ESTUDOS PORTUGUESES
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        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
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António Sardinha - Formação, Doutrina, Destino

José Manuel Quintas

Fotografia
António Sardinha, 1887-1925

antonio_sardinha_formacao_doutrina_destino.pdf
Este ensaio interpreta a prosa completa de António Sardinha como uma construção doutrinária coerente, desenvolvida entre 1905 e 1925 por aprofundamento mais do que por ruptura. A obra é lida a partir da formação estética e municipalista do autor, da herança dos «vencidos», da segunda escolástica peninsular, do catolicismo social, do Sebastianismo e do hispanismo, mostrando como estes fios se articulam numa teoria da Grei, da Realeza limitada, da sociedade anterior ao Estado e da missão peninsular e atlântica de Portugal.

Pontos-chave
  • A obra de António Sardinha apresenta uma evolução orgânica: corrige fontes e linguagem, mas conserva a tese central.
  • A Grei, de raiz tomista, é o fundamento político da nacionalidade; a Raça-Grei desloca-se progressivamente para um sentido espiritual e peninsular.
  • Antero de Quental e Oliveira Martins são lidos como precursores: diagnosticam a decadência, mas erram a cura.
  • Alberto Sampaio, António Lino Neto, Ferreira Deusdado, Francisco Suárez, Francisco Vitória, Leão XIII estruturam a genealogia doutrinária portuguesa, peninsular e católica.
  • O município, a família, a corporação, a província e a Realeza complementar formam a arquitectura social e política da doutrina.
  • O Sebastianismo funciona como filosofia da Esperança e energia mobilizadora da tradição.
  • O hispanismo não é iberismo: pressupõe duas soberanias, dois povos e uma missão comum da Península e do Atlântico, com o Brasil como interlocutor.
  • Este ensaio distingue a doutrina da invectiva, reconhecendo pontos problemáticos: anti-semitismo e leitura conspirativa da Revolução.
  • A conclusão sustenta que Sardinha não cabe nas etiquetas de cópia francesa, fascismo doutrinário ou racismo biológico como fundamento da nacionalidade.​
​Tese

A obra de António Sardinha é uma construção doutrinária portuguesa, organicista, espiritual e peninsular, e organiza-se por aprofundamento. Nasceu de uma sensibilidade estética e municipalista formada antes da conversão de 1912; recebeu dos «vencidos» — Antero de Quental e Oliveira Martins — o diagnóstico da decadência e a exigência de uma finalidade, e de Alberto Sampaio e de António Lino Neto a matéria erudita e o modelo do renovador; fundou-se, desde 1915, numa comunidade tomista — a Grei — sob a qual correu, até ao exílio, um substrato antropológico que a aliança peninsular obrigou a dispensar; recebeu da segunda escolástica peninsular — Vitória, Suárez, Belarmino, Molina — a teoria do pacto, da soberania na comunidade e do direito de revolta, e do catolicismo social — Leão XIII, Le Play, La Tour du Pin — a teoria da sociedade anterior ao Estado; pediu a Maurras, em 1913, «um método» e não «um corpo integral de doutrinas», discutiu com ele até 1924 e dele se separou no ponto que o próprio Autor chamou radical, a Renascença; opôs, com a Idade Média portuguesa, a concórdia ao imperium dos legistas e a Nação ao Estado; fez do Sebastianismo a energia da doutrina e do hispanismo o seu horizonte; e deixou, em 1925, uma obra interrompida, com direcção declarada e com constantes que nenhuma depuração atingiu. Este ensaio reúne os estudos parcelares que consagrei a cada um destes fios e lê-os, pela primeira vez, como um só tecido, sobre a prosa completa reorganizada cronologicamente em Setembro de 2026.

