DEstino de um "Nacionalista"
António Jacinto Ferreira
Só Deus sabe a profunda repugnância com que lançamos mão da pena para escrever estas linhas!
Mas o respeito que temos pelos nossos leitores, e a nossa responsabilidade de diretor deste semanário, obrigaram-nos a pegar numa pinça para remexer num monturo publicado no Correio do Minho de 8 do corrente.
Somente lamentamos que estejamos a dissipar energias com energúmenos rotulados de nacionalistas, e até (oh, desfaçatez!) de monárquicos.
Demos generosamente há semanas, em artigo de fundo, notícia crítica de um pobre livreco sem sombra de valor, e enviado pelo seu autor, decerto a mendigar uma referenciazinha.
Não percebeu o autor quanto era para ele lisonjeira a nossa benevolência (que vemos agora ser natural nele) e resolveu, com estranha tacanhez de espírito, agredir-nos e procurar ridicularizar-nos no referido Correio, ao mesmo tempo que fazia afirmações infundadas, envolvidas em copioso psitacismo ... pour épater.
Respondemos-lhe pondo os pontos nos ii, e aconselhando-o a ser mais correcto para com os amigos políticos (confessamos aqui a nossa ingenuidade), já que na sua resposta a civilidade estava longe de ser a nota dominante.
Foi o diabo! Tomando a nossa resposta como um par de bandarilhas de fogo aplicadas em su situ, o pobre homem enraiveceu-se, urrou, pulou, espumou, e defecou novo artigo no mesmo jornal, o qual é uma miséria, e não deixará dúvidas a qualquer psiquiatra quanto a um diagnóstico infalível de paranoia.
Claro que não podemos responder-lhe, não só porque a loucura é uma doença que sempre nos mereceu a maior discrição, como também porque o corajoso animal morde-nos as canelas e depois foge com o rabo entre as pernas, declarando no final que digamos nós o que dissermos não nos responderá, porque tem por nós... o mais profundo desprezo.
Que alívio, senhores! O pior que nos poderia acontecer era, pelo contrário, ele ter-se lembrado de dizer que tinha por nós muita consideração. Safa! De que nos livramos, hein?!
Entretanto é profundamente lamentável que este sentimento, tão consolador para nós, só o tivesse tomado no fim, porque se tivesse nascido logo no início teria sido poupado àquela prova pública de inferioridade. Há pessoas, de facto, com pouca sorte!
Pois nós não temos desprezo. Não chegamos a tanto.
Limitamo-nos a ter dó, a ter compaixão, pela mistura incrível de orgulho e de petulância, de má fé e de má criação, de desonestidade na argumentação, que se «estadeia» em três intermináveis colunas do Correio do Minho.
A ponto de este ter verificado a necessidade de preceder o escrito de uma nota introdutória, a procurar deitar água na fervura. Fez bem. Mas parece-nos que teria feito melhor recusando-se a sujar as suas colunas com tal matéria excrementicial. Em todo o caso, agradecemos ao Correio a sua intenção.
E se os nossos leitores tiverem dúvidas, leiam, e verificarão, com curiosidade, o que é um pseudo-intelectual descomposto, arrastando a sua deselegância e a sua deseducação, só porque foi ferido no papo, que, cheio de vento, e só de vento, emproadamente exibia.
Mas se nos recusamos a responder a qualquer prosa responsável, temos obrigação de elucidar os nossos leitores e de retificar, perante eles, juízos (ou faltas de juízo) que, enganosamente, poderiam influenciá-los.
Pomos de parte tudo o que no citado artigo é pura loquacidade do seu autor, porque isso não tem importância, nem para nós nem para os nossos leitores. Também desprezamos os malabarismos verbais e as deturpações do que escrevemos, como no caso do anti-semitismo, em que fala de uma dúzia de frases, quando nós escrevemos umas dúzias. E nem sequer reparamos nas insinuações reles com que o seu progenitor perdeu o tempo e o feitio.
Vamos, sim, ao que interessa a todos.
1 - O Integralismo foi, ou não, anti-personalista?
Damos em outra página um trecho de Pequito Rebelo que responde por nós[1]. E basta para, em definitivo, tudo esclarecer, e reduzir à condição de pura falsidade as alegações tortuosas do furibundo escriba.
2 — Há oposição entre indivíduo e pessoa?
Não haverá oposição, como lhe chama por conveniência desonesta o filósofo falhado — coisa que nunca nós escrevemos. Mas há, com certeza, distinção (isto, sim, foi o que nós escrevemos). E isto é claro na transcrição de Pequito Rebelo, e é também transparente no opúsculo que, sob o título Democracia, publicou, este ano, o ilustre prof. Doutor Cabral de Moncada.
