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Alfredo Pimenta e o Integralismo Lusitano

José Manuel Quintas

Fotografia
Alfredo Pimenta, em 1913, ainda republicano (in "Política Portuguesa")
Fotografia

Síntese das divergências
  • Legitimidade régia: Pimenta manteve-se fiel a D. Manuel II, cujos direitos históricos considerava invioláveis; Sardinha admitia a escolha de outro rei pela representação da comunidade nacional.
  • Origem do poder: Para Pimenta, o poder descia do rei; para Sardinha, subia da comunidade, sendo o poder do rei um serviço sujeito a um pacto.
  • Organização política: Pimenta defendia uma monarquia hierárquica e elitista, conduzida pelas camadas superiores; Sardinha propunha uma monarquia orgânica e municipalista, assente nas corporações e nos municípios.
  • Fundação de Portugal: Pimenta atribuía a independência ao génio e ao plano de D. Afonso Henriques; Sardinha via-a como expressão de uma comunidade nacional já formada.
  • Método histórico: Pimenta valorizava o documento e a ação dos grandes homens; Sardinha privilegiava a tradição, a comunidade e a interpretação doutrinária do passado.

Alfredo Pimenta e o Integralismo Lusitano

Alfredo Augusto Lopes Pimenta (Guimarães, 1882 - Lisboa, 1950). Historiador, poeta e político. Foi uma das mais controversas personalidades políticas e culturais do século XX português.

Nasceu na Casa de Penouços, numa família de proprietários rurais. Órfão de pai e mãe aos dez anos, fez os primeiros estudos em Braga e em Guimarães, no Colégio de S. Nicolau, onde teve por mestre o Cónego José Maria Gomes; em 1893 recebeu o prémio da Sociedade Martins Sarmento para o melhor aluno da instrução primária. Do seu conselho de família fizeram parte o tio Silvestre Pimenta, o médico Dr. Matos Chaves e o médico e escritor Dr. Joaquim José de Meira, em cuja biblioteca, como na da Sociedade Martins Sarmento, se formou. Foi amigo de juventude de João e José de Meira — o mesmo João de Meira de quem discordará, em 1928, sobre o local da batalha de S. Mamede —, de Alfredo Guimarães e de Eduardo de Almeida, com quem fundou a revista literária O Burgo Podre; colaborou durante anos no Comércio de Guimarães. Em 1904 casou com D. Adozinda Soares de Brito de Carvalho, de Coimbra, de quem teve três filhos.

Nasceu para a política no anarquismo enquanto estudante em Coimbra — pertenceu ao Núcleo de Educação Anarquista e foi redactor do jornal Era Nova —, tendo-se estreado com Os Despeitos da Academia (1903) e a Mentira Monarchica (1906). Estreou-se na poesia com Eu (1904) e voltou a ela Na Torre da Ilusão (1912), enquanto o seu Livro das Chymeras (1922) foi escrito «quando, tendo descido da Torre do seu orgulho, entrava na catedral Magnífica da Sua Humildade»; formado em Direito em 1908, abriu banca de advogado no Porto, que depressa abandonou pelo jornalismo e pela política; fixado em Lisboa em 1910, chefiou o gabinete de António Aurélio da Costa Ferreira, ministro do Fomento, e ensinou no Liceu Passos Manuel. Entretanto havia passado pelo republicanismo evolucionista de António José de Almeida — de quem foi braço direito até 1914, redigindo o manifesto e as bases programáticas do Partido Evolucionista —, com participação significativa no jornal República. Foi aí que publicou, em 12 de Junho de 1914, «O partido dos escândalos», artigo que abriu uma crise entre António José de Almeida e Afonso Costa.

Sob o pseudónimo de «Lord Henry» deu colaboração ao jornal A Restauração, de Homem Cristo (Filho), mas a sua adesão ao ideário monárquico só se consuma nas vésperas da revolução que, em 14 de Maio de 1915, derrubou o governo do general Pimenta de Castro, apoiado pelos evolucionistas: desligou-se então do Partido Evolucionista e da República, «com a única mágoa de se separar de Guerra Junqueiro».

