A polémica em torno do 'Destino do Nacionalismo Português'
António Jacinto Ferreira versus António José de Brito
Resumo: Este artigo analisa a polémica desencadeada por Destino do Nacionalismo Português (1962), de António José de Brito, e a resposta de António Jacinto Ferreira no quadro da defesa da herança doutrinária do Integralismo Lusitano. A controvérsia é examinada como disputa interpretativa em torno do nacionalismo, do personalismo, do antissemitismo, da democracia orgânica e da relação entre integralismo, fascismo e nacional-socialismo. Sustenta-se que o confronto entre Brito e Jacinto Ferreira não se reduziu a uma divergência circunstancial, constituindo antes um debate sobre os limites conceptuais e históricos da tradição integralista.
Palavras-chave: Integralismo Lusitano; nacionalismo português; António José de Brito; António Jacinto Ferreira; personalismo; antissemitismo; fascismo; nacional-socialismo.
Introdução
A polémica suscitada por Destino do Nacionalismo Português (1962), de António José de Brito, nasceu de uma tentativa de reler o Integralismo Lusitano à luz de um nacionalismo absoluto. Nesse horizonte, o fascismo, o nacional-socialismo e o império surgiam como formas superiores de realização política. O ponto nevrálgico da controvérsia residia na operação conceptual pela qual Brito procurou fazer derivar da tradição integralista uma lógica antipersonalista, racista, antissemita e totalitária.
A reação da velha guarda integralista foi imediata. Em 2 de junho de 1962, O Debate publicou um artigo de José Pequito Rebelo que, sem nomear diretamente Brito, denunciava o aparecimento de um «desintegralismo centrípeto», acusando-o de atribuir ao integralismo um «deficiente autoritarismo» e uma claudicação em «transigências com o personalismo». Uma semana depois, António Jacinto Ferreira interveio em termos particularmente severos, criticando a «formação totalitarista e racista» do autor.
Para Jacinto Ferreira, essa leitura constituía uma apropriação capciosa: isolava passagens de António Sardinha, Pequito Rebelo e outros teóricos integralistas, retirando-as do seu contexto tradicionalista, personalista, municipalista e orgânico, para as subordinar a uma tese previamente definida. O cerne da acusação era claro: Brito pretendia «atrelar» o Integralismo Lusitano à ideologia nazi-fascista. Na sua mundividência totalitária e universalista, o destino lógico do nacionalismo português seria a superação do integralismo histórico e a sua integração no feixe totalitário. Daí a censura aos fundadores, sobretudo Alberto Monsaraz e Pequito Rebelo, por terem, nas suas posições doutrinárias mais recentes, feito retroceder o movimento que haviam criado.
O núcleo da controvérsia residia, porém, na definição da própria natureza do pensamento integralista:
António José de Brito identificava a valorização da nação com a sua absolutização, recusando distinguir o personalismo cristão do individualismo liberal.
António Jacinto Ferreira sustentava que o Integralismo Lusitano defendia uma ordem assente no Direito Natural e na tradição cristã, em que o Estado serve a pessoa, a família, o município e os corpos intermédios. A nação, embora central, jamais poderia converter-se numa totalidade soberana capaz de absorver o indivíduo, a sociedade ou a transcendência.
O debate ganhou ainda relevância documental porque Jacinto Ferreira não escreveu apenas em nome próprio. No seu último artigo em O Debate, de 22 de setembro de 1962, incluiu um texto de Pequito Rebelo que desautorizava a tese adversária pela voz de um dos fundadores do movimento. O gesto tinha forte simbolismo: um dos autores mobilizados por Brito para justificar a nação como valor supremo estipulara outrora que «o nacionalismo, só por si, é uma ideia morta», perguntando: «O nacionalismo acaba na nação? Nesse caso, morre». A sua célebre conclusão projetava o Integralismo para além de qualquer enclausuramento nacionalista:
«Não basta dizer: Tudo o que é nacional é nosso. É preciso acrescentar: Tudo o que é humano é nosso. Impõe-se finalmente concluir: É nosso tudo o que é divino.»
Em síntese, a polémica opôs duas leituras inconciliáveis. Brito procurou transformar o Integralismo Lusitano numa etapa insuficiente de uma filosofia política totalizante, destinada a culminar na vontade universal, no Estado fascista, na raça superior nacional-socialista e no império. Jacinto Ferreira respondeu que tal construção desfigurava o movimento ao eliminar os seus limites doutrinários essenciais: a dignidade da pessoa anterior ao Estado, o Direito Natural, a tradição cristã, a função servidora do poder político, a centralidade das famílias, dos municípios e dos corpos sociais, bem como a representação orgânica. O debate foi, por isso, uma disputa pelo sentido do Integralismo Lusitano e pelo modo como a sua herança podia — ou não — ser apropriada por uma leitura neofascista.*
Desenvolvimento da polémica
A polémica desenrolou-se em cinco momentos principais, alternando entre O Debate e o Correio do Minho. O seu eixo não foi apenas pessoal ou jornalístico: incidiu sobre a definição de nacionalismo, a interpretação do Integralismo Lusitano, a distinção entre pessoa e indivíduo, o estatuto do antissemitismo, o sentido da democracia e a relação do nacionalismo português com o fascismo e o nacional-socialismo.
Eixos doutrinários da controvérsia
1. O padrão de nacionalismo e a teleologia nazi-fascista. Jacinto Ferreira formula logo no primeiro artigo a objeção central: Brito teria estabelecido «um padrão, mais que discutível, de nacionalismo» e, «à sombra desse padrão», afastado quase todos os movimentos contemporâneos para depois apontar «como destino do nacionalismo português, a sua integração na ideologia nazi-fascista». A passagem mostra que a discussão começa pela própria definição do conceito e pela suspeita de que ela prepara artificialmente a conclusão.
2. Pessoa e indivíduo. Ferreira fixa a distinção que atravessa toda a controvérsia: «a doutrina integralista sempre se declarou anti-individualista mas não antipersonalista». A fórmula é reforçada pela afirmação posterior: «Se no Integralismo Lusitano há muito de anti-individualismo, não há coisa alguma de antipersonalismo». O ponto é decisivo: para Ferreira, o combate ao indivíduo liberal abstrato não elimina a pessoa como limite moral e espiritual.
3. A resposta de Brito sobre o antipersonalismo. Brito aceita que o Integralismo não se tenha declarado antipersonalista, mas retira daí a consequência oposta: «Admito, de bom grado, que o Integralismo não se tenha nunca declarado antipersonalista»; porém, acrescenta que «mesmo sem o dizer expressamente, o Integralismo, real e efetivamente, foi antipersonalista». A disputa deixa então de ser meramente terminológica e passa a incidir sobre a função das fontes: autodefinição doutrinária contra interpretação dedutiva.
4. Antijudaísmo acidental ou antissemitismo estrutural. Ferreira sustenta que o antijudaísmo «só acidentalmente se revela em escritos de doutrinadores integralistas, e nunca com carácter basilar». Brito responde que «o nacionalismo perfilha, por motivos bem explicáveis, um antissemitismo racista» e acumula exemplos em Sardinha, Pequito Rebelo e Hipólito Raposo. O confronto distingue a presença textual de passagens antijudaicas da sua elevação a princípio estruturante da doutrina.
5. Democracia, sufrágio e representação orgânica. Ferreira recusa que o Integralismo seja antidemocrático em todos os sentidos: «O Integralismo Lusitano é, sem dúvida, antidemocrático, mas apenas contra a democracia do sufrágio universal, dos partidos, do Poder em abdicação. Não o é em relação às democracias municipais e profissionais». A conclusão — «Isto também é Democracia» — resume a alternativa integralista: crítica da partidocracia e defesa da representação orgânica, municipal e profissional.
6. Poder absoluto e totalitário. Jacinto Ferreira formula de modo direto a fronteira entre Integralismo e totalitarismo: o movimento «repudia o Poder absoluto e totalitário» e preconiza «uma Monarquia limitada nos seus poderes, pelos poderes dos Corpos Intermédios — os autênticos representantes do Povo». A passagem articula pessoa, corpos intermédios e representação orgânica como limites à totalização política.
7. A concessão explorada por Ferreira. Na réplica de 8 de agosto, Ferreira cita a admissão de Brito — «Admito, de bom grado, que o Integralismo não se tenha nunca declarado antipersonalista» — e responde: «Pronto! Nada mais é preciso.» O valor da passagem não está no tom polémico, mas no ponto metodológico: se o movimento não se autodefine como antipersonalista, a tese contrária depende de uma reconstrução interpretativa que deve ser demonstrada pela função das fontes, não apenas por inferência lógica.
8. Individualismo e totalitarismo. No último artigo, Ferreira reforça a sua posição com Cabral de Moncada: o comunismo negaria «o conceito ocidental do homem-pessoa» e conservaria apenas «o do homem-indivíduo». Daqui retira a tese polémica de que o individualismo pode sustentar formas totalitárias, ao contrário da pessoa, que funciona como limite antropológico. Assim, a distinção pessoa/indivíduo deixa de ser um detalhe terminológico e passa a decidir a possibilidade, ou a impossibilidade, de uma doutrina totalizante.
Conclusão
A polémica entre António José de Brito e António Jacinto Ferreira permite observar, num momento tardio da receção do Integralismo Lusitano, a tensão entre apropriação ideológica e delimitação doutrinária. Brito procurou reinscrever o integralismo num horizonte nacionalista absoluto, aproximando-o de categorias fascistas e nacional-socialistas; Jacinto Ferreira, pelo contrário, respondeu a partir de uma leitura personalista, cristã e orgânica da tradição integralista.
O debate revela, por isso, mais do que uma querela interna entre autores de uma mesma família política. Nele se confrontam duas formas de entender a nação: como totalidade política absorvente ou como comunidade histórica submetida a limites morais, sociais e transcendentes. É nesse ponto que a distinção entre pessoa e indivíduo, a recusa do poder totalitário e a defesa dos corpos intermédios assumem significado decisivo.
Assim, a controvérsia em torno de Destino do Nacionalismo Português constitui um episódio relevante para compreender não apenas a história intelectual do nacionalismo português no século XX, mas também os mecanismos pelos quais tradições políticas são reinterpretadas, disputadas e, por vezes, deslocadas para horizontes ideológicos que os seus intérpretes históricos recusariam reconhecer como próprios.
15 de Julho de 2026
J. M. Q.
Resumo: Este artigo analisa a polémica desencadeada por Destino do Nacionalismo Português (1962), de António José de Brito, e a resposta de António Jacinto Ferreira no quadro da defesa da herança doutrinária do Integralismo Lusitano. A controvérsia é examinada como disputa interpretativa em torno do nacionalismo, do personalismo, do antissemitismo, da democracia orgânica e da relação entre integralismo, fascismo e nacional-socialismo. Sustenta-se que o confronto entre Brito e Jacinto Ferreira não se reduziu a uma divergência circunstancial, constituindo antes um debate sobre os limites conceptuais e históricos da tradição integralista.
Palavras-chave: Integralismo Lusitano; nacionalismo português; António José de Brito; António Jacinto Ferreira; personalismo; antissemitismo; fascismo; nacional-socialismo.
Introdução
A polémica suscitada por Destino do Nacionalismo Português (1962), de António José de Brito, nasceu de uma tentativa de reler o Integralismo Lusitano à luz de um nacionalismo absoluto. Nesse horizonte, o fascismo, o nacional-socialismo e o império surgiam como formas superiores de realização política. O ponto nevrálgico da controvérsia residia na operação conceptual pela qual Brito procurou fazer derivar da tradição integralista uma lógica antipersonalista, racista, antissemita e totalitária.
A reação da velha guarda integralista foi imediata. Em 2 de junho de 1962, O Debate publicou um artigo de José Pequito Rebelo que, sem nomear diretamente Brito, denunciava o aparecimento de um «desintegralismo centrípeto», acusando-o de atribuir ao integralismo um «deficiente autoritarismo» e uma claudicação em «transigências com o personalismo». Uma semana depois, António Jacinto Ferreira interveio em termos particularmente severos, criticando a «formação totalitarista e racista» do autor.
Para Jacinto Ferreira, essa leitura constituía uma apropriação capciosa: isolava passagens de António Sardinha, Pequito Rebelo e outros teóricos integralistas, retirando-as do seu contexto tradicionalista, personalista, municipalista e orgânico, para as subordinar a uma tese previamente definida. O cerne da acusação era claro: Brito pretendia «atrelar» o Integralismo Lusitano à ideologia nazi-fascista. Na sua mundividência totalitária e universalista, o destino lógico do nacionalismo português seria a superação do integralismo histórico e a sua integração no feixe totalitário. Daí a censura aos fundadores, sobretudo Alberto Monsaraz e Pequito Rebelo, por terem, nas suas posições doutrinárias mais recentes, feito retroceder o movimento que haviam criado.
O núcleo da controvérsia residia, porém, na definição da própria natureza do pensamento integralista:
António José de Brito identificava a valorização da nação com a sua absolutização, recusando distinguir o personalismo cristão do individualismo liberal.
António Jacinto Ferreira sustentava que o Integralismo Lusitano defendia uma ordem assente no Direito Natural e na tradição cristã, em que o Estado serve a pessoa, a família, o município e os corpos intermédios. A nação, embora central, jamais poderia converter-se numa totalidade soberana capaz de absorver o indivíduo, a sociedade ou a transcendência.
O debate ganhou ainda relevância documental porque Jacinto Ferreira não escreveu apenas em nome próprio. No seu último artigo em O Debate, de 22 de setembro de 1962, incluiu um texto de Pequito Rebelo que desautorizava a tese adversária pela voz de um dos fundadores do movimento. O gesto tinha forte simbolismo: um dos autores mobilizados por Brito para justificar a nação como valor supremo estipulara outrora que «o nacionalismo, só por si, é uma ideia morta», perguntando: «O nacionalismo acaba na nação? Nesse caso, morre». A sua célebre conclusão projetava o Integralismo para além de qualquer enclausuramento nacionalista:
«Não basta dizer: Tudo o que é nacional é nosso. É preciso acrescentar: Tudo o que é humano é nosso. Impõe-se finalmente concluir: É nosso tudo o que é divino.»
Em síntese, a polémica opôs duas leituras inconciliáveis. Brito procurou transformar o Integralismo Lusitano numa etapa insuficiente de uma filosofia política totalizante, destinada a culminar na vontade universal, no Estado fascista, na raça superior nacional-socialista e no império. Jacinto Ferreira respondeu que tal construção desfigurava o movimento ao eliminar os seus limites doutrinários essenciais: a dignidade da pessoa anterior ao Estado, o Direito Natural, a tradição cristã, a função servidora do poder político, a centralidade das famílias, dos municípios e dos corpos sociais, bem como a representação orgânica. O debate foi, por isso, uma disputa pelo sentido do Integralismo Lusitano e pelo modo como a sua herança podia — ou não — ser apropriada por uma leitura neofascista.*
Desenvolvimento da polémica
A polémica desenrolou-se em cinco momentos principais, alternando entre O Debate e o Correio do Minho. O seu eixo não foi apenas pessoal ou jornalístico: incidiu sobre a definição de nacionalismo, a interpretação do Integralismo Lusitano, a distinção entre pessoa e indivíduo, o estatuto do antissemitismo, o sentido da democracia e a relação do nacionalismo português com o fascismo e o nacional-socialismo.
- António Jacinto Ferreira, «Nacionalismo» (O Debate, 9 de junho de 1962). Ferreira abre a polémica com uma crítica ao livro de António José de Brito. Considera discutível o padrão de nacionalismo usado em Destino, recusa que o seu desfecho lógico seja a integração na ideologia nazi-fascista e concentra a objeção em três pontos: o Integralismo seria anti-individualista, mas não antipersonalista; as referências antijudaicas seriam acidentais, não basilares; e a crítica à democracia visaria o sufrágio universal e a partidocracia, não as democracias municipais e profissionais.
- António José de Brito, «Esclarecimentos» (Correio do Minho, 18, 19 e 20 de julho de 1962). Brito responde defendendo a sua definição de nacionalismo e insiste que apenas a Action Française e o Integralismo Lusitano correspondem, em sentido próprio, ao culto da nação real. Sustenta que a distinção sardinhiana entre pessoa e indivíduo não impede o antipersonalismo; enumera passagens antijudaicas em António Sardinha, Pequito Rebelo e Hipólito Raposo; critica o uso ambíguo da palavra democracia; e invoca Alfredo Pimenta para mostrar simpatias germanófilas ou pró-nacional-socialistas no campo monárquico antiliberal.
- António Jacinto Ferreira, «O Destino do Nacionalismo Português» (O Debate, 8 de agosto de 1962). Ferreira replica, recusando essa interpretação. Insiste que o ponto decisivo é saber se o Integralismo distinguiu pessoa e indivíduo e destaca a admissão de Brito de que o movimento nunca se declarou antipersonalista. Reafirma que o antissemitismo é uma doutrina estruturada contra o judeu enquanto judeu, não a simples presença de frases antijudaicas; defende a amplitude histórica do conceito de democracia; e relativiza o nazismo de Alfredo Pimenta como sobretudo germanofilia e anticomunismo.
- António José de Brito, «Novos Esclarecimentos» (Correio do Minho, 8 de setembro de 1962). Brito responde de modo mais polémico e pessoal. Reafirma que a ausência de autodeclaração antipersonalista não prova a inexistência de antipersonalismo efetivo; sustenta que a oposição de António Sardinha entre pessoa e indivíduo é incompatível com a definição tomista de pessoa; recusa a distinção entre antijudaísmo acidental e antissemitismo doutrinário; e acusa o adversário de deformar a discussão sobre democracia, Alfredo Pimenta e nacional-socialismo.
- António Jacinto Ferreira, «Destino de um “Nacionalista”» (O Debate, 22 de setembro de 1962). Ferreira encerra a polémica num tom fortemente pessoal, mas conserva o núcleo doutrinário da resposta. Reitera que o Integralismo não foi antipersonalista, que a distinção entre pessoa e indivíduo é essencial, que o individualismo pode sustentar formas totalitárias e que o movimento só foi antidemocrático no sentido de adversário do sufrágio universal individualista. Volta ainda a negar que passagens antijudaicas acidentais autorizem classificá-lo como antissemita estrutural.
Eixos doutrinários da controvérsia
1. O padrão de nacionalismo e a teleologia nazi-fascista. Jacinto Ferreira formula logo no primeiro artigo a objeção central: Brito teria estabelecido «um padrão, mais que discutível, de nacionalismo» e, «à sombra desse padrão», afastado quase todos os movimentos contemporâneos para depois apontar «como destino do nacionalismo português, a sua integração na ideologia nazi-fascista». A passagem mostra que a discussão começa pela própria definição do conceito e pela suspeita de que ela prepara artificialmente a conclusão.
2. Pessoa e indivíduo. Ferreira fixa a distinção que atravessa toda a controvérsia: «a doutrina integralista sempre se declarou anti-individualista mas não antipersonalista». A fórmula é reforçada pela afirmação posterior: «Se no Integralismo Lusitano há muito de anti-individualismo, não há coisa alguma de antipersonalismo». O ponto é decisivo: para Ferreira, o combate ao indivíduo liberal abstrato não elimina a pessoa como limite moral e espiritual.
3. A resposta de Brito sobre o antipersonalismo. Brito aceita que o Integralismo não se tenha declarado antipersonalista, mas retira daí a consequência oposta: «Admito, de bom grado, que o Integralismo não se tenha nunca declarado antipersonalista»; porém, acrescenta que «mesmo sem o dizer expressamente, o Integralismo, real e efetivamente, foi antipersonalista». A disputa deixa então de ser meramente terminológica e passa a incidir sobre a função das fontes: autodefinição doutrinária contra interpretação dedutiva.
