José Valle de Figueiredo, "A Juventude e a Revolução Nacional", in Alexandre Franco de Sá, Bruno Oliveira Santos, Frederico Nunes da Silva e José Almeida (org.), O Século de Maio - 100 Anos da Revolução Nacional, Porto, Fronteira do Caos, 2026, pp. 175-180.
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José Valle de Figueiredo, "A Juventude e a Revolução Nacional"
Discurso proferido no Teatro Circo de Braga durante a sessão solene comemorativa do XXXVII Aniversário da Revolução Nacional, no dia 28 de Maio de 1963.
Síntese Analítica
Discurso proferido no Teatro Circo de Braga durante a sessão solene comemorativa do XXXVII Aniversário da Revolução Nacional, no dia 28 de Maio de 1963.
Síntese Analítica
José Valle de Figueiredo constrói o discurso como uma dupla operação: contra a comemoração ritualizada e a favor de uma revolução que se define pela sua inconclusão. A abertura satiriza a figura do "estudante" chamado a tranquilizar os mais velhos — um dispositivo retórico que o autor usa para se distanciar da própria posição de orador convidado, legitimando-se por recusar esse papel. Desta recusa deriva a tese central, formulada quase como axioma: "uma revolução nunca termina, e a Revolução Nacional apenas começou". A juventude não deve aderir à Revolução por dívida histórica às "vítimas da Desordem e Anarquia" pré-1926, mas por missão presente — nos combates de Angola (Nambuangongo, Mucaba, Quimbele, Pedra Verde) e nos confrontos de Coimbra. Valle de Figueiredo é explícito quanto ao risco de reduzir "o tempo revolucionário a simples colecção de efemérides", crítica que funciona também como distinção implícita entre uma filosofia política (que não se apoia em factos passados) e um pensamento ocasional (que pode fazê-lo).
Sobre esta base, o discurso propõe uma periodização em cinco momentos: Revolta Nacional (28 de Maio de 1926); uma curta fase de transição, até 1933, em que o Movimento teve desde logo de enfrentar os seus "dois inimigos" estruturais — e durante a qual se situa, pejorativamente, o "29 de Maio", a "apressada revolução dos chegados no dia seguinte", isto é, os oportunistas tardios que se apropriaram do regime sem terem participado da revolta; a Revolução Nacional propriamente dita, com enquadramento constitucional a partir de 1933 e estendendo-se até meados da Segunda Guerra Mundial — fase que o autor qualifica retrospetivamente de "soberba", marcada pelo desfile das legiões e juventudes, "orgulhosamente antidemocrático e anti-liberal"; uma fase de decadência pós-guerra, de progressiva "democratização" e abrandamento doutrinal, com a sabotagem da Justiça Social e a ascensão do Rito Escocês, que o autor resume na fórmula "uma Revolução sem revolucionários, uma Revolução Nacional sem nacionalistas — Salazar traído por todos!"; e, por fim, a "Segunda Revolução Nacional" proposta para 1963 — termo que o autor atribui ao Ministro Santos Júnior, nomeada como Nacionalista, Popular e Social, com a Totalitária introduzida depois, "enfim", como traço culminante e não como quarto membro original da fórmula.
O corpo de denúncia no discurso opera em dois registos de gravidade distinta. No primeiro, mais abstrato, identificam-se os inimigos estruturais e permanentes da Revolução — "dois foram, dois são": a maçonaria jacobina e o capitalismo apátrida, figurados como "camaleões" que se infiltraram "nos rodízios e nos gonzos do Regime" através da metáfora do Cavalo de Tróia. A esta denúncia acrescenta-se a distinção entre Rito Francês (ligado ao poder republicano-democrático anterior) e Rito Escocês, acusado de se ter servido da própria Revolução Nacional para liquidar o primeiro e depois disputar influência no novo regime — um argumento sobre a continuidade estrutural das forças que a Revolução pretendia superar, não sobre uma ameaça pontual.
