Quirino Avelino de Jesus
João Medina apresenta-o como "transfuga" do grupo da Seara Nova, tal como Ezequiel de Campos. Rolão Preto considera Quirino de Jesus "o mentor do Salazar".
Excerto da entrevista de Rolão Preto a João Medina (1975)
(negritos acrescentados)
- E o grupo da Seara Nova, que fez ele em tudo isso?
- O grupo da Seara não participou muito no caso, a não ser através de Sérgio. António Sérgio era muito meu amigo e desenvolvia uma grande actividade conspiratória. Conheci-o uma vez numa reunião política e convidou-me a ir visitá-lo. Fui e tornámo-nos amigos. Mais tarde convidou-me a colaborar no jornal República. Sérgio fez esta coisa difícil: levou-me a colaborar no jornal fundado por António José de Almeida.
- Diga o nome de outros homens com os quais privou na altura.
- António Maria da Silva ainda chegou a estar com o nosso intento. Mas era muito "puro" diante de certas coisas ante as quais havia que ser flexível, transigir... Nunca chegou a perceber o que foi o 28 de Maio. Explicava-me o golpe de 1926 sem perceber que aquilo era fatal, que tinha mesmo de acontecer, que o regime estava minado e condenado à morte. Nunca o entendeu, interpretava tudo como o resultado da acção deste ou daquele, dizendo nomes, sem descer às causas profundas da crise donde resultou a derrocada da República democrática.
- E o Quirino de Jesus - antigo seareiro, aliás - conheceu-o bem?
- Muito bem. Encontrei-o várias vezes, sobretudo em casa do Sinel de Cordes. De vez em quando, mandava-me chamar. Esse sim, esse é que manobrava o Salazar. Quirino, é a minha impressão, era verdadeiramente o mentor do Salazar, o dirigente do Salazar do início. Através de uma senhora, cujo nome não me ocorre, e que era prima ou coisa assim de Quirino, Salazar frequentava a casa dele em Lisboa. Quirino ganhava muito dinheiro, tinha boas ligações com a finança, era ele mesmo um financeiro. Em suma, o homem ideal para ajudar Salazar, acabado de chegar de Coimbra, desconhecido, apagado, fechado. Salazar precisava de encontrar a realidade portuguesa, precisava de apoios - e Quirino de Jesus era a pessoa ideal para isso. Por outro lado, não inquietava Salazar, não lhe fazia sombra: ensinava-o, ajudava-o. O que Salazar não admitia é que alguém se opusesse a ele, o criticasse, lhe objectasse, contradizendo-o. Quirino era, como Salazar, uma pessoa fria, um calculista. Apesar do seu ar místico, não passava no fundo de um manobrador, dum jogador... E tinha no ânimo de Salazar um grande ascendente, tanto mais que não falava cá fora do que Salazar lhe confidenciava, sabia guardar segredos. Era, em suma, um bom sócio, o sócio ideal. A tal senhora chamava-lhes "os meus netos" ou uma expressão carinhosa assim. Como é que ela se chamava? Não me lembro, mas era sem dúvida interessante trazê-la à luz da História, pois ela teve uma grande responsabilidade em tudo o que aconteceu.
[COMENTÁRIO: João Medina crê tratar-se de Prudência Serras e Silva, mulher do professor de Medicina Serras e Silva, 1868-1956]
- E o Ezequiel de Campos, outro trânsfuga da Seara Nova: tinha escrito em 1923 um livro de colaboração com o Quirino, ocupou importantes funções no Salazarismo...?
- Sim, Ezequiel esperava que Salazar o deixasse realizar uma obra inovadora na lavoura, com as barragens, etc. Mas não. Salazar era isto: escolhia este ou aquele, mas depois, quando via que ele tinha um certo prestígio, retirava-o, afastava-o. A mim tentou-me também fazer o mesmo: utilizar-me e depois deitar-me fora. Mandou-me um dia chamar. Era isto depois do banquete do Parque Eduardo VII. Mandou-me pois convocar - mas eu não fui. E isso ele nunca mo perdoou. O secretário do Salazar na altura, o tenente Assis, uma homem de Bragança e que ainda está vivo, foi-me chamar ao jornal. E eu recusei, não fui ter com o Salazar. Eu sabia o que ele queria: queria dar-me uma pasta para acabar comigo, para me comprar, como comprava toda a gente. Era o sistema dele. E este homem, como eu não aceitei, decide expulsar-me de Portugal. Lembra-me que, oito dias depois de Monsaraz e eu estarmos expulsos em Espanha, exilados, chega António Ferro a Valência de Alcântara: vinha oferecer-me um lugar numa empresa que se ia formar na altura, a Sacor...
- Queria comprá-lo, calá-lo de vez...
- Pois, era assim que ele governava... Ferro era o agente dele. Foi especialmente a Espanha para me fazer a oferta de Salazar: se eu quisesse voltar a Lisboa e como tinha de educar os meus filhos - Salazar preocupava-se muito com os meus filhos, já se vê! , o melhor era eu aceitar o lugar que me era oferecido, desde que abandonasse por algum tempo a política. E eu não tinha qualquer emprego, tinha mulher e quatro filhos... Em suma, Salazar nunca me perdoou a recusa. Assim como nunca tolerava os êxitos dos outros, mesmo que fossem ministros seus, como aconteceu com Marcelo (Caetano).
