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Conservar ruínas não é tradição

Leitura tradicionalista de uma entrevista de Thomas Gallagher
Resumo
Na entrevista aqui transcrita, o historiador britânico Thomas Gallagher apresenta uma leitura crítica da história contemporânea portuguesa e da relação de Portugal com o Ocidente, a partir do seu livro Portugal e o Ocidente – do Ultimato britânico e de Salazar à revolta utópica (ed. D. Quixote). O autor defende que a aliança luso-britânica foi frequentemente desigual, valoriza a estratégia de neutralidade seguida por Salazar durante a Segunda Guerra Mundial e critica a forma como o processo de descolonização foi conduzido. Gallagher contesta a narrativa dominante sobre o 25 de Abril, aponta fragilidades ao liberalismo ocidental contemporâneo, acusa as elites académicas e políticas de dogmatismo e considera que Portugal continua limitado por burocracia, clientelismo e fraca capacidade de afirmação soberana.

Este texto responde-lhe com uma pergunta simples: quando se defende a soberania, o Estado, a autoridade e a nação, está-se a defender uma tradição viva ou apenas a preservar as ruínas de algo que já morreu? Gallagher tem razão em quase todos os diagnósticos. A resposta que propõe, porém, é a de quem quer travar a queda, não a de quem quer reconstruir.


Pontos-chave defendidos por Tom Gallagher
  • A aliança luso-britânica foi historicamente marcada por assimetrias, com a Grã-Bretanha a privilegiar frequentemente os seus próprios interesses.
  • Salazar procurou preservar a neutralidade portuguesa na Segunda Guerra Mundial como forma de defender a independência e a margem de manobra do país.
  • A descolonização portuguesa deveria ter sido mais gradual e planeada, evitando o vazio político, a violência e a instabilidade que se seguiram.
  • O liberalismo, em Portugal e no Ocidente, prometeu mais do que conseguiu cumprir, alimentando frustração social, facciosismo e revolta.
  • A narrativa dominante sobre o 25 de Abril romantiza a revolução e tende a ignorar os seus custos económicos, sociais e políticos.As universidades e parte das elites culturais ocidentais tornaram-se, na sua visão, demasiado dogmáticas e hostis a interpretações tradicionais da história.
  • A União Europeia não criou uma identidade europeia forte e funciona sobretudo como estrutura burocrática e económica, com tendência para limitar o debate político.
  • Portugal tem hoje dificuldade em agir como Estado soberano, em parte devido à dependência de grandes potências, à burocracia interna e à fragilidade da classe política.

Nota prévia

Importa reconhecer o mérito da entrevista: trata-se de uma conversa intelectualmente estimulante, provocatória no melhor sentido, capaz de obrigar o leitor a reconsiderar lugares-comuns sobre Portugal, o 25 de Abril, o império, o liberalismo e a relação do país com o Ocidente. Esta apreciação deve, contudo, ser lida com uma reserva: ainda não li o livro de Tom Gallagher. As observações que se seguem, incluindo todas as citações, partem exclusivamente do conteúdo desta entrevista publicada no Nascer do SOL e não pretendem constituir uma avaliação global da obra que lhe deu origem.

Seis passagens condensam os núcleos mais polémicos da conversa:

“Uma das razões que me levaram a querer escrever este livro é que acredito que um dos calcanhares de Aquiles do Ocidente […] é o facto de o liberalismo prometer muito, mas normalmente ser incapaz de cumprir as suas promessas.”

“Mas qual é o mal de ser provocatório de vez em quando?”

“Era uma espécie de anarquia burlesca misturada com ocasionais momentos de tragédia.”

“O caminho a fazer era a descolonização, mas deveria ter sido feita de uma forma muito mais gradual e planeada.”

“Penso que ela [a UE] falhou flagrantemente na promoção de uma identidade europeia atraente.”
​
“Os decisores políticos em Portugal não se comportam, infelizmente, como se estivessem a governar um Estado-nação.”

A defesa da provocação intelectual, a leitura crítica da revolução de 74-76, a denúncia de uma descolonização precipitada, a desconfiança perante a União Europeia e a acusação de fragilidade soberana da classe política portuguesa — é a partir destes cinco eixos que se desenvolve a crítica seguinte.