Em 1915, publica A Solução Monárquica (Coimbra, Tip. Moderna), iniciando a sua carreira em defesa da monarquia. «Na plena posse da minha serenidade, — escreveu Pimenta nessa altura —, livre de qualquer sugestão, tão profundamente concentrado como se estivesse confiando, na hora última da minha existência, à inteligência de Deus ou ao juízo da História, os meus mais íntimos pensamentos; evocando tudo quanto de belo tive nos sacrifícios do Passado e pensando no destino sagrado dos meus filhos: não esquecendo o que devo ao meu nome que é puro de mácula, e o que devo ao respeito dos homens que em mim confiam — neste estado de espírito e de alma, a minha mão, serena e firme, escreve que a única solução nacional da crise portuguesa, compatível com o orgulho próprio de quem tem uma existência de sete séculos e levou, através os mares e regiões desconhecidas, a Civilização e a Beleza — é a solução monárquica, a restauração da monarquia.»

No ano anterior tinha colaborado na revista Nação Portuguesa, onde foi lançado o Integralismo Lusitano enquanto movimento de ideias políticas — a redacção sentiu-se obrigada a justificar a publicação de um autor que tinha ainda «o curioso paradoxo de se declarar republicano». A sua adesão ao Partido Evolucionista impediu-o de ingressar nas fileiras integralistas, onde contava «simpatias e dedicações pessoais» (1937: 110). Ao aderir ao ideário monárquico, Pimenta dir-se-á porém «livre de qualquer sugestão». Afirmava a sua independência e, na verdade, não se filiou, não aderiu, nem defendeu o ideário do Integralismo, apesar de mais tarde vir a adoptar um programa político anti-parlamentar semelhante em As Bases da Monarquia Futura (1923). Foi eleito deputado monárquico durante o sidonismo, em 1918, e na sessão de 29 de Julho desse ano subscreveu, com Aires de Ornelas, António Sardinha e outros, uma moção da minoria monárquica (Diário da Câmara dos Deputados, n.º 4).

Após a falhada tentativa de restauração da Monarquia, no Norte e em Monsanto (Lisboa), em Janeiro e Fevereiro de 1919, os integralistas, face ao imobilismo e à atitude conservadora do rei deposto, D. Manuel II, decidem em Outubro desse ano desligar-se da sua obediência, declarando:

«Monárquicos por sermos nacionalistas e não por lealdade à pessoa do Rei — segundo os nossos princípios, a tradição histórica e as leis da sucessão, serviremos como Rei de Portugal aquele Príncipe de sangue português que melhor personificar o interesse da Nação e cuja legitimidade venha a ser reconhecida pelas Cortes Gerais, ou seja pela Assembleia Nacional dos representantes dos Municípios, das Províncias e das Corporações.»

É então que Alfredo Pimenta vai surgir como uma das personalidades de referência no chamado «Grupo dos Cinco» (com Caetano Beirão, Luís Chaves, Alberto Ramiro dos Reis e Oliveira Monteiro) ao fundar a Acção Tradicionalista Portuguesa (1921), antecâmara da Acção Realista Portuguesa, criada em Dezembro de 1923 com o diário Acção Realista, em que se procurará seguir um programa político semelhante ao dos integralistas mas na obediência ao rei deposto. Acompanharam-no, entre outros, Fernando Campos e João Ameal. Como chefe da Acção Realista foi nomeado para o Conselho Político da Causa Monárquica, de que se demitiu em 1926.

Reagindo à tomada de posição dos integralistas, escreveu então Pimenta:

«enquanto S. M. El-Rei o Senhor D. Manuel II não abdicar dos seus direitos, por um acto publico formal e expresso, ninguém, dentro da causa monárquica, seja qual for a sua situação, possui poder para destituir El-Rei, ou tem competência jurídica para lhe negar a legitimidade dos seus direitos. Proceder como procedeu o Integralismo Lusitano é lançar mão da doutrina democrática, e renegar a verdadeira doutrina política que funda a legitimidade do Rei nos direitos históricos, superiores à própria vontade da Nação, que não existe a não ser na mistificação liberal, e portanto, superiores igualmente aos desejos ou aos caprichos de quaisquer indivíduos ou grupos. Tudo quanto não seja isto é doutrina revolucionária, atentatória da pureza dos princípios monárquicos que nós todos, ensinados pela experiência, devemos manter através de tudo.» (1919: 54)

A polémica prosseguiu em 1920: ao folheto de Pimenta A questão monárquica (Lisboa, Juventudes Monárquicas Conservadoras) respondeu Francisco da Cunha Vieira com «Integral má-fé» (A Monarquia, 6.11.1920; separata, Lisboa, Empresa Nacional de Indústrias Gráficas, 1921).