4. Antijudaísmo acidental ou antissemitismo estrutural. Ferreira sustenta que o antijudaísmo «só acidentalmente se revela em escritos de doutrinadores integralistas, e nunca com carácter basilar». Brito responde que «o nacionalismo perfilha, por motivos bem explicáveis, um antissemitismo racista» e acumula exemplos em Sardinha, Pequito Rebelo e Hipólito Raposo. O confronto distingue a presença textual de passagens antijudaicas da sua elevação a princípio estruturante da doutrina.
5. Democracia, sufrágio e representação orgânica. Ferreira recusa que o Integralismo seja antidemocrático em todos os sentidos: «O Integralismo Lusitano é, sem dúvida, antidemocrático, mas apenas contra a democracia do sufrágio universal, dos partidos, do Poder em abdicação. Não o é em relação às democracias municipais e profissionais». A conclusão — «Isto também é Democracia» — resume a alternativa integralista: crítica da partidocracia e defesa da representação orgânica, municipal e profissional.
6. Poder absoluto e totalitário. Jacinto Ferreira formula de modo direto a fronteira entre Integralismo e totalitarismo: o movimento «repudia o Poder absoluto e totalitário» e preconiza «uma Monarquia limitada nos seus poderes, pelos poderes dos Corpos Intermédios — os autênticos representantes do Povo». A passagem articula pessoa, corpos intermédios e representação orgânica como limites à totalização política.
7. A concessão explorada por Ferreira. Na réplica de 8 de agosto, Ferreira cita a admissão de Brito — «Admito, de bom grado, que o Integralismo não se tenha nunca declarado antipersonalista» — e responde: «Pronto! Nada mais é preciso.» O valor da passagem não está no tom polémico, mas no ponto metodológico: se o movimento não se autodefine como antipersonalista, a tese contrária depende de uma reconstrução interpretativa que deve ser demonstrada pela função das fontes, não apenas por inferência lógica.
8. Individualismo e totalitarismo. No último artigo, Ferreira reforça a sua posição com Cabral de Moncada: o comunismo negaria «o conceito ocidental do homem-pessoa» e conservaria apenas «o do homem-indivíduo». Daqui retira a tese polémica de que o individualismo pode sustentar formas totalitárias, ao contrário da pessoa, que funciona como limite antropológico. Assim, a distinção pessoa/indivíduo deixa de ser um detalhe terminológico e passa a decidir a possibilidade, ou a impossibilidade, de uma doutrina totalizante.
Conclusão
A polémica entre António José de Brito e António Jacinto Ferreira permite observar, num momento tardio da receção do Integralismo Lusitano, a tensão entre apropriação ideológica e delimitação doutrinária. Brito procurou reinscrever o integralismo num horizonte nacionalista absoluto, aproximando-o de categorias fascistas e nacional-socialistas; Jacinto Ferreira, pelo contrário, respondeu a partir de uma leitura personalista, cristã e orgânica da tradição integralista.
O debate revela, por isso, mais do que uma querela interna entre autores de uma mesma família política. Nele se confrontam duas formas de entender a nação: como totalidade política absorvente ou como comunidade histórica submetida a limites morais, sociais e transcendentes. É nesse ponto que a distinção entre pessoa e indivíduo, a recusa do poder totalitário e a defesa dos corpos intermédios assumem significado decisivo.
Assim, a controvérsia em torno de Destino do Nacionalismo Português constitui um episódio relevante para compreender não apenas a história intelectual do nacionalismo português no século XX, mas também os mecanismos pelos quais tradições políticas são reinterpretadas, disputadas e, por vezes, deslocadas para horizontes ideológicos que os seus intérpretes históricos recusariam reconhecer como próprios.
15 de Julho de 2026
J. M. Q.
(*) Usa-se aqui o termo «neofascista» em sentido descritivo, designando uma leitura posterior à experiência histórica do fascismo e do nacional-socialismo que procura recuperar, justificar ou integrar filosoficamente elementos centrais dessas doutrinas, como o Estado ético, o Estado totalitário, o antipersonalismo, a racialização da política e a subordinação das mediações sociais a uma unidade política superior.
Aqui se transcrevem os textos da polémica publicados na imprensa, recolhidos a partir do livro de António José de Brito, O Professor Jacinto Ferreira e o Destino do Nacionalismo Português, Lisboa, 1962. A versão integral deste livro está aqui disponível numa cópia gentilmente cedida por Bruno Vilhena Dias. (o livro em PDF)
I
NACIONALISMO
(António Jacinto Ferreira, "Nacionalismo", O Debate, 9 de Junho de 1962.)
NACIONALISMO
(António Jacinto Ferreira, "Nacionalismo", O Debate, 9 de Junho de 1962.)
Com o título Destino do Nacionalismo Português publicou o dr. António José de Brito um curioso ensaio, no qual é forçoso admirar a sua cultura filosófica e política, a par de uma forte formação totalitarista e racista.
Não lhe faremos injúria, e até pensamos que lhe seremos agradáveis reconhecendo nele não só um germanófilo enraizado, como até um hitleriano apaixonado, cuja fidelidade sobrevive ao quase completo apagamento da ideologia nacional-socialista.
Discípulo e admirador de Alfredo Pimenta, excede muito o grande mestre no seu germanofilismo, porque este nunca foi hitlerista, e até uma vez escreveu que se arrepiava quando ouvia o Führer dizer: o meu povo.
É que o monarquismo esclarecido de Alfredo Pimenta não podia conformar-se, por motivos de inteligência, com quaisquer manifestações de mono-arquismo — a flor do mal das democracias.
No seu ensaio, José de Brito estabelece um padrão, mais que discutível, de nacionalismo, e à sombra desse padrão afasta desta categoria todos os movimentos políticos contemporâneos, à excepção da Action Française e do Integralismo Lusitano. Só estes, em seu entender, reúnem, a um declarado anti-democratismo, uma oposição total ao liberalismo, ao personalismo, ao judaísmo.
E aponta, como destino do nacionalismo português, a sua integração na ideologia nazi-fascista, como movimento totalitarista e universalista superando os nacionalismos, e dando-lhes uma finalidade lógica e necessária.
Por isso, acusa os dirigentes integralistas, especialmente Alberto de Monsaraz e Pequito Rebelo, de terem, com atitudes mais recentes, feito retrogadar o movimento de que foram criadores.
Não temos grandes responsabilidades no movimento integralista, porque nunca ocupámos nele qualquer posição de relevo, e o nosso monarquismo foi principalmente formado na escola da Acção Realista. Tão pouco temos procuração dos dirigentes integralistas ainda vivos para fazermos a sua defesa, aliás já esboçada em artigo aqui publicado por Pequito Rebelo.
Temos, porém, a responsabilidade de esclarecer os nossos leitores e de os defender do que julgamos erróneo, e até o de desbravar o caminho de Damasco que muitos andarão trilhando, e que de súbito se poderia mostrar intransitável devido a prejuízos, afinal inexistentes.
Só sentimos não ser possível em um sucinto artigo de jornal erguer uma tese contrária à que vem desenvolvida nas primeiras 130 páginas do livro em referência — porque as restantes 80 não interessam, visto serem apenas de apologia e defesa do nazismo.
Iremos, por isso, limitar-nos a apreciar as afirmações de anti-personalismo e anti-judaísmo, e, ainda que ao de leve, a de anti-democratismo.
Primeiro que tudo convirá saber-se que o autor declara o Integralismo anti-personalista, baseando-se num conceito próprio de não distinção entre indivíduo e pessoa, ainda que mostre não ignorar a existência dessa distinção, tratando o assunto no Apêndice I.
Ora exactamente a doutrina integralista sempre se declarou anti-individualista mas não anti-personalista, porque, seguindo a doutrina escolástica, aquela direcção era-lhe basilar.
O próprio António Sardinha escreveu a este respeito, em À Lareira de Castela, que da distinção entre personalidade e individualidade — esta vinda do corpo, e aquela atributo da alma — resultava ser o nacionalismo dos Hispanos centrípeto, aditivo, universal, enquanto que o dos Ingleses e Alemães era centrífugo e substitutivo.
Podem-se fazer a este respeito os jogos dialécticos que se quiser, e até aduzir que, sendo a pessoa naturalmente imperfeita, não pode representar um Valor. Isso equivalerá a esquecer que, exactamente porque a personalidade está ligada à alma, o homem imperfeito, resgatado e marcado com o selo de uma perfeição ascensional, adquiriu assim uma finalidade que transcende a sua natureza humana.
O culto do indivíduo assumirá assim foros de idolatria - e esse é o pecado máximo do sistema democrático; mas o respeito pela pessoa, templo do Espírito Santo, apresenta-se, pelo contrário, como um acto de adoração a Deus, Criador e Redentor.
Se no Integralismo Lusitano há muito de anti-individualismo, não há coisa alguma de anti-personalismo, e só a assimilação irregular destes dois conceitos, dentro de uma doutrina que os diferenciava, poderá consentir uma tal conclusão.
Quanto ao anti-judaísmo, pode-se afirmar que ele só acidentalmente se revela em escritos de doutrinadores integralistas, e nunca com carácter basilar, mas apenas consequente.
As raras alusões ao judaísmo só aparecem por motivos de actos públicos de alguns políticos de notória ascendência semita, como, por exemplo, Guerra Junqueiro.
Não é o princípio rácico que surge a justificar hostilidade, mas antes é a condenação que traz à baila uma filiação étnica como novo indício de desenraizamento da Tradição e da missão histórica de Portugal.
Talvez a França tenha razões especiais de anti-semitismo dado que a sua vida pública anda cheia de legendas desta origem, desde Dreyfus a Pompidou (da estirpe dos Rotschild) passando por Mendès-France e por Léon Blum — que se dizia francês, apesar da sua raça.
Mas em Portugal, excepção feita a Guerra Junqueiro, bem podemos dizer que nada existe capaz de nos desunir, e o consenso unânime considera os judeus portugueses pessoas da máxima respeitabilidade e tão portugueses como todos os outros.
Por isso, esta característica anti-semita aplicada aos nacionalismos parece-nos inteiramente gratuita e só proveniente da deformação nazista de António José de Brito. Aceitaríamos, sem hesitação, a de anti-estrangeirismo como característica genérica, porque essa, sim, anda presente em todos os escritos integralistas, não só abrangendo o estrangeirismo de sangue, como principalmente o estrangeirismo de ideias e de atitudes.
Para acabar, digamos alguma coisa sobre o anti-democratismo.
Que é a democracia? Será exclusivamente o regime do sufrágio universal, o chamado governo do povo pelo povo? Não. Isto é uma definição arcaica.
Como Alexandre Herculano, poderíamos dizer a um século de distância:
«Tenho lido muitas vezes a palavra democracia; tenho-a ouvido proferir outras tantas. O que nunca li nem ouvi foi uma definição precisa e rigorosa dela.»
Em determinado sentido, nunca o Integralismo Lusitano foi anti-democrata. Propugnando o regime misto, ipso facto aceitava a democracia no Município, a Aristocracia na Província, a Monarquia na Nação.
Convém não esquecer que até o Estado Novo, a partir de certa idade, se intitulou Democracia Orgânica.
Alguns teorizantes disseram que isso era paradoxal, mas o que é certo é que o paradoxo se manteve e mantém. Tal como o pleonasmo das Democracias Populares se mantém e prolifera.
Esta palavra democracia é uma das que mais precisa de revisão e de esclarecimento, nos tempos que passam, em que o sistema democrático quase desapareceu, não obstante todos os governos e sistemas procurarem com o máximo empenho serem reconhecidos como democráticos.
E António Sardinha, figura máxima do Integralismo Lusitano, já sentia o rosário de equívocos que se teciam à volta desta expressão. Por isso escreveu:
«Se, à falta de expressão mais idónea, a nós nos é lícito empregar a palavra democracia, a Realeza é, desta forma, o único regime estritamente democrático que se conhece na História. E dizemos democrático porque só a unidade da Soberania, como a Realeza a obtém e consolida, realiza o equilíbrio das classes, sem predomínio, seja ele qual for, dumas sobre as outras.»
O Integralismo Lusitano é, sem dúvida, antidemocrático, mas apenas contra a democracia do sufrágio universal, dos partidos, do Poder em abdicação. Não o é em relação às democracias municipais e profissionais, porque esta as reivindica ele, como expressões basilares da sua doutrina.
Repudia o Poder absoluto e totalitário, e antes preconiza uma Monarquia limitada nos seus poderes, pelos poderes dos Corpos Intermédios — os autênticos representantes do Povo.
Isto também é Democracia.
Não lhe faremos injúria, e até pensamos que lhe seremos agradáveis reconhecendo nele não só um germanófilo enraizado, como até um hitleriano apaixonado, cuja fidelidade sobrevive ao quase completo apagamento da ideologia nacional-socialista.
Discípulo e admirador de Alfredo Pimenta, excede muito o grande mestre no seu germanofilismo, porque este nunca foi hitlerista, e até uma vez escreveu que se arrepiava quando ouvia o Führer dizer: o meu povo.
É que o monarquismo esclarecido de Alfredo Pimenta não podia conformar-se, por motivos de inteligência, com quaisquer manifestações de mono-arquismo — a flor do mal das democracias.
No seu ensaio, José de Brito estabelece um padrão, mais que discutível, de nacionalismo, e à sombra desse padrão afasta desta categoria todos os movimentos políticos contemporâneos, à excepção da Action Française e do Integralismo Lusitano. Só estes, em seu entender, reúnem, a um declarado anti-democratismo, uma oposição total ao liberalismo, ao personalismo, ao judaísmo.
E aponta, como destino do nacionalismo português, a sua integração na ideologia nazi-fascista, como movimento totalitarista e universalista superando os nacionalismos, e dando-lhes uma finalidade lógica e necessária.
Por isso, acusa os dirigentes integralistas, especialmente Alberto de Monsaraz e Pequito Rebelo, de terem, com atitudes mais recentes, feito retrogadar o movimento de que foram criadores.
Não temos grandes responsabilidades no movimento integralista, porque nunca ocupámos nele qualquer posição de relevo, e o nosso monarquismo foi principalmente formado na escola da Acção Realista. Tão pouco temos procuração dos dirigentes integralistas ainda vivos para fazermos a sua defesa, aliás já esboçada em artigo aqui publicado por Pequito Rebelo.
Temos, porém, a responsabilidade de esclarecer os nossos leitores e de os defender do que julgamos erróneo, e até o de desbravar o caminho de Damasco que muitos andarão trilhando, e que de súbito se poderia mostrar intransitável devido a prejuízos, afinal inexistentes.
Só sentimos não ser possível em um sucinto artigo de jornal erguer uma tese contrária à que vem desenvolvida nas primeiras 130 páginas do livro em referência — porque as restantes 80 não interessam, visto serem apenas de apologia e defesa do nazismo.
Iremos, por isso, limitar-nos a apreciar as afirmações de anti-personalismo e anti-judaísmo, e, ainda que ao de leve, a de anti-democratismo.
Primeiro que tudo convirá saber-se que o autor declara o Integralismo anti-personalista, baseando-se num conceito próprio de não distinção entre indivíduo e pessoa, ainda que mostre não ignorar a existência dessa distinção, tratando o assunto no Apêndice I.
Ora exactamente a doutrina integralista sempre se declarou anti-individualista mas não anti-personalista, porque, seguindo a doutrina escolástica, aquela direcção era-lhe basilar.
O próprio António Sardinha escreveu a este respeito, em À Lareira de Castela, que da distinção entre personalidade e individualidade — esta vinda do corpo, e aquela atributo da alma — resultava ser o nacionalismo dos Hispanos centrípeto, aditivo, universal, enquanto que o dos Ingleses e Alemães era centrífugo e substitutivo.
Podem-se fazer a este respeito os jogos dialécticos que se quiser, e até aduzir que, sendo a pessoa naturalmente imperfeita, não pode representar um Valor. Isso equivalerá a esquecer que, exactamente porque a personalidade está ligada à alma, o homem imperfeito, resgatado e marcado com o selo de uma perfeição ascensional, adquiriu assim uma finalidade que transcende a sua natureza humana.
O culto do indivíduo assumirá assim foros de idolatria - e esse é o pecado máximo do sistema democrático; mas o respeito pela pessoa, templo do Espírito Santo, apresenta-se, pelo contrário, como um acto de adoração a Deus, Criador e Redentor.
Se no Integralismo Lusitano há muito de anti-individualismo, não há coisa alguma de anti-personalismo, e só a assimilação irregular destes dois conceitos, dentro de uma doutrina que os diferenciava, poderá consentir uma tal conclusão.
Quanto ao anti-judaísmo, pode-se afirmar que ele só acidentalmente se revela em escritos de doutrinadores integralistas, e nunca com carácter basilar, mas apenas consequente.
As raras alusões ao judaísmo só aparecem por motivos de actos públicos de alguns políticos de notória ascendência semita, como, por exemplo, Guerra Junqueiro.
Não é o princípio rácico que surge a justificar hostilidade, mas antes é a condenação que traz à baila uma filiação étnica como novo indício de desenraizamento da Tradição e da missão histórica de Portugal.
Talvez a França tenha razões especiais de anti-semitismo dado que a sua vida pública anda cheia de legendas desta origem, desde Dreyfus a Pompidou (da estirpe dos Rotschild) passando por Mendès-France e por Léon Blum — que se dizia francês, apesar da sua raça.
Mas em Portugal, excepção feita a Guerra Junqueiro, bem podemos dizer que nada existe capaz de nos desunir, e o consenso unânime considera os judeus portugueses pessoas da máxima respeitabilidade e tão portugueses como todos os outros.
Por isso, esta característica anti-semita aplicada aos nacionalismos parece-nos inteiramente gratuita e só proveniente da deformação nazista de António José de Brito. Aceitaríamos, sem hesitação, a de anti-estrangeirismo como característica genérica, porque essa, sim, anda presente em todos os escritos integralistas, não só abrangendo o estrangeirismo de sangue, como principalmente o estrangeirismo de ideias e de atitudes.
Para acabar, digamos alguma coisa sobre o anti-democratismo.
Que é a democracia? Será exclusivamente o regime do sufrágio universal, o chamado governo do povo pelo povo? Não. Isto é uma definição arcaica.
Como Alexandre Herculano, poderíamos dizer a um século de distância:
«Tenho lido muitas vezes a palavra democracia; tenho-a ouvido proferir outras tantas. O que nunca li nem ouvi foi uma definição precisa e rigorosa dela.»
Em determinado sentido, nunca o Integralismo Lusitano foi anti-democrata. Propugnando o regime misto, ipso facto aceitava a democracia no Município, a Aristocracia na Província, a Monarquia na Nação.
Convém não esquecer que até o Estado Novo, a partir de certa idade, se intitulou Democracia Orgânica.
Alguns teorizantes disseram que isso era paradoxal, mas o que é certo é que o paradoxo se manteve e mantém. Tal como o pleonasmo das Democracias Populares se mantém e prolifera.
Esta palavra democracia é uma das que mais precisa de revisão e de esclarecimento, nos tempos que passam, em que o sistema democrático quase desapareceu, não obstante todos os governos e sistemas procurarem com o máximo empenho serem reconhecidos como democráticos.
E António Sardinha, figura máxima do Integralismo Lusitano, já sentia o rosário de equívocos que se teciam à volta desta expressão. Por isso escreveu:
«Se, à falta de expressão mais idónea, a nós nos é lícito empregar a palavra democracia, a Realeza é, desta forma, o único regime estritamente democrático que se conhece na História. E dizemos democrático porque só a unidade da Soberania, como a Realeza a obtém e consolida, realiza o equilíbrio das classes, sem predomínio, seja ele qual for, dumas sobre as outras.»
O Integralismo Lusitano é, sem dúvida, antidemocrático, mas apenas contra a democracia do sufrágio universal, dos partidos, do Poder em abdicação. Não o é em relação às democracias municipais e profissionais, porque esta as reivindica ele, como expressões basilares da sua doutrina.
