O problema da representação política
... o 28 de Maio continua a dividir porque há duas simplificações concorrentes: uma, saudosista, confunde o 28 de Maio com o Estado Novo e omite a clivagem entre o projeto de Gomes da Costa e a concretização de Salazar; outra, predominante no atual regime, omite por completo as propostas orgânicas do movimento inicial. A disputa não é apenas sobre o passado. É também sobre o modo como se pensa a representação política.
- José Manuel Quintas in Alexandra Tavares-Teles, "28 de Maio - A data que a direita radical pode tentar resgatar", Diário de Notícias, Lisboa, 28 de Maio de 2026, pp. 6-9, cit. p. 9.
Quadro sumário do confronto de perspectivas entre os historiadores Rui Tavares e José Manuel Quintas
Causas do 28 de Maio
RUI TAVARES - Sublinha a degradação da legalidade republicana e a normalização da conspiração militar. O golpe torna-se possível porque sucessivas tentativas anteriores ficaram impunes e reduziram o custo político da insurreição.
JOSÉ MANUEL QUINTAS - Destaca a falência da partidocracia republicana, a instabilidade governativa e o descrédito institucional. O movimento aparece como reação regeneradora contra a mediação partidária.
Natureza do movimento
RUI TAVARES - Insiste que não houve um único golpe, mas vários golpes concorrentes. O 28 de Maio é visto como processo instável, marcado por conflitos militares internos e por um “golpe dentro do golpe”.
JOSÉ MANUEL QUINTAS - Há vários golpes dentro do golpe, mas valoriza o movimento iniciado por Gomes da Costa e o projecto apresentado em 14 de Junho visando reorganizar a representação nacional em bases municipalistas e sindical-corporativas.
Relação com a ditadura e com Salazar
RUI TAVARES - Vê no 28 de Maio a abertura quase imediata de uma lógica ditatorial: suspensão de liberdades, repressão e consolidação de um regime autoritário que desemboca no Estado Novo.
JOSÉ MANUEL QUINTAS - Considera que o impulso original foi desviado após o golpe de Carmona em 9 de Julho. A ditadura salazarista não foi a consumação natural do 28 de Maio, mas a apropriação e a neutralização do seu espírito e projecto inicial.
Adesão popular
RUI TAVARES - Admite aplauso e expectativa, mas entende que se tratou de adesão a promessas enganosas e breves. Mais tarde, o regime impõe obediência sobretudo por coação e violência.
JOSÉ MANUEL QUINTAS - Atribui maior peso ao acolhimento social do movimento militar comandado por Gomes da Costa. Sublinha a esperança de regeneração nacional e a perceção de que os militares ofereciam uma saída para a crise política.
Memória histórica
RUI TAVARES - Entende que o Estado Novo fabricou uma memória que opôs o “caos” republicano à “ordem” autoritária, ocultando a confusão real do processo e a violência da ditadura.
JOSÉ MANUEL QUINTAS - Sustenta que a memória dominante posterior simplificou o 28 de Maio ao confundi-lo com o Estado Novo, apagando as clivagens internas e as propostas orgânicas do movimento inicial protagonizado por Gomes da Costa.
Síntese interpretativa
RUI TAVARES - O 28 de Maio é o começo da destruição da democracia republicana e da longa instalação da ditadura.
JOSÉ MANUEL QUINTAS - O 28 de Maio contém um projeto regenerador próprio, depois frustrado e adulterado por uma evolução centralizadora que culmina em Salazar.
RUI TAVARES - Sublinha a degradação da legalidade republicana e a normalização da conspiração militar. O golpe torna-se possível porque sucessivas tentativas anteriores ficaram impunes e reduziram o custo político da insurreição.
JOSÉ MANUEL QUINTAS - Destaca a falência da partidocracia republicana, a instabilidade governativa e o descrédito institucional. O movimento aparece como reação regeneradora contra a mediação partidária.