É desse opúsculo a seguinte passagem:
«O comunismo marxista-leninista nega, como se sabe, o conceito ocidental do homem-pessoa ou do homem como pessoa, e conserva apenas o do homem-indivíduo, ou do homem como animal.»
3 — Esta mesma transcrição nos serve à maravilha para abonar a afirmação que fizemos, de o individualismo ser o sustentáculo do totalitarismo, o que o filósofo falhado, incapaz de destruir, classificou, dogmaticamente, de asneira.
Além disso, qualquer estudante sabe de cor que o comunismo é o monismo democrático na sua expressão mais eloquente e representa uma fase da Revolução, de que a Revolução Francesa não foi mais do que um simples episódio.
O fascismo e o nacional-socialismo não foram senão duas tentativas abortadas desta mesma democracia de massas, ao mesmo tempo impossíveis de compreender sem o comunismo, e, contudo, em luta com ele (Cabral de Moncada).
De resto, além desta raiz comum, as realidades dizem que o hitlerismo foi ao poder levado pelo sufrágio universal, e todos os totalitarismos sustentam a sua legitimidade no voto individualista.
4 - O Integralismo nunca foi anti-semita. O facto de, acidentalmente, em escritos dos seus fundadores aparecerem afirmações contra judeus, nada prova neste sentido. Também a leitura de certas apologias das ditaduras, aliás muito mais numerosas do que aquelas, mas puramente acidentais, não habilita, honestamente, ninguém a atribuir ao Integralismo características totalitaristas.
5 - Que é afinal democracia, no conceito do sábio nacionalista? Como bom réptil que é, esgueira-se, enrola-se, e foge ... a dizer uma palavra a tal respeito.
O ilustre prof. Doutor Cabral de Moncada, no seu tão actual estudo, afirma: «O Estado em que, de qualquer modo, o povo for, de facto, detentor do poder, como melhor garantia para se alcançar aquilo que aí, acima de tudo, se procura, a utilidade e proveito do maior número de cidadãos, em vez só dos duma minoria, será democrático; aquele em que isto se não der não o será.»
Considera «democracia, acima de tudo, um facto cultural ... uma ideia geral, um conceito que extraímos de factos e dados de que temos experiência».
E engloba neste conceito desde as democracias ateniense e romana, e as Instituições municipais e comunais da Idade Média, às Monarquias limitadas medievais e às formas modernas dos Estados liberais e totalitários.
O Integralismo só foi anti-democrático no sentido de anti-individualista, de adversário do sufrágio universal.
Bem dizíamos nós, portanto, que o municipalismo integralista também é democracia e que era pelo menos temeridade, em face da extensão moderna e vaga do conceito de democracia, rotular o Integralismo de anti-democrático.
Mas o último hitleriano deste século afirma que tem um conhecimento especial do que é democracia, e insinua que também sabe o que é vida ... Coitado!
(António Jacinto Ferreira in O Debate, 22 de Setembro de 1962.)
[1] Texto de José Pequito Rebelo:
«Cedo o Integralismo se mostrou mais pro personalista do que anti-individualista.
«Para mim este personalismo estava implícito na rasgada afirmação de pluralismo e naquele princípio ou lei que desde os primeiros tempos nos inspirou e que hoje podemos formular claramente sob o nome de princípio da conservação do ser social.
«Na formação da sociedade nada se perde; na constituição dos seus vários graus hierárquicos os elementos que se vão agregando só ganham em ser e portanto também a personalidade, elemento positivo da Cidade, nada deve perder ao agrupar-se com outras personalidades.
«O Integralismo é o regime da Personalidade; ou melhor, assim como sempre preconizámos as liberdades no plural das validades contra a solitária Liberdade das mistificações demagógicas, assim devemos dizer-nos defensores do regime das pessoas, e não da Pessoa.
«Sabeis distinguir entre indivíduo e pessoa. A ideia de indivíduo, em que se abstrai das características próprias do net humano, leva à hipertrofia, não da personalidade, mas do sentimento subjetivo.
«A pessoa é o indivíduo considerado como consciente e livre.
Da personalidade fazem parte todos os elementos que compõem o homem como ser moral e nomeadamente a inteligência que conhece as outras personalidades segundo os seus valores próprios
«É, pois, a Pessoa muito mais que o Individuo, porque contém a sua ideia acrescida de todos os caracteres da espiritualidade «O Integralismo é o regime da Personalidade; ou melhor, assim como sempre preconizámos as liberdades no plural das validades contra a solitária Liberdade das mistificações demagógicas, assim devemos dizer-nos defensores do regime das pessoas, e não da
Pessoa.
«Sabeis distinguir entre indivíduo e pessoa. A ideia de indivíduo, em que se abstrai das características próprias do net humano, leva à hipertrofia, não da personalidade, mas do sentimento subjetivo.
