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        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
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Poética Neo-romântica e moderno lusitanismo de António Sardinha

José Carlos Seabra Pereira

Poética Neo-Romântica e o Moderno Lusitanismo de António Sardinha, por José Carlos Seabra Pereira

​(RESUMO)
  • ​Formação Literária e Opções de Sardinha. Desde cedo, António Sardinha foi marcado pela vocação de “homem de letras”, atravessando a juventude no Alentejo e em Coimbra, movido pelo desejo de corresponder a esse chamamento, encorajado por Eugénio de Castro. Optou inicialmente pelo esteticismo decadentista, afastando-se das tendências literárias dominantes, como o evolucionismo, o vitalismo e o emancipacionismo, que mesmo autores próximos como Afonso Lopes Vieira e António Corrêa d’Oliveira seguiam antes de se voltarem para o Tradicionalismo na viragem para a República. Sardinha acompanha esta mudança na segunda década do século XX, tornando-se referência do Neo-Romantismo, com uma personalidade literária própria que equilibra o idealismo crítico de Silva Gaio e a sensibilidade artística de Lopes Vieira. Assim, oferece à Tradição uma alternativa intelectual e expressiva, distinta dos arroubos emocionalistas e dos impulsos político-religiosos que marcavam Corrêa d’Oliveira.
  • Trajetória Poética e Crítica. O inicial decadentismo foi superado na sua maturidade poética, notória em versos como “Ó calada voz do nocturno espanto” e na mitografia de “Roubo de Europa”. A sua criação poética consolida-o como figura maior do cânone neo-romântico, ao lado dos ensaios de crítica histórica e intervenção política. A sua definição de poesia reflete a visão de libertação existencial e ligação ao imortal do ser.
  • Influências, Geração e Contexto Literário. A publicação de “Pão Alheio” (1916) por Luís de Almeida Braga inspira Sardinha a refletir sobre a implicação entre estética e ideologia, considerando a sua geração herdeira de Gonçalo Mendes Ramires. A produção literária e crítica do primeiro quartel do século XX coincide com o predomínio do Neo-Romantismo e a emergência do Primeiro Modernismo. Sardinha distingue-se no contexto do neo-romantismo.
  • Início de Carreira e Evolução Estética. Os seus primeiros livros revelam crises religiosas, tendências panteístas e um vitalismo poético, integrados mais tarde na maturidade da sua obra. A passagem por Coimbra intensifica o seu contacto com o decadentismo, mas também anuncia o despertar para as correntes neo-românticas.
  • As Correntes do Neo-Romantismo Português. O Neo-Romantismo das primeiras décadas do século XX distribui-se por três correntes: a vitalista-emancipalista, a saudosista e a lusitanista. Cada uma domina diferentes períodos e convergem na valorização da sensibilidade, da ligação à pátria e do compromisso com a tradição. A poesia de Sardinha insere-se sobretudo no ramo lusitanista, ancorando-se numa visão tradicionalista, que se intensifica na época da Primeira Guerra Mundial e do Integralismo Lusitano.
  • Núcleo Poético Neo-Romântico. A poética neo-romântica fundamenta-se em dicotomias existenciais, na primazia do amor e na missão quase profética do poeta, para quem a linguagem é instrumento de revelação e verdade. Esta poética incorpora ainda valores como a imaginação criadora, a sinceridade e uma visão ética da literatura enquanto conforto afetivo e intervenção social. O imaginário neo-romântico destaca a errância, o heroísmo e a natureza, recorrendo a estilos e figuras de inspiração popular e medieval.
  • Intervenção Crítica e Identidade Nacional. Sardinha destaca-se como crítico literário e teórico do neo-romantismo, participando ativamente em inquéritos literários e defendendo uma renovação da literatura nacional. Para ele, a literatura deve preservar a identidade portuguesa, valorizando o legado tradicional e combatendo a “internacional artística” e o esteticismo superficial. Sardinha enaltece a herança romântica de Almeida Garrett e de Camilo Castelo Branco, defendendo a necessidade de regresso às raízes tradicionais e à emoção autêntica, em oposição à estética pela estética.
  • Evolução do Pensamento e Missão Intelectual. A intervenção de Sardinha, tanto na literatura como no pensamento político, é marcada pela missão de restaurar a identidade moral da pátria e pela revisão sistemática da história e dos valores nacionais. Defende que a arte deve servir uma ideia sem se tornar escrava dela, promovendo um lusitanismo literário equilibrado e moderno. Para Sardinha e os integralistas lusitanos, Portugal é definido por uma “alma colectiva”, conceito que atravessa toda a sua obra.​
  • Temas e Motivos da Obra Poética. A poesia de António Sardinha ilustra temas como o desgosto com a modernidade, a busca pelo mistério, o catolicismo tradicional, o sentido de missão nacional, o culto dos heróis, o saudosismo, o regionalismo lírico e o idealismo patriótico. Recorre a formas tradicionais, à anáfora e ao discurso torrencial, conjugando a busca pelo sublime com o enraizamento na experiência nacional e popular.
  • Legado e Morte. A morte de António Sardinha é apresentada como reencontro com o divino, não como fim, mas como início de um legado de fé, coragem intelectual e dedicação à poesia, à nação e à monarquia. Ao partir cedo, deixou um apelo à comunhão na fé católica, à defesa dos destinos da nação e à valorização das artes.