Fontes e Bibliografia
João Medina apresenta-o como "transfuga" do grupo da Seara Nova, tal como Ezequiel de Campos. Rolão Preto considera Quirino de Jesus "o mentor do Salazar".
Excerto da entrevista de Rolão Preto a João Medina (1975)
(negritos acrescentados)
- E o grupo da Seara Nova, que fez ele em tudo isso?
- O grupo da Seara não participou muito no caso, a não ser através de Sérgio. António Sérgio era muito meu amigo e desenvolvia uma grande actividade conspiratória. Conheci-o uma vez numa reunião política e convidou-me a ir visitá-lo. Fui e tornámo-nos amigos. Mais tarde convidou-me a colaborar no jornal República. Sérgio fez esta coisa difícil: levou-me a colaborar no jornal fundado por António José de Almeida.
- Diga o nome de outros homens com os quais privou na altura.
- António Maria da Silva ainda chegou a estar com o nosso intento. Mas era muito "puro" diante de certas coisas ante as quais havia que ser flexível, transigir... Nunca chegou a perceber o que foi o 28 de Maio. Explicava-me o golpe de 1926 sem perceber que aquilo era fatal, que tinha mesmo de acontecer, que o regime estava minado e condenado à morte. Nunca o entendeu, interpretava tudo como o resultado da acção deste ou daquele, dizendo nomes, sem descer às causas profundas da crise donde resultou a derrocada da República democrática.
- E o Quirino de Jesus - antigo seareiro, aliás - conheceu-o bem?
- Muito bem. Encontrei-o várias vezes, sobretudo em casa do Sinel de Cordes. De vez em quando, mandava-me chamar. Esse sim, esse é que manobrava o Salazar. Quirino, é a minha impressão, era verdadeiramente o mentor do Salazar, o dirigente do Salazar do início. Através de uma senhora, cujo nome não me ocorre, e que era prima ou coisa assim de Quirino, Salazar frequentava a casa dele em Lisboa. Quirino ganhava muito dinheiro, tinha boas ligações com a finança, era ele mesmo um financeiro. Em suma, o homem ideal para ajudar Salazar, acabado de chegar de Coimbra, desconhecido, apagado, fechado. Salazar precisava de encontrar a realidade portuguesa, precisava de apoios - e Quirino de Jesus era a pessoa ideal para isso. Por outro lado, não inquietava Salazar, não lhe fazia sombra: ensinava-o, ajudava-o. O que Salazar não admitia é que alguém se opusesse a ele, o criticasse, lhe objectasse, contradizendo-o. Quirino era, como Salazar, uma pessoa fria, um calculista. Apesar do seu ar místico, não passava no fundo de um manobrador, dum jogador... E tinha no ânimo de Salazar um grande ascendente, tanto mais que não falava cá fora do que Salazar lhe confidenciava, sabia guardar segredos. Era, em suma, um bom sócio, o sócio ideal. A tal senhora chamava-lhes "os meus netos" ou uma expressão carinhosa assim. Como é que ela se chamava? Não me lembro, mas era sem dúvida interessante trazê-la à luz da História, pois ela teve uma grande responsabilidade em tudo o que aconteceu.
[COMENTÁRIO: João Medina crê tratar-se de Prudência Serras e Silva, mulher do professor de Medicina Serras e Silva, 1868-1956]
- E o Ezequiel de Campos, outro trânsfuga da Seara Nova: tinha escrito em 1923 um livro de colaboração com o Quirino, ocupou importantes funções no Salazarismo...?
- Sim, Ezequiel esperava que Salazar o deixasse realizar uma obra inovadora na lavoura, com as barragens, etc. Mas não. Salazar era isto: escolhia este ou aquele, mas depois, quando via que ele tinha um certo prestígio, retirava-o, afastava-o. A mim tentou-me também fazer o mesmo: utilizar-me e depois deitar-me fora. Mandou-me um dia chamar. Era isto depois do banquete do Parque Eduardo VII. Mandou-me pois convocar - mas eu não fui. E isso ele nunca mo perdoou. O secretário do Salazar na altura, o tenente Assis, uma homem de Bragança e que ainda está vivo, foi-me chamar ao jornal. E eu recusei, não fui ter com o Salazar. Eu sabia o que ele queria: queria dar-me uma pasta para acabar comigo, para me comprar, como comprava toda a gente. Era o sistema dele. E este homem, como eu não aceitei, decide expulsar-me de Portugal. Lembra-me que, oito dias depois de Monsaraz e eu estarmos expulsos em Espanha, exilados, chega António Ferro a Valência de Alcântara: vinha oferecer-me um lugar numa empresa que se ia formar na altura, a Sacor...
- Queria comprá-lo, calá-lo de vez...
- Pois, era assim que ele governava... Ferro era o agente dele. Foi especialmente a Espanha para me fazer a oferta de Salazar: se eu quisesse voltar a Lisboa e como tinha de educar os meus filhos - Salazar preocupava-se muito com os meus filhos, já se vê! , o melhor era eu aceitar o lugar que me era oferecido, desde que abandonasse por algum tempo a política. E eu não tinha qualquer emprego, tinha mulher e quatro filhos... Em suma, Salazar nunca me perdoou a recusa. Assim como nunca tolerava os êxitos dos outros, mesmo que fossem ministros seus, como aconteceu com Marcelo (Caetano).
Fontes e Bibliografia