a Benção de Ramalho
Hipólito Raposo
Hipólito Raposo narra o exílio de Ramalho Ortigão após a implantação da República em Portugal, o seu contacto com jovens monárquicos em Paris e a influência que teve no movimento do Integralismo Lusitano, que procurou restaurar Portugal através de uma monarquia renovada e participativa. Descreve o regresso de Ramalho Ortigão a Portugal, o seu apoio moral aos jovens integralistas e a sua reflexão crítica sobre os erros da sua geração, incentivando os mais novos a lutar pela salvação nacional.
- Exílio de Ramalho Ortigão após a implantação da República: Ramalho Ortigão foi forçado a exilar-se em Paris devido à instabilidade política em Portugal, tal como outros opositores do novo regime republicano.
- Contacto com jovens monárquicos e influência no Integralismo Lusitano: Em Paris, Ramalho Ortigão conviveu com jovens portugueses exilados, como Alberto de Monsaraz, e influenciou o movimento do Integralismo Lusitano, que defendia uma monarquia renovada e participativa.
- Conversão às ideias monárquicas e influência francesa: O contacto com o movimento francês L'Action française e seus pensadores contribuiu para a conversão de Ramalho Ortigão às ideias monárquicas.
- Fundação do Integralismo Lusitano: Jovens universitários portugueses sentiram a necessidade de restaurar Portugal através de uma monarquia com participação das regiões e corporações. Surge a revista Nação Portuguesa e o termo Integralismo Lusitano, inspirado por Luís de Almeida Braga.
- Regresso de Ramalho Ortigão a Portugal: Após a amnistia de 1914, Ramalho Ortigão regressa ao país, já convertido à causa monárquica e apoia moralmente os jovens integralistas.
- Encontro marcante com o autor do texto: Hipólito Raposo relata um encontro pessoal com Ramalho Ortigão, onde este manifesta apoio aos princípios do Integralismo Lusitano e faz uma reflexão crítica sobre os erros da sua geração, incentivando os jovens a lutar pela salvação nacional.
- Reconhecimento do papel construtivo de Ramalho Ortigão: O autor destaca que, apesar de pertencer a uma geração de “demolidores”, Ramalho Ortigão exerceu um papel de crítica construtiva e foi um mestre para as gerações seguintes.
- Reflexões sobre arte e cultura: Ramalho Ortigão defende que o Estado não deve interferir na arte, que deve ser deixada aos artistas e críticos sérios. Relata também episódios ligados à cultura e património, como a polémica sobre quadros do Paço Arquiepiscopal de Évora e a estátua do Marquês de Pombal.
- Carta de um velho a um novo: Ramalho Ortigão escreve uma carta a João do Amaral, reconhecendo a superioridade intelectual da nova geração e a necessidade de reeducação integral do povo português.
- Últimos tempos e legado: O texto termina com a evocação do legado de Ramalho Ortigão, o seu apoio ao Integralismo Lusitano e o desejo de que as futuras gerações honrem o “testamento” da juventude integralista.
A BENÇÃO DE RAMALHO
Nos primeiros tempos da vida da República, não se julgando seguro em Portugal, depois de lhe terem invadido a casa, o escritor Ramalho Ortigão foi obrigado a exilar-se, como acontecera a outros concidadãos desafeiçoados ou suspeitos ao novo regime político.
Por 1913, achava-se em Paris o autor das Farpas, e vivia em modesta pensão da Avenida Vítor Hugo aonde o visitava o estudante de Coimbra, Alberto de Monsaraz, também exilado com seus pais.
Assim, este meu condiscípulo e querido amigo, seria o primeiro rapaz da geração do Integralismo Lusitano que ao grande prosador havia de ouvir os seus desabafos e protestos contra as violências e desatinos da República Portuguesa, condenando o votismo e o parlamentarismo, a que se referira com antipatia na carta dirigida a Teófilo Braga, em 16 de Outubro de 1910.
Na cidade de Paris, portanto, faria Ramalho o estágio da sua conversão às verdades da Monarquia, ensinado pela triste experiência da vida pública portuguesa e esclarecido pelos doutrinadores de L'Action française. Esse movimento caminhava então para o seu apogeu, sob a direção de Charles Maurras, ladeado por assíduos colaboradores, como Léon Daudet, Jacques Bainville, M. Pujo e G. Valois, e de muito perto apoiado por outros escritores da França de esse tempo, da categoria de Paul Bourget, J. Lemaitre e H.
Bordeaux.
Os estudos de essa grande corrente de ideias marcavam uma profunda renovação político-social, mas não se tinham ainda definido em sistema orgânico, talvez pelo justificado receio de que os factos e as acomodações do governo, da administração e da disciplina popular viessem a revelar contradições perigosas para a doutrina e para o prestígio dos seus apóstolos.