1. Cedo tocado pelos prenúncios de uma vocação de «homem de letras», António Sardinha viveu os seus anos juvenis, no Alentejo e em Coimbra, como tempo de aferição de desígnios e de recursos pessoais para realizar condignamente tal vocação, acalentada por Eugénio de Castro. Ao adoptar pro tempore o legado do esteticismo decadentista, afinal evitava os pendores então prevalecentes no campo literário português – elementos evolucionistas, valores vitalistas, compromissos emancipalistas, tendências libertárias – por onde até Afonso Lopes Vieira e António Corrêa d’Oliveira se transviavam, antes de na transição para o período da República demo-liberal retomarem a estrada real do Tradicionalismo franciscano e lusíada.

Nesta opção decisiva os acompanhou António Sardinha na segunda década do século xx, com ambos passando a ombrear entre as referências maiores da corrente lusitanista do Neo-Romantismo. Senhor da diferença específica da sua personalidade literária, Sardinha tempera com o idealismo crítico de Manuel da Silva Gaio a fina sensibilidade artística do trovador Lopes Vieira, «preceptor seguro da sensibilidade portuguesa»; e oferece uma alternativa de conotação doutrinada e de castigada expressão formal aos abalos afectivos de difíceis transes existenciais, às efusões rústico-patriarcais e aos aforismáticos lances político-religiosos de Corrêa d’Oliveira. Aliás, o bardo de Chuva da tarde e de Pequena casa lusitana também melhor preservava essa corrente tradicionalista de contaminações pelos sortilégios visionários da imaginação especulativa de Pascoaes e de certo Saudosismo.

Pelo caminho, a tópica pessimista e o estilo do esteticismo decadentista, que António Sardinha cultivara nas suas primícias dos alvores do século xx, resgatam-se na depurada dicção e na densidade humana da sua maturidade poética.

Então, a sua arte lírica culmina em versos soberanos como «ó calada voz do nocturno espanto», ao passo que outros versos seus, maxime na mitografia de Roubo de Europa, dão súmula paradigmática à insígnia apostólica – «ó madre antiga dos destinos novos» – que, por translação, António Sardinha podia atribuir à Igreja católica, à Pátria lusíada e à Monarquia portuguesa.

Assim, se pela crónica combativa e pelo ensaio militante de revisionismo histórico e de proposta ideológica António Sardinha se afirmou como grande figura de intelectual orgânico, mas de espírito livre e discurso alodial, também pela sua criação poética se impôs como alto nome do cânone neo-romântico. Nessa extensa e intensa obra lírica, uma e outra vez os seus versos nos fazem sentir e nos levam a entender a profunda e alta concepção que um dia assumiu: «A Poesia é a libertação da nossa existência subliminar – existência rumorosa e obscura, pela qual nos ligamos à continuidade imortal do ser.»



2. A aparição em 1916 do livro Pão Alheio, de Luís de Almeida Braga, dá origem a um dos textos que, com o título «No jardim da Raça» (recolhido em Ao ritmo da ampulheta, 1925), melhor exprimem a mútua implicação de pensamento estético-literário e pensamento ideológico-político no discurso de António Sardinha; e essa crónica ensaística tem uma abertura lapidar de insinuação de linhagem geracional de tal implicação estético-ideológica, que nos nossos dias ganhou acrescido relevo pela tese sobre as origens do Integralismo Lusitano que José Manuel Quintas intitulou Filhos de Ramires: «Eu tenho para com o belo livro de Luís de Almeida Braga [...] um sentimento familiar – uma ideia de parentesco. Mais do que do seu autor, há no Pão Alheio todo o drama duma sensibilidade, que é a sensibilidade da minha geração. Nós viemos em linha recta da fraqueza generosa de Gonçalo Mendes Ramires. E se alguém, lá mais para
diante, pensar em escrever a novela do nosso esforço, eu creio que lhe chamará com verdade O filho de Ramires!»

Mal entrevendo os contornos do que viriam a ser as tensões tradicionalistas, com catarse poética, de um movimento que todavia se pretenderá insolitamente «moderno» e «revolucionário», António Sardinha (1887-1925) começou por querer chamar as atenções no espaço público, mormente enquanto estudante de Coimbra, como precoce «homem de letras»; e é como «homem de letras» que se revê nas retiradas para a província alentejana nos últimos anos da sua breve vida.