Resumo

​Este ensaio segue quatro operações. A primeira fixa o método — datar pela redacção, distinguir três graus de prova, separar a doutrina da invectiva — e o corpus. A segunda reconstitui a formação, de 1905 a 1915: a fase estética e a oposição entre a fé pública e o saber iniciático; a ruptura de 1911-1913; a herança dos «vencidos» — Antero, que diagnosticou a falta de uma finalidade e errou a cura, e Oliveira Martins, que passou de doutor do iberismo a historiador da civilização hispânica —; os mestres da doutrina — Alberto Sampaio, Lino Neto, Moniz Barreto —; e o par Grei e Raça de O Valor da Raça, lido tal como o próprio Sardinha o distingue. A terceira expõe os fundamentos e a arquitectura: a segunda escolástica peninsular e a teoria do pacto; o catolicismo social e a soberania social; o personalismo e os limites; o município, a Realeza complementar, a legitimidade e o direito de revolta, postos à prova na ruptura de 1919 e na polémica com Alfredo Pimenta; o imperium e a concórdia, ou o Estado contra a Nação; o sentido da palavra «democracia»; o Sebastianismo como filosofia da Esperança; a relação com Maurras. A quarta acompanha os horizontes exteriores — a Espanha e o hispanismo, da «eterna divortia» de 1913 à «Madre-Hispânia» de 1924; o Brasil, de argumento a interlocutor — e os problemas de leitura que a obra suscita: o fascismo, o anti-semitismo, o destino castelhano do hispanismo. A regra de evolução fecha o conjunto: Sardinha corrige as fontes e a linguagem e conserva a tese; onde não conserva — o substrato antropológico, a estética do criador colectivo, a expansão como decadência —, declara-o ou deixa-o ver.

Os estudos que aqui se fundem, e o que se lhes acrescenta

Este ensaio recolhe, refunde e articula os estudos que dediquei a António Sardinha entre 2002 e 2026, e em especial os de 2025-2026: o Estudo de Conjunto (a evolução do pensamento, o estado da prova, o guia de leitura); «António Sardinha e o Brasil»; «António Sardinha, a Espanha e o Hispanismo»; «O Sebastianismo segundo António Sardinha»; «António Sardinha e Charles Maurras»; «Alberto Sampaio na obra de António Sardinha»; «Moniz Barreto e a Aliança Peninsular»; «A ideia de Hispanidade em António Sardinha»; «António Sardinha e a Revolução Francesa»; «A Força da Fé e a Tradição Popular contra os Poderes Secretos»; «A evolução intelectual de António Sardinha»; «A nossa tradição tem traços gibelinos?»; «Quando se formou a nação portuguesa?»; «Alfredo Pimenta, 1882-1950».

