LITERATURA, ARTE E LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO
Hipólito Raposo
RESUMO
Hipólito Raposo analisa como a literatura, a arte e a língua portuguesa se expandiram e influenciaram o mundo, destacando a tradução e recepção internacional de obras e autores portugueses, a presença marcante da cultura material portuguesa em vários continentes e a importância de preservar a unidade e pureza da língua como património das nações lusófonas
- Literatura Portuguesa e a sua Difusão Mundial
- A literatura portuguesa é vista como expressão do espírito nacional que se expandiu pelo mundo através de traduções, influências temáticas e uso de outros idiomas.
- Obras como Amadis de Gaula e Diana tiveram grande impacto na Europa, sendo traduzidas e adaptadas em várias línguas e influenciando outros géneros literários.
- A literatura portuguesa foi frequentemente lida em tradução, especialmente em castelhano, devido à sua difusão e ao bilinguismo dos autores portugueses.
- Influência e Receção Internacional
- Autores portugueses do século XVI, como Gil Vicente, exerceram influência significativa na literatura espanhola e, em menor grau, noutras literaturas europeias.
- Os Lusíadas de Camões foi amplamente traduzido e divulgado, tornando-se uma das epopeias mais conhecidas fora de Portugal.
- A historiografia portuguesa, muitas vezes escrita em latim, contribuiu para a divulgação dos feitos portugueses na Europa.
- Cartas de Sóror Mariana Alcoforado
- As Cartas Portuguesas tiveram enorme difusão e impacto na sensibilidade literária francesa, sendo consideradas precursoras do pré-romantismo europeu.
- Artes e Arquitetura Portuguesa no Mundo
- A expansão portuguesa deixou marcas na arquitetura militar e religiosa, escultura, ourivesaria, tapeçaria e cerâmica em África, Ásia e Brasil.
- Destacam-se fortalezas, igrejas, tapeçarias e biombos japoneses com influência portuguesa.
- Expansão e Destino da Língua Portuguesa
- A língua portuguesa ultrapassou fronteiras políticas, sendo difundida por missionários, soldados e mercadores.
- O bilinguismo foi comum entre escritores portugueses dos séculos XVI e XVII, que muitas vezes escreviam em castelhano para maior projeção internacional.
- A língua portuguesa tornou-se corrente em várias regiões de África, Ásia e, sobretudo, no Brasil, onde é falada por milhões.
- Unidade e Preservação da Língua
- O texto defende a importância de preservar a pureza e unidade da língua portuguesa, destacando o seu valor como património cultural das nações lusófonas.
LITERATURA, ARTE E LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO
ESTE assunto deveria desenvolver-se num volume, mas os inevitáveis limites duma obra que não pode ser uma série de monografias, obrigam a resumi-lo em breve capítulo [1]. Se quisermos aqui dar amplo sentido à palavra Literatura, tomando-a como expressão do espírito ou do pensamento português, poderemos considerá-la sob três aspetos: a tradução ou equivalência, a influição pelos temas, sentimentos ou situações, e o emprego de idiomas estranhos, às vezes preferidos para melhor serviço da Grei.
Assim, por essas modalidades de dilatação, abrangidos ficam o Amadis de Gaula, o Palmeirim e a Diana, os autos de Gil Vicente, os entremeses de Simão Machado, as éclogas, cartas e sonetos de Sá de Miranda, as rimas de Camões e Frei Agostinho da Cruz, as páginas de Damião de Góis, de André de Resende, D. António Pinheiro, Fernão Lopes de Castanheda, D. Jerónimo Osório, Fernão Mendes Pinto, Frei João dos Santos, do jesuíta Luís Fróis, de António Galvão, Tomé de Jesus, Frei Luís de Sousa, Francisco Rodrigues Lobo, Sóror Mariana e outros muitos autores do período clássico.
A primeira influência da literatura portuguesa assinala-se logo no século de Trezentos, pela novela cavaleiresca Amadis de Gaula, qualquer que tenha sido a língua da composição original, visto estar hoje admitida a autoria dos Lobeiras; e também no mesmo género de romance, dois séculos mais tarde, pela novela pastoril Diana, de Jorge de Montemor.
Deste modo, o Amadis e a Diana, com perfumes de cravo e rosa do nacional eirado da contemplação, são inspiradas criações que se prolongam em reflexos de forma ou de espírito pelas Proezas da Segunda Távola Redonda, pelo Palmeirim de Inglaterra, pela Lusitânia Transformada e Paciência Constante, e pelas obras pastoris de Rodrigues Lobo e outros, revelando-se em tal vitalidade a persistência de temas que não se confundem nos devaneios de muitos continuadores ou imitadores.
A merecida difusão do Amadis e da Diana, a partir das primeiras edições impressas, deve-se à língua castelhana, idioma oficial do mais vasto império da Europa, servindo uma literatura tão vigorosa e rica na poesia, no romance e no teatro, que haveria de impor-se à própria Franca e fecundar a grandeza literária do século de Luís XIV.
Como todos sabem, o ordenador da primeira edição castelhana do Amadis foi Garci-Ordoñez de Montalvo, remontando ao ano de 1508 a mais antiga impressão que se conhece.
«Esse Amadis de Gaula, em castelhano, claro que é o comum, e geralmente conhecido, o que foi lido e relido na Península e fora dela durante o fecundo século XVI. E é o de que Afonso Lopes Vieira se serviu para dele extrair a matéria-prima portuguesa. Estampado mais de vinte vezes antes de 1588; continuado até constar de doze Livros, cada um com título e herói específico; imitado em outros ciclos de Cavalaria; dramatizado em Portugal por Gil Vicente numa bela tragicomédia; transposto em epopeia romântica na terra de Ariosto; traduzido para as principais línguas vivas, e mesmo para aquela morta que é praxe chamar sagrada (c. 1540, Livro I, em Constantinopla, pelo impressor hebraico Eleazar Ben Gershom Soncino) - esse Amadis ficou sendo um dos Livros prediletos de fantasia, tanto em côrtes, palácios e solares, como em casas burguesas, hospedarias e celas de frades e freiras, lido e relido pelos reis, fidalgos, letrados, artistas e santos. Gostavam dele e das continuações, Carlos V e Francisco I, que instigou Nicolas de Herberay, Seigneur des Essarts, a torná-lo conhecido em França; Santa Teresa e Inácio de Loyola; Diego de Mendoza e Simão da Silveira; Montaigne, Ariosto, Torcato Tasso» [2].
Para conhecer a literatura portuguesa, os próprios castelhanos, ontem, como hoje, tinham de a ler traduzida: o que se trasladava, vivia; o que não era transposto, ficava ignorado deles e do resto do mundo europeu. Para os Portugueses cultos dos séculos XVI e XVII, era assaz corrente o conhecimento do castelhano literário, para que não se tentassem a dedilhar na sua música, as mais temperadas liras dos nossos poetas.
Como nota Sousa Viterbo, não devemos ter por muito condenável essa prática que nos mostra, sob o rebuço de alheia língua, a contribuição de que fomos capazes, no enriquecimento da literatura de um povo vizinho e também irmão pelas origens romanas e medievais, dando-lhe a conhecer o lirismo amoroso e casto, essência mais nobre do sentimento português [3]. Desse pecado procuram absolver-se escritores como Jorge de Montemor e Simão Machado.
Recebendo a influência de exemplos estrangeiros (Sannazaro e Bocáccio), pôde Bernardim Ribeiro escrever as Saudades, em que a alma portuguesa, sonhadora, amorosa e dorida, bem se reflete no próprio espelho das águas correntes dos regatos e das fontes.
«Mas a novela bucólica por excelência, a que fez época e moda, foi a Diana de Jorge de Montemor, composta logo em castelhano, que acendeu uma explosão de frenético entusiasmo por toda a parte onde a levaram as inúmeras edições e traduções. Livro e autor andaram no galarim. Um padre de León, ao ler o Evangelho à missa, chamara-lhe o mais florido engenho de Espanha; e Filipe III ia pessoalmente visitar a dama envelhecida que passava por ser a heroína da novela. Largamente editada em Portugal e Espanha, fecundou todas as literaturas, gerando a Astreia de Urfé e a Arcadia de Sidney e influindo poderosamente na veia novelesca da espécie sentimental dos séculos XVII e XVIII» [4].
O que mais impressiona e sobrevive nas obras influídas pelas duas famosas novelas, dentro e fora das fronteiras, é a constância dos temas: heroísmo e amor-fiel, ação e contemplação, serviço e prémio — dois polos em que principalmente se afirmou e exaltou a nossa idealidade medieval. Morrer de amor é o mais expressivo cume da exaltação: identificar vida e morte pela voluntária conversão de uma na outra. Amor contrariado, amor dobrado, porque de amor o amor se alimenta, envenenando-se muitas vezes com a diferença de condição dos amantes, com a preferência da riqueza aos méritos do espírito, ou da fidalguia à virtude.
O isolamento da Ilha Firme, do Amadis, ou o amor e uma cabana do conceito popular, equivalem-se. Os perigos e aventuras das Cruzadas vieram juntar à matéria bretã e carolíngia novos temas e pormenores na tessitura dos romances cavaleirescos que por toda a parte se escreveram durante séculos, sem renegar de todo as primitivas influências.
Do Amadis e da Diana se poderá dizer que um levou à Europa o testemunho do nosso medievalismo, com o vivo selo da Canção de Leonoreta a autenticar-lhe a origem portuguesa; a novela pastoril difundiu os primores do amor português entre as roupagens e confabulações do Renascimento, com as suas laudas já povoadas de Ninfas, Sátiros e Deuses pagãos.
Amor-Heroísmo e Amor-Adoração, um tinha de suceder ao outro, como às proezas da Cavalaria sucediam as razões da Contemplação.
Na Diana, misto de écloga e de romance, repetem-se e renovam-se temas de desencanto, amor louco, amor louco, eu por ti e tu por outro, conforme o rifão aproveitado por Gil Vicente no Auto Pastoril Português, por Camões numa das suas redondilhas em castelhano e por Sóror Mariana Alcoforado numa das Cartas [5].
O pastoralismo ou contemplação das almas no espelho da Natureza trazia as suas remotas raízes de Teócrito, por Vergílio e Sannazaro. As velhas coitas de amor de que os Portugueses mais do que outros humanos sofrem na mocidade e na vida, pela Diana foram levadas à Europa em narrativas e canções com as perfumadas brisas dos nossos campos, a saudável vida dos bosques, das fontes e das sombras, sempre com reflexos da nobreza e honra da Cavalaria. Para melhor exprimir a alma do livro, na Diana ficou em português a Canção das Lusitanas Zagalas e por toda a obra se sentem fremir as saudosas recordações de Coimbra e dos Campos do Mondego, a lenda do castelo de Montemor-o-Velho, pátria do Autor, a canção de Danteu — Suspiros, também escrita em português no meio do texto castelhano.
Nascido e criado no período do bilinguismo, Jorge de Montemor fez o que era corrente, sem que na pastoral deixasse bem vivas a índole, a inspiração e a alma do amor português que ele muito pôde sentir e sofrer. A reconstituição do romance cavaleiresco Amadis e a transposição da pastoral Diana tentou-as com escrúpulo e alcançou-as com êxito, nos limites que se propôs, a especial competência do prosador-poeta Afonso Lopes Vieira que assim prestou mais um alto serviço às Letras e ao Espírito Nacional.
Dos autores portugueses do século XVI, por certo foi Gil Vicente o que mais conhecido se tornou e maior influência terá exercido na literatura espanhola, visto haver escrito em castelhano a maior parte das suas obras e em Castela se terem representado muito cedo os seus autos. Verdadeiramente, foi ele o fundador do Teatro Peninsular, e nas obras de Lope de Vega e Quevedo a sua influência é manifesta, tanto na estrutura como nos temas dos autos.
Basta citar o estilo dos prólogos burlescos e o Viaje del alma.
Nas literaturas de outras nações não teve repercussão o génio de Gil Vicente, embora desde o século XVI se começassem a divulgar composições poéticas suas, quer lidas no texto original castelhano, quer traduzidas de uma ou outra das línguas em que escreveu. A primeira tradução (livre) castelhana — Tragicomedia alegorica del parayso y del infierno, é de 1539. Modernamente, por esforços de eruditos lusófilos, algumas das suas obras têm sido traduzidas para inglês e alemão [6].
Publicada a primeira edição de Os Lusíadas em 1572, já no ano de 1580 aparecem duas traduções espanholas em verso, uma em Salamanca por el Maestro Luys Gomes de Tapia, outra em Alcalá de Henares por Benito Caldera (português). Sob o domínio filipino, o poema de Camões foi ainda traduzido por Henrique Garcez, publicado em Madrid no ano de 1591, e dedicado ao monarca intruso, figurando já no rosto o escudo do Reino de Portugal sobre as armas de Castela.
Durante o período da usurpação, nenhuma outra tradução espanhola foi feita, enquanto se repetiam as edições portuguesas em número de dez ou mais.