Assim, se levarmos em conta as primícias incipientes de adolescente (segregadas em manuscritos ou dispersas por gazetas obscuras) e as primeiras primícias juvenis com pretensões de estatuto literário (as de dois opúsculos líricos, de outro dramático e de alguma inclusão em publicações colectivas) e, por outro lado, se constatarmos que até à morte prematura permaneceu fecundo na criação textual, verificamos que o tempo de manifestação poética e crítica desse escritor, iconoclastamente vocacionado para a erudição e para a cifra mitográfica da sua intervenção cívico-literária (tão social na acepção de Sorel quanto nacional na acepção de Pareto), coincide com o primeiro quartel do século xx. António Sardinha realiza-se, pois, como «homem de letras» num tempo que já substancialmente caracterizei, em sucessivos estudos, como período literário de hegemonia neo-romântica, sem embargo de várias remanescências oitocentistas e da erupção do Primeiro Modernismo.



3. No fim-de-século, como é sabido, impõe-se o dissídio entre a modernidade artística e a modernidade sociológica da sociedade urbano-industrial; a autonomia dos valores artísticos extrema-se no esteticismo autotélico do Decadentismo e do Simbolismo, que passam a prevalecer sobre a crise do Naturalismo e do Parnasianismo (e do Cientismo que lhes subjazia). Em posição secundária, e reactivamente complementar, surgem tenazes manifestações de Romantismo tardio e novas tendências de horizonte neo-romântico.

Começam então a publicar alguns dos nomes prevalecentes na literatura portuguesa do primeiro quartel do século xx. Diferentemente do caminho que Raul Brandão percorre desde o Decadentismo até ao Expressionismo, alguns desses autores parecem apenas prolongar aquele fim-de-século, com uma tónica hedonista (M. Teixeira-Gomes, na narrativaerótica e em Sabina Freire, peça ibseniana), ou numa inflexão para a picaresca boémia (Eugénio Vieira, Flor de Lama; D. Tomás de Melo, Boémia Antiga), ou em decantação esteticista (Visconde de Vila-Moura, Nova Safo, 1912, Doentes de Beleza, 1913, Boémios, 1914, etc.). Na transição, puderam alcançar relevo escritores hoje esquecidos, como Albino Forjaz de Sampaio (epígono do Fialho de Almeida que Sardinha reavaliará), Carlos Parreira ou Veiga Simões (juvenil companheiro coimbrão de Sardinha, depois com outro rumo).

No campo da poesia são ainda mais notórios os efeitos de arrastamento sincrético de tendências do fim-de-século, sobre um fundo pouco vigiado e pouco inovador de sentimentalidade combalida em busca de compensações. É esse o contexto estético-literário em que cresce António Sardinha.

As suas primícias de fugaz prosa dramatúrgica e de poesia lírica não dissentem marcadamente desse prolongamento, sob o ascendente prestigioso de Eugénio de Castro e, progressivamente, de Manuel da Silva Gaio. Porém, à contraluz da sua evolução estético-ideológica julgo intuir que a essa fase de poeta precoce, descoberto por Eugénio de Castro no liceu de Elvas, subjaz (como mais tarde na trajectória de Alfredo Pimenta) uma intencionalidade de intervenção à rebours: não apenas de, apesar do assomo anticlerical no soneto «Piedade inquisitorial» de Calix de amargura, evitar incorporar-se na literatura engagée então dominante (emancipalista e subversiva, republicana e maçónica, jacobina ou radical, socialista ou anarquista), mas ainda sugerir um húmus provisoriamente autotélico de gestação de uma alternativa de arte heterotélica de oposto signo na mundividência e na intervenção cívica. De resto, cedo António Sardinha se terá dado
conta de que, desde os alvores do século xx, Eugénio de Castro passava a introduzir novas cambiantes neo-românticas na sua trajectória estética e lírica, que assim se aproximava da orientação de Silva Gaio e do seu «novolusismo» (como também já explanei noutros ensaios). A leitura da prolongada correspondência epistolar com Eugénio de Castro (publicada e estudada por Maria da Conceição Vaz Serra Pontes Cabrita) e a análise, levada a cabo por Ana Isabel Sousa Sardinha Desvignes, dos meandrosos intentos do jovem António Sardinha em Coimbra, com epicentro sociocultural no dandismo insolente do «grupo dos exotéricos» (cuja tertúlia Macedo Papança, Conde de Monsaraz, patrocinava), e das características entrecruzadas de Serão ducal (1903), Calix de amargura (1904) e Túrris ebúrnea (1905), corroboram essa minha hipótese interpretativa.

