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        • II. O caráter orgânico e democrático da monarquia medieval portuguesa
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        • IV. A origem das Cortes e a representação dos Concelhos
        • V. O caráter consultivo das Cortes e a soberania Real
        • VI. O pacto fundamental e a legitimidade da Monarquia
        • VII. Reflexões sobre o Estado, a Nação e o Pacto na Tradição Política Portuguesa
        • VIII. O Absolutismo, o Pombalismo e a Reação Tradicionalista
        • IX. A Legitimidade Dinástica e Institucional na História Portuguesa
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A Festa do Trabalho

António Sardinha

Acerca da festa do Corpo-de-Deus em Portugal, destacando o papel das corporações de artes e ofícios na valorização do trabalho e na construção da identidade nacional. Critica a industrialização e o avanço do capitalismo, apontando para a perda de valores tradicionais e para a precarização do trabalhador, comparando a situação contemporânea à decadência da Roma antiga. Defende a restauração do regime corporativo, inspirado nos modelos medievais e nos princípios cristãos, como solução para recuperar a dignidade do trabalho, garantir justiça social e evitar os excessos do individualismo económico e da secularização da festa do trabalho, que perdeu o seu sentido religioso e comunitário. Conclui que apenas a monarquia cristã e associativa pode assegurar a paz social e proteger os desfavorecidos, propondo um regresso aos valores tradicionais como caminho para enfrentar os desafios da modernidade.

A FESTA DO TRABALHO ​
A festa do Corpo-de-Deus é a festa do Sacramento, é a festa do Cristo-Mediador presente na hóstia «para dar Deus ao homem e o homem a Deus». Instituída por Urbano IV, depois das súplicas de São Tomás e depois das visões de Santa Juliana, ela entrou na tradição portuguesa, tornando-se uma festa nacional, com a assistência dos maiores privilégios e do mais raro luzimento. Ninguém se esqueceu ainda de São Jorge no aparato do seu séquito militar, com o seu estado brilhante de cavalos, arrastando xairéis preciosos. Atapetavam-se as ruas de espadana e junco. E enquanto das janelas desciam as colgaduras familiares, a procissão ondeava numa fita refulgente de armas reluzindo entre o matiz movimentado dos mais ricos brocados.

É uma data que a nossa saudade evoca sempre comovidamente. E se eu olho para trás, neste momento, lá vejo, na torreada vila em que nasci, o cortejo seguindo vagaroso e solene com a «Senhora Câmara», acompanhando-o de pendão desfraldado, e o sino do concelho tocando açodado o seu repique glorioso.

Ora, na festa de Corpo-de-Deus um dos detalhes que mais a nobilitava era a participação das Corporações de artes-e-ofícios, com as suas bandeiras vistosas, ostentando a imagem dos seus santos patronos.

No «Monge de Cister» deu-nos Alexandre Herculano um capítulo com a pintura nem sempre animada de uma procissão de Corpo de Deus em Lisboa no século XIV. O leitor que a rememorar fará por si a ideia do que havia de típico e de original nos nossos costumes religiosos e como a Idade Média, com as suas figurações teatrais e os seus símbolos falantes, tomava expressão vigorosa no brio com que cada um dos nossos grémios profissionais timbrava sempre em se apresentar na procissão. Desde o gigante Golias ao dragão infernal, passando pelo Rei David e pelas danças mouriscas, os mesteres lisboetas associavam aos cânticos solenes da Igreja a alegria rumorosa do povo abrindo ala, entre reverente e galhofeiro, à margem do cortejo imponente.
A intervenção das associações mecânicas na festa do Corpo de Deus traduz-se assim como uma santificação do trabalho remunerado e humilde. É bom que o recordemos numa hora em que, pela industrialização crescente da sociedade, a sorte do proletário se agrava, empurrado pelas nossas próprias mãos para a loucura final de um sovietismo talvez bem pior que o da Rússia. Com um acento trágico de profeta, já no prefácio da sua História da República Romana Oliveira Martins o palpitava, ansiosamente.

«Vinte séculos antes do nosso tempo – escreve ele –, a situação era idêntica: via-se uma sociedade dotada de instituições democráticas e representativas sem poder encontrar uma fórmula de ordem económica. Sabemos que pelo facto de não a achar, a república romana se perdeu, dando de si o tipo híbrido do Império: não haverá acaso outra solução a esperar no tempo presente?»

Aqui se desenham fortemente as razões de natureza prática que trouxeram Oliveira Martins aos limiares da monarquia orgânica. As suas apreensões encontrariam mais tarde definição acabada naquelas palavras de Michel Darguenat, antigo socialista revolucionário, ao declarar a Georges Valois que o sindicalismo só pode concluir na Anarquia ou na Monarquia. A experiência da Rússia, com a sua tentativa de remodelação social, elucida-nos claramente que nada se constrói fora dos moldes tradicionais da sociedade. Falido num crepúsculo de orgia e de sangue esse apelo a um mundo melhor e mais remoçado, nós reconhecemos também que, tendo a democracia aberto a questão do trabalho, de dia para dia a compromete e carrega com os seus desvarios já sem perdão.

