Um distorcido perfil de Francisco Rolão Preto
José Manuel Quintas
Franco Nogueira, Salazar - Volume II - Os tempos áureos (1928-1936), Coimbra, Atlântida Editora, 1977, p. 191.
Alberto Franco Nogueira, cronista de O Diabo e mais tarde ministro do Estado Novo, já havia tentado diminuir a figura e a obra de António Sardinha no seu livro As Crises e os Homens (Ática, 1971), atribuindo-lhe a defesa do Iberismo. No segundo volume da sua biografia de Salazar — Salazar, Volume II: Os Tempos Áureos (1928-1936) (Coimbra, Atlântida Editora, 1977) —, voltou a atacar o Integralismo, desta vez ao citar o folheto de Francisco Rolão Preto, Salazar e a Sua Época (Lisboa, Janeiro de 1933), para "caracterizar um perfil de Salazar segundo os nacionais-sindicalistas" (p. 191).
Uma citação inexacta
Segundo Nogueira, Rolão Preto teria sustentado que "os chefes das nações que se estão libertando das ruínas europeias DEVEM VESTIR, como signo da sua fé nas virtudes militares, «uma farda ou uma camisa de combate»".
Trata-se de uma citação inexacta, infiel tanto às palavras como à intenção do autor. O que Rolão Preto escreveu foi: "Os chefes das nações que se estão libertando das ruínas europeias VESTEM por toda a parte, como signo da sua fé nas virtudes militares, uma farda ou uma camisa de combate." E acrescentou, numa interrogação omitida por Nogueira: "Quererá Salazar, dentro do seu temperamento, aceitar a missão imposta pela sua época?"
A diferença não é estilística. Onde Rolão Preto constata um facto do seu tempo — a difusão europeia da farda como símbolo — e pergunta se Salazar aceitará a missão que essa época lhe impõe, Nogueira transforma a constatação numa imposição normativa dirigida ao próprio Salazar. A troca do indicativo ("vestem") pelo imperativo ("devem vestir") não é um pormenor gramatical: inverte o sentido da frase, de descrição para exigência.
Não bastou a Nogueira alterar as palavras: distorceu também o sentido do retrato que Rolão Preto traçava. Segundo o biógrafo, Rolão Preto teria "acusado" Salazar de ser um financeiro, um economista, um homem de "mentalidade ponderada e tranquila". Não houve, porém, qualquer acusação — antes o reconhecimento dessas mesmas qualidades, numa época em que outros diziam ter "mais fé nas virtudes financeiras do que nas suas qualidades de economista". Rolão Preto foi, aliás, mais longe do que essa distinção sugere: Salazar era, escreveu, "não só o grande financeiro que todo o país aprecia, mas o economista".
O contraste com Mussolini
Nas entrevistas a António Ferro, Salazar revelara-se um admirador sincero de Mussolini, sem contudo o apresentar como modelo. Ao reconstruir esse perfil a partir do texto de Rolão Preto, Nogueira volta a afastar-se da fonte, sugerindo que esta teria negado a Salazar a capacidade de assomar a uma varanda e, com a mão erguida ao céu à maneira romana, fazer ressoar "o sopro heróico do espírito da raça" — ao jeito de Mussolini.
No comentário original, Rolão Preto descreve de facto o triunfo político de Mussolini, evocando os seus métodos e um discurso proferido das varandas do Palácio Chigi — mas sem estabelecer qualquer comparação com Salazar, decerto por patriotismo, mas também por decoro. Imaginar o chefe do governo português assomando a uma varanda, erguendo a mão à romana e proclamando com voz de falsete a certeza da vitória, só podia resultar em comédia.
A que propósito serviu esta distorção
A tese difundida por Salazar e pelo seu círculo, ao proibir o Nacional-Sindicalismo, foi a de que este se inspirara "em certos modelos estrangeiros" — a mesma acusação, aliás, feita ao Integralismo Lusitano quanto à Action française, num expediente habitual dos seus adversários políticos, de Raúl Proença a Carlos Ferrão, João Medina e Costa Pinto. Negar o carácter nacional do ideário de um nacionalista é a forma mais elementar de o desqualificar — quando não de o insultar. Os nacional-sindicalistas de Rolão Preto responderam devolvendo a acusação: "O Movimento N. S. nunca se inspirou, nem tinha que inspirar-se em ideologias de modelos estrangeiros, fundada como foi por nacionalistas portugueses, cuja doutrina é anterior, não só à dos homens do Governo e à sua «União Nacional» — o que seria pouco em verdade — como também à doutrinação fascista e nazista, ou a qualquer outro aspecto de Revolução Nacionalista na Europa."
