Alberto Sampaio na obra de António SardinhA
José Manuel Quintas
1. O Papel de Alberto Sampaio na Reinterpretação das Origens Portuguesas.
Ao longo da sua obra, António Sardinha destaca a centralidade de Alberto Sampaio na compreensão das raízes e do desenvolvimento da nacionalidade portuguesa. Na sua perspectiva, Sampaio representa o elo entre a tradição erudita de Fustel de Coulanges e a historiografia nacional, sendo o responsável por demonstrar a continuidade institucional e social desde as citânias até as vilas e freguesias rurais do Entre-Douro-e-Minho. Ao lado de outros vultos como Martins Sarmento, Estácio da Veiga, Santos Rocha e Rocha Peixoto, Sampaio é visto como parte de um movimento de redescoberta das bases étnicas e culturais do povo português, consolidando, através de estudos rigorosos e monografias de referência, a noção de um substrato nacional contínuo e autêntico. As prosas de Sardinha estão polvilhadas com citações e referências aos trabalhos de Alberto Sampaio, com relevo sob títulos como "Teófilo, Mestre da Contra-Revolução" (1914), "A teoria da Nobreza" (1916), "Questões de História" (1922), "O Sul contra o Norte", "Quatro Onças de Ouro", "Nacionalismo Galego e Lirismo Português" (1924), "Os Gamas", "Pátria e Monarquia", em livros como O Valor da Raça (1915), A Teoria das Cortes Gerais (1924) e A Aliança Peninsular (1924)
1.1. A Defesa da Tradição e da Identidade Autóctone.
No seu percurso analítico, Sardinha destaca como Sampaio e os seus contemporâneos, mediante a fundação de revistas - Revista Lusitana, Portugália, Tradição - e círculos de estudo, se empenharam em defender a autenticidade da tradição portuguesa, valorizando o ruralismo, as estruturas comunais e a ligação à terra como traços essenciais da alma nacional. A partir do exame das formas populacionais, do fenómeno religioso e da genealogia linguística, Sampaio contribui para um entendimento da continuidade histórica que liga os habitantes das antigas citânias aos vilões medievais, mostrando que, nas suas transformações, o fundo etnológico e institucional do Norte se manteve vivo e operativo.
1.2. A Estrutura Social e Política nas Vilas do Norte de Portugal.
Sardinha aprofunda, com base no estudo de Sampaio, a caracterização da sociedade das vilas do Norte, onde a aristocracia rural — os domini — emerge como força mediadora entre o povo e a monarquia. Estes domini, oriundos da população local, assumem posições de liderança e justiça, sem que tal decorra de privilégios hereditários, mas sim de consenso e mérito. A ascensão social e a nobilitação resultam do serviço à comunidade, da bravura nas batalhas e da administração local, ilustrando uma sociedade aberta e permeável, onde as diferenças entre nobres e povo são atenuadas pela vida comum e pela proximidade material e espiritual.
2. A Formação do Município e o Municipalismo Português.
A análise de Sardinha, inspirada por Sampaio, traça a genealogia do município português desde as antigas cividades e vilas até à freguesia rural, vista como "comuna sem carta", base da organização social e administrativa. Sardinha salienta que, ao contrário do modelo romano ou do ayuntamiento castelhano, o município português nasce da experiência agrária e comunitária, sendo uma expressão orgânica e espontânea do génio local. A continuidade institucional e a ausência de feudalismo são destacadas como características fundamentais, explicando a vitalidade e a coesão da grei portuguesa ao longo dos séculos.
2.1. Cristianismo e Identidade Nacional.
Sardinha evidencia, apoiado nas deduções de Sampaio, o papel do Cristianismo na organização social, na transformação das vilas em freguesias e no fortalecimento do vínculo comunitário. O campanário e a paróquia tornam-se centros de agregação moral e administrativa, cimentando uma unidade espiritual e cultural que resiste às invasões e às desordens políticas. A influência da Igreja, através do apostolado e da fundação de mosteiros, é apresentada como um elemento estruturante da nacionalidade, conferindo-lhe coesão e continuidade mesmo durante os períodos de domínio estrangeiro.
2.2. O Municipalismo como Garantia de Autonomia.
O desenvolvimento do municipalismo, na leitura de Sardinha e de Sampaio, é visto como a resposta natural às condições históricas do território, garantindo a sobrevivência das liberdades comunais e a ausência de estruturas feudais rígidas. A evolução das vilas para as freguesias e destas para os concelhos permite a intervenção do "terceiro estado" nas Cortes Gerais e a consolidação de uma monarquia limitada e participada, em que o poder central se equilibra com as autonomias locais. O municipalismo português surge, assim, como expressão máxima da experiência histórica e da capacidade de autogoverno do povo.
3. A Unidade da Grei e o Papel da Monarquia.
Sardinha, citando Sampaio, sublinha a inexistência de uma cisão radical entre povos vencedores e vencidos em Portugal, defendendo antes a existência de uma unidade histórica e espiritual forjada na experiência comum e nas instituições partilhadas. A Monarquia, nesse contexto, não é vista como simples regime político, mas como órgão vital da Pátria, responsável por dar finalidade, consciência e coesão ao esforço nacional. A identificação entre Pátria e Monarquia é apresentada como condição para o desenvolvimento, a independência e a permanência da nação, sendo a Monarquia o fator de síntese e direção das energias populares.
3.1. O Debate Norte-Sul e a Unidade Nacional.
No confronto entre as teorias do antagonismo Norte-Sul, Sardinha reconhece em Sampaio a tentativa de explicar as diferenças regionais, mas também a capacidade de demonstrar a homogeneidade de fundo da sociedade portuguesa. Apesar das influências e das transformações trazidas pelas conquistas e pelas invasões, prevalece a ideia de que há em Portugal um povo e uma cultura firmada e estável: as transferências populacionais e as adaptações locais não rompem o laço fundamental de continuidade histórica. A expansão marítima, a afirmação económica e a centralidade de Lisboa são vistas como fenómenos sociais, não étnicos, sublinhando-se sempre a força do património agrário e comunitário como matriz da nacionalidade.
4. Lirismo, Estrutura Social e Personalidade Portuguesa.
Por fim, Sardinha, recorrendo também a autores como Menéndez Pelayo e Menéndez Pidal, valoriza a ligação entre o lirismo dos Cancioneiros galego-portugueses, o ruralismo e a estrutura social do noroeste peninsular. O lirismo popular, nascido do quotidiano das pequenas comunidades agrícolas, é entendido como expressão viva da personalidade coletiva, marcada pelo amor à mulher, à terra e à natureza. A persistência das tradições, dos costumes e da organização económica e espiritual confere à região e ao povo português um caráter próprio e inconfundível, cuja continuidade, desde as citânias até à formação do Estado, é documentada e esclarecida por Alberto Sampaio.
4.1. A Grei como Síntese da Identidade.
Sardinha encerra a sua análise reconhecendo, na noção de "Grei", a chave para compreender a história e a unidade nacional. Reis, nobres, clero e povo constituem um bloco, onde uma alma comum prevalece sobre as diferenças de estatuto ou origem. A obra de Sampaio é celebrada como contributo fundamental para a compreensão dessa continuidade e dessa síntese, mostrando que a nacionalidade portuguesa é fruto de uma evolução orgânica, de uma experiência partilhada e de uma capacidade singular de adaptação e resistência.
Sintra, 09.09.2025
J. M. Q.
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