Impossível se nos torna sequer enumerar as traduções de Os Lusíadas, das Rimas e dos Autos de Camões em francês, italiano, inglês, alemão, podendo hoje dizer-se que a epopeia portuguesa, total ou parcialmente, e outros versos do Poeta estão traduzidos em todas as línguas cultas do mundo, desde o latim e do grego até ao hebreu e ao chinês [7]. Os episódios preferidos são a Inês de Castro e o Adamastor, pelo seu valor de conceção e de expressão.
Dos épicos, ainda Jerónimo Corte Real (Segundo Cerco de Diu) foi traduzido em espanhol por Frei Pedro de Padilla em 1597, e mais tarde (Naufrágio de Sepúlveda) em edição francesa de 1844.
Da historiografia portuguesa quinhentista grande parte foi redigida em latim, para mais facilmente se divulgar no mundo o conhecimento dos feitos portugueses nas jornadas e conquistas dos Mares e Continentes. Podemos seguir essa corrente, desde os panegiristas épicos pré-camonianos (com Resende, Teive) até Damião de Góis, Jerónimo Osório e outros.
Foram estes, por certo, os escritores portugueses mais conhecidos em toda a Europa no seu tempo, para o que basta relembrar as repetidas edições das suas obras em Lisboa, Florença, Veneza, Roma, Colónia, Roterdão, Lovaina, etc.
Para deslumbrar o século com os esplendores do reinado do Venturoso, pelo Cardial D. Henrique foi o Bispo de Silves incumbido de escrever a vida e feitos de D. Manuel, seu pai e rei.
Montaigne cita e por vezes quase transcreve da obra De rebus Emmanuelis gestis bastantes referências: à ilha Dioscoride [8], à índole e costumes dos indígenas do Brasil [9] e ao regime das castas da India [10]. Pouco depois, a obra do Bispo Osório era publicada em francês (1581). Escrevendo neste período áureo no idioma pátrio, muitos dos grandes escritores portugueses foram sendo depois traduzidos em diversas línguas [11].
Já muito se tem escrito, para até hoje pouco se haver concluído definitivamente no caso histórico-literário das Cartas de Sóror ou Madre Mariana Alcoforado [12]. Publicadas pela primeira vez, em Paris, pelo editor Barbin, com o título Lettres Portugaises traduites en françois (1669), estava-lhes reservada larguíssima difusão em toda a Europa. O mesmo Barbin reedita-as em 1670 e 1672; em Lyon fazem-se as edições de 1679, 1685, 1697; em Colónia, publica-as P. de Marteau e em Amsterdão aparecem também, em 1669, no mesmo ano da primeira edição de Paris, e sem lugar de impressão se editam ainda em 1696. A primeira tradução inglesa aparece em 1678. No século XVIII, mantém-se o interesse, estimulado por sucessivos acrescentamentos e respostas, transformando o livro em secretário de amantes, com entusiasmo e diligência verdadeiramente comerciais, a multiplicar as edições em língua francesa [13].
O êxito literário desta difusão não proveio, originariamente, de revelações lúbricas ou de afrodisia emanada de tais linhas: o que na leitura das Cartas impressionou e ainda hoje comove, por entre adulterações e interpolações no texto primitivo, é a sua ardente sinceridade.
Todos sabem até onde chega a levar-nos o poder da ficção, e por ela vive há milénios a literatura teatral; mas nas Cartas da Freira de Beja ouvem-se falas de alma que nenhum artifício poderia inventar; sente-se pulsar um coração de mulher que sem remédio chora e soluça. Mariana não era escritora. Mas, talvez por isso mesmo, por ter escrito sem arte em época de artifícios literários que ao coração de carne eram alheios, essa rapariga de génio, doida de amor, possuída e desprezada, a arder em chama e brasas de paixão, deixou ficar no mundo tão doridos gritos de humano sentimento que imortalizariam o seu nome.
Quanto à influência literária das cartas, principal intento destas linhas, alguns críticos atribuem-lhe grande parte ou o total poder de transformação da sensibilidade francesa, preparando de longe o advento do Romantismo.
«Et pourtant, si ces fameuses lettres ont causé tant d'émoi c'est qu'elles correspondent à des besoins nouveaux qui allaient s'exprimer dans des œuvres nouvelles. C'est bien aux alentours de l'année 1669 que s’opère cette transformation du goût dont on fait d'ordinaire hommage au siècle de Jean-Jacques, parce que les derniers écrivains du grand siècle se sont montrés plus timides et plus modérés dons leur élan ».
[E, no entanto, se estas cartas famosas causaram tanto alvoroço, foi porque correspondiam a novas necessidades que seriam expressas em novas obras. Foi por volta do ano 1669 que ocorreu essa transformação do gosto, que normalmente presta homenagem à época de Jean-Jacques, pois os últimos escritores do grande século mostraram-se mais tímidos e moderados no seu entusiasmo.]
E mais adiante:
« Un mot résume cette orientation nouvelle : sensibilité, c'est-à-dire complaisance pour les sentiments tendres que le stoïcisme régnant condamnait ou refoulait pour les sublimer par la lutte de la passion et du devoir. M. von Waldberg, dans son ouvrage fort approfondi sur le roman sentimental en France, fait des Lettres Portugaises la véritable clé de cette transformation littéraire » [14].
[Uma palavra resume esta nova orientação: sensibilidade, ou seja, complacência perante os sentimentos ternos que o estoicismo dominante condenou ou reprimiu para os sublimar pela luta entre paixão e dever. M. von Waldberg, no seu trabalho muito aprofundado sobre o romance sentimental em França, faz das Letras Portuguesas a verdadeira chave para esta transformação literária.]
Sem perfilhar tais afirmações que lhe parecem excessivas, Larat, de acordo com Lanson, crê que «les Lettres ont été un des éléments essentiels de ce lointain préromantisme».
Como em assunto de tal natureza, menos importa conhecer os pareceres dos naturais do que os dos estrangeiros, não tão predispostos para a parcialidade num caso que tem vindo a ser discutido com entusiasmo e às vezes com paixão, não deixaremos de registar ainda algumas passagens do juízo de Dorat, poeta, dramaturgo e editor das Cartas, em 1770:
«On ne trouve... ni cette metaphysique d'amour que nos femmelettes ont mise à la mode, ni ces coups de poignards officieux qui tranchent l'intrigue au lieu de la dénouer, ni ces poisons qui laissent à des héroïnes bavardes le temps d'une agonie volumineuse... en récompense tout y est vrai, naturel, de cette simplicité attachante, premier charme des écrits auxquels on revient et dont on ne se lasse jamais...».
[Não conseguimos encontrar... Nem aquela metafísica do amor que as nossas esposas tornaram moda, nem aquelas facadas não oficiais que cortam o plano em vez de o desvendar, nem aqueles venenos que dão às heroínas tagarelas o tempo de uma agonia volumosa... como recompensa, tudo é verdadeiro, natural, com essa simplicidade cativante, o primeiro encanto dos escritos a que se regressa e do qual nunca se cansa...".]
As influências estão reconhecidas e provadas, embora as mais diligentes conjeturas não alcancem fixar os termos do texto primitivo e com ele se tenha perdido, talvez para sempre, a melhor luz de verdade neste drama de amor.
Os escritores do século XVIII foram divulgados na Europa em edições francesas e espanholas, principalmente [15].
Com as edições de traduções completas, e nem todas, merecem referir-se as antologias, como a de Hughes — The Ocean Flowers, a espanhola de Vidart, intitulada Versos, em que figuram nomes de poetas dos períodos clássicos, a par de João de Deus, Camilo, Bocage, Garrett, Rodrigues Cordeiro e outros [16], não devendo esquecer-se as traduções alemãs de sonetos de Antero do Quental e de poesias de várias épocas, publicadas por W. Storck, o erudito biógrafo de Camões. Dos escritores portugueses modernos, Eça de Queiroz tem sido o mais divulgado, principalmente em traduções espanholas e francesas.
II
Se pelos caminhos do Mundo os Portugueses levavam a língua e a religião, a curiosidade científica, a medicina, as construções navais, as fundições de sinos e de canhões, costumes e virtudes nacionais, essa transposição de civilização exigia naturalmente aquelas realizações de arte de que os nossos antepassados eram capazes e que as necessidades da defesa, do povoamento e da assimiladora colonização lhes iam impondo.
Assim, das três formas das chamadas artes maiores, pelas distâncias foram ficando os documentos em ilhas e continentes remotos, e rara será a terra que algum dia viu drapejar o nosso pendão que não guarde vestígios da passagem dos velhos soldados e mareantes.
Com efeito, o que mais perdurou foram os monumentos de arquitetura militar e religiosa, muitos dos quais ainda agora assinalam a conquista e o domínio português nas partes de África, do Oriente e do Brasil. À costa de Marrocos são enviados por D. Manuel os Arrudas, a seguir à conquista de Azamor, para reforçar o forte de Mazagão. As obras continuariam depois, reinando já D. João III, mas a cargo de João de Castilho e sob a inspeção do italiano Benedito de Ravena [17]. Desses cuidados dos dois reis nasceram muros e torres, baluartes e cisternas que ainda hoje se admiram em todas as nossas antigas praças marroquinas. Por elas andou a fazer topografia, a desenhar fortalezas e levantamentos de barras e rios, o célebre Duarte de Armas, por 1507 [18]. A fortaleza de Ormuz foi construída por João de Frandes [19], e reformada por Inofre de CarvaIho [20]. Na India, o primeiro arquiteto foi Tomaz Fernandes que lá fez as fortalezas até ao ano de 1506 [21].
A construção das muralhas de Diu foi dirigida pelo mestre Francisco Pires, por D. João III enviado à India para construir a fortaleza de Moçambique [22].
Embora em rápida referência, não devem esquecer-se os vestígios do domínio português na Abissínia nos séculos XVI e XVII, especialmente em Asmara, Axum e Gondar.
No século XVII, sob o domínio filipino e após a Restauração, as construções e reconstruções militares e religiosas prosseguem na Africa (Ilha de S. Tomé, S. Miguel e S. Pedro em Luanda, Benguela e Massangano); nas Ilhas Adjacentes (Ponta Delgada, Vila Franca e Angra), no Oriente (Goa, Ceilão); e ao longo da costa do Brasil, vão-se levantando, com fortalezas novas ou reformadas, as igrejas e mosteiros das principais cidades — precioso documentário do estilo barroco [23].
A escultura religiosa não poderia deixar de aparecer em todas as igrejas dos nossos domínios, primeiramente pelas imagens de pedra ou de madeira levadas nas naus, depois por inspiração própria dos povos convertidos à fé, criando-se tipos de santos de fisionomia oriental, a que se vai chamando toréutica sino-portuguesa e indo-portuguesa. Do mesmo modo a ourivesaria litúrgica, especialmente nas formas de ante eucarística (sacrários, custódias, píxides, cálices, turíbulos) difundiu-se pela África, pelo Oriente e pelo Ocidente (Brasil), suscitando à volta das missões imitadores indígenas, e chegando-se a guardar como tesouros de mistério alguns vasos sagrados de fábrica portuguesa por paragens onde se perdeu a fé católica.
Um missionário americano descreve assim o encontro de um desses tesouros de arte em Larantuca, na pequena Ilha das Flores do Arquipélago de Sunda; «Voltando para Larantuca, mostraram-nos os preciosos tesouros da igreja dos antigos tempos dos Portugueses — prata, ouro e marfim. Agora, como outrora, estes tesouros são escrupulosamente guardados pelos membros da Confraria. São preciosas relíquias, na verdade, que ninguém ousaria tomar para si. No nosso museu de Techny nós temos algumas peças antigas de crucifixos de marfim trazidos a Flores pelos missionários portugueses de outros tempos» [24].
Por se terem danificado ou dispersado, não podemos fazer ideia aproximada das obras de pintura mandadas durante séculos para as igrejas e missões dos territórios do império português, se nem foi feito nem ordenado inventário do que ainda hoje existe nas Ilhas e Ultramar.
Em Goa, principal centro de cultura e atividade no Oriente português, capital e corte, existiam no Palácio da Fortaleza os retratos dos Vice-Reis, assim como se viam pintadas as armadas que do Reino para o Oriente partiam nas épocas próprias. [25].
Embora muitos serviços e peças tenham saído para o estrangeiro, ainda é abundante o espólio de cerâmica e porcelana oriental nos museus e coleções particulares, em que pode observar-se larga influência portuguesa, não só na decoração, mas principalmente na representação de brasões, emblemas e nomes de nobres portugueses a quem as louças eram destinadas.
Pelo que respeita à tapeçaria, a conquista das praças costeiras de Marrocos logo daria motivos às célebres Tapeçarias de Arzila e Tânger, como os feitos de D. João de Castro e seu triunfo, um século mais tarde, ofereceriam os temas para os panos que celebram a entrada do Herói em Goa e que ainda agora se guardam em Viena.
Merecem ainda especial referência os tapetes persas em que se reproduziram naus e figuras ocidentais, e as tapeçarias flamengas, cujas composições exóticas, com motivos da navegação, deram lugar a certa modalidade característica, à la manière de Portugal et des Indes.
Os célebres biombos japoneses dos séculos XVI e XVII, já tantas vezes reproduzidos, ostentam representações de navios, de personagens e de bandeiras portuguesas, primeiras influências do Ocidente nas composições plásticas do Extremo-Oriente [26].