O que se lhes acrescenta é de duas ordens. Em primeiro lugar, a leitura sistemática, na Prosa Toda cronológica, de fios que os estudos parcelares só tinham tocado de passagem: Antero de Quental e Oliveira Martins como precursores reivindicados; António Lino Neto como mestre da adolescência e modelo do «renovador»; Francisco Suárez, Francisco de Vitória, Belarmino e Molina como fonte da teoria do pacto, da soberania e do direito de revolta; Leão XIII, Le Play, de Mun e La Tour du Pin como fonte da teoria da sociedade; Manuel Ferreira Deusdado e Jacques Maritain como os dois tomistas vivos da obra — o português que precedeu e a quem Sardinha dedicou Ao Ritmo da Ampulheta, o francês que acompanhou de 1922 a 1925 e cuja frase abre Na Feira dos Mitos; o mapa das dedicatórias e epígrafes de todos os volumes, que é o mapa declarado das filiações; Henriques Nogueira como raiz do republicanismo municipalista de que Sardinha se retracta sem o renegar; o inventário das encíclicas citadas e do seu uso, com a mensagem ao Cardeal Mercier e o artigo sobre Fátima; os juristas contemporâneos — Duguit, Posada, Esmein — com quem a teoria do Estado se construiu em diálogo; e a Teoria das Cortes Gerais lida como o que é — o prefácio às Memórias do Visconde de Santarém —, com o inventário das suas fontes, a linhagem historiográfica declarada — Herculano, Alberto Sampaio, Costa Lobo, Gama Barros, Paulo Merêa — em que Sardinha inscreve os seus estudos medievais, a sua doutrina do feudalismo e a sua teoria do poder régio; e o lugar de Sardinha entre os seus pares integralistas — o convertido entre os que já eram monárquicos —, com a camaradagem doutrinal na crítica da Renascença e no Seiscentismo, que Hipólito Raposo continuará. A essa leitura junta-se a da correspondência de 1910-1914 conservada no Espólio de António Sardinha e publicada, em grande parte, em Filhos de Ramires — as cartas à noiva, a Luís de Almeida Braga, a Hipólito Raposo, a Alberto de Monsaraz e a seu pai, a Pequito Rebelo, a João do Amaral —, que aqui se lê contra a prosa datada e que permite fixar a causa municipal da ruptura, a data do projecto da «Verdade Portuguesa» e a natureza exacta da primeira recepção de Maurras; e juntam-se três confrontos: a questão do imperium e da concórdia, a distinção entre Estado e Nação e a teoria do poder régio posta à prova pelo seu adversário monárquico mais declarado, Alfredo Pimenta, com o sentido que a palavra «democracia» tem na pena de Sardinha. Em segundo lugar, a correcção de um ponto que os estudos anteriores tinham formulado de modo inexacto — a chamada «substituição da base étnica» —, que a leitura conjunta de O Valor da Raça e dos textos peninsulares obrigou a reformular: a base tomista é de 1915 e ficou; o que mudou foi o substrato e o lugar da palavra Raça.

As três regras de método são as de sempre. Datar cada texto pelo momento da redacção e não pela data do volume que o recolheu: a reorganização de Setembro de 2026 aplicou-a aos volumes póstumos — Processo de um Rei (1937) é de 1921; os textos sem data de A Prol do Comum (1934) são de 1917-1918; De Vita et Moribus (1931) vai de 1913 a 1924; Purgatório das Ideias e Da Hera nas Colunas (1929) recolhem prosas de 1916 a 1924 —, e integrou na compilação o único discurso completo de Sardinha na Câmara dos Deputados, de 29 de Julho de 1918. Distinguir três graus de prova — proposições demonstradas por documento datado, proposições de interpretação apoiada em documento, proposições dependentes de categoria declarada — e fixar a categoria antes de a aplicar. Separar a doutrina, que se define nos textos de síntese e nos lugares em que o Autor revê o que escrevera, da invectiva, que se mede nos artigos e não pode ser nem escondida nem promovida a doutrina. Uma asserção negativa sobre a obra só vale depois da busca sistemática, e é revisível por quem a faça melhor. A correspondência tem estatuto próprio nesta hierarquia: é documento datado quanto à cronologia e à intenção, não quanto à doutrina — uma carta diz quando e porquê, não diz o que a obra sustenta —; e as cartas de terceiros dizem o que o correspondente leu nas de Sardinha, que em muitos casos se perderam.

O corpus é a prosa completa: os três títulos publicados em vida — O Valor da Raça (1915), Ao Princípio era o Verbo(1924), A Aliança Peninsular (1924) —, a Teoria das Cortes Gerais (Elvas, 20 de Agosto de 1924), a Teoria do Município (1924), a conferência O Território e a Raça (7 de Abril de 1915), os dois volumes deixados prontos — Ao Ritmo da Ampulheta (1925) e Na Feira dos Mitos (1926) — e os póstumos organizados por terceiros, desfeitos e redistribuídos pela data de escrita. Só os volumes revistos pelo Autor autorizam a leitura de uma intenção de conjunto; os póstumos dão textos, não arquitectura. A poesia — António Sardinha. Poesia (2024) — serve de contraprova em dois lugares: o Brasil, que não passou ao verso, e a Espanha do exílio, que passou. As citações seguem a lição da compilação; a prosa deste ensaio adopta a norma ortográfica anterior ao Acordo de 1990.