Natureza do movimento
RUI TAVARES - Insiste que não houve um único golpe, mas vários golpes concorrentes. O 28 de Maio é visto como processo instável, marcado por conflitos militares internos e por um “golpe dentro do golpe”.
JOSÉ MANUEL QUINTAS - Há vários golpes dentro do golpe, mas valoriza o movimento iniciado por Gomes da Costa e o projecto apresentado em 14 de Junho visando reorganizar a representação nacional em bases municipalistas e sindical-corporativas.
Relação com a ditadura e com Salazar
RUI TAVARES - Vê no 28 de Maio a abertura quase imediata de uma lógica ditatorial: suspensão de liberdades, repressão e consolidação de um regime autoritário que desemboca no Estado Novo.
JOSÉ MANUEL QUINTAS - Considera que o impulso original foi desviado após o golpe de Carmona em 9 de Julho. A ditadura salazarista não foi a consumação natural do 28 de Maio, mas a apropriação e a neutralização do seu espírito e projecto inicial.
Adesão popular
RUI TAVARES - Admite aplauso e expectativa, mas entende que se tratou de adesão a promessas enganosas e breves. Mais tarde, o regime impõe obediência sobretudo por coação e violência.
JOSÉ MANUEL QUINTAS - Atribui maior peso ao acolhimento social do movimento militar comandado por Gomes da Costa. Sublinha a esperança de regeneração nacional e a perceção de que os militares ofereciam uma saída para a crise política.
Memória histórica
RUI TAVARES - Entende que o Estado Novo fabricou uma memória que opôs o “caos” republicano à “ordem” autoritária, ocultando a confusão real do processo e a violência da ditadura.
JOSÉ MANUEL QUINTAS - Sustenta que a memória dominante posterior simplificou o 28 de Maio ao confundi-lo com o Estado Novo, apagando as clivagens internas e as propostas orgânicas do movimento inicial protagonizado por Gomes da Costa.
Síntese interpretativa
RUI TAVARES - O 28 de Maio é o começo da destruição da democracia republicana e da longa instalação da ditadura.
JOSÉ MANUEL QUINTAS - O 28 de Maio contém um projeto regenerador próprio, depois frustrado e adulterado por uma evolução centralizadora que culmina em Salazar.
(Excerto, pp. 8-9)
(...)
Rui Tavares, autor de Como se perde uma República 1924-1927. Ensaio sobre há 100 anos, livro agora lançado com a chancela da Tinta da China, estranha que o centenário não esteja a provocar uma reflexão pública mais ampla. “O que é estranho em Portugal é que, havendo tanta atualidade do tema, haja tão pouco debate”, diz ao DN. O historiador compara esse silêncio ao que seria impensável na Alemanha quando chegar o centenário da queda da República de Weimar e da ascensão do nazismo, e nota a ausência das mais altas figuras do Estado: “O Presidente da República, o presidente da Assembleia da República, o primeiro-ministro — não falam disso. Deputados, praticamente nenhum.” Há alguns que, se falassem, seria para celebrar. Mas “poucos estão dispostos a falar para retirar ensinamentos”. É isso que considera “verdadeiramente preocupante”.
José Manuel Quintas, que publica Vida e Morte do 28 de Maio: os camisas azuis (E- Primatur) olha para a atualidade da data a partir de outra preocupação. O 28 de Maio, defende, continua a ser relevante porque mostra como, em contextos de crise, “propostas apresentadas como solução nacional podem conduzir à concentração do poder, à censura e à limitação das liberdades”. Mas a sua reflexão passa também pela crítica à representação partidária e pela recuperação de uma dimensão que considera esquecida: os modelos de representação municipal e sindical associados ao primeiro impulso do movimento. No seu vocabulário, os conceitos de municipalismo e sindicalismo “continuam a ser interpretados como elementos disruptivos”, provocando “uma resistência quase visceral por parte dos defensores ortodoxos do modelo de representação partidária vigente”.
