A força da fé E A TRADIÇÃO POPULAR contra os poderes secretos
José Manuel Quintas
Este ensaio sustenta que a crítica de António Sardinha à Maçonaria pode ser melhor compreendida a partir de O Génio Ocidental, texto de 1912 em que se desenha uma oposição decisiva entre a fé popular — pública e comunitária — e os saberes iniciáticos — secretos e seletivos. A Maçonaria não surge, por isso, apenas como adversário político ou religioso, mas como emblema de uma cultura fechada, elitista e afastada da vida comum, em contraste com a tradição cristã vivida na paróquia, no município e nas formas visíveis da comunidade histórica.
É a partir desta chave de leitura que melhor se apreende a coerência interna do pensamento de António Sardinha: a fé popular, o municipalismo, a representação orgânica, a nobreza entendida como serviço e a recusa da plutocracia moderna convergem num núcleo anti-oligárquico claramente definido. A Maçonaria aparece, assim, como figura de condensação histórica de uma modernidade que culmina na crise da Monarquia e da Igreja, num arco que se estende do despotismo iluminado de Pombal ao liberalismo e ao iberismo republicano. Perante essa modernidade fundada no secretismo, na centralização e no secularismo, Sardinha procura recompor uma ordem tradicional assente na herança cristã, nas autonomias municipais e nas mediações concretas da vida comunitária.
I. A Raiz Conceptual: O Público contra o Secreto
A refutação dos poderes secretos — e, em particular, da Maçonaria — manifesta-se desde cedo como uma das linhas estruturantes da obra de António Sardinha. Antes de se afirmar como categoria de interpretação histórica, a sociabilidade maçónica é compreendida em contraste com a fé popular e a tradição cristã. O ponto de partida desta fratura encontra-se em O Génio Ocidental, publicado em 1912 na revista Dionysos sob o pseudónimo de António de Monforte. De um lado, Sardinha situa as realidades territoriais e visíveis da paróquia e do município; do outro, os saberes iniciáticos, reservados a minorias que se apresentam como depositárias de uma verdade superior. Daqui nasce a força da sua crítica posterior à modernidade positivista: não apenas a recusa de uma doutrina, mas a defesa das mediações tangíveis da vida histórica portuguesa contra poderes abstratos e herméticos.
Em O Génio Ocidental, esta dicotomia manifesta-se no confronto entre os esoterismos ocultistas e os mistérios medievais cristãos. Ao valorizar estes últimos como criações legítimas da civilização europeia — nascidas da vivência religiosa comum, e não de uma iniciação oculta —, Sardinha aproxima a fé de uma experiência esteticamente partilhada. Os mistérios medievais são, nas suas palavras, “por natureza cristãos, de fonte eclesiástica”, gerados quando “o mundo, sacudindo os seus velhos trapos, quis em toda a parte vestir o manto branco das igrejas”. Nestas criações, conclui, “não era necessária uma iniciação transfiguradora — bastava a força da fé”.
A religiosidade popular não se esgota na devoção espontânea; constitui uma linguagem comum de pertença e continuidade. É no município — entendido não como mera circunscrição administrativa, mas como lugar de sedimentação histórica — que a tradição cristã se torna vida partilhada. Nele se cruzam o calendário litúrgico, as festas, as devoções, os vínculos de vizinhança, a memória dos mortos e a aprendizagem quotidiana da identidade local.
A fé popular oferece, assim, a Sardinha um modelo de autoridade visível e territorialmente enraizada, em oposição ao segredo das lojas. A sua crítica não é uma recusa das elites; é antes a rejeição de elites artificiais, plutocráticas ou desvinculadas de funções sociais reconhecíveis, desprovidas de deveres e imunes à verificação comunitária.
II. A Arquitetura Orgânica: Município, Nobreza e Cortes
Esta lógica comunitária projeta-se na sua posterior teorização social e institucional. Em A Teoria da Nobreza (1916), ao abordar a hierarquia social, Sardinha recusa a noção de um privilégio estático. A nobreza tradicional não era idealizada como “uma casta fechada”, mas como uma classe funcional, aberta “à entrada de novos membros por mérito e à saída dos indignos”. A apologia desta aristocracia de funções serve de base à sua rejeição da plutocracia moderna. Contra uma elite validada pelo poder do dinheiro, pelo acaso da fortuna ou pela ausência de compromisso moral, o autor propõe uma hierarquia legitimada pela honra, pelo dever e pelo serviço ao bem comum. As diferenciações sociais só se justificam se estiverem organicamente vinculadas ao bem comum das comunidades.
Mais tarde, em A Teoria das Cortes Gerais (1924), este modelo encontra a sua expressão política mais consequente, convertendo-se numa verdadeira “teoria do Povo Português”. Para Sardinha, as instituições representativas da monarquia tradicional assentam “profundamente, na maneira de ser do nosso povo”, sendo os municípios descritos como “verdadeiras pequenas repúblicas locais” — instâncias históricas de autogoverno, participação e responsabilidade coletiva.