Convém não esquecer, entretanto, que em 1934 e 1935 o próprio governo de Salazar conviveu, paredes-meias, com o fascismo italiano. A União Nacional — partido único do regime — estava instituída; a Acção Escolar de Vanguarda (AEV), destinada à juventude, fez-se representar por António Eça de Queirós no Congresso da "Internacional Fascista" (CAUR), em Montreux, em Dezembro. Em 29 de Abril de 1935, a estreia do filme Camicia Nera (G. Forzano, 1933) no Teatro São Luís contou com a presença do Presidente Óscar Carmona, do chefe do governo Oliveira Salazar, de Mesquita Guimarães, de vários ministros e de duzentos vanguardistas uniformizados de "camisa verde". No ano seguinte seria criada a Mocidade Portuguesa, decalcada da Opera Nazionale Balilla italiana e da Hitlerjugend alemã.
Viria depois a Segunda Guerra Mundial e a derrota dos fascismos — com o governo de Salazar a reciclar-se ao ponto de, em 1949, figurar entre os fundadores da OTAN, organização de defesa militar das democracias.
Nos anos 1970, sobretudo após o 25 de Abril, identificar o Nacional-Sindicalismo com o fascismo adquiriu um novo significado para quem tivesse servido no governo de Salazar: convinha então sustentar que o fascismo português existira de facto, mas não no Estado Novo — antes nos "camisas azuis" de Rolão Preto, movimento que o próprio Salazar eliminara. Contra a identificação, feita pelos partidos signatários do Pacto MFA-Partidos, entre Salazarismo e fascismo, várias figuras do antigo regime difundiram a ideia de que Salazar triunfara sobre os fascistas — entre os quais se contaria Rolão Preto. José Hermano Saraiva, através da sua divulgação televisiva da História de Portugal, chegou ao ponto de qualificar Salazar de "anti-fascista".
Em 1977, na sua biografia de Salazar, Franco Nogueira é dos primeiros autores a forçar as fontes primárias a sugerir que Rolão Preto seria o "fascista português": a um fascista não bastaria que o seu chefe vestisse farda ou "camisa de combate" — seria um dever; um fascista não podia manifestar qualquer apreço por Salazar, devendo antes rejeitar como aberração a sua "mentalidade ponderada e tranquila"; em suma, um fascista deploraria em Salazar o não ser um "líder cesarista, espalhafatoso, galvanizador — por não copiar Mussolini", como diria pouco depois João Medina. As pinceladas de distorção introduzidas por Nogueira no retrato de Rolão Preto visavam precisamente construir esse fascista credível — o "fascista" que Salazar teria decidido eliminar.
O que o comentário de Rolão Preto revela, na verdade
O comentário de Rolão Preto às entrevistas de Salazar com António Ferro conta, porém, uma história bem distinta. Por mais de uma vez, Rolão Preto refere Mussolini ao lado de dirigentes bolcheviques como Trotsky e Lenine:
"O Duce cria um movimento que galvaniza a Itália e à frente dele conquista o Estado, depois de ter partido a espinha dorsal ao inimigo. Mil batalhas nas ruas e na imprensa; Trotsky, o criador e a alma do golpe de Estado de Outubro que deu o poder ao bolchevismo, é, como o Duce, um homem de acção (...)"
E mais adiante, junto de outras figuras históricas:
"Sidónio, como Mussolini, como Kemal Pachá, como Lenine, ao contrário [de Salazar, o "Ditador das Finanças"] empunha a bandeira da sua eleição, ergue-a à altura de ser vista por todo o país e comanda: Quem for por nós que nos siga. Nesta bandeira, está a verdade necessária, sem compromissos entre ela e a mentira. Em frente!"
São todos descritos como "homens de acção" — em contraste deliberado com o chefe do governo português:
"Salazar é o professor calmo, reflectido, que conhece os homens através dos modelos da sua cultura, que os pesa, soma, diminui, divide e multiplica segundo as regras de há muito fixas pelo seu método, pelo seu critério de formalista universitário. Bem? Mal? É assim."
O contraste com Mussolini não é porém o centro do comentário de Rolão Preto. O seu verdadeiro foco eram quatro problemas por resolver: militar, económico, social e político.
No plano militar, urgia prover à defesa externa, num momento em que alarmava "a pobreza do nosso exército diante do vulcão temeroso que é a Espanha nossa vizinha". No plano económico, contestava-se a avareza financeira do ditador perante a "situação desesperada da economia nacional", mesmo à custa do equilíbrio das contas públicas. Foi, contudo, ao tratar do problema social que Rolão Preto traçou a demarcação mais significativa. O critério de Salazar, assente em dicotomias como "proletariado" e "anti-proletariado" — herdeiras de Jaurès, Sambat, Seyés, Haas e Karl Liebknecht —, revelava-se "impermeável aos ensinamentos da revolução industrial moderna". Os conceitos da social-democracia eram já "uma pura ficção": "quem actua no seio das massas operárias, quem manobra nos sindicatos, ou são as influências pessoais de certos chefes burgueses, ou o extremismo violento e absorvente dos comunistas... ou a polícia." Para Rolão Preto, a solução do problema social não estava no Estado nem em qualquer forma de estatismo — nem na linha de Ramada Curto, nem na de Mussolini.