(...)
A República perdida ou a revolução traída?
É aqui que entram os historiadores. Rui Tavares e José Manuel Quintas olham para a mesma data a partir de lugares distintos. Tavares é um historiador e político de esquerda. Quintas tem pendor monárquico e aproxima-se do universo do Integralismo Lusitano. Ambos recusam uma leitura simples. Ambos distinguem o golpe inicial do salazarismo consolidado. Ambos reconhecem que o 28 de Maio foi atravessado por disputas internas. Mas divergem quase em tudo o que dá sentido político ao acontecimento.
Para Rui Tavares, a causa imediata do golpe não está apenas na decadência da Primeira República. Está na impunidade. "Houve dezenas de golpes contra a República; vinte pelo menos numa contabilidade conservadora", diz ao DN. Nos últimos anos do regime, acrescenta, “os militares deram a si mesmos carta branca para conspirar, e não só não eram castigados, como eram celebrados, o que tornava o custo de dar um golpe menor do que os benefícios". O golpe de 18 de Abril de 1925, que não foi julgado, não foi apenas um ensaio geral.
Foi "quase a sua guia de marcha" A lição, resume, era clara: "Podem continuar a tentar até dar certo." José Manuel Quintas parte de outro ponto. Para ele, o pronunciamento de Gomes da Costa nasceu contra aquilo que o general qualificava como a ação devassa e tirânica" dos partidos políticos. O problema central era a partidocracia republicana, a instabilidade crónica, a desordem política, financeira e institucional. O 28 de Maio surge, nesta leitura, como tentativa de "promover uma revolução regeneradora, assente no municipalismo e no sindicalismo, em detrimento da mediação partidária". Onde Rui Tavares vê a erosão da legalidade pela normalização da conspiração militar, Quintas vê uma reação à falência da representação partidária.
A própria natureza do golpe é lida de forma diferente. Rui Tavares insiste numa precisão que considera essencial: a 28 de Maio não há só um golpe". Há pelo menos dois, "um em Braga, com Gomes da Costa, e um em Lisboa, com Mendes Cabeçadas". E há um terceiro, a partir de Elvas e Évora, protagonizado por Oscar Carmona, que "vai acabar por ganhar e marcar os nossos 48 anos seguintes". A imagem é a de um processo em camadas, instável: "um golpe dentro do golpe dentro do golpe". Daí a sua fórmula mais contundente: “o 28 de Maio não substituiu o caos civil pela ordem militar. Substituiu o caos civil pelo caos militar, que ainda durou bastante tempo." Quintas reconhece conflitos dentro do campo vencedor, mas dá-lhes outro significado. Gomes da Costa não é apenas uma figura usada e descartada. É o portador de um projeto. Em 14 de Junho de 1926, sublinha, o general apresentou "as grandes linhas de um projeto constitucional" baseado numa representação nacional em duas câmaras: "Câmara dos Municípios e Câmara Corporativa". O golpe palaciano de 9 de Julho, conduzido por Carmona e Sinel de Cordes, que prende e deporta Gomes da Costa para os Açores, torna-se assim um momento decisivo: não apenas uma luta de poder, mas o início do esvaziamento do "espírito do 28 de Maio".
Para Rui Tavares, o golpe abre rapidamente caminho à violência organizada da ditadura. O Parlamento é suspenso e depois extinto, a censura é introduzida e as promessas de manter a República, a Constituição e as liberdades sãovioladas. Em Fevereiro de 1927, quando há revoltas no Porto e em Lisboa, a resposta é sangrenta. O historiador fala em "dois massacres", com "cerca de 80 mortos no Porto e outros tantos em Lisboa, muitas centenas de feridos". Dessa semana, fica uma evidência: "a ditadura era para valer", diz. Não se tratava apenas de jogos de elites. A ditadura mostrava-se "disposta a massacrar o povo, a usar o Exército e a artilharia para esmagar qualquer revolta de defesa das liberdades.
