Fustel de Coulanges (1830-1889): Mestre e Guia de António Sardinha no Ofício da História
José Manuel Quintas
RESUMO
António Sardinha recorria frequentemente a Fustel de Coulanges para expor aos suas ideias políticas e a sua concepção do ofício da História. Sardinha considerava Fustel um mestre e guia, ao criticar a historiografia partidária e ao defender uma visão conciliadora da Pátria. Para Sardinha, na Monarquia, conforme defendida por Fustel, se expressava a verdadeira democracia, enquanto a República era entendida como o domínio de oligarquias.
Fustel de Coulanges acreditava que a democracia se podia realizar plenamente através da Monarquia, servindo também como estabilizadora das tensões sociais e políticas. Sardinha reforça essa ideia, mostrando como, na história portuguesa, a Realeza buscou e obteve apoio nos povos dos concelhos para limitar os abusos da Nobreza e do Clero, promovendo a justiça social e a unidade nacional.
Inspirado por Fustel, a reflexão sobre o conceito de Pátria é central no pensamento de Sardinha. Ambos defendiam que o patriotismo se baseia no respeito pelas tradições que moldaram a alma coletiva. Sardinha via no pedido de Fustel para ser enterrado segundo os ritos católicos, mesmo não sendo um crente, a expressão máxima de um patriotismo que valoriza o passado como património moral insubstituível.
Fustel de Coulanges acreditava que a democracia se podia realizar plenamente através da Monarquia, servindo também como estabilizadora das tensões sociais e políticas. Sardinha reforça essa ideia, mostrando como, na história portuguesa, a Realeza buscou e obteve apoio nos povos dos concelhos para limitar os abusos da Nobreza e do Clero, promovendo a justiça social e a unidade nacional.
Inspirado por Fustel, a reflexão sobre o conceito de Pátria é central no pensamento de Sardinha. Ambos defendiam que o patriotismo se baseia no respeito pelas tradições que moldaram a alma coletiva. Sardinha via no pedido de Fustel para ser enterrado segundo os ritos católicos, mesmo não sendo um crente, a expressão máxima de um patriotismo que valoriza o passado como património moral insubstituível.
A Influência de Fustel de Coulanges em António Sardinha.
António Sardinha recorre frequentemente a Fustel de Coulanges como referência para a compreensão e prática da História. Considera-o mestre e guia, cuja obra e pensamento servem de contraponto à historiografia partidária e ao anacronismo político que, segundo Sardinha, envenenam a perceção do passado português. Nas suas obras, Sardinha utiliza as ideias de Fustel na crítica à história sectária, para reivindicar uma visão conciliadora da Pátria e para defender a Monarquia como sistema verdadeiramente democrático.
Monarquia, Democracia e o Papel do Rei.
Fustel de Coulanges, reconhecido pela crença na política enquanto ciência experimental, defende que a democracia se realiza plenamente com a solução monárquica. Para Fustel, a democracia encontra uma solução natural na Monarquia, enquanto a República é vista como apanágio das aristocracias e oligarquias. Sardinha destaca que, para Fustel, Monarquia é sinónimo de cesarismo: um sistema em que o poder independente de um só indivíduo emerge como resposta às tensões sociais e políticas, servindo como estabilizador face à dispersão do poder nas mãos de oligarquias. O Império Romano ilustra essa dinâmica, em que a multidão, desiludida com as repúblicas aristocráticas, acaba por apoiar líderes como César. Fustel de Coulanges aponta o caráter popular das monarquias, demonstrando que, ao contrário do que dizem os oligarcas, a Monarquia pode ser uma instituição profundamente democrática. Sardinha reforça esta ideia, mostrando como, na história portuguesa, a Realeza obteve apoio nos povos das comunas urbanas e dos concelhos rurais para limitar os abusos da Nobreza e do Clero, promovendo assim a justiça social e a unidade nacional.
Patriotismo e Tradição.
Inspirado em Fustel de Coulanges, a reflexão sobre o conceito de Pátria ocupa um lugar central no pensamento de Sardinha. Para ambos, o patriotismo não se baseia em ideias revolucionárias ou abstratas, mas no respeito pelas tradições que moldaram a alma coletiva. Fustel, mesmo não sendo crente, pediu para ser enterrado segundo os ritos católicos, em respeito à tradição dos seus antepassados. Sardinha vê nesse gesto a expressão máxima de um patriotismo que valoriza um património moral insubstituível. A crítica de Fustel à historiografia francesa do seu tempo – que, ao invés de unir, apenas alimentava divisões e ódio entre compatriotas – é transposta por Sardinha para o contexto português, denunciando a História escrita como panfleto partidário, desprezando ou caluniando a tradição, rompendo com a continuidade vital da Pátria.
A História como Obra de Reconciliação.
Apoiando-se em Fustel de Coulanges, Sardinha defende que a História não deve ser um instrumento de guerra civil, mas de reconciliação nacional. A história sectária ou partidária, sem respeito pela verdade e ao serviço de interesses particulares momentâneos, apenas perpetua o conflito e a fragmentação. Cita Fustel de Coulanges para sublinhar que "A história imperfeitamente observada divide-nos: é com a história melhor conhecida que deve começar o trabalho de conciliação". Sardinha propõe uma revisão profunda da historiografia portuguesa, libertando-a dos preconceitos e das lendas negras para revelar a verdadeira personalidade moral e a unidade contínua da nação.
O Método Histórico: Crítica e Rigor.
Fustel de Coulanges é apontado por Sardinha como exemplo de rigor metodológico e crítica imparcial. O mestre francês exigia sempre a existência de fontes objetivas para fundamentar qualquer afirmação histórica, rejeitando diagnósticos retrospectivos sem base documental. Sardinha valoriza este método, contrapondo-o à tendência portuguesa para a história subjetiva e panfletária. O trabalho de Gama Barros é destacado como exemplo nacional desse rigor, restaurando entre nós o que Fustel chamava de “castidade da história”.
Monarquia, Democracia e o Elemento Popular.
A teoria de Fustel de Coulanges sobre a Monarquia como sistema democrático é desenvolvida por Sardinha ao analisar a formação política portuguesa. A Monarquia, surgida da combinação entre hereditariedade e representação popular, garantiu a consolidação da Pátria e a integração das camadas populares no governo nacional. Sardinha evidencia a importância dos concelhos e do chamado “terceiro-braço” nas Cortes medievais, mostrando que a Realeza portuguesa sempre se apoiou no elemento popular para equilibrar os poderes do Estado.
O Valor do Passado e a Crítica à História Liberal.
Sardinha, fazendo-se eco das palavras de Fustel, denuncia os efeitos nefastos da história liberal, que, ao desprezar a tradição e a continuidade, contribuiu para o declínio da consciência nacional. O verdadeiro patriotismo, ensina Fustel, é o amor ao passado e o respeito pelas gerações que nos antecederam. Os historiadores que apenas ensinam a desprezar os reis e as instituições antigas, rompem com a tradição e minam as bases do patriotismo.
Conclusão: A História como Fundamento da Unidade Nacional.
António Sardinha, influenciado por Fustel de Coulanges, reivindica uma história feita com rigor, respeito pela tradição e abertura à reconciliação nacional. A compreensão e a valorização do passado são essenciais para restaurar a unidade moral da Pátria e garantir a sua continuidade. A crítica à história de partido e ao individualismo liberal é uma chamada à responsabilidade dos historiadores e à necessidade de reencontrar na tradição o fundamento do verdadeiro patriotismo e da vida coletiva nacional.
António Sardinha recorre frequentemente a Fustel de Coulanges como referência para a compreensão e prática da História. Considera-o mestre e guia, cuja obra e pensamento servem de contraponto à historiografia partidária e ao anacronismo político que, segundo Sardinha, envenenam a perceção do passado português. Nas suas obras, Sardinha utiliza as ideias de Fustel na crítica à história sectária, para reivindicar uma visão conciliadora da Pátria e para defender a Monarquia como sistema verdadeiramente democrático.
Monarquia, Democracia e o Papel do Rei.
Fustel de Coulanges, reconhecido pela crença na política enquanto ciência experimental, defende que a democracia se realiza plenamente com a solução monárquica. Para Fustel, a democracia encontra uma solução natural na Monarquia, enquanto a República é vista como apanágio das aristocracias e oligarquias. Sardinha destaca que, para Fustel, Monarquia é sinónimo de cesarismo: um sistema em que o poder independente de um só indivíduo emerge como resposta às tensões sociais e políticas, servindo como estabilizador face à dispersão do poder nas mãos de oligarquias. O Império Romano ilustra essa dinâmica, em que a multidão, desiludida com as repúblicas aristocráticas, acaba por apoiar líderes como César. Fustel de Coulanges aponta o caráter popular das monarquias, demonstrando que, ao contrário do que dizem os oligarcas, a Monarquia pode ser uma instituição profundamente democrática. Sardinha reforça esta ideia, mostrando como, na história portuguesa, a Realeza obteve apoio nos povos das comunas urbanas e dos concelhos rurais para limitar os abusos da Nobreza e do Clero, promovendo assim a justiça social e a unidade nacional.
Patriotismo e Tradição.