A solução estaria antes no sindicalismo — mas num sindicalismo que Rolão Preto recusa ver decretado do alto: "aqueles que julgam que bastará decretar o sindicalismo para que ele viva e conduza a vida nacional enganam-se redondamente. Não é depois de cem anos de liberalismo económico e social, em que se matou todo o espírito associativo, em que se combateram todos os impulsos da solidariedade profissional por contrários à disciplina dos partidos políticos; não é depois de cem anos de liberal-democracia em que todos nasceram e viveram na desconfiança mútua, no ódio sectário das facções; não é depois de cem anos de permanente desagregação nacional que se vai, a frio e diante da indiferença com que tudo o que vem do Estado é recebido, decretar a vida sindical e corporativa."
Era necessário, antes, continuar a propagar o ideário sindicalista para lá do clamor reivindicativo da mão-de-obra, pugnando pela organização e o voto de todos os trabalhadores, seja qual for a sua função ou categoria.
"É Salazar um chefe político?"
Perante a exigência, naquela conjuntura de inícios de 1933, de uma autoridade política firme e testada, Rolão Preto colocou a pergunta central do seu comentário: "É Salazar um chefe político?"
"Na segunda entrevista a António Ferro, o Ditador das Finanças declara simples e sinceramente que o não é, nem o pretende ser."
A confissão, longe de ser tratada como falha, é lida por Rolão Preto como um traço de carácter: "A confissão tem uma nobreza que cativa. Num país em que tantos são chefes por vaidade, há um homem que o não quer ser por modéstia. Salazar, chefe do governo, é pois apenas o fulcro supremo de uma engrenagem, a cúpula necessária de um edifício que a revolução criou e mantém."
Entre Salazar e os outros ditadores havia, para Rolão Preto, uma diferença essencial: "os outros conquistaram eles o poder, Salazar aceitou que outros lhe conquistassem o lugar mas não deu para isso o seu esforço." O comentário conclui com um repto: "Salazar, para realizar a sua obra política, tem que pôr ousadamente a sua candidatura de chefe nacional, sujeitando-se a todos os riscos, mas colhendo todos os louros da vitória."
O desfecho político
Em Janeiro de 1933, ao comentar as entrevistas de Salazar a Ferro, estava-se ainda nas vésperas do referendo constitucional de Março. No ano seguinte, previam-se eleições para a Assembleia Nacional, com o recenseamento a concluir-se em Julho. Salazar não quis correr riscos: mandou prender e desterrar para Espanha os dois dirigentes integralistas do Nacional-Sindicalismo — Alberto de Monsaraz e Rolão Preto — e, poucos dias depois, proibiu o movimento (29 de Julho de 1934).
O colégio eleitoral único, de lista completa, só seria definido em Novembro, cerca de um mês antes das eleições de 16 de Dezembro. Assentava num conceito totalitário, decalcado da doutrina fascista, expresso sem rodeios no preâmbulo do Decreto-Lei n.º 24.631, de 6 de Novembro de 1934: "a Nação é um todo orgânico superior e diferente dos indivíduos que a compõem em determinado ponto da sua evolução, uma unidade moral política e económica, formando um todo uno com o Estado e com ele integrado." A formulação é próxima da que Mussolini usara para definir o fascismo: "o estado fascista, síntese e unidade de todo valor, interpreta, desenvolve e fortalece toda a vida do povo. Nem indivíduos fora do Estado, nem grupos (partidos políticos, associações, sindicatos, classes)."
Seguiu-se o que os nacional-sindicalistas classificaram como uma farsa eleitoral, garantindo à União Nacional a totalidade dos deputados. Em 1936, no livro Justiça!, Rolão Preto classificaria o Estado Novo nascente como um estatismo totalitário — tão evidente lhe parecia a inspiração do fascismo italiano.
O padrão de omissão na biografia de Nogueira
A distorção do folheto Salazar e a Sua Época não é um caso isolado na biografia de Nogueira. Em várias passagens, a intenção capciosa é manifesta: omite-se sistematicamente o carácter anti-oligárquico, municipalista e sindicalista do movimento nacional-sindicalista, atribuindo-lhe, sem qualquer especificação, "iniciativas de cariz totalitário" e, aos seus comícios, a "exaltação dos movimentos nazi e fascista". Segundo Nogueira, os nacional-sindicalistas faziam a "saudação romana" nos seus desfiles, ao passo que os vanguardistas da AEV — organização do próprio governo — faziam uma saudação "de braço estendido ao alto e palma da mão aberta"; Salazar, por seu lado, teria mantido perante estes últimos um perfil hirto e severo, com as mãos atrás das costas — o que a documentação fotográfica não confirma.