Quando se fizerem os inventários das realizações artísticas que os Portugueses espalharam pelo mundo, desde a Ilha da Madeira e praças de Marrocos à India e ao Brasil; e quando tiverem sido estudadas as formas, linhas e decorações exóticas, em todo o seu amplo significado, poderá bem avaliar-se neste processo de permuta, o prodigioso contacto de civilizações, a assimilação recíproca de elementos construtivos e decorativos, a misteriosa acomodação dos gostos por tão diversas raças. Só então se fará ideia da colaboração portuguesa num dos mais expressivos capítulos da cultura humana.
III
O destino da língua portuguesa excede em amplitude a ação político-militar do Reino e suas Conquistas, ultrapassando as fronteiras e penetrando em territórios jamais ocupados ou sujeitos ao nosso domínio. Os missionários, os soldados e os mercadores foram os principais agentes dessa difusão pelas rotas marítimas e pelos caminhos e travessias continentais.
Pelos séculos XIII e XIV, nos começos da sua vida autónoma, é o nosso idioma sob a forma de romanço das duas margens do rio Minho, que sobre toda a Península Hispânica prevalece como valor locutivo e de expressão mais acomodada aos temas em voga da poesia provençal. Como a leitura dos velhos cancioneiros o revela e a mestra D. Carolina Michaelis de Vasconcelos o ensina, todos os trovadores se serviram do idioma galego-português. Apenas dois reis de Leão e Castella, Afonso X e XI, recorreram ao castelhano. De cada um resta uma única poesia ([27]). Também eloquentemente o testemunha a carta-proémio do Marquês de Santillana ao Condestável de Portugal, primeiro estudo crítico da poesia lírica dessa época, ao reconhecer que os trovadores da Península utilizavam a mesma língua: cualesquier decidores e trovadores destas partes (agora fuesen Castellanos, Andaluces o de la Extremadura) todos sus obras componían en lengua gallega o portuguesa.
É nessa língua doce e suave que Afonso X, o Sábio, avô do nosso rei-trovador D. Dinis, compõe as célebres Cantigas de Santa Maria, formoso hinário de louvores à Virgem.
Mas em Quatrocentos o predomínio da linguagem lírica é conquistado por Castela, irradiando influências amorosas, eróticas e cortesanescas, e para trás fica no desuso e esquecimento, a branda pompa verbal dos trovadores das eras alfonsina e dionisiana, pelas preferências reveladas nos Cancioneiros de Baena e de Resende [28].
Para cada uma das línguas peninsulares bem individualizadas, o castelhano e o português, no século XVI começa a sua época imperial. Mas, enquanto o Castelhanismo abrangia em domínio político e intelectual uma grande parte da Europa culta (Espanha, Países Baixos, Áustria, Duas Sicílias), em influência europeia a Portugalidade limitava-se ao território do Reino e das Ilhas Adjacentes e a algumas judiarias lo Norte, da Itália e do Levante, como Amsterdão, Florença, Ferrara, Nápoles, Constantinopla e também Marrocos e Alexandria, por onde se dispersaram os israelitas, depois da sua expulsão de Portugal em 1497 [29].
A expansão da língua portuguesa, começada em Ceuta, viria a ser principalmente ultramarina, ao contacto de populações em estado de rudeza primitiva pelas costas e rios de África e do Brasil e dos Arquipélagos Malaios, ou com raças de civilização moral e aspirações bem fora do idealismo cristão, e humanista, como a Pérsia e a China, pelo discurso das centúrias de Quinhentos, Seiscentos e Setecentos.
Igual à língua portuguesa no destino dos seus encontros com os indígenas da América, a língua castelhana disfrutava privilégios e especiais condições de expansão pela proximidade das nações mais cultas da Europa e do mundo.
Por esta maior importância, pela sua natural e até obrigatória difusão, facilmente se explica e justifica que muitos poetas e prosadores iniciassem e ilustrassem o período do bilinguismo, desde o Cancioneiro Geral até além do meado do século XVII. Gil Vicente, Sá de Miranda, Camões, Bernardes, Frei Agostinho, Simão Machado, Rodrigues Lobo, e outros, em língua castelhana foram mandando ao mundo os altos ecos das suas liras.
A língua latina, para arroubos de amoroso lirismo, seria demasiado hirta e dura, e inacessível à generalidade das mulheres, e do seu agrado não poderiam alhear-se portugueses e muito menos portugueses-poetas. Como já se referiu, não era tanto por menosprezo da locução nacional, como pelo desejo e impulso de ganhar fama, que esses engenhos adotaram o recurso de entrar e se impor no mundo culto das universidades e das cortes. Embora Gil Vicente escrevesse a maior parte dos autos em castelhano, muitas vezes inçado de lusismos, contudo aparece na Tragicomédia Pastoril um dos foliões do Sardoal que bem mostra a sua repulsa em ser considerado natural de Castela: Queria antes ser lagarto / Pelos Santos Evangelhos!
O emprego de idioma alheio não deixava de provocar censuras de outros escritores, merecendo registo a especial condenação de António Ferreira, de João de Barros e mais tarde de Manuel de Gallegos. Os prosadores e tratadistas, quando não utilizavam a universalidade do latim, serviam-se deliberadamente do castelhano, como Faria e Sousa, Francisco Faleiro, Pedro Nunes e Pedro Teixeira, autor das Relaciones del Origen... de los Reys de Persia, obra que começada em português, acaba em castelhano, do que se desculpa juzgando que en esta lengua quedaba más comunicable, y mi patria antes recibía servicio que ofensa. E o critério e a prática dos Pais Viegas, Velasco de Gouveia, Frei Francisco de Santo Agostinho, e a mesma língua do inimigo utilizou D. João IV, ao compor a Defensa de la música moderna, & (1649).
Nos dois séculos por que se estendeu o período do bilinguismo, mais de quinhentos autores nossos se serviram do idioma castelhano, enquanto nenhum escritor de além da raia se exprimiu em português, a não ser por intermédio de personagens de teatro [30].
Fala de um país de pequena população e de limitados interesses, assim tinha de ser, em relação às outras línguas cultas da Europa, neolatinas, germânicas ou eslavas, para as quais a língua portuguesa foi sempre mais influenciada do que influente, menos lhes dando do que recebendo neste comércio espiritual [31]. Se a difusão na Europa era pequena, no espaço oferecido pela Navegação e Conquista encontrava a língua portuguesa uma amplitude de influência e domínio que jamais até ali tivera outra língua imperial.
Em trato de comércio, em movimentos e esforços de ocupação, em ação de propaganda da fé cristã, pode dizer-se que a língua de Portugal abraçou a redondeza da Terra, tornando-se especialmente a fala corrente das populações costeiras e insulares do Oriente conquistado para Deus e para o Rei.
Para o estudo da vida da nossa linguagem nestas partes do Mundo Português, é indispensável receber a lição da recente obra do ilustre Professor David Lopes — A Expansão da Língua Portuguesa no Oriente nos séculos XVII e XVIII [32]. Nesse trabalho metódico e escrupuloso, estudam-se os testemunhos estrangeiros sobre o uso da nossa língua no Oriente, a penetração de vocábulos portugueses nas línguas asiáticas, as edições de gramáticas, dicionários, livros de catequese e doutrina publicados pelas missões portuguesas e pelas holandesas e inglesas (protestantes) de Batávia, Colombo, Vepery e Trangambar.
Através de larga bibliografia nacional e estrangeira, também na referida obra se dá conta dos dialetos indo-portugueses e crioulos do Diu, Damão, Goa, Ceilão, Negapatão, Cochim, Mangalor, Cananor, Bombaim, Togu, Malaca, Java Macau e outros.
Estas variações dialetais, determinadas por condições e leis obscuras das raças e do meio, por toda a parte ficaram acusando a vida e capacidade do génio português, lutando por lá contra a distância, o abandono ou a violência dos povos rivais da nossa expansão que nos domínios do Oriente nos sucederam, os holandeses e ingleses [33]. Com segura certeza, não está ainda fixada a contribuição numérica de vocábulos portugueses em cinquenta idiomas asiáticos, estudo de que se têm ocupado, entre outros autores, Marre, Schuchardt [34], Leite de Vasconcelos, Gonçalves Viana, Rodolfo Dalgado, Mariano Saldanha; mas a adopção remota e a actual vida desses vocábulos, em maior ou menor número, são atestadas ainda hoje por todos os viajantes do Oriente, desde o Golfo Pérsico até ao Japão e aos Arquipélagos Malaios: por balcões de comércio, hospedarias e cais de embarque, repetidas vezes se ouvem palavras portuguesas, correctas ou deturpadas. Com orgulho, podemos ainda recordar que pela generalização do seu emprego, a nossa língua foi adoptada na redacção dos instrumentos diplomáticos para as relações de comércio e amizade com outros povos europeus. Desse destino é documento precioso a credencial do Príncipe de Orange, Maurício de Nassau, regente dos Países Baixos, entregue em 1598 ao almirante Jacome Neck, para ser apresentada aos soberanos, príncipes e governadores de terras e mares do Oriente, apenas um século passado sobre o ano do descobrimento do caminho da India por Vasco da Gama.
Não terminaremos esta rápida referência, sem acentuar que a difusão da nossa língua nas partes do Oriente foi, principalmente, obra das missões dos jesuítas, dos franciscanos, dos agostinhos e dominicanos [35]. Língua e Religião confundiram-se no mesmo sentimento, no respeito e amor das populações trazidas ao batismo e à fé cristã: a fala portuguesa assumiu nos ecos das suas almas algum carácter sagrado e o Catolicismo participou dos encantos e mistérios da linguagem em que era ensinado o pregado. Por isso, Palavra e Fé ainda agora persistem em territórios que há muito deixaram de nos pertencer, e em Malaca chamam cristão ou papiá ou serani (= cristão, em malaio) à língua portuguesa que os padres e os capitães por lá deixaram [36].
Para desfazer calúnias e reivindicar a verdade histórica, nunca é demais insistir no carácter de unidade e de assimilação com que a colonização portuguesa sempre se distinguiu de outras, menos espirituais e mais utilitárias.
Embora a futura obliteração da fala e da escrita não se possa evitar pela perda do nosso domínio e pelas sucessivas e calamitosas restrições dos limites do velho Padroado do Oriente, as contribuições lexicológicas da nossa língua por lá permanecerão indefinidamente, a atestar aos séculos vindouros a passagem dos Portugueses por aquelas partes remotas.
A língua portuguesa é de uso corrente em muitos pontos das duas costas de Africa, não só nas ilhas e províncias que lá temos (Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique), mas em ilhas e paragens do continente africano que dos portugueses deixaram de ser, por actos de violência ou razões de injustiça histórica.
Em portos do Golfo da Guiné, em Fernão do Pó, no Congo Francês, no Congo Belga, e na Costa Oriental, algumas populações indígenas continuam a falar português nas relações com os brancos (portugueses) e com os outros europeus; mas as línguas oficiais desses territórios, a influência das autoridades, das missões, das escolas e da população, sempre crescente, de franceses, belgas e ingleses, irão anulando esses vestígios do nosso antigo domínio espiritual ou militar.
Nas Províncias Ultramarinas, a total ocupação administrativa, os postos, as escolas e as missões vão determinando a generalização da fala e da escrita portuguesa entre as mais recônditas tribos indígenas da Guiné, de Angola e de Moçambique.
Mas, a pesar da vastidão dos nossos atuais domínios, o terreno mais fértil para a expansão da língua portuguesa oferece-o hoje o Brasil por onde «os escritores que em verso ou prosa mais honram e melhor servem a cultura da Nação-Irmã, empregam a língua portuguesa culta, exprimem-se em português verdadeiro.
«Da fala à escrita, é grande a distância, a mesma que separa o dialeto colonial da língua que lá pregou o padre António Vieira, na sua forma mais nobre de correção e propriedade.
«Sempre que os escritores do Brasil quiserem servir-se do dialeto americano, não lhes custará fazê-lo, e alguns exemplos oferece a sua moderna antologia; mas, para dar título e foro à língua brasileira, necessário é que as vozes das gerações as criem, as inteligências a modelem, até atingir alma própria, com estrutura definida em normas de sintaxe. Por alguns séculos ainda, o Império do Brasil, criado e conduzido para a emancipação nos braços da Metrópole, partilhará com ela a glória de falar um dos mais opulentos e coloridos idiomas do universo, enquanto, ao ritmo da sua obscura fatalidade, as leis da linguagem irão provocando e operando a diferenciação. Para cumprir os votos de fraternidade generosa que às vezes se formulam, poderia sustar-se ou modificar-se esse destino, promovendo a reação da escrita sobre a fonética, por meio de escolas, institutos, teatros e academias em que se cultivasse e defendesse a normal ortoépia portuguesa» [37].
Assim se tentaria assegurar a unidade da língua, até onde fosse possível, mantendo em comum o mais opulento património que as duas nações herdaram da sua nobre ascendência histórica; assim se daria satisfação aos desejos e aos juízos de muitos professores e escritores, desde Filipe Franco de Sá até Rui Barbosa, ao escrever indignadamente:
Na vergonhosa metamorfose, por que está hoje passando o português entre nós, homens, aliás, muito instruídos em outras matérias, cometem crassos erros de linguagem.