Inspirado em Fustel de Coulanges, a reflexão sobre o conceito de Pátria ocupa um lugar central no pensamento de Sardinha. Para ambos, o patriotismo não se baseia em ideias revolucionárias ou abstratas, mas no respeito pelas tradições que moldaram a alma coletiva. Fustel, mesmo não sendo crente, pediu para ser enterrado segundo os ritos católicos, em respeito à tradição dos seus antepassados. Sardinha vê nesse gesto a expressão máxima de um patriotismo que valoriza um património moral insubstituível. A crítica de Fustel à historiografia francesa do seu tempo – que, ao invés de unir, apenas alimentava divisões e ódio entre compatriotas – é transposta por Sardinha para o contexto português, denunciando a História escrita como panfleto partidário, desprezando ou caluniando a tradição, rompendo com a continuidade vital da Pátria.
A História como Obra de Reconciliação.
Apoiando-se em Fustel de Coulanges, Sardinha defende que a História não deve ser um instrumento de guerra civil, mas de reconciliação nacional. A história sectária ou partidária, sem respeito pela verdade e ao serviço de interesses particulares momentâneos, apenas perpetua o conflito e a fragmentação. Cita Fustel de Coulanges para sublinhar que "A história imperfeitamente observada divide-nos: é com a história melhor conhecida que deve começar o trabalho de conciliação". Sardinha propõe uma revisão profunda da historiografia portuguesa, libertando-a dos preconceitos e das lendas negras para revelar a verdadeira personalidade moral e a unidade contínua da nação.
O Método Histórico: Crítica e Rigor.
Fustel de Coulanges é apontado por Sardinha como exemplo de rigor metodológico e crítica imparcial. O mestre francês exigia sempre a existência de fontes objetivas para fundamentar qualquer afirmação histórica, rejeitando diagnósticos retrospectivos sem base documental. Sardinha valoriza este método, contrapondo-o à tendência portuguesa para a história subjetiva e panfletária. O trabalho de Gama Barros é destacado como exemplo nacional desse rigor, restaurando entre nós o que Fustel chamava de “castidade da história”.
Monarquia, Democracia e o Elemento Popular.
A teoria de Fustel de Coulanges sobre a Monarquia como sistema democrático é desenvolvida por Sardinha ao analisar a formação política portuguesa. A Monarquia, surgida da combinação entre hereditariedade e representação popular, garantiu a consolidação da Pátria e a integração das camadas populares no governo nacional. Sardinha evidencia a importância dos concelhos e do chamado “terceiro-braço” nas Cortes medievais, mostrando que a Realeza portuguesa sempre se apoiou no elemento popular para equilibrar os poderes do Estado.
O Valor do Passado e a Crítica à História Liberal.
Sardinha, fazendo-se eco das palavras de Fustel, denuncia os efeitos nefastos da história liberal, que, ao desprezar a tradição e a continuidade, contribuiu para o declínio da consciência nacional. O verdadeiro patriotismo, ensina Fustel, é o amor ao passado e o respeito pelas gerações que nos antecederam. Os historiadores que apenas ensinam a desprezar os reis e as instituições antigas, rompem com a tradição e minam as bases do patriotismo.
Conclusão: A História como Fundamento da Unidade Nacional.
António Sardinha, influenciado por Fustel de Coulanges, reivindica uma história feita com rigor, respeito pela tradição e abertura à reconciliação nacional. A compreensão e a valorização do passado são essenciais para restaurar a unidade moral da Pátria e garantir a sua continuidade. A crítica à história de partido e ao individualismo liberal é uma chamada à responsabilidade dos historiadores e à necessidade de reencontrar na tradição o fundamento do verdadeiro patriotismo e da vida coletiva nacional.
Excertos em que Antonio Sardinha cita Fustel de Coulanges como mestre e guia no ofício da História:
[ 1914 - Teófilo, Mestre da Contra-Revolução ]
Sardinha destaca a visão de Fustel de Coulanges de que a política deve ser orientada pela experiência do passado e que a democracia se realiza pela Monarquia, enquanto a República é destinada às aristocracias. Afirma que, para Fustel, Monarquia é sinônimo de cesarismo, um poder pessoal de resposta às tensões sociais, exemplificado pelo Império Romano, onde a plebe apoiava líderes como César. Fustel de Coulanges é citado ao analisar as assembleias do antigo regime, onde a Monarquia recebia apoio popular para limitar abusos dos privilegiados. Sardinha mostra como, em Portugal, reis como D. Afonso III buscaram apoio nos concelhos para garantir justiça e consolidar a unidade nacional.
[1915 - O Valor da Raça - Introdução a uma Campanha Nacional ]
Sardinha utiliza o exemplo do testamento de Fustel, que pediu para ser enterrado catolicamente por respeito à tradição dos antepassados, para ilustrar o verdadeiro conceito de patriotismo: não revolucionário, mas enraizado nas tradições e hábitos ancestrais. Critica a história sectária ao citar Fustel, que defendia a prática da história como reconciliação e não como acirramento de divisões. Sardinha defende que a História deve servir ao ressurgimento nacional, não a interesses de partidos.
[ 1915 - A Questão Ibérica - O Território e a Raça , ed 1916 ]
Sardinha assume-se “reaccionário” no sentido de herdeiro da tradição, reivindicando para si a lição imparcial da História de Fustel de Coulanges, que valoriza o passado e a continuidade.
Cita Fustel ao defender que a reconciliação nacional só é possível por meio de uma história conhecida com imparcialidade, denunciando o internacionalismo maçónico como causa de ruína da tradição portuguesa.
[ 1915 - O testamento de Garrett ]
Sardinha cita Fustel de Coulanges para reforçar que as instituições políticas nunca são obra da vontade isolada de um homem, mas resultado de um processo coletivo e histórico.
[ 1918 - D. Carlota Joaquina ]
Sardinha reconhece Fustel de Coulanges como um dos mestres mais amados do seu espírito, e utiliza sua crítica à historiografia francesa de partido para refletir sobre o caso português.
[ 1918 - Monarquia e República ]
Fustel de Coulanges é utilizado para contrapor Monarquia e República: a primeira acomoda a democracia, enquanto a segunda serve às aristocracias. Sardinha demonstra, a partir da Antiguidade, que a Monarquia sempre contou com apoio popular, enquanto as Repúblicas eram exclusivas e oligárquicas.
[ 1918 - Os nossos Reis ]
Para Sardinha, amar a Pátria é respeitar o legado ancestral, postura inspirada no exemplo de Fustel, que valorizava a tradição acima de ideologias revolucionárias.
[1922 - Questões de História ]
Sardinha cita Fustel para criticar a história de partido, defendendo a necessidade de uma história de síntese, capaz de revelar Portugal como uma personalidade moral una e contínua.
[ A retirada para o Brasil, in Ao ritmo da Ampulheta]
Sardinha defende a restauração da história verdadeira, inspirando-se no exemplo de Fustel de Coulanges, contra a história de partido.
[ 1924 - António Sardinha - A Teoria das Cortes Gerais ]
Sardinha utiliza Fustel de Coulanges para defender que a Monarquia é um sistema verdadeiramente democrático, pois integra o elemento popular e a hereditariedade, como visto na história portuguesa com o papel dos concelhos e do terceiro-braço nas Cortes. Destaca também a importância da crítica ao liberalismo e à sua deturpação do passado, defendendo o rigor metodológico.
[ O velho Teófilo ]
[ Pátria e Monarquia in Na Feira dos Mitos]
[ O Sul contra o Norte]
[1923 - Almas Republicanas ]
[1924 - Teoria do Município ]
[ 1924 - António Sardinha - A Aliança Peninsular ]
[ As quatro onças de ouro in Da hera nas Colunas]
[ Medicina e História - D. João II in Da hera nas Colunas]
[ Os Gamas in Da hera nas Colunas]
[1929 - Purgatório das Ideias - Ensaios de Crítica ]
. [ 1931 - De Vita et Moribus]
[ 1925-11-15 ed. - Gama Barros ]
Gama Barros é apresentado como continuador do método experimental de Fustel de Coulanges, promovendo o rigor e a continuidade da tradição na historiografia portuguesa.
[ 1934 - António Sardinha - A Prol do Comum ]
[ A Festa do Trabalho - 1934 - António Sardinha - A Prol do Comum ]
[ A Lição do Brasil in [ 1934 - António Sardinha - A Prol do Comum ]
Sardinha utiliza as reflexões de Fustel sobre os historiadores franceses para criticar o papel de Alexandre Herculano e Oliveira Martins na difusão de uma história revolucionária que contribuiu para o declínio do espírito patriótico em Portugal.
JMQ
(revisto em 17.12.2024)
[ 1914 - Teófilo, Mestre da Contra-Revolução ]
Sardinha destaca a visão de Fustel de Coulanges de que a política deve ser orientada pela experiência do passado e que a democracia se realiza pela Monarquia, enquanto a República é destinada às aristocracias. Afirma que, para Fustel, Monarquia é sinônimo de cesarismo, um poder pessoal de resposta às tensões sociais, exemplificado pelo Império Romano, onde a plebe apoiava líderes como César. Fustel de Coulanges é citado ao analisar as assembleias do antigo regime, onde a Monarquia recebia apoio popular para limitar abusos dos privilegiados. Sardinha mostra como, em Portugal, reis como D. Afonso III buscaram apoio nos concelhos para garantir justiça e consolidar a unidade nacional.