O que a condescendência crítica para com os juvenilia de Sardinha não tem reconhecido é que em Túrris ebúrnea, junto à crise de crença religiosa que pode ir até revoltas contra um Deus ausente ou silencioso («No Calvário», «Blasfémia»), vêm juntar-se acenos a alternativas que ainda repontarão na componente sincrética de Tronco reverdecido, particularmente na fuga proto-panteísta para o naturismo e o vitalismo («Heliolatria», «Panteísmo», «Abril», «Águas-Novas»), conectável com alguma aberta de sensualidade («Galanteria») que voltará aqui e além na poesia da maturidade. Ao mesmo tempo, na forma da expressão ocorrem inflexões estilísticas de coloquialidade talvez inspiradas por A. Nobre. Importa, aliás, sublinhar que não só a tocante dignidade de «Meu Pai», e os poemas das raízes «A tia Glória» e «Águas-novas» são resgatados para o húmus de Tronco reverdecido. Depois, em Coimbra, ainda António Sardinha se faz notar como esteta «decadente» na pose snob e nos poemas estampados por 1906 na revista Ecos da Mocidade, embora prestes a cultivar outras criações líricas que até 1908 aguardarão ser coligidas no referido livro. Mas Tronco reverdecido, subscrito por ‘António de Monforte’, constituir-se-á no marco limiário da fase adulta e neo-romântica de «notável poeta» (no juízo de David Mourão-Ferreira), que se iria confirmando em poemas intercalares como a «Lírica de Outubro», editada em 1910 após ser premiada nos Jogos Florais de Salamanca.



4. Revertendo no seu conjunto à poética expressivista, à figuração profética do Poeta, à primazia do nacional e da sensibilidade, à imagística galvanizante, à ênfase do «lirismo oratório», o Neo-Romantismo das primeiras décadas do século xx ramifica-se em três correntes – cada uma delas hegemónica em outros tantos subperíodos.

Por 1901-1902 evidencia-se o surto da corrente vitalista e emancipalista, cujo ascenso e predomínio abrangeu o resto do decénio, manifestando-se na criação ou conquista de revistas (Revista Nova, Mocidade, Arte & Vida, etc.), na larga penetração em jornais (sobretudo órgãos republicanos, como O Mundo, de Lisboa, e A Resistência, de Coimbra), na crescente edição de livros, números únicos e plaquettes periódicas (como As Quadras do Povo de vários autores ou os Comentários de Joaquim Manso, etc.). Decai com o advento da República, apesar do papel da revista Atlântida e da prossecução da obra de João de Barros e do parcial reforço crítico e poético que lhe traz o primeiro António Sérgio.

A corrente saudosista polariza-se num núcleo bem definido: Teixeira de Pascoaes, Leonardo Coimbra e Jaime Cortesão, com o movimento da Renascença Portuguesa. Elabora-se pelo cruzamento das especulações poéticas (e só depois doutrinárias) de Pascoaes, bem como da segunda fase de António Corrêa d’Oliveira, com o impulso interventivo da revista anarquizante Nova Silva, e com o Criacionismo lírico-filosofemático de Leonardo Coimbra – o que se reflectirá na pletora de actividades e edições da Renascença Portuguesa e no desdobramento do órgão principal, A Águia, na revista A Vida Portuguesa. No primeiro decénio do século xx falta-lhe ainda dinâmica colectiva, mas enriquece-se já com obras de autores até aí integráveis na corrente lusitanista e que a ela haviam de voltar (especialmente António Corrêa d’Oliveira). Após um surto impetuoso de criação literária e de apoiante difusão de que se fará eco o primeiro grande Inquérito Literário do século xx (conduzido por Boavida Portugal no jornal República e mais tarde publicado em livro), a corrente saudosista comanda a vida literária portuguesa desde 1910 até à Grande Guerra.

A corrente lusitanista tivera antecedentes importantes nos finais do século xix, mas sofre eclipse parcial no primeiro decénio do século xx. Mesmo então prolonga-se nos magazines de grande público e sem programa estético (v.g., Ilustração Portuguesa e Serões) e beneficia até da afluência de relevantes protagonistas da lírica, da narrativa e da dramática do fim de século. Nos inícios da República, a corrente lusitanista acompanha já em crescendo a afirmação do predomínio saudosista; os anos da Guerra favorecem-na, pois determinam um processo de indefinição nas correntes vitalista e saudosista, conjunturalmente necessitadas de recorrer à mitografia histórica e aos tópicos tradicionalistas; paralelamente desenvolve-se o movimento político do Integralismo Lusitano e, a partir daí, a corrente lusitanista alastra e vai gradualmente assimilando quase todo o soterramento neo-romântico da erupção modernista de Orpheu. Essa nova hegemonia transparece fortemente no segundo grande Inquérito Literário do século xx, conduzido em 1920 por Álvaro Maia no Diário de Notícias.