Repudia o Poder absoluto e totalitário, e antes preconiza uma Monarquia limitada nos seus poderes, pelos poderes dos Corpos Intermédios — os autênticos representantes do Povo.
Isto também é Democracia.
II
ESCLARECIMENTOS
(António José de Brito in Correio do Minho, 18, 19 e 20 de Julho de 1962.)
ESCLARECIMENTOS
(António José de Brito in Correio do Minho, 18, 19 e 20 de Julho de 1962.)
O prof. Jacinto Ferreira, em artigo de fundo de O Debate, ocupou-se do meu livro Destino do Nacionalismo Português, facto que em extremo me penhorou.
1 - O referido professor assevera que eu estabeleço «um padrão, mais que discutível, de nacionalismo, e à sombra desse padrão» afasto «todos os movimentos políticos contemporâneos, à excepção da Action Française e do Integralismo». «Só estes», em meu entender, reuniriam, «a um declarado anti-democratismo, uma oposição total ao liberalismo, ao personalismo, ao judaísmo».
Ai, valha-me Nossa Senhora! Afirmei, no meu volume, a páginas 88, que o nazismo e o fascismo aceitaram o anti-democratismo, o anti-liberalismo, etc., do nacionalismo, que, para mim, é sinónimo de Action Française e de Integralismo (cf. pp. 17-18 da minha obra). Se alguém de senso achar que dizer isso equivale a dizer que só a Action Française e o Integralismo reúnem, a um declarado anti-democratismo, uma oposição total ao liberalismo etc., prometo oferecer um doce de dez toneladas ao prof. Jacinto Ferreira.
Limitei-me eu a considerar que unicamente a Action Française e o Integralismo eram nacionalismos, se admitíssemos a definição que tomei para ponto de partida (cf. p. 11) e que o prof. Jacinto Ferreira classifica de «mais que discutível». Nesse particular, está no seu pleníssimo direito. Simplesmente, tal definição nem por ser discutível deixa de ter um conteúdo que corresponde a uma inteligível e concebível posição no mundo das ideologias, posição, aliás, perfilhada e adoptada, concreta e historicamente, por determinados agrupamentos doutrinários. O prof. Jacinto Ferreira talvez preferisse que eu denominasse de nacionalista a adoração da Lua, em vez do culto da nação real.
Questão de gosto, que nem sequer julgo «mais que discutível».
Seja como for, a verdade é que, se proclamei que só a Action Française e o Integralismo se enquadravam na ideia de nacionalismo, jamais escrevi, nem me passou pela cabeça escrever, que só a Action Française e o Integralismo professam anti-democratismo, anti-liberalismo, etc.
2 - O meu proeminente crítico lastima «não ser possível em um sucinto artigo de jornal erguer uma tese contrária à que vem desenvolvida nas primeiras 130 páginas do livro em referência — porque as restantes 80 não interessam, visto serem apenas de apologia e defesa do nazismo». O prof. Jacinto Ferreira deve possuir uma noção extremamente lata de nazismo. Com efeito, depois das primeiras 130 páginas do meu trabalho, há um Apêndice I, «Sobre o Anti-liberalismo de Kant», seguido de outro «Acerca dos Conceitos de Indivíduo e Pessoa». Se estes temas constituem «apologia do nazismo», que diabo não será apologia do nazismo?
Além disso, parece-me excelente e louvável que o prof. Jacinto Ferreira desdenhe das apologias do nazismo, várias vezes por ele atacado, directa ou indirectamente, no seu semanário. E um critério notabilíssimo. Agride-se o nazismo e, se alguém aparece com argumentos em sua defesa, responde-se logo com majestade: «Não interessam.» O prof. Jacinto Ferreira não pretende averiguar se foi justo ou injusto, exagerado ou moderado, na sua hostilidade ao nacional-socialismo.
Eis o que não lhe importa. Ele não deseja saber o que foi na realidade o nazismo, recusando «interesse», muito dignamente, a quanto se diga de favorável a semelhante, sistema. Ao nazismo «conhece-o», exclusivamente, como objecto bom para bordoada à toa. E nada mais lhe importa. Nobre atitude.
3 - O prof. Jacinto Ferreira opõe ao anti-personalismo ou individualismo, que atribuo ao Integralismo, a seguinte dialética: «... a doutrina integralista sempre se declarou anti-individualista mas não anti-personalista, porque, seguindo a doutrina escolástica, aquela distinção era-lhe basilar. O próprio António Sardinha escreveu a este respeito, em À Lareira de Castela, que da distinção entre personalidade e individualidade - esta vinda do corpo, e aquela atributo da alma — resultava ser o nacionalismo dos Hispanos centrípeto, aditivo, universal, enquanto o dos Ingleses e Alemães era centrifugo e substractivo.»
Irra, que tremenda trapalhada! O prof. Jacinto Ferreira lança contra mim uma passagem de Sardinha, que de modo nenhum desconheço, pois aludo a ela em nota inserida a páginas 150 do meu ensaio. Nessa passagem não há, só, distinção entre pessoa e indivíduo, mas oposição, visto a pessoa possuir um carácter centrípeto, aditivo e universal, e o indivíduo implicar a subtractividade e a centrifucidade.
A semelhante oposição me refiro na já citada nota.
Vejamos, porém, qual o significado que Sardinha dava ao termo pessoa quando o opunha a indivíduo. Em A prol do Comum, ensina que é «a pessoa sinónima, no seu valor transitório, de género humano, de humanidade» e «parcela aditiva ..., elemento activo dentro da continuidade das gerações». Em A Aliança Peninsular, insiste em que «a pessoa se ... manifesta em inteira coincidência com a Humanidade». Torna-se nítido, portanto, que António Sardinha, ao falar em pessoa e ao contrapô-la ao indivíduo, estava a falar em coletividade humana, em sociedade humana. Se valorizava a pessoa, era por equipará-la ao ser colectivo. Logo, não nos encontramos perante nenhuma espécie de personalismo; ao contrário. Conforme sustentei no Destino do Nacionalismo Português, comentando os dois trechos transcritos em último lugar, Sardinha, ao invocar a pessoa, tão só se aproximava da tese fascista da identidade ideal entre o homem e o Estado, entre a comunidade e a personalidade.
Claro que o vocábulo pessoa, em nossa opinião, é inteiramente dispensável para designar o aditivo, o social, o universal, etc., e para diferenciá-lo do meramente individual. Isso, contudo, é outra história. O indiscutível é que as citações feitas evidenciam que Sardinha, quando usa a expressão pessoa, se afasta com firmeza da ética personalista.
Se o prof. Jacinto Ferreira imagina que basta dar um sentido positivo à palavra pessoa para se evitar o anti-personalismo, está assaz enganado. O filósofo Edmond Cione, ex-discípulo de Croce, na sua obra sobre o Mestre, publicada no Norte da Itália durante a República Social (de que foi partidário), refere-se com apreço à pessoa, embora reprove, evidentemente, o personalismo, a tese da supremacia da pessoa sobre o grupo. E o mesmo se passa com o gentiliano António Pigliaru, autor do estudo de jusfilosofia La persona e l'ordinamento giuridico.
Admito, de bom grado, que o Integralismo não se tenha nunca declarado antipersonalista, pois o personalismo, de 1914 a 1930, era coisa pouco conhecida no nosso país.
Maritain dava os primeiros passos, mas com toda a prudência, sob a égide da Action Française, inspirando-se em Garrigou-Lagrange. Max Scheler, salvo talvez o professor Cabral de Moncada, ninguém o lera em Portugal; de Berdiaeff apenas se conhecia a sua obra de maior conteúdo contra-revolucionário (Uma Nova Idade Média) e quanto a Martim Buber duvido que, alguma vez, o seu nome fosse pronunciado, etc., etc.
Consequentemente, porque razão o Integralismo iria proclamar-se anti-personalista?
Em todo o caso, mesmo sem o dizer expressamente, o Integralismo, real e efectivamente, foi anti-personalista. Mostram-no os textos (os que agora transcrevi e, também, os de Pequito Rebelo mencionados no meu Destino do Nacionalismo Português), quer isso agrade ao prof. Jacinto Ferreira quer não.
E, por último, observe-se que invocar a escolástica a propósito das noções de pessoa e indivíduo perfilhadas por António Sardinha não é prova nem de prudência nem de sabedoria. O prof. Jacinto Ferreira, que fez semelhante menção, melhor fizera se se calara. Sardinha, consoante vimos, opõe indivíduo e pessoa. Ora, nada menos de acordo com os ensinamentos escolásticos. S. Tomás (a que o autor de Na Feira dos Mitos alude bastante, embora, provavelmente, nunca lesse, pois várias vezes fala até nas suas Summula) julga a pessoa uma «substância individual», ensinando abertamente que «o nome de indivíduo entra na definição de pessoa».
O prof. Jacinto Ferreira verificaria facilmente tudo isto, se percorresse o segundo dos apêndices da minha obra e respectivas notas, em vez de o enquadrar não sei em que espécie de «apologia do nazismo».
4 - Sustentei eu que, à semelhança da Action Française, o Integralismo merecia, sem injustiça, ser classificado de anti-semita. A tal propósito, dogmatiza o prof. Jacinto Ferreira: «Quando ao anti-judaísmo, pode-se afirmar que ele só acidentalmente se revela em escritos de doutrinadores integralistas, e nunca com carácter basilar, mas apenas consequente. As raras alusões ao judaísmo só aparecem por motivos de actos públicos de alguns políticos de notória ascendência semita, como, por exemplo, Guerra Junqueiro.
Não é o princípio rácico que surge a justificar a hostilidade, mas antes é a condenação que traz à baila uma filiação étnica ...» E mais adiante: «... excepção feita a Guerra Junqueiro, bem podemos dizer que nada existe capaz de nos desunir», no aspecto racial 1.
Muito bem! Que o anti-semitismo integralista era apenas consequente fui eu que o escrevi, prof. Jacinto Ferreira.
Veja as páginas 26 e 32 do meu estudo: «... passemos a examinar as principais consequências negativas que derivam directamente da ideia de nação própria da Action Française e do Integralismo. Antes de mais nada impõe-se o aniquilamento do Liberalismo.»; «... igualmente... o nacionalismo perfilha, por motivos bem explicáveis, um anti-semitismo racista.»
E, chegados aqui, conversemos um pouco sobre «actos públicos de alguns políticos de notória ascendência semita, como, por exemplo, Guerra Junqueiro», em relação aos quais «não é o princípio rácico que surge a justificar a hostilidade». Reproduzo o que Sardinha asseverou acerca do lírico de Os Simples: «O seu poema Pátria ... é antes a defesa implacável do ghetto que se ergue da sua noite ancestral para insultar ... a força poderosa que lhe enquadrou a ascendência em bairros murados com uma estrela de seis pontas assinalando-lhe a origem hostil e execrável ... E preciso que nos possuamos dum sentido nacionalista dos nossos escritores. Não é indiferente para isso a ideia étnica que só por si determina uma modalidade psicológica. Guerra Junqueiro é um semita reconhecido e declarado.» (Na Feira dos Mitos, pp. 19 a 23.) E, no Purgatório das Ideias. reincide: «Projeção atávica de todo o ódio baixo da sua raça, Guerra Junqueiro pertence ao número daqueles ídolos que é dever ... despir na praça pública» (p. 183).
Se isto não é justificar a hostilidade em função do princípio rácico, então a lógica é uma enorme batata.
E passemos às raras alusões ao judaísmo «por motivos de actos públicos de alguns políticos» republicanos. Ainda na Feira dos Mitos, António Sardinha, arvorado pelo prof. Jacinto Ferreira em «figura máxima do Integralismo», tem um artigo acerca de «Os Judeus e os Descobrimentos», negando capacidade criadora à raça judaica, onde não me consta haver referências a actos públicos de políticos republicanos. No Glossário dos Tempos, encontramos um ataque «aos colossos da judiaria argentária campando como senhores e donos das sete partidas do mundo». Onde estão aqui os actos públicos de políticos republicanos? Em Durante a Fogueira, deparamos com o ensaio «As Duas Raças» (para o qual remeto o leitor no Destino do Nacionalismo Português), onde Sardinha expõe o propósito de se abster de «individualizações irritantes» (que é feito, pois, dos actos públicos de políticos republicanos?), considerando os Judeus um «Estado dentro do Estado»; mais adiante, combatendo o bolchevismo, intitula este estudo, significativamente, «Na Sinagoga». Em Da Hera nas Colunas, no trabalho acerca d'«A Família de Ramalho», que não era, segundo conste, político republicano, lá se faz uma alusão «ao renascimento do perigo semita nas nacionalidades europeias».
Em Ao Ritmo da Ampulheta, uma seta é desferida contra uma «sociedade de cocainómanos, judeus, banqueiros»; em Purgatório das Ideias, já acima mencionado, in «Pratiquemos um Acto de Inteligência», Sardinha confessa que «o judaísmo não assume para nós um sinónimo diverso de plutocratismo» e fala na «visão bem pouco odorifera do ghetto». No prólogo de Ao Princípio Era o Verbo, lemos o seguinte passo explícito: «As modernas concepções económicas - concepções que reinaram despoticamente, conduzindo-nos à vil metalização social em que nos debatemos -- denunciam-nos, por isso mesmo, a sua ascendência judaica» e, a meio do volume, há aplauso a afirmações assaz anti-semitas de Georges Valois. Em A Prol do Comum, basta chamar a atenção para o capítulo «Os Novos Judeus». No prefácio das Memórias para a História e Teoria das Cortes Gerais, do Visconde de Santarém, Sardinha louva D. Manuel por «nos haver livrado da escravidão económica, livrando-nos energicamente dos Judeus». Em O Valor da Raça, assevera-se: «... os Judeus não se consorciam com as filhas de gentios. Engendra-se, deste modo, um imperialismo étnico que concede a Israel pela integridade da raça o domínio absoluto sobre as nações em decadência ... O que seria de nós se a Inquisição nos não valesse?» Que é feito dos actos públicos de políticos republicanos em tudo isto?
Note-se que António Sardinha é tão anti-semita que chega a perfilhar a tese de Renan, o qual julgava o judeu «uma combinação inferior de natureza humana», tese que reprovo, juntamente com certos exageros estilo biologistico do Mestre de De Vita et Moribus.
Não se imagine, no entanto, que a posição de Sardinha representa uma extravagância isolada dentro do Integralismo. Os seus camaradas acompanhavam-no, conquanto com maior moderação. Pequito Rebelo, em «O Meu Testamento», inserido na 2.ª edição de Pela Dedução à Monarquia, brada: «Desentulhado o caos da democracia .., a incompetência e a impotência dos seus governos, dos seus judeus, os seus mações, os seus traidores ...., maldito elenco nauseabundo mais longo de sofrer do que enunciar, de tudo resulta uma atitude vingadora do nosso espírito crítico.» Em «Duas Economias» descreve «o novo tzarismo vermelho, a Utopia tendo em torno de si a servi-la a quinta-essência das forças étnicas que de si lhe pode dar o bárbaro Oriente: iluminismo eslavo, astúcia judaica, obstinação circassiana, crueldade mongólica» e, em «Anti-Marx», insiste: «Cada vez mais judaizante e asiático entranhava-se assim o marxismo ... na barbárie oriental.»
Hipólito Raposo, por seu turno, em Reconquista das Liberdades, traçando um panorama do Individualismo, apresenta-nos, no plano económico, o «Capitalismo ... (Plutocracia, Judiaria)» e, no prólogo de Aula Régia, satiriza «a super-democracia da Sociedade das Nações, capitólio da psitacose política .. para onde cada pais envia os seus números e comparsas. Ali se reúnem num convento de Orientes e Ocidentes da Europa e da América para o exercício pleno de uma super-judiaria em que já manobram e conduzem os camaradas russos».
Gostava que me mostrassem, nestes textos de Pequito e de Hipólito Raposo, as referências a actos públicos republicanos.
O prof. Jacinto Ferreira, por eu afirmar que o Integralismo foi anti-semita, acusa-me de «deformação nazista».
Se, depois de toda esta longa enumeração, ele continuar a sustentar que, por parte de doutrinadores integralistas, apenas houve raras alusões ao judaísmo, então é porque estamos perante um raro caso de descarada deformação ... da realidade e dos factos.
5 - O meu censor entra no campo das variações sobre a democracia, confessando: «Como Alexandre Herculano, poderíamos dizer a um século de distância: «Tenho lido muitas vezes a palavra democracia, tenho-a ouvido proferir outras tantas. O que nunca li nem ouvi foi uma definição precisa e rigorosa dela.» Se o prof. Jacinto Ferreira não encontrou, v. g., na obra do seu colaborador Pequito Rebelo, uma definição precisa e rigorosa de democracia, este que lhe agradeça a amabilidade. Pela minha parte, só estranho que, não tendo achado ainda uma definição precisa e rigorosa de democracia, o prof. Jacinto Ferreira oponha o seguinte veto aos que a consideram o reino do sufrágio universal, dos partidos, etc.: é essa «uma definição arcaica». Há, então, uma nova definição? E que valor possui, se não é precisa nem rigorosa? E, depois, acontece que o prof. Jacinto Ferreira termina o seu artigo precisamente com a frase «Isto também é democracia». Como sabe que é democracia, se da democracia não tem uma noção precisa nem rigorosa? O ilustre Director de O Debate, empregando a palavra democracia, pretende inspirar-se no exemplo de António Sardinha, que, por vezes, «à falta de expressão mais idónea», atribuía à Realeza um carácter democrático. Simplesmente, Sardinha nunca utilizou o termo democracia, afirmando que de democracia não conhecia uma só definição precisa e rigorosa, embora caísse no erro de dar significados assaz diferentes (e que jamais admitiu serem imprecisos ou falhos de rigor) a um mesmo vocábulo.
E, de resto, o próprio Sardinha, acerca de democracia, fixou uma regra de ouro a que, infelizmente, nem sempre se manteve fiel. Leiamos a página 138 da 2,ª edição de Ao Princípio Era o Verbo: «A palavra república - diz o grande mestre [Charles Maurras] - tem um sentido admissível. Em compensação democracia deve ser riscada, banida e esquecida como puro sinónimo de degenerescência ... espécie de vestígio linguístico de quanto o regime republicano teve outrora de mais funesto.» «Também nós assim pensamos», comenta o ensaísta de Processo dum Rei.
Pois bem! Entre o Sardinha que usa o termo democracia e o Sardinha que condena esse uso, optamos pelo último, que perfilha um critério incapaz de originar equívocos, confusões, sofismas, desorientações.
6 - O prof. Jacinto Ferreira replica às nossas considerações que, «exactamente porque a personalidade está ligada à alma, o homem imperfeito, resgatado e marcado com o selo de uma perfeição ascensional, adquiriu assim uma finalidade que transcende a natureza humana. ... o respeito pela pessoa, templo do Espírito Santo, apresenta-se, pelo contrário, como um ato de adoração a Deus ...»
Limito-me, muito respeitosamente, a observar que, se o homem adquiriu uma finalidade que transcende a natureza humana, não sendo nem o homem nem a alma nem a pessoa idênticos a tal finalidade, antes a podendo negar e não atingir, indo para o inferno, não percebo em que medida semelhante aquisição reforça o personalismo ou faz com que a pessoa passe a valer, intrinsecamente, enquanto pessoa. Nem compreendo, na minha modéstia, de que modo um «templo do Espírito Santo» pode ser condenado a penas eternas, nem por que milagre adorar a Deus e respeitar a pessoa humana são actos que se confundem.
Respeitar o que é finito e criado é o mesmo que adorar o que é infinito e incriado?
Sem comentários!
7 - Finalizemos estes já longos esclarecimentos. O prof. Jacinto Ferreira ensina urbi et orbi que eu sou «discípulo e admirador de Alfredo Pimenta», excedendo, todavia, «o grande mestre no seu germanofilismo, porque este nunca foi hitlerista, e até uma vez escreveu que se arrepiava quando ouvia o Führer dizer: o meu povo. E que o monarquismo esclarecido de Alfredo Pimenta não podia conformar-se, por motivos de inteligência, com quaisquer manifestações de mono-arquismo»?