Seguem-se alguns exemplos documentais desse padrão, com remissão para as páginas da edição de 1977:
P. 191-192. O jornal Revolução, n.º 292, de 20 de Fevereiro de 1933, relata o banquete do Parque Eduardo VII, onde Rolão Preto declarou: "Eu, que nunca pedi nada ao Dr. Oliveira Salazar, eu que nada lhe peço, eu que só apareceria distante do Dr. Oliveira Salazar com a cabeça bem erguida digo, a ele que me está ouvindo: Sr. Dr. Oliveira Salazar, oiça V. Exª. a alma nacional que vibra, escute os votos da mocidade portuguesa e, se quer, ALEA JACTA EST." A expressão, atribuída por Suetónio a César ao transpor o Rubicão contra a ordem do Senado, podia ser lida, em Fevereiro de 1933, como um último apelo a Salazar para que se juntasse ao espírito anti-oligárquico da Revolução Nacional de 28 de Maio de 1926 — de que Rolão Preto fora um dos obreiros-chave junto do general Gomes da Costa, e cujo projecto constitucional de 14 de Junho de 1926 assentava numa Câmara de Representantes por delegação directa dos municípios, em contraste com o projecto de Salazar, próximo do modelo oligárquico do grupo da Seara Nova. Dada a proximidade do referendo constitucional, Rolão Preto afirmava ter consigo a alma nacional e a juventude, e mostrava-se disposto a desafiar a oligarquia reunida em torno de Salazar. Nogueira identifica os grupos presentes no banquete — "integralismo lusitano", "nacionalismo português", "meios militares e jornalísticos", "gerações novas" — mas nada diz do discurso de Rolão Preto, limitando-se a acrescentar que "de camisa azul e saudação romana, os nacionais-sindicalistas exaltam os movimentos nazi e fascista" (p. 192).
P. 226. Fernando Martins de Carvalho é descrito, em nota, como "antigo ministro da Monarquia e jurista eminente". Os integralistas referiam antes a sua filiação maçónica e o seu papel — designando-o, sem gralha, "advogafo" — na apropriação pelo Estado dos bens vinculados da Casa de Bragança, aquando da instituição da Fundação da Casa de Bragança (ver José Manuel Quintas, A Fundação da Salazarquia, p. 113).
P. 227. Nogueira atribui a Rolão Preto "iniciativas de cariz totalitário", sem as especificar.
P. 238. Transcrição da minuta da conferência de Salazar com o Chefe do Estado, em Cascais, a 16 de Outubro de 1933, com referência ao tenente Carvalho Nunes, "ardoroso nacional-sindicalista" — o que tudo indica ser exacto.
P. 192 e 263 — o contraste revelador. No Parque Eduardo VII, "de camisa azul e saudação romana, os nacionais-sindicalistas exaltam os movimentos nazi e fascista" (p. 192); no Terreiro do Paço, os "vanguardistas alinhados nas suas camisas verdes" fazem antes uma saudação "de braço estendido ao alto e palma da mão aberta" (p. 263). Convém não esquecer que os vanguardistas da AEV do governo de Salazar estiveram representados por António Eça de Queirós no Congresso de Montreux, em Dezembro de 1934 — tentativa de organização de uma Internacional Fascista promovida pelo governo de Mussolini. A documentação fotográfica disponível — o dirigente da AEV lendo a mensagem da "Vanguarda" a Salazar; a saudação romana dos vanguardistas; o próprio Salazar fazendo a saudação romana — dispensa mais comentários.
Conclusão
O nacional-sindicalismo foi proibido em 29 de Julho de 1934. Depois de preparar o leitor para aquilo que descreve como o "totalitarismo" de Rolão Preto — omitindo sistematicamente os seus propósitos sindicalistas e anti-oligárquicos, herdados da Revolução Nacional de Gomes da Costa —, Franco Nogueira resume, por fim, a versão do próprio Salazar sobre as razões que o levaram a prender e desterrar para Espanha os dirigentes do movimento, Alberto de Monsaraz e Rolão Preto.
Ver também: "A Verdade e a Mentira — A Literatura Capciosa acerca do Integralismo Lusitano"; "1975-07 — Francisco Rolão Preto, Entrevista, 'Não, Não e Não'"; "1934-07-29 — Salazar e a Proibição do Nacional-Sindicalismo" (com o comunicado de resposta do Nacional-Sindicalismo).