Tradição não é conservação

Uma crítica tradicionalista a Tom Gallagher deve começar por recusar a confusão, muito típica da direita conservadora, entre tradição e simples defesa da ordem estabelecida. A tradição não é museu, não é saudade administrativa, nem culto da autoridade pelo simples facto de ela existir. É uma forma viva de transmissão, enraizada em comunidades concretas, em deveres herdados, em limites reconhecidos e numa ideia superior de bem comum. Uma corporação de ofício com autogoverno real, uma paróquia que decide por si os seus assuntos, uma família alargada que ainda transmite terra, ofício e responsabilidade entre gerações — isto é tradição viva. Um ministério que gere essas mesmas funções a partir de Lisboa, por mais nacionalista que seja o discurso que o acompanha, já não o é.

O conservadorismo, ao contrário, limita-se muitas vezes a chegar tarde à modernidade: aceita quase todos os seus pressupostos, mas pede que a demolição avance mais devagar. É aqui que Gallagher, apesar da utilidade das suas provocações, fica aquém do problema que diagnostica.

O diagnóstico certo, a resposta errada

Gallagher percebe bem a falência do liberalismo, a teatralidade revolucionária, a submissão portuguesa às grandes potências e a esterilidade das atuais elites académicas. A resposta que propõe, no entanto, permanece presa à linguagem da simples conservação: mais Estado, mais soberania, mais prudência, mais autoridade, mais continuidade. Ora, uma sociedade pode ter tudo isso — fronteiras, exército, burocracia, diplomacia, memória oficial — e continuar espiritualmente morta. Pode preservar cada uma dessas formas e já não possuir uma tradição viva.

Isto é particularmente visível na sua indulgência perante o Estado moderno quando este surge revestido de símbolos nacionais, católicos ou anti-liberais. O Estado de Salazar, mesmo autoritário, não deixa de ser moderno por isso: esmagou corpos intermédios, uniformizou costumes, transformou comunidades em populações administradas e substituiu a autoridade orgânica pelo comando burocrático. A estabilidade salazarista não deve confundir-se com uma plenitude tradicional. Salazar conteve certas forças dissolventes, mas governou através de uma máquina centralizadora, tecnocrática e policial — incapaz de devolver vida própria aos municípios, às corporações reais e às formas locais de autoridade.

O mesmo vício aparece na questão imperial. Gallagher denuncia bem a irresponsabilidade, o improviso e a violência da descolonização. Mas seria pobre transformar essa denúncia numa elegia automática do império perdido. Um tradicionalismo sério não se contenta com a nostalgia da bandeira arriada nem com a contabilidade geopolítica das possessões; pergunta antes se havia justiça, reciprocidade e integração orgânica entre a metrópole e os territórios ultramarinos, ou se o império tardio já funcionava sobretudo como prolongamento administrativo de um Estado pobre e exausto. A tragédia da descolonização não santifica retroactivamente a ordem colonial que a precedeu.

O que se poderia dizer em defesa de Gallagher

Vale a pena reconhecer o argumento mais forte a favor da sua posição: num país onde as instituições intermédias foram esmagadas há um século — pela Primeira República, depois pelo Estado Novo, depois pela integração europeia —, restaurar o Estado e a soberania pode ser, na prática, o único ponto de partida disponível. Não há comunidades orgânicas à espera de serem libertadas; há um vazio institucional que só o Estado, hoje, tem meios para ocupar. Gallagher poderia responder que a distinção entre “Estado” e “comunidade” é, neste contexto, mais teórica do que real.

O argumento tem força, mas não resolve o problema: usar o Estado como andaime temporário para reconstruir comunidades reais é uma estratégia; tratá-lo como o próprio destino da soberania portuguesa é outra coisa. Gallagher aproxima-se perigosamente da segunda.

A mentira liberal, mal substituída

Gallagher é convincente quando expõe a mentira liberal: a promessa de emancipação universal que produz ressentimento, desenraizamento, facciosismo e tutela burocrática.

Falha, porém, ao sugerir que a alternativa está simplesmente na velha direita da prudência, da nação e da autoridade. O liberalismo não venceu apenas por ter derrubado a tradição; venceu também porque muitos conservadores aceitaram o seu núcleo — o individualismo possessivo, o primado da economia, a redução da política a gestão, a sacralização da propriedade privada, a substituição da autoridade espiritual por administração secular.

Nesse sentido, o conservadorismo de Gallagher corre o risco de ser modernidade com travão de mão: não restaura nada, apenas abranda a queda.

Conclusão

Esta entrevista vale como um abalo salutar contra consensos instalados. A sua força está em obrigar Portugal a olhar sem complacência para as ficções do progresso, da democracia satisfeita consigo própria e da integração europeia como destino inevitável. A sua fraqueza está em não romper suficientemente com a própria matriz moderna que ajudou a produzir esses impasses: confunde soberania com grandeza, estabilidade com ordem, Estado com comunidade, memória nacional com tradição.