Não sendo um erudito da estatura do prof. Jacinto Ferreira, ignoro onde e quando Alfredo Pimenta escreveu que se arrepiava ao ouvir o Führer exclamar o meu povo.
Numa antologia publicada na revista Cidade Nova, deparei com o seguinte trecho: «Quando o Sr. Hitler ao referir-se à Alemanha diz: o meu povo, seria ridículo se não fosse tremendamente trágico.» Não há aqui, porém, menção de «arrepios». E, dado que me recuso a admitir a hipótese de que o prof. Jacinto Ferreira adultere textos, suponho que Alfredo Pimenta, realmente, afirmou que se arrepiava: solicito por isso, humildemente, ao meu digno censor, para esclarecimento da minha ignorância, que transcreva ipsis verbis a passagem em que se inspira e indique com rigor a respectiva proveniência.
Indiscutivelmente, Alfredo Pimenta não era partidário, em princípio, do mono-arquismo. Nem eu o sou, pois censuro o fascismo e o nazismo por não evoluírem num sentido claramente monárquico (cf. Destino do Nacionalismo Português, pp. 93 e segs.). Daí até poder asseverar-se que Alfredo Pimenta não podia conformar-se com quaisquer manifestações de mono-arquismo vai um abismo. Tanto se conformava que tinha a mais viva admiração pelo nacional-socialismo, a propósito do qual afirmara: «Não sou nacional-socialista quase só porque não sou alemão.» De resto, no plano geral da doutrina, ele escreveu, inequivocamente: «Não sou cesarista. As ditaduras para mim valem pelo objectivo que visam e pela maneira como procedem.» Supor, por conseguinte, que Alfredo Pimenta repeliria, por inteiro, uma ditadura do tipo mono-arquista, só por ser ditadura mono-arquista, é erróneo e absurdo. O essencial, a seu ver, estava nos fins visados e no modo de actuar. E, no tocante ao mono-
-arquismo do regime nazi, a posição do autor de Contra o Comunismo era clara e explícita. Acerca de Hitler, ele disse, por exemplo: «Não é o Chanceler alemão meu amigo — que nem da minha existência sabia ... Mas sou eu seu amigo, não pessoal que não há razão para isso, como o sou de todos os que estão a lutar indiretamente por nós e a combater o inimigo comum.» E mais tarde, depois de lhe chamar «chefe incomparável», e de, muito justamente, o considerar um «génio», traçou as seguintes linhas, que são a mais bela e comovida das homenagens: «O III Reich foi Adolfo Hitler, para a Vitória ou para a Derrota, sempre para a Glória jamais para a Desonra.»
Eis as palavras de Alfredo Pimenta, o qual, segundo o prof. Jacinto Ferreira, «nunca foi hitlerista». Que me diz a isto, egrégio professor?
1 - O referido professor assevera que eu estabeleço «um padrão, mais que discutível, de nacionalismo, e à sombra desse padrão» afasto «todos os movimentos políticos contemporâneos, à excepção da Action Française e do Integralismo». «Só estes», em meu entender, reuniriam, «a um declarado anti-democratismo, uma oposição total ao liberalismo, ao personalismo, ao judaísmo».
Ai, valha-me Nossa Senhora! Afirmei, no meu volume, a páginas 88, que o nazismo e o fascismo aceitaram o anti-democratismo, o anti-liberalismo, etc., do nacionalismo, que, para mim, é sinónimo de Action Française e de Integralismo (cf. pp. 17-18 da minha obra). Se alguém de senso achar que dizer isso equivale a dizer que só a Action Française e o Integralismo reúnem, a um declarado anti-democratismo, uma oposição total ao liberalismo etc., prometo oferecer um doce de dez toneladas ao prof. Jacinto Ferreira.
Limitei-me eu a considerar que unicamente a Action Française e o Integralismo eram nacionalismos, se admitíssemos a definição que tomei para ponto de partida (cf. p. 11) e que o prof. Jacinto Ferreira classifica de «mais que discutível». Nesse particular, está no seu pleníssimo direito. Simplesmente, tal definição nem por ser discutível deixa de ter um conteúdo que corresponde a uma inteligível e concebível posição no mundo das ideologias, posição, aliás, perfilhada e adoptada, concreta e historicamente, por determinados agrupamentos doutrinários. O prof. Jacinto Ferreira talvez preferisse que eu denominasse de nacionalista a adoração da Lua, em vez do culto da nação real.
Questão de gosto, que nem sequer julgo «mais que discutível».
Seja como for, a verdade é que, se proclamei que só a Action Française e o Integralismo se enquadravam na ideia de nacionalismo, jamais escrevi, nem me passou pela cabeça escrever, que só a Action Française e o Integralismo professam anti-democratismo, anti-liberalismo, etc.
2 - O meu proeminente crítico lastima «não ser possível em um sucinto artigo de jornal erguer uma tese contrária à que vem desenvolvida nas primeiras 130 páginas do livro em referência — porque as restantes 80 não interessam, visto serem apenas de apologia e defesa do nazismo». O prof. Jacinto Ferreira deve possuir uma noção extremamente lata de nazismo. Com efeito, depois das primeiras 130 páginas do meu trabalho, há um Apêndice I, «Sobre o Anti-liberalismo de Kant», seguido de outro «Acerca dos Conceitos de Indivíduo e Pessoa». Se estes temas constituem «apologia do nazismo», que diabo não será apologia do nazismo?
Além disso, parece-me excelente e louvável que o prof. Jacinto Ferreira desdenhe das apologias do nazismo, várias vezes por ele atacado, directa ou indirectamente, no seu semanário. E um critério notabilíssimo. Agride-se o nazismo e, se alguém aparece com argumentos em sua defesa, responde-se logo com majestade: «Não interessam.» O prof. Jacinto Ferreira não pretende averiguar se foi justo ou injusto, exagerado ou moderado, na sua hostilidade ao nacional-socialismo.
Eis o que não lhe importa. Ele não deseja saber o que foi na realidade o nazismo, recusando «interesse», muito dignamente, a quanto se diga de favorável a semelhante, sistema. Ao nazismo «conhece-o», exclusivamente, como objecto bom para bordoada à toa. E nada mais lhe importa. Nobre atitude.
3 - O prof. Jacinto Ferreira opõe ao anti-personalismo ou individualismo, que atribuo ao Integralismo, a seguinte dialética: «... a doutrina integralista sempre se declarou anti-individualista mas não anti-personalista, porque, seguindo a doutrina escolástica, aquela distinção era-lhe basilar. O próprio António Sardinha escreveu a este respeito, em À Lareira de Castela, que da distinção entre personalidade e individualidade - esta vinda do corpo, e aquela atributo da alma — resultava ser o nacionalismo dos Hispanos centrípeto, aditivo, universal, enquanto o dos Ingleses e Alemães era centrifugo e substractivo.»
Irra, que tremenda trapalhada! O prof. Jacinto Ferreira lança contra mim uma passagem de Sardinha, que de modo nenhum desconheço, pois aludo a ela em nota inserida a páginas 150 do meu ensaio. Nessa passagem não há, só, distinção entre pessoa e indivíduo, mas oposição, visto a pessoa possuir um carácter centrípeto, aditivo e universal, e o indivíduo implicar a subtractividade e a centrifucidade.
A semelhante oposição me refiro na já citada nota.
Vejamos, porém, qual o significado que Sardinha dava ao termo pessoa quando o opunha a indivíduo. Em A prol do Comum, ensina que é «a pessoa sinónima, no seu valor transitório, de género humano, de humanidade» e «parcela aditiva ..., elemento activo dentro da continuidade das gerações». Em A Aliança Peninsular, insiste em que «a pessoa se ... manifesta em inteira coincidência com a Humanidade». Torna-se nítido, portanto, que António Sardinha, ao falar em pessoa e ao contrapô-la ao indivíduo, estava a falar em coletividade humana, em sociedade humana. Se valorizava a pessoa, era por equipará-la ao ser colectivo. Logo, não nos encontramos perante nenhuma espécie de personalismo; ao contrário. Conforme sustentei no Destino do Nacionalismo Português, comentando os dois trechos transcritos em último lugar, Sardinha, ao invocar a pessoa, tão só se aproximava da tese fascista da identidade ideal entre o homem e o Estado, entre a comunidade e a personalidade.
Claro que o vocábulo pessoa, em nossa opinião, é inteiramente dispensável para designar o aditivo, o social, o universal, etc., e para diferenciá-lo do meramente individual. Isso, contudo, é outra história. O indiscutível é que as citações feitas evidenciam que Sardinha, quando usa a expressão pessoa, se afasta com firmeza da ética personalista.
Se o prof. Jacinto Ferreira imagina que basta dar um sentido positivo à palavra pessoa para se evitar o anti-personalismo, está assaz enganado. O filósofo Edmond Cione, ex-discípulo de Croce, na sua obra sobre o Mestre, publicada no Norte da Itália durante a República Social (de que foi partidário), refere-se com apreço à pessoa, embora reprove, evidentemente, o personalismo, a tese da supremacia da pessoa sobre o grupo. E o mesmo se passa com o gentiliano António Pigliaru, autor do estudo de jusfilosofia La persona e l'ordinamento giuridico.
Admito, de bom grado, que o Integralismo não se tenha nunca declarado antipersonalista, pois o personalismo, de 1914 a 1930, era coisa pouco conhecida no nosso país.
Maritain dava os primeiros passos, mas com toda a prudência, sob a égide da Action Française, inspirando-se em Garrigou-Lagrange. Max Scheler, salvo talvez o professor Cabral de Moncada, ninguém o lera em Portugal; de Berdiaeff apenas se conhecia a sua obra de maior conteúdo contra-revolucionário (Uma Nova Idade Média) e quanto a Martim Buber duvido que, alguma vez, o seu nome fosse pronunciado, etc., etc.
Consequentemente, porque razão o Integralismo iria proclamar-se anti-personalista?
Em todo o caso, mesmo sem o dizer expressamente, o Integralismo, real e efectivamente, foi anti-personalista. Mostram-no os textos (os que agora transcrevi e, também, os de Pequito Rebelo mencionados no meu Destino do Nacionalismo Português), quer isso agrade ao prof. Jacinto Ferreira quer não.
E, por último, observe-se que invocar a escolástica a propósito das noções de pessoa e indivíduo perfilhadas por António Sardinha não é prova nem de prudência nem de sabedoria. O prof. Jacinto Ferreira, que fez semelhante menção, melhor fizera se se calara. Sardinha, consoante vimos, opõe indivíduo e pessoa. Ora, nada menos de acordo com os ensinamentos escolásticos. S. Tomás (a que o autor de Na Feira dos Mitos alude bastante, embora, provavelmente, nunca lesse, pois várias vezes fala até nas suas Summula) julga a pessoa uma «substância individual», ensinando abertamente que «o nome de indivíduo entra na definição de pessoa».
O prof. Jacinto Ferreira verificaria facilmente tudo isto, se percorresse o segundo dos apêndices da minha obra e respectivas notas, em vez de o enquadrar não sei em que espécie de «apologia do nazismo».
4 - Sustentei eu que, à semelhança da Action Française, o Integralismo merecia, sem injustiça, ser classificado de anti-semita. A tal propósito, dogmatiza o prof. Jacinto Ferreira: «Quando ao anti-judaísmo, pode-se afirmar que ele só acidentalmente se revela em escritos de doutrinadores integralistas, e nunca com carácter basilar, mas apenas consequente. As raras alusões ao judaísmo só aparecem por motivos de actos públicos de alguns políticos de notória ascendência semita, como, por exemplo, Guerra Junqueiro.
Não é o princípio rácico que surge a justificar a hostilidade, mas antes é a condenação que traz à baila uma filiação étnica ...» E mais adiante: «... excepção feita a Guerra Junqueiro, bem podemos dizer que nada existe capaz de nos desunir», no aspecto racial 1.
Muito bem! Que o anti-semitismo integralista era apenas consequente fui eu que o escrevi, prof. Jacinto Ferreira.
Veja as páginas 26 e 32 do meu estudo: «... passemos a examinar as principais consequências negativas que derivam directamente da ideia de nação própria da Action Française e do Integralismo. Antes de mais nada impõe-se o aniquilamento do Liberalismo.»; «... igualmente... o nacionalismo perfilha, por motivos bem explicáveis, um anti-semitismo racista.»
E, chegados aqui, conversemos um pouco sobre «actos públicos de alguns políticos de notória ascendência semita, como, por exemplo, Guerra Junqueiro», em relação aos quais «não é o princípio rácico que surge a justificar a hostilidade». Reproduzo o que Sardinha asseverou acerca do lírico de Os Simples: «O seu poema Pátria ... é antes a defesa implacável do ghetto que se ergue da sua noite ancestral para insultar ... a força poderosa que lhe enquadrou a ascendência em bairros murados com uma estrela de seis pontas assinalando-lhe a origem hostil e execrável ... E preciso que nos possuamos dum sentido nacionalista dos nossos escritores. Não é indiferente para isso a ideia étnica que só por si determina uma modalidade psicológica. Guerra Junqueiro é um semita reconhecido e declarado.» (Na Feira dos Mitos, pp. 19 a 23.) E, no Purgatório das Ideias. reincide: «Projeção atávica de todo o ódio baixo da sua raça, Guerra Junqueiro pertence ao número daqueles ídolos que é dever ... despir na praça pública» (p. 183).
Se isto não é justificar a hostilidade em função do princípio rácico, então a lógica é uma enorme batata.
E passemos às raras alusões ao judaísmo «por motivos de actos públicos de alguns políticos» republicanos. Ainda na Feira dos Mitos, António Sardinha, arvorado pelo prof. Jacinto Ferreira em «figura máxima do Integralismo», tem um artigo acerca de «Os Judeus e os Descobrimentos», negando capacidade criadora à raça judaica, onde não me consta haver referências a actos públicos de políticos republicanos. No Glossário dos Tempos, encontramos um ataque «aos colossos da judiaria argentária campando como senhores e donos das sete partidas do mundo». Onde estão aqui os actos públicos de políticos republicanos? Em Durante a Fogueira, deparamos com o ensaio «As Duas Raças» (para o qual remeto o leitor no Destino do Nacionalismo Português), onde Sardinha expõe o propósito de se abster de «individualizações irritantes» (que é feito, pois, dos actos públicos de políticos republicanos?), considerando os Judeus um «Estado dentro do Estado»; mais adiante, combatendo o bolchevismo, intitula este estudo, significativamente, «Na Sinagoga». Em Da Hera nas Colunas, no trabalho acerca d'«A Família de Ramalho», que não era, segundo conste, político republicano, lá se faz uma alusão «ao renascimento do perigo semita nas nacionalidades europeias».
Em Ao Ritmo da Ampulheta, uma seta é desferida contra uma «sociedade de cocainómanos, judeus, banqueiros»; em Purgatório das Ideias, já acima mencionado, in «Pratiquemos um Acto de Inteligência», Sardinha confessa que «o judaísmo não assume para nós um sinónimo diverso de plutocratismo» e fala na «visão bem pouco odorifera do ghetto». No prólogo de Ao Princípio Era o Verbo, lemos o seguinte passo explícito: «As modernas concepções económicas - concepções que reinaram despoticamente, conduzindo-nos à vil metalização social em que nos debatemos -- denunciam-nos, por isso mesmo, a sua ascendência judaica» e, a meio do volume, há aplauso a afirmações assaz anti-semitas de Georges Valois. Em A Prol do Comum, basta chamar a atenção para o capítulo «Os Novos Judeus». No prefácio das Memórias para a História e Teoria das Cortes Gerais, do Visconde de Santarém, Sardinha louva D. Manuel por «nos haver livrado da escravidão económica, livrando-nos energicamente dos Judeus». Em O Valor da Raça, assevera-se: «... os Judeus não se consorciam com as filhas de gentios. Engendra-se, deste modo, um imperialismo étnico que concede a Israel pela integridade da raça o domínio absoluto sobre as nações em decadência ... O que seria de nós se a Inquisição nos não valesse?» Que é feito dos actos públicos de políticos republicanos em tudo isto?
Note-se que António Sardinha é tão anti-semita que chega a perfilhar a tese de Renan, o qual julgava o judeu «uma combinação inferior de natureza humana», tese que reprovo, juntamente com certos exageros estilo biologistico do Mestre de De Vita et Moribus.
Não se imagine, no entanto, que a posição de Sardinha representa uma extravagância isolada dentro do Integralismo. Os seus camaradas acompanhavam-no, conquanto com maior moderação. Pequito Rebelo, em «O Meu Testamento», inserido na 2.ª edição de Pela Dedução à Monarquia, brada: «Desentulhado o caos da democracia .., a incompetência e a impotência dos seus governos, dos seus judeus, os seus mações, os seus traidores ...., maldito elenco nauseabundo mais longo de sofrer do que enunciar, de tudo resulta uma atitude vingadora do nosso espírito crítico.» Em «Duas Economias» descreve «o novo tzarismo vermelho, a Utopia tendo em torno de si a servi-la a quinta-essência das forças étnicas que de si lhe pode dar o bárbaro Oriente: iluminismo eslavo, astúcia judaica, obstinação circassiana, crueldade mongólica» e, em «Anti-Marx», insiste: «Cada vez mais judaizante e asiático entranhava-se assim o marxismo ... na barbárie oriental.»
Hipólito Raposo, por seu turno, em Reconquista das Liberdades, traçando um panorama do Individualismo, apresenta-nos, no plano económico, o «Capitalismo ... (Plutocracia, Judiaria)» e, no prólogo de Aula Régia, satiriza «a super-democracia da Sociedade das Nações, capitólio da psitacose política .. para onde cada pais envia os seus números e comparsas. Ali se reúnem num convento de Orientes e Ocidentes da Europa e da América para o exercício pleno de uma super-judiaria em que já manobram e conduzem os camaradas russos».
Gostava que me mostrassem, nestes textos de Pequito e de Hipólito Raposo, as referências a actos públicos republicanos.
O prof. Jacinto Ferreira, por eu afirmar que o Integralismo foi anti-semita, acusa-me de «deformação nazista».
Se, depois de toda esta longa enumeração, ele continuar a sustentar que, por parte de doutrinadores integralistas, apenas houve raras alusões ao judaísmo, então é porque estamos perante um raro caso de descarada deformação ... da realidade e dos factos.
5 - O meu censor entra no campo das variações sobre a democracia, confessando: «Como Alexandre Herculano, poderíamos dizer a um século de distância: «Tenho lido muitas vezes a palavra democracia, tenho-a ouvido proferir outras tantas. O que nunca li nem ouvi foi uma definição precisa e rigorosa dela.» Se o prof. Jacinto Ferreira não encontrou, v. g., na obra do seu colaborador Pequito Rebelo, uma definição precisa e rigorosa de democracia, este que lhe agradeça a amabilidade. Pela minha parte, só estranho que, não tendo achado ainda uma definição precisa e rigorosa de democracia, o prof. Jacinto Ferreira oponha o seguinte veto aos que a consideram o reino do sufrágio universal, dos partidos, etc.: é essa «uma definição arcaica». Há, então, uma nova definição? E que valor possui, se não é precisa nem rigorosa? E, depois, acontece que o prof. Jacinto Ferreira termina o seu artigo precisamente com a frase «Isto também é democracia». Como sabe que é democracia, se da democracia não tem uma noção precisa nem rigorosa? O ilustre Director de O Debate, empregando a palavra democracia, pretende inspirar-se no exemplo de António Sardinha, que, por vezes, «à falta de expressão mais idónea», atribuía à Realeza um carácter democrático. Simplesmente, Sardinha nunca utilizou o termo democracia, afirmando que de democracia não conhecia uma só definição precisa e rigorosa, embora caísse no erro de dar significados assaz diferentes (e que jamais admitiu serem imprecisos ou falhos de rigor) a um mesmo vocábulo.