Com esta tomada de posição, Pimenta seguia de perto as concepções do despotismo iluminado do século XVIII, acusando inclusive os integralistas de «lançar mão da doutrina democrática», tal como o marquês de Pombal fizera ao acusar os jesuítas da escola de Coimbra de «monarcómacos». Os integralistas rejeitavam a teoria do direito divino dos reis, concebendo o poder régio como um serviço que se presta à República; baseando-se nos doutores da Restauração de 1640, o poder dos reis firmava-se num pacto a respeitar, sob pena de deposição, como se fizera com Filipe III de Portugal.

Era outra a perspectiva de Alfredo Pimenta a respeito do poder régio, bem mais hierocrática e de mãos dadas com um vincado elitismo:

«a doutrinação monárquica deve visar apenas as energias, as vontades e as inteligências das camadas superiores da Nação, porque há-de ser pela influência dos espíritos dirigentes de certas funções que a Monarquia há-de realizar-se. Será na Alta Intelectualidade, no Alto Exército, na Alta Igreja, na Alta Industria, no Alto Comércio, que nós encontraremos o meio próprio para a adaptação dos nossos princípios, e a atmosfera favorável à aceitação das nossas doutrinas. Afastadas as camadas populares do debate político, e limitado este às camadas superiores da Nação, - o resto é fácil, tão evidente está sendo o desastre da experiência republicana, quanto é evidente a necessidade de voltarmos às instituições tradicionais portuguesas» (1919: 50-51).

Pimenta explicou mais tarde a unidade do seu percurso por aquilo que lhe permanecera constante: «Antidemocrata no Anarquismo, antidemocrata na República, antidemocrata na Monarquia. Partidário das aristocracias, das elites, no Anarquismo, na República, na Monarquia» («Carta ao Senhor David Ferreira», Seara Nova, 1.04.1922). Em 1919, o seu pensamento político estava bem distante do pensamento político dos integralistas. Aí permanecerá. A sua adesão ao anti-parlamentarismo em As Bases da Monarquia Futura (1923) não se firmou em doutrina municipalista e anti-oligárquica, antes em doutrina anti-democrática, não o levando depois a rejeitar a deriva fascista de Oliveira Salazar no estabelecimento do Estado Novo, nem a colaborar activamente com as oposições no combate à Salazarquia.

A organização política do Integralismo dissolveu-se, em 1933, com a fusão dos organismos monárquicos em torno de D. Duarte Nuno de Bragança. A prioridade dos integralistas estava então na organização do Nacional-Sindicalismo em luta contra o estabelecimento do partido único do Estado Novo. Salazar evita o confronto eleitoral de Dezembro de 1934, proibindo o Movimento Nacional-Sindicalista.

A eclosão da Guerra Civil de Espanha, em Julho de 1936, vai mudar o cenário político, levando os integralistas a declarar tréguas políticas no final desse ano. Pequito Rebelo parte mesmo para Espanha, colocando o seu avião particular ao serviço dos nacionalistas.

A Revolta dos Marinheiros ocorre no dia 8 de Setembro de 1936. Organizada pela Organização Revolucionária da Armada (ORA) — uma estrutura ligada ao Partido Comunista Português (PCP) — as guarnições dos navios Afonso de Albuquerque, Bartolomeu Dias e do contratorpedeiro Dão sublevaram-se no estuário do Tejo com o objectivo de levar os navios para o mar, exigir a demissão de Salazar ou navegar até portos controlados pelos republicanos em Espanha para apoiar a luta contra as forças do general Franco. Vinte e dois dias depois foi criada a Legião Portuguesa, uma milícia voluntária destinada a defender o Estado Novo e a combater o perigo comunista.