Quintas não nega a deriva autoritária, mas prefere sublinhar o desvio em relação ao impulso inicial. Entre 1926 e 1933, identifica uma "fase de transição autoritária", marcada pela suspensão da normalidade constitucional, pelo predominio militar, pelas lutas internas e pela "crescente concentração do poder nas mãos de Salazar". Diz mais: "Salazar transforma o movimento inicial de caráter municipalista e sindicalista, num regime centralizado e de partido único."
Para Rui Tavares, o 28 de Maio contém desde cedo a lógica da ditadura. Para Quintas, a ditadura salazarista resulta de uma apropriação e de uma deformação do movimento original.
A Constituição de 1933 cristaliza essa diferença. Rui Tavares vê nela a solução encontrada por Carmona e Salazar para estabilizar o poder. De um lado, "Carmona, como a espada do poder militar"; do outro, "Salazar, como a mente que vai efetivamente governar". A nova ordem "permite acomodar, integrar ou afastar várias correntes que tinham orbitado o golpe: integralistas, nacionalistas lusitanos, nacional-sindicalistas". Correntes, diz, “fascinadas pela ascensão do fascismo" e por uma visão orgânica da nação. Para algumas delas, a revolução não era apenas contra a República; era contra "os cem anos de liberalismo decorridos desde as revoluções liberais de 1820".
Simpatizante do Integralismo, Quintas lê a Constituição de 1933 como o momento em que a "Revolução Nacional" de Gomes da Costa é contrariada pela centralização salazarista. O 28 de Maio permanece, para ele, "um marco de intensa polarização historiográfica e política" porque o seu legado foi simplificado. À direita, correntes próximas do conservadorismo autoritário do Estado Novo tenderiam a omitir "a profunda clivagem existente entre a "Revolução Nacional, iniciada por Gomes da Costa, e a deriva centralizadora consolidada por Oliveira Salazar através da Constituição de 1933". Do outro lado, interpretações alinhadas como atual regime de representação partidária subestimariam "a substância das propostas de representação orgânica - municipal e sindical – apresentadas por Gomes da Costa em junho de 1926.
Adesão a engano ou apoteose?
Aceitação popular do golpe é outro ponto de separação. Rui Tavares admite expectativa e aplauso, mas recusa transformar isso em adesão consciente à ditadura. "Se aderiu, aderiu a uma farsa, a um engano", diz. Naquele dia, tanto Gomes da Costa como Mendes Cabeçadas prometeram que os golpes não eram para acabar com a República. Mendes Cabeçadas garantiu que não encerraria o Parlamento nem reinstituiria a censura. Assim, quando parte da população de Lisboa aplaudiu a entrada de Gomes da Costa, estava a aplaudir "uma coisa que não era para durar". Tomar esse aplauso como adesão é, diz, esquecer que a situação "tem uma duração muito curta".
Quintas valoriza mais o acolhimento social do movimento. Para ele, "a população de Lisboa saudou os militares em clima de apoteose". O contexto era o da memória da Noite Sangrenta, da sucessão de governos, da instabilidade e do descrédito financeiro. Muitos viram nos militares uma saída possível. Havia "esperança numa regeneração nacional", apresentada como libertação da ditadura dos partidos e dos políticos profissionais. A mobilização militar ampla conferia ao movimento uma imagem de força e legitimidade.
Rui Tavares recusa mesmo a palavra aceitação para o que se seguiu. "A aceitação da ditadura por parte da sociedade não é uma aceitação. É uma coação." A partir de 1927, com degredos, exílios, censura, polícia política e repressão, o regime já não precisava de ser aceite como a Monarquia Constitucional ou a República tinham precisado. "Basta-lhe impor-se." Uma democracia precisa da aprovação das pessoas; uma ditadura precisa da obediência. E "obediência consegue-se sob coação ou sob ameaça de violência", concluiu o historiador.