Quanto ficava de indeterminado, impreciso e indefinido, procurava-se integrá-lo na fórmula do empirismo organizador, amplo conceito que derivaria das lições da prática do governo, cujo êxito se condicionava pelo poder pessoal do Rei e pela legítima representação das regiões e das corporações.
Nos primeiros meses de esse ano de 1913, em Portugal, alguns rapazes, amigos e camaradas da Universidade, compreenderam e sentiram a necessidade de formular os princípios da restauração da vida nacional que eles viam conturbada, desorganizada e sem qualquer consciência dos termos e dos meios exigidos por tão alto e difícil intento.
Não se tratava de repor no trono o Rei D. Manuel II, restabelecer as instituições e leis do exercício da sua magistratura, restituir às suas antigas atividades os políticos responsáveis pela queda da Monarquia. Seria um malogro perigoso e funesto esse imediato triunfo.
Procurava-se realizar aspiração maior: restaurar Portugal pela Monarquia, restituindo previamente à Realeza a sua verdadeira feição, chamando à participação na vida pública os municípios e as corporações da Inteligência e do Trabalho. Nenhum dos aspetos das atividades portuguesas deixaria de ser considerado nos planos de essa renovação que abrangeria as escolas, as regiões, as oficinas, a economia, as letras, as artes e as relações da Igreja com o Estado.
Obra de tamanho alcance para meia dúzia de rapazes, dos quais nenhum ainda chegara aos trinta anos, excedia por certo a sua capacidade; só cabia dentro da esperança e do sonho, para que desde logo principiariam a viver, lutando, e teriam ou terão de morrer a lutar os que ainda estão vivos.
Em Abril de 1914, aparecia, já retardada, a revista Nação Portuguesa, e nesse primeiro fascículo se publicava um índice de aspirações nacionais, sob o título - O Que Nós Queremos. Como se pretendia englobar na mesma aspiração todos aspetos do renascimento português, o sistema de doutrina enunciado, recebia, por inspiração de Luís de Almeida Braga, então exilado na Bélgica, o nome de Integralismo Lusitano.
Por esta forma se dava sistematização e unidade ao trabalho e aspirações de quantos quisessem colaborar numa obra que teria de ser nacional nos esforços e nas realizações do interesse coletivo.
A ninguém se mostrava estranho o desígnio que, em primavera sagrada de sinceridade, esses poucos moços unira por amor da salvação da Pátria, depois, talvez, por amor de perdição de alguns deles...
Após a amnistia decretada pelo governo de Bernardino Machado, em Abril de 1914, Ramalho Ortigão, como muitos outros indesejáveis e réprobos, regressava do seu exílio a Portugal. Mas já não vinha nem podia confessar-se indiferente às formas do governo, conforme escrevera na célebre carta a Teófilo Braga, presidente do Governo Provisório da República Portuguesa.
Chegando a Lisboa, viera encontrar grande efervescência de sentimento monárquico, com muitos protestos, viva saudade do Rei e da Corte, mas o combate à República, repetidamente malsucedido nas armas, reduzia-se a denunciar ridículos, a contar anedotas deprimentes, a confrontar homens e factos do passado com os do presente. Vivia-se de saudosismo doloroso, com aparências de triunfante. E foi no meio de esta excitação sentimental, entre lágrimas, recordações de cadeias e dores de feridas nos corpos e nas almas, que apareceu o manifesto de vida nova do Integralismo Lusitano.
Pouco demoraria a revelar-se o interesse do glorioso Escritor por essa expressão do novo pensamento político.
Num dia de Maio, o meu condiscípulo de Coimbra, Eduardo Ortigão Burnay, comunicava-me um grande desejo de seu Avô: avistar-se comigo ou com outro dos meus companheiros, nenhum dos quais por então vivia em Lisboa. Por exclusão de partes, a mim competia acudir com júbilo a tão alto chamamento, prontificando-me, desde logo, a receber a honra de tal encontro, em próximo prazo dado.
Poucos dias depois, ambos nos encaminhávamos da Avenida para a Calçada dos Caetanos e jamais esquecerei a comoção e alvoroço de esses minutos, ao aproximar-me da casa onde uma robusta e gloriosa velhice esperava o juvenil e atrevido escrevedor. Subimos as escadas por volta das três horas da tarde, e sem demora me vi defronte de essa figura aprumada e majestosa, a quem os matacões grisalhos e espessos davam o garbo marcial de um brigadeiro do Segundo Império, com larga folha de serviços.
A primeira e festiva saudação de Ramalho foi para a minha estatura física, elevada como a dele, dote natural em que não tinha qualquer merecimento próprio, visto que, depois de Deus, só aos meus Pais e Avós caberia algum encómio a tal respeito.