Vejo em Gallagher um aliado contra a mitologia progressista, mas não um guia para pensar a verdadeira restauração que os portugueses podem ainda realizar. A tradição não pede apenas que se defenda o Estado, a nação ou a ordem herdada; exige que se distinga o que ainda vive do que já apodreceu sob uma aparência respeitável. Não basta querer um Estado mais firme ou uma soberania mais assertiva, se não houver, ao mesmo tempo, uma recomposição das comunidades reais, da autoridade legítima e de uma ideia de bem comum que não dependa da administração burocrática nem da nostalgia política. Conservar ruínas continua a ser culto da ruína.

1 de Julho de 2026
J. M. Q.

​
Fonte da entrevista: José Cabrita Saraiva, “Tom Gallagher: ‘A arrogância dos decisores liberais está a criar um clima de raiva e de revolta’”, Nascer do SOL, 30 de junho de 2026.

Fotografia
Tom Gallagher: “A arrogância dos decisores liberais está a criar um clima de raiva e de revolta”
​

José Cabrita Saraiva

 
Mafalda Gomes
 
O século XIX português, que praticamente terminou com a humilhação do Ultimato Britânico (1890), a exigir a retirada das tropas portuguesas de vastas zonas de África, foi profundamente traumático e acidentado. Sucessivas crises levariam, no início do século seguinte, à queda da monarquia e instauração do regime republicano (1910). Mas também este se revelaria inconstante e cheio de vícios. «É alguém capaz de indicar um benefício, por leve que seja, que nos tenha advindo da proclamação da República?», perguntava em 1915 Fernando Pessoa. «Não melhorámos em administração financeira, não melhorámos em administração geral, não temos mais paz, não temos sequer mais liberdade. Na monarquia era possível insultar por escrito impresso o Rei; na república não era possível, porque era perigoso, insultar até verbalmente o Sr. Afonso Costa». E faltava ainda passar pelas provações decorrentes da participação na Grande Guerra. 
Só com o golpe militar de 28 de Maio de 1926, que acabaria por estender a passadeira a Salazar, Portugal iniciaria um caminho de estabilidade, conquistado à custa da supressão de liberdades e da imposição de sacrifícios. Ao fim de quase meio século, também a ditadura chegaria ao fim com novo golpe militar, mas agora de sinal contrário. 
Em Portugal e o Ocidente – do Ultimato britânico e de Salazar à revolta utópica (ed. D. Quixote), o historiador britânico Tom Gallagher refere-se ao 25 de Abril como «uma exibição superficial e saloia de radicalismo teatral». Sem medo de usar palavras controversas, Gallagher descreve ao Nascer do SOLo período que se seguiu à revolução como «uma espécie de anarquia burlesca misturada com ocasionais momentos de tragédia». E atira: «Qual é o mal de ser provocatório de vez em quando?». 
As relações diplomáticas luso-britânicas, com os seus altos e baixos, são uma espécie de fio condutor desta narrativa. Durante as invasões francesas, Portugal parece um mero peão dos britânicos contra o avanço de Napoleão. Depois temos a prepotência de Wellington, o ultimato de 1890, a colaboração durante a II Guerra, a visita de Isabel II em 1957, que é um ponto alto, e por fim a condenação, por parte dos britânicos, do sistema colonial. Poderemos dizer que a famosa aliança, velha de 600 anos, foi uma aliança desigual, que deu prioridade às conveniências e aos interesses britânicos? 
Sim. Penso que foi no início da década de 1960 que Salazar disse que a aliança já não era recíproca, as decisões eram sempre tomadas a favor da Grã-Bretanha e as garantias dadas para proteger os territórios ultramarinos portugueses eram simplesmente ignoradas, sobretudo no caso de Goa, que foi tomada pela Índia em 1961. Mas, vendo as coisas numa perspectiva mais ampla, era inevitável, dadas as diferenças de riqueza, escala e alcance, que houvesse tensões e mal-entendidos nessa relação, e que ocorressem momentos em que os britânicos se comportassem de maneira arrogante, ou até mesmo hostil. Foi claramente esse o caso no início do século XIX, quando o poder britânico ajudou a preservar a independência de Portugal e garantiu que o país não desaparecesse como, por exemplo, a República de Veneza. E quando surgiu a rivalidade entre as grandes potências e a insegurança em relação à corrida por possessões coloniais, a Grã-Bretanha, de forma bastante grosseira, afastou Portugal do caminho em relação a territórios-chave no sul da África. Mas creio que a relação readquiriu algum tipo de equilíbrio durante a Segunda Guerra Mundial, quando Salazar conseguiu preservar uma posição muito impopular, que foi manter a neutralidade, o que provocou a exasperação da Grã-Bretanha, a hostilidade dos Estados Unidos e até mesmo do Brasil. A arte da governação portuguesa conquistou o respeito de diplomatas britânicos e de alguns ministros britânicos que lidaram intensamente com Salazar. Mas tudo isso se dissolveu gradualmente quando o Ocidente passou da era do imperialismo para a era, por assim dizer, da globalização e a ideia de estado-nação deixou de enformar o pensamento ocidental. 