E, de resto, o próprio Sardinha, acerca de democracia, fixou uma regra de ouro a que, infelizmente, nem sempre se manteve fiel. Leiamos a página 138 da 2,ª edição de Ao Princípio Era o Verbo: «A palavra república - diz o grande mestre [Charles Maurras] - tem um sentido admissível. Em compensação democracia deve ser riscada, banida e esquecida como puro sinónimo de degenerescência ... espécie de vestígio linguístico de quanto o regime republicano teve outrora de mais funesto.» «Também nós assim pensamos», comenta o ensaísta de Processo dum Rei.
Pois bem! Entre o Sardinha que usa o termo democracia e o Sardinha que condena esse uso, optamos pelo último, que perfilha um critério incapaz de originar equívocos, confusões, sofismas, desorientações.
6 - O prof. Jacinto Ferreira replica às nossas considerações que, «exactamente porque a personalidade está ligada à alma, o homem imperfeito, resgatado e marcado com o selo de uma perfeição ascensional, adquiriu assim uma finalidade que transcende a natureza humana. ... o respeito pela pessoa, templo do Espírito Santo, apresenta-se, pelo contrário, como um ato de adoração a Deus ...»
Limito-me, muito respeitosamente, a observar que, se o homem adquiriu uma finalidade que transcende a natureza humana, não sendo nem o homem nem a alma nem a pessoa idênticos a tal finalidade, antes a podendo negar e não atingir, indo para o inferno, não percebo em que medida semelhante aquisição reforça o personalismo ou faz com que a pessoa passe a valer, intrinsecamente, enquanto pessoa. Nem compreendo, na minha modéstia, de que modo um «templo do Espírito Santo» pode ser condenado a penas eternas, nem por que milagre adorar a Deus e respeitar a pessoa humana são actos que se confundem.
Respeitar o que é finito e criado é o mesmo que adorar o que é infinito e incriado?
Sem comentários!
7 - Finalizemos estes já longos esclarecimentos. O prof. Jacinto Ferreira ensina urbi et orbi que eu sou «discípulo e admirador de Alfredo Pimenta», excedendo, todavia, «o grande mestre no seu germanofilismo, porque este nunca foi hitlerista, e até uma vez escreveu que se arrepiava quando ouvia o Führer dizer: o meu povo. E que o monarquismo esclarecido de Alfredo Pimenta não podia conformar-se, por motivos de inteligência, com quaisquer manifestações de mono-arquismo»?
Não sendo um erudito da estatura do prof. Jacinto Ferreira, ignoro onde e quando Alfredo Pimenta escreveu que se arrepiava ao ouvir o Führer exclamar o meu povo.
Numa antologia publicada na revista Cidade Nova, deparei com o seguinte trecho: «Quando o Sr. Hitler ao referir-se à Alemanha diz: o meu povo, seria ridículo se não fosse tremendamente trágico.» Não há aqui, porém, menção de «arrepios». E, dado que me recuso a admitir a hipótese de que o prof. Jacinto Ferreira adultere textos, suponho que Alfredo Pimenta, realmente, afirmou que se arrepiava: solicito por isso, humildemente, ao meu digno censor, para esclarecimento da minha ignorância, que transcreva ipsis verbis a passagem em que se inspira e indique com rigor a respectiva proveniência.
Indiscutivelmente, Alfredo Pimenta não era partidário, em princípio, do mono-arquismo. Nem eu o sou, pois censuro o fascismo e o nazismo por não evoluírem num sentido claramente monárquico (cf. Destino do Nacionalismo Português, pp. 93 e segs.). Daí até poder asseverar-se que Alfredo Pimenta não podia conformar-se com quaisquer manifestações de mono-arquismo vai um abismo. Tanto se conformava que tinha a mais viva admiração pelo nacional-socialismo, a propósito do qual afirmara: «Não sou nacional-socialista quase só porque não sou alemão.» De resto, no plano geral da doutrina, ele escreveu, inequivocamente: «Não sou cesarista. As ditaduras para mim valem pelo objectivo que visam e pela maneira como procedem.» Supor, por conseguinte, que Alfredo Pimenta repeliria, por inteiro, uma ditadura do tipo mono-arquista, só por ser ditadura mono-arquista, é erróneo e absurdo. O essencial, a seu ver, estava nos fins visados e no modo de actuar. E, no tocante ao mono-
-arquismo do regime nazi, a posição do autor de Contra o Comunismo era clara e explícita. Acerca de Hitler, ele disse, por exemplo: «Não é o Chanceler alemão meu amigo — que nem da minha existência sabia ... Mas sou eu seu amigo, não pessoal que não há razão para isso, como o sou de todos os que estão a lutar indiretamente por nós e a combater o inimigo comum.» E mais tarde, depois de lhe chamar «chefe incomparável», e de, muito justamente, o considerar um «génio», traçou as seguintes linhas, que são a mais bela e comovida das homenagens: «O III Reich foi Adolfo Hitler, para a Vitória ou para a Derrota, sempre para a Glória jamais para a Desonra.»
Eis as palavras de Alfredo Pimenta, o qual, segundo o prof. Jacinto Ferreira, «nunca foi hitlerista». Que me diz a isto, egrégio professor?
III
O DESTINO DO NACIONALISMO PORTUGUES
(António Jacinto Ferreira, "O Destino do Nacionalismo Português", O Debate, 8 de Agosto de 1962.)
Já sabíamos que o dr. António José de Brito é uma pessoa muito loquaz. Mas, se o não soubéssemos, ficávamos agora esclarecidos a este respeito, ao verificarmos que gastou três longos artigos para responder a um em que, cortesmente, criticámos um livro seu.
Não nos admiramos do dispêndio de palavras, sabido como é que só com montões delas se pode procurar explicar o que dificilmente é explicável. Para o que é claro, límpido e fluído, um punhado delas é suficiente.
E por isso que também, agora, vamos gastar um só artigo.
Não gostou o Dr. Brito que nós tivéssemos dito que o seu padrão de nacionalismo era mais do que discutível. Queria, pelo que vemos, que fosse indiscutível. Sentimos muito o seu desgosto, mas não temos novos motivos para qualquer retificação.
Também se sentiu melindrado por nós termos dito que as oitenta páginas finais do seu livro não tinham interesse. Teria razão, se isso implicasse um formal desprezo da sua prosa. Mas qualquer pessoa de mediano raciocínio teria compreendido que elas não tinham interesse porque não interessavam ao tema em apreciação.
E, já agora, não queremos deixar de estranhar o mau gosto de, num livro com tal título, se enxertar um ataque aos julgamentos de Nuremberga e outro ao julgamento de Eichmann. Não dizemos se tem, ou não, razão. Podemos até dizer que a tem. Mas achamos estranha a mistura de um tema tão sério com outros tão simplesmente episódicos.
Quando temos matéria para publicar um livro, publiquemos um livro; mas se ela não dá para um livro, publiquemos um opúsculo apenas, porque isso não fica mal a ninguém. Misturas do que não é miscível, são sempre trabalho inglório.
Não interessa que António Sardinha fosse ignorante e que o dr. Brito seja sábio. Interessa apenas saber se o Integralismo fez, ou não, distinção, pela pena de António Sardinha, entre pessoa e indivíduo.
Gasta o dr. José de Brito tanta tinta, e papel, para acabar por confessar: «Admito, de bom grado, que o Integralismo não se tenha nunca declarado anti-personalista ...»
Pronto! Nada mais é preciso.
E quanto ao facto de S. Tomás ensinar que o nome de indivíduo entra na definição de pessoa, o que ele nunca ensinou é que o nome de pessoa entra na definição de indivíduo.
À parte toda a dialética que se pretenda introduzir na questão, é um facto incontestável que as doutrinas revolucionárias sempre se intitularam «individualistas» e não «personalistas».
Dizer-se, portanto, nesta idade do mundo, que uma doutrina é anti-personalista, pode pretender estabelecer uma tendência oculta de confusão, porque o personalismo (respeito pela pessoa humana) opõe-se ao totalitarismo, enquanto que o individualismo não só não se opõe, como é o seu sustentáculo.
A respeito de anti-semitismo o dr. Brito alcançou uma grande vitória! Conseguiu encontrar, em milhares de páginas de António Sardinha e em muitas outras de Pequito Rebelo, uma dúzias de frases a castigar a usura dos Judeus, o seu internacionalismo, o seu racismo, a sua aversão a tudo o que é nacional. Mas isso não é anti-semitismo. Anti-semitismo é, como o dr. Brito sabe, embora não lhe convenha dizê-lo, uma doutrina, um pensamento estruturado contra o Judeu, porque judeu, independente das qualidades morais ou intelectuais que ele possua ...
Nem a questão Dreyfus em França se pode considerar um surto declarado de anti-semitismo racista, porque foi um caso de defesa nacional que gerou um sentimento anti-judaico e não este que criou o caso.
Sobre democracia, o dr. Brito, parece possuir a chave do problema.
Quase nos dá a entender que sabe muito bem o que vem a ser Democracia — coisa em que tantos espíritos têm soçobrado e sobre a qual há montanhas de escritos.
Dizer-se que isto e aquilo é democracia será o mesmo que definir democracia? Para o dr. Brito parece que é.
Mas está enganado. Sabe o que é a vida? Não sabe, ainda que venha dizer que sabe.
E, no entanto, é capaz de afirmar que o desporto é vida, que o amor é vida, que o estudo é vida, que comer e beber faz parte da vida.
É muito simples, não é? E explica-se em poucas palavras...
Mas o dr. Brito parece que dispõe da chave do enigma ...
Damos-lhe um doce se for capaz de nos brindar com um conceito de democracia que abranja todas as suas formas actuais, desde a «orgânica» à «popular».
Mas se é capaz, venha ela. Depois discutiremos.
Finalmente, o autor do Destino do Nacionalismo Português aponta, triunfante, algumas frases de Alfredo Pimenta, louvando o nacional-socialismo. Mas toda a gente pode verificar, afinal, que o grande mestre era amigo dos nazistas principalmente por reflexo:
«Sou amigo de todos os que estão a lutar indirectamente por nós e a combater o inimigo comum.»
O nazismo de Alfredo Pimenta, cremo-lo bem, era principalmente anticomunismo, embora apreciasse, como é natural — e nós, e muitos como nós, apreciámos também —, diversos aspectos da sua doutrina e da sua acção.
Mesmo nas coisas muito más, há sempre aspectos simpáticos e louváveis. Até no comunismo ...
E se o dr. Brito considera o facto de A. Pimenta chamar a Hitler ridículo ou trágico como altamente lisonjeiro para o chefe nazista, é porque com muito pouco se embriaga, e porque tem, a respeito do elogio, uma noção mais do que discutível.
Mas a girândola final: «O III Reich foi Adolfo Hitler, para a Vitória ou para a Derrota, sempre para a Glória jamais para a Desonra», que o dr. J. de Brito considera «a mais bela e comovida das homenagens», pode bem ser interpretada como homenagem apenas ao III Reich, o que estava inteiramente dentro do quadro do germanofilismo de Alfredo Pimenta.
Era, de facto, bastante difícil distinguir entre anti-comunismo, nazismo e germanofilismo, nos anos em que a Alemanha combatia a Rússia comunista e os seus aliados democráticos.
E chegámos ao fim, sem empregar palavras violentas, ou de duplo sentido, e sem procurar ridicularizar o nosso antagonista, como fez o dr. Brito, ainda que em vão.
Podíamos também fazê-lo, porque também sabemos assim proceder. Mas não ignoramos que as palavras deselegantes não ajudam nada a impor, no ânimo dos amigos, as ideias que elas pretendem apoiar. Preferimos guardá-las para os adversários e para os inimigos.
Aconselhamos o dr. Brito a fazer o mesmo.
(O Debate, 8 de Agosto de 1962.)
Não nos admiramos do dispêndio de palavras, sabido como é que só com montões delas se pode procurar explicar o que dificilmente é explicável. Para o que é claro, límpido e fluído, um punhado delas é suficiente.
E por isso que também, agora, vamos gastar um só artigo.
Não gostou o Dr. Brito que nós tivéssemos dito que o seu padrão de nacionalismo era mais do que discutível. Queria, pelo que vemos, que fosse indiscutível. Sentimos muito o seu desgosto, mas não temos novos motivos para qualquer retificação.
Também se sentiu melindrado por nós termos dito que as oitenta páginas finais do seu livro não tinham interesse. Teria razão, se isso implicasse um formal desprezo da sua prosa. Mas qualquer pessoa de mediano raciocínio teria compreendido que elas não tinham interesse porque não interessavam ao tema em apreciação.
E, já agora, não queremos deixar de estranhar o mau gosto de, num livro com tal título, se enxertar um ataque aos julgamentos de Nuremberga e outro ao julgamento de Eichmann. Não dizemos se tem, ou não, razão. Podemos até dizer que a tem. Mas achamos estranha a mistura de um tema tão sério com outros tão simplesmente episódicos.
Quando temos matéria para publicar um livro, publiquemos um livro; mas se ela não dá para um livro, publiquemos um opúsculo apenas, porque isso não fica mal a ninguém. Misturas do que não é miscível, são sempre trabalho inglório.
Não interessa que António Sardinha fosse ignorante e que o dr. Brito seja sábio. Interessa apenas saber se o Integralismo fez, ou não, distinção, pela pena de António Sardinha, entre pessoa e indivíduo.
Gasta o dr. José de Brito tanta tinta, e papel, para acabar por confessar: «Admito, de bom grado, que o Integralismo não se tenha nunca declarado anti-personalista ...»
Pronto! Nada mais é preciso.
E quanto ao facto de S. Tomás ensinar que o nome de indivíduo entra na definição de pessoa, o que ele nunca ensinou é que o nome de pessoa entra na definição de indivíduo.
À parte toda a dialética que se pretenda introduzir na questão, é um facto incontestável que as doutrinas revolucionárias sempre se intitularam «individualistas» e não «personalistas».
Dizer-se, portanto, nesta idade do mundo, que uma doutrina é anti-personalista, pode pretender estabelecer uma tendência oculta de confusão, porque o personalismo (respeito pela pessoa humana) opõe-se ao totalitarismo, enquanto que o individualismo não só não se opõe, como é o seu sustentáculo.
A respeito de anti-semitismo o dr. Brito alcançou uma grande vitória! Conseguiu encontrar, em milhares de páginas de António Sardinha e em muitas outras de Pequito Rebelo, uma dúzias de frases a castigar a usura dos Judeus, o seu internacionalismo, o seu racismo, a sua aversão a tudo o que é nacional. Mas isso não é anti-semitismo. Anti-semitismo é, como o dr. Brito sabe, embora não lhe convenha dizê-lo, uma doutrina, um pensamento estruturado contra o Judeu, porque judeu, independente das qualidades morais ou intelectuais que ele possua ...
Nem a questão Dreyfus em França se pode considerar um surto declarado de anti-semitismo racista, porque foi um caso de defesa nacional que gerou um sentimento anti-judaico e não este que criou o caso.
Sobre democracia, o dr. Brito, parece possuir a chave do problema.
Quase nos dá a entender que sabe muito bem o que vem a ser Democracia — coisa em que tantos espíritos têm soçobrado e sobre a qual há montanhas de escritos.
Dizer-se que isto e aquilo é democracia será o mesmo que definir democracia? Para o dr. Brito parece que é.
Mas está enganado. Sabe o que é a vida? Não sabe, ainda que venha dizer que sabe.
E, no entanto, é capaz de afirmar que o desporto é vida, que o amor é vida, que o estudo é vida, que comer e beber faz parte da vida.
É muito simples, não é? E explica-se em poucas palavras...
Mas o dr. Brito parece que dispõe da chave do enigma ...
Damos-lhe um doce se for capaz de nos brindar com um conceito de democracia que abranja todas as suas formas actuais, desde a «orgânica» à «popular».
Mas se é capaz, venha ela. Depois discutiremos.
Finalmente, o autor do Destino do Nacionalismo Português aponta, triunfante, algumas frases de Alfredo Pimenta, louvando o nacional-socialismo. Mas toda a gente pode verificar, afinal, que o grande mestre era amigo dos nazistas principalmente por reflexo:
«Sou amigo de todos os que estão a lutar indirectamente por nós e a combater o inimigo comum.»
O nazismo de Alfredo Pimenta, cremo-lo bem, era principalmente anticomunismo, embora apreciasse, como é natural — e nós, e muitos como nós, apreciámos também —, diversos aspectos da sua doutrina e da sua acção.
Mesmo nas coisas muito más, há sempre aspectos simpáticos e louváveis. Até no comunismo ...
E se o dr. Brito considera o facto de A. Pimenta chamar a Hitler ridículo ou trágico como altamente lisonjeiro para o chefe nazista, é porque com muito pouco se embriaga, e porque tem, a respeito do elogio, uma noção mais do que discutível.
Mas a girândola final: «O III Reich foi Adolfo Hitler, para a Vitória ou para a Derrota, sempre para a Glória jamais para a Desonra», que o dr. J. de Brito considera «a mais bela e comovida das homenagens», pode bem ser interpretada como homenagem apenas ao III Reich, o que estava inteiramente dentro do quadro do germanofilismo de Alfredo Pimenta.
Era, de facto, bastante difícil distinguir entre anti-comunismo, nazismo e germanofilismo, nos anos em que a Alemanha combatia a Rússia comunista e os seus aliados democráticos.
E chegámos ao fim, sem empregar palavras violentas, ou de duplo sentido, e sem procurar ridicularizar o nosso antagonista, como fez o dr. Brito, ainda que em vão.
Podíamos também fazê-lo, porque também sabemos assim proceder. Mas não ignoramos que as palavras deselegantes não ajudam nada a impor, no ânimo dos amigos, as ideias que elas pretendem apoiar. Preferimos guardá-las para os adversários e para os inimigos.
Aconselhamos o dr. Brito a fazer o mesmo.
(O Debate, 8 de Agosto de 1962.)
IV
NOVOS ESCLARECIMENTOS
(António José de Brito, "Novos Esclarecimento", Correio do Minho, 8 de Setembro de 1962.)
NOVOS ESCLARECIMENTOS
(António José de Brito, "Novos Esclarecimento", Correio do Minho, 8 de Setembro de 1962.)
O excelentíssimo Director de O Debate, bastante exaltado com a réplica que dei aos seus comentários sobre o meu livro Destino do Nacionalismo Português, subiu às colunas do seu semanário e mimoseou-me com outro artigo de fundo. Anotemo-lo rapidamente.
1- O prof. Jacinto Ferreira acha que eu sou «uma pessoa muito loquaz», considerando manifestação frisante dessa loquacidade o facto de eu consagrar três artigos à refutação e análise dos dislates que ele rabiscou acerca do trabalho acima referido. Não me cabe a culpa de tais dislates serem abundantes.
2 - O prof. Jacinto Ferreira escreveu: «Não gostou o Dr. Brito que nós tivéssemos dito que o seu padrão de nacionalismo era mais do que discutível.» Nada disso, mestre. Asseverei até que, «nesse particular», estava «no seu pleníssimo direito». É-me completamente indiferente que considere nacionalismo, verbi gratia, a adoração da Lua ou que bata numa parede com aquilo que lhe serve de cabeça.
3 - O prof. Jacinto Ferreira continua: «Também se sentiu melindrado por nós termos dito que as oitenta páginas finais do seu livro não tinham interesse.» Melindrado, eu?
Nem por sombras. Unicamente divertido, consoante as expressões irónicas que utilizei. O prof. Jacinto Ferreira, por muito que o deseje, nunca pode melindrar-me a mas tão só fazer-me rir, visto arvorar-se em crítico dando provas mais que sobejas de total incompetência e reduzida penetração intelectual.