É sobre este solo comunitário que se ergue a sua teoria da nacionalidade, delineada em ensaios fundacionais como O Valor da Raça e O Território e a Raça, ambos de 1915. A nação portuguesa surge aí como um corpo histórico moldado pela continuidade da terra, da religião, da monarquia e do município — este último entendido como a célula-mãe da pátria, uma herança viva depositada pelo tempo e confirmada pelo costume. Numa carta a Luís de Almeida Braga, explicava o método da sua tese, definindo a "Verdade Portuguesa" através de um binómio: “um factor estático, — o localismo, o município” e outro dinâmico, “a resistência lírica da Raça”.
O individualismo, o liberalismo, o cosmopolitismo e o cientificismo constituíam já o horizonte adverso contra o qual António Sardinha se movia. Em termos biográficos, o livro inédito O sentido nacional de uma existência — escrito em 1913, mas publicado apenas em 1969 — assinala, por isso, um ponto de viragem decisivo e a purga do seu passado de estudante. Texto inaugural da sua produção, deixa entrever, num esboço ardente, o léxico polémico e antimaçónico que a escrita madura viria a integrar numa mundividência histórica mais densa, articulada e serena.
III. A Genealogia da Modernidade: De Pombal à Crise do Estado
A denúncia das elites desvinculadas do solo comunitário ganha maior precisão à medida que Sardinha aprofunda a revisão da história pátria. Em Século XVII (1924), Sardinha reabilita a cultura seiscentista e a pedagogia dos Jesuítas, mostrando que a tradição católica clássica correspondia a disciplina intelectual e continuidade cultural, e não ao obscurantismo alegado pelos iluministas. Em contrapartida, em A estátua do Marquês (1917), a figura de Sebastião José de Carvalho e Melo surge como símbolo de ruptura violenta. Classificado como “discípulo dos Enciclopedistas” e influenciado por correntes “jansenistas e regalistas”, o Marquês de Pombal é identificado como, “na nossa Pátria, o batedor da Revolução”. Antes do liberalismo oitocentista, o pombalismo representa a primeira manifestação moderna do centralismo estatal e da erosão das autonomias locais. Ao inscrevê-lo na escola dos “reis-filósofos”, Sardinha vincula o despotismo iluminado ao “individualismo despótico do Estado”. A Maçonaria, ao celebrar a memória do estadista, estava apenas a reconhecer a sua paternidade ideológica: “Se o saúdam como seu precursor, não se enganam, decerto!”
Esta linha de desagregação torna-se particularmente nítida na sua análise do século XIX. Em Gomes Freire e em 1820 (ambos de 1917), bem como em A Vila-Francada (1923), o liberalismo em Portugal é apresentado como drama de desraizamento da ordem tradicional. As lojas maçónicas e as ingerências estrangeiras são apontadas como forças que operaram nas sombras da história oficial. Em 1820, a Revolução Liberal é retratada como fruto do “trabalho lento e afincado da Maçonaria, desenrolando, pachorrenta, a sua teia na sombra” contra a matriz católica e monárquica do país. A máxima segundo a qual “O Liberalismo nasceu entre nós no seio das lojas maçónicas” concentra, de modo expressivo, esta leitura de Sardinha. Figuras como Gomes Freire e episódios como a crise da Vila-Francada tornam-se marcos de um processo de decadência cultural. O vocabulário das “Lojas”, dos “Filhos da Viúva” ou do “conluio” funciona, assim, como matriz narrativa destinada a tornar inteligível a história nacional como percurso de infiltração e rutura.
Nos anos finais, a reflexão de Sardinha projeta-se sobre a questão peninsular, alargando o alcance político da sua crítica. Em Revolução em Espanha? (1917) e A Aliança Peninsular (1924), o autor desloca o problema ibérico do receio imediato de uma república federal para uma meditação sobre a memória ecuménica dos povos hispânicos. Na primeira obra, Sardinha reafirma que “a história do último século não se pode compreender sem o conhecimento da história das associações secretas”, localizando nelas a génese do iberismo republicano. A solução que propõe assenta na distinção fixada em O Território e a Raça: “não união-ibérica, mas aliança-peninsular”. A primeira, de matriz jacobina, reduzia realidades vivas a uma geometria abstrata; a segunda procurava preservar uma comunidade espiritual comum sem aniquilar a soberania nem a pluralidade das pátrias históricas.
Conclusão: A Maçonaria como Condensação Histórica
Esta leitura política é indissociável de uma hermenêutica da crise civilizacional do Ocidente. Em Super flumina babylonis (1917), A soberania de Roma (1917) e A Crise do Estado (1922), Sardinha integra a Maçonaria numa constelação mais vasta de sinais de declínio: o livre-pensamento, o positivismo e a secularização. No seu entendimento, estes vetores assinalam a transição de uma ordem fundada na transcendência para um sistema materialista que institui a razão autónoma como único princípio de legitimação. Em Super flumina babylonis, adverte: “Não confundamos a Monarquia com o Constitucionalismo”, asseverando que “a primeira vítima do Constitucionalismo foi a dinastia”. Em A Crise do Estado, fixa a precedência das realidades orgânicas sobre o poder centralizado: “anterior ao Estado, há uma soberania social”, exercida através da “Família, o Município, a Corporação”.