Refere-se também ao processo de descolonização? 
A descolonização de África foi feita a contragosto por muitos europeus e penso que resultou principalmente da pressão americana. Políticos, empresários, burocratas, aqueles a que poderíamos chamar de influenciadores, embora o termo ainda não existisse na época, começaram a pensar menos em termos de Ocidente e mais em termos de uma espécie de comunidade global, composta por organismos transnacionais – não apenas as Nações Unidas, mas especialmente as Nações Unidas. Esta redefinição de Ocidente, não como uma série de nações, mas como uma organização que busca estabelecer regras comuns para o ‘funcionamento’ das relações internacionais, emergiu como a força-motriz do Ocidente, pelo menos ao nível das elites. Portugal foi completamente marginalizado nesse contexto, parece-me. Salazar, acima de tudo, era um nacionalista e tentou resistir à torrente pós-colonial da melhor maneira possível. E talvez seja surpreendente que Portugal tenha conseguido resistir durante tanto tempo, tornando-se muito impopular e sendo objeto de críticas nos meios de comunicação ocidentais por ser opressor e anacrónico em África. A relação anglo-portuguesa terminou, pode dizer-se, de forma amarga, levando em linha de conta a cronologia do meu livro, que termina na década de 70.  
Proponho que voltemos a recuar ao início do século XX. A avaliação que faz da I República é manifestamente severa. Caracteriza-a como «radicalismo burguês reciclando ideias que tinham sido incubadas em França». O fracasso da experiência republicana mostra que o país não estava preparado para uma democracia do tipo liberal? 
Hesitaria em dizer isso. Penso que a forma específica de liberalismo adotada era bastante dogmática e irracional, mais preocupada em derrotar os seus inimigos, nomeadamente a Igreja, do que em encontrar um modelo de governo funcional para o país. Toda a experiência liberal foi muito significativa para Portugal, tal como, olhando para um período posterior, as revoluções de 1974-75, pois ambas expuseram fragilidades inerentes ao conceito liberal. Era uma doutrina política otimista e bem-intencionada, que supostamente libertaria e melhoraria as condições de vida das pessoas. Mas atuou em Portugal – e mais tarde, na Revolução [de abril de 1974] e até no Ocidente atual, onde o liberalismo está em crise – sem os seus principais pilares, como uma base cristã sólida ou a colaboração de pessoas com meios que desejassem impulsionar a economia e distribuir os benefícios de sua riqueza. Era, ouso dizer, estreito e sectário no seu escopo. Isso levou ao facciosismo e à discórdia, bem como à crescente oposição de pessoas que não gostavam do que o liberalismo representava e que não tinham perspetiva de lucrar fosse o que fosse com ele. Uma das razões que me levaram a querer escrever este livro é que acredito que um dos calcanhares de Aquiles do Ocidente, algo que gera tensão e dissensão constantes, é o facto de o liberalismo prometer muito, mas normalmente ser incapaz de cumprir as suas promessas. E isso faz ricochete. Aconteceu duas vezes em Portugal durante o século XX, creio que está a acontecer agora na Europa Ocidental e talvez nos países anglófonos fora da Europa, onde uma certa arrogância dos decisores liberais está a criar um clima de raiva e até de revolta.  
Neste livro dividiu a Segunda Guerra Mundial em dois capítulos, um que vai de 1939 a 42 e outro de 1942 a 45. Acha que a neutralidade de Salazar não foi equidistante ao longo desses anos? Que no primeiro período se inclinou mais para o lado do Eixo e, no período posterior, para o lado oposto, dos Aliados? 
Discordo que Salazar tenha agido dessa forma. Não acho que se tenha mostrado ardiloso ou oportunista nos primeiros anos do conflito. Pelo menos isso não transparece nos relatórios diplomáticos britânicos. Claramente tinha um enorme receio do comunismo, o que explica a firme posição a favor dos nacionalistas durante a Guerra Civil espanhola. E continuou a inquietar-se com a ameaça soviética, sem se sentir especialmente tranquilo em relação à natureza do regime na Alemanha, que iria enfrentar Estaline a partir de 1941. Nada poderá abalar a minha convicção de que Salazar tinha uma visão do interesse nacional português que exigia que Portugal se mantivesse o mais longe possível deste conflito, preservando algum tipo de liberdade de acção, sem se tornar uma espécie de criatura de uma ou outra das potências beligerantes. Julgo que os britânicos lhe deram liberdade de manobra, mais do que qualquer outra grande potência teria dado, e isso resultou num certo alinhamento, embora ele percebesse que, numa luta de morte, os britânicos podiam ser muito agressivos e exigentes. 