5. O núcleo gerativo da poética neo-romântica radica no dissídio ôntico e existencial (entre uma vocação sidérea,angélica, divinizante, e uma condição degredada, degradada, rastejante), na vivência, que esse dissídio condiciona e estigmatiza, da primazia do Amor (redignificação do erotismo e da afectividade, elevação moral e cognitiva pelo desejo, mútua promoção ôntica dos amantes, irradiação e apoteose cósmica da energia amorosa) e na missão profética do bardo, que se cumpre em regime de boa-consciência literária e linguística. À semelhança da actualização oracular e/ou tribunícia que a «sagração do escritor» tivera no Romantismo, esse profetismo neo-romântico, imune à desolação da «transcendência vazia» ou «idealidade vazia» própria da modernidade estética e alheio à céptica «vontade de enganar» das personae modernistas, tem a linguagem por instrumento do seu compromisso com a verdade no Mundo e assume quase sempre um alcance metafísico e sacralizador, um visionarismo mitogónico e anagógico, um aurático imaginário transcendentalista. Quando tal não se verifica, assume pelo menos um alcance ético-social, um visionarismo de superior lição dos sinais dos Tempos, um aurático imaginário imanentista. Este núcleo da poética neo-romântica actua sob o efeito catalítico de vários vectores, um só dos quais surge como estabilizador (o vínculo da «alma pátria» ou espírito da nacionalidade), enquanto os demais agem como estimulações desestabilizantes (as metamorfoses da Sehnsucht, em
torno do Vago, e as metamorfoses do Gemüt, no primado do Sentimento, no regime de sensibilidade vibrátil, no culto do Sonho e da gnose arracional).

Além desse núcleo gerativo, a poética que é património comum das três correntes neo-românticas engloba opções metaliterárias correspondentes: apologia (rara) da imaginação criadora, presunção (assídua) de inspiração e vidência, coincidente auto-representação do Poeta (mas em cisão), precedência da «Poesia» (como realidade natural e como vivência) sobre o texto, expressivismo de confidência ou revelação e prerrogativas da sinceridade, penalizações e sub-rogações da insuficiência verbal, oscilação entre a grandeza e a secundariedade da arte, funções elementares da literatura como conforto afectivo e vibração emocional, como promoção evasiva ou empolgante de quimeras, heterotelismo moral e social, intervenção e oratória cívicas, tradicionalismo e nacionalismo literários, popularismo artístico.

O colaço imaginário neo-romântico apresenta um núcleo arquetípico de errância e marginalidade nobilitantes, de rapto alígero, de euforia auroral e de pletora primaveril. As derivações estilísticas mais relevantes encontram-se na imagística naturista (telúrica e marinha), dionisíaca (sinérgica, hedonista, predatória, titânica), exótico-feérica (tributária do maravilhoso popular, céltico-germânico, mourisco-levantino, «neopagão»), cavaleiresca, mediévica, lendária, histórico-nacionalista (mormente da Conquista e da Navegação), ruralista, patriarcalista, religiosa (mormente dolorista). Não menos correlata e notória é a retórica da voz ressoante, tão significativa em termos de antropologia histórica da linguagem, e de que, por isso mesmo, qualquer uma das três correntes neo-românticas só esporadicamente podia abdicar: ênfase reiterante, torrencialismo discursivo, acumulação assindética e polissindética, recorrência anafórica ou afim.

Ao abrigo desta poética, cada uma das correntes neo-românticas distingue-se por diferentes valorizações de temas e motivos, de figuras e símbolos, de estilemas e língua literária. Ao contrário do que acontece com autores que acompanham as opções estético-ideológicas e as realizações líricas de António Sardinha, ou que até são por ele enaltecidos como arautos e paladinos daquelas opções e realizações (Afonso Lopes Vieira e António Corrêa d’Oliveira), o cantor doutrinado da «Verdade portuguesa» e da camoniana «Pequena casa lusitana» situou-se sempre nos parâmetros da corrente lusitanista, desde a depuração de aspectos sincréticos de Tronco reverdecido.



6. Vejamos agora os vectores da intervenção crítica e metaliterária do escritor que tinha na sua biblioteca e anotava Les mystiques du néo-romantisme (2.ª ed., 1911) de Ernest Seillière e que depois se distingue pelo uso, conceptualizante e qualificante, do termo «neo-romantismo». Esses vectores, maturados após a reconversão religiosa e política de António Sardinha, exprimem-se de modo peremptório num lance de 1920 com valência de marco histórico-literário, atrás aludido. Precedido pelos reflexos na vida literária do consulado sidonista e do seu apocalíptico desenlace, surgira com efeito em 1920 o segundo grande Inquérito Literário do século, num Diário de Notícias que cada vez se destacava mais na imprensa quotidiana e acentuava, agora sob a direcção de Augusto de Castro, a orientação tradicionalista no plano cultural e cívico. Já favorecido, nesse jornal, pelo folhetim «A Semana do Chiado» de Aníbal Soares, pela crónica periódica de Júlio Dantas sobre o «Momento Literário» e pela promoção do ciclo de conferências sobre O Problema Português, o conglomerado de pendores que, agora sob a hegemonia do Integralismo Lusitano, iam congestionando o nacionalismo cultural e o lusitanismo literário, via-se potenciado por um tal Inquérito, que era conduzido por um dos seus sequazes – o crítico literário e polemista monárquico Álvaro Maia – e que versava em especial sobre as condições de renovação da literatura nacional, as tendências e motivações do momento literário e a importância crescente do regionalismo.