Se brasileiros têm aparecido que, por obediência a intentos de feroz nativismo, se revoltam contra a origem portuguesa da sua pátria e da sua fala, manifestando grande desgosto de não poderem refazer a História, desde o ano de 1500, outros muitos e do melhor quilate mental, reconhecem na língua-mãe os títulos que lhe são próprios na pronúncia e na sintaxe, como Machado Assis, José Veríssimo, Olavo Bilac, Euclides da Cunha [38].
Hoje, falam português no Brasil mais de cinquenta milhões de habitantes. «Num inquérito, promovido pela revista francesa La Nature, verificou-se que há no mundo 63 milhões de pessoas que falam português. E se tomarmos em conta o rapidíssimo desenvolvimento populacional do imenso Brasil e as nossas possibilidades como país colonial, não é temerário afirmar que no ano 2.000, a que nenhum de nós provavelmente chegará, essa cifra se poderia elevar a 100 milhões» [39].
Instrumento de relações de cultura, de comoções e de saudade para os portugueses e para os filhos da civilização portuguesa, da lusitanidade dilatada em tantas raças e povos, é esse opulento tesouro espiritual que por alto dever nos importa tanto difundir como defender da corrupção e da mestiçagem. Nunca será demais repetir: — «Portugal amado, sem língua portuguesa respeitada na sua pureza e obedecida na sua gramática, é um paradoxo lastimoso que só vive o efémero destino das palmas e dos banquetes. A nossa língua é a obra-prima do espírito nacional, a criação para que todos os Portugueses uniram as almas durante séculos, harmonicamente, sem o desígnio, aliás impossível, de para isso entrarem em acordo» [40].
[1] Este estudo foi escrito para a História da Expansão Portuguesa no Mundo, publicada sob a direção de António Baião, Hernâni Cidade e Manuel Múrias.
[2] Carolina Michaelis de Vasconcelos, in Prefácio de O Romance de Amadis, ed. de Afonso Lopes Vieira, pág. XXI e XXII.
[3] Sousa Viterbo - A Literatura Espanhola em Portugal, Lisboa, 1915, p. 164 e seg.
[4] Ricardo Jorge — A Intercultura de Portugal e Espanha no passado e no futuro, Porto, 1922, p. 22.
[5] Et pourquoi une inclination aveugle et une cruelle destinée s'attachent-elles d'ordinaire à nous déterminer pour ceux qui seraient sensibles pour quel qu’autre ? (Lettre V).
[6] Four Plays of Gil Vicente... by Aubrey F. G. Bell. Cambridge, 1920, e do mesmo tradutor — Lyrics of Gil Vicente. Oxford - 1914-1925;
Gil Vicente - The Shisp of Hell. English Version by A. F. Gerald. Watford, 1929; Albin Eduard Beau — Gil Vicente na Alemanha. Coimbra, 1939.
[7] Visconde de Juromenha — Obras de Luís de Camões, Lisboa, 1860, vol. I, p. 209 e seg.; José do Canto — Catálogo resumido de uma coleção camoniana.... S. Miguel, Açores, 1880 — Coleção Camoniana, Lisboa, 1895; W. Storck - Vida e obras de Luís de Camões. Versão do original alemão por Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Lisboa, MDCCCXCVII; Luiz Cardim — Projeção de Camões nas Letras Inglesas, Lisboa, 1941.
[8] Essais, L. I. ch. LVI.
[9] E. II – X - De Rebus, Tom. I, L. 2.
[10] E. III - V - De Rebus, Tom. I, L. 2.
[11] Fernão Lopes de Castanheda: trad. francesa e espanhola, 1554; italiana, 1578; holandesa, 1670. — João de Barros: trad. ital. 1562; esp. 1582; Francisco de Andrade: trad. ital. do Palmeirim, 1584; António Ferreira: trad. franc. da Castro, 1835; Francisco Alvares: trad. esp. 1557; Fr. João dos Santos: trad. franc. 1684; Fernão Mendes Pinto: trad. esp. 1620 e 1664; franc., 1628; ingl., 1625; alemã, 1625; Garcia de Orta. — trad. latina, 1567; esp. 1578; ital. 1592; franc. 1602; ingl. 1604; Heitor Pinto: trad. esp. 1572 e 1580; franc., 158o; ital., 1594; Tomé de Jesus: trad. esp., 1631; ital., 1644; franc., 1693; Frei Luiz de Sousa: trad. da Vida do Arcebispo, esp., 1645; franc., 1664; Jacinto Freire de Andrade: trad. ingl. 1664; lat. (Roma) 1727; Francisco Rodrigues Lobo: trad. de A Primavera, esp. 1632; da Corte na Aldeia, trad. esp., 1632 e 1703; P. João de Lucena: trad. ital. 1613; esp., 1619 e 1699; P. António Vieira: trad. de Sermões, ital., 1663, 1673, 1690, 1697, 1688; esp., numerosas edições, latinas, diversas (Colónia, etc.); P. Manuel Bernardes: trad. dos Exercícios Espirituais, franc., 1863.
[12] Depois do estudo de Luciano Cordeiro – Soror Mariana, a freira portuguesa, Lisboa, 1891, para avaliar das razões históricas e críticas, aduzidas ultimamente, podem ler-se: António Sardinha — Da Hera nas Colunas — Novos Estudos. Coimbra, 1929, p. 67 e seg.; Alfredo Pimenta — Estudos Filosóficos e Críticos. Coimbra, 1930, p. 359 e seg.; A. Gonçalves Rodrigues — Mariana Alcoforado. História e critica de uma fraude literária. Coimbra, 1935; Manuel Ribeiro — Vida e Morte de Madre Mariana Alcoforado, Lisboa, 1940; Lettres Portugaises. Essai de reconstitution du texte français par Charles Oulmont. Tentativa de texto português por Afonso Lopes Vieira, Lisboa, 1941.
[13] La Haye, 1701, 1707, 1708, 1716, 1740; Bruxelas, 1709; Anvers, 1734; Paris (Delance), 1796; novas traduções inglesas se publicam em 1701, 1777; uma tradução alemã em 1788; edição portuguesa, 1759-1760, e outras posteriores.
[14] Revue de Littérature Comparée - Octobre - Décembre 1928. Artigo de P. et J. Larat - Les « Lettres d'une religieuse portugaise» et la sensibilité française (p. 628).
[15] Tomás António Gonzaga: trad. franc. da Marilia de Dirceu, 1825; Santa Rita Durão: trad. franc. de Cara. muru, 1829; António da Cruz e Silva: trad. franc. do Hyssope por Boissonade — Le Goupillon, 1828; P. Teodoro de Almeida: trad. esp. dos Sermões, 1789, do Feliz Independente, 1799, da Recreação Filosófica, 1827. — Dos românticos traduzidos recordam-se — Garrett: trad. de Frei Luis de Sousa: alemã, 1847, ital., 1852, esp., 1859, franc., 1876. — Herculano, trad. do Eurico: alemã, 1847; esp., 1875; franc., 1883. do Monge de Cister: trad. esp., 1877- Da Abóbada, trad. esp., 1877. — Camilo C. Branco: Amor de Perdição, trad. esp., 1872. E outros mais que seria longo enumerar.
[16] Para desenvolvimento deste estudo, devem consultar-se s. v. a Biblioteca Lusitana, o Dicionário Bibliográfico, de Inocêncio, e a obra de M. Bernardes Branco — Portugal e os Estrangeiros, tomo 2. °, Lisboa, 1879.
[17] Vergílio Correia - Lugares d'Além — Azemor Mazagão. Çafim. Lisboa, 1923, p. 39 e seg.
[18] Cardial Saraiva — Obras, vol. VI, p. 379 e seg.
[19] Sousa Viterbo — Artes e Artistas em Portugal, Lisboa, 1920, p. 178.
[20] Couto — Década VII, L. V, Cap. X; Cardial Saraiva — vol. VI, p. 322.
[21] Cardial Saraiva — Obras, vol. VI, p. 328.
[22] Cardial Saraiva — Obras, vol. VI, pág. 321; Sousa Viterbo - Dicion., s. v. Pires. Pode ler-se uma extensa enumeração das fortalezas portuguesas no Oriente, na obra do Prof. David Lopes --A Expansão da Língua Portuguesa, pp. 5-6; A Fortaleza de Çofala, por Quirino da Fonseca, in Rev. de Arqueologia, vol. I, p. 304.
[23] Sousa Viterbo — Dicionário, vol. II, s. v. Lopo de Araujo, Francisco Luiz, João Luiz, Manuel Machado, Afonso Madeira, António Rodrigues, etc.; Gilberto Freire - O Mundo que o Português criou, Rio de Janeiro, 1940, p. 94 e seg.
[24] Cit. por David Lopes— A Expansão da Língua Portuguesa no Oriente, pág. IX. Este testemunho foi-nos confirmado pelo oficial do exército Óscar Ruas, que viu o tesouro de Larantuca, ao passar na Ilha das Flores, em 1931.
[25] Frazão de Vasconcelos - As Pinturas das Armadas da India, &. Lisboa MCMXLI.
[26] Reinaldo dos Santos, Tapeçarias da India, in Lusitânia, fasc. V e VI, Lisboa, 1925, pág. 181 e seg.; As Tapeçarias da Tomada de Arzila. Lisboa, 1925; Conferências de Arte, O Império Português e a Arte &. Lisboa, 1941; José de Figueiredo — Do nacionalismo e universalismo da Arte Portuguesa, &. in História da Literatura Portuguesa Ilustrada, vol. I, pág. 311-332; C. da Silva Lopes — Cerâmica Brasonada, in Boletim dos Museus Nacionais de Arte Antiga, vol. I, n.º I, p. 41. João Couto — Alguns subsídios para o estudo técnico das peças de ourivesaria no estilo denominado indo-português. Luís Keil - Alguns exemplos da influência goesa em obras de arte indianas do século XVI, Lisboa, 1938.
[27] Cancioneiro da Ajuda, vol. II, p. 614.
[28] «Do meado do século XI ao do XIV, ninguém sonharia sequer no ascendente literário da língua castelhana, quando por via da expansão admirável da língua luso-galaica, de sainete ao mesmo tempo culto e popular, esta gozava de um esplêndido triunfo, impondo-se como instrumento verbal, ao menos no domínio da poesia, às classes instruídas e cortesãs de Espanha. O século XV desbarata esta fortuna transitória; agora é o castelhano que sobe a língua primaz, que arrasta na sua esteira vitoriosa os próprios Portugueses. No discorrer de mais de dois centénios, numa fileira escritural balizada, como cerra-filas de estatura, pelo condestável D. Pedro no começo e por D. Francisco Manuel no cabo, onde se destaca o que de melhor e maior deu de si o torrão e a grei portuguesa, a pena indígena tanto riscava letras no idioma reinol como no raiano». A Intercultura de Portugal e de Espanha no Passado e no Futuro. Porto, 1921, p. 12.
[29] Mendes dos Remédios - Os Judeus em Portugal, p. 342 e seg.; Os Judeus em Amsterdão, pág. 57 e seg.; Lúcio de Azevedo — História dos Cristãos-Novos Portugueses, p. 36 e seg.
[30] Domingos Garcia Peres — Catálogo rasonado y bibliográfico de los autores portugueses que escribieran en castellano. Madrid, 1890. Vid. Parecer da Academia Real das Ciências, acerca deste livro, subscrito por Manuel Pinheiro Chagas, Teófilo Braga e J. Oliveira Martins, 1891.
[31] Para avaliar dos elementos componentes do léxico português, vid. Adolfo Coelho – A Língua Portuguesa, p. 137 e seg.; Antenor Nascentes — Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, 1932. Introd. p. XVII e seg.; Frei João de. Sousa — Vestígios da Língua Arábica em Portugal, Lisboa, 1830; Duarte Nunes de Lião - Origem da Língua Portuguesa. Lisboa, MDCVL, p. 53 e seg.; Cardial Saraiva — Glossário de vocábulos portugueses derivados das línguas orientais e africanas, excepto o árabe, in Obras Completas, vol. VIII, p. 209 e seg.
[32] Portucalense Editora, Lda., Barcelos, 1936.
[33] Sebastião Rodolfo Dalgado - Dialeto Indo-Português de Ceilão, Introd., pág. XIX e seg.; Contribuições para a Lexicologia Luso-Oriental. Coimbra, 1916.
[34] Podem ler-se alguns trechos dos diversos dialetos portugueses estudados pelo prof. Hugo Schuchardt na obra Portugal e os Estrangeiros, de Bernardes Branco, vol. III, 1893, p. 233 e seg.
[35] Augusto César Pires de Lima - A Obra Missionária dos Portugueses. Guimarães, 1936, onde se encontra vasta bibliografia.
[36] A Língua Portuguesa, rev., vol. III, p. 169 e 209, artigos de Luís Chaves.
[37] Pedras para o Templo, do Autor, cap. Lusitanidade, pp. 240-242.
