O regresso à Ratio
José Manuel Quintas
O Regresso à Ratio: Francisco de Vitória e Leão XIV
Num tempo em que o debate público se consome na superfície dos algoritmos e na vertigem do tecnicismo, o recente discurso do Papa Leão XIV nas Cortes espanholas surge como um sobressalto intelectual. Não apenas pela clareza da sua análise, mas pela coragem de ancorar o presente num passado que muitos julgam, erroneamente, superado. Ao evocar a Escola de Salamanca — essa "escola irmã" da nossa Coimbra — e ao trazer à liça a figura de Francisco de Vitória, o Pontífice não proferiu apenas uma conferência; convocou uma Tradição.
O olhar atónito da audiência presente não foi, decerto, fruto de desconhecimento, mas de estranheza perante a vivacidade de ideias que pensávamos confinadas aos manuais de história do Direito. No entanto, é precisamente aí que reside a atualidade de Leão XIV. Tal como o seu antecessor homónimo, Leão XIII, que soube redigir a Rerum Novarum como uma resposta cristã à desumanização da Revolução Industrial, o atual Papa entende que os desafios da era digital e da Inteligência Artificial não são, na sua essência, problemas de engenharia, mas crises antropológicas.
Ao recuperar Francisco de Vitória, Leão XIV sublinha uma verdade incómoda para a tecnocracia moderna: o poder, seja ele político ou tecnológico, encontra o seu limite intransponível na dignidade intrínseca da pessoa humana. Ao questionar a legitimidade do poder imperial no século XVI, Vitória estabeleceu as bases do Direito das Gentes, defendendo que existe uma ética universal anterior a qualquer conveniência de Estado.
Este "retorno às fontes" da Escolástica Hispânica não é, portanto, um exercício de nostalgia; é uma estratégia de resistência. Num mundo cada vez mais fragmentado por ideologias que rejeitam a natureza humana, o Papa propõe o realismo tomista como bússola. Recorda-nos que, para enfrentar as tempestades da modernidade, não precisamos de inventar uma ética nova, mas de redescobrir, com a mesma audácia intelectual de Salamanca, as verdades que sustentam a própria ideia de civilização.
Leão XIV não se dirige apenas aos crentes; interpela o Direito Internacional e os centros de decisão globais. Resta saber se, entre o ruído da política de curto prazo, o mundo terá a humildade de escutar esta voz que, vinda do fundo dos séculos, nos aponta o único caminho para evitar a desumanização: o regresso à razão que serve o homem, e não ao homem que serve a técnica.
9 de Junho de 2026
https://www.youtube.com/live/jBM0_O4vprU?si=ci-veM9QBLdrNN0B - O discurso do Papa Leão XIV tem início no minuto 19.
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