Nota sobre a continuidade: de Filhos de Ramires (1997-2004) a este ensaio (Setembro de 2026)

Tudo isto começou em 1997, com a dissertação de mestrado apresentada na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas sob a orientação de Fernando Rosas e arguida por Manuel Braga da Cruz — Filhos de Ramires. Das Ideias, das Almas e dos Factos no Advento do «Integralismo Lusitano», 1913-1916 —, publicada em 2004 com o subtítulo As origens do Integralismo Lusitano. O livro abria com duas epígrafes de Sardinha: a de Ao Ritmo da Ampulheta — «Nós viemos em linha recta da fraqueza generosa de Gonçalo Mendes Ramires. E se alguém, lá mais para diante, pensar em escrever a novela do nosso esforço, eu creio que lhe chamará com verdade O filho de Ramires» — e a de uma carta a Luís de Almeida Braga: «Acredita que a vitória será nossa, ou com a palma dos heróis, ou com a palma do martírio. […] Sejamos como a lâmpada que arde até final. Dum luceam peream.» A primeira é de «No jardim da Raça», o texto sobre o Pão Alheio de Almeida Braga que este ensaio lê no ponto 4-C; a segunda é a «religião da Esperança» dita em carta ao homem que dera o nome ao movimento. A compilação lê, em «No jardim da Raça», «O filho de Ramires», no singular; a lição de 2004, «Os filhos de Ramires», remete para o Integralismo Lusitano como uma segregação de grupo: Sardinha é apenas um dos seus criadores. O título do livro de 2004 veio do mesmo lugar da prosa a que este ensaio regressa — e convém dizer o que então se escreveu, o que se confirma e o que se acrescenta.

O que então se escreveu. 

​Que o Integralismo Lusitano «se constituiu enquanto movimento político de ideias em torno a uma consciência da individualidade espiritual e cultural dos portugueses numa reflexão sobre a Tradição e a História Pátrias», e que Gonçalo Mendes Ramires, «a célebre personificação queirosiana de Portugal», é «o pai cultural e ideológico dos integralistas».

Que a demonstração se inscrevia «no arco de tempo intergeracional que vai de 1870 a 1910»: o problema posto pela geração de 70 — Antero, nas Conferências do Casino, a pôr «a causa política da decadência portuguesa na destruição das liberdades locais provocada pela implantação do absolutismo» —, a mediação nacionalista da geração de 90, «após o choque do Ultimatum», «na sua última fase de Vencidos da Vida», e Ramalho Ortigão, «último sobrevivente da geração de 70», a saudar os integralistas «naquilo que é o documento vivo de um verdadeiro render da guarda».

Que o Integralismo «foi uma segregação de grupo: de diferentes derivações se convergia», e que Sardinha «ocupa um lugar central no processo de formação do movimento e ideário integralista, mas uma centralidade num campo com várias polaridades».

Que o estado da questão se dividia entre apologistas e detractores, com Mariotte (1917), Proença (1921-1922), Sérgio (1923), Evangelista (1955), Weber (1962), Ferrão (1964), Brito (1962, 1965) e a tese de Braga da Cruz — a reivindicação das origens portuguesas «posterior à criação do movimento» —, e com Sousa Tavares (1960) a identificar duas tendências, «uma, contra-revolucionária de importação francesa (positivista e maurrasiana); outra, católica e de tradição portuguesa». E que «não foi o Espólio de António Sardinha a revelar o essencial. O essencial estava e está nas obras dos integralistas» — e que «a edição dos clássicos do pensamento político português, parcialmente levada a cabo pelos integralistas durante os anos 40-50, permitiu precisar o que era de facto importante».

Que a expressão «Integralismo Lusitano» «foi cunhada por Luís de Almeida Braga na revista Alma Portuguesa» — a revista do «grupo de Lovaina», saído das incursões de Couceiro, com a capa das ruínas do Carmo e Nun’Álvares —, e que os fundadores vinham do «grupo dos exotéricos» de Coimbra (1906-1911): Monsaraz, Raposo, Sardinha, Simeão Pinto de Mesquita, Veiga Simões, Paulo Merêa, Eugénio Massa, Cabral de Moncada.