[38] I. Xavier Fernandes — Questões de Língua Pátria, Rio de Janeiro, 1923, pp. 80-81.
[39] Manuel Rodrigues Lapa — A política do idioma e as Universidades. Lisboa, 1933, p. 39.
[40] Aula Régia, do Autor, p. 61.
Assim, por essas modalidades de dilatação, abrangidos ficam o Amadis de Gaula, o Palmeirim e a Diana, os autos de Gil Vicente, os entremeses de Simão Machado, as éclogas, cartas e sonetos de Sá de Miranda, as rimas de Camões e Frei Agostinho da Cruz, as páginas de Damião de Góis, de André de Resende, D. António Pinheiro, Fernão Lopes de Castanheda, D. Jerónimo Osório, Fernão Mendes Pinto, Frei João dos Santos, do jesuíta Luís Fróis, de António Galvão, Tomé de Jesus, Frei Luís de Sousa, Francisco Rodrigues Lobo, Sóror Mariana e outros muitos autores do período clássico.
A primeira influência da literatura portuguesa assinala-se logo no século de Trezentos, pela novela cavaleiresca Amadis de Gaula, qualquer que tenha sido a língua da composição original, visto estar hoje admitida a autoria dos Lobeiras; e também no mesmo género de romance, dois séculos mais tarde, pela novela pastoril Diana, de Jorge de Montemor.
Deste modo, o Amadis e a Diana, com perfumes de cravo e rosa do nacional eirado da contemplação, são inspiradas criações que se prolongam em reflexos de forma ou de espírito pelas Proezas da Segunda Távola Redonda, pelo Palmeirim de Inglaterra, pela Lusitânia Transformada e Paciência Constante, e pelas obras pastoris de Rodrigues Lobo e outros, revelando-se em tal vitalidade a persistência de temas que não se confundem nos devaneios de muitos continuadores ou imitadores.
A merecida difusão do Amadis e da Diana, a partir das primeiras edições impressas, deve-se à língua castelhana, idioma oficial do mais vasto império da Europa, servindo uma literatura tão vigorosa e rica na poesia, no romance e no teatro, que haveria de impor-se à própria Franca e fecundar a grandeza literária do século de Luís XIV.
Como todos sabem, o ordenador da primeira edição castelhana do Amadis foi Garci-Ordoñez de Montalvo, remontando ao ano de 1508 a mais antiga impressão que se conhece.
«Esse Amadis de Gaula, em castelhano, claro que é o comum, e geralmente conhecido, o que foi lido e relido na Península e fora dela durante o fecundo século XVI. E é o de que Afonso Lopes Vieira se serviu para dele extrair a matéria-prima portuguesa. Estampado mais de vinte vezes antes de 1588; continuado até constar de doze Livros, cada um com título e herói específico; imitado em outros ciclos de Cavalaria; dramatizado em Portugal por Gil Vicente numa bela tragicomédia; transposto em epopeia romântica na terra de Ariosto; traduzido para as principais línguas vivas, e mesmo para aquela morta que é praxe chamar sagrada (c. 1540, Livro I, em Constantinopla, pelo impressor hebraico Eleazar Ben Gershom Soncino) - esse Amadis ficou sendo um dos Livros prediletos de fantasia, tanto em côrtes, palácios e solares, como em casas burguesas, hospedarias e celas de frades e freiras, lido e relido pelos reis, fidalgos, letrados, artistas e santos. Gostavam dele e das continuações, Carlos V e Francisco I, que instigou Nicolas de Herberay, Seigneur des Essarts, a torná-lo conhecido em França; Santa Teresa e Inácio de Loyola; Diego de Mendoza e Simão da Silveira; Montaigne, Ariosto, Torcato Tasso» [2].
Para conhecer a literatura portuguesa, os próprios castelhanos, ontem, como hoje, tinham de a ler traduzida: o que se trasladava, vivia; o que não era transposto, ficava ignorado deles e do resto do mundo europeu. Para os Portugueses cultos dos séculos XVI e XVII, era assaz corrente o conhecimento do castelhano literário, para que não se tentassem a dedilhar na sua música, as mais temperadas liras dos nossos poetas.
Como nota Sousa Viterbo, não devemos ter por muito condenável essa prática que nos mostra, sob o rebuço de alheia língua, a contribuição de que fomos capazes, no enriquecimento da literatura de um povo vizinho e também irmão pelas origens romanas e medievais, dando-lhe a conhecer o lirismo amoroso e casto, essência mais nobre do sentimento português [3]. Desse pecado procuram absolver-se escritores como Jorge de Montemor e Simão Machado.
Recebendo a influência de exemplos estrangeiros (Sannazaro e Bocáccio), pôde Bernardim Ribeiro escrever as Saudades, em que a alma portuguesa, sonhadora, amorosa e dorida, bem se reflete no próprio espelho das águas correntes dos regatos e das fontes.
«Mas a novela bucólica por excelência, a que fez época e moda, foi a Diana de Jorge de Montemor, composta logo em castelhano, que acendeu uma explosão de frenético entusiasmo por toda a parte onde a levaram as inúmeras edições e traduções. Livro e autor andaram no galarim. Um padre de León, ao ler o Evangelho à missa, chamara-lhe o mais florido engenho de Espanha; e Filipe III ia pessoalmente visitar a dama envelhecida que passava por ser a heroína da novela. Largamente editada em Portugal e Espanha, fecundou todas as literaturas, gerando a Astreia de Urfé e a Arcadia de Sidney e influindo poderosamente na veia novelesca da espécie sentimental dos séculos XVII e XVIII» [4].
O que mais impressiona e sobrevive nas obras influídas pelas duas famosas novelas, dentro e fora das fronteiras, é a constância dos temas: heroísmo e amor-fiel, ação e contemplação, serviço e prémio — dois polos em que principalmente se afirmou e exaltou a nossa idealidade medieval. Morrer de amor é o mais expressivo cume da exaltação: identificar vida e morte pela voluntária conversão de uma na outra. Amor contrariado, amor dobrado, porque de amor o amor se alimenta, envenenando-se muitas vezes com a diferença de condição dos amantes, com a preferência da riqueza aos méritos do espírito, ou da fidalguia à virtude.
O isolamento da Ilha Firme, do Amadis, ou o amor e uma cabana do conceito popular, equivalem-se. Os perigos e aventuras das Cruzadas vieram juntar à matéria bretã e carolíngia novos temas e pormenores na tessitura dos romances cavaleirescos que por toda a parte se escreveram durante séculos, sem renegar de todo as primitivas influências.
Do Amadis e da Diana se poderá dizer que um levou à Europa o testemunho do nosso medievalismo, com o vivo selo da Canção de Leonoreta a autenticar-lhe a origem portuguesa; a novela pastoril difundiu os primores do amor português entre as roupagens e confabulações do Renascimento, com as suas laudas já povoadas de Ninfas, Sátiros e Deuses pagãos.
Amor-Heroísmo e Amor-Adoração, um tinha de suceder ao outro, como às proezas da Cavalaria sucediam as razões da Contemplação.
Na Diana, misto de écloga e de romance, repetem-se e renovam-se temas de desencanto, amor louco, amor louco, eu por ti e tu por outro, conforme o rifão aproveitado por Gil Vicente no Auto Pastoril Português, por Camões numa das suas redondilhas em castelhano e por Sóror Mariana Alcoforado numa das Cartas [5].
O pastoralismo ou contemplação das almas no espelho da Natureza trazia as suas remotas raízes de Teócrito, por Vergílio e Sannazaro. As velhas coitas de amor de que os Portugueses mais do que outros humanos sofrem na mocidade e na vida, pela Diana foram levadas à Europa em narrativas e canções com as perfumadas brisas dos nossos campos, a saudável vida dos bosques, das fontes e das sombras, sempre com reflexos da nobreza e honra da Cavalaria. Para melhor exprimir a alma do livro, na Diana ficou em português a Canção das Lusitanas Zagalas e por toda a obra se sentem fremir as saudosas recordações de Coimbra e dos Campos do Mondego, a lenda do castelo de Montemor-o-Velho, pátria do Autor, a canção de Danteu — Suspiros, também escrita em português no meio do texto castelhano.
Nascido e criado no período do bilinguismo, Jorge de Montemor fez o que era corrente, sem que na pastoral deixasse bem vivas a índole, a inspiração e a alma do amor português que ele muito pôde sentir e sofrer. A reconstituição do romance cavaleiresco Amadis e a transposição da pastoral Diana tentou-as com escrúpulo e alcançou-as com êxito, nos limites que se propôs, a especial competência do prosador-poeta Afonso Lopes Vieira que assim prestou mais um alto serviço às Letras e ao Espírito Nacional.
Dos autores portugueses do século XVI, por certo foi Gil Vicente o que mais conhecido se tornou e maior influência terá exercido na literatura espanhola, visto haver escrito em castelhano a maior parte das suas obras e em Castela se terem representado muito cedo os seus autos. Verdadeiramente, foi ele o fundador do Teatro Peninsular, e nas obras de Lope de Vega e Quevedo a sua influência é manifesta, tanto na estrutura como nos temas dos autos.
Basta citar o estilo dos prólogos burlescos e o Viaje del alma.
Nas literaturas de outras nações não teve repercussão o génio de Gil Vicente, embora desde o século XVI se começassem a divulgar composições poéticas suas, quer lidas no texto original castelhano, quer traduzidas de uma ou outra das línguas em que escreveu. A primeira tradução (livre) castelhana — Tragicomedia alegorica del parayso y del infierno, é de 1539. Modernamente, por esforços de eruditos lusófilos, algumas das suas obras têm sido traduzidas para inglês e alemão [6].
Publicada a primeira edição de Os Lusíadas em 1572, já no ano de 1580 aparecem duas traduções espanholas em verso, uma em Salamanca por el Maestro Luys Gomes de Tapia, outra em Alcalá de Henares por Benito Caldera (português). Sob o domínio filipino, o poema de Camões foi ainda traduzido por Henrique Garcez, publicado em Madrid no ano de 1591, e dedicado ao monarca intruso, figurando já no rosto o escudo do Reino de Portugal sobre as armas de Castela.
Durante o período da usurpação, nenhuma outra tradução espanhola foi feita, enquanto se repetiam as edições portuguesas em número de dez ou mais.
Impossível se nos torna sequer enumerar as traduções de Os Lusíadas, das Rimas e dos Autos de Camões em francês, italiano, inglês, alemão, podendo hoje dizer-se que a epopeia portuguesa, total ou parcialmente, e outros versos do Poeta estão traduzidos em todas as línguas cultas do mundo, desde o latim e do grego até ao hebreu e ao chinês [7]. Os episódios preferidos são a Inês de Castro e o Adamastor, pelo seu valor de conceção e de expressão.
Dos épicos, ainda Jerónimo Corte Real (Segundo Cerco de Diu) foi traduzido em espanhol por Frei Pedro de Padilla em 1597, e mais tarde (Naufrágio de Sepúlveda) em edição francesa de 1844.
Da historiografia portuguesa quinhentista grande parte foi redigida em latim, para mais facilmente se divulgar no mundo o conhecimento dos feitos portugueses nas jornadas e conquistas dos Mares e Continentes. Podemos seguir essa corrente, desde os panegiristas épicos pré-camonianos (com Resende, Teive) até Damião de Góis, Jerónimo Osório e outros.
Foram estes, por certo, os escritores portugueses mais conhecidos em toda a Europa no seu tempo, para o que basta relembrar as repetidas edições das suas obras em Lisboa, Florença, Veneza, Roma, Colónia, Roterdão, Lovaina, etc.
Para deslumbrar o século com os esplendores do reinado do Venturoso, pelo Cardial D. Henrique foi o Bispo de Silves incumbido de escrever a vida e feitos de D. Manuel, seu pai e rei.
Montaigne cita e por vezes quase transcreve da obra De rebus Emmanuelis gestis bastantes referências: à ilha Dioscoride [8], à índole e costumes dos indígenas do Brasil [9] e ao regime das castas da India [10]. Pouco depois, a obra do Bispo Osório era publicada em francês (1581). Escrevendo neste período áureo no idioma pátrio, muitos dos grandes escritores portugueses foram sendo depois traduzidos em diversas línguas [11].
Já muito se tem escrito, para até hoje pouco se haver concluído definitivamente no caso histórico-literário das Cartas de Sóror ou Madre Mariana Alcoforado [12]. Publicadas pela primeira vez, em Paris, pelo editor Barbin, com o título Lettres Portugaises traduites en françois (1669), estava-lhes reservada larguíssima difusão em toda a Europa. O mesmo Barbin reedita-as em 1670 e 1672; em Lyon fazem-se as edições de 1679, 1685, 1697; em Colónia, publica-as P. de Marteau e em Amsterdão aparecem também, em 1669, no mesmo ano da primeira edição de Paris, e sem lugar de impressão se editam ainda em 1696. A primeira tradução inglesa aparece em 1678. No século XVIII, mantém-se o interesse, estimulado por sucessivos acrescentamentos e respostas, transformando o livro em secretário de amantes, com entusiasmo e diligência verdadeiramente comerciais, a multiplicar as edições em língua francesa [13].