«A pessoa é o indivíduo considerado como consciente e livre. Da personalidade fazem parte todos os elementos que compõem o homem como ser moral e nomeadamente a inteligência qu conhece as outras personalidades segundo os seus valores próprios
«É, pois, a Pessoa muito mais que o Individuo, porque contém a sua ideia acrescida de todos os caracteres da espiritualidade
«Só na personalidade se perfaz o carácter humano, porque é a espiritualidade encarnada que exatamente caracteriza o homem.
«Na individualidade há a ideia de um ser uno e todo inteiro em si, ideia de autonomia que naturalmente se perverte em ideia revolta, se aparece mutilada dos seus elementos morais; o homem só pode verdadeiramente afirmar a sua individualidade, se a afirma como personalidade, isto é, se a integra em espiritualidade: a pura afirmação de individualidade, não subordinada aos valores do espírito, implica a regressão à animalidade.
«Basta fazer a reflexão simples de que a ideia de pessoa se opõe à ideia de coisa, para ter a noção do seu larguíssimo alcance, nesta crise de civilização sob ameaças materialistas, em que o homem corre o perigo de naufragar no dilúvio dos objectos.
«Por outro lado, a ideia universal da pessoa oposta à ideia da coisa implica imediatamente a noção da pluralidade das pessoas aliadas contra as coisas, contra elas defendendo o seu próprio princípio de espiritualidade ou antes a elas sobrepondo a maior dignidade da sua jerarquia, ora esta é a mesma noção de sociedade, o princípio eterno da civilização abrangendo a ideia da soberania da humanidade sobre o universo.
«Aparece assim, como alicerce da construção social, a propriedade, que é afinal o prolongamento exterior da personalidade sobre as coisas, e estas podem ser tanto as coisas naturais como os seres de razão.
«Assim, por exemplo, o proprietário não é um indivíduo: é uma personalidade prolongada nesta coisa natural e fundamental que é a terra.
«O Rei também não é um indivíduo; é uma personalidade com a propriedade do título de Rei, no exercício da sua função, conhecendo-a e amando-a.»
— JOSÉ PEQUITO REBELO.
Estes foram os dois textos com que se encerrou a Polémica em torno do Destino do Nacionalismo Português.
Mas o respeito que temos pelos nossos leitores, e a nossa responsabilidade de diretor deste semanário, obrigaram-nos a pegar numa pinça para remexer num monturo publicado no Correio do Minho de 8 do corrente.
Somente lamentamos que estejamos a dissipar energias com energúmenos rotulados de nacionalistas, e até (oh, desfaçatez!) de monárquicos.
Demos generosamente há semanas, em artigo de fundo, notícia crítica de um pobre livreco sem sombra de valor, e enviado pelo seu autor, decerto a mendigar uma referenciazinha.
Não percebeu o autor quanto era para ele lisonjeira a nossa benevolência (que vemos agora ser natural nele) e resolveu, com estranha tacanhez de espírito, agredir-nos e procurar ridicularizar-nos no referido Correio, ao mesmo tempo que fazia afirmações infundadas, envolvidas em copioso psitacismo ... pour épater.
Respondemos-lhe pondo os pontos nos ii, e aconselhando-o a ser mais correcto para com os amigos políticos (confessamos aqui a nossa ingenuidade), já que na sua resposta a civilidade estava longe de ser a nota dominante.
Foi o diabo! Tomando a nossa resposta como um par de bandarilhas de fogo aplicadas em su situ, o pobre homem enraiveceu-se, urrou, pulou, espumou, e defecou novo artigo no mesmo jornal, o qual é uma miséria, e não deixará dúvidas a qualquer psiquiatra quanto a um diagnóstico infalível de paranoia.
Claro que não podemos responder-lhe, não só porque a loucura é uma doença que sempre nos mereceu a maior discrição, como também porque o corajoso animal morde-nos as canelas e depois foge com o rabo entre as pernas, declarando no final que digamos nós o que dissermos não nos responderá, porque tem por nós... o mais profundo desprezo.
Que alívio, senhores! O pior que nos poderia acontecer era, pelo contrário, ele ter-se lembrado de dizer que tinha por nós muita consideração. Safa! De que nos livramos, hein?!
Entretanto é profundamente lamentável que este sentimento, tão consolador para nós, só o tivesse tomado no fim, porque se tivesse nascido logo no início teria sido poupado àquela prova pública de inferioridade. Há pessoas, de facto, com pouca sorte!
Pois nós não temos desprezo. Não chegamos a tanto.