21 de Maio de 2024 — J. M. Q.
Uma citação inexacta
Segundo Nogueira, Rolão Preto teria sustentado que "os chefes das nações que se estão libertando das ruínas europeias DEVEM VESTIR, como signo da sua fé nas virtudes militares, «uma farda ou uma camisa de combate»".
Trata-se de uma citação inexacta, infiel tanto às palavras como à intenção do autor. O que Rolão Preto escreveu foi: "Os chefes das nações que se estão libertando das ruínas europeias VESTEM por toda a parte, como signo da sua fé nas virtudes militares, uma farda ou uma camisa de combate." E acrescentou, numa interrogação omitida por Nogueira: "Quererá Salazar, dentro do seu temperamento, aceitar a missão imposta pela sua época?"
A diferença não é estilística. Onde Rolão Preto constata um facto do seu tempo — a difusão europeia da farda como símbolo — e pergunta se Salazar aceitará a missão que essa época lhe impõe, Nogueira transforma a constatação numa imposição normativa dirigida ao próprio Salazar. A troca do indicativo ("vestem") pelo imperativo ("devem vestir") não é um pormenor gramatical: inverte o sentido da frase, de descrição para exigência.
Não bastou a Nogueira alterar as palavras: distorceu também o sentido do retrato que Rolão Preto traçava. Segundo o biógrafo, Rolão Preto teria "acusado" Salazar de ser um financeiro, um economista, um homem de "mentalidade ponderada e tranquila". Não houve, porém, qualquer acusação — antes o reconhecimento dessas mesmas qualidades, numa época em que outros diziam ter "mais fé nas virtudes financeiras do que nas suas qualidades de economista". Rolão Preto foi, aliás, mais longe do que essa distinção sugere: Salazar era, escreveu, "não só o grande financeiro que todo o país aprecia, mas o economista".
O contraste com Mussolini
Nas entrevistas a António Ferro, Salazar revelara-se um admirador sincero de Mussolini, sem contudo o apresentar como modelo. Ao reconstruir esse perfil a partir do texto de Rolão Preto, Nogueira volta a afastar-se da fonte, sugerindo que esta teria negado a Salazar a capacidade de assomar a uma varanda e, com a mão erguida ao céu à maneira romana, fazer ressoar "o sopro heróico do espírito da raça" — ao jeito de Mussolini.
No comentário original, Rolão Preto descreve de facto o triunfo político de Mussolini, evocando os seus métodos e um discurso proferido das varandas do Palácio Chigi — mas sem estabelecer qualquer comparação com Salazar, decerto por patriotismo, mas também por decoro. Imaginar o chefe do governo português assomando a uma varanda, erguendo a mão à romana e proclamando com voz de falsete a certeza da vitória, só podia resultar em comédia.
A que propósito serviu esta distorção
A tese difundida por Salazar e pelo seu círculo, ao proibir o Nacional-Sindicalismo, foi a de que este se inspirara "em certos modelos estrangeiros" — a mesma acusação, aliás, feita ao Integralismo Lusitano quanto à Action française, num expediente habitual dos seus adversários políticos, de Raúl Proença a Carlos Ferrão, João Medina e Costa Pinto. Negar o carácter nacional do ideário de um nacionalista é a forma mais elementar de o desqualificar — quando não de o insultar. Os nacional-sindicalistas de Rolão Preto responderam devolvendo a acusação: "O Movimento N. S. nunca se inspirou, nem tinha que inspirar-se em ideologias de modelos estrangeiros, fundada como foi por nacionalistas portugueses, cuja doutrina é anterior, não só à dos homens do Governo e à sua «União Nacional» — o que seria pouco em verdade — como também à doutrinação fascista e nazista, ou a qualquer outro aspecto de Revolução Nacionalista na Europa."
Convém não esquecer, entretanto, que em 1934 e 1935 o próprio governo de Salazar conviveu, paredes-meias, com o fascismo italiano. A União Nacional — partido único do regime — estava instituída; a Acção Escolar de Vanguarda (AEV), destinada à juventude, fez-se representar por António Eça de Queirós no Congresso da "Internacional Fascista" (CAUR), em Montreux, em Dezembro. Em 29 de Abril de 1935, a estreia do filme Camicia Nera (G. Forzano, 1933) no Teatro São Luís contou com a presença do Presidente Óscar Carmona, do chefe do governo Oliveira Salazar, de Mesquita Guimarães, de vários ministros e de duzentos vanguardistas uniformizados de "camisa verde". No ano seguinte seria criada a Mocidade Portuguesa, decalcada da Opera Nazionale Balilla italiana e da Hitlerjugend alemã.