O êxito literário desta difusão não proveio, originariamente, de revelações lúbricas ou de afrodisia emanada de tais linhas: o que na leitura das Cartas impressionou e ainda hoje comove, por entre adulterações e interpolações no texto primitivo, é a sua ardente sinceridade.
Todos sabem até onde chega a levar-nos o poder da ficção, e por ela vive há milénios a literatura teatral; mas nas Cartas da Freira de Beja ouvem-se falas de alma que nenhum artifício poderia inventar; sente-se pulsar um coração de mulher que sem remédio chora e soluça. Mariana não era escritora. Mas, talvez por isso mesmo, por ter escrito sem arte em época de artifícios literários que ao coração de carne eram alheios, essa rapariga de génio, doida de amor, possuída e desprezada, a arder em chama e brasas de paixão, deixou ficar no mundo tão doridos gritos de humano sentimento que imortalizariam o seu nome.
Quanto à influência literária das cartas, principal intento destas linhas, alguns críticos atribuem-lhe grande parte ou o total poder de transformação da sensibilidade francesa, preparando de longe o advento do Romantismo.
«Et pourtant, si ces fameuses lettres ont causé tant d'émoi c'est qu'elles correspondent à des besoins nouveaux qui allaient s'exprimer dans des œuvres nouvelles. C'est bien aux alentours de l'année 1669 que s’opère cette transformation du goût dont on fait d'ordinaire hommage au siècle de Jean-Jacques, parce que les derniers écrivains du grand siècle se sont montrés plus timides et plus modérés dons leur élan ».
[E, no entanto, se estas cartas famosas causaram tanto alvoroço, foi porque correspondiam a novas necessidades que seriam expressas em novas obras. Foi por volta do ano 1669 que ocorreu essa transformação do gosto, que normalmente presta homenagem à época de Jean-Jacques, pois os últimos escritores do grande século mostraram-se mais tímidos e moderados no seu entusiasmo.]
E mais adiante:
« Un mot résume cette orientation nouvelle : sensibilité, c'est-à-dire complaisance pour les sentiments tendres que le stoïcisme régnant condamnait ou refoulait pour les sublimer par la lutte de la passion et du devoir. M. von Waldberg, dans son ouvrage fort approfondi sur le roman sentimental en France, fait des Lettres Portugaises la véritable clé de cette transformation littéraire » [14].
[Uma palavra resume esta nova orientação: sensibilidade, ou seja, complacência perante os sentimentos ternos que o estoicismo dominante condenou ou reprimiu para os sublimar pela luta entre paixão e dever. M. von Waldberg, no seu trabalho muito aprofundado sobre o romance sentimental em França, faz das Letras Portuguesas a verdadeira chave para esta transformação literária.]
Sem perfilhar tais afirmações que lhe parecem excessivas, Larat, de acordo com Lanson, crê que «les Lettres ont été un des éléments essentiels de ce lointain préromantisme».
Como em assunto de tal natureza, menos importa conhecer os pareceres dos naturais do que os dos estrangeiros, não tão predispostos para a parcialidade num caso que tem vindo a ser discutido com entusiasmo e às vezes com paixão, não deixaremos de registar ainda algumas passagens do juízo de Dorat, poeta, dramaturgo e editor das Cartas, em 1770:
«On ne trouve... ni cette metaphysique d'amour que nos femmelettes ont mise à la mode, ni ces coups de poignards officieux qui tranchent l'intrigue au lieu de la dénouer, ni ces poisons qui laissent à des héroïnes bavardes le temps d'une agonie volumineuse... en récompense tout y est vrai, naturel, de cette simplicité attachante, premier charme des écrits auxquels on revient et dont on ne se lasse jamais...».
[Não conseguimos encontrar... Nem aquela metafísica do amor que as nossas esposas tornaram moda, nem aquelas facadas não oficiais que cortam o plano em vez de o desvendar, nem aqueles venenos que dão às heroínas tagarelas o tempo de uma agonia volumosa... como recompensa, tudo é verdadeiro, natural, com essa simplicidade cativante, o primeiro encanto dos escritos a que se regressa e do qual nunca se cansa...".]
As influências estão reconhecidas e provadas, embora as mais diligentes conjeturas não alcancem fixar os termos do texto primitivo e com ele se tenha perdido, talvez para sempre, a melhor luz de verdade neste drama de amor.
Os escritores do século XVIII foram divulgados na Europa em edições francesas e espanholas, principalmente [15].
Com as edições de traduções completas, e nem todas, merecem referir-se as antologias, como a de Hughes — The Ocean Flowers, a espanhola de Vidart, intitulada Versos, em que figuram nomes de poetas dos períodos clássicos, a par de João de Deus, Camilo, Bocage, Garrett, Rodrigues Cordeiro e outros [16], não devendo esquecer-se as traduções alemãs de sonetos de Antero do Quental e de poesias de várias épocas, publicadas por W. Storck, o erudito biógrafo de Camões. Dos escritores portugueses modernos, Eça de Queiroz tem sido o mais divulgado, principalmente em traduções espanholas e francesas.
II
Se pelos caminhos do Mundo os Portugueses levavam a língua e a religião, a curiosidade científica, a medicina, as construções navais, as fundições de sinos e de canhões, costumes e virtudes nacionais, essa transposição de civilização exigia naturalmente aquelas realizações de arte de que os nossos antepassados eram capazes e que as necessidades da defesa, do povoamento e da assimiladora colonização lhes iam impondo.
Assim, das três formas das chamadas artes maiores, pelas distâncias foram ficando os documentos em ilhas e continentes remotos, e rara será a terra que algum dia viu drapejar o nosso pendão que não guarde vestígios da passagem dos velhos soldados e mareantes.
Com efeito, o que mais perdurou foram os monumentos de arquitetura militar e religiosa, muitos dos quais ainda agora assinalam a conquista e o domínio português nas partes de África, do Oriente e do Brasil. À costa de Marrocos são enviados por D. Manuel os Arrudas, a seguir à conquista de Azamor, para reforçar o forte de Mazagão. As obras continuariam depois, reinando já D. João III, mas a cargo de João de Castilho e sob a inspeção do italiano Benedito de Ravena [17]. Desses cuidados dos dois reis nasceram muros e torres, baluartes e cisternas que ainda hoje se admiram em todas as nossas antigas praças marroquinas. Por elas andou a fazer topografia, a desenhar fortalezas e levantamentos de barras e rios, o célebre Duarte de Armas, por 1507 [18]. A fortaleza de Ormuz foi construída por João de Frandes [19], e reformada por Inofre de CarvaIho [20]. Na India, o primeiro arquiteto foi Tomaz Fernandes que lá fez as fortalezas até ao ano de 1506 [21].
A construção das muralhas de Diu foi dirigida pelo mestre Francisco Pires, por D. João III enviado à India para construir a fortaleza de Moçambique [22].
Embora em rápida referência, não devem esquecer-se os vestígios do domínio português na Abissínia nos séculos XVI e XVII, especialmente em Asmara, Axum e Gondar.
No século XVII, sob o domínio filipino e após a Restauração, as construções e reconstruções militares e religiosas prosseguem na Africa (Ilha de S. Tomé, S. Miguel e S. Pedro em Luanda, Benguela e Massangano); nas Ilhas Adjacentes (Ponta Delgada, Vila Franca e Angra), no Oriente (Goa, Ceilão); e ao longo da costa do Brasil, vão-se levantando, com fortalezas novas ou reformadas, as igrejas e mosteiros das principais cidades — precioso documentário do estilo barroco [23].
A escultura religiosa não poderia deixar de aparecer em todas as igrejas dos nossos domínios, primeiramente pelas imagens de pedra ou de madeira levadas nas naus, depois por inspiração própria dos povos convertidos à fé, criando-se tipos de santos de fisionomia oriental, a que se vai chamando toréutica sino-portuguesa e indo-portuguesa. Do mesmo modo a ourivesaria litúrgica, especialmente nas formas de ante eucarística (sacrários, custódias, píxides, cálices, turíbulos) difundiu-se pela África, pelo Oriente e pelo Ocidente (Brasil), suscitando à volta das missões imitadores indígenas, e chegando-se a guardar como tesouros de mistério alguns vasos sagrados de fábrica portuguesa por paragens onde se perdeu a fé católica.
Um missionário americano descreve assim o encontro de um desses tesouros de arte em Larantuca, na pequena Ilha das Flores do Arquipélago de Sunda; «Voltando para Larantuca, mostraram-nos os preciosos tesouros da igreja dos antigos tempos dos Portugueses — prata, ouro e marfim. Agora, como outrora, estes tesouros são escrupulosamente guardados pelos membros da Confraria. São preciosas relíquias, na verdade, que ninguém ousaria tomar para si. No nosso museu de Techny nós temos algumas peças antigas de crucifixos de marfim trazidos a Flores pelos missionários portugueses de outros tempos» [24].
Por se terem danificado ou dispersado, não podemos fazer ideia aproximada das obras de pintura mandadas durante séculos para as igrejas e missões dos territórios do império português, se nem foi feito nem ordenado inventário do que ainda hoje existe nas Ilhas e Ultramar.
Em Goa, principal centro de cultura e atividade no Oriente português, capital e corte, existiam no Palácio da Fortaleza os retratos dos Vice-Reis, assim como se viam pintadas as armadas que do Reino para o Oriente partiam nas épocas próprias. [25].
Embora muitos serviços e peças tenham saído para o estrangeiro, ainda é abundante o espólio de cerâmica e porcelana oriental nos museus e coleções particulares, em que pode observar-se larga influência portuguesa, não só na decoração, mas principalmente na representação de brasões, emblemas e nomes de nobres portugueses a quem as louças eram destinadas.
Pelo que respeita à tapeçaria, a conquista das praças costeiras de Marrocos logo daria motivos às célebres Tapeçarias de Arzila e Tânger, como os feitos de D. João de Castro e seu triunfo, um século mais tarde, ofereceriam os temas para os panos que celebram a entrada do Herói em Goa e que ainda agora se guardam em Viena.
Merecem ainda especial referência os tapetes persas em que se reproduziram naus e figuras ocidentais, e as tapeçarias flamengas, cujas composições exóticas, com motivos da navegação, deram lugar a certa modalidade característica, à la manière de Portugal et des Indes.
Os célebres biombos japoneses dos séculos XVI e XVII, já tantas vezes reproduzidos, ostentam representações de navios, de personagens e de bandeiras portuguesas, primeiras influências do Ocidente nas composições plásticas do Extremo-Oriente [26].
Quando se fizerem os inventários das realizações artísticas que os Portugueses espalharam pelo mundo, desde a Ilha da Madeira e praças de Marrocos à India e ao Brasil; e quando tiverem sido estudadas as formas, linhas e decorações exóticas, em todo o seu amplo significado, poderá bem avaliar-se neste processo de permuta, o prodigioso contacto de civilizações, a assimilação recíproca de elementos construtivos e decorativos, a misteriosa acomodação dos gostos por tão diversas raças. Só então se fará ideia da colaboração portuguesa num dos mais expressivos capítulos da cultura humana.
III
O destino da língua portuguesa excede em amplitude a ação político-militar do Reino e suas Conquistas, ultrapassando as fronteiras e penetrando em territórios jamais ocupados ou sujeitos ao nosso domínio. Os missionários, os soldados e os mercadores foram os principais agentes dessa difusão pelas rotas marítimas e pelos caminhos e travessias continentais.
Pelos séculos XIII e XIV, nos começos da sua vida autónoma, é o nosso idioma sob a forma de romanço das duas margens do rio Minho, que sobre toda a Península Hispânica prevalece como valor locutivo e de expressão mais acomodada aos temas em voga da poesia provençal. Como a leitura dos velhos cancioneiros o revela e a mestra D. Carolina Michaelis de Vasconcelos o ensina, todos os trovadores se serviram do idioma galego-português. Apenas dois reis de Leão e Castella, Afonso X e XI, recorreram ao castelhano. De cada um resta uma única poesia ([27]). Também eloquentemente o testemunha a carta-proémio do Marquês de Santillana ao Condestável de Portugal, primeiro estudo crítico da poesia lírica dessa época, ao reconhecer que os trovadores da Península utilizavam a mesma língua: cualesquier decidores e trovadores destas partes (agora fuesen Castellanos, Andaluces o de la Extremadura) todos sus obras componían en lengua gallega o portuguesa.
É nessa língua doce e suave que Afonso X, o Sábio, avô do nosso rei-trovador D. Dinis, compõe as célebres Cantigas de Santa Maria, formoso hinário de louvores à Virgem.
Mas em Quatrocentos o predomínio da linguagem lírica é conquistado por Castela, irradiando influências amorosas, eróticas e cortesanescas, e para trás fica no desuso e esquecimento, a branda pompa verbal dos trovadores das eras alfonsina e dionisiana, pelas preferências reveladas nos Cancioneiros de Baena e de Resende [28].