No segundo registo, mais concreto e datado, o autor acusa — sem nomear indivíduos, mas de forma direta — "os que tinham por missão prevenir e defender a integridade territorial de Angola" de traição: nega a alegação oficial de imprevisibilidade do terrorismo ("três vezes mentira!") e associa a fórmula da "pátria pluricontinental e plurirracial" a uma manobra de sabotagem disfarçada de patriotismo, promovida pelos mesmos "camaleões". A esta crítica junta-se a denúncia da "questão académica" de 1962, tratada não como problema de ordem pública mas como sintoma de cobardia dirigente: "em vez da linha recta a via sinuosa". A escalada retórica — de "traição" (dito e repetido: "Traição. Digo bem alto: Traição!") a "julgamento que a Lei de Deus e a Lei dos Homens prescreve" — indica que estes dois episódios (Angola, questão académica) funcionam no discurso como provas empíricas recentes da tese estrutural anterior, e não como digressões.
Esta fórmula, já com os quatro termos plenamente desenvolvidos, estrutura a proposta final em quatro planos doutrinais: nacionalista (cumprimento da "Vocação Nacional" e instauração da "Ética Nacionalista"); popular (integração do Povo no Estado, de que deriva a liberdade e a "plenitude dos seus direitos"); social (rejeição simultânea da "Ordem Capitalista" e da "Ordem Marxista", numa posição terceirista explícita, em nome da "verdadeira Justiça Social"); e totalitária (subordinação das partes ao "todo Nacional", extinção do partidarismo e dos "grupos de pressão", instauração do partido único como "vanguarda de acção política"). O discurso termina apelando aos "quatro milhões de jovens... na Metrópole" e fecha com uma fórmula de responsabilização histórica direta: "nas nossas mãos o Futuro!"
Haveria afinidade directa com António José de Brito? A proximidade cronológica (1963, um ano após Destino do Nacionalismo Português, 1962) e a partilha de vocabulário e posições — antidemocratismo, antiliberalismo, crítica à maçonaria e ao capitalismo apátrida, defesa de uma revolução nacional, popular, social e totalitária — tornam o texto compatível com essa linha nacional-revolucionária. A nota dos organizadores do livro O Século de Maio, atribuindo ao discurso o estatuto de "primeiro texto de carácter nacional-revolucionário em Portugal", reforça a plausibilidade da hipótese.
Em 2009, Riccardo Marchi apresentou José Valle de Figueiredo como uma figura ligada ao nacionalismo radical e ao meio intelectual da revista Tempo Presente. Em 1962, na Universidade de Coimbra, Valle de Figueiredo terá procurado organizar uma resposta política e doutrinária à crise de representação dos estudantes e à vaga de protestos. A partir de um grupo que se reunia em torno do Café Brasileira foi então fundado o periódico Combate, concebido como instrumento de intervenção doutrinária e militante. O seu programa denunciava o movimento estudantil como veículo de influência comunista, mas articulava essa crítica com uma oposição ao imobilismo do Estado Novo. Defendia a necessidade de uma renovação ideológica assente na doutrinação da juventude, na recuperação do sentido revolucionário do 28 de Maio e na rejeição do espírito burguês, conservador e imobilista atribuído ao regime. Valle de Figueiredo introduziu também no meio nacionalista português vários temas do neofascismo europeu, em particular a crítica ao capitalismo internacional, ao imperialismo americano e às redes de influência transnacional, apresentadas como ameaças à Europa e à presença europeia em África.
Sobre esta base, o discurso propõe uma periodização em cinco momentos: Revolta Nacional (28 de Maio de 1926); uma curta fase de transição, até 1933, em que o Movimento teve desde logo de enfrentar os seus "dois inimigos" estruturais — e durante a qual se situa, pejorativamente, o "29 de Maio", a "apressada revolução dos chegados no dia seguinte", isto é, os oportunistas tardios que se apropriaram do regime sem terem participado da revolta; a Revolução Nacional propriamente dita, com enquadramento constitucional a partir de 1933 e estendendo-se até meados da Segunda Guerra Mundial — fase que o autor qualifica retrospetivamente de "soberba", marcada pelo desfile das legiões e juventudes, "orgulhosamente antidemocrático e anti-liberal"; uma fase de decadência pós-guerra, de progressiva "democratização" e abrandamento doutrinal, com a sabotagem da Justiça Social e a ascensão do Rito Escocês, que o autor resume na fórmula "uma Revolução sem revolucionários, uma Revolução Nacional sem nacionalistas — Salazar traído por todos!"; e, por fim, a "Segunda Revolução Nacional" proposta para 1963 — termo que o autor atribui ao Ministro Santos Júnior, nomeada como Nacionalista, Popular e Social, com a Totalitária introduzida depois, "enfim", como traço culminante e não como quarto membro original da fórmula.