Que o primeiro número da revista Nação Portuguesa (1914) publicava o rol das fontes do movimento — os cronistas, Fernão Lopes e Rui de Pina; os teorizadores do poder régio contra o constitucionalismo, Madre de Deus, Gouveia Pinto, Agostinho de Macedo, Fortunato de S. Boaventura, Acúrcio das Neves; os historiadores, o Visconde de Santarém com a Teoria das Cortes Gerais, Herculano com a História de Portugal e os Opúsculos, Gama Barros com a História da Administração Pública, Oliveira Martins com o Portugal Contemporâneo, Os Filhos de D. João I e o Relatório do Projecto de Lei de Fomento Rural; o «eixo municipalista», com Henriques Nogueira e os Estudos sobre o Município; Alberto Sampaio com as Vilas do Norte, Rocha Peixoto, Lino Neto com A questão administrativa, A questão agrária e a História dos Juízes de Paz e Ordinários —, e que Henriques Nogueira «tomba no n.º 7 (Janeiro de 1915)» com o Eça da Ilustre Casa e Antero de Figueiredo, sem que aí se possa ver «verdadeiros intuitos expurgatórios».

Que Paulo Merêa recordou, «muitos anos depois», uma noite de 1913 em que Sardinha, «já expurgado de Maurras», lhe falou «com entusiasmo do seu projecto de dar a conhecer o pensamento dos nossos antigos escritores adversos ao liberalismo, quase inteiramente esquecidos e que ele tinha ido exumar num cafarnaum de velhos livros guardados em armários da sua casa natal» — «nem uma única vez se falou em Maurras, e o que fervilhava no seu cérebro eram os nomes de José Agostinho de Macedo, Visconde de Santarém, Novo Príncipe» —, e que o próprio Merêa iniciaria «de forma académica» esse projecto, em 1915, com «Desenvolvimento da ideia de soberania popular», exumando Félix Teixeira, Afonso de Lucena, Manuel de Sá, Suárez, Molina, Azpilcueta Navarro, Pinto Ribeiro, Sousa de Macedo, Velasco de Gouveia.

Que Almeida Braga escrevia a Sardinha, de Bruxelas, a 21 de Abril de 1914, sobre «a opinião que te encanta», com que se «familiarizara em Espanha», e lhe recomendava Sertillanges, o Saint Thomas d’Aquin, Grasset, Deploige na Revue néo-scolastique, Guerrini — o tomismo de Lovaina a chegar a Monforte por carta; e que Sardinha lhe respondia, a 14 de Novembro de 1913, com a «Obra Social» — «a redenção das massas descristianizadas, a metodização católica da necessidade sindicalista, a devolução à indissolubilidade familiar» — e com a exigência de «uma filosofia, um corpo de doutrina» para «o instinto conservador da maioria dos moços portugueses». E que a viagem a Paris de Alberto de Monsaraz e Hipólito Raposo, em Abril de 1911, «dois jovens indefectivelmente monárquicos», abre o «limiar». E que o renascimento católico português — o legitimismo de A Nação, o nacionalismo católico de A Palavra e do Partido Nacionalista, a oposição tomista ao evolucionismo nas Instituições Christãs (1883-1893), o Curso Filosófico do Cardeal Mercier traduzido em 1904 — era o solo em que a geração de 1910 cresceu.

O que se confirma. 