No início de 1937, seis anos depois da condenação da estatolatria pagã do Fascismo por Pio XI e pouco mais de três anos após as eleições legislativas que encerraram o processo de institucionalização da Salazarquia, tinha ressurgido um estremar de posições entre Moscovo e Roma, entre o Comunismo e o Fascismo. O Papa Pio XI, porém, preparava-se para condenar o Nazismo (o nacional-socialismo) em encíclica que publica em Março de 1937.

Por essa altura, Alfredo Pimenta concebia já o Estado Novo como um artifício, precário e provisório. Era «uma anomalia na vida política da Nação», mas com «uma missão superior a desempenhar: preparar o Futuro». É com essa ilusão que Alfredo Pimenta colabora e chama os jovens a uma colaboração no Estado Novo. Para Alfredo Pimenta, havia dois campos em confronto: «Ou a Revolução - com a sua fase final, o Comunismo; ou a Contra-revolução, com a sua forma lógica e adequada, a Monarquia» (1937: 112).

Manteve uma intensa actividade de publicista — o rodapé «Cultura Estrangeira – Cultura Portuguesa» no Diário de Notícias, a «Tribuna Livre» n’A Época, continuada n’A Voz. Nos anos seguintes a simpatia pelos fascismos acentuou-se: em 31 de Julho de 1943 o Cardeal Cerejeira distribuiu à imprensa uma nota em que o criticava publicamente; correspondeu-se com Mircea Eliade; e em 1949 prefaciou uma edição do Testamento político de Mussolini.
Alfredo Pimenta escreveu para príncipes reais ou imaginados. A dada altura quis ver-se como conselheiro de Salazar, como antes se viu como conselheiro de D. Manuel II, e antes ainda de António José de Almeida. Ao director do jornal República quis mostrar os malefícios da mentira das urnas; ao rei deposto, quis mostrar que a Carta constitucional tinha caducado; a Salazar, quis mostrar que Portugal morreria se não fosse preparado o regresso do Rei.

Morreu em Lisboa em 15 de Outubro de 1950, acabado de regressar de Guimarães. No ano seguinte os seus restos mortais foram trasladados para a Capela de Nossa Senhora da Madre de Deus, em Guimarães; a Associação Central da Agricultura Portuguesa inscreveu na fachada da Casa da Madre de Deus uma homenagem «ao pobre lavrador vimaranense que uniu no mesmo abraço cristão o amor à terra e aos humildes que a trabalham»; a cidade deu o seu nome a uma das principais artérias e o Arquivo Municipal passou a chamar-se Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, instalado desde 2003 no Palácio dos Navarros de Andrade.

O historiador e a questão das origens
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Foi já perto dos cinquenta anos, e depois de afastado da política activa, que Pimenta se fez historiador de ofício. Em 1931 foi nomeado 2.º conservador da Torre do Tombo e, sem remuneração, primeiro director do Arquivo Municipal de Guimarães (1931-1950), que hoje tem o seu nome: em dois anos, com o irmão Rodrigo, sistematizou mais de cem mil espécies, dos séculos XII a XIX, vindas sobretudo do cartório da Colegiada de Guimarães, que o cabido conservara contra a ordem liberal de as recolher à Torre do Tombo. Criou o Boletim de Trabalhos Históricos, apoiou Alfredo Guimarães na criação do Museu de Alberto Sampaio e passava quatro meses por ano em Guimarães, na Casa da Madre de Deus, herdada do tio, o Padre João Pimenta, onde instalou a sua «livraria de Mumadona». Foi académico fundador da Academia Portuguesa da História (de que chegou a ser expulso em 1946-1947) e director da Torre do Tombo, por breve período, em 1949. Deixou mais de centena e meia de títulos, muitos deles dedicados a Guimarães. O seu método era o do documento: «A História não é mais do que o documento árido, nu, na sua absoluta impassibilidade» (1935); mas era também o de uma história de chefes — «A história dos povos é, afinal, a história dos seus grandes homens» (1935) — e de uma verdade subordinada à Pátria: «em História de Portugal, é verdadeiro tudo quanto glorifique a Nação portuguesa» (1935).