No plano da memória, Rui Tavares vê ainda a força de uma narrativa fabricada pelo Estado Novo. "António Ferro chega a dizer claramente que o passado é uma coisa para ser inventada, e essa máxima foi aplicada." A ditadura teria criado uma estética de "Revolução Nacional" que pouco tinha a ver com a confusão real daqueles dias e meses. A ideia de uma República reduzida ao caos e de uma ditadura surgida como ordem seria resultado dessa política da memória. E os seus efeitos prolongam-se: "A Primeira República continua a ser bastante mal conhecida. Vista como pitoresca, mas não relembrada e muito menos entendida."
Quintas também fala de polarização da memória, mas por razões diferentes. Para ele, “o 28 de Maio continua a dividir porque há duas simplificações concorrentes: uma, saudosista, confunde o 28 de Maio como Estado Novo e omite a clivagem entre o projeto de Gomes da Costa e a concretização de Salazar; outra, predominante no atual regime, omite por completo as propostas orgânicas do movimento inicial. A disputa não é apenas sobre o passado. É também sobre o modo como se pensa a representação política."
Ambos consideram que a data continua a falar ao presente.
Rui Tavares, autor de Como se perde uma República 1924-1927. Ensaio sobre há 100 anos, livro agora lançado com a chancela da Tinta da China, estranha que o centenário não esteja a provocar uma reflexão pública mais ampla. “O que é estranho em Portugal é que, havendo tanta atualidade do tema, haja tão pouco debate”, diz ao DN. O historiador compara esse silêncio ao que seria impensável na Alemanha quando chegar o centenário da queda da República de Weimar e da ascensão do nazismo, e nota a ausência das mais altas figuras do Estado: “O Presidente da República, o presidente da Assembleia da República, o primeiro-ministro — não falam disso. Deputados, praticamente nenhum.” Há alguns que, se falassem, seria para celebrar. Mas “poucos estão dispostos a falar para retirar ensinamentos”. É isso que considera “verdadeiramente preocupante”.
José Manuel Quintas, que publica Vida e Morte do 28 de Maio: os camisas azuis (E- Primatur) olha para a atualidade da data a partir de outra preocupação. O 28 de Maio, defende, continua a ser relevante porque mostra como, em contextos de crise, “propostas apresentadas como solução nacional podem conduzir à concentração do poder, à censura e à limitação das liberdades”. Mas a sua reflexão passa também pela crítica à representação partidária e pela recuperação de uma dimensão que considera esquecida: os modelos de representação municipal e sindical associados ao primeiro impulso do movimento. No seu vocabulário, os conceitos de municipalismo e sindicalismo “continuam a ser interpretados como elementos disruptivos”, provocando “uma resistência quase visceral por parte dos defensores ortodoxos do modelo de representação partidária vigente”.
(...)
A República perdida ou a revolução traída?
É aqui que entram os historiadores. Rui Tavares e José Manuel Quintas olham para a mesma data a partir de lugares distintos. Tavares é um historiador e político de esquerda. Quintas tem pendor monárquico e aproxima-se do universo do Integralismo Lusitano. Ambos recusam uma leitura simples. Ambos distinguem o golpe inicial do salazarismo consolidado. Ambos reconhecem que o 28 de Maio foi atravessado por disputas internas. Mas divergem quase em tudo o que dá sentido político ao acontecimento.
Para Rui Tavares, a causa imediata do golpe não está apenas na decadência da Primeira República. Está na impunidade. "Houve dezenas de golpes contra a República; vinte pelo menos numa contabilidade conservadora", diz ao DN. Nos últimos anos do regime, acrescenta, “os militares deram a si mesmos carta branca para conspirar, e não só não eram castigados, como eram celebrados, o que tornava o custo de dar um golpe menor do que os benefícios". O golpe de 18 de Abril de 1925, que não foi julgado, não foi apenas um ensaio geral.