A tese da segregação de grupo com centralidade de Sardinha é a que o ponto 4-C desenvolve, agora com os retratos que a prosa dá dos pares e com o dado que o livro de 2004 já continha sem o explicitar: Sardinha era o convertido entre monárquicos de herança. A tese das origens portuguesas contra a cópia francesa, que em 2004 se fazia pelo estado da questão e pelas fontes indicadas no primeiro número da Nação Portuguesa, faz-se agora pela prosa completa — Sampaio, Lino Neto, Moniz Barreto, Deusdado, Suárez em Coimbra, «farmacopeia gaulesa» escrita em 1913 — e resolve a dicotomia de Sousa Tavares: os franceses são instrumentos, os portugueses são forma. O arco de 1870 a 1910 é o que os pontos 3 e 4 percorrem com os textos de Sardinha sobre Antero e Oliveira Martins, que em 2004 se liam de fora e agora se lêem de dentro — «um dos nossos precursores mais próximos e mais directos». E a afirmação de que o essencial está nas obras impressas é a que a Prosa Toda cronológica veio tornar verificável, texto a texto.

O que se acrescenta.

Em 2004 o estudo parava em 1916, na formação da Junta Central; este ensaio vai até 1925 e ao destino da doutrina depois de 1925. Em 2004 a genealogia era literária e política — Eça, os Vencidos, Ramalho —; aqui é também doutrinal — a segunda escolástica, o catolicismo social, os juristas contemporâneos — e tomista, com os três lugares vivos do tomismo de Sardinha: Deusdado, Mercier, Maritain — o Mercier cujo Curso o livro de 2004 registava traduzido em 1904 e cuja mensagem de 1917, redigida por Sardinha, aqui se lê pela primeira vez como carta pública de teologia política. Em 2004 Henriques Nogueira era um nome do rol de 1914; aqui é a raiz declarada do «meu republicanismo» e o adversário reclamado. Em 2004 a segunda escolástica estava documentada pelo testemunho de Merêa e pelo seu artigo de 1915; aqui está documentada na prosa de Sardinha de 1917 a 1924, e a coincidência entre os dois — o mesmo projecto de exumação, um pela via académica, outro pela doutrinal — é a prova de que a fonte é de Coimbra e de 1913, não de Paris. Em 2004 a carta de Bruxelas de 1914 mostrava o tomismo de Lovaina a chegar a Sardinha por Almeida Braga; aqui essa carta ganha os seus três continuadores na prosa — Deusdado, Mercier, Maritain. Em 2004 a «metodização católica da necessidade sindicalista» era uma frase de carta; aqui é a linha contínua que vai de «Capital e trabalho» a «A Ordem-Nova». Em 2004 o par Raça e Grei não estava distinguido; aqui é o eixo da evolução. Em 2004 a correspondência do Espólio servia a narrativa das origens; aqui é posta ao serviço da cronologia da doutrina — a causa municipal da ruptura, a «Verdade Portuguesa» de 1911-1912, o «método» pedido a Maurras em 1913 — e lida contra a prosa impressa. Em 2004 a edição dos clássicos pelos integralistas era um instrumento para «precisar o que era importante»; aqui é atribuída a quem a fez, Almeida Braga, e lida como a continuação, em livro, dos «princípios de todos os séculos» estabelecidos em 1914. E em 2004 a epígrafe truncada de Mariotte era o primeiro exemplo de deformação; aqui é o ponto de partida de uma tipologia — falsificação material, deformação hermenêutica, acumulação de fontes espúrias — que o Estudo de Conjunto fixou e que este ensaio pressupõe. O que não mudou é a regra de ouvir: «não é possível conversar sem respeito pelos nossos interlocutores», escrevia-se em 2004 para justificar a citação longa; fornecer a prosa completa (que em Estudos Portugueses se procura realizar), é a forma que permite essa conversação.

A exposição que se segue conserva a ordem cronológica sempre que ela é indispensável para perceber a evolução da doutrina, mas agrupa os materiais por função: formação, fundamentos, horizontes exteriores, problemas de leitura e estado da prova. Esta dupla ordem — cronológica e sistemática — explica as remissões internas e evita que os mesmos autores, textos ou conceitos pareçam reaparecer como repetições quando, em cada lugar, cumprem cumprem uma função diferente. (pp. 1-6 do ensaio, em pdf)


António Sardinha, 1887-1925
​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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