Uma frase de António Sardinha
Mário Saraiva
A frase é esta: "Monarquia? República? Oh, a balbúrdia ignóbil dos mitos que nada exprimem!"
(in "Adiante, por sobre os cadáveres!", Nação Portuguesa, 3ª série, 1924 (incluido no volume A Prol do Comum..., 1934.)
(in "Adiante, por sobre os cadáveres!", Nação Portuguesa, 3ª série, 1924 (incluido no volume A Prol do Comum..., 1934.)
... a questão portuguesa não é separável da questão europeia, — de que a crise que o nosso país atravessa é a crise que atravessa a civilização ocidental. Monarquia? República? Oh, a balbúrdia ignóbil dos mitos que nada exprimem! O drama vem de mais longe e o seu conflito é bem mais patético. De um lado a Matéria com o seu cortejo de «conservadores» e de «radicais», adorando o mesmo deus, — o Oiro omnipotente e aliciante. Do outro lado o Espírito, contrapondo-lhe o inefável sorriso da primeira alvorada do mundo, - da alvorada inegualável da Criação.
No revolto laboratório o Futuro se delineia e afeiçoa. Delineia-o e afeiçoa-o o simultâneo labor de destruição e de renovação, em que temos o nosso papel, a nossa acção. Acendamos a lâmpada do estudo, — e invoquemos a Jesus, Pai dos Séculos, Pastor das Nações. E é já poeira do túmulo, pobre cadáver ambulante, aquele que à glória intraduzivel de ser um antecipado preferir jazer no charco em companhia das rãs, coaxando a miséria insolente da sua irracionalidade !...
António Sardinha, 1924.
No revolto laboratório o Futuro se delineia e afeiçoa. Delineia-o e afeiçoa-o o simultâneo labor de destruição e de renovação, em que temos o nosso papel, a nossa acção. Acendamos a lâmpada do estudo, — e invoquemos a Jesus, Pai dos Séculos, Pastor das Nações. E é já poeira do túmulo, pobre cadáver ambulante, aquele que à glória intraduzivel de ser um antecipado preferir jazer no charco em companhia das rãs, coaxando a miséria insolente da sua irracionalidade !...
António Sardinha, 1924.
A frase é esta: «Monarquia? República? Oh, a balbúrdia ignóbil dos mitos que nada exprimem!» Foi publicada pela primeira vez em 1924, no 1.° número da 3. série da revista «Nação Portuguesa», rematando o artigo Adiante, por sobre os cadáve-res! Este artigo encontra-se incluindo no volume «A Prol do Comum..», editado em 1934.
Desinserida do texto a que pertence, isolada, desligada do sentido que ditou o artigo, e que o autor lhe deu, esta frase tem sido comentada num ponto de vista falso e negativo, e sobre ela se tentou especular a ponto de se querer interpretá-la como um desabafo de cepticismo, se não de descrença. Mas nada mais errado e injustificado!
António Sardinha debatia-se contra a mentalidade dos monárquicos da Carta Constitucional que pretendiam simplesmente destituir um presidente para re-entronizar o rei — o inverso do que quiseram e fizeram os republicanos de 1910, que foi substituir o rei por um presidente — convencidos de que a única mudança na chefia do Estado transformaria radicalmente as coisas, como por encanto.
Mário Saraiva, 1987.
Desinserida do texto a que pertence, isolada, desligada do sentido que ditou o artigo, e que o autor lhe deu, esta frase tem sido comentada num ponto de vista falso e negativo, e sobre ela se tentou especular a ponto de se querer interpretá-la como um desabafo de cepticismo, se não de descrença. Mas nada mais errado e injustificado!
António Sardinha debatia-se contra a mentalidade dos monárquicos da Carta Constitucional que pretendiam simplesmente destituir um presidente para re-entronizar o rei — o inverso do que quiseram e fizeram os republicanos de 1910, que foi substituir o rei por um presidente — convencidos de que a única mudança na chefia do Estado transformaria radicalmente as coisas, como por encanto.
Mário Saraiva, 1987.
[ Mário Saraiva, "Uma frase de António Sardinha" Sob o Nevoeiro (Ideias e Figuras), Lisboa, Edições Cultura Monárquica, 1987, pp. 129-138.]
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