Aliás, o que o prof. Jacinto Ferreira afirmou, no seu primeiro artigo, foi o seguinte: «... as restantes 80 [páginas] não interessam, visto serem apenas de apologia e defesa do nazismo». Nessas páginas, estão incluídos Apêndices sobre o anti-liberalismo de Kant e os conceitos de indivíduo e pessoa. O prof. Jacinto Ferreira, que é pouco loquaz, não profere palavra a propósito dos citados Apêndices. E, não tendo retificado as suas anteriores declarações (as retificações, de resto, só são próprias de pessoas intelectualmente honestas), é óbvio que continua a considerar o estudo do antiliberalismo de Kant e o das noções de indivíduo e pessoa como «apologia do nazismo». Uma maravilha.
E claro que ele, agora, onde dizia «não interessam, visto serem de apologia e defesa do nazismo», diz: «.... não tinham interesse porque não interessavam ao tema em apreciação», pretendendo que, para qualquer homem dotado de «mediano raciocínio», a primeira frase é equivalente à segunda. Gloriosa piada. Para o prof. Ferreira é evidente que não possuem interesse para o tema em apreciação as tentativas de defesa do nazismo e de destruição da lenda negra anti-nazi num livro cujo tema, precisamente, é o de que o nacionalismo português, a fim de evoluir em sentido lógico, precisa de absorver muitos dos ensinamentos do nacional-socialismo e do fascismo e que um dos maiores obstáculos a semelhante evolução é aquela lenda negra.
O egrégio director de O Debate chucha com as tropas.
4 - O prof. Jacinto Ferreira, com um sorriso superior, afirma: «Não interessa que António Sardinha fosse ignorante e que o dr. Brito seja sábio.» Estas palavras não representam elogio ou descrédito para ninguém - dado que provêm do prof. Jacinto Ferreira.
Este, no seu primeiro artigo, a fim de refutar a minha tese de que o Integralismo fora anti-personalista, observou-me que o Integralismo, acatando a lição tomista, formulara a distinção entre indivíduo e pessoa. Demonstrei que o formular tal distinção (na realidade tratava-se de uma oposição) em nada impedia que o Integralismo fosse anti-personalista, conforme o provavam os textos. O prof. Jacinto Ferreira continua a berrar: «Interessa apenas saber se o Integralismo fez, ou não, distinção ... entre pessoa e indivíduo.» Gastei, de facto, «tanta tinta e papel» para o prof. Jacinto Ferreira não perceber radicalmente nada.
Lastimo-o profundamente. Admiti eu, de bom grado, «que o Integralismo não se tenha nunca declarado anti-personalista». O prof. Jacinto Ferreira brada, entusiasmado e triunfal: «Pronto! Nada mais é preciso.» Pelos vistos, quem não o declarar não é inimigo do prof. Jacinto Ferreira, embora passe a vida a hostilizá-lo. E um fulano que, acaso, ignore o nome de tão ilustre mestre mas que, sempre o que vir na rua, lhe dê murros ou o insulte também não é seu inimigo. Pois se jamais se proclamou antijacintista nem se podia proclamar antijacintista, visto, lastimavelmente, desconhecer a identidade civil de tão ilustre ornamento das nossas letras!
Pronto. Nada mais é preciso acrescentar.
E eis que surge o mais engraçado. Sustentei eu que invocar o tomismo a propósito da oposição estabelecida por António Sardinha entre indivíduo e pessoa não era prova de sabedoria, porque S. Tomás ensinava que o nome de indivíduo entra na definição de pessoa. O prof. Jacinto Ferreira, que também trouxe o Aquinense à baila, responde-me logo: «E quanto ao facto de S. Tomás ensinar que o nome de indivíduo entra na definição de pessoa, o que ele nunca ensinou é que o nome de pessoa entra na definição de indivíduo.»
O meu admirável crítico perdeu a tramontana e riposta a alhos com bugalhos. Que importa que S. Tomás nunca ensinasse que o nome de pessoa entra na definição de indivíduo? Basta que o nome de individuo entre na definição de pessoa para que a oposição entre os dois conceitos seja impossível. Tem dificuldade em entender isto, Mestre?
5 - O prof. Jacinto Ferreira, a propósito do anti-semitismo integralista, é simplesmente delicioso. Afirma que consegui «encontrar, em milhares de páginas de António Sardinha e em muitas outras de Pequito Rebelo, uma dúzia a de frases a castigar a usura dos Judeus, o seu internacionalismo, o seu racismo, a sua aversão a tudo o que é nacional. Mas isso não é anti-semitismo. Anti-semitismo é, como o dr. Brito sabe, embora não lhe convenha dizê-lo, uma doutrina, um pensamento estruturado contra o Judeu, porque judeu, independentemente das qualidades morais que ele possua ...» Replico:
a) Que apresentei mais de uma dúzia de referências. O prof. Jacinto Ferreira não sabe contar ou faz-se de novas?
b) Que, só numa dessas referências (por exemplo, o artigo de Sardinha «Os Judeus e os Descobrimentos»), há muito mais que uma dúzia de frases.
c) Que o prof. Jacinto Ferreira, no seu artigo inicial, referia-se a «raras alusões ao judaísmo», dos «doutrinadores integralistas», que «só aparecem por motivos de actos públicos de alguns políticos de notória ascendência semita». Como não é loquaz, o prof. Ferreira já não fala agora nos tais actos públicos de políticos republicanos. Onde os sumiu, Mestre?
d) Que, segundo o «critério» (chamemos-lhe assim por piedade) do prof. Jacinto Ferreira, Adolfo Hitler não foi anti-semita. Com efeito, ele combatia os judeus porque lhes atribuía certas qualidades intelectuais e morais que supunha nocivas (Minha Luta, pp. 256-263).
O prof. Jacinto Ferreira sabe, perfeitamente, que o anti-semitismo, se ataca o judeu porque judeu, é por atribuir ao judeu, enquanto tal, um somatório de qualidades maléficas, e não por capricho e pura gratuitidade. Conveio-lhe, no entanto, inventar um anti-semitismo à face do qual, provavelmente, jamais houve anti-semitas e, bem assim, admitir a existência de actos gratuitos, para que, mesmo diante da evidência, pudesse continuar a sustentar que o Integralismo não foi anti-semita. Estamos perante um raro caso de deformação da realidade e dos factos.
6 - O prof. Jacinto Ferreira oferece-me um doce se eu for capaz de o «brindar com um conceito de democracia que abranja todas as suas formas actuais, desde a orgânica à popular». O emérito professor não percebe, nem à lei da bala, que, se uma ou outra estrutura constitucional é uma forma de democracia, é porque se assentou prèviamente num conceito de democracia. Se o prof. Jacinto Ferreira já conhece formas de democracia, é porque sabe o que é democracia. Se sabe o que é democracia, possui o conceito de democracia. E, nessa altura, para que o hei-de brindar com um conceito de tal índole? Acaso o proficiente mestre colecciona conceitos?
Pergunta-me ele se «dizer-se que isto e aquilo é democracia será o mesmo que definir democracia» e acrescenta, afoito: «Para o dr. Brito parece que é». Não parece nada.
Dizer «isto é democracia» não é o mesmo que definir demo-cracia, mas pressupõe uma definição de democracia (que se considera precisa e rigorosa) ou, então, é uma frase sem sentido.
O prof. Jacinto Ferreira interroga-me com autoridade:
«Sabe o que é a vida? Não sabe... E, no entanto, é capaz. de afirmar que o desporto é vida, que o amor é vida, que o estudo é vida ...»
Aconselho o prof. Jacinto Ferreira a falar, exclusivamente, por si e não em meu nome, que para isso não lhe passei procuração. Numa discussão séria sobre a noção de vida, sou incapaz de asseverar que o desporto é vida, etc., ete., sem ter fixado um conceito de vida que julgue preciso e rigoroso.
O prof. Jacinto Ferreira é capaz de proclamar que não possui um conceito exacto e rigoroso de democracia e de, simultaneamente, exclamar que isto é democracia e aquilo não é democracia etc. (cf. o seu primeiro artigo).
Peço-lhe porém, encarecidamente, que não tenha a generosidade de medir a minha capacidade pela sua. Não me faça a dádiva gentil de me imaginar com possibilidades de absurdo e ilogismo iguais às que possui.
7 - O prof. Jacinto Ferreira sustenta que, no meu artigo, eu indico «algumas frases de Alfredo Pimenta, louvando o nacional-socialismo». Não só louvando o nacional-socialismo como louvando directamente Hitler, umas e outras para rebater as afirmações daquele professor, no sentido de que Alfredo Pimenta «nunca foi hitlerista» e «não podia conformar-se com quaisquer manifestações de mono-arquismo».
O prof. Jacinto Ferreira, sem contestar as provas apresentadas, desfaz-se, contudo, em peregrinas e hilariantes exegeses. O escritor de Em Defesa da Portugalidade era «amigo dos nazistas» principalmente por anti-comunismo, brada o meu crítico. Fosse por que fosse, isto mostra que sempre se conformava com certas manifestações de mono-arquismo.
Depois, observa subtilmente o prof. Ferreira que, se Alfredo Pimenta escreveu: «O III Reich foi Adolfo Hitler, para a Vitória ou para a Derrota, sempre para a Glória, jamais para a Desonra», isso «pode bem ser interpretado como homenagem apenas ao III Reich». Uma tão brilhante dialéctica, após Alfredo Pimenta ter expressamente dito «O III Reich foi Adolfo Hitler», é realmente piramidal de ... desfaçatez.
Note-se que, não sendo loquaz, o prof. Jacinto Ferreira não se dignou examinar outras afirmações de Alfredo Pimenta — que «nunca foi hitlerista» —, onde Hitler era considerado «chefe incomparável» e um «génio».
No seu primeiro artigo, o professor Ferreira ensinou aos leitores que o autor de Eu e as «Novidades» afirmara, uma vez, que se «arripiava quando ouvia o Führer dizer: o meu povo». Desconhecia eu semelhante texto — embora conhecesse um parecido, que citei -, pelo que pedi ao prof. Jacinto Ferreira que o transcrevesse na integra para meu esclarecimento, supondo-o incapaz de falsificações ou adulterações. E o transcreves! Provavelmente, o prof. Jacinto Ferreira inventou a frase de Alfredo Pimenta. Não experimenta, porém, vergonha nem remorsos e, muito contente, tenta aplicar-me idêntico método. A propósito da passagem e que acima me referi, responde-me bravamente: «E se o dr. Brito considera o facto de A. Pimenta chamar a Hitler ridículo ou trágico como altamente lisonjeiro para o chefe nazista é porque com muito pouco se embriaga...» A verdade é que nem uma única linha do meu artigo permite levantar a hipótese de que considerei elogiosa a frase de Alfredo Pimenta por mim reproduzida (a qual, aliás, directa e positivamente só classifica de trágico não a Hitler mas a um hábito verbal de Hitler). O prof. Jacinto Ferreira continua, pois, a inventar. Em todo o caso, seja-lhe levado em conta o uso do condicional «se», atenção requintada que não teve para com o historiador de Idade Média.
8 - O prof. Jacinto Ferreira entende que o individualismo não só não se opõe» ao totalitarismo «como é o seu sustentáculo». E evidente que não sabe o que diz.
Depois de ter dado tão brilhantes provas, o prof. Jacinto Ferreira pode ficar descansado. Quer me responda com alguns vislumbres de inteligência —o que seria para mim uma enorme e gratíssima surpresa — quer me responda com os pés, consoante é seu uso, não lhe darei réplica.
Tenho mais em que pensar. Fique, contudo, devidamente consignado que o meu silêncio não significa medo dos pseudo-argumentos do Director de O Debate, antes, e exclusivamente, representa a expressão do mais fundo e justificado dos desprezos.
1- O prof. Jacinto Ferreira acha que eu sou «uma pessoa muito loquaz», considerando manifestação frisante dessa loquacidade o facto de eu consagrar três artigos à refutação e análise dos dislates que ele rabiscou acerca do trabalho acima referido. Não me cabe a culpa de tais dislates serem abundantes.
2 - O prof. Jacinto Ferreira escreveu: «Não gostou o Dr. Brito que nós tivéssemos dito que o seu padrão de nacionalismo era mais do que discutível.» Nada disso, mestre. Asseverei até que, «nesse particular», estava «no seu pleníssimo direito». É-me completamente indiferente que considere nacionalismo, verbi gratia, a adoração da Lua ou que bata numa parede com aquilo que lhe serve de cabeça.
3 - O prof. Jacinto Ferreira continua: «Também se sentiu melindrado por nós termos dito que as oitenta páginas finais do seu livro não tinham interesse.» Melindrado, eu?
Nem por sombras. Unicamente divertido, consoante as expressões irónicas que utilizei. O prof. Jacinto Ferreira, por muito que o deseje, nunca pode melindrar-me a mas tão só fazer-me rir, visto arvorar-se em crítico dando provas mais que sobejas de total incompetência e reduzida penetração intelectual.
Aliás, o que o prof. Jacinto Ferreira afirmou, no seu primeiro artigo, foi o seguinte: «... as restantes 80 [páginas] não interessam, visto serem apenas de apologia e defesa do nazismo». Nessas páginas, estão incluídos Apêndices sobre o anti-liberalismo de Kant e os conceitos de indivíduo e pessoa. O prof. Jacinto Ferreira, que é pouco loquaz, não profere palavra a propósito dos citados Apêndices. E, não tendo retificado as suas anteriores declarações (as retificações, de resto, só são próprias de pessoas intelectualmente honestas), é óbvio que continua a considerar o estudo do antiliberalismo de Kant e o das noções de indivíduo e pessoa como «apologia do nazismo». Uma maravilha.
E claro que ele, agora, onde dizia «não interessam, visto serem de apologia e defesa do nazismo», diz: «.... não tinham interesse porque não interessavam ao tema em apreciação», pretendendo que, para qualquer homem dotado de «mediano raciocínio», a primeira frase é equivalente à segunda. Gloriosa piada. Para o prof. Ferreira é evidente que não possuem interesse para o tema em apreciação as tentativas de defesa do nazismo e de destruição da lenda negra anti-nazi num livro cujo tema, precisamente, é o de que o nacionalismo português, a fim de evoluir em sentido lógico, precisa de absorver muitos dos ensinamentos do nacional-socialismo e do fascismo e que um dos maiores obstáculos a semelhante evolução é aquela lenda negra.
O egrégio director de O Debate chucha com as tropas.
4 - O prof. Jacinto Ferreira, com um sorriso superior, afirma: «Não interessa que António Sardinha fosse ignorante e que o dr. Brito seja sábio.» Estas palavras não representam elogio ou descrédito para ninguém - dado que provêm do prof. Jacinto Ferreira.
Este, no seu primeiro artigo, a fim de refutar a minha tese de que o Integralismo fora anti-personalista, observou-me que o Integralismo, acatando a lição tomista, formulara a distinção entre indivíduo e pessoa. Demonstrei que o formular tal distinção (na realidade tratava-se de uma oposição) em nada impedia que o Integralismo fosse anti-personalista, conforme o provavam os textos. O prof. Jacinto Ferreira continua a berrar: «Interessa apenas saber se o Integralismo fez, ou não, distinção ... entre pessoa e indivíduo.» Gastei, de facto, «tanta tinta e papel» para o prof. Jacinto Ferreira não perceber radicalmente nada.
Lastimo-o profundamente. Admiti eu, de bom grado, «que o Integralismo não se tenha nunca declarado anti-personalista». O prof. Jacinto Ferreira brada, entusiasmado e triunfal: «Pronto! Nada mais é preciso.» Pelos vistos, quem não o declarar não é inimigo do prof. Jacinto Ferreira, embora passe a vida a hostilizá-lo. E um fulano que, acaso, ignore o nome de tão ilustre mestre mas que, sempre o que vir na rua, lhe dê murros ou o insulte também não é seu inimigo. Pois se jamais se proclamou antijacintista nem se podia proclamar antijacintista, visto, lastimavelmente, desconhecer a identidade civil de tão ilustre ornamento das nossas letras!
Pronto. Nada mais é preciso acrescentar.
E eis que surge o mais engraçado. Sustentei eu que invocar o tomismo a propósito da oposição estabelecida por António Sardinha entre indivíduo e pessoa não era prova de sabedoria, porque S. Tomás ensinava que o nome de indivíduo entra na definição de pessoa. O prof. Jacinto Ferreira, que também trouxe o Aquinense à baila, responde-me logo: «E quanto ao facto de S. Tomás ensinar que o nome de indivíduo entra na definição de pessoa, o que ele nunca ensinou é que o nome de pessoa entra na definição de indivíduo.»
O meu admirável crítico perdeu a tramontana e riposta a alhos com bugalhos. Que importa que S. Tomás nunca ensinasse que o nome de pessoa entra na definição de indivíduo? Basta que o nome de individuo entre na definição de pessoa para que a oposição entre os dois conceitos seja impossível. Tem dificuldade em entender isto, Mestre?
5 - O prof. Jacinto Ferreira, a propósito do anti-semitismo integralista, é simplesmente delicioso. Afirma que consegui «encontrar, em milhares de páginas de António Sardinha e em muitas outras de Pequito Rebelo, uma dúzia a de frases a castigar a usura dos Judeus, o seu internacionalismo, o seu racismo, a sua aversão a tudo o que é nacional. Mas isso não é anti-semitismo. Anti-semitismo é, como o dr. Brito sabe, embora não lhe convenha dizê-lo, uma doutrina, um pensamento estruturado contra o Judeu, porque judeu, independentemente das qualidades morais que ele possua ...» Replico:
a) Que apresentei mais de uma dúzia de referências. O prof. Jacinto Ferreira não sabe contar ou faz-se de novas?
b) Que, só numa dessas referências (por exemplo, o artigo de Sardinha «Os Judeus e os Descobrimentos»), há muito mais que uma dúzia de frases.
c) Que o prof. Jacinto Ferreira, no seu artigo inicial, referia-se a «raras alusões ao judaísmo», dos «doutrinadores integralistas», que «só aparecem por motivos de actos públicos de alguns políticos de notória ascendência semita». Como não é loquaz, o prof. Ferreira já não fala agora nos tais actos públicos de políticos republicanos. Onde os sumiu, Mestre?
d) Que, segundo o «critério» (chamemos-lhe assim por piedade) do prof. Jacinto Ferreira, Adolfo Hitler não foi anti-semita. Com efeito, ele combatia os judeus porque lhes atribuía certas qualidades intelectuais e morais que supunha nocivas (Minha Luta, pp. 256-263).
O prof. Jacinto Ferreira sabe, perfeitamente, que o anti-semitismo, se ataca o judeu porque judeu, é por atribuir ao judeu, enquanto tal, um somatório de qualidades maléficas, e não por capricho e pura gratuitidade. Conveio-lhe, no entanto, inventar um anti-semitismo à face do qual, provavelmente, jamais houve anti-semitas e, bem assim, admitir a existência de actos gratuitos, para que, mesmo diante da evidência, pudesse continuar a sustentar que o Integralismo não foi anti-semita. Estamos perante um raro caso de deformação da realidade e dos factos.
6 - O prof. Jacinto Ferreira oferece-me um doce se eu for capaz de o «brindar com um conceito de democracia que abranja todas as suas formas actuais, desde a orgânica à popular». O emérito professor não percebe, nem à lei da bala, que, se uma ou outra estrutura constitucional é uma forma de democracia, é porque se assentou prèviamente num conceito de democracia. Se o prof. Jacinto Ferreira já conhece formas de democracia, é porque sabe o que é democracia. Se sabe o que é democracia, possui o conceito de democracia. E, nessa altura, para que o hei-de brindar com um conceito de tal índole? Acaso o proficiente mestre colecciona conceitos?
Pergunta-me ele se «dizer-se que isto e aquilo é democracia será o mesmo que definir democracia» e acrescenta, afoito: «Para o dr. Brito parece que é». Não parece nada.