Quem diz democracia – entende-se –, diz, de um lado, «capitalismo», diz, do outro, «parlamentarismo». Nós chegamos exatamente a um ponto da nossa curva histórica em que ser-se tradicionalista é ser-se simultaneamente radical. O nosso radicalismo, porém, é de índole renovadora; e em vez de recorrer aos meios violentos de expropriação e de guerra, socorre-se dos claros ditames da Igreja e da lição herdada do nosso passado católico e monárquico. De modo nenhum toleramos a mais pequena cumplicidade na febre de especulação que ameaça devorar-nos, roubando-nos todos os estímulos e compensações morais, só pelo desejo insofrido de um ganho que não é honesto, de um ganho que é preciso denunciar como inimigo do mundo, do trabalho e da sociedade.

Já os espíritos menos suspeitos se começam a alarmar com esta «americanização» da vida, que outra coisa não é senão a sua «paganização» completa.

É um testemunho impressionante o que Guglielmo Ferrero nos oferece. Guglielmo Ferrero não é de maneira alguma um dos nossos. No entanto, temperamento educado de historiador, exatamente o seu conhecimento da história de Roma, o leva a conclusões quase análogas às de Oliveira Martins. A história de Roma ainda é o grande exemplo para se meditar. O socialismo não é de hoje, como não é de hoje o imperialismo, nascido de motivos económicos. Roma conheceu-os. Mas a noção que possuía do trabalho empurrou-a tresloucadamente para o suicídio mais degradante. «Todos os que vivem de um trabalho mercenário – declamava Cícero – exercem um mister degradante; numa oficina não pode nunca nascer um sentimento nobre.» Por seu lado, Aristóteles ensinava que o verdadeiro privilégio do homem livre não é a liberdade, mas a ociosidade. A ociosidade implicava o aproveitamento do trabalho de outro. Daí a escravatura, instituição que Aristóteles reputa de justa e necessária.

Pelo predomínio desaforado da plutocracia nós assistimos ao desenvolvimento de uma como que nova escravidão. Não é a escravidão do homem ao homem, mas a escravidão do homem à máquina. Eis a característica e ao mesmo tempo o cancro mortal do período trágico que atravessamos. Abandonado ao pior individualismo económico, o produtor é esmagado por uma concorrência a que não resiste e que lhe rouba por inteiro a dignidade do trabalho.

O trabalho volta a ser um fardo sem grandeza nem outro sentido que não seja o de uma grilheta de que é urgente libertar-nos. A libertação vem, mas vem em ondas de sangue e vinho, como na Rússia-Nova, na santa Rússia redimida. É este o crime da democracia. Já com a escravatura o fora na sociedade antiga. Baseada no mesmo critério pagão da existência, põe na satisfação dos nossos apetites o fim único e imediato da vida. O resultado apalpa-se nitidamente. Há ruídos de festa, retinem as taças, soluçam os violinos. Projetando no escuro a ameaça misteriosa daquele festim da Bíblia, a multidão apressa-se a exigir a sua parte no banquete. Teremos nós de subir à guilhotina, incapazes de defender ao menos a beleza da civilização de que somos herdeiros?

Na presença de um futuro assim carregado, é que Guglielmo Ferrero preconiza o regresso às regras económicas da Idade Média, com o seu intérprete em São Tomás. De acordo, inteiramente de acordo. Mas para que o regresso se verifique, é imperioso que nos acolhamos também à sombra das instituições que lhe darão estabilidade. Poderemos nós com a restrição do luxo, a condenação da usura, a venda das coisas pelo seu justo preço, a ressurreição da enfiteuse, melhorarmos um momento a gravidade da crise? Se essas medidas, porém, não corresponderem ao estado-social definido, só por elas a sua ação há-de-ser exígua, se não for destinada ao mais absoluto dos insucessos. Nós caminhamos sobre um incendio latente. Impõe-se-nos uma remodelação total da sociedade. E o dilema é este, sem equívocos e ilusionismos: Anarquia ou Monarquia.

Realmente, só a Monarquia, pela virtude do seu princípio cristão e associativo, esconjurará a ira dos deserdados e dos cobiçosos, avolumada no horizonte. Importa para isso destruir, até aos fundamentos, a obra da Revolução. Abolindo o sistema corporativo do trabalho e entregando-o depois ao materialismo financeiro dos burgueses de Julho, a democracia atirou-nos para a guerra atual, que é ainda ela o máximo negócio. Oiçamos a voz da Igreja, procurando a defesa dos pobres, a proteção dos proletários. É Leão XIII quem nos fala na sua imortal encíclica Rerum novarum: «O século último destruiu, sem as substituir, as corporações antigas que eram para os operários uma proteção. Os princípios e os sentimentos religiosos desaparecem das leis e das instituições públicas, e deste modo, pouco a pouco, os trabalhadores isolados e sem defesa viram-se com o tempo entregues à mercê de patrões desumanos e à cupidez de uma concorrência desenfreada.»

