ESTUDOS PORTUGUESES
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1996_-_rui_mateus_-_contos_proibidos_-_memórias_de_um_ps_desconhecido.pdf
Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido é um livro autobiográfico de Rui Mateus, publicado em Janeiro de 1996. Este livro é um dos mais polémicos da III República portuguesa por revelar os bastidores, os financiamentos e as disputas de poder dentro do Partido Socialista (PS) entre as décadas de 1970 e 1990. 

Rui Mateus foi responsável pelas relações internacionais do PS, descrevendo o que designa de "ADN do partido", abordando temas como os compadrios, favores e a fluidez do financiamento partidário na era pós-25 de Abril de 1974.

A obra tem por centro a figura de Mário Soares, expondo detalhes da sua liderança e as estratégias políticas da época. O livro ganhou o epíteto de "maldito" devido ao impacto que teve no sistema político e à forma como o autor foi posteriormente ostracizado, desaparecendo da vida pública.

Rui Mateus nasceu na Covilhã em 1944. Além de dirigente socialista, ocupou cargos de relevo como Presidente do Conselho Directivo da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) (1985-1988), membro da Comissão Trilateral e fundador e presidente da empresa Emaudio, criada para reforçar a presença socialista na comunicação social. 


Fotografia

As revelações em Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido são das mais gravosas sobre os bastidores da política portuguesa, centrando-se no financiamento paralelo do Partido Socialista (PS) e no papel de Mário Soares.

As principais revelações comprometedoras incluem:
  • Financiamento Externo e Ilegal: Rui Mateus detalha como o PS recebeu avultadas somas de dinheiro de partidos estrangeiros (como o SPD alemão) e de figuras internacionais para financiar campanhas e a estrutura partidária, contornando os canais oficiais e a transparência financeira.
  • O Papel da Emaudio: A empresa Emaudio, fundada por Rui Mateus e outros membros do PS, é descrita como um veículo para captar fundos e influenciar a comunicação social. O livro expõe o envolvimento da empresa em negócios controversos, incluindo tentativas de obter licenças de rádio e televisão através de favorecimentos políticos.
  • Caso do Fax de Macau: Um dos episódios mais célebres refere-se ao financiamento da campanha presidencial de Mário Soares em 1986. O livro sugere o uso de fundos provenientes de Macau (através de consultorias e o famoso "escândalo do fax") para alimentar os cofres da campanha, expondo uma teia de interesses entre o território e a presidência.
  • A "Máquina" de Mário Soares: Rui Mateus descreve Mário Soares não apenas como um líder político, mas como o centro de uma rede de clientelismo e influência, onde o poder era mantido através de favores e compadrios, o que Mateus apelida de "ADN do partido".
  • Tráfico de Influências na FLAD: Mateus revela como os cargos em fundações públicas, como a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), eram utilizados para recompensar aliados políticos e gerir interesses económicos. 

As personalidades e entidades estrangeiras mencionadas incluem:
  • Muammar Kadafi (Líbia): Mateus descreve aproximações ao regime líbio para obter apoio financeiro. Ele refere que o PS manteve contactos com Kadafi, que via em certos movimentos socialistas europeus aliados estratégicos. No livro, são relatadas tentativas de captar fundos líbios, embora com contornos de secretismo e canais informais.
  • Willy Brandt (Alemanha): Através do SPD (Partido Social-Democrata Alemão) e da Fundação Friedrich Ebert, Brandt foi o principal impulsionador do financiamento inicial do PS para travar a influência comunista em Portugal.
  • Olof Palme (Suécia): O líder sueco forneceu apoio logístico e financeiro crucial através do partido social-democrata sueco.
  • François Mitterrand (França): Embora mais focado em apoio político e estratégico, o PS francês foi um aliado constante na legitimação internacional do PS português.
  • David Rockefeller (EUA): No contexto da Comissão Trilateral, Mateus menciona a influência e os contactos com Rockefeller, ligando o partido a elites financeiras internacionais para assegurar estabilidade económica e política.
  • Felipe González (Espanha): Referido como um aliado próximo que partilhava estratégias de consolidação partidária e acesso a redes de financiamento europeias.
  • Otto Lambsdorff (Alemanha): Mencionado no contexto da influência alemã e de organizações não-governamentais que cruzavam interesses políticos e económicos. 
​​
O livro sublinha que este financiamento era frequentemente "invisível" aos olhos da lei portuguesa da época, sendo essencial para as campanhas eleitorais e para o combate à hegemonia do PCP no pós-25 de Abril. O impacto destas revelações em 1996 foi tão forte que o livro foi alvo de tentativas de boicote e Rui Mateus acabou por se exilar na Suécia, abandonando definitivamente a vida pública em Portugal. 
​

Referências Jornalísticas e Arquivo
  • RTP Arquivos (Vídeo): A Entrevista a Rui Mateus conduzida em janeiro de 1996 é o documento visual mais importante, onde o autor confronta as críticas imediatas ao lançamento do livro.
  • Observador (Especial): O artigo Os livros malditos da democracia portuguesa situa a obra de Mateus como um marco na literatura de denúncia política em Portugal, comparando o seu impacto com escândalos mais recentes.
  • Revista SÁBADO: O artigo Excertos de um livro maldito que faz anos republicou passagens cruciais, focando-se nas revelações sobre a "máquina" do partido e o financiamento de Mário Soares. 
Referências Académicas
  • Universidade de Coimbra: O livro é citado na revista Estudos do Século XX como uma fonte essencial para compreender as dinâmicas de poder no período pós-revolucionário.
  • Universidade de Lisboa: Na tese sobre oposições cívicas e historiografia, a obra é referenciada como um testemunho crítico das elites universitárias e políticas portuguesas.
  • Catálogo do Parlamento: A ficha técnica detalhada e o contexto da obra podem ser consultados no Catálogo da Biblioteca do Parlamento. 
​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
Fotografia

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[sugestões, correções e contributos: [email protected]]