Foi "quase a sua guia de marcha" A lição, resume, era clara: "Podem continuar a tentar até dar certo." José Manuel Quintas parte de outro ponto. Para ele, o pronunciamento de Gomes da Costa nasceu contra aquilo que o general qualificava como a ação devassa e tirânica" dos partidos políticos. O problema central era a partidocracia republicana, a instabilidade crónica, a desordem política, financeira e institucional. O 28 de Maio surge, nesta leitura, como tentativa de "promover uma revolução regeneradora, assente no municipalismo e no sindicalismo, em detrimento da mediação partidária". Onde Rui Tavares vê a erosão da legalidade pela normalização da conspiração militar, Quintas vê uma reação à falência da representação partidária.
A própria natureza do golpe é lida de forma diferente. Rui Tavares insiste numa precisão que considera essencial: a 28 de Maio não há só um golpe". Há pelo menos dois, "um em Braga, com Gomes da Costa, e um em Lisboa, com Mendes Cabeçadas". E há um terceiro, a partir de Elvas e Évora, protagonizado por Oscar Carmona, que "vai acabar por ganhar e marcar os nossos 48 anos seguintes". A imagem é a de um processo em camadas, instável: "um golpe dentro do golpe dentro do golpe". Daí a sua fórmula mais contundente: “o 28 de Maio não substituiu o caos civil pela ordem militar. Substituiu o caos civil pelo caos militar, que ainda durou bastante tempo." Quintas reconhece conflitos dentro do campo vencedor, mas dá-lhes outro significado. Gomes da Costa não é apenas uma figura usada e descartada. É o portador de um projeto. Em 14 de Junho de 1926, sublinha, o general apresentou "as grandes linhas de um projeto constitucional" baseado numa representação nacional em duas câmaras: "Câmara dos Municípios e Câmara Corporativa". O golpe palaciano de 9 de Julho, conduzido por Carmona e Sinel de Cordes, que prende e deporta Gomes da Costa para os Açores, torna-se assim um momento decisivo: não apenas uma luta de poder, mas o início do esvaziamento do "espírito do 28 de Maio".
Para Rui Tavares, o golpe abre rapidamente caminho à violência organizada da ditadura. O Parlamento é suspenso e depois extinto, a censura é introduzida e as promessas de manter a República, a Constituição e as liberdades sãovioladas. Em Fevereiro de 1927, quando há revoltas no Porto e em Lisboa, a resposta é sangrenta. O historiador fala em "dois massacres", com "cerca de 80 mortos no Porto e outros tantos em Lisboa, muitas centenas de feridos". Dessa semana, fica uma evidência: "a ditadura era para valer", diz. Não se tratava apenas de jogos de elites. A ditadura mostrava-se "disposta a massacrar o povo, a usar o Exército e a artilharia para esmagar qualquer revolta de defesa das liberdades.
Quintas não nega a deriva autoritária, mas prefere sublinhar o desvio em relação ao impulso inicial. Entre 1926 e 1933, identifica uma "fase de transição autoritária", marcada pela suspensão da normalidade constitucional, pelo predominio militar, pelas lutas internas e pela "crescente concentração do poder nas mãos de Salazar". Diz mais: "Salazar transforma o movimento inicial de caráter municipalista e sindicalista, num regime centralizado e de partido único."
Para Rui Tavares, o 28 de Maio contém desde cedo a lógica da ditadura. Para Quintas, a ditadura salazarista resulta de uma apropriação e de uma deformação do movimento original.
A Constituição de 1933 cristaliza essa diferença. Rui Tavares vê nela a solução encontrada por Carmona e Salazar para estabilizar o poder. De um lado, "Carmona, como a espada do poder militar"; do outro, "Salazar, como a mente que vai efetivamente governar". A nova ordem "permite acomodar, integrar ou afastar várias correntes que tinham orbitado o golpe: integralistas, nacionalistas lusitanos, nacional-sindicalistas". Correntes, diz, “fascinadas pela ascensão do fascismo" e por uma visão orgânica da nação. Para algumas delas, a revolução não era apenas contra a República; era contra "os cem anos de liberalismo decorridos desde as revoluções liberais de 1820".