Despedindo afetuosamente o Eduardo, para que fosse ter com a Avó à sala da sua intimidade, não se esquecia de agradecer ao neto ter trazido à sua presença este rapaz desempenado, e naquela primeira sala da livraria ficávamos de pé, frente a frente, Ramalho Ortigão para falar, eu para ouvir.
Comecei então a receber o seu franco e generoso aplauso, a sua inteira concordância com os princípios enunciados na revista Nação Portuguesa que ali estava à mão tente.
Referindo-se então às desgraças, violências e crimes da República, entrava a acusar fortemente a sua gloriosa e nefasta geração:
— Fomos demolidores, negativos e dissolventes. Nada respeitámos, nada soubemos salvar; e as ruínas que hoje deploramos, ao desvario mental, aos erros dos homens do meu tempo devem ser atribuídas. Vejo agora aberto o caminho da salvação nacional: sigam por ele, para bem da Pátria cega e martirizada. Neste exame de consciência, sinto remorsos, com grande pena de não vos acompanhar. Cheguei tarde, só a tempo de vos deitar a bênção para a jornada...
Com silenciosa comoção ouvi estas palavras, proferidas em voz magoada e vigorosa. Verdadeiramente, sentia-me confundido, sem poder resistir ao tom imperioso de tais louvores a uma atitude mental e política, de cuja ingenuidade subtilmente sorriam os dirigentes e os jornalistas monárquicos daquele tempo. Era o primeiro prémio ao nosso intento aquele espontâneo estímulo da boca de um escritor que os da minha idade veneravam como dos mais insignes mestres prosadores da Língua Portuguesa.
Sentindo verdadeira mágoa daquelas declarações, em que o Escritor renegava da sua gloriosa carreira de panfletário, animei-me a corrigir respeitosamente os seus exageros, sem faltar à justiça:
Se ele pertencera a uma geração de demolidores, tornava-se necessário reconhecer que esses altos espíritos eram produto do seu tempo, e que nenhum deles deixara tantas páginas afirmativas, tantos conselhos e preceitos salutares, como o autor das Farpas.
No seu ardoroso anseio de aperfeiçoamento, de salubridade, de beleza, e de bom-senso, ele tinha exercido um preceptorado de crítica construtiva, fora sincero e eloquente apóstolo de um Portugal melhor. Em muitos aspetos das suas obras, as gerações presentes e futuras lhe chamariam seu mestre. Quis ali recordar-lhe quanto eu próprio com ele aprendera nos seus livros, e designadamente no Culto da Arte em Portugal que, embora muitas vezes elegíaco, era um verdadeiro cântico de amor à Tradição Portuguesa.
A propósito deste pequeno-grande livro, disse-lhe o entusiasmo com que eu e um condiscípulo poeta (Manuel Eugénio Massa) líamos juntos essas páginas de comovida exaltação, sinceridade e verdade. Deixando em casa os códigos e a sebenta, fôramos um dia até ao claustro de Celas, para reler em voz alta as formosas páginas evocadoras daquela suave construção e da beleza dos seus capiteis historiados que uma noviça podia tocar com uma açucena...
Ramalho sentiu a sinceridade das minhas palavras, pôs-me no ombro a sua larga e pesada mão, e com as grandes lunetas a tremular, quase me abraçou de reconhecido.
Em seguida disse-me:
- Alegra-me que goste desse livro. Precisa atualizado. Há muito mais para dizer. Vai ter nova edição e para ela escrevo um prólogo que pensei no Buçaco onde estive há pouco.
Num passeio pela mata encontrei sentada na relva, uma rapariguinha da serra a fazer vassouras.
Parei diante dela, para com atenção seguir as voltas e os movimentos do seu trabalho, a ugar os ramos de lentisco e de giesta, a juntá-los ordenadamente, a cortar as pontas, a ligar, a apertar o cabo com uma correia de trovisco, e, por fim, a cortar os troços nas pontas com uma pequena podoa. Cada vez que acabava uma vassoura, sacudia, rolava e contra rolava o artefacto sobre a mão, como quem se mirava na própria obra.
Nesta rapariga surpreendia mais uma vez as inatas qualidades do arranjo, do equilíbrio, do sentido decorativo do povo português. Vou fazer dela um símbolo que no prólogo do livro apresentarei aos nossos concidadãos, dizendo-lhe: Varre, menina, varre todo o cisco da arte oficial e não oficial, essas acumulações de maravalhas de pedantes e charlatães; defende de aleijões e impurezas que a rebaixam, a arte da nossa terra...
Continuando a falar em temas da sua predileção, declarou-me ter lido a minha discussão com José de Figueiredo no Diário de Notícias, a propósito da incorporação de uns quadros do Paço Arquiepiscopal de Évora no Museu de Arte Antiga.
