Genealogia da Lusofonia (Nota de Investigação)
José Manuel Quintas
O problema
A recensão de Miguel Real (JL, 2024, à saída da edição revista e aumentada, Zéfiro, 2024) reproduz, sem a discutir, a tese central de Renato Epifânio: Agostinho da Silva seria o pai da ideia de Lusofonia e, por extensão política, da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. A afirmação mistura três coisas que a história obriga a separar: a ideia de uma comunidade dos povos de língua portuguesa como projecto doutrinal; o projecto político-institucional que a preparou; e a instituição criada em Lisboa a 17 de Julho de 1996. Cada uma tem cronologia, agentes e sinal doutrinário próprios.
A primeira precaução é lexical. A palavra «lusofonia» não circula antes do último quartel do século XX; aplicá-la a Sardinha, a Freyre, a Adriano Moreira ou ao Agostinho da Silva dos anos 50 é anacronismo, como já notou a crítica académica brasileira a propósito das leituras retrospectivas da política externa de Jânio Quadros. Falaremos, pois, de «comunidade luso-brasileira», de «lusitanismo» e de «Lusitanidade» quando forem essas as palavras dos textos, reservando «Lusofonia» para o vocabulário posterior a 1980.
A segunda precaução é de método: privilegiar os textos. Para o Integralismo Lusitano, a fonte é estudosportugueses.com, onde estão transcritos os escritos brasileiros de Sardinha e os estudos que os enquadram; para Agostinho da Silva e para a CPLP, recorre-se aos textos de Renato
Epifânio, aos testemunhos de Adriano Moreira e de José Aparecido de Oliveira e à documentação institucional.
A recensão de Miguel Real (JL, 2024, à saída da edição revista e aumentada, Zéfiro, 2024) reproduz, sem a discutir, a tese central de Renato Epifânio: Agostinho da Silva seria o pai da ideia de Lusofonia e, por extensão política, da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. A afirmação mistura três coisas que a história obriga a separar: a ideia de uma comunidade dos povos de língua portuguesa como projecto doutrinal; o projecto político-institucional que a preparou; e a instituição criada em Lisboa a 17 de Julho de 1996. Cada uma tem cronologia, agentes e sinal doutrinário próprios.
A primeira precaução é lexical. A palavra «lusofonia» não circula antes do último quartel do século XX; aplicá-la a Sardinha, a Freyre, a Adriano Moreira ou ao Agostinho da Silva dos anos 50 é anacronismo, como já notou a crítica académica brasileira a propósito das leituras retrospectivas da política externa de Jânio Quadros. Falaremos, pois, de «comunidade luso-brasileira», de «lusitanismo» e de «Lusitanidade» quando forem essas as palavras dos textos, reservando «Lusofonia» para o vocabulário posterior a 1980.
A segunda precaução é de método: privilegiar os textos. Para o Integralismo Lusitano, a fonte é estudosportugueses.com, onde estão transcritos os escritos brasileiros de Sardinha e os estudos que os enquadram; para Agostinho da Silva e para a CPLP, recorre-se aos textos de Renato
Epifânio, aos testemunhos de Adriano Moreira e de José Aparecido de Oliveira e à documentação institucional.