- [...] Como ponderador dos egoísmos específicos de cada grupo, eis que nos achamos de novo em face do Rei. Por isso Fustel de Coulanges, possuído de que a política é uma ciência experimental que sobre os ensinamentos do passado deve dirigir o presente e preparar o futuro, por isso Fustel de Coulanges identificava a democracia com a solução monárquica, deixando para as aristocracias a república. / Nutridos de ideias feitas, bem paradoxal se nos afigura a doutrina do ilustre pensador. Se, porém, nos quedarmos no exame aprofundado dos conceitos que ela envolve, um extraordinário mundo imprevisto, uma reveladora luz desconhecida nos porá em contacto com o sentido exacto das coisas. Diga-se, para inteira clareza, que ‘Monarquia’ em Fustel de Coulanges toma-se como sinónimo de ‘cesarismo’.[ Paul Guiraud, Fustel de Coulanges, Paris, Hachette. Edouard Champion, Les idées politiques et religieuses de Fustel de Coulanges, Paris, Honoré Champion.] Um cesarismo, a preponderância absoluta de um apenas, foi nas dobras do Tempo o princípio rudimentar da função monárquica. E Fustel de Coulanges, irmanando-a com a interferência da multidão na escolha do dirigente como portador das esperanças que a sobreexcitavam, das reivindicações que a enfureciam contra a primazia e contra os abusos dos poderosos, ou pela exclusiva da terra, como nas sociedades antigas, ou pelo prestígio feudal, como no mundo medievo, não destrinçava senão em historiador a natividade ignorada de um fenómeno de verificação constante, cujo estudo nos oferece inéditas perspectivas, regras de conduta bem prestáveis na turba-multa de prejuízos e falsificações intencionais que nos envenenam a percepção.
- [...] Fustel de Coulanges tinha, pelo visto, razão. Mais tarde, as revoltas populares, esbarrondando o patriciado dominante, acabaram inevitavelmente por engendrar a ditadura. A ditadura, abarcando a ingerência dos negócios públicos, estabilizando-se como um apanágio pessoal, detendo-se enfim e fixando-se numa família, marca bem depressa a normalidade de um facto, concrecionado pelo aprazimento unânime nas linhas definidas de uma instituição. Como paradigma – o império romano nasceu dos votos da rua. César encarna o homem, esperado com ânsia pela plebe, desde os Gracos a Mário e Pompeu, e, sempre, demorado pela falência inconjurável em que os tribunos se aluíam. E assim, «quand la noblesse l’êut assassiné, elle [a plebe] le vengea; quand le Sénat essaya de ressusciter la république, elle aida Octave et Antoine a rétablir la monarchie».[ "Quando a nobreza o assassinou, eles [plebeus] vingaram-no; quando o Senado tentou ressuscitar a república, ajudou Otavio e António a restabelecer a monarquia."; Guiraud, obr. cit. ] Entendido, repito, que Monarquia vale para Fustel de Coulanges como um cesarismo, como a fase transitória de um embrião desenvolvendo-se, hoje em dia expresso esse estádio intermédio no bonapartismo plebiscitário, reclamando-se da vontade do povo, brotado ele também dos desvarios oclocráticos [desvarios das turbas], aquietando-se sob um órgão representativo, sob uma autoridade improvisada pelo concurso fortuito das circunstâncias, em que o mando disperso na massa, feminina por condição, se delegava na primeira energia que a fascinou, submetendo-a. Em barreira contrária, a defensiva orleanista, invocando tão somente o direito da tradição e do sangue, acentua e assevera o lógico remate de um agente social, já individualizado no espaço e no tempo, regularizado já por um longo funcionamento, por um exercício constante e minucioso, com a duração mais a continuidade a torná-lo aptidão fisiológica numa família.
- [...] É ainda Fustel de Coulanges quem nos conta que nos Estados Gerais de Tours, em 1481, só um orador da nobreza, Philippe Pot de la Roche, sustentou que a Monarquia proviera dos sufrágios do povo e que o Príncipe não havia direito ao poder absoluto, porque o Estado era pertença de todos e não de um apenas. Pois o cónego Jean de Rely, interpretando o sentir da nação, ampara a vontade pessoal do monarca, incita-o a governar livremente, porque o ofício da Realeza consiste em relever les pauvres de l’oppression. «Parmi les assemblées de l’ancien régime, aucune eût une composition aussi démocratique ni des tendances plus monarchiques que les États de Tours» ["Entre as assembleias do antigo regime, nenhuma tinha uma composição tão democrática ou tendências mais monárquicas como os Estados de Tours"] acrescenta Paul Guiraud. [Obr. cit.]
- [...] O carácter popular apontado por Fustel de Coulanges às monarquias esclarece-se, portanto. E Teófilo, assinalando à Sociologia como dado imediato o elemento populacional, em substituição do factor Autoridade, proposto por Comte, concorda agora decerto que ambos os valores se presumem e identificam, como pertencentes a fases distintas, uma inicial, a segunda definitiva do mesmo embrião desenvolvendo-se. / Mais detalhadamente eu demonstrarei agora, adentro da nossa história, essa completa identificação do factor populacional com o elemento Autoridade. / Disse-se já que D. Afonso III para neutralizar a gestão abusiva em que Nobreza e Clero, como ordens possantes do Estado, dificultavam o franco desenvolvimento da política régia, imprimira ao poder central a necessária consistência pelo apoio recebido da parte dos povos concelhios, a quem logo no seu juramento de Paris prometera liberdades e justiças seguras, e de cuja dignidade civil se volveu de seguida em campeão incansável. / O terceiro-braço, ou braço-popular, criava assim consciência jurídica. E, alteando-se desimpedidamente pelo estímulo que lhe advinha da atitude do Rei, ajudava-o a deter em respeito e limites os roncantes senhores de honras e coutos, os quais levavam a truculência insubmissa ao ponto de enforcarem os mordomos da cúria quando em serviço lhes transpusessem as lindes. «Aqui é honra, aqui é honra!», gritara aquele Estêvão Pires de Molnes, arrastando pelo julgado de Faria um magistrado da Coroa que lá se fora numa penhora. Domando por isso as arrogâncias jurisdicionais dos privilegiados, o Rei encontrava-se com a revolta latente das camadas miúdas que o saudavam como um justo juiz, satisfazendo os apelos constantes das póvoas vexadas ao tempo que, homologando sob uma fiscalização permanente as rebeldias centrífugas do agregado, era para si mesmo que trabalhava, não fazia senão consolidar o património oneroso de que se via administrador. / Confirmava-se por uma banda a tese querida de Fustel de Coulanges, enquanto por outra os acontecimentos produziam uma prova magnífica do que seja, com efeito, a pasmosa essência mantenedora da Monarquia. O egoísmo do Rei empenhava-se em promover o interesse geral para proveito próprio. É a qualidade específica da Realeza, profundo condão imunizador por via do qual a duração e a continuidade se viabilizam, servidas pela força fisiológica da hereditariedade, obtendo, como agente de uma conservação meticulosa, o afinco instintivo que impele os pais a acumular para os filhos. Foi de ontem e há-de ser de sempre, porque se fundamenta nas leis inalienáveis da Vida, na eterna e misteriosa razão que nos encadeia e subordina ao preceito do sangue, como a única realidade sensível que nos explica e imortaliza. E, pois, que a propósito me acode, é bom ficar-se sabendo que muito antes da observação de semelhante facto, como valorizador insofismável das instituições monárquicas, se consagrar em argumento escolhido nos escritores da Action Française, já por 1825 o formulava com nítido recorte um modesto soldado Deus no notado nosso Legitimismo. «Tão íntima, tão ligada é a ventura dos Reis com a prosperidade dos povos – escreve Faustino José da Madre de Deus no notável opúsculo Os Povos e os Reis – que não pode um Soberano diligenciar a sua boa reputação, sem trabalhar para o bem comum de seus vassalos, nem pode conseguir o bem comum de seus vassalos, sem alcançar para si boa reputação.».
[1915 - O Valor da Raça - Introdução a uma Campanha Nacional ]
Sardinha utiliza o exemplo do testamento de Fustel, que pediu para ser enterrado catolicamente por respeito à tradição dos antepassados, para ilustrar o verdadeiro conceito de patriotismo: não revolucionário, mas enraizado nas tradições e hábitos ancestrais. Critica a história sectária ao citar Fustel, que defendia a prática da história como reconciliação e não como acirramento de divisões. Sardinha defende que a História deve servir ao ressurgimento nacional, não a interesses de partidos.