Ora, tanto pelo predomínio quantitativo, quanto pela capacidade de apropriação das tendências poligenésicas de nacionalismo estético e de regionalismo, bem se pode dizer que o Inquérito conduzido por Álvaro Maia foi para o Neo-Romantismo lusitanista (mais do que, em rigor, para o Integralismo) o que o Inquérito Literário de Boavida Portugal (1912, 1915) fora para o Saudosismo. A saber: a ratificação da maturidade possante do movimento «(neo-)lusitanista» e a promoção da correspondente corrente literária como nova dominante do período neo-romântico.

Para tal preponderância do Neo-Romantismo lusitanista contribuem o primeiro dos seus doutrinadores e bandeirantes oitocentistas – Manuel da Silva Gaio –, os seus dois mais exemplares poetas – António Corrêa d’Oliveira e Afonso Lopes Vieira –, o mentor do Integralismo que, em simultâneo, havia uma década se afirmava como a sua melhor voz lírica e crítica – António Sardinha –, dois dos seus principais companheiros ideológicos e literários – o contista Hipólito Raposo e o poeta Alberto Monsaraz, ambos cronistas doutrinados – e, ainda, os depoimentos multiformemente
conservadores (e conjunturalmente polarizados por aquele núcleo) de Antero de Figueiredo, Henrique Lopes de Mendonça, Sousa Costa, Fausto Guedes Teixeira (e, até, de Carlos Selvagem e Fidelino de Figueiredo). Além disso, enquanto Mário Beirão, não participante, se via reivindicado para a renovação literária lusitanista por Alberto Monsaraz, o próprio depoimento de Jaime Cortesão podia, na circunstância, ser assimilado à mesma dominante.

Também interpelado por tal Inquérito literário, o exilado António Sardinha responde com um ensaio sob a forma de «Carta a Álvaro Maia», onde não vê risonhas «vésperas de uma renovação literária», dado prevalecerem «as ridículas impertinências estéticas de uns quantos arrivistas dos ritmos nobres do Espírito» e o declínio desde as alturas «dolirismo excepcional de António Nobre ao maneirismo de chinó e mais postiços do Elogio-Mútuo, Lugar-Comum & C.ª». Entende, claro, que é viável um renascimento literário (indissociável do ressurgir de Portugal em todos os domínios e a partir dos fundamentos naturais de Terra e Raça); mas tal ressurgimento estético só poderá advir, após renovada compreensão do que seja nacionalismo e Tradição, pela prática consequente de «o Regionalismo e o Nacionalismo na literatura e na Arte». É esse o problema artístico que importa esclarecer.

António Sardinha começa por equacionar esse problema em termos genericamente neo-românticos e, depois, particularizadamente lusitanistas: «Na verdade, o sentimento do Universo e a aspiração do Infinito podem traduzir-se através dos nossos limites, que, no determinismo do Sangue e da Paisagem, que na lição dos Horizontes e dos Mortos possuem a sua fonte perene de exaltação – um potencial inesgotável da mais rica e abundante energia lírica». E dentro do mesmo espírito neo-romântico é que António Sardinha adverte contra as simplificações acacianas ou as visões redutoras do regionalismo literário (em que alguns bardos lusitanistas caíam repetidamente, à beira do Kitsch, «numa espécie de reportagem cenográfica, boa para operetas e bilhetes postais ilustrados!»). Por isso, o regionalismo não se caracteriza por constituir «um catálogo de temas modestos, em que o escrúpulo da notação exterior haja de subordinar e apagar esse quantum de sínteses, ou experiência espiritual que sempre a Arte, qualquer que seja a sua forma, deverá importar consigo».

De igual modo, no que toca ao nacionalismo literário, imperioso é que «na comunhão geral de todas as raças, dentro da mesma corrente ou tendência de espírito, guarde cada uma a sua personalidade inalienável, mantendo-a ciosa e inalteravelmente, por oposto que se manifeste o sopro ideológico ou lírico que a enche de estremecimentos criadores».

Por isso, no caso português, o nacionalismo literário deve ser preconizado, sendo certo que ele, que já fora «mais carinhosamente baptizado de neo-garrettianismo», procura unicamente «ser a boca das nossas vozes hereditárias, realizando o acordo da nossa posição particular de portugueses com a posição geral da nossa época». De acordo com tais convicções (e com a oposição voluntariosa ao pessimismo de um Antero quanto à viabilidade de Portugal), António Sardinha relança também as virtualidades sinérgicas e catalisadoras do sebastianismo, «a filosofia da nossa Raça». A Nacionalidade não morreu, mas jaz dormente, «guardada na integridade da sua alma de maravilha pelas virtudes místicas do Sebastianismo, de que há a extrair uma filosofia completa – a filosofia da Esperança». Entendido positivamente, e como «interpretação psicológica da nossa história», o sebastianismo ensinaria a «crer no grande amanhã de Portugal» e demonstraria «como o poderemos tornar uma realidade imediata, desde que restituamos o nosso país às condições invioláveis da sua existência colectiva».