Cheio de razão, mas sem peso nem autoridade oficial que a pudesse fazer prevalecer a um capricho do meu ocasional adversário, tive a satisfação de ouvir da boca de Ramalho Ortigão algumas palavras de concordância que reproduzo com a possível fidelidade:
— O meu amigo tem razão nas suas reflexões. Esses quadros tratam da vida da Virgem e são notáveis pinturas. O escultor Giusti atribuía-os a Gérad David. Devem permanecer onde sempre estiveram.
E grande erro concentrar tudo em Lisboa e mutilar um belo conjunto como esse. Nessa controvérsia a razão está com o meu amigo...
Por esse tempo levantara-se também grande celeuma em Lisboa, com as irregularidades do concurso para a estátua do Marquês de Pombal, a que um gracioso de café viria depois a chamar a vingança dos jesuítas.
Com o saber da sua longa experiência, Ramalho continuava a ensinar-me:
—Por si mesmo, pelos seus órgãos burocráticos, o Estado é incompetente para tratar assuntos de arte de qualquer natureza. Deve limitar a sua ação ao que é das suas atribuições e capacidade. Deixe a arte para os artistas e para os críticos sérios e autorizados.
Convidando-me então a acompanhá-lo, a dar volta às diversas salas da sua livraria, pôs-me diante dos olhos algumas raras espécies de livros portugueses e estrangeiros, apontou-me novidades francesas sobre política que eu bem conhecia, permitindo-me indicar-lhe outras obras mais recentemente aparecidas.
Depois, foi guiando a minha atenção para lembranças, quadros, objetos raros e variados das suas coleções que enchiam o andar daquela extensa mansarda.
Ali estava o seu retrato pintado por Sargent, várias telas de pintores contemporâneos, uma cabaça decorada com desenhos do rei D. Fernando II.
Diante de uma janela, estacou para me dizer:
— Ouve aquele estrondo? Vê esta incómoda poeira a invadir-me a casa?
E entrou a elucidar-me, com revoltada lamentação:
— Estão a deitar abaixo o velho Convento dos Caetanos; vai desaparecer mais uma casa de frades estudiosos. Tudo desaparece... A nova construção há-de tirar-me a vista do Tejo e da Outra Banda que eu gozava há quarenta anos.
Sobre estas ruínas, recordo-me da boa vizinhança do Conservatório que se instalara no velho Convento dos Teatinos. Defronte desta janela, havia noutro tempo graciosos alegretes, e a regar-lhe as flores, muitas vezes eu via de luvas brancas, pegando no regadorzinho, a gentil senhora que era a mulher de Francisco Palha...
Por então, era eu professor da Escola de Teatro do Conservatório e bem sabia até que ponto as obras iriam prejudicar as largas vistas do glorioso morador daquelas águas-furtadas. Mas não estava nas minhas mãos embargá-las, competindo-me apenas ouvir discretamente aquelas amargas queixas, sem poder dar-lhe remédio nem satisfação.
No dia 7 de Setembro seguinte, Ramalho Ortigão escrevia a corajosa Carta de um velho a um novo, dirigida a João do Amaral, agora felizmente reeditada pelas Edições Gama, com outros documentos e a condigna resposta deste nosso camarada, o mais novo da companhia, então redator do diário Restauração.
Logo nos primeiros períodos Ramalho declarava:
A orientação mental da mocidade contemporânea, comparada à orientação dos rapazes do meu tempo, estabelece entre as nossas respetivas cerebrações uma diferença de nível que desloca o eixo do respeito da sociedade em que vivemos, obrigando a elite dos velhos a inclinar-se rendidamente à elite dos novos.
Se grande honra era para nós receber estes generosos aplausos da pena do grande Escritor, não menor contentamento sentiria a sua velhice em poder alinhar com tanta lucidez, esperança e firmeza no pequeno grupo de rapazes, de quem mais adiante dizia:
A incontestável superioridade dessa plêiade estudiosa consiste em ter admiravelmente pressentido a necessidade culminante da reeducação integral do povo português.
A este aplauso de Ramalho viria juntar-se pouco depois a compreensão de dois bispos e a de um velho lente de Teologia. Os outros valores mentais de Portugal, exceto Coelho de Carvalho, embora republicano, concediam-nos inteira indiferença ou votavam-nos piedoso desprezo.
A carta a João do Amaral, escrita nos fragores da Guerra Grande, terminava com palavras de enternecida estima, como se fossem de um companheiro da nossa idade:
— Adeus, meu amigo. Lembre-me afetuosamente a todos os seus esforçados companheiros de luta, e a todos comunique o estreito e comovido abraço que lhe envia o seu dedicado confrade.