Dizer «isto é democracia» não é o mesmo que definir demo-cracia, mas pressupõe uma definição de democracia (que se considera precisa e rigorosa) ou, então, é uma frase sem sentido.
O prof. Jacinto Ferreira interroga-me com autoridade:
«Sabe o que é a vida? Não sabe... E, no entanto, é capaz. de afirmar que o desporto é vida, que o amor é vida, que o estudo é vida ...»
Aconselho o prof. Jacinto Ferreira a falar, exclusivamente, por si e não em meu nome, que para isso não lhe passei procuração. Numa discussão séria sobre a noção de vida, sou incapaz de asseverar que o desporto é vida, etc., ete., sem ter fixado um conceito de vida que julgue preciso e rigoroso.
O prof. Jacinto Ferreira é capaz de proclamar que não possui um conceito exacto e rigoroso de democracia e de, simultaneamente, exclamar que isto é democracia e aquilo não é democracia etc. (cf. o seu primeiro artigo).
Peço-lhe porém, encarecidamente, que não tenha a generosidade de medir a minha capacidade pela sua. Não me faça a dádiva gentil de me imaginar com possibilidades de absurdo e ilogismo iguais às que possui.
7 - O prof. Jacinto Ferreira sustenta que, no meu artigo, eu indico «algumas frases de Alfredo Pimenta, louvando o nacional-socialismo». Não só louvando o nacional-socialismo como louvando directamente Hitler, umas e outras para rebater as afirmações daquele professor, no sentido de que Alfredo Pimenta «nunca foi hitlerista» e «não podia conformar-se com quaisquer manifestações de mono-arquismo».
O prof. Jacinto Ferreira, sem contestar as provas apresentadas, desfaz-se, contudo, em peregrinas e hilariantes exegeses. O escritor de Em Defesa da Portugalidade era «amigo dos nazistas» principalmente por anti-comunismo, brada o meu crítico. Fosse por que fosse, isto mostra que sempre se conformava com certas manifestações de mono-arquismo.
Depois, observa subtilmente o prof. Ferreira que, se Alfredo Pimenta escreveu: «O III Reich foi Adolfo Hitler, para a Vitória ou para a Derrota, sempre para a Glória, jamais para a Desonra», isso «pode bem ser interpretado como homenagem apenas ao III Reich». Uma tão brilhante dialéctica, após Alfredo Pimenta ter expressamente dito «O III Reich foi Adolfo Hitler», é realmente piramidal de ... desfaçatez.
Note-se que, não sendo loquaz, o prof. Jacinto Ferreira não se dignou examinar outras afirmações de Alfredo Pimenta — que «nunca foi hitlerista» —, onde Hitler era considerado «chefe incomparável» e um «génio».
No seu primeiro artigo, o professor Ferreira ensinou aos leitores que o autor de Eu e as «Novidades» afirmara, uma vez, que se «arripiava quando ouvia o Führer dizer: o meu povo». Desconhecia eu semelhante texto — embora conhecesse um parecido, que citei -, pelo que pedi ao prof. Jacinto Ferreira que o transcrevesse na integra para meu esclarecimento, supondo-o incapaz de falsificações ou adulterações. E o transcreves! Provavelmente, o prof. Jacinto Ferreira inventou a frase de Alfredo Pimenta. Não experimenta, porém, vergonha nem remorsos e, muito contente, tenta aplicar-me idêntico método. A propósito da passagem e que acima me referi, responde-me bravamente: «E se o dr. Brito considera o facto de A. Pimenta chamar a Hitler ridículo ou trágico como altamente lisonjeiro para o chefe nazista é porque com muito pouco se embriaga...» A verdade é que nem uma única linha do meu artigo permite levantar a hipótese de que considerei elogiosa a frase de Alfredo Pimenta por mim reproduzida (a qual, aliás, directa e positivamente só classifica de trágico não a Hitler mas a um hábito verbal de Hitler). O prof. Jacinto Ferreira continua, pois, a inventar. Em todo o caso, seja-lhe levado em conta o uso do condicional «se», atenção requintada que não teve para com o historiador de Idade Média.
8 - O prof. Jacinto Ferreira entende que o individualismo não só não se opõe» ao totalitarismo «como é o seu sustentáculo». E evidente que não sabe o que diz.
Depois de ter dado tão brilhantes provas, o prof. Jacinto Ferreira pode ficar descansado. Quer me responda com alguns vislumbres de inteligência —o que seria para mim uma enorme e gratíssima surpresa — quer me responda com os pés, consoante é seu uso, não lhe darei réplica.
Tenho mais em que pensar. Fique, contudo, devidamente consignado que o meu silêncio não significa medo dos pseudo-argumentos do Director de O Debate, antes, e exclusivamente, representa a expressão do mais fundo e justificado dos desprezos.
V
DESTINO DE UM 'NACIONALISTA'
(António Jacinto Ferreira, "Destino de um 'Nacionalista', O Debate, 22 de Setembro de 1962.)
DESTINO DE UM 'NACIONALISTA'
(António Jacinto Ferreira, "Destino de um 'Nacionalista', O Debate, 22 de Setembro de 1962.)
Só Deus sabe a profunda repugnância com que lançamos mão da pena para escrever estas linhas!
Mas o respeito que temos pelos nossos leitores, e a nossa responsabilidade de diretor deste semanário, obrigaram-nos a pegar numa pinça para remexer num monturo publicado no Correio do Minho de 8 do corrente.
Somente lamentamos que estejamos a dissipar energias com energúmenos rotulados de nacionalistas, e até (oh, desfaçatez!) de monárquicos.
Demos generosamente há semanas, em artigo de fundo, notícia crítica de um pobre livreco sem sombra de valor, e enviado pelo seu autor, decerto a mendigar uma referenciazinha.
Não percebeu o autor quanto era para ele lisonjeira a nossa benevolência (que vemos agora ser natural nele) e resolveu, com estranha tacanhez de espírito, agredir-nos e procurar ridicularizar-nos no referido Correio, ao mesmo tempo que fazia afirmações infundadas, envolvidas em copioso psitacismo ... pour épater.
Respondemos-lhe pondo os pontos nos ii, e aconselhando-o a ser mais correcto para com os amigos políticos (confessamos aqui a nossa ingenuidade), já que na sua resposta a civilidade estava longe de ser a nota dominante.
Foi o diabo! Tomando a nossa resposta como um par de bandarilhas de fogo aplicadas em su situ, o pobre homem enraiveceu-se, urrou, pulou, espumou, e defecou novo artigo no mesmo jornal, o qual é uma miséria, e não deixará dúvidas a qualquer psiquiatra quanto a um diagnóstico infalível de paranoia.
Claro que não podemos responder-lhe, não só porque a loucura é uma doença que sempre nos mereceu a maior discrição, como também porque o corajoso animal morde-nos as canelas e depois foge com o rabo entre as pernas, declarando no final que digamos nós o que dissermos não nos responderá, porque tem por nós... o mais profundo desprezo.
Que alívio, senhores! O pior que nos poderia acontecer era, pelo contrário, ele ter-se lembrado de dizer que tinha por nós muita consideração. Safa! De que nos livramos, hein?!
Entretanto é profundamente lamentável que este sentimento, tão consolador para nós, só o tivesse tomado no fim, porque se tivesse nascido logo no início teria sido poupado àquela prova pública de inferioridade. Há pessoas, de facto, com pouca sorte!
Pois nós não temos desprezo. Não chegamos a tanto.
Limitamo-nos a ter dó, a ter compaixão, pela mistura incrível de orgulho e de petulância, de má fé e de má criação, de desonestidade na argumentação, que se «estadeia» em três intermináveis colunas do Correio do Minho.
A ponto de este ter verificado a necessidade de preceder o escrito de uma nota introdutória, a procurar deitar água na fervura. Fez bem. Mas parece-nos que teria feito melhor recusando-se a sujar as suas colunas com tal matéria excrementicial. Em todo o caso, agradecemos ao Correio a sua intenção.
E se os nossos leitores tiverem dúvidas, leiam, e verificarão, com curiosidade, o que é um pseudo-intelectual descomposto, arrastando a sua deselegância e a sua deseducação, só porque foi ferido no papo, que, cheio de vento, e só de vento, emproadamente exibia.
Mas se nos recusamos a responder a qualquer prosa responsável, temos obrigação de elucidar os nossos leitores e de retificar, perante eles, juízos (ou faltas de juízo) que, enganosamente, poderiam influenciá-los.
Pomos de parte tudo o que no citado artigo é pura loquacidade do seu autor, porque isso não tem importância, nem para nós nem para os nossos leitores. Também desprezamos os malabarismos verbais e as deturpações do que escrevemos, como no caso do anti-semitismo, em que fala de uma dúzia de frases, quando nós escrevemos umas dúzias. E nem sequer reparamos nas insinuações reles com que o seu progenitor perdeu o tempo e o feitio.
Vamos, sim, ao que interessa a todos.
1 - O Integralismo foi, ou não, anti-personalista?
Damos em outra página um trecho de Pequito Rebelo que responde por nós[1]. E basta para, em definitivo, tudo esclarecer, e reduzir à condição de pura falsidade as alegações tortuosas do furibundo escriba.
2 — Há oposição entre indivíduo e pessoa?
Não haverá oposição, como lhe chama por conveniência desonesta o filósofo falhado — coisa que nunca nós escrevemos. Mas há, com certeza, distinção (isto, sim, foi o que nós escrevemos). E isto é claro na transcrição de Pequito Rebelo, e é também transparente no opúsculo que, sob o título Democracia, publicou, este ano, o ilustre prof. Doutor Cabral de Moncada.
É desse opúsculo a seguinte passagem:
«O comunismo marxista-leninista nega, como se sabe, o conceito ocidental do homem-pessoa ou do homem como pessoa, e conserva apenas o do homem-indivíduo, ou do homem como animal.»
3 — Esta mesma transcrição nos serve à maravilha para abonar a afirmação que fizemos, de o individualismo ser o sustentáculo do totalitarismo, o que o filósofo falhado, incapaz de destruir, classificou, dogmaticamente, de asneira.
Além disso, qualquer estudante sabe de cor que o comunismo é o monismo democrático na sua expressão mais eloquente e representa uma fase da Revolução, de que a Revolução Francesa não foi mais do que um simples episódio.
O fascismo e o nacional-socialismo não foram senão duas tentativas abortadas desta mesma democracia de massas, ao mesmo tempo impossíveis de compreender sem o comunismo, e, contudo, em luta com ele (Cabral de Moncada).
De resto, além desta raiz comum, as realidades dizem que o hitlerismo foi ao poder levado pelo sufrágio universal, e todos os totalitarismos sustentam a sua legitimidade no voto individualista.
4 - O Integralismo nunca foi anti-semita. O facto de, acidentalmente, em escritos dos seus fundadores aparecerem afirmações contra judeus, nada prova neste sentido. Também a leitura de certas apologias das ditaduras, aliás muito mais numerosas do que aquelas, mas puramente acidentais, não habilita, honestamente, ninguém a atribuir ao Integralismo características totalitaristas.
5— Que é afinal democracia, no conceito do sábio nacionalista? Como bom réptil que é, esgueira-se, enrola-se, e foge ... a dizer uma palavra a tal respeito.
O ilustre prof. Doutor Cabral de Moncada, no seu tão actual estudo, afirma: «O Estado em que, de qualquer modo, o povo for, de facto, detentor do poder, como melhor garantia para se alcançar aquilo que aí, acima de tudo, se procura, a utilidade e proveito do maior número de cidadãos, em vez só dos duma minoria, será democrático;
aquele em que isto se não der não o será.»
Considera «democracia, acima de tudo, um facto cultural ... uma ideia geral, um conceito que extraímos de factos e dados de que temos experiência».
E engloba neste conceito desde as democracias ateniense e romana, e as Instituições municipais e comunais da Idade Média, às Monarquias limitadas medievais e às formas modernas dos Estados liberais e totalitários.
O Integralismo só foi anti-democrático no sentido de anti-individualista, de adversário do sufrágio universal.
Bem dizíamos nós, portanto, que o municipalismo integralista também é democracia e que era pelo menos temeridade, em face da extensão moderna e vaga do conceito de democracia, rotular o Integralismo de anti-democrático.
Mas o último hitleriano deste século afirma que tem um conhecimento especial do que é democracia, e insinua que também sabe o que é vida ... Coitado!
(O Debate, 22 de Setembro de 1962.)
[1] Texto de José Pequito Rebelo:
«Cedo o Integralismo se mostrou mais pro personalista do que anti-individualista.
«Para mim este personalismo estava implícito na rasgada afirmação de pluralismo e naquele princípio ou lei que desde os primeiros tempos nos inspirou e que hoje podemos formular claramente sob o nome de princípio da conservação do ser social.
«Na formação da sociedade nada se perde; na constituição dos seus vários graus hierárquicos os elementos que se vão agregando só ganham em ser e portanto também a personalidade, elemento positivo da Cidade, nada deve perder ao agrupar-se com outras personalidades.
«O Integralismo é o regime da Personalidade; ou melhor, assim como sempre preconizámos as liberdades no plural das validades contra a solitária Liberdade das mistificações demagógicas, assim devemos dizer-nos defensores do regime das pessoas, e não da Pessoa.
«Sabeis distinguir entre indivíduo e pessoa. A ideia de indivíduo, em que se abstrai das características próprias do net humano, leva à hipertrofia, não da personalidade, mas do sentimento subjetivo.
«A pessoa é o indivíduo considerado como consciente e livre. Da personalidade fazem parte todos os elementos que compõem o homem como ser moral e nomeadamente a inteligência que conhece as outras personalidades segundo os seus valores próprios.
«É, pois, a Pessoa muito mais que o Individuo, porque contém a sua ideia acrescida de todos os caracteres da espiritualidade «O Integralismo é o regime da Personalidade; ou melhor, assim como sempre preconizámos as liberdades no plural das validades contra a solitária Liberdade das mistificações demagógicas, assim devemos dizer-nos defensores do regime das pessoas, e não da Pessoa.
«Sabeis distinguir entre indivíduo e pessoa. A ideia de indivíduo, em que se abstrai das características próprias do net humano, leva à hipertrofia, não da personalidade, mas do sentimento subjetivo.
«A pessoa é o indivíduo considerado como consciente e livre. Da personalidade fazem parte todos os elementos que compõem o homem como ser moral e nomeadamente a inteligência qu conhece as outras personalidades segundo os seus valores próprios.
«É, pois, a Pessoa muito mais que o Individuo, porque contém a sua ideia acrescida de todos os caracteres da espiritualidade.
«Só na personalidade se perfaz o carácter humano, porque é a espiritualidade encarnada que exatamente caracteriza o homem.
«Na individualidade há a ideia de um ser uno e todo inteiro em si, ideia de autonomia que naturalmente se perverte em ideia revolta, se aparece mutilada dos seus elementos morais; o homem só pode verdadeiramente afirmar a sua individualidade, se a afirma como personalidade, isto é, se a integra em espiritualidade: a pura afirmação de individualidade, não subordinada aos valores do espírito, implica a regressão à animalidade.
«Basta fazer a reflexão simples de que a ideia de pessoa se opõe à ideia de coisa, para ter a noção do seu larguíssimo alcance, nesta crise de civilização sob ameaças materialistas, em que o homem corre o perigo de naufragar no dilúvio dos objectos.
«Por outro lado, a ideia universal da pessoa oposta à ideia da coisa implica imediatamente a noção da pluralidade das pessoas aliadas contra as coisas, contra elas defendendo o seu próprio princípio de espiritualidade ou antes a elas sobrepondo a maior dignidade da sua jerarquia, ora esta é a mesma noção de sociedade, o princípio eterno da civilização abrangendo a ideia da soberania da humanidade sobre o universo.
«Aparece assim, como alicerce da construção social, a propriedade, que é afinal o prolongamento exterior da personalidade sobre as coisas, e estas podem ser tanto as coisas naturais como os seres de razão.
«Assim, por exemplo, o proprietário não é um indivíduo: é uma personalidade prolongada nesta coisa natural e fundamental que é a terra.
«O Rei também não é um indivíduo; é uma personalidade com a propriedade do título de Rei, no exercício da sua função, conhecendo-a e amando-a.»
— JOSÉ PEQUITO REBELO.
Mas o respeito que temos pelos nossos leitores, e a nossa responsabilidade de diretor deste semanário, obrigaram-nos a pegar numa pinça para remexer num monturo publicado no Correio do Minho de 8 do corrente.
Somente lamentamos que estejamos a dissipar energias com energúmenos rotulados de nacionalistas, e até (oh, desfaçatez!) de monárquicos.
Demos generosamente há semanas, em artigo de fundo, notícia crítica de um pobre livreco sem sombra de valor, e enviado pelo seu autor, decerto a mendigar uma referenciazinha.
Não percebeu o autor quanto era para ele lisonjeira a nossa benevolência (que vemos agora ser natural nele) e resolveu, com estranha tacanhez de espírito, agredir-nos e procurar ridicularizar-nos no referido Correio, ao mesmo tempo que fazia afirmações infundadas, envolvidas em copioso psitacismo ... pour épater.
Respondemos-lhe pondo os pontos nos ii, e aconselhando-o a ser mais correcto para com os amigos políticos (confessamos aqui a nossa ingenuidade), já que na sua resposta a civilidade estava longe de ser a nota dominante.
Foi o diabo! Tomando a nossa resposta como um par de bandarilhas de fogo aplicadas em su situ, o pobre homem enraiveceu-se, urrou, pulou, espumou, e defecou novo artigo no mesmo jornal, o qual é uma miséria, e não deixará dúvidas a qualquer psiquiatra quanto a um diagnóstico infalível de paranoia.
Claro que não podemos responder-lhe, não só porque a loucura é uma doença que sempre nos mereceu a maior discrição, como também porque o corajoso animal morde-nos as canelas e depois foge com o rabo entre as pernas, declarando no final que digamos nós o que dissermos não nos responderá, porque tem por nós... o mais profundo desprezo.
Que alívio, senhores! O pior que nos poderia acontecer era, pelo contrário, ele ter-se lembrado de dizer que tinha por nós muita consideração. Safa! De que nos livramos, hein?!
Entretanto é profundamente lamentável que este sentimento, tão consolador para nós, só o tivesse tomado no fim, porque se tivesse nascido logo no início teria sido poupado àquela prova pública de inferioridade. Há pessoas, de facto, com pouca sorte!
Pois nós não temos desprezo. Não chegamos a tanto.
Limitamo-nos a ter dó, a ter compaixão, pela mistura incrível de orgulho e de petulância, de má fé e de má criação, de desonestidade na argumentação, que se «estadeia» em três intermináveis colunas do Correio do Minho.
A ponto de este ter verificado a necessidade de preceder o escrito de uma nota introdutória, a procurar deitar água na fervura. Fez bem. Mas parece-nos que teria feito melhor recusando-se a sujar as suas colunas com tal matéria excrementicial. Em todo o caso, agradecemos ao Correio a sua intenção.
E se os nossos leitores tiverem dúvidas, leiam, e verificarão, com curiosidade, o que é um pseudo-intelectual descomposto, arrastando a sua deselegância e a sua deseducação, só porque foi ferido no papo, que, cheio de vento, e só de vento, emproadamente exibia.
Mas se nos recusamos a responder a qualquer prosa responsável, temos obrigação de elucidar os nossos leitores e de retificar, perante eles, juízos (ou faltas de juízo) que, enganosamente, poderiam influenciá-los.
Pomos de parte tudo o que no citado artigo é pura loquacidade do seu autor, porque isso não tem importância, nem para nós nem para os nossos leitores. Também desprezamos os malabarismos verbais e as deturpações do que escrevemos, como no caso do anti-semitismo, em que fala de uma dúzia de frases, quando nós escrevemos umas dúzias. E nem sequer reparamos nas insinuações reles com que o seu progenitor perdeu o tempo e o feitio.