Esta apologia do sebastianismo não dissente dos juízos que António Sardinha reitera sobre os estilos epocais marcantes na história da cultura e da literatura, dos nexos que assim se estabelecem com a opção neo-romântica e, enfim, com a caracterização subsequente desta opção. Réu do pecado mortal de sensibilidade que é o individualismo frenético e suas sequelas revolucionárias, o Romantismo não merece em absoluto ser condenado (quando expresso, por exemplo, em Garrett e Herculano). Aquele pecado mortal, que abriu a porta para o nefasto ultra-romantismo, não pode ser escamoteado, porque se «da Inteligência restaurada depende, com a renovação da Nacionalidade, a desejada renovação literária, não depende ela menos da depuração da Sensibilidade». Mas isso não equivale a envolver numa crítica fácil e generalizada o Romantismo, tanto mais quanto no caso português – e pois que «O lirismo é para nós, é para a nossa raça, um dos sinais mais inconfundíveis» – a genuína literatura romântica actuou «como a revivescência do que há de mais íntimo e de mais inalienável na composição psicológica do génio da nossa raça».

Relembrando a habitual genealogia lusitanista do lirismo enquanto «Forma ancestral da nossa sensibilidade» – o Romanceiro e os Cancioneiros, o Amadis de Gaula, a Menina e Moça, a Diana... –, António Sardinha reitera também que é o romântico Camilo Castelo Branco quem fixa «em traços imorredoiros a condição apaixonada do nosso excepcional temperamento de emotivos»; mas, para tanto fora preciso a intervenção refontalizante e popularista de Garrett e do nosso primeiro Romantismo (contra os malefícios do Classicismo e do Neo-Classicismo). Por isso, quando passa a delinear os traços da posição literária propugnada para o seu tempo e para o futuro imediato, António Sardinha elege como condição básica «o regresso ao veio obliterado do nosso tesoiro tradicional», seguindo a lição de Garrett.

Em contrapartida, Sardinha tem o cuidado prévio de verberar uma vez mais o deletério equívoco (e falsa alternativa) do esteticismo epigonal: arremedo tardio do Decadentismo, num afectado culto da impressão em lugar da emoção e numa adulteração da Sensibilidade em luxúria sentimental, importa cauterizar as suas causas mentais e sociológicas. Por um lado, o acordo nacionalista e tradicionalista com as realidades íntimas por que «se define e mantém o segredo da nossa individualidade» não permite qualquer adesão à chamada «internacional artística»; por outro lado, é falaz a teoria da Arte pela Arte para quem neo-romanticamente entende que «é falsa toda a Estética que não se fundamenta na vida como vida e apenas a mire de longe, estilizada e retocada, segundo o requeiram os caprichos de certos pitorescos senhores que, novos Des Esseintes, mas de pícara extracção, só gostam da natureza vista através dos vidros de cor». Diversa é a «estrada nova nas nossas letras» que se esforçam por abrir os que concretizam «o verdadeiro itinerário do neogarrettianismo que Luís de Almeida Braga, numa fórmula feliz, designou de romantismo clássico, querendo sem dúvida significar com isso: – emoção das ideias». É que, apesar deste qualificativo, o determinante é o fundo romântico, sintetizado com o legado simbolista (na sequência do balanço crítico do seu papel histórico-literário): «na aliança medida das duas tendências – Romantismo, penetração da vida interior, e Simbolismo, dramatização dos conflitos eternos do pensamento e do sentimento, [...] residirá decerto aquela síntese criadora, a que se há-de acolher voluntariamente o poeta de amanhã».

Este pronunciamento de António Sardinha inseria-se, entretanto, no contínuo labor de intervenção cultural que desenvolvera desde os alvores do movimento integralista, intentando vertebrar esteticamente a maré cheia de lirismo lusitanista que de ano para ano se espraiava em numerosas colectâneas poéticas. Com efeito, desde 1914-1915, justamente quando surgem sinais do afrouxamento da campanha saudosista, António Sardinha, secundado por outros lusitanistas (mais ou menos afectos ao Integralismo), difunde impetuosa e doutrinada produção crítica e ensaística, preludiada por Afonso Lopes Vieira nalgumas das suas incidências culturais e literárias. Desde as páginas da Nação Portuguesa às da revista Lusitânia, passando pelas de jornais como Monarquia e suas réplicas provinciais, é toda uma produção vigorosa nos juízos e fundamentada na argumentação que, ao longo do decénio que mediará até à morte prematura, adopta um carácter sistemático. No entanto, sem paradoxo, sujeita-se a inflexões sistémicas e, logo, a deslocações hermenêuticas e axiológicas, a alterações nas teorias interpretativas e na avaliação de obras e autores, devidas à evolução filosófica do autor, antes e depois da sua conversão religiosa e política, desde o Positivismo de Comte e de Spencer (ou do factualismo de Duguit) e passando pelas serventias das filosofias da Intuição e do Pragmatismo, até aportar à síntese neotomista.