E isso exigia que, por vezes, Portugal mostrasse também firmeza e batesse o pé aos britânicos? 
Sim, em diferentes momentos – após a tomada de Timor [por forças aliadas em dezembro de 1941] ou quando foi descoberto que muitos agentes britânicos operavam clandestinamente em Portugal – sentiu que tinha de reafirmar com firmeza os direitos portugueses. E os britânicos deram-lhe espaço para isso, o que o levou a inclinar-se cada vez mais para o lado britânico. As relações humanas são muito importantes e Salazar estabeleceu uma relação muito boa, por vezes tensa, mas ainda assim construtiva, com o embaixador britânico, Sir Ronald Campbell, que se afeiçoou ao país e continuou a visitar Portugal, e Salazar, mesmo depois de se reformar em 1945. A situação complicou-se quando os americanos entraram no teatro da guerra na Europa Ocidental. E a relação relativamente tranquila que Salazar manteve, na maior parte do tempo, com os britânicos não se repetiu com os americanos. 
No pós-guerra, o mundo foi dividido em dois grandes blocos, o Ocidental, liderado pelos Estados Unidos, e o de Leste, liderado pela União Soviética. Como referiu, Salazar temia o comunismo, mas ao mesmo tempo desconfiava da América e dos valores americanos, que considerava ‘bárbaros’. O salazarismo foi uma espécie de ‘Terceira Via’ nessas décadas de confronto ideológico? 
Em 1945 Salazar debate-se com um dilema. Tinha dificuldade em saber para onde virar-se e que tipo de acordo a longo prazo deveria fazer com as potências vitoriosas. Ele via-se como um político ocidental conservador que não podia realmente permitir uma democracia representativa plena face à forma como esta havia sido mal conduzida em Portugal. Era aceite como um estadista, talvez um tanto idiossincrático, pelas outras grandes nações democráticas, como ficou demonstrado quando Portugal recebeu um convite para ser membro fundador da NATO em 1949. A emergência da NATO é um dos poucos sinais de uma resposta ocidental intencional aos novos perigos que surgiram no mundo após a derrota de Hitler. As Nações Unidas, que eram um organismo mundial algo idealista e desorganizado, tornaram-se relativamente rápido uma espécie de arena para fomentar a demagogia, especialmente por parte dos novos países que surgiam no cenário. E os intelectuais que tentavam definir o Ocidente, pessoas como Arnold Toynbee ou Raymond Aron, estavam na verdade confusos sobre o tipo de viagem em que se encontravam e qual seria o destino. Não devemos esquecer que esta foi uma época de experimentação e de turbulência política: os maiores partidos em França e em Itália eram os partidos comunistas, e na década de 50 não era ainda evidente o potencial da ideia de integração europeia. Portanto, a atitude de Salazar era de extrema cautela, talvez de desilusão e até pessimismo quanto ao rumo que o mundo estava a tomar e como Portugal poderia manter a sua independência e identidade durante esta tempestade. Tinha bons motivos para se sentir impaciente e até desdenhoso em relação à liderança americana. Achava extremamente ingénua a obsessão de retirar à Europa Ocidental o controlo direto de partes de África, do Médio Oriente e da Ásia, até porque não havia qualquer plano a longo prazo. E ficou mais triste do que irritado quando os decisores britânicos se renderam praticamente à visão do mundo americana e abandonaram as suas colónias africanas a toda a velocidade. O Ocidente estava numa certa desordem, mesmo após a vitória daquilo a que poderíamos chamar o lado decente no conflito mundial. E Salazar não ia inovar, não ia alterar substancialmente o seu regime. Os riscos de uma experiência democrática num mundo tão volátil eram simplesmente demasiado grandes, e ele tinha uma visão fatalista do futuro. Cabia-lhe seguir em frente e concluir a sua missão, esperando que outros dessem continuidade ao seu trabalho. 
Em Portugal e o Ocidente refere o crescimento económico acelerado de Angola e Moçambique na década de 60 e o carácter singular do colonialismo português, onde o racismo não era tão manifesto como noutras partes da África ocupada. Devemos inferir que, na realidade, a situação nas colónias era menos sombria do que a visão predominante sugere? 