Limitamo-nos a ter dó, a ter compaixão, pela mistura incrível de orgulho e de petulância, de má fé e de má criação, de desonestidade na argumentação, que se «estadeia» em três intermináveis colunas do Correio do Minho.
A ponto de este ter verificado a necessidade de preceder o escrito de uma nota introdutória, a procurar deitar água na fervura. Fez bem. Mas parece-nos que teria feito melhor recusando-se a sujar as suas colunas com tal matéria excrementicial. Em todo o caso, agradecemos ao Correio a sua intenção.
E se os nossos leitores tiverem dúvidas, leiam, e verificarão, com curiosidade, o que é um pseudo-intelectual descomposto, arrastando a sua deselegância e a sua deseducação, só porque foi ferido no papo, que, cheio de vento, e só de vento, emproadamente exibia.
Mas se nos recusamos a responder a qualquer prosa responsável, temos obrigação de elucidar os nossos leitores e de retificar, perante eles, juízos (ou faltas de juízo) que, enganosamente, poderiam influenciá-los.
Pomos de parte tudo o que no citado artigo é pura loquacidade do seu autor, porque isso não tem importância, nem para nós nem para os nossos leitores. Também desprezamos os malabarismos verbais e as deturpações do que escrevemos, como no caso do anti-semitismo, em que fala de uma dúzia de frases, quando nós escrevemos umas dúzias. E nem sequer reparamos nas insinuações reles com que o seu progenitor perdeu o tempo e o feitio.
Vamos, sim, ao que interessa a todos.
1 - O Integralismo foi, ou não, anti-personalista?
Damos em outra página um trecho de Pequito Rebelo que responde por nós[1]. E basta para, em definitivo, tudo esclarecer, e reduzir à condição de pura falsidade as alegações tortuosas do furibundo escriba.
2 — Há oposição entre indivíduo e pessoa?
Não haverá oposição, como lhe chama por conveniência desonesta o filósofo falhado — coisa que nunca nós escrevemos. Mas há, com certeza, distinção (isto, sim, foi o que nós escrevemos). E isto é claro na transcrição de Pequito Rebelo, e é também transparente no opúsculo que, sob o título Democracia, publicou, este ano, o ilustre prof. Doutor Cabral de Moncada.
É desse opúsculo a seguinte passagem:
«O comunismo marxista-leninista nega, como se sabe, o conceito ocidental do homem-pessoa ou do homem como pessoa, e conserva apenas o do homem-indivíduo, ou do homem como animal.»
3 — Esta mesma transcrição nos serve à maravilha para abonar a afirmação que fizemos, de o individualismo ser o sustentáculo do totalitarismo, o que o filósofo falhado, incapaz de destruir, classificou, dogmaticamente, de asneira.
Além disso, qualquer estudante sabe de cor que o comunismo é o monismo democrático na sua expressão mais eloquente e representa uma fase da Revolução, de que a Revolução Francesa não foi mais do que um simples episódio.
O fascismo e o nacional-socialismo não foram senão duas tentativas abortadas desta mesma democracia de massas, ao mesmo tempo impossíveis de compreender sem o comunismo, e, contudo, em luta com ele (Cabral de Moncada).
De resto, além desta raiz comum, as realidades dizem que o hitlerismo foi ao poder levado pelo sufrágio universal, e todos os totalitarismos sustentam a sua legitimidade no voto individualista.
4 - O Integralismo nunca foi anti-semita. O facto de, acidentalmente, em escritos dos seus fundadores aparecerem afirmações contra judeus, nada prova neste sentido. Também a leitura de certas apologias das ditaduras, aliás muito mais numerosas do que aquelas, mas puramente acidentais, não habilita, honestamente, ninguém a atribuir ao Integralismo características totalitaristas.
5 - Que é afinal democracia, no conceito do sábio nacionalista? Como bom réptil que é, esgueira-se, enrola-se, e foge ... a dizer uma palavra a tal respeito.
O ilustre prof. Doutor Cabral de Moncada, no seu tão actual estudo, afirma: «O Estado em que, de qualquer modo, o povo for, de facto, detentor do poder, como melhor garantia para se alcançar aquilo que aí, acima de tudo, se procura, a utilidade e proveito do maior número de cidadãos, em vez só dos duma minoria, será democrático; aquele em que isto se não der não o será.»
Considera «democracia, acima de tudo, um facto cultural ... uma ideia geral, um conceito que extraímos de factos e dados de que temos experiência».
E engloba neste conceito desde as democracias ateniense e romana, e as Instituições municipais e comunais da Idade Média, às Monarquias limitadas medievais e às formas modernas dos Estados liberais e totalitários.
O Integralismo só foi anti-democrático no sentido de anti-individualista, de adversário do sufrágio universal.