Viria depois a Segunda Guerra Mundial e a derrota dos fascismos — com o governo de Salazar a reciclar-se ao ponto de, em 1949, figurar entre os fundadores da OTAN, organização de defesa militar das democracias.
Nos anos 1970, sobretudo após o 25 de Abril, identificar o Nacional-Sindicalismo com o fascismo adquiriu um novo significado para quem tivesse servido no governo de Salazar: convinha então sustentar que o fascismo português existira de facto, mas não no Estado Novo — antes nos "camisas azuis" de Rolão Preto, movimento que o próprio Salazar eliminara. Contra a identificação, feita pelos partidos signatários do Pacto MFA-Partidos, entre Salazarismo e fascismo, várias figuras do antigo regime difundiram a ideia de que Salazar triunfara sobre os fascistas — entre os quais se contaria Rolão Preto. José Hermano Saraiva, através da sua divulgação televisiva da História de Portugal, chegou ao ponto de qualificar Salazar de "anti-fascista".
Em 1977, na sua biografia de Salazar, Franco Nogueira é dos primeiros autores a forçar as fontes primárias a sugerir que Rolão Preto seria o "fascista português": a um fascista não bastaria que o seu chefe vestisse farda ou "camisa de combate" — seria um dever; um fascista não podia manifestar qualquer apreço por Salazar, devendo antes rejeitar como aberração a sua "mentalidade ponderada e tranquila"; em suma, um fascista deploraria em Salazar o não ser um "líder cesarista, espalhafatoso, galvanizador — por não copiar Mussolini", como diria pouco depois João Medina. As pinceladas de distorção introduzidas por Nogueira no retrato de Rolão Preto visavam precisamente construir esse fascista credível — o "fascista" que Salazar teria decidido eliminar.
O que o comentário de Rolão Preto revela, na verdade
O comentário de Rolão Preto às entrevistas de Salazar com António Ferro conta, porém, uma história bem distinta. Por mais de uma vez, Rolão Preto refere Mussolini ao lado de dirigentes bolcheviques como Trotsky e Lenine:
"O Duce cria um movimento que galvaniza a Itália e à frente dele conquista o Estado, depois de ter partido a espinha dorsal ao inimigo. Mil batalhas nas ruas e na imprensa; Trotsky, o criador e a alma do golpe de Estado de Outubro que deu o poder ao bolchevismo, é, como o Duce, um homem de acção (...)"
E mais adiante, junto de outras figuras históricas:
"Sidónio, como Mussolini, como Kemal Pachá, como Lenine, ao contrário [de Salazar, o "Ditador das Finanças"] empunha a bandeira da sua eleição, ergue-a à altura de ser vista por todo o país e comanda: Quem for por nós que nos siga. Nesta bandeira, está a verdade necessária, sem compromissos entre ela e a mentira. Em frente!"
São todos descritos como "homens de acção" — em contraste deliberado com o chefe do governo português:
"Salazar é o professor calmo, reflectido, que conhece os homens através dos modelos da sua cultura, que os pesa, soma, diminui, divide e multiplica segundo as regras de há muito fixas pelo seu método, pelo seu critério de formalista universitário. Bem? Mal? É assim."
O contraste com Mussolini não é porém o centro do comentário de Rolão Preto. O seu verdadeiro foco eram quatro problemas por resolver: militar, económico, social e político.
No plano militar, urgia prover à defesa externa, num momento em que alarmava "a pobreza do nosso exército diante do vulcão temeroso que é a Espanha nossa vizinha". No plano económico, contestava-se a avareza financeira do ditador perante a "situação desesperada da economia nacional", mesmo à custa do equilíbrio das contas públicas. Foi, contudo, ao tratar do problema social que Rolão Preto traçou a demarcação mais significativa. O critério de Salazar, assente em dicotomias como "proletariado" e "anti-proletariado" — herdeiras de Jaurès, Sambat, Seyés, Haas e Karl Liebknecht —, revelava-se "impermeável aos ensinamentos da revolução industrial moderna". Os conceitos da social-democracia eram já "uma pura ficção": "quem actua no seio das massas operárias, quem manobra nos sindicatos, ou são as influências pessoais de certos chefes burgueses, ou o extremismo violento e absorvente dos comunistas... ou a polícia." Para Rolão Preto, a solução do problema social não estava no Estado nem em qualquer forma de estatismo — nem na linha de Ramada Curto, nem na de Mussolini.
A solução estaria antes no sindicalismo — mas num sindicalismo que Rolão Preto recusa ver decretado do alto: "aqueles que julgam que bastará decretar o sindicalismo para que ele viva e conduza a vida nacional enganam-se redondamente. Não é depois de cem anos de liberalismo económico e social, em que se matou todo o espírito associativo, em que se combateram todos os impulsos da solidariedade profissional por contrários à disciplina dos partidos políticos; não é depois de cem anos de liberal-democracia em que todos nasceram e viveram na desconfiança mútua, no ódio sectário das facções; não é depois de cem anos de permanente desagregação nacional que se vai, a frio e diante da indiferença com que tudo o que vem do Estado é recebido, decretar a vida sindical e corporativa."