Para cada uma das línguas peninsulares bem individualizadas, o castelhano e o português, no século XVI começa a sua época imperial. Mas, enquanto o Castelhanismo abrangia em domínio político e intelectual uma grande parte da Europa culta (Espanha, Países Baixos, Áustria, Duas Sicílias), em influência europeia a Portugalidade limitava-se ao território do Reino e das Ilhas Adjacentes e a algumas judiarias lo Norte, da Itália e do Levante, como Amsterdão, Florença, Ferrara, Nápoles, Constantinopla e também Marrocos e Alexandria, por onde se dispersaram os israelitas, depois da sua expulsão de Portugal em 1497 [29].
A expansão da língua portuguesa, começada em Ceuta, viria a ser principalmente ultramarina, ao contacto de populações em estado de rudeza primitiva pelas costas e rios de África e do Brasil e dos Arquipélagos Malaios, ou com raças de civilização moral e aspirações bem fora do idealismo cristão, e humanista, como a Pérsia e a China, pelo discurso das centúrias de Quinhentos, Seiscentos e Setecentos.
Igual à língua portuguesa no destino dos seus encontros com os indígenas da América, a língua castelhana disfrutava privilégios e especiais condições de expansão pela proximidade das nações mais cultas da Europa e do mundo.
Por esta maior importância, pela sua natural e até obrigatória difusão, facilmente se explica e justifica que muitos poetas e prosadores iniciassem e ilustrassem o período do bilinguismo, desde o Cancioneiro Geral até além do meado do século XVII. Gil Vicente, Sá de Miranda, Camões, Bernardes, Frei Agostinho, Simão Machado, Rodrigues Lobo, e outros, em língua castelhana foram mandando ao mundo os altos ecos das suas liras.
A língua latina, para arroubos de amoroso lirismo, seria demasiado hirta e dura, e inacessível à generalidade das mulheres, e do seu agrado não poderiam alhear-se portugueses e muito menos portugueses-poetas. Como já se referiu, não era tanto por menosprezo da locução nacional, como pelo desejo e impulso de ganhar fama, que esses engenhos adotaram o recurso de entrar e se impor no mundo culto das universidades e das cortes. Embora Gil Vicente escrevesse a maior parte dos autos em castelhano, muitas vezes inçado de lusismos, contudo aparece na Tragicomédia Pastoril um dos foliões do Sardoal que bem mostra a sua repulsa em ser considerado natural de Castela: Queria antes ser lagarto / Pelos Santos Evangelhos!
O emprego de idioma alheio não deixava de provocar censuras de outros escritores, merecendo registo a especial condenação de António Ferreira, de João de Barros e mais tarde de Manuel de Gallegos. Os prosadores e tratadistas, quando não utilizavam a universalidade do latim, serviam-se deliberadamente do castelhano, como Faria e Sousa, Francisco Faleiro, Pedro Nunes e Pedro Teixeira, autor das Relaciones del Origen... de los Reys de Persia, obra que começada em português, acaba em castelhano, do que se desculpa juzgando que en esta lengua quedaba más comunicable, y mi patria antes recibía servicio que ofensa. E o critério e a prática dos Pais Viegas, Velasco de Gouveia, Frei Francisco de Santo Agostinho, e a mesma língua do inimigo utilizou D. João IV, ao compor a Defensa de la música moderna, & (1649).
Nos dois séculos por que se estendeu o período do bilinguismo, mais de quinhentos autores nossos se serviram do idioma castelhano, enquanto nenhum escritor de além da raia se exprimiu em português, a não ser por intermédio de personagens de teatro [30].
Fala de um país de pequena população e de limitados interesses, assim tinha de ser, em relação às outras línguas cultas da Europa, neolatinas, germânicas ou eslavas, para as quais a língua portuguesa foi sempre mais influenciada do que influente, menos lhes dando do que recebendo neste comércio espiritual [31]. Se a difusão na Europa era pequena, no espaço oferecido pela Navegação e Conquista encontrava a língua portuguesa uma amplitude de influência e domínio que jamais até ali tivera outra língua imperial.
Em trato de comércio, em movimentos e esforços de ocupação, em ação de propaganda da fé cristã, pode dizer-se que a língua de Portugal abraçou a redondeza da Terra, tornando-se especialmente a fala corrente das populações costeiras e insulares do Oriente conquistado para Deus e para o Rei.
Para o estudo da vida da nossa linguagem nestas partes do Mundo Português, é indispensável receber a lição da recente obra do ilustre Professor David Lopes — A Expansão da Língua Portuguesa no Oriente nos séculos XVII e XVIII [32]. Nesse trabalho metódico e escrupuloso, estudam-se os testemunhos estrangeiros sobre o uso da nossa língua no Oriente, a penetração de vocábulos portugueses nas línguas asiáticas, as edições de gramáticas, dicionários, livros de catequese e doutrina publicados pelas missões portuguesas e pelas holandesas e inglesas (protestantes) de Batávia, Colombo, Vepery e Trangambar.
Através de larga bibliografia nacional e estrangeira, também na referida obra se dá conta dos dialetos indo-portugueses e crioulos do Diu, Damão, Goa, Ceilão, Negapatão, Cochim, Mangalor, Cananor, Bombaim, Togu, Malaca, Java Macau e outros.
Estas variações dialetais, determinadas por condições e leis obscuras das raças e do meio, por toda a parte ficaram acusando a vida e capacidade do génio português, lutando por lá contra a distância, o abandono ou a violência dos povos rivais da nossa expansão que nos domínios do Oriente nos sucederam, os holandeses e ingleses [33]. Com segura certeza, não está ainda fixada a contribuição numérica de vocábulos portugueses em cinquenta idiomas asiáticos, estudo de que se têm ocupado, entre outros autores, Marre, Schuchardt [34], Leite de Vasconcelos, Gonçalves Viana, Rodolfo Dalgado, Mariano Saldanha; mas a adopção remota e a actual vida desses vocábulos, em maior ou menor número, são atestadas ainda hoje por todos os viajantes do Oriente, desde o Golfo Pérsico até ao Japão e aos Arquipélagos Malaios: por balcões de comércio, hospedarias e cais de embarque, repetidas vezes se ouvem palavras portuguesas, correctas ou deturpadas. Com orgulho, podemos ainda recordar que pela generalização do seu emprego, a nossa língua foi adoptada na redacção dos instrumentos diplomáticos para as relações de comércio e amizade com outros povos europeus. Desse destino é documento precioso a credencial do Príncipe de Orange, Maurício de Nassau, regente dos Países Baixos, entregue em 1598 ao almirante Jacome Neck, para ser apresentada aos soberanos, príncipes e governadores de terras e mares do Oriente, apenas um século passado sobre o ano do descobrimento do caminho da India por Vasco da Gama.
Não terminaremos esta rápida referência, sem acentuar que a difusão da nossa língua nas partes do Oriente foi, principalmente, obra das missões dos jesuítas, dos franciscanos, dos agostinhos e dominicanos [35]. Língua e Religião confundiram-se no mesmo sentimento, no respeito e amor das populações trazidas ao batismo e à fé cristã: a fala portuguesa assumiu nos ecos das suas almas algum carácter sagrado e o Catolicismo participou dos encantos e mistérios da linguagem em que era ensinado o pregado. Por isso, Palavra e Fé ainda agora persistem em territórios que há muito deixaram de nos pertencer, e em Malaca chamam cristão ou papiá ou serani (= cristão, em malaio) à língua portuguesa que os padres e os capitães por lá deixaram [36].
Para desfazer calúnias e reivindicar a verdade histórica, nunca é demais insistir no carácter de unidade e de assimilação com que a colonização portuguesa sempre se distinguiu de outras, menos espirituais e mais utilitárias.
Embora a futura obliteração da fala e da escrita não se possa evitar pela perda do nosso domínio e pelas sucessivas e calamitosas restrições dos limites do velho Padroado do Oriente, as contribuições lexicológicas da nossa língua por lá permanecerão indefinidamente, a atestar aos séculos vindouros a passagem dos Portugueses por aquelas partes remotas.
A língua portuguesa é de uso corrente em muitos pontos das duas costas de Africa, não só nas ilhas e províncias que lá temos (Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique), mas em ilhas e paragens do continente africano que dos portugueses deixaram de ser, por actos de violência ou razões de injustiça histórica.
Em portos do Golfo da Guiné, em Fernão do Pó, no Congo Francês, no Congo Belga, e na Costa Oriental, algumas populações indígenas continuam a falar português nas relações com os brancos (portugueses) e com os outros europeus; mas as línguas oficiais desses territórios, a influência das autoridades, das missões, das escolas e da população, sempre crescente, de franceses, belgas e ingleses, irão anulando esses vestígios do nosso antigo domínio espiritual ou militar.
Nas Províncias Ultramarinas, a total ocupação administrativa, os postos, as escolas e as missões vão determinando a generalização da fala e da escrita portuguesa entre as mais recônditas tribos indígenas da Guiné, de Angola e de Moçambique.
Mas, a pesar da vastidão dos nossos atuais domínios, o terreno mais fértil para a expansão da língua portuguesa oferece-o hoje o Brasil por onde «os escritores que em verso ou prosa mais honram e melhor servem a cultura da Nação-Irmã, empregam a língua portuguesa culta, exprimem-se em português verdadeiro.
«Da fala à escrita, é grande a distância, a mesma que separa o dialeto colonial da língua que lá pregou o padre António Vieira, na sua forma mais nobre de correção e propriedade.
«Sempre que os escritores do Brasil quiserem servir-se do dialeto americano, não lhes custará fazê-lo, e alguns exemplos oferece a sua moderna antologia; mas, para dar título e foro à língua brasileira, necessário é que as vozes das gerações as criem, as inteligências a modelem, até atingir alma própria, com estrutura definida em normas de sintaxe. Por alguns séculos ainda, o Império do Brasil, criado e conduzido para a emancipação nos braços da Metrópole, partilhará com ela a glória de falar um dos mais opulentos e coloridos idiomas do universo, enquanto, ao ritmo da sua obscura fatalidade, as leis da linguagem irão provocando e operando a diferenciação. Para cumprir os votos de fraternidade generosa que às vezes se formulam, poderia sustar-se ou modificar-se esse destino, promovendo a reação da escrita sobre a fonética, por meio de escolas, institutos, teatros e academias em que se cultivasse e defendesse a normal ortoépia portuguesa» [37].
Assim se tentaria assegurar a unidade da língua, até onde fosse possível, mantendo em comum o mais opulento património que as duas nações herdaram da sua nobre ascendência histórica; assim se daria satisfação aos desejos e aos juízos de muitos professores e escritores, desde Filipe Franco de Sá até Rui Barbosa, ao escrever indignadamente:
Na vergonhosa metamorfose, por que está hoje passando o português entre nós, homens, aliás, muito instruídos em outras matérias, cometem crassos erros de linguagem.
Se brasileiros têm aparecido que, por obediência a intentos de feroz nativismo, se revoltam contra a origem portuguesa da sua pátria e da sua fala, manifestando grande desgosto de não poderem refazer a História, desde o ano de 1500, outros muitos e do melhor quilate mental, reconhecem na língua-mãe os títulos que lhe são próprios na pronúncia e na sintaxe, como Machado Assis, José Veríssimo, Olavo Bilac, Euclides da Cunha [38].
Hoje, falam português no Brasil mais de cinquenta milhões de habitantes. «Num inquérito, promovido pela revista francesa La Nature, verificou-se que há no mundo 63 milhões de pessoas que falam português. E se tomarmos em conta o rapidíssimo desenvolvimento populacional do imenso Brasil e as nossas possibilidades como país colonial, não é temerário afirmar que no ano 2.000, a que nenhum de nós provavelmente chegará, essa cifra se poderia elevar a 100 milhões» [39].
Instrumento de relações de cultura, de comoções e de saudade para os portugueses e para os filhos da civilização portuguesa, da lusitanidade dilatada em tantas raças e povos, é esse opulento tesouro espiritual que por alto dever nos importa tanto difundir como defender da corrupção e da mestiçagem. Nunca será demais repetir: — «Portugal amado, sem língua portuguesa respeitada na sua pureza e obedecida na sua gramática, é um paradoxo lastimoso que só vive o efémero destino das palmas e dos banquetes. A nossa língua é a obra-prima do espírito nacional, a criação para que todos os Portugueses uniram as almas durante séculos, harmonicamente, sem o desígnio, aliás impossível, de para isso entrarem em acordo» [40].
[1] Este estudo foi escrito para a História da Expansão Portuguesa no Mundo, publicada sob a direção de António Baião, Hernâni Cidade e Manuel Múrias.
[2] Carolina Michaelis de Vasconcelos, in Prefácio de O Romance de Amadis, ed. de Afonso Lopes Vieira, pág. XXI e XXII.
[3] Sousa Viterbo - A Literatura Espanhola em Portugal, Lisboa, 1915, p. 164 e seg.
[4] Ricardo Jorge — A Intercultura de Portugal e Espanha no passado e no futuro, Porto, 1922, p. 22.
[5] Et pourquoi une inclination aveugle et une cruelle destinée s'attachent-elles d'ordinaire à nous déterminer pour ceux qui seraient sensibles pour quel qu’autre ? (Lettre V).