Por esta razão, a crueza retórica de textos como As duas raças (1917), que opõe uma "raça monárquica” a uma "raça republicana", deve ser lida com prudência historiográfica. Sardinha, que já abandonara o republicanismo em 1913, manteve contudo estas teses raciais/étnicas - de raiz republicana - até ao seu exílio em Espanha (1919-21), altura em que as abandonou definitivamente. O interesse do texto não reside na aceitação da sua clivagem em termos étnicos - que atribuía à "raça republicana" a influência de judeus e maçons -, mas na compreensão do modo como essa fronteira é logicamente construída para combater o erro revolucionário do individualismo abstrato. Ao denunciar o “limitado e grosseiro positivismo” e as “torpes ideologias de um falso e depressivo racionalismo” (A Crise do Estado, 1922), Sardinha revela a coerência do seu percurso de ruptura com o cientismo da juventude.
Considerada na sua sequência global, a obra de António Sardinha converte a Maçonaria na figura de condensação histórica de uma modernidade que o pensador integralista impugna. Nela convergem, em cadeia contínua, o regalismo pombalino, o individualismo da Revolução Francesa, o constitucionalismo de 1820 e o iberismo secularizado. O fenómeno maçónico deixa, assim, de ser um mero oponente político circunstancial para se tornar o emblema de uma visão do mundo oculta nas suas dinâmicas de influência, centralizadora na sua orgânica e secular na sua orientação espiritual.
É neste ponto que a arquitetura conceptual regressa, inevitavelmente, ao postulado original de O Génio Ocidental: a defesa de uma tradição cristã assente na publicidade da fé e nas liberdades municipais, contraposta ao governo das oligarquias e ao império da riqueza desvinculada de deveres sociais. António Sardinha escreve contra a influência das sociedades secretas na modernidade portuguesa como quem procura restaurar, pela força da doutrinação e da palavra, as mediações orgânicas e comunitárias da identidade nacional. A sua crítica persuade precisamente porque não se limita à denúncia: propõe uma alternativa de ordem, continuidade e pertença, fundada na comunidade visível contra os poderes ocultos.
Fontes citadas
Sardinha, António. “O Génio Ocidental” [sob o pseudónimo António de Monforte]. Dionysos - Revista mensal de filosofia, ciência e arte, Coimbra, 1912.
Sardinha, António. “A Teoria da Nobreza” (Agosto de 1916). Nação Portuguesa, 1ª série, n.º 12, Novembro de 1916, pp. 359-376. [Republicado em Ao Princípio era o Verbo, Portugalia Editora, 1924, p. 191 e ss.]
Sardinha, António. “O Território e a Raça” (Conferência realizada na sala nobre da Liga Naval Portuguesa, 7 de Abril de 1915). In A Questão Ibérica, Lisboa, Tipografia do Anuário Comercial, 1916, pp. 10-76.
Sardinha, António. O Valor da Raça - Introdução a uma Campanha Nacional. Lisboa, 1915. [Inclui referência a carta de Sardinha a Luís de Almeida Braga sobre o método da tese.]
Sardinha, António. “Gomes Freire (Revisão de um processo)”. 1917.
Sardinha, António. “1820”. 1917.
Sardinha, António. “Revolução em Espanha?”. Agosto de 1917.
Sardinha, António. “A estátua do Marquês”. 16 de Agosto de 1917.
Sardinha, António. “A Vila-Francada” [1823]. 1923.
Sardinha, António. “Super flumina babylonis”. 1917. [Recolhido em Ao Ritmo da Ampulheta - Crítica e Doutrina, Lisboa, Lvmen, 1925.]
Sardinha, António. “A Crise do Estado”. 1922. [Recolhido em Da Hera nas Colunas - Novos Estudos, Coimbra, 1929.]
Sardinha, António. “As duas raças”. 1917.
Sardinha, António. A Teoria das Cortes Gerais. Prefácio à 2ª edição de Memórias para a História e Teoria das Cortes Gerais, do 2.º Visconde de Santarém (1ª ed., 1827-1828). 1924. [Publicado em livro autónomo, Biblioteca do Pensamento Político, 1975.]
Todas as citações foram verificadas contra os textos disponibilizados ( pdf e html) em www.estudosportugueses.com.
Sardinha, António. “O Génio Ocidental” [sob o pseudónimo António de Monforte]. Dionysos - Revista mensal de filosofia, ciência e arte, Coimbra, 1912.
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Sardinha, António. A Teoria das Cortes Gerais. Prefácio à 2ª edição de Memórias para a História e Teoria das Cortes Gerais, do 2.º Visconde de Santarém (1ª ed., 1827-1828). 1924. [Publicado em livro autónomo, Biblioteca do Pensamento Político, 1975.]
Todas as citações foram verificadas contra os textos disponibilizados ( pdf e html) em www.estudosportugueses.com.