Era necessário, antes, continuar a propagar o ideário sindicalista para lá do clamor reivindicativo da mão-de-obra, pugnando pela organização e o voto de todos os trabalhadores, seja qual for a sua função ou categoria.
"É Salazar um chefe político?"
Perante a exigência, naquela conjuntura de inícios de 1933, de uma autoridade política firme e testada, Rolão Preto colocou a pergunta central do seu comentário: "É Salazar um chefe político?"
"Na segunda entrevista a António Ferro, o Ditador das Finanças declara simples e sinceramente que o não é, nem o pretende ser."
A confissão, longe de ser tratada como falha, é lida por Rolão Preto como um traço de carácter: "A confissão tem uma nobreza que cativa. Num país em que tantos são chefes por vaidade, há um homem que o não quer ser por modéstia. Salazar, chefe do governo, é pois apenas o fulcro supremo de uma engrenagem, a cúpula necessária de um edifício que a revolução criou e mantém."
Entre Salazar e os outros ditadores havia, para Rolão Preto, uma diferença essencial: "os outros conquistaram eles o poder, Salazar aceitou que outros lhe conquistassem o lugar mas não deu para isso o seu esforço." O comentário conclui com um repto: "Salazar, para realizar a sua obra política, tem que pôr ousadamente a sua candidatura de chefe nacional, sujeitando-se a todos os riscos, mas colhendo todos os louros da vitória."
O desfecho político
Em Janeiro de 1933, ao comentar as entrevistas de Salazar a Ferro, estava-se ainda nas vésperas do referendo constitucional de Março. No ano seguinte, previam-se eleições para a Assembleia Nacional, com o recenseamento a concluir-se em Julho. Salazar não quis correr riscos: mandou prender e desterrar para Espanha os dois dirigentes integralistas do Nacional-Sindicalismo — Alberto de Monsaraz e Rolão Preto — e, poucos dias depois, proibiu o movimento (29 de Julho de 1934).
O colégio eleitoral único, de lista completa, só seria definido em Novembro, cerca de um mês antes das eleições de 16 de Dezembro. Assentava num conceito totalitário, decalcado da doutrina fascista, expresso sem rodeios no preâmbulo do Decreto-Lei n.º 24.631, de 6 de Novembro de 1934: "a Nação é um todo orgânico superior e diferente dos indivíduos que a compõem em determinado ponto da sua evolução, uma unidade moral política e económica, formando um todo uno com o Estado e com ele integrado." A formulação é próxima da que Mussolini usara para definir o fascismo: "o estado fascista, síntese e unidade de todo valor, interpreta, desenvolve e fortalece toda a vida do povo. Nem indivíduos fora do Estado, nem grupos (partidos políticos, associações, sindicatos, classes)."
Seguiu-se o que os nacional-sindicalistas classificaram como uma farsa eleitoral, garantindo à União Nacional a totalidade dos deputados. Em 1936, no livro Justiça!, Rolão Preto classificaria o Estado Novo nascente como um estatismo totalitário — tão evidente lhe parecia a inspiração do fascismo italiano.
O padrão de omissão na biografia de Nogueira
A distorção do folheto Salazar e a Sua Época não é um caso isolado na biografia de Nogueira. Em várias passagens, a intenção capciosa é manifesta: omite-se sistematicamente o carácter anti-oligárquico, municipalista e sindicalista do movimento nacional-sindicalista, atribuindo-lhe, sem qualquer especificação, "iniciativas de cariz totalitário" e, aos seus comícios, a "exaltação dos movimentos nazi e fascista". Segundo Nogueira, os nacional-sindicalistas faziam a "saudação romana" nos seus desfiles, ao passo que os vanguardistas da AEV — organização do próprio governo — faziam uma saudação "de braço estendido ao alto e palma da mão aberta"; Salazar, por seu lado, teria mantido perante estes últimos um perfil hirto e severo, com as mãos atrás das costas — o que a documentação fotográfica não confirma.