É com esse método que trata a fundação de Portugal. Em «A Batalha de S. Mamede (1128-1928)» (A Ilustração Moderna, n.º 25/26, Porto, Julho-Agosto de 1928, pp. 189-191) defende, contra João de Meira, a tradição do vale de S. Torcato para o local do combate, e sustenta que o reinado de D. Afonso Henriques é uma peça inteiriça orientada para a independência, de que S. Mamede foi o primeiro acto decisivo: a fundação por um homem e um plano. Em 1939, em A Data da Fundação da Nacionalidade – 24 de Junho de 1128 (Estudos Históricos, VII), defende essa data no momento preciso em que o Governo fixava o Duplo Centenário em 1140; seguem-se Onde Nasceu Portugal e A Data do Combate de Val de Vez (1940) e, em 1945,Ainda a Batalha de Ourique. Pimenta é, assim, a prova de que a preferência por 1128 não é invenção posterior a 1974: foi defendida por um monárquico e salazarista contra a data oficial do regime.

A sua leitura de 1128 é solidária da sua teoria do poder régio. A «pessoa sagrada» do rei, que ninguém pode destituir, e o infante de génio que funda o reino por um plano pertencem à mesma concepção: o poder desce do rei. António Sardinha lê o mesmo acontecimento ao contrário — a pátria já está formada quando os barões de além-Douro aclamam o príncipe (A Teoria das Cortes Gerais, 1924) —, porque para ele o poder sobe da comunidade e é serviço. Por isso Pimenta e Sardinha, que podem coincidir na data, não coincidem no que ela significa. José Mattoso, na conferência «A primeira tarde portuguesa» (1978), não o cita, e a tese do infante-génio é precisamente a que desmonta ao fazer de S. Mamede a acção colectiva da nobreza do Minho. Em 2025, António Castro Henriques incluiu-o entre os historiadores cujo trabalho permite hoje uma leitura crítica de Ourique.

Pimenta e Sardinha: juízos cruzados

Os juízos foram duros de parte a parte. Sardinha, no Purgatório das Ideias, via em Pimenta um produto do esteticismo decadente que combatia: falou dos «esteticismos estridentes do senhor Alfredo Pimenta» e do seu «bric-à-braquismo literário» («O "filósofo" Leonardo», 1920-1921), e deu-o como «perfeito caso de histrionismo literário» («Guerra Junqueiro», 1921-1922).

Pimenta respondeu, dezanove anos depois da morte de Sardinha, com A propósito de António Sardinha (1944) e António Sardinha e o Grupo Recreativo dos «Trinta-e-Seis» (1944). Censurou-lhe a intenção de escrever uma história de Portugal à luz da doutrina integralista, chamou-lhe «pensador impressionista» e acusou-o de não dominar o ofício: «A história objetiva ensina precisamente o contrário do que António Sardinha pretende convencer os seus leitores».

​A divergência de método — o documento nu e os grandes homens, de um lado (Pimenta); a grei, os municípios e a tradição, na linha de Alberto Sampaio e Gama Barros, do outro (Sardinha) — é a mesma que os separava na questão dinástica e na teoria do poder régio.

J. M. Q.

(2024 - actualizado em 25 de Setembro de 2026)

Relacionado: 1919-1932 - A Questão Dinástica; 1924-1926 - Acção Realista.