- [...] "Eu não compreendo o patriotismo da Revolução. Pátria vem de terra patrum, implica o reconhecimento dos valores afectivos institucionais do Passado. Não sendo um crente, Fustel de Coulanges mandava, contudo, no seu testamento que o enterrassem segundo os ritos da Igreja Católica. «Je désire un Service conforme à l’usage des Français, c’est à-dire un service à l’église. Je ne suis, à la vérité, ni pratiquant, ni croyant; mais je dois me souvenir que je suis né dans la religion catholique et que ceux qui m’ont précédé dans la vie étaient aussi catholiques. Le patriotisme exige que si l’on ne pense pas comme les ancêtres, on respecte au moins ce qu’ils ont pensé.» [Desejo um serviço de acordo com o costume dos franceses, ou seja, um serviço na igreja. Na verdade, não sou nem praticante nem crente; mas devo lembrar-me que nasci católico, e aqueles que me precederam também eram católicos. O patriotismo exige que, se não se pensa como os antepassados, se respeite ao menos o que eles pensavam.] Eis como se nos descobre a contornadíssima figura do autor de La Cité Antique nas suas disposições finais." [1] Paul Guiraud, Fustel de Coulanges, Paris, Hachette, 1895, p. 266.
- [...] "No cabo, não é a suposta excelência das ideias que torna os povos felizes. É antes o respeito dos hábitos em que a alma colectiva estratificou as suas seguranças ancestrais. Ensina-o hoje a demopsicologia pela pena incisiva de Gustave Le Bon. Já Taine e Fustel de Coulanges o tinham previsto. É que não se substitui ao passado de uma pátria o passado de outra pátria, tal como nos indivíduos se não pode volver em nada a soma das respectivas aquisições atávicas."
- [ Reagindo à História sectária:] [...] "Eu lembro que a Alemanha moderna agradece o que é à cruzada de um Stein e de um Mommsen. Ao historiador em Portugal pertence a chefia do ressurgimento – mas ao historiador que tenha feito exame de consciência e que não procure extrair do Passado a lição que serve apenas às conveniências sectárias dos bandos. Praticar-se assim a história é acender a guerra civil – lá dizia o ilustre Fustel de Coulanges. É precisamente de reconciliação que nós necessitamos. E jamais ela se obterá, se a ideia da Pátria não sobrepujar, no contorno viril da sua fisionomia centenária, as prevenções e os equívocos que nos dividem e trazem de noite e dia num conflito que é sincero em muitas boas-vontades – mal aproveitadas, infelizmente." [Idem]
[ 1915 - A Questão Ibérica - O Território e a Raça , ed 1916 ]
Sardinha assume-se “reaccionário” no sentido de herdeiro da tradição, reivindicando para si a lição imparcial da História de Fustel de Coulanges, que valoriza o passado e a continuidade.
Cita Fustel ao defender que a reconciliação nacional só é possível por meio de uma história conhecida com imparcialidade, denunciando o internacionalismo maçónico como causa de ruína da tradição portuguesa.
- [...] "Vendo-me a reabilitar a acção teocrática da Igreja Romana, Vossas Excelências não duvidam já que eu sou reaccionário. Sou-o – e com desassombro! É esse mesmo o título que mais dignifica o esforço mental de quem, como eu, se deseja reconciliar com as tendências superiores do presente século. Reaccionário – exactamente! Porque ser reaccionário é estar com a herança filosófica de Taine, é aceitar os melhores ditames de Comte, de Le Play e Renan, é receber de Fustel de Coulanges a lição imparcial da História que é História. Ser reaccionário é defender a integridade da minha conformação hereditária pelo acatamento ao Passado que me determinou e sem o respeito do qual as minhas razões de existir se esvaem depressa em menos que poeira."
- [...] "Fustel de Coulanges no seu testamento mandava enterrar-se catolicamente. E explicando que não fora nunca nem praticante nem crente, lembrava-se, contudo, de que os seus predecessores haviam nascido e morrido no grémio da Igreja Católica. «Le patriotisme – escrevia ele – exige que si l’on ne pense pas comme les ancêtres, on respecte au moins ce qu’ils ont pensé.» Tal é o sentido profundo do termo reaccionário, para aí desacreditado por demagogos de profissão, mas que eu reivindico para mim – repito – como o título que melhor define a concordância do meu espírito com as inspirações do meu tempo."
- [...] "Nós, os que chegámos depois da República, é que já não toleramos nem mais equívocos nem mais calúnias. Embora nos acusem de praticar a história às avessas, tomamos por nosso lema o exemplo erguido de Fustel de Coulanges. «L’histoire imparfaitement observée nous divise: c’est par l’histoire mieux connue que l’oeuvre de conciliation doit commencer» – aconselhava o autor respeitável de La Cité Antique. Por isso, saltando por cima de um século inteiro de falsificações e embustes, eu aponto o internacionalismo maçónico como a causa mortal da nossa ruína."
[ 1915 - O testamento de Garrett ]
Sardinha cita Fustel de Coulanges para reforçar que as instituições políticas nunca são obra da vontade isolada de um homem, mas resultado de um processo coletivo e histórico.
- Ora a lusa liberdade inspira todo o período agitadíssimo do Portugal-Corcunda, que mais não desejava senão reconciliar-se consigo mesmo, com a marcha natural das suas naturais aspirações. Garrett parte também daí para os torneios de entusiasmo que dão com ele na emigração. Bem mais sensatos e mais dentro da alma nacional, os miguelistas agarram-se ao nobilíssimo «Non possumus!» que hoje os torna de uma viva actualidade para o pensamento contemporâneo, enquanto os inovadores que os acoimaram de góticos em nome da excelência dos Princípios não passam já de um arcaísmo de baixa espécie, refugiado nas piores camadas da inteligência e da acção. Desiludida de endechas pérfidas, com as lições da história mais da realidade, a geração presente faz enfim justiça aos partidários do Príncipe proscrito, porque entende como eles que «les institutions politiques ne sont jamais l’oeuvre de la volonté d’un homme» – na frase sólida de Fustel de Coulanges.
[ 1918 - D. Carlota Joaquina ]
Sardinha reconhece Fustel de Coulanges como um dos mestres mais amados do seu espírito, e utiliza sua crítica à historiografia francesa de partido para refletir sobre o caso português.
- [...] Andam-me sempre na memória certas palavras de Fustel de Coulanges, um dos mestres mais amados do meu espírito. "Os nossos historiadores, de há cinquenta anos para cá, têm sido homens de partido. Por sinceros que eles fossem, por imparciais que julgassem sê-lo, obedeciam apenas a uma ou a outra das opiniões políticas que nos dividem. Investigadores ardentes, pensadores vigorosos, punham o seu ardor e o seu talento ao serviço de uma causa. A nossa história parecia-se com as nossas assembleias políticas: distinguia-se nela uma direita, uma esquerda e até situações intermédias. Era um campo fechado onde as opiniões se debatiam. Escrever a história de França representava uma maneira de trabalhar por um partido e de combater um adversário. A história tornou-se assim entre nós uma espécie de guerra civil em permanência. O que ela nos ensinou, sobretudo, foi a odiar-nos uns aos outros." / Podia este testemunho de Fustel de Coulanges epigrafar a revisão que está por fazer de toda a nossa história nacional. História de partido, e de um partido vencedor, não passa de um tecido de calúnias, escritas com o fel mais vivo e a mais viva sede de difamação.
[ 1918 - Monarquia e República ]
Fustel de Coulanges é utilizado para contrapor Monarquia e República: a primeira acomoda a democracia, enquanto a segunda serve às aristocracias. Sardinha demonstra, a partir da Antiguidade, que a Monarquia sempre contou com apoio popular, enquanto as Repúblicas eram exclusivas e oligárquicas.
- [...] O grande mestre que foi Fustel de Coulanges já sustentava que a república só era compatível com a aristocracia, enquanto que a democracia só se acomodava verdadeiramente à Monarquia. Antes de avançarmos, entendo, porém, esclarecer o significado dos dois vocábulos na linguagem do ilustre historiador. Foi a Grécia – dizia Fustel, que introduziu no mundo o governo republicano, e foi uma classe aristocrática que o introduziu na Grécia. Mais tarde, em Roma, é a aristocracia que derruba a Realeza, substituindo-a por um Senado que deliberava e por magistrados que executavam as deliberações do Senado. Tanto na Grécia como em Roma, a aristocracia, fundando a república, teve logo o cuidado de afastar a multidão das funções directivas. Mais tarde, no momento em que a república sucumbe, é substituída na Grécia pelo tiranos, clássicos e em Roma por César, que abre as portas ao Império. O que é depois o Império senão um mandato exercido em nome do povo romano? / Eis as razões em que se fundava a teoria de Fustel de Coulanges. São razões que perfilhamos, tão depressa tomemos ‘aristocracia’ como sinónimo de ‘oligarquia’. Realmente, as aristocracias representavam para Fustel, sobre os restantes corpos do Estado, a supremacia de uma classe, a ditadura abusiva de uma casta. Não é outro o espectáculo que nos oferece a Grécia dos tempos áureos. Toda a sua civilização, reduzida ainda ao perímetro estreito de Cidade, descansava descricionariamente na escravatura. O número dos cidadãos, dos que discutiam e tinham voto na governança comum, traduzia-se numa minoria insignificante perante o grosso da população condenada a trabalhar para os outros, sob a dureza de uma lei tão opressiva como humilhante. Surgiram os tiranos. E Fustel caracteriza-os como mandatários do povo contra a aristocracia. É o que sucede em Roma, ao desabar da República. César assoma aos varandins do triunfo, levado aos ombros da plebe. Em Roma, ensina-nos Paul Guiraud, biógrafo de Fustel, a realeza era amada pela plebe e odiada pelos patrícios. Quando ela caiu, a sua queda foi lamentada pela multidão, que nunca mais deixou de mostrar uma tendência marcada para o domínio de um só. Parece-me esclarecido com bastante suficiência o sistema de Fustel. A realeza antiga encarnava fundamentalmente o tipo patriarcal da sociedade. Ressurgido através da família, é esse tipo que persiste na formação das monarquias medievais. Com estas vinha, porém, fecundar-lhes a obra a lei moral que faltara às instituições do paganismo. A consciência cristã, traçando limites ao poder, fazia dos Reis, não tiranos ao modo clássico, mas magistrados, conforme os Juízes de Israel. Contudo, mesmo assim, a teoria de Fustel subsistiu. Na pulverização do Estado, com as invasões da gente do Norte, só por meio do traço recíproco da protecção e da fidelidade a ordem se reconstruíra. Nasce de aqui o feudalismo, que é dever de um pensamento honesto interpretar e considerar fora das costumadas declamações sentimentais. Um momento surge, no entanto, em que a função do feudalismo se achou extinta naturalmente. / É então que a Realeza corrige a desorganização em que a colectividade ia tombando de novo – agora, não pela ausência do Estado, mas pela dispersão [...]