É na restauração do regime corporativo que reside a equação do problema. Só na corporação, no sindicato e na associação de classe, como quiserem, a garantia do trabalho se obterá no equilíbrio devido aos direitos dos patrões e dos operários. Solução francamente tradicionalista, nós conferimos por seu intermédio ao produtor a dignidade perdida da sua profissão. Foi assim que a Igreja, santificando o trabalho, desembaraçou a humanidade dos preconceitos transmitidos pela filosofia pagã. Nas confrarias da Idade Média nós achamos o tipo perfeito dos grémios profissionais de amanhã. São José carpinteiro, Jesus aprendendo o ofício na casinha modesta de Nazaré, os patronos que os mesteres iam pedir ao hagiológio, demonstravam-nos a essência cristã da organização moral e social do trabalho.

A essa organização nós fomos buscar os fundamentos de uma outra sociedade transformada segundo a razão eterna dos grandes princípios tradicionais. Sem sermos socialistas, nós admitimos que dentro do município e da associação um certo socialismo é possível pela unidade dos interesses e pela fraternidade dos vínculos profissionais. Nem de outra forma, senão com esta base técnica, a representação política traduzirá uma verdade e uma função. Vítima de uma culpa de nascença, a democracia está organicamente impossibilitada para o conseguir. Quando Fustel de Coulanges apontava à Realeza uma feição democrática, fazia-o, como historiador, aludindo às suas qualidades de coordenação e de equilíbrio, pelas quais a gente rumorosa das Comunas mediévicas entrou no jogo livre das nacionalidades. Já em Roma o Império, embora de alicerces falsos, pretendera acudir à mesma necessidade. As tendências construtivas do sindicalismo moderno comprovam-nos como Fustel via claro, ao reconhecer na Monarquia a única força capaz de realizar e garantir a paz social.

Também o nosso passado assim no-lo deixa entrever. A Casa dos Vinte-e-Quatro ficou célebre entre nós, com o seu Juiz-do-Povo, espécie de tribuno que falava ao Rei diretamente e era recebido em palácio com brandões acesos e honras de príncipe.

A história do município de Lisboa anda cheia do prestígio e da intervenção dos representantes dos ofícios. Por isso o senhor de Aubeville dizia para França no século XVII: «Et par malheur pour cet État, la voix du peuple est ici fort écoutée». Lembrava-se certamente de Saint-Romain, seu antecessor na embaixada, a quem o Juiz-do-Povo com quatro dos mesteres fora prevenir de «que se persistisse nas suas intrigas, não estava seguro de qualquer violência».

Com o advento da liberdade tudo se extinguiu, veio o cosmopolitismo, veio a mentira, veio a desordem. Nunca mais as corporações desfraldaram as suas bandeiras em dia de Corpo de Deus.
A festa do trabalho, secularizada, voltou com o sentido revolucionário do 1.º de Maio. A solidariedade humana deixava de ser venerada em Deus feito Homem, remindo-nos pelo sacrifício e unindo-nos pelo amor, para se obter pela impiedade sem nome do homem imaginando-se Deus. Os acontecimentos não tardaram a surgir, grossos de consequências. Não sei se é tempo ainda de ser utilizado, mas o remédio é só um – é este que preconizamos. O regime corporativo, universalmente aplicado, libertará a humanidade – afirma o Padre De Pascal –, mas a sua restauração não é possível se não repudiarmos os erros doutrinários que justificam o seu restabelecimento e se não repelirmos as injustiças sem número de um estado social que se decora com o título de civilização, quando não é, em resumo, mais do que um regresso à barbárie cultivada do velho paganismo.»
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Assim seja. E que de novo, em honra do Sacramento, símbolo da humanidade resgatada e congraçada, os pendões dos sindicatos se desfraldem, entre músicas guerreiras, com São Jorge montando fero o seu cavalo de Defensor do Reino! A festa do trabalho terá retomado o seu significado verdadeiro e nós repetiremos com o filósofo, gostosamente, que «o recompensamento do ganho deve ser dado aquele que é mesteiroso e o recompensamento de honra àquele que é muito nobre e excelente».
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In A Prol do Comum, 1934.

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​​...nós não levantaríamos nem o dedo mínimo, se salvar Portugal fosse salvar o conúbio apertado de plutocratas e arrivistas em que para nós se resumem, à luz da perfeita justiça, as "esquerdas" e as "direitas"!

​​- António Sardinha (1887-1925) - 
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