Bem dizíamos nós, portanto, que o municipalismo integralista também é democracia e que era pelo menos temeridade, em face da extensão moderna e vaga do conceito de democracia, rotular o Integralismo de anti-democrático.
Mas o último hitleriano deste século afirma que tem um conhecimento especial do que é democracia, e insinua que também sabe o que é vida ... Coitado!
(António Jacinto Ferreira in O Debate, 22 de Setembro de 1962.)
[1] Texto de José Pequito Rebelo:
«Cedo o Integralismo se mostrou mais pro personalista do que anti-individualista.
«Para mim este personalismo estava implícito na rasgada afirmação de pluralismo e naquele princípio ou lei que desde os primeiros tempos nos inspirou e que hoje podemos formular claramente sob o nome de princípio da conservação do ser social.
«Na formação da sociedade nada se perde; na constituição dos seus vários graus hierárquicos os elementos que se vão agregando só ganham em ser e portanto também a personalidade, elemento positivo da Cidade, nada deve perder ao agrupar-se com outras personalidades.
«O Integralismo é o regime da Personalidade; ou melhor, assim como sempre preconizámos as liberdades no plural das validades contra a solitária Liberdade das mistificações demagógicas, assim devemos dizer-nos defensores do regime das pessoas, e não da Pessoa.
«Sabeis distinguir entre indivíduo e pessoa. A ideia de indivíduo, em que se abstrai das características próprias do net humano, leva à hipertrofia, não da personalidade, mas do sentimento subjetivo.
«A pessoa é o indivíduo considerado como consciente e livre.
Da personalidade fazem parte todos os elementos que compõem o homem como ser moral e nomeadamente a inteligência que conhece as outras personalidades segundo os seus valores próprios
«É, pois, a Pessoa muito mais que o Individuo, porque contém a sua ideia acrescida de todos os caracteres da espiritualidade «O Integralismo é o regime da Personalidade; ou melhor, assim como sempre preconizámos as liberdades no plural das validades contra a solitária Liberdade das mistificações demagógicas, assim devemos dizer-nos defensores do regime das pessoas, e não da
Pessoa.
«Sabeis distinguir entre indivíduo e pessoa. A ideia de indivíduo, em que se abstrai das características próprias do net humano, leva à hipertrofia, não da personalidade, mas do sentimento subjetivo.
«A pessoa é o indivíduo considerado como consciente e livre. Da personalidade fazem parte todos os elementos que compõem o homem como ser moral e nomeadamente a inteligência qu conhece as outras personalidades segundo os seus valores próprios
«É, pois, a Pessoa muito mais que o Individuo, porque contém a sua ideia acrescida de todos os caracteres da espiritualidade
«Só na personalidade se perfaz o carácter humano, porque é a espiritualidade encarnada que exatamente caracteriza o homem.
«Na individualidade há a ideia de um ser uno e todo inteiro em si, ideia de autonomia que naturalmente se perverte em ideia revolta, se aparece mutilada dos seus elementos morais; o homem só pode verdadeiramente afirmar a sua individualidade, se a afirma como personalidade, isto é, se a integra em espiritualidade: a pura afirmação de individualidade, não subordinada aos valores do espírito, implica a regressão à animalidade.
«Basta fazer a reflexão simples de que a ideia de pessoa se opõe à ideia de coisa, para ter a noção do seu larguíssimo alcance, nesta crise de civilização sob ameaças materialistas, em que o homem corre o perigo de naufragar no dilúvio dos objectos.
«Por outro lado, a ideia universal da pessoa oposta à ideia da coisa implica imediatamente a noção da pluralidade das pessoas aliadas contra as coisas, contra elas defendendo o seu próprio princípio de espiritualidade ou antes a elas sobrepondo a maior dignidade da sua jerarquia, ora esta é a mesma noção de sociedade, o princípio eterno da civilização abrangendo a ideia da soberania da humanidade sobre o universo.
«Aparece assim, como alicerce da construção social, a propriedade, que é afinal o prolongamento exterior da personalidade sobre as coisas, e estas podem ser tanto as coisas naturais como os seres de razão.
«Assim, por exemplo, o proprietário não é um indivíduo: é uma personalidade prolongada nesta coisa natural e fundamental que é a terra.
«O Rei também não é um indivíduo; é uma personalidade com a propriedade do título de Rei, no exercício da sua função, conhecendo-a e amando-a.»
— JOSÉ PEQUITO REBELO.
Estes foram os dois textos com que se encerrou a Polémica em torno do Destino do Nacionalismo Português.
NOTA EXPLICATIVA
(António José de Brito e o Integralismo Lusitano)
(António José de Brito e o Integralismo Lusitano)
Em 1962, António José de Brito (1927-2013) começou por situar-se como discípulo ideológico de Alfredo Pimenta, ao publicar Destino do Nacionalismo Português. Nesse livro, porém, para além de fazer uma defesa do nazifascismo e do anti-semitismo, procurou atrelar também a si o Integralismo Lusitano.