A Carta de um velho a um novo era a redução a escrito da conversa comigo, alguns meses antes, na sua residência da Calçada dos Caetanos.
Por este eloquente testemunho de concordância nos primeiros tempos dos seus passos, o Integralismo Lusitano jubilosamente recebia nas suas fileiras o mais ilustre dos adeptos.
No Outono de esse ano, presidindo na Liga Naval a uma conferência de António Sardinha, O velho conde de Bertiandos, em vez de pronunciar frases protocolares para elogiosa apresentação do orador, preferiu transmitir à assistência, como honra suprema, o entusiasmo do insigne Escritor pelos moços integralistas, repetindo as generosas palavras que lhe ouvira dizer:
- Esses rapazes sabem tudo!
Pouco depois, Ramalho Ortigão adoecia, e nunca mais pude falar ao mestre Prosador, de quem o acaso me fizera um dos seus testamenteiros espirituais.
Da casa de saúde aonde se recolhera, para o tratarem da doença que o levaria deste mundo, num dia do Inverno de 1915, trouxe-me José de Figueiredo a recordação da viva estima intelectual que lhe ficara devendo por aquela primeira e última entrevista.
Evocando hoje esse encontro e o incitamento que dele nos adviria para prosseguir na campanha do resgate do Espírito Nacional — quem me dera a consoladora certeza de reconhecer que a geração dos nossos filhos, honrando o testamento da nossa mocidade, para a sua jornada na vida, também aceitasse a bênção da nossa velhice, com aquela fé de Pátria que nos iluminava a alma, ao recebê-la do grande português que se chamava Ramalho Ortigão.
Junho de 1948.
Por 1913, achava-se em Paris o autor das Farpas, e vivia em modesta pensão da Avenida Vítor Hugo aonde o visitava o estudante de Coimbra, Alberto de Monsaraz, também exilado com seus pais.
Assim, este meu condiscípulo e querido amigo, seria o primeiro rapaz da geração do Integralismo Lusitano que ao grande prosador havia de ouvir os seus desabafos e protestos contra as violências e desatinos da República Portuguesa, condenando o votismo e o parlamentarismo, a que se referira com antipatia na carta dirigida a Teófilo Braga, em 16 de Outubro de 1910.
Na cidade de Paris, portanto, faria Ramalho o estágio da sua conversão às verdades da Monarquia, ensinado pela triste experiência da vida pública portuguesa e esclarecido pelos doutrinadores de L'Action française. Esse movimento caminhava então para o seu apogeu, sob a direção de Charles Maurras, ladeado por assíduos colaboradores, como Léon Daudet, Jacques Bainville, M. Pujo e G. Valois, e de muito perto apoiado por outros escritores da França de esse tempo, da categoria de Paul Bourget, J. Lemaitre e H.
Bordeaux.
Os estudos de essa grande corrente de ideias marcavam uma profunda renovação político-social, mas não se tinham ainda definido em sistema orgânico, talvez pelo justificado receio de que os factos e as acomodações do governo, da administração e da disciplina popular viessem a revelar contradições perigosas para a doutrina e para o prestígio dos seus apóstolos.
Quanto ficava de indeterminado, impreciso e indefinido, procurava-se integrá-lo na fórmula do empirismo organizador, amplo conceito que derivaria das lições da prática do governo, cujo êxito se condicionava pelo poder pessoal do Rei e pela legítima representação das regiões e das corporações.
Nos primeiros meses de esse ano de 1913, em Portugal, alguns rapazes, amigos e camaradas da Universidade, compreenderam e sentiram a necessidade de formular os princípios da restauração da vida nacional que eles viam conturbada, desorganizada e sem qualquer consciência dos termos e dos meios exigidos por tão alto e difícil intento.
Não se tratava de repor no trono o Rei D. Manuel II, restabelecer as instituições e leis do exercício da sua magistratura, restituir às suas antigas atividades os políticos responsáveis pela queda da Monarquia. Seria um malogro perigoso e funesto esse imediato triunfo.
Procurava-se realizar aspiração maior: restaurar Portugal pela Monarquia, restituindo previamente à Realeza a sua verdadeira feição, chamando à participação na vida pública os municípios e as corporações da Inteligência e do Trabalho. Nenhum dos aspetos das atividades portuguesas deixaria de ser considerado nos planos de essa renovação que abrangeria as escolas, as regiões, as oficinas, a economia, as letras, as artes e as relações da Igreja com o Estado.
Obra de tamanho alcance para meia dúzia de rapazes, dos quais nenhum ainda chegara aos trinta anos, excedia por certo a sua capacidade; só cabia dentro da esperança e do sonho, para que desde logo principiariam a viver, lutando, e teriam ou terão de morrer a lutar os que ainda estão vivos.