Era paradoxal que um país tão subdesenvolvido como Portugal tivesse um império tão vasto na década de 1930. Se analisarmos os indicadores sociais de Portugal [metrópole], em muitos aspetos eram típicos de um país do terceiro mundo: mortalidade infantil muito elevada, analfabetismo generalizado, baixa produtividade e recursos escassos; politicamente, o país estava dividido. Portanto, inevitavelmente, haveria condições difíceis em Portugal. E talvez não seja assim tão surpreendente que estas mesmas condições difíceis se estendessem a Angola e Moçambique. As condições melhoraram, definitivamente, a partir da década de 1950, e os africanos foram libertados de uma posição de exploração e até de subordinação a partir do início da década de 1960. Se as relações de Portugal com a sua população não branca tivesse sido marcada por más condições, exploração e crueldade, especialmente durante os anos da guerra colonial, penso que teria havido muito mais agitação entre os africanos e teria sido muito difícil manter a lealdade do grande número de soldados negros que serviam no exército português. Tanto quanto sei, houve muito poucos motins, se é que houve algum. Foram os oficiais subalternos brancos que se revoltaram, não os soldados negros. Portanto, penso que foi uma tragédia que o império tenha terminado da forma como terminou. 
Podia ter sido diferente? 
Criou-se um vazio desastroso, seguido de grande violência, destruição e perda de vidas. Considero este um dos episódios mais negros de toda a história imperial, embora depois tenha sido disfarçado de marcha para o progresso, o que, como sabemos, não foi. Olhe para Moçambique. Ocupa a última posição do Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas. É um país muito pobre. Creio que há argumentos para defender que os portugueses teriam feito bem em não ceder à pressão americana e retirar tão rapidamente. Se a Guerra Fria tivesse evoluído de outra forma e os soviéticos se tivessem concentrado menos em África como porta de entrada para subverter e enfraquecer o Ocidente, acredito que Portugal teria ultrapassado o desafio militar das forças de guerrilha, que, na realidade, eram apoiadas sobretudo por inimigos do Ocidente – primeiro os soviéticos e depois a China.  
E Cuba… 
Foi o rumo dos acontecimentos geopolíticos que fez com que Portugal travasse uma batalha perdida para manter o Ultramar e se consolidar como uma grande potência euro-africana. E destacaria o papel dos media ocidentais, particularmente os britânicos, em denegrir a reputação portuguesa, exagerando ao máximo quaisquer aspetos negativos do domínio português. 
Acha que a forma como os decisores políticos decidiram abandonar as antigas colónias foi irresponsável? 
O caminho a fazer era a descolonização, mas deveria ter sido feita de uma forma muito mais gradual e planeada, em vez de se fazer em pânico e sem uma reflexão séria. Penso que se essas condições se tivessem verificado, a instabilidade e as guerras que paralisaram diferentes partes de África nas décadas de 60, 70, 80 e 90 teriam sido menos intensas, e o continente teria crescido e conseguido proporcionar uma vida digna a muitos dos seus habitantes muito mais cedo do que aconteceu. 
Chama à revolução de abril de 74 «uma exibição superficial e saloia de radicalismo teatral». Estava a pensar em Otelo Saraiva de Carvalho, que aparece na capa do seu livro com Fidel Castro? 
Otelo de certo modo simboliza o elemento extravagante de todo o drama revolucionário. Era muito inconsistente. Não é uma coincidência que tivesse vindo do mundo do teatro e que tenha desempenhado uma espécie de papel teatral ao lado de Spínola na Guiné-Bissau, trabalhando no departamento de propaganda e relações públicas. Via o mundo através de slogans, imagens e clichés, assim como muitos dos oficiais subalternos mais radicais. Tinham feito cursos de ciências sociais em universidades portuguesas e tido contacto com ideias então em voga da extrema-esquerda. Note-se que foram praticamente as únicas pessoas na Europa Ocidental, entre 1945 e o fim da Guerra Fria, que tiveram a oportunidade de implementar estas ideias. Era uma espécie de anarquia burlesca misturada com ocasionais momentos de tragédia – em África, só houve tragédias, mas em Portugal também houve muitas vítimas. A economia esteve de rastos durante pelo menos uma década… Suponho que a minha linguagem é bastante incisiva e desdenhosa. Acabamos de sair de quase dois anos de endeusamento destas pessoas, os Capitães de Abril [nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril] e a meu ver, foi tudo hiperbolizado. Houve pouca investigação séria sobre quem ganhou, quem perdeu, como Portugal beneficiou, o que motivou as pessoas a comportarem-se como se comportaram. A classe média – pessoas nas universidades, em alguns ministérios, na sua profissão, nos media – tem um grande interesse em caracterizar a revolução como um episódio de heroísmo romântico, ignorando os seus aspetos desastrosos. Para os ‘chefes de claque’ da revolução, é vital que esta imagem folclórica do evento seja mantida viva a todo o custo, mesmo que uma análise mais atenta mostre quão desfasada está da realidade. 