Seguem-se alguns exemplos documentais desse padrão, com remissão para as páginas da edição de 1977:
P. 191-192. O jornal Revolução, n.º 292, de 20 de Fevereiro de 1933, relata o banquete do Parque Eduardo VII, onde Rolão Preto declarou: "Eu, que nunca pedi nada ao Dr. Oliveira Salazar, eu que nada lhe peço, eu que só apareceria distante do Dr. Oliveira Salazar com a cabeça bem erguida digo, a ele que me está ouvindo: Sr. Dr. Oliveira Salazar, oiça V. Exª. a alma nacional que vibra, escute os votos da mocidade portuguesa e, se quer, ALEA JACTA EST." A expressão, atribuída por Suetónio a César ao transpor o Rubicão contra a ordem do Senado, podia ser lida, em Fevereiro de 1933, como um último apelo a Salazar para que se juntasse ao espírito anti-oligárquico da Revolução Nacional de 28 de Maio de 1926 — de que Rolão Preto fora um dos obreiros-chave junto do general Gomes da Costa, e cujo projecto constitucional de 14 de Junho de 1926 assentava numa Câmara de Representantes por delegação directa dos municípios, em contraste com o projecto de Salazar, próximo do modelo oligárquico do grupo da Seara Nova. Dada a proximidade do referendo constitucional, Rolão Preto afirmava ter consigo a alma nacional e a juventude, e mostrava-se disposto a desafiar a oligarquia reunida em torno de Salazar. Nogueira identifica os grupos presentes no banquete — "integralismo lusitano", "nacionalismo português", "meios militares e jornalísticos", "gerações novas" — mas nada diz do discurso de Rolão Preto, limitando-se a acrescentar que "de camisa azul e saudação romana, os nacionais-sindicalistas exaltam os movimentos nazi e fascista" (p. 192).
P. 226. Fernando Martins de Carvalho é descrito, em nota, como "antigo ministro da Monarquia e jurista eminente". Os integralistas referiam antes a sua filiação maçónica e o seu papel — designando-o, sem gralha, "advogafo" — na apropriação pelo Estado dos bens vinculados da Casa de Bragança, aquando da instituição da Fundação da Casa de Bragança (ver José Manuel Quintas, A Fundação da Salazarquia, p. 113).
P. 227. Nogueira atribui a Rolão Preto "iniciativas de cariz totalitário", sem as especificar.
P. 238. Transcrição da minuta da conferência de Salazar com o Chefe do Estado, em Cascais, a 16 de Outubro de 1933, com referência ao tenente Carvalho Nunes, "ardoroso nacional-sindicalista" — o que tudo indica ser exacto.
P. 192 e 263 — o contraste revelador. No Parque Eduardo VII, "de camisa azul e saudação romana, os nacionais-sindicalistas exaltam os movimentos nazi e fascista" (p. 192); no Terreiro do Paço, os "vanguardistas alinhados nas suas camisas verdes" fazem antes uma saudação "de braço estendido ao alto e palma da mão aberta" (p. 263). Convém não esquecer que os vanguardistas da AEV do governo de Salazar estiveram representados por António Eça de Queirós no Congresso de Montreux, em Dezembro de 1934 — tentativa de organização de uma Internacional Fascista promovida pelo governo de Mussolini. A documentação fotográfica disponível — o dirigente da AEV lendo a mensagem da "Vanguarda" a Salazar; a saudação romana dos vanguardistas; o próprio Salazar fazendo a saudação romana — dispensa mais comentários.
Conclusão
O nacional-sindicalismo foi proibido em 29 de Julho de 1934. Depois de preparar o leitor para aquilo que descreve como o "totalitarismo" de Rolão Preto — omitindo sistematicamente os seus propósitos sindicalistas e anti-oligárquicos, herdados da Revolução Nacional de Gomes da Costa —, Franco Nogueira resume, por fim, a versão do próprio Salazar sobre as razões que o levaram a prender e desterrar para Espanha os dirigentes do movimento, Alberto de Monsaraz e Rolão Preto.
Ver também: "A Verdade e a Mentira — A Literatura Capciosa acerca do Integralismo Lusitano"; "1975-07 — Francisco Rolão Preto, Entrevista, 'Não, Não e Não'"; "1934-07-29 — Salazar e a Proibição do Nacional-Sindicalismo" (com o comunicado de resposta do Nacional-Sindicalismo).
21 de Maio de 2024 — J. M. Q.
Docs.:
Após uma preparação do leitor para o que seria o "totalitarismo" de Rolão Preto, omitindo sempre os seus propósitos sindicalistas e anti-oligárquicos, em sintonia com a Revolução Nacional iniciada pelo general Gomes da Costa, o biógrafo Franco Nogueira resume por fim a versão de Salazar acerca do que estaria em causa ao mandar prender e desterrar para Espanha os dirigentes do Nacional-Sindicalismo, Alberto de Monsaraz e Rolão Preto. O nacional-sindicalismo foi proibido em 29 de Julho de 1934.
Ler comunicado de resposta do Nacional-Sindicalismo, em "1934-07-29 - Salazar e a proibição do Nacional-Sindicalismo"
Relacionado
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- 1959-01-13 - Entrevista a Francisco Rolão Preto (RDP)
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