Em Abril de 1914, aparecia, já retardada, a revista Nação Portuguesa, e nesse primeiro fascículo se publicava um índice de aspirações nacionais, sob o título - O Que Nós Queremos. Como se pretendia englobar na mesma aspiração todos aspetos do renascimento português, o sistema de doutrina enunciado, recebia, por inspiração de Luís de Almeida Braga, então exilado na Bélgica, o nome de Integralismo Lusitano.
Por esta forma se dava sistematização e unidade ao trabalho e aspirações de quantos quisessem colaborar numa obra que teria de ser nacional nos esforços e nas realizações do interesse coletivo.
A ninguém se mostrava estranho o desígnio que, em primavera sagrada de sinceridade, esses poucos moços unira por amor da salvação da Pátria, depois, talvez, por amor de perdição de alguns deles...
Após a amnistia decretada pelo governo de Bernardino Machado, em Abril de 1914, Ramalho Ortigão, como muitos outros indesejáveis e réprobos, regressava do seu exílio a Portugal. Mas já não vinha nem podia confessar-se indiferente às formas do governo, conforme escrevera na célebre carta a Teófilo Braga, presidente do Governo Provisório da República Portuguesa.
Chegando a Lisboa, viera encontrar grande efervescência de sentimento monárquico, com muitos protestos, viva saudade do Rei e da Corte, mas o combate à República, repetidamente malsucedido nas armas, reduzia-se a denunciar ridículos, a contar anedotas deprimentes, a confrontar homens e factos do passado com os do presente. Vivia-se de saudosismo doloroso, com aparências de triunfante. E foi no meio de esta excitação sentimental, entre lágrimas, recordações de cadeias e dores de feridas nos corpos e nas almas, que apareceu o manifesto de vida nova do Integralismo Lusitano.
Pouco demoraria a revelar-se o interesse do glorioso Escritor por essa expressão do novo pensamento político.
Num dia de Maio, o meu condiscípulo de Coimbra, Eduardo Ortigão Burnay, comunicava-me um grande desejo de seu Avô: avistar-se comigo ou com outro dos meus companheiros, nenhum dos quais por então vivia em Lisboa. Por exclusão de partes, a mim competia acudir com júbilo a tão alto chamamento, prontificando-me, desde logo, a receber a honra de tal encontro, em próximo prazo dado.
Poucos dias depois, ambos nos encaminhávamos da Avenida para a Calçada dos Caetanos e jamais esquecerei a comoção e alvoroço de esses minutos, ao aproximar-me da casa onde uma robusta e gloriosa velhice esperava o juvenil e atrevido escrevedor. Subimos as escadas por volta das três horas da tarde, e sem demora me vi defronte de essa figura aprumada e majestosa, a quem os matacões grisalhos e espessos davam o garbo marcial de um brigadeiro do Segundo Império, com larga folha de serviços.
A primeira e festiva saudação de Ramalho foi para a minha estatura física, elevada como a dele, dote natural em que não tinha qualquer merecimento próprio, visto que, depois de Deus, só aos meus Pais e Avós caberia algum encómio a tal respeito.
Despedindo afetuosamente o Eduardo, para que fosse ter com a Avó à sala da sua intimidade, não se esquecia de agradecer ao neto ter trazido à sua presença este rapaz desempenado, e naquela primeira sala da livraria ficávamos de pé, frente a frente, Ramalho Ortigão para falar, eu para ouvir.
Comecei então a receber o seu franco e generoso aplauso, a sua inteira concordância com os princípios enunciados na revista Nação Portuguesa que ali estava à mão tente.
Referindo-se então às desgraças, violências e crimes da República, entrava a acusar fortemente a sua gloriosa e nefasta geração:
— Fomos demolidores, negativos e dissolventes. Nada respeitámos, nada soubemos salvar; e as ruínas que hoje deploramos, ao desvario mental, aos erros dos homens do meu tempo devem ser atribuídas. Vejo agora aberto o caminho da salvação nacional: sigam por ele, para bem da Pátria cega e martirizada. Neste exame de consciência, sinto remorsos, com grande pena de não vos acompanhar. Cheguei tarde, só a tempo de vos deitar a bênção para a jornada...
Com silenciosa comoção ouvi estas palavras, proferidas em voz magoada e vigorosa. Verdadeiramente, sentia-me confundido, sem poder resistir ao tom imperioso de tais louvores a uma atitude mental e política, de cuja ingenuidade subtilmente sorriam os dirigentes e os jornalistas monárquicos daquele tempo. Era o primeiro prémio ao nosso intento aquele espontâneo estímulo da boca de um escritor que os da minha idade veneravam como dos mais insignes mestres prosadores da Língua Portuguesa.