Cronologia
  • 1882 – 3 de Dezembro — Nasce na Casa de Penouços, freguesia de S. Mamede de Aldão, Guimarães, filho de Manuel José Lopes Pimenta, proprietário rural, e de Maria Rosa.
  • c. 1890–1892 — Vive e estuda em Braga.
  • 1892–1893 — Regressa a Guimarães; órfão de pai e mãe aos dez anos, fica a cargo de um conselho de família (o tio Silvestre Pimenta, o Dr. Matos Chaves, o Dr. Joaquim José de Meira). Estuda no Colégio de S. Nicolau, com o Cónego José Maria Gomes; em 1893 recebe o prémio da Sociedade Martins Sarmento para o melhor aluno da instrução primária. Frequenta as bibliotecas da Sociedade Martins Sarmento e da família Meira. Colabora no Comércio de Guimarães; funda com Eduardo de Almeida a revista O Burgo Podre.
  • 1899 — Parte para Coimbra, para o curso de Direito. Lê, de Manuel da Silva Mendes (1876-1931), Socialismo Libertário ou Anarquismo, 1896. O livro de Silva Mendes começa pelos precursores das ideias socialistas, que terão sido os filósofos da revolução do século XVIII — Morelly, Mably, Diderot, Rousseau, Helvétius, Sieyès, Brissot de Warville, Linguet —, aborda depois os teóricos (Godwin, Saint-Simon, Fourier, Owen, Stirner, Proudhon, Marx), a oposição entre Marx e Bakunine e a fase de Kropotkine e Élisée Reclus. (Cf. Maria João Cabrita Mendes, «Manuel da Silva, Socialismo Libertário ou Anarchismo», Cultura, vol. 26, 2009, pp. 307-310.)
  • 1900 — No 1.º ano de Direito, lê O Único e a sua Propriedade de Max Stirner (1844), teórico de um anarquismo individualista, talvez determinante na sua formação de anarquista de feição aristocrática; e ainda Nietzsche, Renan, Proudhon, Bakunine, Kropotkine.
  • 1899–1904 — Tenta abandonar o curso e ingressar no Curso Superior de Letras, em Lisboa; conhece Teófilo Braga numa livraria da Calçada do Combro; colabora no Jornal da Noite (órgão monárquico constitucional), dirigido por Fernando Martins de Carvalho e Álvaro Chagas, onde lhe dão completa liberdade de escrita. O pedido de equiparação é indeferido e regressa a Coimbra: «Toca para Coimbra! E telegrafo ao meu bedel, ao nosso excelente bedel Álvaro Perdigão: matricule-me!» (Voz, 3.02.1935).
  • 1904 — Publica Eu (poesia). Casa com D. Adozinda Soares de Brito de Carvalho (1884-1962), de quem terá três filhos: Maria Adozinda, Alfredo Manuel e Maria Gracinda. Representa os republicanos de Guimarães num congresso republicano em Coimbra.
  • 1906 — O fim da monarquia, dedicado a Teófilo Braga, e Mentira monárquica. Passagem ao positivismo: «esbarrei na filosofia positiva de Comte».
  • 1908 — Forma-se em Direito na Universidade de Coimbra. Abre banca de advogado no Porto, que abandona.
  • 1910 — Fixa-se em Lisboa. Chefe de gabinete de António Aurélio da Costa Ferreira, ministro do Fomento.
  • 1911–1913 — Professor no Liceu Passos Manuel, em Lisboa.
  • 1912 — Redige o manifesto e colabora nas bases programáticas do Partido Evolucionista, de António José de Almeida.
  • 1913 — Política Portuguesa: «A política é uma alta escola de perversão. Afastar dela a mulher é o nosso dever. Nem eleitora, nem elegível — para não se masculinizar» (p. 426). Tenta, sem êxito, concorrer à Faculdade de Direito de Lisboa. Candidato a deputado nas eleições desse ano.
  • 1914 — Colabora na Nação Portuguesa. Em 12 de Junho, «O partido dos escândalos», na República.
  • 1915 — Nas vésperas do 14 de Maio, desliga-se do Partido Evolucionista e da República e adere à monarquia: A Solução Monárquica. Colabora na Liga Nacional (1915-1918). Durante a Grande Guerra, posição germanófila.
  • 1918 — Deputado monárquico durante o sidonismo. Em 29 de Julho subscreve, com Aires de Ornelas, António Sardinha e outros, uma moção da minoria monárquica; intervém na sessão de 1 de Agosto.
  • 1919–1920 — Reage à ruptura do Integralismo Lusitano com D. Manuel II; A questão monárquica (1920); resposta de Francisco da Cunha Vieira, «Integral má-fé» (A Monarquia, 6.11.1920).
  • 1921 — Funda a Acção Tradicionalista Portuguesa.
  • 1922 – 1 de Abril — «Carta ao Senhor David Ferreira», Seara Nova: «antidemocrata no Anarquismo, antidemocrata na República, antidemocrata na Monarquia».
  • 1923 – Dezembro — Acção Realista Portuguesa e diário Acção Realista. As Bases da Monarquia Futura.
  • 1925 — «Ao Leitor», in Nas vésperas do Estado Novo (1937).
  • 1926 — Membro do Conselho Político da Causa Monárquica, demite-se no mesmo ano. Incita Gomes da Costa a agir.
  • 1928 — «A Batalha de S. Mamede (1128-1928)», A Ilustração Moderna.
  • 1931 — 2.º conservador da Torre do Tombo. Em 22 de Dezembro, director, sem remuneração, do Arquivo Municipal de Guimarães (até 1950); com o irmão Rodrigo, organiza o cartório da Colegiada; cria o Boletim de Trabalhos Históricos.