Simpatizante do Integralismo, Quintas lê a Constituição de 1933 como o momento em que a "Revolução Nacional" de Gomes da Costa é contrariada pela centralização salazarista. O 28 de Maio permanece, para ele, "um marco de intensa polarização historiográfica e política" porque o seu legado foi simplificado. À direita, correntes próximas do conservadorismo autoritário do Estado Novo tenderiam a omitir "a profunda clivagem existente entre a "Revolução Nacional, iniciada por Gomes da Costa, e a deriva centralizadora consolidada por Oliveira Salazar através da Constituição de 1933". Do outro lado, interpretações alinhadas como atual regime de representação partidária subestimariam "a substância das propostas de representação orgânica - municipal e sindical – apresentadas por Gomes da Costa em junho de 1926.
Adesão a engano ou apoteose?
Aceitação popular do golpe é outro ponto de separação. Rui Tavares admite expectativa e aplauso, mas recusa transformar isso em adesão consciente à ditadura. "Se aderiu, aderiu a uma farsa, a um engano", diz. Naquele dia, tanto Gomes da Costa como Mendes Cabeçadas prometeram que os golpes não eram para acabar com a República. Mendes Cabeçadas garantiu que não encerraria o Parlamento nem reinstituiria a censura. Assim, quando parte da população de Lisboa aplaudiu a entrada de Gomes da Costa, estava a aplaudir "uma coisa que não era para durar". Tomar esse aplauso como adesão é, diz, esquecer que a situação "tem uma duração muito curta".
Quintas valoriza mais o acolhimento social do movimento. Para ele, "a população de Lisboa saudou os militares em clima de apoteose". O contexto era o da memória da Noite Sangrenta, da sucessão de governos, da instabilidade e do descrédito financeiro. Muitos viram nos militares uma saída possível. Havia "esperança numa regeneração nacional", apresentada como libertação da ditadura dos partidos e dos políticos profissionais. A mobilização militar ampla conferia ao movimento uma imagem de força e legitimidade.
Rui Tavares recusa mesmo a palavra aceitação para o que se seguiu. "A aceitação da ditadura por parte da sociedade não é uma aceitação. É uma coação." A partir de 1927, com degredos, exílios, censura, polícia política e repressão, o regime já não precisava de ser aceite como a Monarquia Constitucional ou a República tinham precisado. "Basta-lhe impor-se." Uma democracia precisa da aprovação das pessoas; uma ditadura precisa da obediência. E "obediência consegue-se sob coação ou sob ameaça de violência", concluiu o historiador.
No plano da memória, Rui Tavares vê ainda a força de uma narrativa fabricada pelo Estado Novo. "António Ferro chega a dizer claramente que o passado é uma coisa para ser inventada, e essa máxima foi aplicada." A ditadura teria criado uma estética de "Revolução Nacional" que pouco tinha a ver com a confusão real daqueles dias e meses. A ideia de uma República reduzida ao caos e de uma ditadura surgida como ordem seria resultado dessa política da memória. E os seus efeitos prolongam-se: "A Primeira República continua a ser bastante mal conhecida. Vista como pitoresca, mas não relembrada e muito menos entendida."
Quintas também fala de polarização da memória, mas por razões diferentes. Para ele, “o 28 de Maio continua a dividir porque há duas simplificações concorrentes: uma, saudosista, confunde o 28 de Maio como Estado Novo e omite a clivagem entre o projeto de Gomes da Costa e a concretização de Salazar; outra, predominante no atual regime, omite por completo as propostas orgânicas do movimento inicial. A disputa não é apenas sobre o passado. É também sobre o modo como se pensa a representação política."
Ambos consideram que a data continua a falar ao presente.
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