Sentindo verdadeira mágoa daquelas declarações, em que o Escritor renegava da sua gloriosa carreira de panfletário, animei-me a corrigir respeitosamente os seus exageros, sem faltar à justiça:
Se ele pertencera a uma geração de demolidores, tornava-se necessário reconhecer que esses altos espíritos eram produto do seu tempo, e que nenhum deles deixara tantas páginas afirmativas, tantos conselhos e preceitos salutares, como o autor das Farpas.
No seu ardoroso anseio de aperfeiçoamento, de salubridade, de beleza, e de bom-senso, ele tinha exercido um preceptorado de crítica construtiva, fora sincero e eloquente apóstolo de um Portugal melhor. Em muitos aspetos das suas obras, as gerações presentes e futuras lhe chamariam seu mestre. Quis ali recordar-lhe quanto eu próprio com ele aprendera nos seus livros, e designadamente no Culto da Arte em Portugal que, embora muitas vezes elegíaco, era um verdadeiro cântico de amor à Tradição Portuguesa.
A propósito deste pequeno-grande livro, disse-lhe o entusiasmo com que eu e um condiscípulo poeta (Manuel Eugénio Massa) líamos juntos essas páginas de comovida exaltação, sinceridade e verdade. Deixando em casa os códigos e a sebenta, fôramos um dia até ao claustro de Celas, para reler em voz alta as formosas páginas evocadoras daquela suave construção e da beleza dos seus capiteis historiados que uma noviça podia tocar com uma açucena...
Ramalho sentiu a sinceridade das minhas palavras, pôs-me no ombro a sua larga e pesada mão, e com as grandes lunetas a tremular, quase me abraçou de reconhecido.
Em seguida disse-me:
- Alegra-me que goste desse livro. Precisa atualizado. Há muito mais para dizer. Vai ter nova edição e para ela escrevo um prólogo que pensei no Buçaco onde estive há pouco.
Num passeio pela mata encontrei sentada na relva, uma rapariguinha da serra a fazer vassouras.
Parei diante dela, para com atenção seguir as voltas e os movimentos do seu trabalho, a ugar os ramos de lentisco e de giesta, a juntá-los ordenadamente, a cortar as pontas, a ligar, a apertar o cabo com uma correia de trovisco, e, por fim, a cortar os troços nas pontas com uma pequena podoa. Cada vez que acabava uma vassoura, sacudia, rolava e contra rolava o artefacto sobre a mão, como quem se mirava na própria obra.
Nesta rapariga surpreendia mais uma vez as inatas qualidades do arranjo, do equilíbrio, do sentido decorativo do povo português. Vou fazer dela um símbolo que no prólogo do livro apresentarei aos nossos concidadãos, dizendo-lhe: Varre, menina, varre todo o cisco da arte oficial e não oficial, essas acumulações de maravalhas de pedantes e charlatães; defende de aleijões e impurezas que a rebaixam, a arte da nossa terra...
Continuando a falar em temas da sua predileção, declarou-me ter lido a minha discussão com José de Figueiredo no Diário de Notícias, a propósito da incorporação de uns quadros do Paço Arquiepiscopal de Évora no Museu de Arte Antiga.
Cheio de razão, mas sem peso nem autoridade oficial que a pudesse fazer prevalecer a um capricho do meu ocasional adversário, tive a satisfação de ouvir da boca de Ramalho Ortigão algumas palavras de concordância que reproduzo com a possível fidelidade:
— O meu amigo tem razão nas suas reflexões. Esses quadros tratam da vida da Virgem e são notáveis pinturas. O escultor Giusti atribuía-os a Gérad David. Devem permanecer onde sempre estiveram.
E grande erro concentrar tudo em Lisboa e mutilar um belo conjunto como esse. Nessa controvérsia a razão está com o meu amigo...
Por esse tempo levantara-se também grande celeuma em Lisboa, com as irregularidades do concurso para a estátua do Marquês de Pombal, a que um gracioso de café viria depois a chamar a vingança dos jesuítas.
Com o saber da sua longa experiência, Ramalho continuava a ensinar-me:
—Por si mesmo, pelos seus órgãos burocráticos, o Estado é incompetente para tratar assuntos de arte de qualquer natureza. Deve limitar a sua ação ao que é das suas atribuições e capacidade. Deixe a arte para os artistas e para os críticos sérios e autorizados.
Convidando-me então a acompanhá-lo, a dar volta às diversas salas da sua livraria, pôs-me diante dos olhos algumas raras espécies de livros portugueses e estrangeiros, apontou-me novidades francesas sobre política que eu bem conhecia, permitindo-me indicar-lhe outras obras mais recentemente aparecidas.