O jornal O Debate, dirigido por António Jacinto Ferreira, referiu-se à publicação do livro, mas António José de Brito não gostou do teor da referência e publicou em resposta um artigo com intenção polémica no Correio do Minho de 8 de Junho de 1962. E foi então que Jacinto Ferreira respondeu, abrindo com a impressiva exclamativa: "Só Deus sabe a profunda repugnância com que lançamos mão da pena para escrever estas linhas!". Em suma, para Jacinto Ferreira, o Destino do Nacionalismo Português era "um pobre livreco sem sombra de valor", mas impunha-se não deixar passar em claro a formação totalitarista e racista, a "má fé" e a "desonestidade na argumentação" mostrada pelo seu autor (O Debate, 22 de Setembro de 1962).
Estava instalado um fosso intransponível entre Brito e um destacado e reconhecido discípulo dos mestres do Integralismo Lusitano.
Dois anos depois, em 1964, Carlos Ferrão concluiu a publicação dos seus volumes de combate ao Integralismo Lusitano: O Integralismo e a Republica - autópsia de um mito (3 Volumes, Lisboa, Inquérito e Editorial O Século, 1963-1964). Nas palavras do autor, aquele livro seria "um libelo e uma exautoração" do Integralismo.
Entre os integralistas, prevaleceu a opinião de que o livro de Carlos Ferrão merecia desprezo e, por isso, nenhum dos alvejados lhe respondeu. Opinião diferente teve António José de Brito que, em Reflexões acerca do Integralismo Lusitano (1965), saiu a público mostrando a incompetência historiográfica de Carlos Ferrão.
Em 1965, o assunto "Carlos Ferrão" e o seu ataque ao Integralismo Lusitano teria ficado resolvido. Em 1969, porém, foi desenterrado um livro de juventude de António Sardinha, proscrito pelo próprio - O Sentido Nacional duma Existência - António Tomás Pires e o Integralismo Lusitano, fazendo adivinhar novos ataques. Em 1971, Mário Saraiva, assíduo colaborador de O Debate, resolve reunir e publicar A Verdade e a Mentira - Algumas notas em resposta a "O Integralismo e a República", reconhecendo mérito ao livro de Reflexões de Brito, porque "pormenorizadamente pôs a nu os erros, as falsidades e a má fé do injuriante".
Apesar das diferenças de pensamento e de doutrina, dir-se-ia que se faziam as pazes entre os homens de O Debate e António José de Brito. As diferenças eram, porém, profundas. A formação totalitária e racista de Brito não lhe permitia aceitar um pensamento político como o do Integralismo Lusitano, nascido paredes-meias com o catolicismo social de finais do século XIX, com raízes filosóficas em São Tomás de Aquino (1224-1274) e em Francisco Suárez, S. J. (1548-1617), Doutor Exímio da Igreja e professor da Universidade de Coimbra.
António Sardinha, ao ultrapassar o positivismo e o cientismo da sua juventude por intermédio da sociologia política de São Tomás de Aquino, à roda de 1913, juntou-se a Hipólito Raposo, Luís de Almeida Braga, Alberto de Monsaraz, e Pequito Rebelo, para lançar a revista Nação Portuguesa (1914). Sardinha depressa acertou o passo com a espiritualidade dos seus pares do Integralismo Lusitano, tornando-se um dos seus mestres de referência, em cujas prosas os discípulos podiam acolher um seguro ideário personalista e municipalista de matriz portuguesa, com incisivas advertências contra os estatismos e os autoritarismos de alguns nacionalismos estrangeiros. E, no entanto, recorrendo a citações truncadas e descontextualizadas, Brito viria ainda, e uma vez mais, a tentar apropriar-se de alguns (distorcidos) aspectos do legado contra-revolucionário de António Sardinha (Para a compreensão do Pensamento Contra-Revolucionário, Lisboa, 1996, pp. 79-107).