Tem noção de até que ponto este juízo é provocatório? 
Mas qual é o mal de ser provocatório de vez em quando? Uma das razões pelas quais, ouso dizer, o mundo intelectual português está tão estagnado é a provocação ser cuidadosamente peneirada pelos guardiões que decidem o que é aprovado e o que não é. Alguém comentava comigo outro dia, quando foi a última vez que houve um debate realmente empolgante e aberto sobre algum tema importante nas universidades portuguesas? Na verdade, poderia fazer a mesma pergunta em relação à Grã-Bretanha, mas agora é sobre Portugal que estamos a falar. Parece-me que um dos maiores perigos para o Ocidente é o crescimento da importância do mundo académico em todos os sentidos: para o emprego, para a validação de opiniões, para a determinação das normas da cultura e dos media. É claro há bastante tempo que há um grupo significativo nas ciências sociais e humanas que é ou insensível ou hostil ao Ocidente.  
Pode dar exemplos? 
Poderia referir vários teóricos muito influentes e em voga, como Michel Foucault, que incentivava a necessidade de contestar e resistir ao poder, ou Edward Said, o especialista em literatura cultural que pôs em causa a erudição ocidental em relação ao Médio Oriente. Tudo isso tem ganho novas proporções e as universidades estão a tornar-se cada vez mais um campo de batalha onde pessoas hostis ao Ocidente acreditam que novos paradigmas devem afastar-se do individualismo ocidental em direcção a conceitos de grupo, como promover e defender os interesses de diversas minorias, promover a ideia da importância do Terceiro Mundo na formação da humanidade e usar estas noções como uma espécie de arma de arremesso para derrubar os valores em que o Ocidente assenta. Tendo Portugal passado por uma revolução que muitas pessoas que estão vivas presenciaram, e tendo as universidades – não todas, mas muitas – sido dominadas por este tipo de contracultura, não é de estranhar que a ênfase esteja basicamente em reafirmar ideias progressistas em vez de as colocar lado a lado com visões mais tradicionais da história. Por isso, tenho pouca esperança de que o meu livro seja bem recebido nas universidades. 
Embora você também venha do mundo académico… 
Sim. Mas sempre fui uma espécie de cético no meio. Desconfiava bastante de certas tendências e modas. Achava que tudo devia de ser analisado e debatido em função do seu valor e não aprovado por decreto só porque ideologicamente era conveniente. Devo dizer que tive a liberdade de o fazer ao longo da minha carreira, mas duvido que tivesse essa liberdade agora se ainda ocupasse um lugar de professor a tempo inteiro na universidade. E isso é muito parecido com o que se passa grande parte do mundo ocidental atualmente. Receio que o tipo de atitude dogmática e muitas vezes intolerante que é permitida nas universidades possa ter um impacto catastrófico na história do Ocidente, mesmo durante as nossas vidas, certamente a sua, talvez não a minha.  
Regressando à história recente de Portugal, a adesão à Comunidade Económica Europeia, que é hoje a União Europeia, em 1986, implicou, obviamente, uma perda de soberania em várias questões. Muitas decisões que antes eram tomadas em Lisboa emanam agora de Bruxelas. Por outro lado, não acha que a União Europeia possa ser o garante de certos valores de democracia, liberdade e defesa dos direitos humanos, que são tipicamente valores ocidentais? E não são estes valores que a União Europeia está a tentar preservar, por exemplo, ao apoiar a Ucrânia contra a agressão russa?  