O corpo de denúncia no discurso opera em dois registos de gravidade distinta. No primeiro, mais abstrato, identificam-se os inimigos estruturais e permanentes da Revolução — "dois foram, dois são": a maçonaria jacobina e o capitalismo apátrida, figurados como "camaleões" que se infiltraram "nos rodízios e nos gonzos do Regime" através da metáfora do Cavalo de Tróia. A esta denúncia acrescenta-se a distinção entre Rito Francês (ligado ao poder republicano-democrático anterior) e Rito Escocês, acusado de se ter servido da própria Revolução Nacional para liquidar o primeiro e depois disputar influência no novo regime — um argumento sobre a continuidade estrutural das forças que a Revolução pretendia superar, não sobre uma ameaça pontual.
No segundo registo, mais concreto e datado, o autor acusa — sem nomear indivíduos, mas de forma direta — "os que tinham por missão prevenir e defender a integridade territorial de Angola" de traição: nega a alegação oficial de imprevisibilidade do terrorismo ("três vezes mentira!") e associa a fórmula da "pátria pluricontinental e plurirracial" a uma manobra de sabotagem disfarçada de patriotismo, promovida pelos mesmos "camaleões". A esta crítica junta-se a denúncia da "questão académica" de 1962, tratada não como problema de ordem pública mas como sintoma de cobardia dirigente: "em vez da linha recta a via sinuosa". A escalada retórica — de "traição" (dito e repetido: "Traição. Digo bem alto: Traição!") a "julgamento que a Lei de Deus e a Lei dos Homens prescreve" — indica que estes dois episódios (Angola, questão académica) funcionam no discurso como provas empíricas recentes da tese estrutural anterior, e não como digressões.
Esta fórmula, já com os quatro termos plenamente desenvolvidos, estrutura a proposta final em quatro planos doutrinais: nacionalista (cumprimento da "Vocação Nacional" e instauração da "Ética Nacionalista"); popular (integração do Povo no Estado, de que deriva a liberdade e a "plenitude dos seus direitos"); social (rejeição simultânea da "Ordem Capitalista" e da "Ordem Marxista", numa posição terceirista explícita, em nome da "verdadeira Justiça Social"); e totalitária (subordinação das partes ao "todo Nacional", extinção do partidarismo e dos "grupos de pressão", instauração do partido único como "vanguarda de acção política"). O discurso termina apelando aos "quatro milhões de jovens... na Metrópole" e fecha com uma fórmula de responsabilização histórica direta: "nas nossas mãos o Futuro!"
Haveria afinidade directa com António José de Brito? A proximidade cronológica (1963, um ano após Destino do Nacionalismo Português, 1962) e a partilha de vocabulário e posições — antidemocratismo, antiliberalismo, crítica à maçonaria e ao capitalismo apátrida, defesa de uma revolução nacional, popular, social e totalitária — tornam o texto compatível com essa linha nacional-revolucionária. A nota dos organizadores do livro O Século de Maio, atribuindo ao discurso o estatuto de "primeiro texto de carácter nacional-revolucionário em Portugal", reforça a plausibilidade da hipótese.
Em 2009, Riccardo Marchi apresentou José Valle de Figueiredo como uma figura ligada ao nacionalismo radical e ao meio intelectual da revista Tempo Presente. Em 1962, na Universidade de Coimbra, Valle de Figueiredo terá procurado organizar uma resposta política e doutrinária à crise de representação dos estudantes e à vaga de protestos. A partir de um grupo que se reunia em torno do Café Brasileira foi então fundado o periódico Combate, concebido como instrumento de intervenção doutrinária e militante. O seu programa denunciava o movimento estudantil como veículo de influência comunista, mas articulava essa crítica com uma oposição ao imobilismo do Estado Novo. Defendia a necessidade de uma renovação ideológica assente na doutrinação da juventude, na recuperação do sentido revolucionário do 28 de Maio e na rejeição do espírito burguês, conservador e imobilista atribuído ao regime. Valle de Figueiredo introduziu também no meio nacionalista português vários temas do neofascismo europeu, em particular a crítica ao capitalismo internacional, ao imperialismo americano e às redes de influência transnacional, apresentadas como ameaças à Europa e à presença europeia em África.
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