Em entrevista de Dezembro de 2009, disponível na Internet, A. J. Brito expressou um erro de apreciação ao considerar que Salazar e os Integralistas apenas se distinguiriam na questão do regime - presidente versus rei -, ignorando por completo a luta dos integralistas contra a Salazarquia e o projecto constitucional da Seara Nova que, sob a influência do fascismo, veio a ser aplicado na 2ª República em regime de partido único e corporativismo de Estado. A luta dos Integralistas prosseguiu através do Nacional-sindicalismo (1932-36), e continuou bem para além dele, sempre em defesa da democracia orgânica e das representações municipais e sindicais no Estado. Por fim - justiça lhe seja feita! - Brito exprimiu-se contra os equívocos e as falsificações que, na linha do exemplo de Carlos Ferrão, foram disseminadas por Franco Nogueira, João Medina, António Costa Pinto, entre outros, a respeito do Nacional-Sindicalismo de Francisco Rolão Preto (1893-1977). Nessa entrevista, é possível observar a indignação de Brito, com um livro na mão, citando palavras em que Rolão Preto rejeita clara e inequivocamente o fascismo desde o início dos anos 30 (ver entrevista em https://www.youtube.com/watch?v=QIiSpRC9e_4 ). O pensamento político de Rolão Preto - descentralizador, antitotalitário, personalista e comunitário - manteve-se com efeito sempre ligado à velha cepa do Integralismo Lusitano, nos antípodas dos totalitarismos e do pensamento político de António José de Brito.
09.12.2024 - J. M. Q.
P.-s.: Em Filhos de Ramires - As origens do Integralismo Lusitano (Nova Ática, 2004) refiro António José de Brito, na página 32, identificando o contexto da sua reacção aos volumes de Carlos Ferrão e, na p. 287 (notas 53 e 54), identificando a sua problemática bibliografia acerca do Integralismo Lusitano.
O jornal O Debate, dirigido por António Jacinto Ferreira, referiu-se à publicação do livro, mas António José de Brito não gostou do teor da referência e publicou em resposta um artigo com intenção polémica no Correio do Minho de 8 de Junho de 1962. E foi então que Jacinto Ferreira respondeu, abrindo com a impressiva exclamativa: "Só Deus sabe a profunda repugnância com que lançamos mão da pena para escrever estas linhas!". Em suma, para Jacinto Ferreira, o Destino do Nacionalismo Português era "um pobre livreco sem sombra de valor", mas impunha-se não deixar passar em claro a formação totalitarista e racista, a "má fé" e a "desonestidade na argumentação" mostrada pelo seu autor (O Debate, 22 de Setembro de 1962).
Estava instalado um fosso intransponível entre Brito e um destacado e reconhecido discípulo dos mestres do Integralismo Lusitano.
Dois anos depois, em 1964, Carlos Ferrão concluiu a publicação dos seus volumes de combate ao Integralismo Lusitano: O Integralismo e a Republica - autópsia de um mito (3 Volumes, Lisboa, Inquérito e Editorial O Século, 1963-1964). Nas palavras do autor, aquele livro seria "um libelo e uma exautoração" do Integralismo.
Entre os integralistas, prevaleceu a opinião de que o livro de Carlos Ferrão merecia desprezo e, por isso, nenhum dos alvejados lhe respondeu. Opinião diferente teve António José de Brito que, em Reflexões acerca do Integralismo Lusitano (1965), saiu a público mostrando a incompetência historiográfica de Carlos Ferrão.
Em 1965, o assunto "Carlos Ferrão" e o seu ataque ao Integralismo Lusitano teria ficado resolvido. Em 1969, porém, foi desenterrado um livro de juventude de António Sardinha, proscrito pelo próprio - O Sentido Nacional duma Existência - António Tomás Pires e o Integralismo Lusitano, fazendo adivinhar novos ataques. Em 1971, Mário Saraiva, assíduo colaborador de O Debate, resolve reunir e publicar A Verdade e a Mentira - Algumas notas em resposta a "O Integralismo e a República", reconhecendo mérito ao livro de Reflexões de Brito, porque "pormenorizadamente pôs a nu os erros, as falsidades e a má fé do injuriante".
Apesar das diferenças de pensamento e de doutrina, dir-se-ia que se faziam as pazes entre os homens de O Debate e António José de Brito. As diferenças eram, porém, profundas. A formação totalitária e racista de Brito não lhe permitia aceitar um pensamento político como o do Integralismo Lusitano, nascido paredes-meias com o catolicismo social de finais do século XIX, com raízes filosóficas em São Tomás de Aquino (1224-1274) e em Francisco Suárez, S. J. (1548-1617), Doutor Exímio da Igreja e professor da Universidade de Coimbra.
António Sardinha, ao ultrapassar o positivismo e o cientismo da sua juventude por intermédio da sociologia política de São Tomás de Aquino, à roda de 1913, juntou-se a Hipólito Raposo, Luís de Almeida Braga, Alberto de Monsaraz, e Pequito Rebelo, para lançar a revista Nação Portuguesa (1914). Sardinha depressa acertou o passo com a espiritualidade dos seus pares do Integralismo Lusitano, tornando-se um dos seus mestres de referência, em cujas prosas os discípulos podiam acolher um seguro ideário personalista e municipalista de matriz portuguesa, com incisivas advertências contra os estatismos e os autoritarismos de alguns nacionalismos estrangeiros. E, no entanto, recorrendo a citações truncadas e descontextualizadas, Brito viria ainda, e uma vez mais, a tentar apropriar-se de alguns (distorcidos) aspectos do legado contra-revolucionário de António Sardinha (Para a compreensão do Pensamento Contra-Revolucionário, Lisboa, 1996, pp. 79-107).