Eu também apoio a Ucrânia contra a agressão russa. Ainda assim, penso que o apoio da UE é, de certa forma, curioso. Penso que é feito principalmente por razões económicas, não por razões políticas profundas. Penso que a UE está cada vez mais preocupada em regular a liberdade de expressão, em microgerir o comportamento político, garantindo que apenas um número limitado de opiniões é tido em conta. Penso que ela falhou flagrantemente na promoção de uma identidade europeia atraente e que os seus principais apoiantes estão lá por razões pragmáticas e oportunistas, razões económicas, não por algo profundo ou espiritual. O patriotismo europeu é tão inexistente agora como era quando começou a integração. Em relação a Portugal, julgo que a visão predominante na burocracia, e isto já acontecia durante o Estado Novo, é basicamente obter um abrigo confortável, não precisar de trabalhar arduamente ou tomar decisões difíceis, mas apenas gerir as coisas. E se essas responsabilidades irritantes puderem ser delegadas noutros, melhor ainda. Penso que existe uma grande preferência entre a classe política portuguesa por ser administrada por um guardião paternalista que não seja demasiado exigente ou inconveniente, e que ofereça recompensas económicas pela obediência. Não há grandes laços espirituais entre Portugal, que está na UE há mais de 40 anos, e estas instituições, que são em si bastante estéreis. E, cada vez mais, o que a UE faz é para servir os interesses de um grupo restrito. E os europeus em geral sabem disso, o que ajuda a explicar que o apoio aos partidos eurocépticos tenha crescido rapidamente. 
Assistimos recentemente à passagem de aviões de guerra norte-americanos pela base das Lajes, nos Açores. Portugal não foi sequer consultado, mas também não teria meios para se opor à vontade de uma superpotência como os EUA. Qual poderá ser o papel de um país pequeno, periférico e relativamente pobre neste mundo cada vez mais dominado pela força bruta e pelo poder do dinheiro? 
Os decisores portugueses não estão, de uma forma geral, dispostos a tomar uma posição firme em fóruns internacionais ou em encontros bilaterais com países como os Estados Unidos. Creio que isso só aconteceu durante um curto período de tempo sob o governo de Salazar, entre o final da década de 30 e meados da década de 60. Os decisores políticos em Portugal não se comportam, infelizmente, como se estivessem a governar um Estado-nação. Estão muito sintonizados com a ideia de seguir as linhas ditadas por algumas grandes potências e grandes burocracias globais. Não quero entrar na discussão sobre o conflito entre os Estados Unidos e o Irão, porque o cenário é muito nebuloso e incerto. Talvez a questão que expôs a desigualdade de poder e a forma grosseira como as grandes potências tratam os países mais pequenos tenha sido a exigência de Trump para que a Dinamarca lhe cedesse o controlo da Gronelândia. E aí a Dinamarca respondeu de forma muito semelhante à de Salazar na Segunda Guerra Mundial, quando Roosevelt tentou transformar os Açores numa espécie de Gibraltar no meio do Atlântico. Não estou certo de que a classe política portuguesa de hoje se comportaria como os dinamarqueses se comportaram ou como Salazar se comportou naquela época. 
Publicou a sua primeira obra, Portugal, uma interpretação do século XX, há mais de 40 anos, e a biografia de Salazar em 2021. Sente que Portugal mudou muito, ou pouco, ao longo destas quatro décadas? 
Penso que a população se tornou mais bem informada, o nível de educação é mais alto, embora possamos questionar-nos sobre a profundidade e a utilidade desta educação. As pessoas estão mais autoconfiantes e menos fatalistas. No mundo económico, existem exemplos de adaptação e inovação. Infelizmente, vê-se menos sinais de progresso no que diz respeito à burocracia. A burocracia cresceu enormemente desde que Portugal aderiu à União Europeia. E prevalece uma mentalidade que não é propícia à boa governação. Pessoas com diferentes experiências na Função Pública concordam, na maior parte das vezes, se dissermos que o Estado português está debilitado, incapacitado em aspetos cruciais. De um modo geral, a população está mal servida pelo mundo político – existem redes de poder, ineficiência, clientelismo, corrupção. 
Faz lembrar o que Eça de Queiroz disse sobre a classe política no final do século XIX [«É assim que há muito tempo em Portugal são regidos os destinos políticos. Política do acaso, política superficial, política de expediente. País governado por vaidades e por interesses, por especulação e patronato, por privilégio e influência da camarilha, é possível que possa conservar a sua independência?»]. As coisas parecem não parece ter mudado assim tanto desde então. 
É isso mesmo. Receio que, de certa forma, as coisas possam ter piorado desde o livro que escrevi em 1983, porque aqueles cujo comportamento é pouco exemplar, aqueles que estão em posições de poder, tornaram-se mais ousados e autoconfiantes. E vimos isso com o julgamento de José Sócrates, que, tanto quanto sei, já dura há mais de uma década.  


fonte:

https://sol.iol.pt/cultura/noticias/tom-gallagher-a-arrogancia-dos-decisores-liberais-esta-a-criar-um-clima-de-raiva-e-de-revolta/20260630/6a4369f90cf27f6588a6d8b7
​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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