António Sardinha e o Brasil
José Manuel Quintas
Em Memória de Meu Pai,
Manuel Rosa Quintas
TESE. O Brasil desempenha na obra de António Sardinha uma função progressivamente constitutiva. Começa por servir de prova histórica da fecundidade da Monarquia, da Igreja e da expansão portuguesa; torna-se depois interlocutor político, levando Sardinha a reformular a relação de Portugal com Espanha; e converte-se, por fim, em critério de distinção entre hispanismo e lusitanidade no destino posterior do Integralismo Lusitano. A omissão de «Mare nostrum», o capítulo dedicado ao Brasil, na edição castelhana de 1939 de A Aliança Peninsular constitui o sinal material dessa deslocação. Reconstruída cronologicamente, esta evolução mostra que o Brasil não foi, para Sardinha, um tema lateral ou sentimental, mas o ponto de articulação entre revisão histórica, política atlântica e doutrina peninsular — e, em última análise, a condição que impedia o hispanismo de se confundir com Espanha.
RESUMO. Este estudo reconstrói, em ordem cronológica, a presença do Brasil na obra de António Sardinha entre 1913 e 1925, com os textos póstumos de 1927-1928, mostrando que o tema não surge tardiamente nem como simples motivo retórico, mas como eixo progressivamente decisivo da sua revisão histórica, da sua política atlântica e da sua doutrina hispânica. A análise parte da reabilitação de D. João VI por Oliveira Lima, passa pela leitura da retirada de 1807 como acto de salvação nacional, acompanha a formulação da aliança com o Brasil e culmina na integração do Brasil no conceito de Hispanismo do autor. O ensaio póstumo «O Brasil e o Hispanismo» (1927-28) confirma o desenho: escrito no Outono de 1924 para Gilberto Freyre, é a teoria do hispanismo que Sardinha dá por pressuposta ao Brasil, e não a demonstração do lugar do Brasil, que ficara em «Mare nostrum»; e a presença de René Guénon, lido no Orient et Occident do mesmo ano e citado apenas nesse texto, revela a arquitectura: a América hispânica, com o Brasil, no lugar que Guénon dava ao Oriente como reservatório de tradição para um Ocidente decadente.
O argumento central é duplo. Por um lado, Sardinha encontra no Brasil a contraprova das leituras liberais e republicanas que diminuíam a Monarquia, os Jesuítas e a expansão portuguesa: o Brasil confirma, para ele, a fecundidade histórica da Igreja e da Realeza. Por outro lado, a partir do exílio espanhol, o Brasil deixa de ser apenas prova histórica e torna-se interlocutor político: é por causa dele, e depois em direcção a ele, que Sardinha reformula a relação com Espanha, substituindo o antigo anti-iberismo por uma concepção de Hispanismo assente na unidade espiritual e na pluralidade das soberanias.
O estudo mostra ainda as principais deslocações do pensamento de Sardinha: a passagem de «América Latina» para «América Hispânica»; a inversão sucessiva da triangulação Portugal-Espanha-Brasil; a oscilação entre a explicação da queda do Império brasileiro pela «desproporção» apontada por Eduardo Prado e pela «intriga yankee»; e a diferença entre a prosa, onde o Brasil é construção doutrinal, e a poesia, onde o tema quase desaparece.
Conclui-se que o Brasil de Sardinha foi menos uma imagem sentimental do que uma conquista intelectual, formada pelo diálogo com historiadores e interlocutores brasileiros. A segunda parte do estudo confronta esse Brasil com o dos mestres do Integralismo que lhe sobreviveram — Afonso Lopes Vieira em 1924, Hipólito Raposo na «Lusitanidade» de 1933, Luís de Almeida Braga em 1951 — para apurar o que o movimento conservou da doutrina brasileira de Sardinha e o que dela deixou cair: conservou a Lusitanidade, a palavra e a coisa; e, perante a «Hispanidad» que Ramiro de Maeztu lançou em 1931, defendeu o lugar próprio do lusitanismo dentro do hispanismo — a «lusitanidad» que Raposo propôs a Maeztu em 1932 — antes de o recolher, quando a «Hispanidad» se fez espanhola, na «Lusitanidade» de 1933. A prova material desta deslocação está na edição castelhana de A Aliança Peninsular de 1939, que omitiu «Mare nostrum», o capítulo em que Sardinha fixara o lugar do Brasil no hispanismo. A poesia completa de Afonso Lopes Vieira, percorrida como a de Sardinha, confirma a partilha de registos: o Brasil não entra no verso de nenhum dos dois; e o ultramar que o verso tardio de Afonso Lopes Vieira admite, depois de Angola, é África.