  • 1933–1936 — Vogal da Comissão Central do Conselho Superior de Instrução Pública.
  • 1934 — Elementos de História de Portugal.
  • 1936 — Começa a série Estudos Históricos (25 números, 1936-1949).
  • 1937 – 22 de Dezembro — Académico fundador da Academia Portuguesa da História.
  • 1939 — A Data da Fundação da Nacionalidade – 24 de Junho de 1128, contra a data oficial do Duplo Centenário (1140).
  • 1941 — «A História de Portugal do Sr. António Sérgio» (Estudos Históricos, XVII).
  • 1943 – 31 de Julho — Nota do Cardeal Cerejeira à imprensa, criticando-o.
  • 1944 — A propósito de António Sardinha; António Sardinha e o Grupo Recreativo dos «Trinta-e-Seis».
  • 1945 — Ainda a Batalha de Ourique (Estudos Históricos, XXIII).
  • 1946–1947 — Expulso da Academia Portuguesa da História.
  • 1949 — Director da Torre do Tombo, por breve período. Prefacia o Testamento político de Mussolini.
  • 1950 – 15 de Outubro — Morre em Lisboa, acabado de regressar de Guimarães.
  • 1951 — Trasladação para a Capela de Nossa Senhora da Madre de Deus, em Guimarães. O Arquivo Municipal passa a chamar-se Arquivo Municipal Alfredo Pimenta; o seu nome é dado a uma artéria da cidade.
  • 2003 — O Arquivo Municipal Alfredo Pimenta é instalado no Palácio dos Navarros de Andrade.
  • Bibliografia (Filosofia, Política, História, Literatura)
  • 1903 - Os Despeitos da Academia
  • 1903 - Ainda o Sr. Augusto Pires de Lima
  • 1904 - Eu (poesia)
  • 1906 - O Fim da Monarchia, Coimbra, Tip. Democrática
  • 1906 - A Mentira Monárquica, Coimbra, Centro Republicano
  • 1908 - Factos Sociais
  • 1911 - Aos Conservadores Portugueses
  • 1911 - Estudos Sociológicos
  • 1912 - Na Torre da Ilusão
  • 1913 - Política Portuguesa - Elementos para a Solução da Crise Nacional, Coimbra, Moura Marques
  • 1913 - As Igrejas e o Estado
  • 1913 - Estudos Sociológicos, com prefácio de Teófilo Braga, Lisboa
  • 1914 - A doutrina de Drago e a 2.ª Conferência da Paz
  • 1915 - Comentários políticos
  • 1915 - A significação filosófica da Guerra Europeia. O imperialismo contemporâneo, Lisboa, Parceria António Maria Pereira
  • 1915 - A Solução Monárquica, Coimbra, Tip. Moderna
  • 1917 - Política monárquica
  • 1918 - A situação política, Lisboa, Livraria Ferreira
  • 1919 - A revolução monárquica, Lisboa
  • 1920 - A questão monárquica, Lisboa, Edição das Juventudes Monárquicas Conservadoras
  • 1922 - Livro das Chymeras
  • 1923 - Cartas monárquicas
  • 1923 - Mensagem ao Lugar-Tenente de El-Rei
  • 1923 - As Bases da Monarquia Futura
  • 1925 - A República Portuguesa em face da Igreja Católica e a política do Centro Católico
  • 1925 - A Política do Centro Católico e a minha resposta ao Senhor Bispo de Bragança e Miranda
  • 1928 - «A Batalha de S. Mamede (1128-1928)», A Ilustração Moderna, n.º 25/26, Porto, pp. 189-191
  • 1930 - Estudos filosóficos e críticos, Coimbra, Imprensa da Universidade
  • 1932 - O Pensamento Político do Senhor Dom Manuel II
  • 1932 - Vínculos portugueses, Coimbra, Imprensa da Universidade
  • 1934 - Elementos de História de Portugal, Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade
  • 1935 - Novos estudos filosóficos e críticos, Lisboa, Imprensa Nacional
  • 1935 - A evolução de um pensamento – autobiografia filosófica, Coimbra
  • 1936 - Chaimite
  • 1936 - Os Vimaranis Monumenta Historica e a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Guimarães
  • 1936 - A Conquista de Coimbra por Fernando Magno, separata de O Instituto, vol. 90
  • 1936 - D. João III
  • 1936-1949 - Estudos Históricos – biblioteca de revisão histórica, I-XXV
  • 1937 - Nas Vésperas do Estado Novo, Porto, Tavares Martins (reed. Lisboa, Nova Arrancada, 1998)
  • 1937 - Subsídios para a História de Portugal – textos e juízos críticos, Lisboa, Edições Europa
  • 1939 - A Data da Fundação da Nacionalidade – 24 de Junho de 1128 (Estudos Históricos, VII)
  • 1940 - Onde Nasceu Portugal (Estudos Históricos, XI); A Data do Combate de Val de Vez (XIV)
  • 1941 - Palavras à Juventude, Porto, Pola Grey
  • 1941 - «A História de Portugal do Sr. António Sérgio» (Estudos Históricos, XVII)
  • 1942 - Eu e as Novidades
  • 1943 - As Ilhas dos Açores
  • 1944 - A propósito de António Sardinha, Lisboa, Imprensa Portuguesa
  • 1944 - António Sardinha e o Grupo Recreativo dos «Trinta-e-Seis»
  • 1945 - Ainda a Batalha de Ourique (Estudos Históricos, XXIII)
  • 1946 - Idade Média: problemas e soluções, Lisboa, Edições Ultramar
  • 1948 - Fontes medievais da História de Portugal, Lisboa, Sá da Costa
  • 1949 - Contra a Democracia
  • 1949 - Três Verdades Vencidas - Deus-Pátria-Rei, Lisboa
  • 1949 - Testamento político de Mussolini (prefácio), Lisboa, Ressurgimento