[6] Four Plays of Gil Vicente... by Aubrey F. G. Bell. Cambridge, 1920, e do mesmo tradutor — Lyrics of Gil Vicente. Oxford - 1914-1925;
Gil Vicente - The Shisp of Hell. English Version by A. F. Gerald. Watford, 1929; Albin Eduard Beau — Gil Vicente na Alemanha. Coimbra, 1939.
[7] Visconde de Juromenha — Obras de Luís de Camões, Lisboa, 1860, vol. I, p. 209 e seg.; José do Canto — Catálogo resumido de uma coleção camoniana.... S. Miguel, Açores, 1880 — Coleção Camoniana, Lisboa, 1895; W. Storck - Vida e obras de Luís de Camões. Versão do original alemão por Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Lisboa, MDCCCXCVII; Luiz Cardim — Projeção de Camões nas Letras Inglesas, Lisboa, 1941.
[8] Essais, L. I. ch. LVI.
[9] E. II – X - De Rebus, Tom. I, L. 2.
[10] E. III - V - De Rebus, Tom. I, L. 2.
[11] Fernão Lopes de Castanheda: trad. francesa e espanhola, 1554; italiana, 1578; holandesa, 1670. — João de Barros: trad. ital. 1562; esp. 1582; Francisco de Andrade: trad. ital. do Palmeirim, 1584; António Ferreira: trad. franc. da Castro, 1835; Francisco Alvares: trad. esp. 1557; Fr. João dos Santos: trad. franc. 1684; Fernão Mendes Pinto: trad. esp. 1620 e 1664; franc., 1628; ingl., 1625; alemã, 1625; Garcia de Orta. — trad. latina, 1567; esp. 1578; ital. 1592; franc. 1602; ingl. 1604; Heitor Pinto: trad. esp. 1572 e 1580; franc., 158o; ital., 1594; Tomé de Jesus: trad. esp., 1631; ital., 1644; franc., 1693; Frei Luiz de Sousa: trad. da Vida do Arcebispo, esp., 1645; franc., 1664; Jacinto Freire de Andrade: trad. ingl. 1664; lat. (Roma) 1727; Francisco Rodrigues Lobo: trad. de A Primavera, esp. 1632; da Corte na Aldeia, trad. esp., 1632 e 1703; P. João de Lucena: trad. ital. 1613; esp., 1619 e 1699; P. António Vieira: trad. de Sermões, ital., 1663, 1673, 1690, 1697, 1688; esp., numerosas edições, latinas, diversas (Colónia, etc.); P. Manuel Bernardes: trad. dos Exercícios Espirituais, franc., 1863.
[12] Depois do estudo de Luciano Cordeiro – Soror Mariana, a freira portuguesa, Lisboa, 1891, para avaliar das razões históricas e críticas, aduzidas ultimamente, podem ler-se: António Sardinha — Da Hera nas Colunas — Novos Estudos. Coimbra, 1929, p. 67 e seg.; Alfredo Pimenta — Estudos Filosóficos e Críticos. Coimbra, 1930, p. 359 e seg.; A. Gonçalves Rodrigues — Mariana Alcoforado. História e critica de uma fraude literária. Coimbra, 1935; Manuel Ribeiro — Vida e Morte de Madre Mariana Alcoforado, Lisboa, 1940; Lettres Portugaises. Essai de reconstitution du texte français par Charles Oulmont. Tentativa de texto português por Afonso Lopes Vieira, Lisboa, 1941.
[13] La Haye, 1701, 1707, 1708, 1716, 1740; Bruxelas, 1709; Anvers, 1734; Paris (Delance), 1796; novas traduções inglesas se publicam em 1701, 1777; uma tradução alemã em 1788; edição portuguesa, 1759-1760, e outras posteriores.
[14] Revue de Littérature Comparée - Octobre - Décembre 1928. Artigo de P. et J. Larat - Les « Lettres d'une religieuse portugaise» et la sensibilité française (p. 628).
[15] Tomás António Gonzaga: trad. franc. da Marilia de Dirceu, 1825; Santa Rita Durão: trad. franc. de Cara. muru, 1829; António da Cruz e Silva: trad. franc. do Hyssope por Boissonade — Le Goupillon, 1828; P. Teodoro de Almeida: trad. esp. dos Sermões, 1789, do Feliz Independente, 1799, da Recreação Filosófica, 1827. — Dos românticos traduzidos recordam-se — Garrett: trad. de Frei Luis de Sousa: alemã, 1847, ital., 1852, esp., 1859, franc., 1876. — Herculano, trad. do Eurico: alemã, 1847; esp., 1875; franc., 1883. do Monge de Cister: trad. esp., 1877- Da Abóbada, trad. esp., 1877. — Camilo C. Branco: Amor de Perdição, trad. esp., 1872. E outros mais que seria longo enumerar.
[16] Para desenvolvimento deste estudo, devem consultar-se s. v. a Biblioteca Lusitana, o Dicionário Bibliográfico, de Inocêncio, e a obra de M. Bernardes Branco — Portugal e os Estrangeiros, tomo 2. °, Lisboa, 1879.
[17] Vergílio Correia - Lugares d'Além — Azemor Mazagão. Çafim. Lisboa, 1923, p. 39 e seg.
[18] Cardial Saraiva — Obras, vol. VI, p. 379 e seg.
[19] Sousa Viterbo — Artes e Artistas em Portugal, Lisboa, 1920, p. 178.
[20] Couto — Década VII, L. V, Cap. X; Cardial Saraiva — vol. VI, p. 322.
[21] Cardial Saraiva — Obras, vol. VI, p. 328.
[22] Cardial Saraiva — Obras, vol. VI, pág. 321; Sousa Viterbo - Dicion., s. v. Pires. Pode ler-se uma extensa enumeração das fortalezas portuguesas no Oriente, na obra do Prof. David Lopes --A Expansão da Língua Portuguesa, pp. 5-6; A Fortaleza de Çofala, por Quirino da Fonseca, in Rev. de Arqueologia, vol. I, p. 304.
[23] Sousa Viterbo — Dicionário, vol. II, s. v. Lopo de Araujo, Francisco Luiz, João Luiz, Manuel Machado, Afonso Madeira, António Rodrigues, etc.; Gilberto Freire - O Mundo que o Português criou, Rio de Janeiro, 1940, p. 94 e seg.
[24] Cit. por David Lopes— A Expansão da Língua Portuguesa no Oriente, pág. IX. Este testemunho foi-nos confirmado pelo oficial do exército Óscar Ruas, que viu o tesouro de Larantuca, ao passar na Ilha das Flores, em 1931.
[25] Frazão de Vasconcelos - As Pinturas das Armadas da India, &. Lisboa MCMXLI.
[26] Reinaldo dos Santos, Tapeçarias da India, in Lusitânia, fasc. V e VI, Lisboa, 1925, pág. 181 e seg.; As Tapeçarias da Tomada de Arzila. Lisboa, 1925; Conferências de Arte, O Império Português e a Arte &. Lisboa, 1941; José de Figueiredo — Do nacionalismo e universalismo da Arte Portuguesa, &. in História da Literatura Portuguesa Ilustrada, vol. I, pág. 311-332; C. da Silva Lopes — Cerâmica Brasonada, in Boletim dos Museus Nacionais de Arte Antiga, vol. I, n.º I, p. 41. João Couto — Alguns subsídios para o estudo técnico das peças de ourivesaria no estilo denominado indo-português. Luís Keil - Alguns exemplos da influência goesa em obras de arte indianas do século XVI, Lisboa, 1938.
[27] Cancioneiro da Ajuda, vol. II, p. 614.
[28] «Do meado do século XI ao do XIV, ninguém sonharia sequer no ascendente literário da língua castelhana, quando por via da expansão admirável da língua luso-galaica, de sainete ao mesmo tempo culto e popular, esta gozava de um esplêndido triunfo, impondo-se como instrumento verbal, ao menos no domínio da poesia, às classes instruídas e cortesãs de Espanha. O século XV desbarata esta fortuna transitória; agora é o castelhano que sobe a língua primaz, que arrasta na sua esteira vitoriosa os próprios Portugueses. No discorrer de mais de dois centénios, numa fileira escritural balizada, como cerra-filas de estatura, pelo condestável D. Pedro no começo e por D. Francisco Manuel no cabo, onde se destaca o que de melhor e maior deu de si o torrão e a grei portuguesa, a pena indígena tanto riscava letras no idioma reinol como no raiano». A Intercultura de Portugal e de Espanha no Passado e no Futuro. Porto, 1921, p. 12.
[29] Mendes dos Remédios - Os Judeus em Portugal, p. 342 e seg.; Os Judeus em Amsterdão, pág. 57 e seg.; Lúcio de Azevedo — História dos Cristãos-Novos Portugueses, p. 36 e seg.
[30] Domingos Garcia Peres — Catálogo rasonado y bibliográfico de los autores portugueses que escribieran en castellano. Madrid, 1890. Vid. Parecer da Academia Real das Ciências, acerca deste livro, subscrito por Manuel Pinheiro Chagas, Teófilo Braga e J. Oliveira Martins, 1891.
[31] Para avaliar dos elementos componentes do léxico português, vid. Adolfo Coelho – A Língua Portuguesa, p. 137 e seg.; Antenor Nascentes — Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, 1932. Introd. p. XVII e seg.; Frei João de. Sousa — Vestígios da Língua Arábica em Portugal, Lisboa, 1830; Duarte Nunes de Lião - Origem da Língua Portuguesa. Lisboa, MDCVL, p. 53 e seg.; Cardial Saraiva — Glossário de vocábulos portugueses derivados das línguas orientais e africanas, excepto o árabe, in Obras Completas, vol. VIII, p. 209 e seg.
[32] Portucalense Editora, Lda., Barcelos, 1936.
[33] Sebastião Rodolfo Dalgado - Dialeto Indo-Português de Ceilão, Introd., pág. XIX e seg.; Contribuições para a Lexicologia Luso-Oriental. Coimbra, 1916.
[34] Podem ler-se alguns trechos dos diversos dialetos portugueses estudados pelo prof. Hugo Schuchardt na obra Portugal e os Estrangeiros, de Bernardes Branco, vol. III, 1893, p. 233 e seg.
[35] Augusto César Pires de Lima - A Obra Missionária dos Portugueses. Guimarães, 1936, onde se encontra vasta bibliografia.
[36] A Língua Portuguesa, rev., vol. III, p. 169 e 209, artigos de Luís Chaves.
[37] Pedras para o Templo, do Autor, cap. Lusitanidade, pp. 240-242.
[38] I. Xavier Fernandes — Questões de Língua Pátria, Rio de Janeiro, 1923, pp. 80-81.
[39] Manuel Rodrigues Lapa — A política do idioma e as Universidades. Lisboa, 1933, p. 39.
[40] Aula Régia, do Autor, p. 61.
Principais autores mencionados:
· Gil Vicente
· Luís de Camões (autor de Os Lusíadas)
· Sóror Mariana Alcoforado (autora das Cartas Portuguesas)
· Jorge de Montemor (autor de Diana)
· Bernardim Ribeiro
· Sá de Miranda
· Frei Agostinho da Cruz
· Damião de Góis
· André de Resende
· Fernão Lopes de Castanheda
· D. Jerónimo Osório
· Fernão Mendes Pinto
· Frei João dos Santos
· Luís Fróis
· António Galvão
· Tomé de Jesus
· Frei Luís de Sousa
· Francisco Rodrigues Lobo
· Simão Machado
· Jerónimo Corte Real
· João de Barros
· Padre António Vieira
· Eça de Queirós
· Machado de Assis
· José Veríssimo
· Olavo Bilac
· Euclides da Cunha
· Gil Vicente
· Luís de Camões (autor de Os Lusíadas)
· Sóror Mariana Alcoforado (autora das Cartas Portuguesas)
· Jorge de Montemor (autor de Diana)
· Bernardim Ribeiro
· Sá de Miranda
· Frei Agostinho da Cruz
· Damião de Góis
· André de Resende
· Fernão Lopes de Castanheda
· D. Jerónimo Osório
· Fernão Mendes Pinto
· Frei João dos Santos
· Luís Fróis
· António Galvão
· Tomé de Jesus
· Frei Luís de Sousa
· Francisco Rodrigues Lobo
· Simão Machado
· Jerónimo Corte Real
· João de Barros
· Padre António Vieira
· Eça de Queirós
· Machado de Assis
· José Veríssimo
· Olavo Bilac
· Euclides da Cunha
Hipólito Raposo, "Literatura, Arte e Língua Portuguesa no Mundo" in Oferenda, Lisboa, 1950, pp. 112-143.
1ª edição deste texto:
Hipólito Raposo, "A expansão da Literatura, da Arte e da Língua Portuguesa no Mundo", in António Baião, Hernâni Cidade, Manuel Múrias (dir.), História da Expansão Portuguesa no Mundo, Vol. III, Lisboa, Editorial Ática, 1940, pp. 485-498. (PDF)
Hipólito Raposo, "A expansão da Literatura, da Arte e da Língua Portuguesa no Mundo", in António Baião, Hernâni Cidade, Manuel Múrias (dir.), História da Expansão Portuguesa no Mundo, Vol. III, Lisboa, Editorial Ática, 1940, pp. 485-498. (PDF)