a Burguesia, dividida em clientelas, atraiçoava a sua missão e os destinos da Revolução em marcha, na ânsia de conquistar hegemonias que iam tragicamente caindo de mão em mão, para finalmente tudo caber em sorte ao olímpico Corso, suprema humilhação, última das traições de uma burguesia que se vangloriava de haver proclamado os Direitos do Homem.
Sim, foi a traição burguesa que desviou a Revolução do seu caminho.
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[1] Drumont, no dizer de Sorel, conclui mesmo que «aucune de nos révolutions ne fut aussi sanglante que la première, parce qu'elle fut conduite par la bourgeoisie». Réflexions sur la Violence, p. 144.
Cap. I - A Traição burguesa nos caminhos da história
- A IDADE MÉDIA
- A IDADE MODERNA
- A REVOLUÇÃO FRANCESA
Cap. II - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- A TERRA
Cap. III - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- A AVENTURA
Cap. IV - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- O ESPÍRITO
- A TRAGÉDIA DA "UNIDADE"
Cap. V - A traição burguesa e as suas alianças
Cap. VI - A traição dos mitos
Cap. VII - Talassocracia
Cap. VIII - No alto da colina
Cap. IX - Caminhos de Esperança
- A IDADE MÉDIA
- A IDADE MODERNA
- A REVOLUÇÃO FRANCESA
Cap. II - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- A TERRA
Cap. III - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- A AVENTURA
Cap. IV - A Traição burguesa e as linhas de força nacionais
- O ESPÍRITO
- A TRAGÉDIA DA "UNIDADE"
Cap. V - A traição burguesa e as suas alianças
Cap. VI - A traição dos mitos
Cap. VII - Talassocracia
Cap. VIII - No alto da colina
Cap. IX - Caminhos de Esperança