Bibliografia passiva
  • João Branco, «PIMENTA, Alfredo Augusto Lopes (São Mamede de Aldão, 1882 – Lisboa, 1950)», Dicionário de Historiadores Portugueses — https://dichp.bnportugal.gov.pt/imagens/pimenta.pdf
  • Maria Teresa Pimenta, «Cronologia da vida e da obra de Alfredo Pimenta (1882-1950)», Boletim de Trabalhos Históricos, XXXIV, 1982, pp. 44-64.
  • Virgínia Rau, «O historiador e o escritor Alfredo Pimenta», Boletim de Trabalhos Históricos, XXXIII, 1982, pp. 385-386.
  • Ernesto Castro Leal, «O tempo de Alfredo Pimenta. Mitologia política e nacionalismo entre a primeira República e o Estado Novo», Revista de Guimarães, 111, 2001, pp. 103-143.
  • Paulo Archer de Carvalho (ed.), Cartas de Joaquim de Carvalho a Alfredo Pimenta (seguidas de quatro cartas a António Sardinha), Coimbra, Imprensa da Universidade, 2016.
  • Paulo Drummond Braga, «Alfredo Pimenta e 1383-1385», Boletim de Trabalhos Históricos, XXXVIII, 1987, pp. 48-60.
  • Manuel Braga da Cruz, Monárquicos e republicanos no Estado Novo, Lisboa, D. Quixote, 1986.
  • Diário da Câmara dos Deputados, sessões n.º 4 (29.07.1918) e n.º 7 (1.08.1918) — https://debates.parlamento.pt
  • José Adelino Maltez, «Alfredo Augusto Lopes Pimenta (1882-1950)» — http://maltez.info/biografia/pimenta,%20alfredo.pdf
  • Fundos documentaisArquivo Municipal Alfredo Pimenta (Guimarães), fundo FAM/AALP, «Alfredo Augusto Lopes Pimenta (família de)», com correspondência e documentação sobre a sua actividade de epistológrafo, académico e associativista — https://archeevo.amap.pt/descriptions/89693


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Relacionado

  • 1919-1932 - A Questão Dinástica
  • ​1924-1926 - Acção Realista

​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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