Em entrevista de Dezembro de 2009, disponível na Internet, A. J. Brito expressou um erro de apreciação ao considerar que Salazar e os Integralistas apenas se distinguiriam na questão do regime - presidente versus rei -, ignorando por completo a luta dos integralistas contra a Salazarquia e o projecto constitucional da Seara Nova que, sob a influência do fascismo, veio a ser aplicado na 2ª República em regime de partido único e corporativismo de Estado. A luta dos Integralistas prosseguiu através do Nacional-sindicalismo (1932-36), e continuou bem para além dele, sempre em defesa da democracia orgânica e das representações municipais e sindicais no Estado. Por fim - justiça lhe seja feita! - Brito exprimiu-se contra os equívocos e as falsificações que, na linha do exemplo de Carlos Ferrão, foram disseminadas por Franco Nogueira, João Medina, António Costa Pinto, entre outros, a respeito do Nacional-Sindicalismo de Francisco Rolão Preto (1893-1977). Nessa entrevista, é possível observar a indignação de Brito, com um livro na mão, citando palavras em que Rolão Preto rejeita clara e inequivocamente o fascismo desde o início dos anos 30 (ver entrevista em https://www.youtube.com/watch?v=QIiSpRC9e_4 ). O pensamento político de Rolão Preto - descentralizador, antitotalitário, personalista e comunitário - manteve-se com efeito sempre ligado à velha cepa do Integralismo Lusitano, nos antípodas dos totalitarismos e do pensamento político de António José de Brito.
09.12.2024 - J. M. Q.
P.-s.: Em Filhos de Ramires - As origens do Integralismo Lusitano (Nova Ática, 2004) refiro António José de Brito, na página 32, identificando o contexto da sua reacção aos volumes de Carlos Ferrão e, na p. 287 (notas 53 e 54), identificando a sua problemática bibliografia acerca do Integralismo Lusitano.
Referências
1962 - Antonio José de Brito, Destino do Nacionalismo Português, Lisboa, Verbo.
1962 - António José de Brito, O professor Jacinto Ferreira e o "Destino do nacionalismo português". Of. Gráf. Gris.
Índice:
1963-64 - Carlos Ferrão - O Integralismo e a Republica - autópsia de uma mito, 3 Volumes, Lisboa, Inquérito e Editorial O Século, 1963-1964.
1965 - António José de Brito, Reflexões acerca do Integralismo Lusitano, Lisboa, Verbo.
1971 - Mário Saraiva, A Verdade e a Mentira, Lisboa, BPP.
1996 - Antonio José de Brito, Para a compreensão do Pensamento Contra-Revolucionário, Lisboa, Hugin Editores (ver pp. 79-107).
2004 - José Manuel Quintas, Filhos de Ramires - As origens do Integralismo Lusitano, Lisboa, Nova Ática (ver pp. 32 e 287).
2024 - José Manuel Quintas, A literatura capciosa acerca do Integralismo Lusitano e do Nacional-Sindicalismo
1962 - Antonio José de Brito, Destino do Nacionalismo Português, Lisboa, Verbo.
1962 - António José de Brito, O professor Jacinto Ferreira e o "Destino do nacionalismo português". Of. Gráf. Gris.
Índice:
- Nacionalismo por Jacinto Ferreira.
- Esclarecimentos, por A. J. de Brito.
- O "Destino do nacionalismo português," por Jacinto Ferreira.
- Novos esclarecimentos, por A. J. de Brito.
- Destino de um "nacionalista," por Jacinto Ferreira.
1963-64 - Carlos Ferrão - O Integralismo e a Republica - autópsia de uma mito, 3 Volumes, Lisboa, Inquérito e Editorial O Século, 1963-1964.
1965 - António José de Brito, Reflexões acerca do Integralismo Lusitano, Lisboa, Verbo.
1971 - Mário Saraiva, A Verdade e a Mentira, Lisboa, BPP.
1996 - Antonio José de Brito, Para a compreensão do Pensamento Contra-Revolucionário, Lisboa, Hugin Editores (ver pp. 79-107).
2004 - José Manuel Quintas, Filhos de Ramires - As origens do Integralismo Lusitano, Lisboa, Nova Ática (ver pp. 32 e 287).
2024 - José Manuel Quintas, A literatura capciosa acerca do Integralismo Lusitano e do Nacional-Sindicalismo