As concepções e os pronunciamentos que na ordem literária assumem ou projectam António Sardinha e seus companheiros ideológicos («Velando as armas», conduzidos das Letras à Política) são indissociáveis, e até dependentes, da missão intelectual mais ampla que se atribuem: a «obra que nos cabe de restaurarmos pela inteligência a fisionomia moral da Pátria», operando «uma revisão implacável e sistemática» na lição da História e na avaliação dos regimes políticos, desbravando a «espessa floresta de mitos» ideológicos que embaraçavam a visão dos problemas e das
personalidades em todos os planos da vida social e cultural. Assim é que o conjunto de concepções estético-literárias e de pronunciamentos histórico-literários indica, como Sardinha dizia de certo livro de Hipólito Raposo, «até onde o nacionalismo exige que a arte escrita sirva uma ideia, sem se tornar sua escrava» e consuma «uma lição equilibrada de lusitanismo literário – de ‘neo-romantismo’, se quiserem».

Desde O Valor da Raça, cujo subtítulo dimensiona como «Introdução a uma Campanha Nacional» e que quase coincide em 1915 com o lançamento duma colectânea de «Poemas da Terra e do Sangue» – A Epopeia da Planície –, surge uma pedra angular conceptual que é ao mesmo tempo, embora com graus diversos de congruência e de consequência, inalienável e decisiva para todas as correntes neo-românticas: a convicção de que, desde o núcleo originário «lusista», Portugal é uma Pátria que possui uma «alma colectiva».

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7. É neste quadro de princípios estético-ideológicos e de padrões estético-literários que a obra lírica de António Sardinha – desde Tronco Reverdecido e A Epopeia da Planície até Era uma vez um Menino e Roubo de Europa, passando por Quando as Nascentes Despertam… e Na Corte da Saudade, por Chuva da Tarde e Pequena Casa Lusitana – vai ilustrar os valores e as opções formais que caracterizam sistemicamente a poética neo-romântica: o dissídio ôntico e existencial, a primazia do Amor e o Volksgeist amoroso, o «Vago» anteriano e a ânsia melancólica, o
primado do Sonho, do sentimento e da sensibilidade, o vínculo da alma nacional, a figura do Poeta saturniano e iluminado, o expressivismo sob o signo da insuficiência verbal e da ansiedade da escrita perante a Poesis in Natura, culto da Grandeza da Arte e prática do anti-esteticismo, tradicionalismo e nacionalismo literários e popularismo artístico nas graças da redondilha e do Romanceiro tradicional, o imaginário do ímpeto alígero e outra imagística peculiar, euforia auroral e pletora primaveril, ênfase reiterante e virtudes da anáfora, torrencionalismo discursivo, acumulação assindética e polissíndeto.

Concomitantemente, nesse devir lírico vai também ilustrar os motivos e temas, os tópicos retóricos, os estilemas e os registos de linguagem peculiares do Neo-Romantismo lusitanista: incerteza existencial e desencontros com a modernidade, o arracionalismo ancestral entre o Destino e a Providência, sentido do mistério e religiosidade ancestral, crenças e práticas do catolicismo tradicional, dolorismo e realismo cristãos, moralismo piedoso, consciência ético-social e virtude da caridade, espiritualidade e ética franciscanas, paixão e graça da Pátria precursora, o amor da Pátria contra a desnacionalização ideológica, o culto da Tradição e dos heróis, Pequena Casa Lusitana e Império, concepção idealista da Pátria – providencialismo visionário e nacionalismo integrista, Quinto Império e Sebastianismo, militância monárquica, dilema e conciliação do risco heróico e do labor ameno, paradigma rústico-patriarcal e pitoresco rural, novo bucolismo tradicionalista e regionalismo lírico, antropomorfização cordial do entorno. Idealização amorosa e realização familiar, ‘velhos temas’/‘velhos motivos’ e geografia electiva, escapes e compensações – saudades e evasão para a infância, alienação passadista, fantasia e maravilhoso, casticismo e etnografismo lírico.


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8. A morte pareceu apressada na visitação a António Sardinha, levando-o não pela mão do Absurdo para o Letes do esquecimento e para a aniquilação no Nada, mas sim pela mão da Esperança crismada em Cristo para amorosa reintegração ontológica na plenitude divina. Ele mesmo parecera ter notícia dessa temporã passagem pascal, tal fora a coerência perante os outros e perante si mesmo na aferição das orientações de inteligência e dos propósitos de vida, tal fora o afã posto no trabalho de revisão crítica e argumentativa da história dos factos e da história das ideias, tal fora a coragem empenhada no bom combate do pensamento ensaístico e da intervenção política, tal fora a entrega doutrinada e sensível ao constante chamamento da criação poética. Daí o responsabilizante legado com que desde a morte nos convoca à comunhão na Fé católica, nos destinos da Nação lusíada, nas virtudes políticas da Monarquia, na bondade da Vida de doação, na beleza dos dons da Arte e da Poesia.

A morte veio cedo, porque já era tempo da aura cativante e apelativa de António Sardinha!

​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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