RESUMO. Este estudo reconstrói, em ordem cronológica, a presença do Brasil na obra de António Sardinha entre 1913 e 1925, com os textos póstumos de 1927-1928, mostrando que o tema não surge tardiamente nem como simples motivo retórico, mas como eixo progressivamente decisivo da sua revisão histórica, da sua política atlântica e da sua doutrina hispânica. A análise parte da reabilitação de D. João VI por Oliveira Lima, passa pela leitura da retirada de 1807 como acto de salvação nacional, acompanha a formulação da aliança com o Brasil e culmina na integração do Brasil no conceito de Hispanismo do autor. O ensaio póstumo «O Brasil e o Hispanismo» (1927-28) confirma o desenho: escrito no Outono de 1924 para Gilberto Freyre, é a teoria do hispanismo que Sardinha dá por pressuposta ao Brasil, e não a demonstração do lugar do Brasil, que ficara em «Mare nostrum»; e a presença de René Guénon, lido no Orient et Occident do mesmo ano e citado apenas nesse texto, revela a arquitectura: a América hispânica, com o Brasil, no lugar que Guénon dava ao Oriente como reservatório de tradição para um Ocidente decadente.
O argumento central é duplo. Por um lado, Sardinha encontra no Brasil a contraprova das leituras liberais e republicanas que diminuíam a Monarquia, os Jesuítas e a expansão portuguesa: o Brasil confirma, para ele, a fecundidade histórica da Igreja e da Realeza. Por outro lado, a partir do exílio espanhol, o Brasil deixa de ser apenas prova histórica e torna-se interlocutor político: é por causa dele, e depois em direcção a ele, que Sardinha reformula a relação com Espanha, substituindo o antigo anti-iberismo por uma concepção de Hispanismo assente na unidade espiritual e na pluralidade das soberanias.
O estudo mostra ainda as principais deslocações do pensamento de Sardinha: a passagem de «América Latina» para «América Hispânica»; a inversão sucessiva da triangulação Portugal-Espanha-Brasil; a oscilação entre a explicação da queda do Império brasileiro pela «desproporção» apontada por Eduardo Prado e pela «intriga yankee»; e a diferença entre a prosa, onde o Brasil é construção doutrinal, e a poesia, onde o tema quase desaparece.
Conclui-se que o Brasil de Sardinha foi menos uma imagem sentimental do que uma conquista intelectual, formada pelo diálogo com historiadores e interlocutores brasileiros. A segunda parte do estudo confronta esse Brasil com o dos mestres do Integralismo que lhe sobreviveram — Afonso Lopes Vieira em 1924, Hipólito Raposo na «Lusitanidade» de 1933, Luís de Almeida Braga em 1951 — para apurar o que o movimento conservou da doutrina brasileira de Sardinha e o que dela deixou cair: conservou a Lusitanidade, a palavra e a coisa; e, perante a «Hispanidad» que Ramiro de Maeztu lançou em 1931, defendeu o lugar próprio do lusitanismo dentro do hispanismo — a «lusitanidad» que Raposo propôs a Maeztu em 1932 — antes de o recolher, quando a «Hispanidad» se fez espanhola, na «Lusitanidade» de 1933. A prova material desta deslocação está na edição castelhana de A Aliança Peninsular de 1939, que omitiu «Mare nostrum», o capítulo em que Sardinha fixara o lugar do Brasil no hispanismo. A poesia completa de Afonso Lopes Vieira, percorrida como a de Sardinha, confirma a partilha de registos: o Brasil não entra no verso de nenhum dos dois; e o ultramar que o verso tardio de Afonso Lopes Vieira admite, depois de Angola, é África.
- Hemeroteca Digital Brasileira, Biblioteca Nacional: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=158089 (pastas por ano e edição; n.º 14, Fevereiro de 1923; n.º 24, Dezembro de 1923; n.º 26, Fevereiro de 1924; nº 27, Março de 1924; n.º 28, Abril de 1924).
america_brasileira_-_per158089_1923_00014.pdf - O GENIO PENINSULAR, por António Sardinha (texto em estudosportugueses.com)
america_brasileira_-_per158089_1923_00024.pdf - O NACIONALISMO BRASILEIRO E O INTEGRALISMO PORTUGUEZ (ass. A Nação Portuguesa)
america_brasileira_-_per158089_1924_00026.pdf - SIGNIFICADO DO "AMADIS" por Antônio Sardinha, p. 42 ( texto em estudosportugueses.com)
america_brasileira_-_per158089_1924_00027.pdf - SIGNIFICADO DO "AMADIS - II" por Antônio Sardinha, p. 73
america_brasileira_-_per158089_1924_00028.pdf A LIÇÃO DO BRASIL, por António Sardinha, p. 106 (em estudosportugueses.com)
america_brasileira_-_antónio_sardinha_-_as_doutrinas_de_spengler_-_per158089_1924_00031.pdf - Acerca de uma conferência de António Sardinha - "As Doutrinas de Spengler", proferida em Madrid.
america_brasileira_-_afonso_lopes_vieira_-_per158089_1924_35-35-00036.pdf "PREFACIO INÉDITO DA "DIANA", DE JORGE DE MONTEMÓR RESSURGIDA EM PORTUGUÊS"