- [...] Descendo da teoria aos factos, reconhecemos que nas críticas de Georges Sorel à democracia ressurgem as considerações que motivaram no campo da história a atitude de Fustel de Coulanges. O predomínio dissolvente dos partidos sobre as legítimas aspirações da colectividade equivale às antigas querelas da Nobreza e do Clero contra a supremacia neutralizadora da Coroa. Há uma diferença, no entanto, que é de justiça destacar. Nunca, a não ser em raras circunstâncias, as discórdias das classes privilegiadas atentaram contra a própria constituição do Estado. Órgãos robustos do mesmo queriam expandir-se em detrimento da boa harmonia do grupo. Porque a Realeza intervinha, exercendo o ofício de coordenadora, as dissenções afloravam, rápidas, assumindo por vezes um carácter extremo de violência. Todavia, se as pátrias ocidentais, existem ao Clero e à Nobreza pertence um alto e extraordinário quinhão na epopeia admirável da sua independência e do seu desenvolvimento. / Não sucede outro tanto com os partidos políticos, consequência da liberdade metafísica dos utopistas do 89. Não chegam a ser órgãos do Estado, pois que não passam de elementos parasitários, mantendo-se à custa da corrupção e do favoritismo. O poder, quando o alcançam, sequestram-no em seu benefício exclusivo, como se fosse coisa conquistada. Por intermedio dos mil tentáculos de uma burocracia opressiva e inerte, nós vêmo-los imporem-se na sua minoria atrevida e insaciável à colectividade escravizada. São as maravilhas do Estado napoleónico, hoje em falência estrondosa! De Bonald observava que Bonaparte, não tendo força nenhuma na sua constituição, se vira obrigado a empregá-la na sua administração. Efectivamente, a constituição de um povo, inscrita na sua história, é mais consuetudinária do que teórica. Assim sucede ainda um pouco com a Inglaterra. Assim sucedeu outrora com as nacionalidades europeias. [...] / ... só a Monarquia, restituída à sua verdadeira essência, pode restaurar as velhas liberdades municipais e corporativas, que constituíam a estrutura democrática, reconhecida por Fustel de Coulanges à Realeza. [Idem]
[ 1918 - Os nossos Reis ]
Para Sardinha, amar a Pátria é respeitar o legado ancestral, postura inspirada no exemplo de Fustel, que valorizava a tradição acima de ideologias revolucionárias.
- [...] Ora a Pátria, no seu sentido concreto, na verdade frisante das suas características, é um facto positivo que se não improvisa nem subjectiva, mas que se reconhece e aceita tal como é, e nunca como a nossa imaginação, ou o nosso capricho desejem que ela fosse. Pátria vem de terra patrum – a terra dos Avós, a terra dos Antepassados. Amar a Pátria é respeitá-la na fisionomia sagrada que os nossos Mortos lhe imprimiram. Nunca é demais falar em Fustel de Coulanges. Sem ser um crente, no seu testamento, Fustel de Coulanges mandou-se enterrar catolicamente. «Eu desejo um enterro conforme o uso dos franceses – escrevia o historiador –, isto é, um enterro religioso. Eu não sou, em verdade, nem praticante nem crente; mas devo-me recordar de que aqueles que me precederam na vida eram católicos. O patriotismo exige que, quando se não pense como os nossos maiores, se acate ao menos o que eles pensaram. Este conceito humaníssimo de Pátria, excluindo o patriotismo revolucionário e romântico, é exactamente o seu conceito científico e experimental.
- Auxiliam-lhe o trabalho desorganizador o criticismo agudo de um Oliveira Martins, ou a cegueira ultrarromântica de um Pinheiro Chagas, sem aludir a Herculano naquela parte em que, saindo do domínio dos documentos, se pôs a fazer história para combater, na própria frase, a Reacção. A Pátria, para esses autores, apresentava-se, não no significado objectivo de um património a continuar, em que a tomava Fustel de Coulanges, mas como dirigida e condicionada por um princípio, o princípio herdado da Revolução e expresso nas ideologias anárquicas do Liberalismo. Não foram assim historiadores. Foram antes panfletários. Como panfletários os vemos convocados a depor sempre que seja necessário activar a campanha subversiva contra as grandes verdades tradicionais.
[1922 - Questões de História ]
Sardinha cita Fustel para criticar a história de partido, defendendo a necessidade de uma história de síntese, capaz de revelar Portugal como uma personalidade moral una e contínua.
- [...] Ajustam-se-nos perfeitamente certas palavras memorandas, ainda de Fustel de Coulanges. «Nos historiens depuis cinquante ans ont été des hommes de parti», observa ele. «Si sincéres qu’ils fussent, si impartiaux qu’ils se crussent être, ils obéissaient à l’une ou l’autre des opinions politiques qui nous divisent... Notre histoire ressemblait à nos assemblées legislatives: on y distinguait une droite, une gauche, des centres. C’etait un champs clos, où les opinions luttaient. Écrire l’histoire était une façon de travailler pour un parti et de combattre un adversaire. L’histoire est ainsi devenue chez nous une sorte de guerre civile en permanence. Ce qu’elle nous a appris, c’est surtout à nous haïr les uns les autres. Quoi qu’elle fût, elle attaquait toujours la France par quelque côté. L’un était républicain et se croyait tenu à calomnier l’ancienne monarchie; l’autre était royaliste et calomniait le regime nouveau. Aucun des deux ne s’apercevait qu’il ne réussisait qu’à frapper sur la France. L’histoire ainsi pratiquée n’enseignait que l’indifférence, aux étrangers que le mépris.» ["Os nossos historiadores foram, durante cinquenta anos, homens partidários", observou ele. "Por mais sinceros que fossem, por mais imparciais que se acreditassem, obedeciam a uma ou outra das opiniões políticas que nos dividem... A nossa história assemelhava-se às nossas assembleias legislativas: havia uma direita, uma esquerda e centros. Era um campo fechado, onde as opiniões lutavam. Escrever história era uma forma de trabalhar para um partido e lutar contra um adversário. A história tornou-se, assim, uma espécie de guerra civil permanente para nós. O que ele nos ensinou, acima de tudo, foi a odiarmo-nos uns aos outros. Fosse o que fosse, sempre atacou a França de algum lado. Um era republicano e acreditava que precisava de caluniar a antiga monarquia; o outro era monárquico e caluniava o novo regime. Nenhum dos dois se apercebeu que estava apenas a conseguir atingir a França. A história assim praticada ensinava apenas a indiferença, e aos estrangeiros, apenas o desprezo." / Tal é o quadro geral da historiografia entre nós.
- [...] Espera, portanto, Portugal de há muito a sua História – história de síntese, traçado arquitectónico completo, em que a proporção e a lógica do conjunto nos desvendem as razões eternas da Pátria, na química incessante da sua renovação e vitalidade. Materiais dispersos existem em abundância – alguns de valor inapreciável, como os carreados e ordenados por Alberto Sampaio. Mas não basta apenas utiliza los no plano geral do edifício. Há que corrigi-los e ajustá-los, depurando-os de elementos contrários ou heterogéneos com que frequentemente andam misturados, por ausência de ideia directriz no espírito de quem os desbastou ou acumulou. Um necessário trabalho de revisão se impõe simultaneamente, espécie de breviário de correcções ou erratas, em que se instrua o processo das diversas lendas negras que deprimem a face augusta do nosso Passado. Com o objectivo de nos mostrar Portugal, sobretudo, como uma personalidade moral, prolongando-se no espaço e no tempo, uno e contínuo, essa História, a fazer-se, sem cair no detalhe excessivo, não deve também esquecer a revisão correspondente dos juízos e conceitos preconcebidos, a fim de que corresponda em toda a amplitude ao nobre intuito de Fustel de Coulanges ao escrever: «L’histoire imparfaitement observée nous divise: c’est par l’histoire mieux connue que l’oeuvre de conciliation doit commencer.»