Depois, foi guiando a minha atenção para lembranças, quadros, objetos raros e variados das suas coleções que enchiam o andar daquela extensa mansarda.
Ali estava o seu retrato pintado por Sargent, várias telas de pintores contemporâneos, uma cabaça decorada com desenhos do rei D. Fernando II.
Diante de uma janela, estacou para me dizer:
— Ouve aquele estrondo? Vê esta incómoda poeira a invadir-me a casa?
E entrou a elucidar-me, com revoltada lamentação:
— Estão a deitar abaixo o velho Convento dos Caetanos; vai desaparecer mais uma casa de frades estudiosos. Tudo desaparece... A nova construção há-de tirar-me a vista do Tejo e da Outra Banda que eu gozava há quarenta anos.
Sobre estas ruínas, recordo-me da boa vizinhança do Conservatório que se instalara no velho Convento dos Teatinos. Defronte desta janela, havia noutro tempo graciosos alegretes, e a regar-lhe as flores, muitas vezes eu via de luvas brancas, pegando no regadorzinho, a gentil senhora que era a mulher de Francisco Palha...
Por então, era eu professor da Escola de Teatro do Conservatório e bem sabia até que ponto as obras iriam prejudicar as largas vistas do glorioso morador daquelas águas-furtadas. Mas não estava nas minhas mãos embargá-las, competindo-me apenas ouvir discretamente aquelas amargas queixas, sem poder dar-lhe remédio nem satisfação.
No dia 7 de Setembro seguinte, Ramalho Ortigão escrevia a corajosa Carta de um velho a um novo, dirigida a João do Amaral, agora felizmente reeditada pelas Edições Gama, com outros documentos e a condigna resposta deste nosso camarada, o mais novo da companhia, então redator do diário Restauração.
Logo nos primeiros períodos Ramalho declarava:
A orientação mental da mocidade contemporânea, comparada à orientação dos rapazes do meu tempo, estabelece entre as nossas respetivas cerebrações uma diferença de nível que desloca o eixo do respeito da sociedade em que vivemos, obrigando a elite dos velhos a inclinar-se rendidamente à elite dos novos.
Se grande honra era para nós receber estes generosos aplausos da pena do grande Escritor, não menor contentamento sentiria a sua velhice em poder alinhar com tanta lucidez, esperança e firmeza no pequeno grupo de rapazes, de quem mais adiante dizia:
A incontestável superioridade dessa plêiade estudiosa consiste em ter admiravelmente pressentido a necessidade culminante da reeducação integral do povo português.
A este aplauso de Ramalho viria juntar-se pouco depois a compreensão de dois bispos e a de um velho lente de Teologia. Os outros valores mentais de Portugal, exceto Coelho de Carvalho, embora republicano, concediam-nos inteira indiferença ou votavam-nos piedoso desprezo.
A carta a João do Amaral, escrita nos fragores da Guerra Grande, terminava com palavras de enternecida estima, como se fossem de um companheiro da nossa idade:
— Adeus, meu amigo. Lembre-me afetuosamente a todos os seus esforçados companheiros de luta, e a todos comunique o estreito e comovido abraço que lhe envia o seu dedicado confrade.
A Carta de um velho a um novo era a redução a escrito da conversa comigo, alguns meses antes, na sua residência da Calçada dos Caetanos.
Por este eloquente testemunho de concordância nos primeiros tempos dos seus passos, o Integralismo Lusitano jubilosamente recebia nas suas fileiras o mais ilustre dos adeptos.
No Outono de esse ano, presidindo na Liga Naval a uma conferência de António Sardinha, O velho conde de Bertiandos, em vez de pronunciar frases protocolares para elogiosa apresentação do orador, preferiu transmitir à assistência, como honra suprema, o entusiasmo do insigne Escritor pelos moços integralistas, repetindo as generosas palavras que lhe ouvira dizer:
- Esses rapazes sabem tudo!
Pouco depois, Ramalho Ortigão adoecia, e nunca mais pude falar ao mestre Prosador, de quem o acaso me fizera um dos seus testamenteiros espirituais.
Da casa de saúde aonde se recolhera, para o tratarem da doença que o levaria deste mundo, num dia do Inverno de 1915, trouxe-me José de Figueiredo a recordação da viva estima intelectual que lhe ficara devendo por aquela primeira e última entrevista.
Evocando hoje esse encontro e o incitamento que dele nos adviria para prosseguir na campanha do resgate do Espírito Nacional — quem me dera a consoladora certeza de reconhecer que a geração dos nossos filhos, honrando o testamento da nossa mocidade, para a sua jornada na vida, também aceitasse a bênção da nossa velhice, com aquela fé de Pátria que nos iluminava a alma, ao recebê-la do grande português que se chamava Ramalho Ortigão.
Junho de 1948.