Vamos, sim, ao que interessa a todos.
1 - O Integralismo foi, ou não, anti-personalista?
Damos em outra página um trecho de Pequito Rebelo que responde por nós[1]. E basta para, em definitivo, tudo esclarecer, e reduzir à condição de pura falsidade as alegações tortuosas do furibundo escriba.
2 — Há oposição entre indivíduo e pessoa?
Não haverá oposição, como lhe chama por conveniência desonesta o filósofo falhado — coisa que nunca nós escrevemos. Mas há, com certeza, distinção (isto, sim, foi o que nós escrevemos). E isto é claro na transcrição de Pequito Rebelo, e é também transparente no opúsculo que, sob o título Democracia, publicou, este ano, o ilustre prof. Doutor Cabral de Moncada.
É desse opúsculo a seguinte passagem:
«O comunismo marxista-leninista nega, como se sabe, o conceito ocidental do homem-pessoa ou do homem como pessoa, e conserva apenas o do homem-indivíduo, ou do homem como animal.»
3 — Esta mesma transcrição nos serve à maravilha para abonar a afirmação que fizemos, de o individualismo ser o sustentáculo do totalitarismo, o que o filósofo falhado, incapaz de destruir, classificou, dogmaticamente, de asneira.
Além disso, qualquer estudante sabe de cor que o comunismo é o monismo democrático na sua expressão mais eloquente e representa uma fase da Revolução, de que a Revolução Francesa não foi mais do que um simples episódio.
O fascismo e o nacional-socialismo não foram senão duas tentativas abortadas desta mesma democracia de massas, ao mesmo tempo impossíveis de compreender sem o comunismo, e, contudo, em luta com ele (Cabral de Moncada).
De resto, além desta raiz comum, as realidades dizem que o hitlerismo foi ao poder levado pelo sufrágio universal, e todos os totalitarismos sustentam a sua legitimidade no voto individualista.
4 - O Integralismo nunca foi anti-semita. O facto de, acidentalmente, em escritos dos seus fundadores aparecerem afirmações contra judeus, nada prova neste sentido. Também a leitura de certas apologias das ditaduras, aliás muito mais numerosas do que aquelas, mas puramente acidentais, não habilita, honestamente, ninguém a atribuir ao Integralismo características totalitaristas.
5— Que é afinal democracia, no conceito do sábio nacionalista? Como bom réptil que é, esgueira-se, enrola-se, e foge ... a dizer uma palavra a tal respeito.
O ilustre prof. Doutor Cabral de Moncada, no seu tão actual estudo, afirma: «O Estado em que, de qualquer modo, o povo for, de facto, detentor do poder, como melhor garantia para se alcançar aquilo que aí, acima de tudo, se procura, a utilidade e proveito do maior número de cidadãos, em vez só dos duma minoria, será democrático;
aquele em que isto se não der não o será.»
Considera «democracia, acima de tudo, um facto cultural ... uma ideia geral, um conceito que extraímos de factos e dados de que temos experiência».
E engloba neste conceito desde as democracias ateniense e romana, e as Instituições municipais e comunais da Idade Média, às Monarquias limitadas medievais e às formas modernas dos Estados liberais e totalitários.
O Integralismo só foi anti-democrático no sentido de anti-individualista, de adversário do sufrágio universal.
Bem dizíamos nós, portanto, que o municipalismo integralista também é democracia e que era pelo menos temeridade, em face da extensão moderna e vaga do conceito de democracia, rotular o Integralismo de anti-democrático.
Mas o último hitleriano deste século afirma que tem um conhecimento especial do que é democracia, e insinua que também sabe o que é vida ... Coitado!
(O Debate, 22 de Setembro de 1962.)
[1] Texto de José Pequito Rebelo:
«Cedo o Integralismo se mostrou mais pro personalista do que anti-individualista.
«Para mim este personalismo estava implícito na rasgada afirmação de pluralismo e naquele princípio ou lei que desde os primeiros tempos nos inspirou e que hoje podemos formular claramente sob o nome de princípio da conservação do ser social.
«Na formação da sociedade nada se perde; na constituição dos seus vários graus hierárquicos os elementos que se vão agregando só ganham em ser e portanto também a personalidade, elemento positivo da Cidade, nada deve perder ao agrupar-se com outras personalidades.
«O Integralismo é o regime da Personalidade; ou melhor, assim como sempre preconizámos as liberdades no plural das validades contra a solitária Liberdade das mistificações demagógicas, assim devemos dizer-nos defensores do regime das pessoas, e não da Pessoa.
«Sabeis distinguir entre indivíduo e pessoa. A ideia de indivíduo, em que se abstrai das características próprias do net humano, leva à hipertrofia, não da personalidade, mas do sentimento subjetivo.
«A pessoa é o indivíduo considerado como consciente e livre. Da personalidade fazem parte todos os elementos que compõem o homem como ser moral e nomeadamente a inteligência que conhece as outras personalidades segundo os seus valores próprios.
«É, pois, a Pessoa muito mais que o Individuo, porque contém a sua ideia acrescida de todos os caracteres da espiritualidade «O Integralismo é o regime da Personalidade; ou melhor, assim como sempre preconizámos as liberdades no plural das validades contra a solitária Liberdade das mistificações demagógicas, assim devemos dizer-nos defensores do regime das pessoas, e não da Pessoa.
«Sabeis distinguir entre indivíduo e pessoa. A ideia de indivíduo, em que se abstrai das características próprias do net humano, leva à hipertrofia, não da personalidade, mas do sentimento subjetivo.
«A pessoa é o indivíduo considerado como consciente e livre. Da personalidade fazem parte todos os elementos que compõem o homem como ser moral e nomeadamente a inteligência qu conhece as outras personalidades segundo os seus valores próprios.
«É, pois, a Pessoa muito mais que o Individuo, porque contém a sua ideia acrescida de todos os caracteres da espiritualidade.
«Só na personalidade se perfaz o carácter humano, porque é a espiritualidade encarnada que exatamente caracteriza o homem.
«Na individualidade há a ideia de um ser uno e todo inteiro em si, ideia de autonomia que naturalmente se perverte em ideia revolta, se aparece mutilada dos seus elementos morais; o homem só pode verdadeiramente afirmar a sua individualidade, se a afirma como personalidade, isto é, se a integra em espiritualidade: a pura afirmação de individualidade, não subordinada aos valores do espírito, implica a regressão à animalidade.
«Basta fazer a reflexão simples de que a ideia de pessoa se opõe à ideia de coisa, para ter a noção do seu larguíssimo alcance, nesta crise de civilização sob ameaças materialistas, em que o homem corre o perigo de naufragar no dilúvio dos objectos.
«Por outro lado, a ideia universal da pessoa oposta à ideia da coisa implica imediatamente a noção da pluralidade das pessoas aliadas contra as coisas, contra elas defendendo o seu próprio princípio de espiritualidade ou antes a elas sobrepondo a maior dignidade da sua jerarquia, ora esta é a mesma noção de sociedade, o princípio eterno da civilização abrangendo a ideia da soberania da humanidade sobre o universo.
«Aparece assim, como alicerce da construção social, a propriedade, que é afinal o prolongamento exterior da personalidade sobre as coisas, e estas podem ser tanto as coisas naturais como os seres de razão.
«Assim, por exemplo, o proprietário não é um indivíduo: é uma personalidade prolongada nesta coisa natural e fundamental que é a terra.
«O Rei também não é um indivíduo; é uma personalidade com a propriedade do título de Rei, no exercício da sua função, conhecendo-a e amando-a.»
— JOSÉ PEQUITO REBELO.
AVALIAÇÃO DO LIVRO E DA POLÉMICA
Pelo conteúdo exacto do livro e da polémica - conjunto que designaremos por corpus -, a resposta que considero mais rigorosa é esta: Jacinto Ferreira está mais próximo da verdade doutrinária sobre o Integralismo Lusitano; Brito é mais forte na acumulação de provas pontuais, mas falha na passagem dessas ocorrências para o conteúdo e estrutura da doutrina.
Não se trata de “tomar partido”, mas de distinguir três planos:
1. No ponto central — o destino nazi-fascista do Integralismo — Jacinto Ferreira tem razão
Brito mostra que há no Integralismo:
Mas não demonstra que isso imponha como consequência necessária:
A tese de Jacinto Ferreira é a mais sustentável: o Integralismo pode ser anti-individualista e antiparlamentar, mas isso não basta para o tornar antipersonalista, totalitário ou nazi-fascista.
Ou seja: Brito mostra reais tensões, mas Ferreira tem razão quanto à arquitectura doutrinária. Sobre pessoa e indivíduo, Ferreira está substancialmente certo. Este é o núcleo da polémica.
Ferreira diz que o Integralismo é anti-individualista, mas não antipersonalista. Brito responde que a distinção de António Sardinha entre pessoa e indivíduo conduz, na verdade, a um antipersonalismo.
Aqui Brito tem um argumento filosófico interessante: se Sardinha usa “pessoa” em sentido aditivo, social e universal, então talvez não esteja a falar de pessoa no sentido personalista moderno ou de Maritain. Ferreira tem no entanto razão no ponto decisivo: a distinção entre pessoa e indivíduo impede a identificação do anti-individualismo com antipersonalismo. Brito precisa de provar que, funcionalmente, a pessoa desaparece como limite. O corpus documental mostra que ele o tenta fazer, mas depende de uma reconstrução dedutiva muito forçada.
A concessão de Brito é importante:
“Admito, de bom grado, que o Integralismo não se tenha nunca declarado anti-personalista…”
Isso não encerra a questão, mas desloca o ónus da prova para Brito. E o ensaio mostra que esse ónus não é cumprido de modo convincente.
Veredicto: Ferreira está mais certo, embora Brito levante uma objecção filosófica que não deve ser ignorada.
2. Sobre anti-semitismo, a questão é mais equilibrada — mas Brito exagera a conclusão.
Aqui Brito é mais forte do que Ferreira parecia admitir inicialmente. Ferreira começa por dizer que o anti-judaísmo aparece apenas acidentalmente e com raras alusões. Brito responde com uma acumulação documental significativa em António Sardinha, Pequito Rebelo e Hipólito Raposo. Nesse ponto, Brito tem razão em mostrar que Ferreira minimizou demasiado o problema. Mas a passagem seguinte é o erro decisivo: de muitas ocorrências Brito passa para uma essência doutrinária necessária. E isso não fica demonstrado.
O que o corpus permite concluir é:
Veredicto: Brito vence a objecção quantitativa; Ferreira vence a objecção essencial e estrutural.
3. Sobre democracia, Ferreira tem razão
Brito trata democracia como sufrágio universal, partidos e liberalismo político. Ferreira insiste que a palavra tem sentidos históricos múltiplos e que o Integralismo rejeita a democracia partidária/individualista, mas admite formas de democracia: municipais, profissionais e orgânicas.
A frase de Ferreira:
“Isto também é Democracia”
é polémica, mas tem função doutrinária clara: a crítica integralista ao parlamentarismo partidário não equivale à rejeição da representação popular. O Integralismo é anti-oligárquico mas não é anti-democrático.
O corpus confirma que o Integralismo distinguia:
Brito não trata essa distinção com justiça suficiente.
Veredicto: Ferreira tem razão no essencial.
4. Sobre Alfredo Pimenta, Brito tem em parte razão.
Brito mostra que Alfredo Pimenta tinha simpatias muito fortes pelo nacional-socialismo e por Hitler, mais fortes do que Ferreira admite.
Ferreira tenta reduzir isso a germanofilia e anticomunismo. Essa redução é frágil. Brito apresenta citações relevantes.
Mas o ponto decisivo é outro: Alfredo Pimenta não é fundador e nunca foi membro do Integralismo Lusitano. A aproximação de Brito à tradição pimentista ajuda a explicar o conteúdo do livro Destino do Nacionalismo Português, e não prova que o Integralismo de António Sardinha, Pequito Rebelo ou Alberto Monsaraz tenha o mesmo destino.
Veredicto: Brito é mais convincente quanto a Pimenta; Ferreira continua mais forte quanto ao Integralismo.
5. Sobre o método geral, Ferreira está com a razão
Brito tem erudição, aparato e capacidade dedutiva. Mas o seu método é excessivamente construtivo: define, seleciona, deduz e hierarquiza as fontes de modo a produzir uma conclusão previamente orientada.
Ferreira é polémico, por vezes agressivo e nem sempre rigoroso no tom. Mas a sua intuição e metodologia é a mais correcta quanto à doutrina do Integralismo Lusitano: o problema está em saber se as passagens objecto de controvérsia são basilares, estruturantes, doutrinárias, ou apenas ocorrências reais mas subordinadas.
Esse é precisamente o critério que o ensaio desenvolve como função doutrinária.
Veredicto final
A formulação mais justa seria:
Brito tem razão ao mostrar que existem no campo integralista materiais antijudaicos que não podem ser ignorados. Tem razão em corrigir algumas minimizações de Jacinto Ferreira, sobretudo no caso do anti-semitismo de Alfredo Pimenta. Mas Jacinto Ferreira tem razão no ponto decisivo: esses materiais não bastam para demonstrar que o Integralismo Lusitano seja anti-semita como princípio estruturante.
Brito não tem razão em considerar o Integralismo como anti-democrático ou destinado logicamente ao fascismo e ao nacional-socialismo. A tese de Brito depende de uma reordenação das fontes que altera a sua função.
Portanto, em termos rigorosos:
Ferreira ganha a polémica no plano doutrinário-estrutural.
Brito ganha alguns pontos documentais parciais.
Mas Brito perde a tese global.
Não se trata de “tomar partido”, mas de distinguir três planos:
1. No ponto central — o destino nazi-fascista do Integralismo — Jacinto Ferreira tem razão
Brito mostra que há no Integralismo:
- nacionalismo intenso;
- antiliberalismo;
- antiparlamentarismo;
- linguagem de combate;
- passagens antijudaicas;
- afinidades de época com correntes autoritárias.
Mas não demonstra que isso imponha como consequência necessária:
- fascismo;
- nacional-socialismo;
- raça superior;
- Império;
- vontade universal totalizante;
- totalitarismo.
A tese de Jacinto Ferreira é a mais sustentável: o Integralismo pode ser anti-individualista e antiparlamentar, mas isso não basta para o tornar antipersonalista, totalitário ou nazi-fascista.
Ou seja: Brito mostra reais tensões, mas Ferreira tem razão quanto à arquitectura doutrinária. Sobre pessoa e indivíduo, Ferreira está substancialmente certo. Este é o núcleo da polémica.
Ferreira diz que o Integralismo é anti-individualista, mas não antipersonalista. Brito responde que a distinção de António Sardinha entre pessoa e indivíduo conduz, na verdade, a um antipersonalismo.
Aqui Brito tem um argumento filosófico interessante: se Sardinha usa “pessoa” em sentido aditivo, social e universal, então talvez não esteja a falar de pessoa no sentido personalista moderno ou de Maritain. Ferreira tem no entanto razão no ponto decisivo: a distinção entre pessoa e indivíduo impede a identificação do anti-individualismo com antipersonalismo. Brito precisa de provar que, funcionalmente, a pessoa desaparece como limite. O corpus documental mostra que ele o tenta fazer, mas depende de uma reconstrução dedutiva muito forçada.
A concessão de Brito é importante:
“Admito, de bom grado, que o Integralismo não se tenha nunca declarado anti-personalista…”
Isso não encerra a questão, mas desloca o ónus da prova para Brito. E o ensaio mostra que esse ónus não é cumprido de modo convincente.
Veredicto: Ferreira está mais certo, embora Brito levante uma objecção filosófica que não deve ser ignorada.
2. Sobre anti-semitismo, a questão é mais equilibrada — mas Brito exagera a conclusão.
Aqui Brito é mais forte do que Ferreira parecia admitir inicialmente. Ferreira começa por dizer que o anti-judaísmo aparece apenas acidentalmente e com raras alusões. Brito responde com uma acumulação documental significativa em António Sardinha, Pequito Rebelo e Hipólito Raposo. Nesse ponto, Brito tem razão em mostrar que Ferreira minimizou demasiado o problema. Mas a passagem seguinte é o erro decisivo: de muitas ocorrências Brito passa para uma essência doutrinária necessária. E isso não fica demonstrado.
O que o corpus permite concluir é:
- Brito tem razão contra uma defesa demasiado branda ou minimizadora;
- Ferreira tem razão quando distingue presença de passagens antijudaicas e anti-semitismo como princípio estruturante;
- o ensaio deve manter a fórmula: presença não é essência.
Veredicto: Brito vence a objecção quantitativa; Ferreira vence a objecção essencial e estrutural.
3. Sobre democracia, Ferreira tem razão
Brito trata democracia como sufrágio universal, partidos e liberalismo político. Ferreira insiste que a palavra tem sentidos históricos múltiplos e que o Integralismo rejeita a democracia partidária/individualista, mas admite formas de democracia: municipais, profissionais e orgânicas.
A frase de Ferreira:
“Isto também é Democracia”
é polémica, mas tem função doutrinária clara: a crítica integralista ao parlamentarismo partidário não equivale à rejeição da representação popular. O Integralismo é anti-oligárquico mas não é anti-democrático.
O corpus confirma que o Integralismo distinguia:
- democracia liberal;
- partidocracia;
- sufrágio individualista;
- representação orgânica;
- municípios;
- corpos intermédios;
- Cortes;
- país real.
Brito não trata essa distinção com justiça suficiente.
Veredicto: Ferreira tem razão no essencial.
4. Sobre Alfredo Pimenta, Brito tem em parte razão.
Brito mostra que Alfredo Pimenta tinha simpatias muito fortes pelo nacional-socialismo e por Hitler, mais fortes do que Ferreira admite.
Ferreira tenta reduzir isso a germanofilia e anticomunismo. Essa redução é frágil. Brito apresenta citações relevantes.
Mas o ponto decisivo é outro: Alfredo Pimenta não é fundador e nunca foi membro do Integralismo Lusitano. A aproximação de Brito à tradição pimentista ajuda a explicar o conteúdo do livro Destino do Nacionalismo Português, e não prova que o Integralismo de António Sardinha, Pequito Rebelo ou Alberto Monsaraz tenha o mesmo destino.
Veredicto: Brito é mais convincente quanto a Pimenta; Ferreira continua mais forte quanto ao Integralismo.
5. Sobre o método geral, Ferreira está com a razão
Brito tem erudição, aparato e capacidade dedutiva. Mas o seu método é excessivamente construtivo: define, seleciona, deduz e hierarquiza as fontes de modo a produzir uma conclusão previamente orientada.
Ferreira é polémico, por vezes agressivo e nem sempre rigoroso no tom. Mas a sua intuição e metodologia é a mais correcta quanto à doutrina do Integralismo Lusitano: o problema está em saber se as passagens objecto de controvérsia são basilares, estruturantes, doutrinárias, ou apenas ocorrências reais mas subordinadas.
Esse é precisamente o critério que o ensaio desenvolve como função doutrinária.
Veredicto final
A formulação mais justa seria:
Brito tem razão ao mostrar que existem no campo integralista materiais antijudaicos que não podem ser ignorados. Tem razão em corrigir algumas minimizações de Jacinto Ferreira, sobretudo no caso do anti-semitismo de Alfredo Pimenta. Mas Jacinto Ferreira tem razão no ponto decisivo: esses materiais não bastam para demonstrar que o Integralismo Lusitano seja anti-semita como princípio estruturante.
Brito não tem razão em considerar o Integralismo como anti-democrático ou destinado logicamente ao fascismo e ao nacional-socialismo. A tese de Brito depende de uma reordenação das fontes que altera a sua função.
Portanto, em termos rigorosos:
Ferreira ganha a polémica no plano doutrinário-estrutural.
Brito ganha alguns pontos documentais parciais.
Mas Brito perde a tese global.
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