[ A retirada para o Brasil, in Ao ritmo da Ampulheta]
Sardinha defende a restauração da história verdadeira, inspirando-se no exemplo de Fustel de Coulanges, contra a história de partido.
- [...] E mais um passo se traçou na obrigação que a todos nós cabe de restaurar a ‘história’ na História de Portugal. Anima-nos para isso o grande exemplo de Fustel de Coulanges. Tal é a maneira mais eficaz de se restabelecer a perdida unidade moral da Pátria. Borremos a história falsa – a história de partido! História que leva à guerra civil, na frase do mestre eminente de La Cité Antique, foi ela quem dissolveu entre nós os laços intelectuais que nos prendiam à árvore sagrada da Tradição; no seu processo, na corrigenda inexorável que opusermos aos seus embates e às suas calúnias, consiste na hora actual a expressão consciente do verdadeiro patriotismo. Que a nova geração, geração que das ruínas levantará o Portugal Maior, chame a si esse soberano encargo, e decerto que a vitória, abrindo as densas asas drapejantes, se lhe virá oferecer para guia seguro do caminho!
[ 1924 - António Sardinha - A Teoria das Cortes Gerais ]
Sardinha utiliza Fustel de Coulanges para defender que a Monarquia é um sistema verdadeiramente democrático, pois integra o elemento popular e a hereditariedade, como visto na história portuguesa com o papel dos concelhos e do terceiro-braço nas Cortes. Destaca também a importância da crítica ao liberalismo e à sua deturpação do passado, defendendo o rigor metodológico.
- [...] A história falsificada constitui hoje para a pedagogia republicana a razão intelectual da consolidação do regime. E o terreno em que os bons soldados da nossa tradição católica e monárquica necessitam de aceitar o combate. A pátria não é só a inviolabilidade do solo em que se nasceu. É também a integridade da sua conformação hereditária. Ora entre nós não existe o conceito moral de pátria. O conceito moral de pátria é determinado pelo reconhecimento devido ao património das gerações que passaram. Criminosamente não é isso o que sucede em Portugal. A história em Portugal ensina-nos a odiar a Igreja e a Realeza, sem a acção convergente das quais nós não teríamos subsistido autónomos na nossa pequenez. Destrói-se assim aquela unidade interior em que a consciência colectiva de um povo carece de estabilizar-se. É o que há de mais antinacional, a nossa história! A valia de D. João IV sobre a letra dos manifestos espalhados na Europa pelo oiro castelhano. Trata D. João VI como Junot o trataria, ao ver sumir-se a armada que levava para o Brasil na segurança da dinastia a segurança da nossa independência. Em compensação canoniza mártir a Gomes Freire e chora lágrimas de sangue por El-Rei D. Manuel I nos haver livrado da escravidão económica, livrando-nos energicamente dos Judeus. É bem uma história que conduz à guerra civil – na frase definitiva de Fustel de Coulanges.
- [...] Eu sei que se acusa a Idade Média principalmente pela incompreensão do feudalismo. É a exploração sentimental da mentalidade jacobina em nome das misérias do servo-da-gleba. O carácter deste estudo não me permite que eu ponha o problema em toda a limpidez da verdade. Lembro, porém, que o servо-da-gleba era mais feliz do que o operário de hojе, pois dispunha de um tecto para se recolher e de uma geira de terra com que se sustentar. Na anarquia que sucedera à queda do império romano, a guerra tornou-se de direito comum. Desaparecera a autoridade com o desaparecimento de César. A Igreja vai ao encontro dos bárbaros, mas momentos há em que parece soçobrar diante da onda avassaladora. A confusão gera a confusão. Tudo se desfaz e nada se refaz. Os campos não se cultivam, as lutas privadas semeiam-nos de cadáveres insepultos. A conversão de Clóvis é um sinal de promessas distantes. A instabilidade volta depressa, no entanto, como voltou em seguida à tentativa heróica de Carlos Magno, procurando enfaixar a sociedade nas formas ecuménicas de Roma decaída. Há que esperar ainda para que do conflito de tantos elementos heterogéneos resulte a equação definitiva. Agora são os Húngaros, são os Normandos, são os Saxões – uma babilónia de povos que retalham e devastam a Aquitânia, a Frância, a Bretanha. «O traço distintivo desta épоса – fala Fustel de Coulanges, é que se treme diariamente pelo lar, pelo pão, pela mulher e pelos filhos». A protecção surge, como na noite recuada dos tempos, um rudimento de força que se tornará autoridade. A família exerce o lugar do Estado que não existe. E combinando-se com os diversos factores introduzidos no organismo social por mercê das circunstâncias, da posse da terra extrai os fundamentos da sociedade feudal. É a este critério que carecemos de examinar o problema da servidão da gleba.[ 1924 - António Sardinha - A Teoria das Cortes Gerais ]
- [...] Com a mais acertada visão dos factos, Fustel de Coulanges afirmava que o único sistema político a que se poderia atribuir uma feição democrática era, sem receios de paradoxo, a Monarquia. Não é preciso delimitar o insigne historiador. Claro que não seria o de um governo de opinião, teúdo e manteúdo pelos sofismas miseráveis da intitulada «vontade nacional». Fustel não ignorava que os governos de opinião foram sempre, em todos os tempos, governos oligárquicos. Foram-no na Grécia clássica, foram-no na antiga Roma, como hoje o são nas aplaudidas democracias contemporâneas. Na Grécia a maioria do povo gemia na escravidão, enquanto o acesso à gerência e ao debate das coisas públicas se restringia a um número muito reduzido de privilegiados. Apesar disso, a instabilidade natural dos regimes de sufrágio levou a Grécia à perda da sua autonomia, embora aí a acção do Estado se circunscrevesse apenas ao conceito político de «cidade». [ 1924 - António Sardinha - A Teoria das Cortes Gerais ]
- [...] Outra não era a nossa Monarquia. Suscitada como órgão coordenador e necessário quando a nacionalidade surge de uma rede miúda de behetrias e outras agremiações agrárias, ela resulta igualmente da mesma combinação feliz da hereditariedade com a representação. Verifica-se a agudeza crítica de Fustel de Coulanges, ao apresentar a ordem monárquica como sendo a única verdadeiramente democrática. Dera-lhe entre nós razão de ser a actividade profunda dos concelhos na formação da Pátria. Na luta imediata contra o Leonês e contra o Moiro, o aspecto guerreiro prima a todas as outras manifestações da vida do Estado. Mas tão forte se sentia à raiz da nossa Realeza o elemento popular em que se fundamentava, que, provado e contraprovado o carácter apócrifo das cortes de Lamego, sem aludir já às que supostamente o conde D. Henrique reunira em Guimarães à volta de 1095, os representantes do terceiro-braço figuram como de direito logo no século XIII, reinando D. Afonso III, nas cortes de Leiria (1254) e de Santarém (1263). Antes houvera, como certas, a de D. Afonso II em Coimbra, no ano de 1211. Atravessava-se então um período em que uma forte tendência senhorial tendia a fortalecer-se entre nós. [ 1924 - António Sardinha - A Teoria das Cortes Gerais ]
- [...] Verdadeiro continuador do pensamento de seu pai, o Bolonhês, uma vez sentado no trono, contemporiza a princípio, para depois cortar à vontade, com golpe certeiro e eficaz. Verifica-se agora, mas já plenamente, a tentativa de D. Afonso II. É apoiando-se no povo, nas camadas rudes e obscuras dos municípios, que a Realeza se engrandece e radica. Aqui, como em toda a parte – segundo a feição democrática, conferida, como já notámos, por Fustel de Coulanges ao princípio monárquico. A natureza rural e foraleira da nova monarquia desenha-se fortemente, tomando, já senhora dos seus destinos, o caminho rasgado do futuro. Em discórdias sucessivas com os potentados do Reino, D. Afonso III obtém a harmonia necessária ao bem comum, pela virtude sobrepujante da Realeza. Nas cortes de Leiria de 1254, intervêm, como colaboradores da vida nacional, os representantes dos concelhos. Realizava a união dos dois elementos de que Portugal brotara – o elemento populacional, factor dinâmico, raça ou grei, como quiserem; e o elemento estático, organização ou monarquia, traduzindo finalidade e continuidade. Tal é o segredo fecundo de que deriva a existência da pátria e de cuja inviolabilidade depende ainda, sem dúvida, a sua grandeza vindoira. [ 1924 - António Sardinha - A Teoria das Cortes Gerais ]
[ O velho Teófilo ]
- [...] Não é de fugida que essa figura de demi-savant se consegue reduzir à fragilidade das suas linhas bem transitórias. Mas assinalando a fraqueza dos seus métodos críticos, o crime de Teófilo denuncia-se mais amplamente na forma como ele pratica a história do seu país. Acabo de reler, para me retemperar de serenidade, as páginas notabilíssimas de Fustel de Coulanges sobre «La manière d’écrire l’histoire en France et en Allemagne». Fustel traçava-as depois da derrota de 71, atribuindo o desastre fundamentalmente ao carácter antinacional da história francesa. «Escrever a história de França – observa o historiador – era uma forma de trabalhar por um partido e de combater um adversário.» É como Teófilo, imbuído de rancores românticos contra Bispos e contra Reis, se alevanta em juiz implacável do passado da sua pátria, que perde para ele o significado de uma realidade eterna, para só lhe aparecer como o pretexto de uma bandeira de partido.
[ Pátria e Monarquia in Na Feira dos Mitos]
- [...] Este problema da identificação da Pátria com a Monarquia, ninguém o colocou melhor do que o insigne Alberto Sampaio. Em nota à sua monumental monografia – As ‘vilas’ do norte de Portugal – escreve esse malogrado espírito que entre nós foi o único tocado pela influência salutar de Fustel de Coulanges: «Formado pela educação histórica, é ele (o génio da raça, na sua própria frase), quem organiza a vida social; sobre esta, nada pode a acção do governo, decisiva pelo contrário na vida nacional.» De facto, assim é. A aptidão comunitária da gente que subsistiu, através de tantas invasões no noroeste peninsular, veio, pelo andar dos séculos, a traduzir o belo instinto nacionalista, que tornou possível a formação de Portugal. No entanto, as qualidades naturais da raça não vingariam nunca, se às tendências expansivas o Estado não acabasse por lhes conferir uma finalidade e uma consciência. É aqui que a Monarquia intervém, realizando pelo egoísmo dinástico a consolidação definitiva da Pátria, saída já do protoplasma primitivo e entrada enfim na sua fase de diferenciação jurídica e política.
[ O Sul contra o Norte]
- [...] O mestre altíssimo que foi Fustel de Coulanges fala-nos com frequência do que ele definia por ‘guerra civil’ na história. Pois é um gérmen funesto de guerra civil que a teoria de Basílio Teles introduz na nossa história, quebrando com os seus subjectivismos superficiais e novelescos a unidade moral que se deve à ideia de Pátria.
[1923 - Almas Republicanas ]
- [...] Exactamente porque os integralistas se têm como «almas republicanas» é que a instituição monárquica não é para eles um detalhe decorativo, ou episódio de museu. Sustentando uma teoria imprevista sobretudo porque remexia de alto a baixo os conceitos estabelecidos, Fustel de Coulanges opinava que o verdadeiro regime democrático (para Fustel, «democracia» correspondia ao «republicanismo» do senhor de Bonald) era a Monarquia, enquanto que a República era o regimen aristocrático (ou oligárquico) por excelência. Fundamentava o autor de La cité antique a sua teoria com os ensinamentos da antiguidade clássica, em que a tirania e o cesarismo foram governos conscientemente populares, não sucedendo o mesmo com as situações republicanas saídas de castas fechadas e absorventes, qual aconteceu na Idade Média e no advento do Absolutismo, com as monarquias europeias, centralizando, para arrancar as camadas humildes às consequências opressivas da dispersão da soberania pelos poderosos do sangue e da propriedade. O mesmo ocorre na nossa época, mudando um pouco os nomes às coisas.
[1924 - Teoria do Município ]
- [...] Eis como o sempre citado Adolfo Posada concebe e formula o problema da Cidade. Não o esmiuçaremos nós aqui em harmonia com o relevo que ele está assumindo de hora para hora nos domínios da sociologia. Para nós é apenas uma faceta de um tema mais amplo e mais permanente: o localismo. Claro que, ao falar-se na Cidade, como um derivado do individualismo contemporâneo, distinguimo-la perfeitamente da Polis – da Cidade Antiga, com os seus lares e altares, de que Fustel de Coulanges nos ressuscitou a alma e a dinâmica num livro inolvidável. A Cidade de hoje, sem raízes nem fins que excedam os horizontes da vida quotidiana, não é mais que um recurso artificial do Estado para preencher o vazio que vai dele ao cidadão-átomo da sua soberania. Saída, portanto, das falsas condições em que a actividade do Estado se debate nos nossos tristes dias de decadência, a sua existência nem por isso deixa de ser importante para a demonstração do valor do localismo. E é agora o que unicamente nos importa.
[ 1924 - António Sardinha - A Aliança Peninsular ]
- [...] "o insigne Alberto Sampaio, que foi bem o nosso Fustel de Coulanges."
[ As quatro onças de ouro in Da hera nas Colunas]
- [...] Como comentário adequado oiçamos nesta altura Fustel de Coulanges. «Notre patriotisme – pondera num trecho célebre o eminente historiador francês – ne consiste, le plus souvent, qu’à honnir nos rois, à detester notre aristocratie, à maudire de nos institutions... Le véritable patriotisme c’est l’amour du passé, c’est le respect pour les générations qui nous ont précédés. Nos historiens ne nous apprennent qu’à les maudire, et ne nous recommandent que de ne pas leur rassembler. Ils brisent la tradition française et ils s’imaginent qu’il restera un patriotisme français.» [O nosso patriotismo – pondera num célebre excerto o eminente historiador francês – consiste, na maior parte das vezes, apenas em injuriar os nossos reis, em odiar a nossa aristocracia, em amaldiçoar as nossas instituições… O verdadeiro patriotismo é o amor ao passado, é o respeito pelas gerações que nos antecederam. Os nossos historiadores apenas nos ensinam a amaldiçoá-los e apenas recomendam que não os reunamos. Rompem com a tradição francesa e imaginam que permanecerá um patriotismo francês.] Eis uma epígrafe que assenta magnificamente sobre todo ou quase todo o labor dos nossos historiadores, desde o romantismo à data de hoje. Nem Herculano escaparia ao juízo recto de Fustel de Coulanges, se o mestre ilustre da Histoire des institutions politiques de l’ancienne France houvesse de se pronunciar também acerca da maneira como se praticava e compreendia a história em Portugal. Se insisto em semelhante matéria, é pela incomparável importância que lhe atribuo, mormente na hora actual em que Portugal, destroçado e vendido pela insânia revolucionária, pouco mais consegue ser do que uma deprimida expressão geográfica. Inquirir das causas que nos trouxeram a tamanha queda espiritual é pôr-nos, pelo menos, em situação de reparar os males que porventura sejam susceptíveis de reparo. E não é senão pela formação de uma consciência nacional que nos falta, não é senão pelo nosso absoluto reaportuguesamento que as vias de salvação se nos hão-de abrir; à história pertence uma acção decisiva na obra de resgate, que tanto se deseja e já se acentua fortemente; mas à história, restituída à sua limpidês original – à dignidade que o Liberalismo lhe roubou, tornando-a num mísero panfleto de partido. [ As quatro onças de ouro in Da hera nas Colunas]
[ Medicina e História - D. João II in Da hera nas Colunas]
- [...] Quem seguir com o cuidado e o enlevo que semelhante leitura nos merece as deduções rigorosas de Alberto Sampaio na sua monumentalíssima monografia, As ‘vilas’ do norte de Portugal, aí aprenderá que, já antes, o Cristianismo transformara as agrupações agrícolas da romanização na «paróquia» ou «freguesia» – espécie de comuna sem carta, segundo a designação inspirada do nosso Fustel de Coulanges, como a Alberto Sampaio me é agradável chamar-lhe.Meu querido amigo:
- Pergunta-me o meu querido amigo com a sua inexorável concisão de sábio e de professor se D. João II morreu envenenado. Ainda que eu não conceda à história foros exclusivos de ciência, porque, nos domínios dela, entra, sem dúvida, em grau mais que apreciável, a predisposição psicológica de quem a cultiva, pertencem-lhe, no entanto, métodos e processos, que não se compadecem com essa espécie de diagnóstico retrospectivo. Por isso entendo, acerca da consulta que o meu prezado amigo me dirige, que, desde que para resolvê-la nos faltam as necessárias bases objectivas (Fustel de Coulanges – o grande mestre – inquiria sempre, quando uma questão se suscitava, se havia, ou não, um texto com que solucioná-la ou impugná-la), toda a resposta que porventura lhe desse, não passaria de uma conjectura mais ou menos feliz, de uma hipótese arquitectada com maior ou menor habilidade.
[ Os Gamas in Da hera nas Colunas]
- [...] Perante uma história tão contraditória e tão pervertida na sua essência – valha-nos Fustel de Coulanges com os seus conselhos de mestre!
[1929 - Purgatório das Ideias - Ensaios de Crítica ]
- (...] Vem de seguida – e é o encargo que mais de perto nos toca – a revisão da história, corrompida inteiramente pelo critério sectário do romantismo político. Aprendamos em Fustel de Coulanges o sentido exacto da história! A história não é de modo nenhum um panfleto de partido. E o que tem sido a história em Portugal senão uma diatribe odienta, desde a Dedução Cronológico-analítica, até às várias «histórias», de mil e um folhetinistas que presumem de historiadores? A essa acção negativa no campo da história correspondamos nós – como supremo dom da virtude de entender – com um trabalho de ampla e higiénica crítica. A Crítica é a claridade máxima na compreensão – é a própria Inteligência, alargando-se para completar a realidade ou vivificá-la ainda mais. Só pela Crítica nós nos reapossaremos da nossa velha tradição de cultura! Só pela Crítica nos poderemos emancipar de sofismas e de superstições, restituindo-nos ao antigo vigor intelectual da Raça!
. [ 1931 - De Vita et Moribus]
- [...] Discípula de Fustel de Coulanges, Eugénia de Montijo não só encantou pela sua formosura, como encantou também pela sua inteligência. Entre os seus amigos dedicados, apontavam-se Merimel e Lesseps. A Imperatriz presidia à inauguração do canal do Suez. E é Lesseps, depois, auxiliado por um modesto dentista norte-americano, quem lhe protege a fuga, quando, caído o Império, a população rodeia as Tulherias, uivando insultos contra l’Espagnole
[ 1925-11-15 ed. - Gama Barros ]
Gama Barros é apresentado como continuador do método experimental de Fustel de Coulanges, promovendo o rigor e a continuidade da tradição na historiografia portuguesa.
- [...] Compreende-se já como, pelo exame directo das fontes, sem criticismos vesgos de permeio, seja Gama Barros quem mais de perto venha a contribuir para a grande seara de esperança em que labutamos. Ao traçar o esquema do seu pensamento filosófico, introduzindo nos domínios da história nacional os processos experimentais – consinta-se a designação – de que Fustel de Coulanges foi a personificação perfeita, como um biólogo que nos demonstra a unidade íntima do ser, Gama Barros ensinou-nos a descobrir, contra os subjectivismos negativistas das gerações precedentes, a unidade íntima da Pátria. / Eis como Gama Barros se torna um professor de lusitanismo, não só pela disciplina escrupulosa que nos comunica às inteligências, como também pelo sentido, que constantemente nos transmite, da continuidade viva da Tradição. E tudo porque nenhum como ele restaurou, entre nós, aquilo que Fustel de Coulanges chamava, com uma nobilíssima imagem, a «castidade da história». / Não é que se pretenda diminuir a alta envergadura de Herculano e o significado inconfundível da sua personalidade. O mestre dos Opúsculos, verdadeiro ressuscitador do espírito e da dinâmica dos nossos municípios afonsinos, ganhou para si o recorte supremo dos medalhões clássicos. Homem de partido, porém, em mais de um problema litigioso da nossa história como de partido se abandonou, passivamente, à ditadura dos seus preconceitos. Dispondo da serenidade de um Fustel de Coulanges, Gama Barros consegue, pelo contrário, libertar-se das paixões e das preferências da sua época, legando-nos um monumento perdurável, como se fosse fundido em bronze de epopeia, na sua História da administração pública em Portugal. / Evidentemente que se me torna impossível fixar aqui as linhas dominantes da enorme construção de Gama Barros. O que importa é assinalar-lhe o incansável e iluminado esforço, graças ao qual, no mundo plácido das coisas do bom-saber, Portugal é ainda, lá fora, considerado como europeu.
[ 1934 - António Sardinha - A Prol do Comum ]
- [...] Eu já uma vez o disse e parece-me que não é demais repetir que a Pátria não é apenas uma ideia com mera significação territorial. É antes de mais nada um património moral de tradições e de aspirações, ligado ao solo em que os nossos Mortos repousam. Ser patriota não é manter somente a integridade dos limites físicos em que a Pátria se emoldura. É principalmente não atentar contra a inalterabilidade de uma alma colectiva, que, fundada na continuidade da história e na consciência de um povo, constitui o que em verdade se pode chamar o génio de uma nacionalidade. Ninguém colocou melhor o problema do que o ilustre historiador francês Fustel de Coulanges, ao escrever na cláusula célebre do seu testamento: «O patriotismo exige que, quando se não pense como os antepassados, se respeite ao menos o que eles têm pensado.» Porque o patriotismo é assim como Fustel de Coulanges o definia nas disposições da sua última vontade, é que o autor de La Cité Antique se mandava enterrar catolicamente, embora não fosse nem um crente nem um praticante.
[ A Festa do Trabalho - 1934 - António Sardinha - A Prol do Comum ]
- (...] Quando Fustel de Coulanges apontava à Realeza uma feição democrática, fazia-o, como historiador, aludindo às suas qualidades de coordenação e de equilíbrio, pelas quais a gente rumorosa das Comunas mediévicas entrou no jogo livre das nacionalidades. Já em Roma o Império, embora de alicerces falsos, pretendera acudir à mesma necessidade. As tendências construtivas do sindicalismo moderno comprovam-nos como Fustel via claro, ao reconhecer na Monarquia a única força capaz de realizar e garantir a paz social.
- A cada hora eu verifico mais os resultados funestos da perversão da nossa história. Ao sentir bem nítida a ingratidão inconsciente com que se caluniava um dos reis a quem Portugal deve mais, porque lhe deve a sua independência, pelo meu espírito deslizaram, encorpadas um momento, as palavras memorandas de Fustel de Coulanges. «O nosso patriotismo não consiste as mais das vezes senão em odiar os nossos reis, em aborrecer a nossa aristocracia, em difamar as nossas instituições», escreve o grande mestre da La Citè Antique no seu admirável trecho «De la manière d’écrire l’histoire en France et en Allemagne». O verdadeiro patriotismo é o amor do passado. É o respeito pelas gerações que nos precederam. Os nossos historiadores não nos ensinam senão a amaldiçoá-las e só nos recomendam que não nos pareçamos com elas. Quebram assim a tradição francesa e imaginam que fica ainda um «patriotismo francês»! / Quebrada a nossa tradição, quais as razões do nosso patriotismo? Razões frágeis de ocasião, sem continuidade nem raízes. A nossa história, moldada no critério individualista, é a responsável do longo eclipse da consciência nacional em que parecemos sepultos. Sem a compreensão do passado, como viver a vida superior de uma finalidade colectiva, que é a condição indispensável para que a existência de um povo seja duradoira e fecunda? / Com Fustel de Coulanges no pensamento, eis-me de novo encarando o caso de D. João VI. [ 1934 - António Sardinha - A Prol do Comum ]
[ A Lição do Brasil in [ 1934 - António Sardinha - A Prol do Comum ]
Sardinha utiliza as reflexões de Fustel sobre os historiadores franceses para criticar o papel de Alexandre Herculano e Oliveira Martins na difusão de uma história revolucionária que contribuiu para o declínio do espírito patriótico em Portugal.
- [...] Corrompida inteiramente a compreensão da nossa história, é lógico que o ressurgimento comece, devolvendo-a ao seu significado exacto. Fora larga e profunda a desnacionalização levada a cabo pelo Liberalismo, reflectindo bem na sua pertinácia o selo diabólico que já Joseph de Maistre denunciara na Revolução. Algumas das mais erguidas figuras de Portugal, como Alexandre Herculano, como Oliveira Martins, serviram como ninguém essa conspiração contra o Passado, de que a mentalidade romântico-revolucionária avidamente se nutriu. Quando, na verdade, medito em algumas páginas de Alexandre Herculano ou de Oliveira Martins, enchem-se para mim de dolorosa ilustração as reflexões de Fustel de Coulanges sobre as responsabilidades dos historiadores franceses na decadência e declive do espírito patriótico no seu país. «Dans la longue lutte du sacerdoce contre l’empire – escreve o mestre insigne – nous étions pour ceux qui pillaient l’Italie et exploitaient l’Église. Mais nous maudissions les guerres que Charles VIII et François I firent au-delà des Alpes... Nous étions pour la Réforme allemande, qui arrêta et ralentit l’essor de la liberté dans l’Europe entière... Nous accusions Louis XV d’avoir fait la guerre à l’Allemagne et nous négligions de voir, dans les documents authentiques, qui était lui, au contraire, qui avait été attaqué trois fois par elle... Nos historiens ont tous été pour Frédéric II contre Louis XV.» E num magnítico remate, Fustel resume-se com vigor e com eloquência: «Notre patriotisme ne consiste, le plus souvent, qu’á honnir nos rois, à détester notre aristocratie, à médire de nos institutions.» [Na longa luta do sacerdócio contra o império – escreve o mestre insigne –, apoiámos aqueles que saquearam a Itália e exploraram a Igreja. Mas amaldiçoámos as guerras que Carlos VIII e Francisco I travaram para lá dos Alpes... Apoiámos a Reforma Alemã, que interrompeu e retardou a ascensão da liberdade em toda a Europa... Acusámos Luís XV de ter declarado guerra à Alemanha e negligenciámos ver, nos documentos autênticos, quem, pelo contrário, tinha sido atacado três vezes por ela... Os nossos historiadores foram todos a favor de Frederico II contra Luís XV. Num remate magnífico, Fustel retoma com vigor e eloquência: "O nosso patriotismo consiste, na maioria das vezes, apenas em odiar os nossos reis, em odiar a nossa aristocracia, em dizer mal das nossas instituições."] Eis, sem paixão sectária, o que sucede com Alexandre Herculano, obcecado em mais de um problema transcendente pelo seu anticlericalismo de rabona-de-briche. Não acontece menos com Oliveira Martins que, valendo-se de uma bem mobilizada erudição, nos deixou no pernicioso panfleto de partido que intitulou História de Portugal, alimento abundantíssimo em que se refastelar o semi-analfabetismo odiento da nossa jacobinocracia.
JMQ
(revisto em 17.12.2024)